DEPOIS DE VOCÊ de Julia Spadaccini
Personagens:
Marília
Frederico
Mulher
Entregador de pizza
Marília e Frederico sentados um em cada ponta de um sofá. Estão com cara de enterro. Longa pausa antes de começarem a cena.
Fred – Você não vai embora?
Marília – Não consigo.
Fred – Como não consegue?
Marília – Não posso deixar você assim.
Frederico – Assim como?
Marília – Deprimido.
Frederico – Perái, não vem com esse papinho, não. Então, agora, até quando você é ruim, você é boa? Não senhora! Você é má, muito má! É a vilã absoluta da minha biografia. Por favor, saia daqui batendo a porta e me deixe ser a vítima.
Marília – Tem certeza?
Frederico – De que eu sou a vítima e você a Bruxa do Oeste?
Marília – De que quer que eu vá embora?
Frederico – Olha aí! Olha aí de novo! Eu não estou te mandando embora. VOCÊ terminou comigo e, portanto eu sou o mocinho, o homem abandonado. Largado. Rejeitado. Quase morto. Não vai sair por aí dizendo que nós terminamos o namoro. Diga a verdade: você me deu um belo pé na bunda sem aviso prévio.
Marília- Não quero ver você assim...
Frederico – Quem disse que você vai ver? Você acha mesmo que o espetáculo começa com você aqui? A única pessoa que vai dividir esse momento glorioso de sofreguidão, na cadeira vip, será o José.
Marília – Que José?
Frederico – O porteiro. (refletindo) Talvez o entregador da pizzaria da esquina também pegue os melhores momentos...
Marília – Não quero que você sofra.
Frederico – Tá maluca? Quer me tirar até o sofrimento? A única coisa que me consola disso tudo é saber que eu vou me rasgar inteiro, colocar Bagdá Café e curtir uma fossa filha da puta.
Marília olha para baixo.
Frederico – (mudando o tom/ reflexivo) As outras fossas que eu tive foram rápidas. Sempre terminam comigo na segunda-feira à noite e aí eu tenho que acordar cedo para trabalhar e não faço a coisa direito. Não curto. Quando chega no outro final de semana já estou melhor e pronto, passei pelo sofrimento sem passar por ele...
Marília – Você vai ficar bem?
Frederico – Hoje é sábado, né?
Marília – Sexta.
Frederico – Graças a Deus! Vou poder sofrer por 56 horas seguidas sem ninguém me interromper. Aliás...
Frederico vai até o telefone e tira do gancho.
Frederico – Pronto! Ninguém!
Marília – E se eu quiser te ligar?
Frederico – Vai me ligar por quê?
Marília – Sei lá... se me arrepender no meio do caminho e quiser voltar.
Frederico – Ah, não! Não vai interromper a minha fossa no meio. Isso não se faz!
Marília – Mas é que não tenho certeza.
Frederico – Claro que não. Você é a mulher mais imbecil da face da terra.
Marília – Você acha?
Frederico – Eu sou ótimo, minha filha! Ótimo! Eu tiro toda a casca do pão francês para você comer só o miolo. O miolo e nada mais!
Marília fica muda.
Frederico – Agora vai nessa que está escurecendo e fossa à noite é mais sofrida, não quero perder nem um minuto.
Marília – Eu não quero ir embora e te deixar assim.
Frederico – Você já me deixou.
Marília – Mas eu não quero te deixar depois de ter te deixado.
Frederico – Não quer a melhor parte de ter me deixado? Quer me deixar e continuar comigo?
Marília – Você tirava o miolo do pão para me agradar?
Frederico – Claro! Tirar casca de pão francês é amor! Eu tinha uma empregada que fazia isso todos os dias para mim e até hoje sinto aquela entrega retumbante dentro do peito. Só a Franciele me amou de verdade...
Marília – Eu também te amei, Frederico.
Frederico – Amou nada.
Marília – Amei.
Frederico – Achou que me amou, mas o que você realmente amou foi pensar que me amava. Seu amor é egoísta, fica cheio de si mesmo quando acha que está amando e acaba não tendo tempo de amar.
Pausa.
Marília – Você vai ficar triste assim?
Frederico – Triste? Não, querida... triste é ter que comer churros, escondido, depois dos 30 anos... eu vou SOFRER entendeu? SOFRER!
Marília – Não sabia que você me amava tanto.
Frederico – Não. Não é você.
Marília – Não?
Frederico – Sofrimento tem vida própria, linda. Tem autonomia. Sofrimento é o sentimento mais independente de todos. Quando ele percebe que tem passagem, fica e não vai embora enquanto não fizer o estrago. Por exemplo: se você quiser voltar para mim agora que ele já se instaurou, eu mesmo não vou querer.
Marília – Não?
Frederico – Você acha que eu vou perder o prazer de lembrar de você como se você tivesse sido a melhor mulher do mundo??? Perder as lembranças da sua gargalhada tosca e pensar que era o a nona sinfonia de Beethovem? Você acha que eu vou perder a oportunidade de lembrar de você como se você fosse a mulher que você nunca foi? Acha que vou perder a oportunidade de achar que fui extremamente feliz contigo?
Marília – Não sabia que você não gostava da minha gargalhada...
Frederico – A questão não é essa, fofinha. Você até ri bonitinho, mas a gargalhada dessa mulher que está chegando é ópera para meus ouvidos.
Marília – Que mulher?
Frederico – A única, a melhor de todas.
Marília – Como assim? Você tem outra?
Frederico – Em poucos minutos.
Frederico tranforma o banco numa caixa e acende umas velas.
Marília – Eu vou ficar aqui, até ela chegar. Quero ver como ela é.
Frederico – Ih... vai ficar mal...
Marília – Eu não posso ir embora e deixar você sozinho com essa mulher.
Frederico – Agora já foi, Marília, ela está chegando e não tem volta.
Marília – O que você está fazendo?
Frederico – Um jantar... comprei umas almôndegas depois que desliguei o telefone contigo. Você disse que a gente precisava conversar, aí saquei que ela viria hoje mesmo. Vou fazer um macarrão à bolonhesa.
Marília – Jantar a luz de velas??? Nunca fez isso para mim!
Frederico – Para você ver como eu quero essa mulher.
Marília – Mas se você tivesse feito isso para mim, eu ficaria com você.
Frederico – Você poderia fazer o favor de ir antes que você chegue e veja que você ainda está aqui.
Marília – Não acredito nisso... você vai me trocar na mesma noite em que nós terminamos.
Frederico – Você terminou. (pausa) Vilã!
Marília – Mas você nem conhece essa mulher!
Frederico – Sabe a mania que você tem de fungar no cinema?
Marília – Eu?
Frederico – Ela não tem.
Pausa.
Frederico - Sabe o seu tique nervoso de balançar o pé direito na cama antes de dormir?
Marília – Eu?
Frederico – Também não. E tem mais: ela adora o meu macarrão à bolonhesa. Não acha sem sal.
Marília – Mas ele é sem sal, Frederico.
Frederico – Agora, por favor, saia e me deixe terminar o jantar.
Marília – Você está querendo que eu saia para poder se encontrar comigo?
Frederico – Ela também não é ciumenta como você.
Pausa. Frederico coloca música e começa a dançar.
Marília – Você está feliz.
Frederico – Como?
Marília – Está muito feliz.
Frederico – (sem jeito) Não... eu... não estou feliz, não estou, estou sofrendo como um cão dilacerado.
Marília – Eu estou sofrendo muito mais que você, pois vou ter que lidar com a culpa por ter te deixado. Já você fica livre e sem responsabilidade. Vira santo!
Frederico – Fala baixo! Se o meu sofrimento escuta essa imbecilidade, capaz de acreditar e não vir mais...
Marília – A essa altura ele já deu meia volta, não dá para esconder a sua felicidade.
Frederico – Não fala isso! Cala a boca! Ele marcou encontro e não fura. Sofrimento é um sentimento nobre, se deu palavra, não falta.
Pausa.
Marília – Ele não vem, Frederico... não vem...
Frederico desliga a música e pára por um instante como sentisse realmente que o sofrimento não fosse mais chegar.
Frederico – Isso é uma injustiça!
Marília – Não vai rolar, pode apagar as velas.
Frederico - Mas eu queria tanto... estava tão empolgado...
Marília – Fica para outra...
Frederico – Deixa de ser cruel !!!! Eu quero conhecer essa você sem todos os seus defeitos. Me ajuda!
Marília – Não posso.
Frederico – E o que eu faço, agora? Estava tão feliz de sofrer.
Marília –A questão é a seguinte: para você sofrer mesmo, talvez tenha que ficar comigo.
Frederico – Ãh?
Marília –Você só vai sofrer se eu ficar.
Frederico – Para sofrer por você, eu preciso que você, ao invés de me largar, não me largue.
Marília – Exatamente.
Frederico - Mas eu não quero que você fique!
Marília – Sem chance de dar certo.
Frederico – Então você vai ficar?
Marília – Não.
Frederico – Mas e eu? O que vai ser de mim??
Marília – Se vira.
Frederico – Eu preciso de você! Eu preciso de você porque não preciso de você! (pausa) É isso, né?
Marília – Isso mesmo.
Frederico – Então?
Marília – Então o quê?
Frederico – Fica comigo?
Marília – De jeito nenhum. Você já estava fazendo jantar para outra, não posso...
Frederico – Mas a outra sem você não é nada.
Marília – Você fala isso para me agradar, porque quer sofrer...
Campainha toca.
Frederico – Tá vendo! É ela!
Marília – Duvido...
Frederico abre a porta e um entregador de pizza entra.
Marília – Você estava fazendo macarrão e pediu pizza?
Fred abaixa a cabeça como criança.
Frederico – Eu menti.
Marília – Típico.
Entregador – 30 reais.
Fred colocando a mão no bolso.
Frederico- Ih... esqueci de sacar dinheiro. Tem trintinha, querida?
Marília pega o dinheiro como se tivesse acostumada e entrega para Fred, que passa para o entregador.
Frederico – Aqui ó.
Marília – Você pode me enganar, mas a outra não vai aceitar isso. Acha que ela vai comer pizza e pagar?
Entregador – Desculpa interromper, mas o senhor pediu mais três pizzas durante a madrugada, ainda vai querer?
Marília olha para Frederico sem entender.
Frederico – Companhia...
Marília – (para o entregador) Não. Ele não vai mais precisar de companhia.
Entregador vai embora.
Marília – Não sabe sofrer sozinho é?
Frederico – Me deixa.
Campainha toca.
Marília – Não vai abrir?
Frederico – Deve ser o seu José, marquei hora para ver os últimos gols da rodada.
Marília vai abrir. Entra uma mulher belíssima, muito bem vestida. Marília fica estática olhando a mulher. Encantada. Frederico também.
Frederico – Sabia que você não iria me decepcionar!
Mulher senta na mesa de jantar. Os dois sentam ao seu lado. Mudos.
Frederico – Você é realmente linda.
Marília – Mais ou menos. Eu jamais usaria esse batom vermelho.
Frederico – Amo batom vermelho. Mamãe usava em dia de festa. Só em dia de festa.
Mulher dá uma gargalhada gostosa.
Frederico – Não disse? Gargalhada aveludada.
Mulher gargalha mais uma vez. Marília fica emburrada.
Frederico – Te esperei tanto. Fiz um jantar especial para nós dois.
Marília – (dá uma gargalhada bem diferente da mulher e depois fala irônica) Especial, tá bom.
Frederico pega a pizza na cozinha.
Mulher – Ó meu homem! Homem mais belo de todos! Amo pizza, você leu meus pensamentos.
Frederico olha para Marília triunfante. Pausa. Mulher não se mexe.
Marília - Ela não fala? Só responde?
Frederico – Perfeita.
Frederico – Você gosta de música?
Mulher – Você gosta?
Frederico – Gosto.
Mulher – Gosto.
Frederico – Gosta de ouvir o quê?
Mulher – O que você gosta de ouvir?
Frederico – Metal.
Mulher – Eu também.
Frederico – Não acredito! Maravilha!
Mulher gargalha de novo.
Frederico – Que banda?
Mulher – A que você mais gosta.
Frederico fica parado. Marília só olhando.
Frederico – Filmes?
Mulher– Os seus preferidos.
Frederico – Lugares?
Mulher – Os que você vai.
Frederico – Esporte?
Mulher – Os que você faz.
Frederico – Não faço nenhum.
Mulher – Também não.
Longa pausa.
Marília – Bem, eu vou então... não tenho mais nada que eu possa fazer aqui...
Frederico – Espera.
Marília – O que?
Frederico Olha para a mulher que continua estática sorrindo. Frederico se aproxima de Marília falando baixo para a Mulher não ouvir.
Frederico – Ela é estranha... tô com medo...
Mulher tira uma escova de dentes da bolsa.
Marília – Ela veio para ficar. Trouxe até a escova de dentes.
Frederico – Não quero.
Marília – É tarde.
Marília se vira para sair. Frederico a pega pelo braço.
Frederico – Antes de você ir embora para sempre... me diz uma coisa.
Marília – O que?
Mulher tira um monte de coisas da bolsa.
Frederico – Por que você terminou comigo? Fala a verdade?
Marília – Por que eu sabia que ela estava te rondando e resolvi dar fim. Não agüentava mais ter ela entre nós.
Frederico – Não quero mais essa mulher.
Marília– Duvido. Você diz isso agora, mas em 2 minutos vai voltar atrás.
Fred– Nunca!
Marília– Não acredito.
Marília se vira novamente para ir embora. Frederico pega uma arma na gaveta e mata a mulher. Marília se volta para Frederico lentamente e quando vê a cena dá um belo sorriso. Entra a música Bagdá Café e os dois se abraçam. Black out.
Marília
Frederico
Mulher
Entregador de pizza
Marília e Frederico sentados um em cada ponta de um sofá. Estão com cara de enterro. Longa pausa antes de começarem a cena.
Fred – Você não vai embora?
Marília – Não consigo.
Fred – Como não consegue?
Marília – Não posso deixar você assim.
Frederico – Assim como?
Marília – Deprimido.
Frederico – Perái, não vem com esse papinho, não. Então, agora, até quando você é ruim, você é boa? Não senhora! Você é má, muito má! É a vilã absoluta da minha biografia. Por favor, saia daqui batendo a porta e me deixe ser a vítima.
Marília – Tem certeza?
Frederico – De que eu sou a vítima e você a Bruxa do Oeste?
Marília – De que quer que eu vá embora?
Frederico – Olha aí! Olha aí de novo! Eu não estou te mandando embora. VOCÊ terminou comigo e, portanto eu sou o mocinho, o homem abandonado. Largado. Rejeitado. Quase morto. Não vai sair por aí dizendo que nós terminamos o namoro. Diga a verdade: você me deu um belo pé na bunda sem aviso prévio.
Marília- Não quero ver você assim...
Frederico – Quem disse que você vai ver? Você acha mesmo que o espetáculo começa com você aqui? A única pessoa que vai dividir esse momento glorioso de sofreguidão, na cadeira vip, será o José.
Marília – Que José?
Frederico – O porteiro. (refletindo) Talvez o entregador da pizzaria da esquina também pegue os melhores momentos...
Marília – Não quero que você sofra.
Frederico – Tá maluca? Quer me tirar até o sofrimento? A única coisa que me consola disso tudo é saber que eu vou me rasgar inteiro, colocar Bagdá Café e curtir uma fossa filha da puta.
Marília olha para baixo.
Frederico – (mudando o tom/ reflexivo) As outras fossas que eu tive foram rápidas. Sempre terminam comigo na segunda-feira à noite e aí eu tenho que acordar cedo para trabalhar e não faço a coisa direito. Não curto. Quando chega no outro final de semana já estou melhor e pronto, passei pelo sofrimento sem passar por ele...
Marília – Você vai ficar bem?
Frederico – Hoje é sábado, né?
Marília – Sexta.
Frederico – Graças a Deus! Vou poder sofrer por 56 horas seguidas sem ninguém me interromper. Aliás...
Frederico vai até o telefone e tira do gancho.
Frederico – Pronto! Ninguém!
Marília – E se eu quiser te ligar?
Frederico – Vai me ligar por quê?
Marília – Sei lá... se me arrepender no meio do caminho e quiser voltar.
Frederico – Ah, não! Não vai interromper a minha fossa no meio. Isso não se faz!
Marília – Mas é que não tenho certeza.
Frederico – Claro que não. Você é a mulher mais imbecil da face da terra.
Marília – Você acha?
Frederico – Eu sou ótimo, minha filha! Ótimo! Eu tiro toda a casca do pão francês para você comer só o miolo. O miolo e nada mais!
Marília fica muda.
Frederico – Agora vai nessa que está escurecendo e fossa à noite é mais sofrida, não quero perder nem um minuto.
Marília – Eu não quero ir embora e te deixar assim.
Frederico – Você já me deixou.
Marília – Mas eu não quero te deixar depois de ter te deixado.
Frederico – Não quer a melhor parte de ter me deixado? Quer me deixar e continuar comigo?
Marília – Você tirava o miolo do pão para me agradar?
Frederico – Claro! Tirar casca de pão francês é amor! Eu tinha uma empregada que fazia isso todos os dias para mim e até hoje sinto aquela entrega retumbante dentro do peito. Só a Franciele me amou de verdade...
Marília – Eu também te amei, Frederico.
Frederico – Amou nada.
Marília – Amei.
Frederico – Achou que me amou, mas o que você realmente amou foi pensar que me amava. Seu amor é egoísta, fica cheio de si mesmo quando acha que está amando e acaba não tendo tempo de amar.
Pausa.
Marília – Você vai ficar triste assim?
Frederico – Triste? Não, querida... triste é ter que comer churros, escondido, depois dos 30 anos... eu vou SOFRER entendeu? SOFRER!
Marília – Não sabia que você me amava tanto.
Frederico – Não. Não é você.
Marília – Não?
Frederico – Sofrimento tem vida própria, linda. Tem autonomia. Sofrimento é o sentimento mais independente de todos. Quando ele percebe que tem passagem, fica e não vai embora enquanto não fizer o estrago. Por exemplo: se você quiser voltar para mim agora que ele já se instaurou, eu mesmo não vou querer.
Marília – Não?
Frederico – Você acha que eu vou perder o prazer de lembrar de você como se você tivesse sido a melhor mulher do mundo??? Perder as lembranças da sua gargalhada tosca e pensar que era o a nona sinfonia de Beethovem? Você acha que eu vou perder a oportunidade de lembrar de você como se você fosse a mulher que você nunca foi? Acha que vou perder a oportunidade de achar que fui extremamente feliz contigo?
Marília – Não sabia que você não gostava da minha gargalhada...
Frederico – A questão não é essa, fofinha. Você até ri bonitinho, mas a gargalhada dessa mulher que está chegando é ópera para meus ouvidos.
Marília – Que mulher?
Frederico – A única, a melhor de todas.
Marília – Como assim? Você tem outra?
Frederico – Em poucos minutos.
Frederico tranforma o banco numa caixa e acende umas velas.
Marília – Eu vou ficar aqui, até ela chegar. Quero ver como ela é.
Frederico – Ih... vai ficar mal...
Marília – Eu não posso ir embora e deixar você sozinho com essa mulher.
Frederico – Agora já foi, Marília, ela está chegando e não tem volta.
Marília – O que você está fazendo?
Frederico – Um jantar... comprei umas almôndegas depois que desliguei o telefone contigo. Você disse que a gente precisava conversar, aí saquei que ela viria hoje mesmo. Vou fazer um macarrão à bolonhesa.
Marília – Jantar a luz de velas??? Nunca fez isso para mim!
Frederico – Para você ver como eu quero essa mulher.
Marília – Mas se você tivesse feito isso para mim, eu ficaria com você.
Frederico – Você poderia fazer o favor de ir antes que você chegue e veja que você ainda está aqui.
Marília – Não acredito nisso... você vai me trocar na mesma noite em que nós terminamos.
Frederico – Você terminou. (pausa) Vilã!
Marília – Mas você nem conhece essa mulher!
Frederico – Sabe a mania que você tem de fungar no cinema?
Marília – Eu?
Frederico – Ela não tem.
Pausa.
Frederico - Sabe o seu tique nervoso de balançar o pé direito na cama antes de dormir?
Marília – Eu?
Frederico – Também não. E tem mais: ela adora o meu macarrão à bolonhesa. Não acha sem sal.
Marília – Mas ele é sem sal, Frederico.
Frederico – Agora, por favor, saia e me deixe terminar o jantar.
Marília – Você está querendo que eu saia para poder se encontrar comigo?
Frederico – Ela também não é ciumenta como você.
Pausa. Frederico coloca música e começa a dançar.
Marília – Você está feliz.
Frederico – Como?
Marília – Está muito feliz.
Frederico – (sem jeito) Não... eu... não estou feliz, não estou, estou sofrendo como um cão dilacerado.
Marília – Eu estou sofrendo muito mais que você, pois vou ter que lidar com a culpa por ter te deixado. Já você fica livre e sem responsabilidade. Vira santo!
Frederico – Fala baixo! Se o meu sofrimento escuta essa imbecilidade, capaz de acreditar e não vir mais...
Marília – A essa altura ele já deu meia volta, não dá para esconder a sua felicidade.
Frederico – Não fala isso! Cala a boca! Ele marcou encontro e não fura. Sofrimento é um sentimento nobre, se deu palavra, não falta.
Pausa.
Marília – Ele não vem, Frederico... não vem...
Frederico desliga a música e pára por um instante como sentisse realmente que o sofrimento não fosse mais chegar.
Frederico – Isso é uma injustiça!
Marília – Não vai rolar, pode apagar as velas.
Frederico - Mas eu queria tanto... estava tão empolgado...
Marília – Fica para outra...
Frederico – Deixa de ser cruel !!!! Eu quero conhecer essa você sem todos os seus defeitos. Me ajuda!
Marília – Não posso.
Frederico – E o que eu faço, agora? Estava tão feliz de sofrer.
Marília –A questão é a seguinte: para você sofrer mesmo, talvez tenha que ficar comigo.
Frederico – Ãh?
Marília –Você só vai sofrer se eu ficar.
Frederico – Para sofrer por você, eu preciso que você, ao invés de me largar, não me largue.
Marília – Exatamente.
Frederico - Mas eu não quero que você fique!
Marília – Sem chance de dar certo.
Frederico – Então você vai ficar?
Marília – Não.
Frederico – Mas e eu? O que vai ser de mim??
Marília – Se vira.
Frederico – Eu preciso de você! Eu preciso de você porque não preciso de você! (pausa) É isso, né?
Marília – Isso mesmo.
Frederico – Então?
Marília – Então o quê?
Frederico – Fica comigo?
Marília – De jeito nenhum. Você já estava fazendo jantar para outra, não posso...
Frederico – Mas a outra sem você não é nada.
Marília – Você fala isso para me agradar, porque quer sofrer...
Campainha toca.
Frederico – Tá vendo! É ela!
Marília – Duvido...
Frederico abre a porta e um entregador de pizza entra.
Marília – Você estava fazendo macarrão e pediu pizza?
Fred abaixa a cabeça como criança.
Frederico – Eu menti.
Marília – Típico.
Entregador – 30 reais.
Fred colocando a mão no bolso.
Frederico- Ih... esqueci de sacar dinheiro. Tem trintinha, querida?
Marília pega o dinheiro como se tivesse acostumada e entrega para Fred, que passa para o entregador.
Frederico – Aqui ó.
Marília – Você pode me enganar, mas a outra não vai aceitar isso. Acha que ela vai comer pizza e pagar?
Entregador – Desculpa interromper, mas o senhor pediu mais três pizzas durante a madrugada, ainda vai querer?
Marília olha para Frederico sem entender.
Frederico – Companhia...
Marília – (para o entregador) Não. Ele não vai mais precisar de companhia.
Entregador vai embora.
Marília – Não sabe sofrer sozinho é?
Frederico – Me deixa.
Campainha toca.
Marília – Não vai abrir?
Frederico – Deve ser o seu José, marquei hora para ver os últimos gols da rodada.
Marília vai abrir. Entra uma mulher belíssima, muito bem vestida. Marília fica estática olhando a mulher. Encantada. Frederico também.
Frederico – Sabia que você não iria me decepcionar!
Mulher senta na mesa de jantar. Os dois sentam ao seu lado. Mudos.
Frederico – Você é realmente linda.
Marília – Mais ou menos. Eu jamais usaria esse batom vermelho.
Frederico – Amo batom vermelho. Mamãe usava em dia de festa. Só em dia de festa.
Mulher dá uma gargalhada gostosa.
Frederico – Não disse? Gargalhada aveludada.
Mulher gargalha mais uma vez. Marília fica emburrada.
Frederico – Te esperei tanto. Fiz um jantar especial para nós dois.
Marília – (dá uma gargalhada bem diferente da mulher e depois fala irônica) Especial, tá bom.
Frederico pega a pizza na cozinha.
Mulher – Ó meu homem! Homem mais belo de todos! Amo pizza, você leu meus pensamentos.
Frederico olha para Marília triunfante. Pausa. Mulher não se mexe.
Marília - Ela não fala? Só responde?
Frederico – Perfeita.
Frederico – Você gosta de música?
Mulher – Você gosta?
Frederico – Gosto.
Mulher – Gosto.
Frederico – Gosta de ouvir o quê?
Mulher – O que você gosta de ouvir?
Frederico – Metal.
Mulher – Eu também.
Frederico – Não acredito! Maravilha!
Mulher gargalha de novo.
Frederico – Que banda?
Mulher – A que você mais gosta.
Frederico fica parado. Marília só olhando.
Frederico – Filmes?
Mulher– Os seus preferidos.
Frederico – Lugares?
Mulher – Os que você vai.
Frederico – Esporte?
Mulher – Os que você faz.
Frederico – Não faço nenhum.
Mulher – Também não.
Longa pausa.
Marília – Bem, eu vou então... não tenho mais nada que eu possa fazer aqui...
Frederico – Espera.
Marília – O que?
Frederico Olha para a mulher que continua estática sorrindo. Frederico se aproxima de Marília falando baixo para a Mulher não ouvir.
Frederico – Ela é estranha... tô com medo...
Mulher tira uma escova de dentes da bolsa.
Marília – Ela veio para ficar. Trouxe até a escova de dentes.
Frederico – Não quero.
Marília – É tarde.
Marília se vira para sair. Frederico a pega pelo braço.
Frederico – Antes de você ir embora para sempre... me diz uma coisa.
Marília – O que?
Mulher tira um monte de coisas da bolsa.
Frederico – Por que você terminou comigo? Fala a verdade?
Marília – Por que eu sabia que ela estava te rondando e resolvi dar fim. Não agüentava mais ter ela entre nós.
Frederico – Não quero mais essa mulher.
Marília– Duvido. Você diz isso agora, mas em 2 minutos vai voltar atrás.
Fred– Nunca!
Marília– Não acredito.
Marília se vira novamente para ir embora. Frederico pega uma arma na gaveta e mata a mulher. Marília se volta para Frederico lentamente e quando vê a cena dá um belo sorriso. Entra a música Bagdá Café e os dois se abraçam. Black out.















