O FUTURO DE THIAGUINHO (trecho de SHAMPOO) de Camilo Pellegrini
A campainha toca, as imagens são da kitinete de Cascavel. Ele está deitado no chão. Thiago Gogo-boy grita de fora.
THIAGUINHO (De fora.)- Cascavel!!!
CASCAVEL- Quem é??? (Discretamente, furtivo como um gato, desliga a televisão que exibe chuvisco.) Quem toca a minha porta??? Serão credores??? Será o rapaz das casas Bahia querendo de volta a minha tevê???
THIAGUINHO (De fora.)- Abre pelo amor de Deus??? Cascavel!!!
CASCAVEL- Ouço súplicas!!! Esta voz eu reconheço!!! Este alguém se ajoelha a minha porta, deseja meus conselhos!!! Entra, ó mortal! A porta está aberta!!!
THIAGUINHO- Cascavel, sou eu.
CASCAVEL- Você. Eu vejo. Thiaguinho. Outrora um amigo querido. Quase um irmão. E agora apenas um estranho, suado e extremamente mal vestido, porém belo. Adentra minha sala e rasteja por perdão. Você sabe que horas tem?
THIAGUINHO- Quatro da tarde. Te acordei?
CASCAVEL- Tá na hora de levantar mesmo.
THIAGUINHO- Eu preciso de ajuda.
CASCAVEL- Ha! Sabia! Como é doce o sabor da vingança!!! Ajoelha, incrédulo! Beija a minha mão!
THIAGUINHO- Por favor, Cascavel. Eu trouxe um presente. (Entrega um pequeno saquinho com cocaína.)
CASCAVEL- Hum... Eu aceito o seu presente. Me dê. Você está cheio de areia!
THIAGUINHO- Foi na praia que tudo aconteceu!
CASCAVEL- Olha só. Quando sair daqui você vai varrer essa nojeira. Francamente, me ignorar por três dias inteiros! Não atender meus telefonemas! Você é o quê? É um monstro?
THIAGUINHO- Mas bicha, porque você precisa ser tão mentirosa?
CASCAVEL- Eu não menti!!! Não me chama de mentiroso!!! Não menti!!! Desumano!!! Tudo bem, eu menti um pouco, sim, e daí? Todo mundo mente um pouco, oculta. Tão normal.
THIAGUINHO- Então conta a verdade, assim, pra dar uma variada.
CASCAVEL- Como todos sabem, depois de uma viagem a Brasília, voltei para o Rio de Janeiro, essa cidade linda, com poderes premonitórios. Sim! Premonição! Telepatia! E um pouco, eu estou desenvolvendo, de psicocinese. (Tenta a psicocinese. Desiste.) Não, a psicocinese eu ainda não tenho. Todos acreditavam que o ar do cerrado e o intenso fluxo energético que corre por aquelas bandas tivesse despertado em minha pessoa poderes inimagináveis, escancarando de vez meu terceiro olho.
THIAGUINHO- Mas a realidade foi bem diferente. Sua mãe me contou tudo. Me ligou pedindo desesperada pra que você volte a morar com ela em Goiânia.
CASCAVEL- Não voltarei praquela terra de desdentados jamais!!! Eu odeio tudo que vem daquela lama. Não repita mais o nome desta cidade.
THIAGUINHO- Ela me contou tudo. Tudo o que realmente aconteceu.
CASCAVEL- Então vamos ouvir.
No telão - A origem de Cascavel.
VOZ - Era uma vez um doce menino chamado Cascavel que adorava drogas e festas. Apesar de não ter onde cair morto, era sempre convidado para as badalações por ser uma presença agradabilíssima nas noitadas, graças a seu veneno. Certa noite, ele e mais quarenta e nove amigos, resolveram mais uma vez enfiar o pé nas substâncias ilícitas. Não estavam satisfeitos com a noite anterior e com outras tantas antes desta. Numa festinha privê resolveram tomar tudo! E tomaram tudo. No dia seguinte, dos cinquenta convidados, apenas Cascavél respirava. A quantidade de substâncias misturadas que matara os seus amigos, incluindo aí o filho do ministro, em seu corpo provocou um efeito inesperado. Uma mutação em seu cérebro. Um sexto sentido.
CASCAVEL- Tá! E daí! Grande coisa! Eu não morro de tóxico, meu amor! Posso tomar o que eu quiser. Cocaína, heroína, que delícia! Tomo tudo! Eu sou forte, crack eu fumo também de vez em quando. E ainda por cima ganhei poderes com isso. Era isso que você queria ouvir? Tá feliz agora?
THIAGUINHO- Você escondeu essa história toda! Ou eu não tenho razão? Fazendo papel de besta porque eu sempre te contei tudo.
CASCAVEL- Caro Thiaguinho. Querido. Anjo meu. Olha pra mim. Há coisas que eu faço que eu não conto nem pra mim mesmo.
THIAGUINHO- Mas, poxa vida! Gastei horas e horas da minha vida te pedindo pra parar com tanta droga, gente. Tudo isso pra nada? Muita sacanagem.
CASCAVEL- Como assim?
THIAGUINHO- Não sabia que você é café com leite! Tinha que ter me avisado.
CASCAVEL- Você ficou foi morto de inveja.
THIAGUINHO- Te pedi tanto pra cheirar menos. Briguei com você tantas vezes. Tantas rusgas que tivemos a troco de nada. Um desgaste à toa. Como é triste.
CASCAVEL- Triste é morrer, meu amor. Eu tô aqui na tua frente! Morreu quarenta nove? Antes eles do que eu!
THIAGUINHO- Nossa! Que horror. Você não tem coração.
CASCAVEL- Vamos logo ao assunto?
THIAGUINHO- Falando em coração, eu acho que eu estou amando.
CASCAVEL- Ah, é? E é por isso que você está aqui?
THIAGUINHO- Sim.
CASCAVEL- Veio na minha casa em busca de amor.
THIAGUINHO- Sim... eu acho.
CASCAVEL- E eu pensava que era urgente.
THIAGUINHO- Então me devolve o presente.
CASCAVEL- Calma! Eu não disse que não ia te atender. Senta aí, fica bem cômodo. Então vamos falar de amor.
THIAGUINHO- Vamos. Vamos falar de amor.
CASCAVEL- O amor é tão gostoso pra quem ama, né? É passado, presente ou futuro que a senhora quer saber?
THIAGUINHO- Futuro. Quero saber se vou encontrá-lo.
CASCAVEL- Então maconha. Ainda bem. Se fosse passado, tinha que tomar uma bala, ia demorar uma hora pra bater. Apesar de que tem uma aí bem boa ali no armário. Sabe daquelas que começam bem suaves aí dá o estalo, bem perto da onda já. Sabe? Não sabe não? Mas pra futuro é maconha mesmo que funciona. Tenho até um beckão aqui guardado no meu bolso, já apertado pra esse momento. Eu sabia que você vinha já. Afinal, sou médium.
THIAGUINHO- E o pó, serve pra quê?
CASCAVEL- O pó serve pra eu me sentir importante. Vamos lá. (Cascavel ascende o baseado e brinca com a fumaça no ar, tragando vez por outra.) Vem Apolo, joga o teu bafo em meu peito. Esquenta meu corpo. A fumaça do teu suspiro. Conta no meu ouvido. Conta os segredos do caminho.
THIAGUINHO- Vê alguma coisa???
CASCAVEL- Eu vejo... Eu vejo um homem bonito, todo de preto. Na mão, um berimbau azul.
THIAGUINHO- É ele! Só pode ser! O berimbau!
CASCAVEL- Ele toca um berimbau azul? Olha onde você tá se metendo! Essa galera aí, não sei não!
THIAGUINHO- Continua Cascavel!
CASCAVEL- Vocês se encontram! Se encontram hoje! Ele te vê de longe...e sorri!
THIAGUINHO- Ele sorri!!! Hoje ainda!
CASCAVEL- Ele vem na sua direção!!! Vocês se olham nos olhos!!! Há definitivamente um clima de romance no ar.
THIAGUINHO- Mas e aí??? Ele vem na minha direção e???
CASCAVEL- Um beijo acontece!!!
THIAGUINHO- Um beijo!!!
CASCAVEL- E então... você morre.
(Pausa.)
THIAGUINHO- Morre? Eu... Como assim, eu morro?
CASCAVEL- Não sei. Sua cabeça é decepada.
THIAGUINHO- Minha cabeça é decepada?
CASCAVEL- Eu vi sua cabeça arrancada do teu corpo, zunindo pelo ar e atingindo o chão.
(Pausa. Cascavel, que estava apático durante a revelação da morte do amigo.)
T(Começa a rir.)- Você tá brincando, né? Cascavel? Hahahahahaha!!! Eu ainda caio nessa! Bicha escrota! Bicha mentirosa!
C (Apático.)- Claro. Estou.
THIAGUINHO- E eu quase acredito! Eu devia dar na tua cara!
CASCAVEL- Devia.
THIAGUINHO- Cara de pau! Hahahahaha! Que susto! Me olhando no olho! Você não presta mesmo!
C (Assombrado.)- Thiago, aceita um café?
THIAGUINHO- Claro. Mas e o menino? O menino do berimbau azul? Você viu o berimbal azul, ou não viu?
CASCAVEL- Não, o menino do berimbau você vai encontrar sim. O menino você vai. Isso sim. Isso eu vi sim, o menino, rapaz, sei lá. Vai encontrar.
THIAGUINHO- Eu vou encontrá-lo! É tudo o que eu quero!
CASCAVEL- Vou fazer um café bem forte.
continua......
THIAGUINHO (De fora.)- Cascavel!!!
CASCAVEL- Quem é??? (Discretamente, furtivo como um gato, desliga a televisão que exibe chuvisco.) Quem toca a minha porta??? Serão credores??? Será o rapaz das casas Bahia querendo de volta a minha tevê???
THIAGUINHO (De fora.)- Abre pelo amor de Deus??? Cascavel!!!
CASCAVEL- Ouço súplicas!!! Esta voz eu reconheço!!! Este alguém se ajoelha a minha porta, deseja meus conselhos!!! Entra, ó mortal! A porta está aberta!!!
THIAGUINHO- Cascavel, sou eu.
CASCAVEL- Você. Eu vejo. Thiaguinho. Outrora um amigo querido. Quase um irmão. E agora apenas um estranho, suado e extremamente mal vestido, porém belo. Adentra minha sala e rasteja por perdão. Você sabe que horas tem?
THIAGUINHO- Quatro da tarde. Te acordei?
CASCAVEL- Tá na hora de levantar mesmo.
THIAGUINHO- Eu preciso de ajuda.
CASCAVEL- Ha! Sabia! Como é doce o sabor da vingança!!! Ajoelha, incrédulo! Beija a minha mão!
THIAGUINHO- Por favor, Cascavel. Eu trouxe um presente. (Entrega um pequeno saquinho com cocaína.)
CASCAVEL- Hum... Eu aceito o seu presente. Me dê. Você está cheio de areia!
THIAGUINHO- Foi na praia que tudo aconteceu!
CASCAVEL- Olha só. Quando sair daqui você vai varrer essa nojeira. Francamente, me ignorar por três dias inteiros! Não atender meus telefonemas! Você é o quê? É um monstro?
THIAGUINHO- Mas bicha, porque você precisa ser tão mentirosa?
CASCAVEL- Eu não menti!!! Não me chama de mentiroso!!! Não menti!!! Desumano!!! Tudo bem, eu menti um pouco, sim, e daí? Todo mundo mente um pouco, oculta. Tão normal.
THIAGUINHO- Então conta a verdade, assim, pra dar uma variada.
CASCAVEL- Como todos sabem, depois de uma viagem a Brasília, voltei para o Rio de Janeiro, essa cidade linda, com poderes premonitórios. Sim! Premonição! Telepatia! E um pouco, eu estou desenvolvendo, de psicocinese. (Tenta a psicocinese. Desiste.) Não, a psicocinese eu ainda não tenho. Todos acreditavam que o ar do cerrado e o intenso fluxo energético que corre por aquelas bandas tivesse despertado em minha pessoa poderes inimagináveis, escancarando de vez meu terceiro olho.
THIAGUINHO- Mas a realidade foi bem diferente. Sua mãe me contou tudo. Me ligou pedindo desesperada pra que você volte a morar com ela em Goiânia.
CASCAVEL- Não voltarei praquela terra de desdentados jamais!!! Eu odeio tudo que vem daquela lama. Não repita mais o nome desta cidade.
THIAGUINHO- Ela me contou tudo. Tudo o que realmente aconteceu.
CASCAVEL- Então vamos ouvir.
No telão - A origem de Cascavel.
VOZ - Era uma vez um doce menino chamado Cascavel que adorava drogas e festas. Apesar de não ter onde cair morto, era sempre convidado para as badalações por ser uma presença agradabilíssima nas noitadas, graças a seu veneno. Certa noite, ele e mais quarenta e nove amigos, resolveram mais uma vez enfiar o pé nas substâncias ilícitas. Não estavam satisfeitos com a noite anterior e com outras tantas antes desta. Numa festinha privê resolveram tomar tudo! E tomaram tudo. No dia seguinte, dos cinquenta convidados, apenas Cascavél respirava. A quantidade de substâncias misturadas que matara os seus amigos, incluindo aí o filho do ministro, em seu corpo provocou um efeito inesperado. Uma mutação em seu cérebro. Um sexto sentido.
CASCAVEL- Tá! E daí! Grande coisa! Eu não morro de tóxico, meu amor! Posso tomar o que eu quiser. Cocaína, heroína, que delícia! Tomo tudo! Eu sou forte, crack eu fumo também de vez em quando. E ainda por cima ganhei poderes com isso. Era isso que você queria ouvir? Tá feliz agora?
THIAGUINHO- Você escondeu essa história toda! Ou eu não tenho razão? Fazendo papel de besta porque eu sempre te contei tudo.
CASCAVEL- Caro Thiaguinho. Querido. Anjo meu. Olha pra mim. Há coisas que eu faço que eu não conto nem pra mim mesmo.
THIAGUINHO- Mas, poxa vida! Gastei horas e horas da minha vida te pedindo pra parar com tanta droga, gente. Tudo isso pra nada? Muita sacanagem.
CASCAVEL- Como assim?
THIAGUINHO- Não sabia que você é café com leite! Tinha que ter me avisado.
CASCAVEL- Você ficou foi morto de inveja.
THIAGUINHO- Te pedi tanto pra cheirar menos. Briguei com você tantas vezes. Tantas rusgas que tivemos a troco de nada. Um desgaste à toa. Como é triste.
CASCAVEL- Triste é morrer, meu amor. Eu tô aqui na tua frente! Morreu quarenta nove? Antes eles do que eu!
THIAGUINHO- Nossa! Que horror. Você não tem coração.
CASCAVEL- Vamos logo ao assunto?
THIAGUINHO- Falando em coração, eu acho que eu estou amando.
CASCAVEL- Ah, é? E é por isso que você está aqui?
THIAGUINHO- Sim.
CASCAVEL- Veio na minha casa em busca de amor.
THIAGUINHO- Sim... eu acho.
CASCAVEL- E eu pensava que era urgente.
THIAGUINHO- Então me devolve o presente.
CASCAVEL- Calma! Eu não disse que não ia te atender. Senta aí, fica bem cômodo. Então vamos falar de amor.
THIAGUINHO- Vamos. Vamos falar de amor.
CASCAVEL- O amor é tão gostoso pra quem ama, né? É passado, presente ou futuro que a senhora quer saber?
THIAGUINHO- Futuro. Quero saber se vou encontrá-lo.
CASCAVEL- Então maconha. Ainda bem. Se fosse passado, tinha que tomar uma bala, ia demorar uma hora pra bater. Apesar de que tem uma aí bem boa ali no armário. Sabe daquelas que começam bem suaves aí dá o estalo, bem perto da onda já. Sabe? Não sabe não? Mas pra futuro é maconha mesmo que funciona. Tenho até um beckão aqui guardado no meu bolso, já apertado pra esse momento. Eu sabia que você vinha já. Afinal, sou médium.
THIAGUINHO- E o pó, serve pra quê?
CASCAVEL- O pó serve pra eu me sentir importante. Vamos lá. (Cascavel ascende o baseado e brinca com a fumaça no ar, tragando vez por outra.) Vem Apolo, joga o teu bafo em meu peito. Esquenta meu corpo. A fumaça do teu suspiro. Conta no meu ouvido. Conta os segredos do caminho.
THIAGUINHO- Vê alguma coisa???
CASCAVEL- Eu vejo... Eu vejo um homem bonito, todo de preto. Na mão, um berimbau azul.
THIAGUINHO- É ele! Só pode ser! O berimbau!
CASCAVEL- Ele toca um berimbau azul? Olha onde você tá se metendo! Essa galera aí, não sei não!
THIAGUINHO- Continua Cascavel!
CASCAVEL- Vocês se encontram! Se encontram hoje! Ele te vê de longe...e sorri!
THIAGUINHO- Ele sorri!!! Hoje ainda!
CASCAVEL- Ele vem na sua direção!!! Vocês se olham nos olhos!!! Há definitivamente um clima de romance no ar.
THIAGUINHO- Mas e aí??? Ele vem na minha direção e???
CASCAVEL- Um beijo acontece!!!
THIAGUINHO- Um beijo!!!
CASCAVEL- E então... você morre.
(Pausa.)
THIAGUINHO- Morre? Eu... Como assim, eu morro?
CASCAVEL- Não sei. Sua cabeça é decepada.
THIAGUINHO- Minha cabeça é decepada?
CASCAVEL- Eu vi sua cabeça arrancada do teu corpo, zunindo pelo ar e atingindo o chão.
(Pausa. Cascavel, que estava apático durante a revelação da morte do amigo.)
T(Começa a rir.)- Você tá brincando, né? Cascavel? Hahahahahaha!!! Eu ainda caio nessa! Bicha escrota! Bicha mentirosa!
C (Apático.)- Claro. Estou.
THIAGUINHO- E eu quase acredito! Eu devia dar na tua cara!
CASCAVEL- Devia.
THIAGUINHO- Cara de pau! Hahahahaha! Que susto! Me olhando no olho! Você não presta mesmo!
C (Assombrado.)- Thiago, aceita um café?
THIAGUINHO- Claro. Mas e o menino? O menino do berimbau azul? Você viu o berimbal azul, ou não viu?
CASCAVEL- Não, o menino do berimbau você vai encontrar sim. O menino você vai. Isso sim. Isso eu vi sim, o menino, rapaz, sei lá. Vai encontrar.
THIAGUINHO- Eu vou encontrá-lo! É tudo o que eu quero!
CASCAVEL- Vou fazer um café bem forte.
continua......















