Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

DEPOIS DE VOCÊ de Julia Spadaccini

Personagens:

Marília
Frederico
Mulher
Entregador de pizza

Marília e Frederico sentados um em cada ponta de um sofá. Estão com cara de enterro. Longa pausa antes de começarem a cena.

Fred – Você não vai embora?

Marília – Não consigo.

Fred – Como não consegue?

Marília – Não posso deixar você assim.

Frederico – Assim como?

Marília – Deprimido.

Frederico – Perái, não vem com esse papinho, não. Então, agora, até quando você é ruim, você é boa? Não senhora! Você é má, muito má! É a vilã absoluta da minha biografia. Por favor, saia daqui batendo a porta e me deixe ser a vítima.

Marília – Tem certeza?

Frederico – De que eu sou a vítima e você a Bruxa do Oeste?

Marília – De que quer que eu vá embora?


Frederico – Olha aí! Olha aí de novo! Eu não estou te mandando embora. VOCÊ terminou comigo e, portanto eu sou o mocinho, o homem abandonado. Largado. Rejeitado. Quase morto. Não vai sair por aí dizendo que nós terminamos o namoro. Diga a verdade: você me deu um belo pé na bunda sem aviso prévio.

Marília- Não quero ver você assim...

Frederico – Quem disse que você vai ver? Você acha mesmo que o espetáculo começa com você aqui? A única pessoa que vai dividir esse momento glorioso de sofreguidão, na cadeira vip, será o José.

Marília – Que José?

Frederico – O porteiro. (refletindo) Talvez o entregador da pizzaria da esquina também pegue os melhores momentos...

Marília – Não quero que você sofra.

Frederico – Tá maluca? Quer me tirar até o sofrimento? A única coisa que me consola disso tudo é saber que eu vou me rasgar inteiro, colocar Bagdá Café e curtir uma fossa filha da puta.

Marília olha para baixo.

Frederico – (mudando o tom/ reflexivo) As outras fossas que eu tive foram rápidas. Sempre terminam comigo na segunda-feira à noite e aí eu tenho que acordar cedo para trabalhar e não faço a coisa direito. Não curto. Quando chega no outro final de semana já estou melhor e pronto, passei pelo sofrimento sem passar por ele...

Marília – Você vai ficar bem?

Frederico – Hoje é sábado, né?

Marília – Sexta.

Frederico – Graças a Deus! Vou poder sofrer por 56 horas seguidas sem ninguém me interromper. Aliás...

Frederico vai até o telefone e tira do gancho.

Frederico – Pronto! Ninguém!

Marília – E se eu quiser te ligar?

Frederico – Vai me ligar por quê?

Marília – Sei lá... se me arrepender no meio do caminho e quiser voltar.

Frederico – Ah, não! Não vai interromper a minha fossa no meio. Isso não se faz!

Marília – Mas é que não tenho certeza.

Frederico – Claro que não. Você é a mulher mais imbecil da face da terra.

Marília – Você acha?

Frederico – Eu sou ótimo, minha filha! Ótimo! Eu tiro toda a casca do pão francês para você comer só o miolo. O miolo e nada mais!

Marília fica muda.

Frederico – Agora vai nessa que está escurecendo e fossa à noite é mais sofrida, não quero perder nem um minuto.

Marília – Eu não quero ir embora e te deixar assim.

Frederico – Você já me deixou.

Marília – Mas eu não quero te deixar depois de ter te deixado.

Frederico – Não quer a melhor parte de ter me deixado? Quer me deixar e continuar comigo?

Marília – Você tirava o miolo do pão para me agradar?

Frederico – Claro! Tirar casca de pão francês é amor! Eu tinha uma empregada que fazia isso todos os dias para mim e até hoje sinto aquela entrega retumbante dentro do peito. Só a Franciele me amou de verdade...

Marília – Eu também te amei, Frederico.

Frederico – Amou nada.

Marília – Amei.

Frederico – Achou que me amou, mas o que você realmente amou foi pensar que me amava. Seu amor é egoísta, fica cheio de si mesmo quando acha que está amando e acaba não tendo tempo de amar.


Pausa.

Marília – Você vai ficar triste assim?

Frederico – Triste? Não, querida... triste é ter que comer churros, escondido, depois dos 30 anos... eu vou SOFRER entendeu? SOFRER!

Marília – Não sabia que você me amava tanto.

Frederico – Não. Não é você.

Marília – Não?

Frederico – Sofrimento tem vida própria, linda. Tem autonomia. Sofrimento é o sentimento mais independente de todos. Quando ele percebe que tem passagem, fica e não vai embora enquanto não fizer o estrago. Por exemplo: se você quiser voltar para mim agora que ele já se instaurou, eu mesmo não vou querer.

Marília – Não?

Frederico – Você acha que eu vou perder o prazer de lembrar de você como se você tivesse sido a melhor mulher do mundo??? Perder as lembranças da sua gargalhada tosca e pensar que era o a nona sinfonia de Beethovem? Você acha que eu vou perder a oportunidade de lembrar de você como se você fosse a mulher que você nunca foi? Acha que vou perder a oportunidade de achar que fui extremamente feliz contigo?

Marília – Não sabia que você não gostava da minha gargalhada...

Frederico – A questão não é essa, fofinha. Você até ri bonitinho, mas a gargalhada dessa mulher que está chegando é ópera para meus ouvidos.

Marília – Que mulher?

Frederico – A única, a melhor de todas.

Marília – Como assim? Você tem outra?

Frederico – Em poucos minutos.

Frederico tranforma o banco numa caixa e acende umas velas.

Marília – Eu vou ficar aqui, até ela chegar. Quero ver como ela é.

Frederico – Ih... vai ficar mal...

Marília – Eu não posso ir embora e deixar você sozinho com essa mulher.

Frederico – Agora já foi, Marília, ela está chegando e não tem volta.

Marília – O que você está fazendo?

Frederico – Um jantar... comprei umas almôndegas depois que desliguei o telefone contigo. Você disse que a gente precisava conversar, aí saquei que ela viria hoje mesmo. Vou fazer um macarrão à bolonhesa.

Marília – Jantar a luz de velas??? Nunca fez isso para mim!

Frederico – Para você ver como eu quero essa mulher.

Marília – Mas se você tivesse feito isso para mim, eu ficaria com você.

Frederico – Você poderia fazer o favor de ir antes que você chegue e veja que você ainda está aqui.

Marília – Não acredito nisso... você vai me trocar na mesma noite em que nós terminamos.

Frederico – Você terminou. (pausa) Vilã!

Marília – Mas você nem conhece essa mulher!

Frederico – Sabe a mania que você tem de fungar no cinema?

Marília – Eu?

Frederico – Ela não tem.

Pausa.

Frederico - Sabe o seu tique nervoso de balançar o pé direito na cama antes de dormir?

Marília – Eu?

Frederico – Também não. E tem mais: ela adora o meu macarrão à bolonhesa. Não acha sem sal.

Marília – Mas ele é sem sal, Frederico.

Frederico – Agora, por favor, saia e me deixe terminar o jantar.

Marília – Você está querendo que eu saia para poder se encontrar comigo?

Frederico – Ela também não é ciumenta como você.

Pausa. Frederico coloca música e começa a dançar.

Marília – Você está feliz.

Frederico – Como?

Marília – Está muito feliz.

Frederico – (sem jeito) Não... eu... não estou feliz, não estou, estou sofrendo como um cão dilacerado.

Marília – Eu estou sofrendo muito mais que você, pois vou ter que lidar com a culpa por ter te deixado. Já você fica livre e sem responsabilidade. Vira santo!

Frederico – Fala baixo! Se o meu sofrimento escuta essa imbecilidade, capaz de acreditar e não vir mais...

Marília – A essa altura ele já deu meia volta, não dá para esconder a sua felicidade.

Frederico – Não fala isso! Cala a boca! Ele marcou encontro e não fura. Sofrimento é um sentimento nobre, se deu palavra, não falta.

Pausa.

Marília – Ele não vem, Frederico... não vem...

Frederico desliga a música e pára por um instante como sentisse realmente que o sofrimento não fosse mais chegar.

Frederico – Isso é uma injustiça!

Marília – Não vai rolar, pode apagar as velas.

Frederico - Mas eu queria tanto... estava tão empolgado...

Marília – Fica para outra...

Frederico – Deixa de ser cruel !!!! Eu quero conhecer essa você sem todos os seus defeitos. Me ajuda!

Marília – Não posso.

Frederico – E o que eu faço, agora? Estava tão feliz de sofrer.

Marília –A questão é a seguinte: para você sofrer mesmo, talvez tenha que ficar comigo.

Frederico – Ãh?

Marília –Você só vai sofrer se eu ficar.

Frederico – Para sofrer por você, eu preciso que você, ao invés de me largar, não me largue.

Marília – Exatamente.

Frederico - Mas eu não quero que você fique!

Marília – Sem chance de dar certo.

Frederico – Então você vai ficar?

Marília – Não.

Frederico – Mas e eu? O que vai ser de mim??

Marília – Se vira.

Frederico – Eu preciso de você! Eu preciso de você porque não preciso de você! (pausa) É isso, né?

Marília – Isso mesmo.

Frederico – Então?

Marília – Então o quê?

Frederico – Fica comigo?

Marília – De jeito nenhum. Você já estava fazendo jantar para outra, não posso...

Frederico – Mas a outra sem você não é nada.

Marília – Você fala isso para me agradar, porque quer sofrer...

Campainha toca.

Frederico – Tá vendo! É ela!

Marília – Duvido...

Frederico abre a porta e um entregador de pizza entra.

Marília – Você estava fazendo macarrão e pediu pizza?

Fred abaixa a cabeça como criança.

Frederico – Eu menti.

Marília – Típico.

Entregador – 30 reais.

Fred colocando a mão no bolso.

Frederico- Ih... esqueci de sacar dinheiro. Tem trintinha, querida?

Marília pega o dinheiro como se tivesse acostumada e entrega para Fred, que passa para o entregador.

Frederico – Aqui ó.

Marília – Você pode me enganar, mas a outra não vai aceitar isso. Acha que ela vai comer pizza e pagar?

Entregador – Desculpa interromper, mas o senhor pediu mais três pizzas durante a madrugada, ainda vai querer?

Marília olha para Frederico sem entender.

Frederico – Companhia...

Marília – (para o entregador) Não. Ele não vai mais precisar de companhia.

Entregador vai embora.

Marília – Não sabe sofrer sozinho é?

Frederico – Me deixa.

Campainha toca.

Marília – Não vai abrir?

Frederico – Deve ser o seu José, marquei hora para ver os últimos gols da rodada.

Marília vai abrir. Entra uma mulher belíssima, muito bem vestida. Marília fica estática olhando a mulher. Encantada. Frederico também.

Frederico – Sabia que você não iria me decepcionar!

Mulher senta na mesa de jantar. Os dois sentam ao seu lado. Mudos.

Frederico – Você é realmente linda.

Marília – Mais ou menos. Eu jamais usaria esse batom vermelho.

Frederico – Amo batom vermelho. Mamãe usava em dia de festa. Só em dia de festa.

Mulher dá uma gargalhada gostosa.

Frederico – Não disse? Gargalhada aveludada.

Mulher gargalha mais uma vez. Marília fica emburrada.

Frederico – Te esperei tanto. Fiz um jantar especial para nós dois.

Marília – (dá uma gargalhada bem diferente da mulher e depois fala irônica) Especial, tá bom.

Frederico pega a pizza na cozinha.

Mulher – Ó meu homem! Homem mais belo de todos! Amo pizza, você leu meus pensamentos.

Frederico olha para Marília triunfante. Pausa. Mulher não se mexe.

Marília - Ela não fala? Só responde?

Frederico – Perfeita.

Frederico – Você gosta de música?

Mulher – Você gosta?

Frederico – Gosto.

Mulher – Gosto.

Frederico – Gosta de ouvir o quê?

Mulher – O que você gosta de ouvir?

Frederico – Metal.

Mulher – Eu também.

Frederico – Não acredito! Maravilha!

Mulher gargalha de novo.

Frederico – Que banda?

Mulher – A que você mais gosta.

Frederico fica parado. Marília só olhando.

Frederico – Filmes?

Mulher– Os seus preferidos.

Frederico – Lugares?

Mulher – Os que você vai.

Frederico – Esporte?

Mulher – Os que você faz.

Frederico – Não faço nenhum.

Mulher – Também não.

Longa pausa.

Marília – Bem, eu vou então... não tenho mais nada que eu possa fazer aqui...

Frederico – Espera.

Marília – O que?

Frederico Olha para a mulher que continua estática sorrindo. Frederico se aproxima de Marília falando baixo para a Mulher não ouvir.

Frederico – Ela é estranha... tô com medo...

Mulher tira uma escova de dentes da bolsa.

Marília – Ela veio para ficar. Trouxe até a escova de dentes.

Frederico – Não quero.

Marília – É tarde.

Marília se vira para sair. Frederico a pega pelo braço.

Frederico – Antes de você ir embora para sempre... me diz uma coisa.

Marília – O que?

Mulher tira um monte de coisas da bolsa.

Frederico – Por que você terminou comigo? Fala a verdade?

Marília – Por que eu sabia que ela estava te rondando e resolvi dar fim. Não agüentava mais ter ela entre nós.

Frederico – Não quero mais essa mulher.

Marília– Duvido. Você diz isso agora, mas em 2 minutos vai voltar atrás.

Fred– Nunca!

Marília– Não acredito.

Marília se vira novamente para ir embora. Frederico pega uma arma na gaveta e mata a mulher. Marília se volta para Frederico lentamente e quando vê a cena dá um belo sorriso. Entra a música Bagdá Café e os dois se abraçam. Black out.