A bronca de neve
(Segurando a vontade de rir. Recupera a seriedade) Vim aqui hoje lançar meu novo livro “A bronca de neve” e acho bom todo mundo comprar. (Carregando a metralhadora) Gente, a vida é muito boa. É muito boa pra você quando você é muito boa pra ela também. Se a vida te der uma flor, dê um buquê. (Solta uma sonora gargalhada e volta ao normal)
Boa noite. Eu me chamo Jéssica da Silva, sou escritora, mulher, lá de Jacarepaguá e comigo não tem corpo mole, não. Eu falo pros meus filhos, que eu mesmo analfabeta, falava uns provérbios pra eles quando eram pequenos (Abre um livro) “Fica de preguiça, a vida toda enguiça”. Proust.
Antes de começar a falar sobre o meu novo livro, gostaria de esclarecer que eu não fui convidada para este evento. Eu cavei a minha entrada aqui, que comigo não tem essa de panelinha e indicação. (Apontando a metralhadora pro público) Porque o segredo é esse: fala com firmeza e joga pros astros. E abre aquele sorriso. Fulaninho te respeita! E eu não quero ninguém com preconceito aqui dentro, porque eu sou negra, eu sou mulher, eu sou lá de Jacarepaguá. Eu faço questão de toda semana pegar minha condução, depois o trem e ainda fazer esse pedaço à pé pra não esquecer que eu não nasci rica. Eu lutei muito pra estar aqui, num evento de brancas, onde eu sou a única negra representante da verdadeira branca de neve da sociedade, da mulher que mata um leão e come uma maçã envenenada por dia, que é a mulher negra brasileira. “Blá blá blá” de príncipe, que eu não sou mulher de ficar esperando príncipe encantado, não. Eu trabalho, compro meu carro e vou lá buscar meu príncipe em casa. E ainda pago o jantar.
(Abre o seu livro) Vou ler um trechinho do meu livro pra vocês, que eu acho muito significativo pra essa palestra, pra sociedade que não ri mais. (Lê) “Se a vida lhe oferecer um limão, não faz uma limonada, não! Faz uma caipirinha! Se a vida virar as costas pra você, come o cuzinho dela!” Meu livro “A bronca de neve” é a minha autobiografia não-autorizada, um tratado sobre como ser feliz na contemporaneidade. E eu, que não sou burra, reparem, lancei minha biografia sem a minha autorização. Fui processada por mim mesma e ganhei uma fortuna, fiquei rica. (Rindo) E rindo à toa!
Eu fui a primeira criança-negra-de-Jacarepaguá a vender balar no sinal. E batia todas as cotas, as super cotas… 10 sacos de balas Juquinha por dia. Olhem pra mim! Como é que eu não vou olhar pra trás e rir disso tudo? Porque hoje eu tô milionária! Mas eu faço questão de andar assim, ó, pra todo mundo lembrar que eu vim de baixo… eu nasci lá na Zona Norte e hoje as pessoas olham pra mim e me respeitam. Hoje eu moro no Leblon, sim, moro, moro mesmo e faço o mercado no Zona Sul, só porque é mais caro. É necessário, meu povo, que as minorias interfiram dentro desses pequenos guetos elitistas.
Eu sou contra criança ter celular, mas meus filhos vão passar vergonha no colégio? Não vão… Eu falei pra eles “ó, não quero ninguém levando desaforo pra casa, não!” Ri e manda pra puta que pariu. Eu dou de tudo pros meus filhos, um ipod, uma câmera, um mp3… não é pra usar, não, mas é pra ter. É pra ter, porque eu não quero filho meu passando humilhação. A Gracy mesmo, minha caçula, dia desses sofreu preconceito na creche, eu fui na reunião de pais e sabem o que eu fiz? Eu xinguei? Não… Eu briguei? Não… Eu processei? Mas é claro que não. Eu sambei pra eles, ó! (Sambando) Eu sambo pra vocês! Sambava e ria, que eu não sou besta.
Nos últimos cinco anos eu trabalhei como guerrilheira no Iraque, no setor de auto-ajuda para as mulheres-bomba. Depois retornei ao Brasil e levava as crianças lá do morro no colégio, enfrentado chuva, lama e bala perdida, fantasiada de Branca de Neve, que essa violência tá demais e criança tem que viver na fantasia.
Eu sou de Jacarepaguá, eu areio panela e mato galinha. Tinha tudo pra ser uma vítima da sociedade. Mas não, hoje eu tô aqui, diante de vocês, pra contar um pouquinho da minha vitória. Eu preparei um exercício da minha terapia de riso, que eu ministro esse curso para as madames da Zona Sul, funciona que é uma beleza. Já dizia Diderot “se ficar de bode, você se fode”. Eu falo pro meus filhos, não quero ninguém olhando pra baixo não, olhando de igual pro seus coleguinhas, porque vocês são negros, de Jacarepaguá, são crianças, que a mãe de vocês foi guerrilheira no Iraque e tudo que ela compra pra vocês ela deu o sangue. Literalmente.
Olha pro seu lado, dá uma espiadinha como só tem desgraça, não fica trazendo amargura pra vida não… Pára pra pensar: um tanto de gente que queria rir e não pode, porque não tem os dentes na boca. Vamos destencionar, todo mundo fechando os olhos e colocando a mão no coleguinha da cadeira ao lado e rindo, rindo, rindo… Ouve o som da gargalhada do outro. Repitam comigo “UARRARRÁ, UARRARRÁ”. Isso, forçando o riso. Agora reparem como o outro rindo é ridículo! “UARRARRÁ, UARRARRÁ”. Estão vendo? Quando a gente dá conta, tá todo mundo rindo!
Não quero ninguém de depressão aqui, que o meu mestre, o doutor Mauro, já dizia “Vai arear uma panela que melhora”. Tenho uma amiga que areia tanto as panelas, tanto, que as panelas viraram espelhos. O problema é que ela ficou narcisista demais e fica o dia inteiro se olhando no espelho. “Espelho, espelho meu…” Mas foda-se! Eu ouvia som de tiro na favela, eu ria de nervoso, não era de prazer.
Bem, meus amigos, meu tempo acabou. Gostaria de deixar uma última mensagem de autoconfiança pra vocês, do meu outro livro, “Jesus nunca riu, mas a Galiléia era uma farra” (Abre o livro) “Tudo que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar. Me dar toda coragem que puder”.
(Tendo uma crise de riso incontrolável) Eu nasci analfabeta. Nunca fui escritora. Mas um dia inventei que era e todo mundo acreditou.
Fiquem com a paz de nosso Senhor.
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