23/10/2008 !

Feia demais

(Herivelto em pé no centro do palco vestido de noivo. Mulheres do lado esquerdo e direito do palco chorando copiosamente. Som de marcha nupcial. Jacira, a noiva, entra solene como um rito, da platéia. Um coro trágico e fofoqueiro de mulheres corre e se posiciona ao redor de Herivelto. Clima de Bodas de Sangue de Garcia Lorca!)

Mulher 1: Você está namorando aquela pequena?
Herivelto: Estou.

(Coro trágico pasmo num quadro de terror e espanto)

Coro: Não é possível, não pode ser!

Herivelto: Por quê?

Coro: (feroz) Porque é um bucho horroroso! Arranja uma pequena melhor, mais interessante, bonitinha!

Herivelto: Vou me casar!

Coro: Amarra-se o burro à vontade do dono. Pois que se case e seja feliz!

Herivelto: O que decide na vida é o peito! Vou me casar no peito!

Coro: A face da pequena é o eufemismo da desgraça. Feia como a necessidade! Um Pavor!

Herivelto: Vou me casar no peito! No peito!

Coro: (resignado) Desgosto é o sabor do arroz que jogaremos na noiva. Com unhas e dentes nos agarraremos ao melancólico consolo: Ela não é bonita, mas tem bom coração.

(Coro volta para as laterais do palco. A noiva finalmente chega ao altar. Herivelto com a sofreguidão dos apaixonados retira o véu da noiva. Reação de horror dos convidados.)

Jacira: Com você, meu filho, eu topo tudo!

(Herivelto e Jacira beijam-se com fervor.)

Coro: Nããããããããooooo!

(Herivelto e Jacira não escutam o coro e continuam o beijo fervoroso. Reação dos convidados jogando arroz nos noivos. Convidados saem. Noivos continuam na mesma posição)

Narrador: Ninguém compreendia como um rapaz bem apanhado como o Herivelto, a tivesse escolhido entre todas.

Coro de mulheres: (mostram apenas as cabeças vindas da coxia) Essa menina tem dinheiro?

(Narrador reage negativamente. Reação de horror do coro das mulheres que volta para a coxia)

(Jacira enrosca uma das pernas em Herivelto. Os dois se movem como se estivessem fazendo sexo. Soltam-se com o deleite dos apaixonados num suspiro delirante)

Narrador: Só no sétimo ou oitavo dia de lua-de-mel é que Herivelto começou a desconfiar da verdade. Jacira estava diante do espelho espremendo espinhas. E fazia isso com um deleite uma volúpia extraordinária. Em silêncio ou, assoviando, o rapaz contemplava a mulher. Sem querer, sem sentir, estava fazendo um julgamento físico de Jacira.

Jacira: Ih, meu filho! Estou com uma pele infame!

Narrador: A partir de então, quando estava em casa, ele não fazia outra coisa senão espiar, espreitar a fealdade da esposa.

Herivelto: Eu estava cego, completamente cego!

Narrador: Agora olhava Jacira e se saturava de sua falta de graça e de feminilidade. Por outro lado, começava a experimentar uma irritação doentia e contínua. Um dia, em que Jacira estava particularmente desinteressante fez uma pergunta perversa.

Herivelto: Será que uma mulher feia não desconfia da própria fealdade?

Jacira: (rindo) Que nada! Pergunta a um bucho se ele é um bucho, pergunta?

Narrador: Durante dois ou três segundos, quase Herivelto a interpela.

Herivelto: E tu?

Narrador: Conteve-se, porém. Mas sua ilusão extinguira até o último vestígio. Sabia, agora, que sua mulher, a mulher com quem se casara para sempre, era…

(narrador e Herivelto devem falar juntos)
Narrador: Feia, excepcionalmente feia, feia de uma maneira constrangedora, intolerável.

Herivelto: Feia, excepcionalmente feia, feia de uma maneira constrangedora, intolerável.

(Somente narrador)
Narrador: Começou a ter resistências com Jacira, uma espécie de alergia, de incompatibilidade física tremenda. Precisava desabafar.

Herivelto: Eu estava bêbado, completamente bêbado quando casei!

Narrador: Fora de si, apertando a cabeça entre as mãos, gemia.

(foco acende em Jacira numa pose grotesca)

Herivelto: (desesperado olhando para Jacira) Feia demais! Demais!

(foco acende em Jacira numa nova pose grotesca)

Herivelto: (desesperado olhando para Jacira) Feia demais! Demais!

(foco acende em Jacira numa outra pose grotesca)

Herivelto: (desesperado olhando para Jacira) Feia demais! Demais!

Narrador: Certos deveres ou hábitos de marido já o enfureciam. Por exemplo: Ao sair para o trabalho e ao voltar acostumara-se a beijar a mulher na boca. E se, agora, simulava um engano, uma distração e roçava os lábios na face de Jacira, recebia a reclamação amorosa:

Jacira: Na boca, meu filho, na boca!

Herivelto: (comentando com o narrador) Esse beijo na boca se transformou, com o tempo, numa fobia.

(Herivelto e o Narrador dão um passo para frente. A luz da platéia acende)

Herivelto: (olha as mulheres da platéia e comenta com o narrador) Isso é que é corpo! Que rabinho! Olha que espetáculo!

(Herivelto despede-se do narrador e senta numa das duas cadeiras no fundo do palco. Jacira vai ao encontro de Herivelto com ares de strip-tease, numa fome de leoa. Jacira senta no colo de Herivelto)

Jacira: Tu gostas da tua gatinha, gostas?

(Herivelto retirando Jacira do seu colo e colocando-a na cadeira ao lado)

Herivelto: (rosnando) Sossega. Há hora para tudo.

(Mudança de luz. Herivelto e Jacira agem como se estivessem num cinema)

Jacira: (falando alto) Eu não acho a Lana Turner nada essas coisas. Vulgar. (tempo) A Barbara Stanwick é tão em graça!

Herivelto: (caindo das nuvens, furioso) Barbara Stanwick sem graça?! Você bebeu? (Levanta-se. À parte) Tive vontade de fuzilar minha esposa com a pergunta: Se ela é sem graça o que você é? Mas, a situação matrimonial tornara-se insolúvel. Agora sou dominado por uma obsessão.

(Várias mulheres insinuantes do lado oposto do palco acenam para Herivelto)

Herivelto: Tenho que arranjar uma cara!

(Herivelto joga um beijo para as mulheres insinuantes. Deita-se no chão. As mulheres fazem fila. Uma mulher de cada vez passa por cima dele sacudindo a saia no rosto de Herivelto. A última levanta Herivelto. Herivelto abraça a última mulher e dá um libidinoso tapa nas suas nádegas)

Narrador: Arranjou uma cara, com efeito, que trabalhava numa casa de modas. Era uma fulana alta, que na opinião de muitos…

Coro de mulheres: (mostram apenas as cabeças vindas da coxia) Lembrava um cavalo de corrida. (voltam para a coxia)

Narrador: O fato é que Herivelto se apaixonou!

(Jacira num foco isolado e distante de Herivelto e a amante)

Amante: Bem feinha tua mulher, hein?

Herivelto: (esbraveja) Um bucho horroroso!

(Herivelto e a amante beijam-se com ardor. A amante desarruma Herivelto deixando o colarinho da camisa dele desbeiçado e repleto de marcas de batom vermelho carmim. Os dois despedem-se. Herivelto caminha bêbado na direção de sua casa até encontrar Jacira)

Jacira: (Avançando para o marido com o dedo em riste. Esganiçando) Que é isso? Que negócio é esse?

Herivelto: (bambo em cima das pernas. Com a sinceridade dos ébrios) Tenho uma amante… Tenho uma amante…

Jacira: (atônita) Uma amante! (tempo. Subitamente feroz, revira Herivelto e o segura pela gola do paletó, sacode e grita) Eu também vou te trair, ouvistes? (Larga Herivelto e muda o tom) Vou fazer o que você me fez. Por essa luz que me alumia!

Narrador: Não teve pressa. Durante 48 horas, debateu-se em dúvidas medonhas. Trair era ou devia ser facílimo; restava, porém, a pergunta.

Jacira: Com quem?

Narrador: Passou em revista todos os amigos e conhecidos. Acabou se fixando num amigo do marido, um tal de Mascarenhas.

>(Jacira pega o telefone. Mascarenhas atende. Jacira geme. Os dois largam os telefones e se deslocam para o centro do palco. Som de campainha. Jacira entra no apartamento de Mascarenhas insinuante. Mascarenhas atônito, sem compreender, com uma expressão de descontentamento quase cruel nos lábios)

Jacira: Então?

Mascarenhas: (Balbucia) Desculpe, mas não é possível… Sinto muito… Desculpe…

Narrador: Pela primeira vez, Jacira sente parcialmente a verdade. Foge dali como uma criminosa. Em casa, no quarto, coloca-se diante do espelho grande. Revia-se, de corpo inteiro. Compreende tudo. Compreende porque fora quase escorraçada.

(Jacira olhando para si mesma. Herivelto ébrio cambalenate olha para ela e gargalha)

Herivelto: (debochadíssimo) Bucho! Bucho!

Narrador: Jacira teve ódio, um ódio inumano, indiscriminado, contra si mesma, contra o marido, contra o mundo.

(Luz de flash back. Coro feminino nas laterais do palco. Jacira, a noiva finalmente chega ao altar. Herivelto com a sofreguidão dos apaixonados retira o véu da noiva. Reação de horror dos convidados.)

Jacira: Com você, meu filho, eu topo tudo!

(Herivelto e Jacira beijam-se com fervor.)

Coro: Nããããããããooooo!

(Fim do flash back. A cena se desfaz)

Jacira: Ódio, um ódio inumano, indiscriminado, contra mim mesma, contra meu marido, contra o mundo.

(Narrador e Jacira juntos)
Narrador: Esperou que Herivelto mergulhasse no sono de embriagado. Serena, derramou álcool em cima dele e riscou o fósforo. Por entre as chamas, ele se revirava, se contorcia, como se tivesse cócegas. Fugiu, uivando, perseguido pelas labaredas. Vizinhos atiraram baldes d´água em cima dele. (pausa) Porém, ali mesmo, Herivelto morreu nu e negro.

Jacira: Esperei que Herivelto mergulhasse no sono de embriagado. Serena, derramei álcool em cima dele e risquei o fósforo. Por entre as chamas, ele se revirava, se contorcia, como se tivesse cócegas. Fugiu, uivando, perseguido pelas labaredas. Vizinhos atiraram baldes d´água em cima dele. (pausa) Porém, ali mesmo, Herivelto morreu nu e negro.

(Luz geral vermelha. Trevas…)

FIM

Tema: NELSON RODRIGUES

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