Cora e eu
Texto de Rodrigo de Roure
Camilo Pellegrini convida Rodrigo de Roure Eu – O que você tá fazendo aqui? Cora – Vou com você. Eu – Tá de sacanagem?! Cora – Vou, sim… (Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.) Cora – “Você quer ser uma pessoa má?!! Quer?! Você não vai ser uma pessoa má!! Não vai! Se depender de mim, não vai! Tá me escutando?!!!” foi o que eu disse… Eu – E espancou a pobrezinha… Cora – Dei um tapa. Eu – Na cara. Cora – Na cara. Eu – E deixou a coitada chorando. Cora – Ficou lá… nem sei… Eu – Claro que ficou… (Referindo-se ao trem cheio) Insuportável isso aqui… Cora – É. É insuportável. Memê tá insuportável… todo mundo tá insuportável… Eu – Tá segurando firme? Cora – Tou. Acho que tou, né. Eu – Então segura. Essa estação enche mais que todas… Cora – Não imaginava que meu fim do dia ia ser esse… disputar por um pedaço desse ferro… pra não cair… Eu – Não caia. (Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.) Cora – Comprou seus remédios da homeopatia? Eu – Tão aqui. Cora – Tomou? Eu – Vou tomar em casa. Com calma. Cora – Precisa de calma pra tomar remédio? Eu – Preciso. Ando bem melhor. (Muda o tom) Olha aquilo. Cora – Onde. Eu – Ali. A mulher. A porta do trem segurou a bolsa dela. Tá fudida. Cora – Imbecil. (Cora desanda a rir nervosamente) Eu – Cala a boca. Cora – Não dá… (Continua a se escangalhar de rir) Eu – Ridícula. Cora – Você! Eu – Sua mãe tem toda razão. Cora – Deixa a minha mãe fora dessa! Eu – Deixo não. Ela está certa quanto a você. Cora – Minha mãe me fudeu! Tá ouvindo?!! Me fudeu! A vida toda ela me fudeu! Eu – Se segura. Agora é que fudeu mesmo. Acho que a gente vai morrer nessa estação! Cora – Você tinha que resolver ir embora na hora do rush?!! Imbecil! Eu – Eu sempre vou embora da sua casa na hora do rush. (Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.) Cora – Não acredito nessa gorda! Eu – Empurra ela pra lá! Cora – Vou dar um soco na boca do estômago dela! Eu – (Contendo-se, mas com raiva) Fala mais alto, vai! Grita, porra! Cora – Cala a boca! Tá maluco?! Eu – (Mudando o tom.) Merda, não acredito! Cora – Ahh! Nem eu! Eu – Por que as pessoas resolvem fazer compra de mês quando saem do trabalho? Cora – Deviam morrer. Eu – Eu não vou entrar mais na tua pilha. Você tá me fazendo mal, Cora. Cora – Não começa a falar essas coisas. Você sabe da sua capacidade de arrasar a minha vida! Eu – Todo mundo arrasa a sua vida, Cora. Cora – Não sei por que vim atrás de você. Eu – Eu queria entender. Cora – Eu vou embora. Eu – Eu já tou indo. (Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. O trem passa em um túnel. A luz apaga brevemente. Quando volta a acender, Cora não está mais. “Eu” está só”. Barulho fraco de trem. Luz sobre “Eu”. Toca o celular de “Eu”. Eu – Fala, Cora… tá chorando por quê? A Memê? Não é com a Memê. É com a sua mãe… ah saquei… Agora você espancou sua mãe, Cora??!!! Porra, caralho… como é que tu faz isso?!…(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco pelo telefone. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Luz vai apagando devagar. B.O.)
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo