IRRITANDO FERNANDA JUNG! de Larissa Câmara
FERNANDA JUNG: Boa noite! Sejam bem vindos a mais um Irritando Fernanda Jung!
No programa de hoje... Eu vou entrevistar... (pausa) Produção! Cadê a minha ficha? Como assim que ficha? Que palhaçada é essa? Eu tenho uma ficha em branco na mão. Que coisa ridícula! Isso aqui não é aula de improvisação, não. Isso aqui é um programa sério. Eu quero a minha ficha agora.
(burburinho da produção. Pausa. Aparece Hudson - um homem baixo, com apenas uma mecha de cabelo branco, suado e trêmulo com uma ficha na mão).
FERNANDA JUNG: Obrigada, Hudson!
(Hudson faz um aceno de cabeça ligeiro e volta correndo para os bastidores)
FERNANDA JUNG: Nossa! Vocês colaram o texto na ficha com durex. Que coisa. (pausa) Ah, não! Tudo menos isso. Tem um cabelo na ficha. Está grudado no durex. Olha, o cabelinho tem um encaracolado tão singular... Quem foi o imundo que grudou um pentelho na minha ficha? Que sacanagem é essa? Nosso primeiro programa ao vivo! Hudson! Venha aqui.
(Hudson aparece ainda mais suado e trêmulo)
FERNANDA JUNG: Hudson, querido! Diga uma coisa só para mim: Você reconhece a moita de onde saiu esse exemplar de pentelho? Você grudou um pentelho na minha ficha, Hudson?
(Hudson tenta responder, mas apresenta confusão mental e um problema sério de fala)
FERNANDA JUNG: Senhoras e senhores, com vocês: Hudson!
(Um canhão de luz ilumina Hudson, que se emociona e acena timidamente para a platéia. Sons de aplausos gravados.)
FERNANDA JUNG: Hudson é gente humilde, que vontade de chorar. Quando nasceu a mãe dele indagou: “O que eu faço? Crio ou jogo no lixo?” As enfermeiras do hospital comentavam: “Hum. Esse passou do ponto na placenta, já veio ao mundo vencido”. Diante de todas essas dificuldades, Hudson não desistiu. Foi uma das crianças mais aplicadas do orfanato. Na adolescência batia todas as cotas na feira livre.
HUDSON: Olha o pastel, quibe, bolinho de aipim com carne seca, caldo de cana e bolo de cenoura!
FERNANDA JUNG: Hudson é gente que faz! Hudson lutou muito para estar aqui hoje.
HUDSON: (num gesto de karatê) Iá!
FERNANDA JUNG: Menos Hudson. (pausa) Hudson chegou com uma mão na frente e outra atrás, com os olhinhos radiantes de esperança e pediu uma chance ao programa. E hoje graças a nós, ou melhor a mim, Hudson pode pagar seu carnê do baú, suas prestações das Casas Bahia e o seu tão sonhado financiamento da casa própria na Caixa Econômica.
(sons de aplausos gravados. Hudson comovido)
FERNANDA JUNG: Eu fiz tudo por você, seu ingrato! E você me apunhala pelas costas com esse pentelho na minha ficha! Que golpe baixo! Você está demitido!
HUDSON: (desesperado) Não, pelo amor de Deus. Esse pentelho não é meu. Eu juro! Por favor, não. Eu tenho família. Ainda não paguei o carnê do baú desse mês. Pelo amor de Deus. Por tudo o que é mais sagrado.
FERNANDA JUNG: (com uma seriedade melodramática) Minhas mãos são sagradas, Hudson. Você colocou um pentelho sujo nas minhas mãos.
HUDSON: Oh, dona Fernanda não fui eu!
FERNANDA JUNG: Antes de deixar o programa você tem direito a um último pedido, Hudson.
HUDSON: Eu quero conferir os últimos números da tele sena.
FERNANDA JUNG: Tem certeza?
HUDSON: Absoluta.
FERNANDA JUNG: Queridos telespectadores, o último desejo de Hudson é... (rufar de tambores) ser açoitado pelos cabos das câmeras. Sim, as câmeras que deram a ele tudo. Hudson quer sentir na pele essa emoção. Parabéns pela escolha, querido! (sons de aplausos gravados)
HUDSON: Socorro! Pelo amor de Deus! Socorro!
FERNANDA JUNG: Enquanto preparamos o estúdio para esse belo momento de sacrifício, vamos ler uma mensagem irritante enviada por uma internauta. “Projeção é a representação ou transferência de sensações, sentimentos, desejos e interesses para o mundo exterior”, Wikipedia. Obrigada pela sua participação, querida! Sua mensagem além de irritante foi inútil. Parabéns eu estou puta da cara! Voltaremos após o break. (executa uma pequena coreografia vexaminosa) E antes do break eu pergunto: Tem coisa mais humilhante do que ter feito jazz na infância? (pausa) Hoje você não escapa, Hudson. Que entrem os capangas!
(Entram capangas com aspecto forte e sanguinário. Hudson loucamente desesperado. Fernanda sorri. O clima de tensão é desfeito por um intervalo comercial.)
FIM
Para Fernanda Young por motivos óbvios, irritantes e tatuados.
http://br.youtube.com/watch?v=nJZ0cchjYGE&feature=related
No programa de hoje... Eu vou entrevistar... (pausa) Produção! Cadê a minha ficha? Como assim que ficha? Que palhaçada é essa? Eu tenho uma ficha em branco na mão. Que coisa ridícula! Isso aqui não é aula de improvisação, não. Isso aqui é um programa sério. Eu quero a minha ficha agora.
(burburinho da produção. Pausa. Aparece Hudson - um homem baixo, com apenas uma mecha de cabelo branco, suado e trêmulo com uma ficha na mão).
FERNANDA JUNG: Obrigada, Hudson!
(Hudson faz um aceno de cabeça ligeiro e volta correndo para os bastidores)
FERNANDA JUNG: Nossa! Vocês colaram o texto na ficha com durex. Que coisa. (pausa) Ah, não! Tudo menos isso. Tem um cabelo na ficha. Está grudado no durex. Olha, o cabelinho tem um encaracolado tão singular... Quem foi o imundo que grudou um pentelho na minha ficha? Que sacanagem é essa? Nosso primeiro programa ao vivo! Hudson! Venha aqui.
(Hudson aparece ainda mais suado e trêmulo)
FERNANDA JUNG: Hudson, querido! Diga uma coisa só para mim: Você reconhece a moita de onde saiu esse exemplar de pentelho? Você grudou um pentelho na minha ficha, Hudson?
(Hudson tenta responder, mas apresenta confusão mental e um problema sério de fala)
FERNANDA JUNG: Senhoras e senhores, com vocês: Hudson!
(Um canhão de luz ilumina Hudson, que se emociona e acena timidamente para a platéia. Sons de aplausos gravados.)
FERNANDA JUNG: Hudson é gente humilde, que vontade de chorar. Quando nasceu a mãe dele indagou: “O que eu faço? Crio ou jogo no lixo?” As enfermeiras do hospital comentavam: “Hum. Esse passou do ponto na placenta, já veio ao mundo vencido”. Diante de todas essas dificuldades, Hudson não desistiu. Foi uma das crianças mais aplicadas do orfanato. Na adolescência batia todas as cotas na feira livre.
HUDSON: Olha o pastel, quibe, bolinho de aipim com carne seca, caldo de cana e bolo de cenoura!
FERNANDA JUNG: Hudson é gente que faz! Hudson lutou muito para estar aqui hoje.
HUDSON: (num gesto de karatê) Iá!
FERNANDA JUNG: Menos Hudson. (pausa) Hudson chegou com uma mão na frente e outra atrás, com os olhinhos radiantes de esperança e pediu uma chance ao programa. E hoje graças a nós, ou melhor a mim, Hudson pode pagar seu carnê do baú, suas prestações das Casas Bahia e o seu tão sonhado financiamento da casa própria na Caixa Econômica.
(sons de aplausos gravados. Hudson comovido)
FERNANDA JUNG: Eu fiz tudo por você, seu ingrato! E você me apunhala pelas costas com esse pentelho na minha ficha! Que golpe baixo! Você está demitido!
HUDSON: (desesperado) Não, pelo amor de Deus. Esse pentelho não é meu. Eu juro! Por favor, não. Eu tenho família. Ainda não paguei o carnê do baú desse mês. Pelo amor de Deus. Por tudo o que é mais sagrado.
FERNANDA JUNG: (com uma seriedade melodramática) Minhas mãos são sagradas, Hudson. Você colocou um pentelho sujo nas minhas mãos.
HUDSON: Oh, dona Fernanda não fui eu!
FERNANDA JUNG: Antes de deixar o programa você tem direito a um último pedido, Hudson.
HUDSON: Eu quero conferir os últimos números da tele sena.
FERNANDA JUNG: Tem certeza?
HUDSON: Absoluta.
FERNANDA JUNG: Queridos telespectadores, o último desejo de Hudson é... (rufar de tambores) ser açoitado pelos cabos das câmeras. Sim, as câmeras que deram a ele tudo. Hudson quer sentir na pele essa emoção. Parabéns pela escolha, querido! (sons de aplausos gravados)
HUDSON: Socorro! Pelo amor de Deus! Socorro!
FERNANDA JUNG: Enquanto preparamos o estúdio para esse belo momento de sacrifício, vamos ler uma mensagem irritante enviada por uma internauta. “Projeção é a representação ou transferência de sensações, sentimentos, desejos e interesses para o mundo exterior”, Wikipedia. Obrigada pela sua participação, querida! Sua mensagem além de irritante foi inútil. Parabéns eu estou puta da cara! Voltaremos após o break. (executa uma pequena coreografia vexaminosa) E antes do break eu pergunto: Tem coisa mais humilhante do que ter feito jazz na infância? (pausa) Hoje você não escapa, Hudson. Que entrem os capangas!
(Entram capangas com aspecto forte e sanguinário. Hudson loucamente desesperado. Fernanda sorri. O clima de tensão é desfeito por um intervalo comercial.)
FIM
Para Fernanda Young por motivos óbvios, irritantes e tatuados.
http://br.youtube.com/watch?v=nJZ0cchjYGE&feature=related















