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terça-feira, 30 de junho de 2009

NÃO BRINCA COM COISA SÉRIA de Felipe Barenco

Michella está fazendo comida e cantarola Triller. A sua irmã chega em casa com cara de enterro.

Michella – Já almoçou?

Irmã – Estou sem fome.

Michella – (CANTAROLA) Agora você inventou essa moda de não comer. Depois morre, eu quero ver. Está parecendo um carpaccio de tão magra.

Irmã – Mi, eu tenho uma notícia muito triste pra te dar.

Michella – Pode falar...

Irmã – É muito triste mesmo.

Michella – Pode falar, ué.

Irmã – Eu voltei lá do hospital e...

Michella – A mamãe?

Irmã - A mamãe não resistiu. (CHORA)

Michella – Meu amor, acho que eu já estava me preparando... (ABRAÇA A IRMÃ) Temos que ser fortes. Você pode contar comigo.

Irmã – Como é que vai ser a nossa vida sem ela agora?

Michella – Foi melhor assim. Ela estava sofrendo muito naquela cama de hospital. Ela estará olhando por nós.

Irmã – Eu achava que ela era imortal. Preferia mil vezes ter morrido antes dela pra não passar por uma coisa dessas. Prefiro a morte!

Michella – Também não exagera, vai.

Irmã – A dor é para os que ficam.

Entra uma amiga.

Amiga – Acabei de saber.... (ABRAÇA AS DUAS)

A irmã chora durante toda a cena.

Michella – Obrigado, viu.

Amiga – Todo o noticiário comentando...

Michella – É mesmo?

Amiga – Uma amiga ligou, disse que soube no Plantão da Globo...

Michella – Sério? Mas eu não sabia que...

Amiga – Cara, é um ícone! Uma estrela! Um mito!

Michella – Eu sei, mas passar na Globo eu não esperava...

Amiga – Tá em tudo quanto é site...

Michella – Eu nunca desconfiei que a mamãe tinha essa importância toda. Quer dizer, Deus me perdoe, que pra mim era a pessoa mais importante do mundo.

Amiga – Ah, desculpa... eu preocupada com ele, nem perguntei. Sua mãe como está?

Michella – Tá na dela, né. Em paz. (PARA A IRMÃ) Acalme-se, vai. Quer um copo d´água?

Amiga – Ela teve alta?

Michella – Não, maluca.

Amiga – Mas você acabou de dizer que ela está em paz.

Michella – Modo de falar.

Amiga – Ela piorou então?

Michella – Não, ela está morta!

Amiga – (CHOCADA) Ela também?

Michella – “Também”?

Amiga – É! (ENVERGONHADA) Que cabeça a minha... eu tava falando do Michael. Perdão.

Michella – Que Michael?

Amiga – O Michael Jackson.

Michella – O que é que tem ele?

Amiga – Ele também morreu.

Michella – Que morreu!

Amiga – Morreu, sim!

Michella – Para de palhaçada, garota. Não brinca com coisa séria!

Amiga – Morreu mesmo. Liga a televisão pra você ver. O Michael Jackson morreu.

Michella – (APAVORADA) Meu Deus do céu! Minha nossa senhora! E agora?

Amiga – Mas me fala da sua mãe...

Michella – Foda-se a minha mãe, cara! O Michael Jackson... tá entendendo? O Michael Jackson morreu! Um ícone! Uma estrela! Como é que vai ser nossa vida agora? Ele morreu como? Não, o Michael, não! Eu sou fã dele desde pequena... era quase da família. (DESESPERANDO-SE NUM CRESCENTE) Eu achava que ele era imortal. Preferia mil vezes ter morrido antes dele pra não passar por uma coisa dessas. Prefiro a morte! Michael, não! Eu nunca pude falar isso diretamente pra você, mas eu te amo! Michael, volta! Volta! Como eu vou conviver com essa dor! Michael! Não, não, nãaaaaaaaaaaaao!

Amiga e irmã tentam acalmá-la sem êxito.


FIM

segunda-feira, 29 de junho de 2009

“Papo furado (cada macaco no seu galho) ” da série Kid Bauhaus de Jô Bilac

Personagens:
Kid

Tina Basset (vulgo: carinha gorda)

Defunto

(velório)

(Tina se aproxima de Kid, que fuma no cantinho do velório)

Tina: O que é que é isso?

Kid: Cigarro.

Tina: Não. Isso é uma mini cenoura.

Kid: Se sabia, por que perguntou?

Tina: Você está fumando mini cenoura?

Kid: Fala baixo, Tina. Se meu inconsciente descobre, estou ferrada!

Tina: Você está tentando enganar seu inconsciente fazendo uma mini cenoura se passar
por um cigarro?

Kid: Por aí...

Tina: Seu inconsciente é tão estúpido assim?

Kid: Não mais que você.

Tina: Você está pirando, Kid.

Kid: Estou parando de fumar, carinha gorda. Isso tem a ver com a necessidade oral
que o cigarro desperta em mim, entende?

Tina: Mas você podia fumar aquele mini cigarro de chocolate.

Kid: E virar uma mini baleia. Nada disso. Tô com a cenoura e não abro!

Tina: Quantas cenouras você já fumou?

Kid: 34.

Tina: Ai Kid... Tem que variar...

Kid: Variar?

Tina: Sim. Tem mini nabo, mini pepino, mini inhame... Vai ficar viciada em mini
cenoura... E mini cenoura você sabe, né...

Kid: (debochada) Sei o que, Tina?

Tina: Ah... Você sabe... Mini cenoura...

Kid: Não. Não sei.

Tina: Ah... Mini cenoura é fogo...

Kid: Ih, Tina... Que bobajada.

Tina: Mini cenoura atrai...

Kid: Atrai o que? Ih, ta boba. Não gosto de gente boba do meu lado!

Tina: Mini cenoura...

Kid: Deixa de ser boba, Tina! Mulher boba. (muda o tom) Agora, mudando de Walita
pra Brastemp... Tá meio caído esse velório, hein...

Tina: Tá mesmo. Tá meio vazio, né...

Kid: Isso que dá morrer no mesmo dia que Michael Jackson.

Tina: Você acha que tem a ver?

Kid: Claro. A pior coisa do mundo é morrer no mesmo dia que um ídolo pop. Ta todo
mundo em casa vendo o especial na TV.

Tina: E a gente ta perdendo...

Kid: Se eu não tivesse tão dura, eu também não estava aqui.

Tina: A gente fica por aqui só mais dez minutos e se não aparecer ninguém a gente
pica a mula.

Kid: Jamais. Um serviço é um serviço e se fomos contratadas é por que confiam no nosso potencial. Não podemos trair a confiança de quem nos contratou!

Tina: É tão humilhante pagar gente pra fazer volume em velório. Deus me livre.

Kid: Pois é, minha filha. Mas se você morrer no mesmo dia que a Madonna, não conte comigo em seu enterro.

Tina: Que horror. Você me trocaria pela Madonna?

Kid: Tina, você me trocaria pelo Elton John.

Tina: Mas eu amo o Elton John. Você não ama a Madonna.

Kid: Não é questão de amar, Tina. É a Madonna! É a morte de um mito! A queda de um semideus! O supra-sumo da fama! O buraco é muito mais em baixo.

Tina: To passada... Amiga da onça.

Kid: Amiga, Elton John é que não dá...

Tina: Ele é muito maior que a Madonna.

Kid: Ele já deve ter morrido uns três anos atrás e ninguém divulgou!

Tina: Despeito.

Kid: O lance é não morrer no mesmo dia de uma celebridade. Lembra da tia da Jane?

Tina: Jane Fedô?

Kid: Exatamente, a Jane Fedô. A tia dela teve o azar de morrer no mesmo dia do
Ayrton Senna. Fedô ficou arrasada, não se lembra disso? Ninguém compareceu no
velório.

Tina: Ah, mas Ayrton é Ayrton …

Kid: Exatamente. E quem é a tia de Jane Fedô? Nunca vi o nome dela num pacotinho de
qui suqui. Ainda inventa de morrer no mesmo dia de uma celebridade. Não dá. Tem que esperar no mínimo uns quinze dias pra morrer.

Tina: Que nem a Farrah Fawcett.

Kid: Quem?

Tina: A ex pantera.

Kid: Ah tá. Morreu no mesmo dia do Ayrton?

Tina: Não, Kid. Morreu no mesmo dia do Michael.

Kid: Ih... Nem fiquei sabendo, menina. Morreu de que?

Tina: Ih... Sabe que não lembro...

Kid: Mas famoso ou não famoso, não importa. Pra morrer basta estar vivo.

Tina: Descansou, né...

Kid: É isso aí: acabou o milho, acabou a pipoca.

Tina: O sono dos justos.

Kid: Sono nada. Está melhor que a gente e bem acordado...

Tina: No descanso eterno?

Kid: Não toupeira. Melhor que a gente literalmente. As celebridades dadas como
mortas estão agora bebendo drinque azul na beira da piscina.

Tina: Do que você está falando, criatura?

Kid: Eu tenho uma teoria...

Tina: Ih... Lá vem.

Kid: Escuta. Pra mim, tudo não passou de um golpe da mídia.

Tina: A ex pantera?

Kid: O Michael. Pra mim, veja bem, pra mim! Ele não morreu.

Tina: Tipo o Elvis.

Kid: Tipo Elvis.

Tina: A troco de que?

Kid: Ah, Tina. Jogo de publicidade. Tá tudo armado. O mercado fonográfico é uma
máfia, você sabe disso. Jogos de poder, chantagens, a papelada...

Tina: Que papelada?

Kid: A papelada toda... O governo... A NASA esconde muito coisa da gente...

Tina: A NASA? Que tem a NASA?

Kid: Acorda, carinha gorda. A lua já está loteada.

Tina: Ih, Kid... Ta fumando muita mini cenoura!

Kid: Como você é estreita de pensamento, Tina! É por isso que a Parmalat pinta e
borda com a gente.

Tina: A Parmalat ta envolvida com a morte do Michael?

Kid: Até o pescoço.

Tina: E a Rayovac?

Kid: O que tem a Rayovac?

Tina: Tá envolvida também?

Kid: Não!

Tina: Ai, que bom. Uso tanto Rayovac. Fiquei preocupada em estar compactuando.

Kid: Essas grandes empresas patrocinam a NASA. Eles compram terrenos na lua. E essas
celebridades tipo Michael, Lady Di, o próprio Elvis... Tá tudo morando por lá.

Tina: Ih, Kid, aí ta complicado... Tá duro de acreditar. Leva mal não.

Kid: É sério. Eles estão na Lua. Essas celebridades não morrem, forjam tudo e a NASA encobre.

Tina: Você quer me convencer que a ex pantera mora na lua?

Kid: Não, essa morreu mesmo. A lua é só pra super super. Tem que ter carteirinha.

Tina: Pra ser super super?

Kid: Lógico. Tá pensando que na lua é bagunça? Sem carteirinha, nem rola.

Tina: Elton John tem carteirinha?

Kid: Estamos falando de Super super, Tina.

Tina: Ué, e Elton John não é super super, Kid?

Kid: Meso. Meio barro, meio tijolo. Ele é médio super.

Tina: Médio super?

Kid: Super médio super. Não tem ninguém mais médio super que o Elton John!

Tina: Madonna.

Kid: Super super.

Tina: Brad Pitt e Angelina Jolie.

Kid: Super super.

Tina: Amy Winehouse.

Kid: Super Supérrima.

Tina: Roberto Carlos.

Kid: Ultra Super..

Tina: Roberto Carlos é ultra super e o Elton John médio super?

Kid: Tina, isso não depende de mim. Não sou que determina as coisas, assina os
papéis. O que eu posso fazer? A NASA que avalia o nível de supremacia de um indivíduo em seu meio.

Tina: Elton cantou pra rainha. Virou Sir.

Kid: A rainha no caso que é a super super da situação, etende? É muito complexo.

Tina: E eu sou o que?

Kid: Mini mini, né.

Tina: Tipo a sua cenoura?

Kid: Igualzinha.

Tina: Tipo a tia da Fedô.

Kid: Essa era super mini.

Tina: Super???!!!

Kid: Nesse caso, ser super não é bom.

Tina: Eu não quero ser mini mini.

Kid: Eu já te disse, isso não depende de mim... É a NASA...É a NASA!

Tina: E o que as celebridades fazem na lua?

Kid: Vivem uma vida normal. A vida que não conseguiram ter na terra... Na lua é muito mais fácil. Não tem assedio, trânsito, essas coisas...

Tina: Por isso que eu não reclamo da minha vidinha simples, Kid. A gente batalha, mas vive bem. Sem aporrinhação. Essa gente tem as coisas de mão beijada e não valoriza... No fim das contas ser mini mini é muito mais jogo.

Kid: Cabecinha colonizada terceiro mundista!

Tina: Sou feliz anônima e não faço a mínima questão de ir morar na lua.

Kid: Três grandes verdades nesse mundo, aprende: “dinheiro não traz felicidade, mas é melhor chorar na banheira bebendo champanhe do que num ônibus cheio”. “Deus ajuda quem cedo madruga, porque ele acorda depois das duas e precisa de gente tocando os negócios ” e por fim, “Fumar não emagrece, mas parar de fumar engorda.”

Tina: E o que você quer dizer com isso ?

Kid: Que o meu inconsciente super descobriu tudo e estou super doida pra fumar um super cigarro. Você me acompanha? Se a gente correr ainda pega o especial do Michael!

Tina: E o serviço?

Kid: Que serviço?

Tina: Do velório.

Kid: Que velório?

Tina: Esse velório que fomos contratadas para animar!

Kid: Quem?

Tina: Você e eu.

Kid: (saindo, cínica) Quem é você?

Tina: Como assim?

Kid: Meu inconsciente não reconhece você em meus sistemas! (saindo)

Tina: Kid! Volta aqui! Olha o golpe!

Kid: Meu inconsciente não reconhece ninguém que seja mini mini!

Tina: Kid Bauhaus! Você não vai me deixar sozinha aqui com esse pepino!

Kid: Tem mini cenoura! Todas suas! (entrega um pote cheio de cenoura para a amiga)

Tina: Kid!

Kid: Meu inconsciente pisca com alerta: nicotina! Nicotina! (saindo) Nicotina! Nicontina!

Tina: (vai atrás) Kid!!!

(super fim)

para Michael, o nosso eterno mega super.

domingo, 28 de junho de 2009

EVA de Camilo Pellegrini

E = EVA

S = SERPENTE

EVA se surpreende ao dar de cara com a macieira e a SERPENTE por perto.

E- (ASSUSTADA) Você?!

S- Oi, bonita! Como vai!

E- Eu... Eu...

S- Perdeu a língua?

E- Com licença. Vou embora.

S- Espera! Pra quê a pressa? Não vai dizer que tem algum compromisso marcado.

E- As cotovias estão esperando por mim.

S- Não vai embora desse jeito. Fica um pouco. Vai fazer o quê com as dementes das cotovias?

E- A gente marcou um piquenique.

S- (DESCONFIA) É mesmo? Aonde?

E- Lá no... lá atrás... do... lá no rio de sorvete de chocolate.

S- Não tem piquenique nenhum! Mentirosa.

E- (TENSA) Tem sim! Tem sim! Elas estão me esperando! A gente vai tomar muito sorvete!

S- Você mente mal, Eva. Seus olhos ficam turvos. As rugas quase imperceptíveis da sua testa desabam numa careta hedionda.

E- (SONSA) Quem está mentindo? Eu?

S- Imagina se teu pai sabe disso, com que cara Ele não vai ficar?

E- Vão estou mentindo coisa nenhuma! Você é má! A gazela me contou!

S- Contou o quê, ô sua lerda? Não sabe nem mentir.

E- Contou que você tem dentes afiados de onde escorre veneno.

S- Vocês, fêmeas de mamíferos, são todas umas coitadas.

E- Coitada é tu! Criatura rastejante!

S- As répteis sim, as fêmeas de inseto também, são mulheres de fibra! Já você vai estar sempre à sombra do teu eterno maridinho. Por mais que se esforce, sempre vai ser a costelinha tímida que não servia pra nada e acabou virando gente.

E- Cala essa boca, cobra caninana! Eu jamais ficarei à sombra do Adão, ouviu bem? Jamais!

S- Então por que não fica e conversa um pouco comigo?

E- (SUBITAMENTE RETRAÍDA) Eu não posso... Foi como te falei... Tenho piquenique.

S- Piquenique o cacete.

E- A corsa me disse pra não falar com você.

S- Não foi veadinho nenhum que falou mal de mim não. Foi aquele loiro seboso. Teu namorado. Ele manda você fazer as coisas e a idiota obedece.

E- (CONFESSA) Foi ele que falou sim. E Papi também.

S- Mesmo assim você veio. Porque tem uma coisa que você quer.

E- (MENTE MAL) Tem coisa nenhuma.

S- Tem sim. A maçã. Você está doida pra dar uma mordida nela.

E- Quem? Eu? Eu não.

S- (PROVOCA) Mas Papi proibiu. Papi deixa a filhinha fazer tudo! Faz rio de sorvete de flocos pra filhinha! Faz rio de estrogonofe. Mas rio de maçã Papi não faz. Não pode comer maça. É proibido.

E- Só queria saber que gosto tem.

S- Nada de mais, viu? Doce, mas sem graça. Não é como um bolo de chocolate cremoso, uma torta de nozes... É simplesmente... maçã.

E- Mas por que Papi proíbe?

S- Porque se você comer a maçã, essa folha colada no teu sexo vai cair. Você vai perceber que não é só Papi que pode gerar uma vida. Você também pode.

E- (ANIMADA) Está brincando!

S- Adão vai entrar dentro de você e vocês dois, suados e sem fôlego, vão se deleitar muito mais do que tomando banho de sorvete.

E- Melhor que banho de sorvete? Será?

S- Papi vai ficar uma fera e expulsará vocês dois do Paradise. Lá embaixo vocês vão morrer, pegar doenças, entrar em guerras, e Papi não vai consertar quando sua cabeça for arrancada por acidente.

E- Que horror!!!

S- E você vai engordar que nem uma vaca se comer do jeito que você come aqui em cima! Isso se você tiver comida. Você vai ter que trabalhar pra se alimentar.

E- (HORRORIZADA) Trabalhar?

S- Fora que nos primeiros dez mil anos vocês vão ser consideradas inferiores que os homens. Vai ser uma longa batalha conquistar a igualdade.

E- (DESANIMADA) Dez mil anos...

S- Você já vai ter parido muitos filhos, testemunhado o decair das tuas carnes, conhecido a solidão da morte.

E- E o que acontece? O que acontece quando a gente morre?

S- Não sei? Você volta por colo do Papi? Ou cai na escuridão de vez? Você vai ter que provar por si mesma. E aí, garota mimada?... O que vai ser?

(PAUSA)

E- O Paraíso está um tédio. Passa essa maça pra cá.

FIM

sábado, 27 de junho de 2009

ANJOS E DEMÔNIOS de Juli Spadaccini

Homem chegando ao céu, encontra um anjo.

H - Com licença.

A - Pois não?

H- (rindo) Você é um anjo?

A- Sou.

Homem ri copiosamente.

A- Qual é a graça?

H- Desculpa, é que eu ouvi falar tanto em vocês, mas não imaginava que era verdade...

A -O que?

H -Isso de asinhas brancas... e ... bem o cabelo é um pouco diferente...

A- O que tem meu cabelo?

A- Ah, sei lá... tá faltando uns cachinhos dourados, pelo menos é assim que a gente acha que são os anjos...

Anjo começa a chorar.

H- Que foi? Ta chorando por quê?

A - Eu tentei de tudo para ter cachinhos dourados. Fiz reflexos, luzes e até comprei o baby Liss, mas nasci assim sem uma ondinha, nada, uma lisura sem fim...

H- Engraçado.

A- O que?

H- Lá em baixo é diferente.

A- Diferente como?

H-Lá embaixo todo mundo que tem cachinhos quer alisar. Escova de chocolate, japonesa, água sanitária...

A- Que engraçado...

H- É...

A – O que mais falam dos anjos... como é mesmo o seu nome?

H- José.

A- José... e o que falam?

H- Ah... que vocês... que vocês...

A- O que?

H- Se eu falar você vai chorar.

A- Que usamos auréolas? Isso é coisa antiga, na nova coleção podemos usar até chapéu panamá.

H – Não é isso.

A- Que tocamos arpas? Isso era verdade, mas Deus começou a ouvir techno celestial e pediu para gente investir na coisa de DJ.

H – É mesmo? E o que vocês tocam?

A- Fizemos uma série chamada “orações para dançar”: Ave Maria remix, Afro-aleluia, essas coisas.

H- Tem rave?

A- Claro. Todo domingo no inferninho.

H- Mas vocês podem ir para o inferno?

A- Escondidos... o diabo aluga uma Vanjo para gente.

H - Como?

A- Vanjo, van para anjos.

H- E Deus nunca descobriu?

A- Ah, Ele sabe mas não finge que não... mas então, é isso que falam dos anjos?

H – Não, não é isso.

A - O que é então?

H- O pessoal da Terra acha que vocês são meio... frutinhas.

A- Frutinhas? Não entendi.

H -Que não... não...

A- Ah! Que não temos sexo?

H - Isso.

A- É verdade, não temos.

H - Mas e aí? Qual é a graça de ir para a rave no inferninho e não poder pegar ninguém?

A – (dá uma piscadela) Asas.

H- Asas?

A – Os humanos subestimam o valor das asas.

H- Não é verdade, nosso sonho é voar.

A – Mas o melhor de ter asas não é voar.

H- É o que?

A – Não dá para explicar. Só os anjos conseguem sentir.

H- Vocês são muito estranhos...

A-É mais fácil, rápido e bonito.

H – O que? Dar uma asada em alguém? Credo!

A – Pode se acostumar, pois se você chegou até aqui é porque vai virar anjo.

H- Eu? Mas eu sou péssimo, jamais seria um anjo.

A – Imagina, você foi ótimo!

H- Fui péssimo, cafajeste, irresponsável, boca suja, mentiroso. Não tenho a menor condição de ser anjo. No máximo ajudante do capeta.

A – Você acha que ser anjo é um prêmio?

H- Pô! Não é?

A – Claro que não! Como eu disse, a diversão rola solta no inferninho, aqui no céu a coisa anda tão parada que Deus resolveu que o castigo é o paraíso.

H- Mas o paraíso deve ser legal, vai... cheio de redes para dormir, sem hora para nada, ventinho no cabelo...

A – Tédio. Tédio puro. Depois de 24hs, você não agüenta mais as redes e começa a fazer aeróbica guiada.

H- Como assim?

A – Tem um grupo de anjos que fica fazendo animação no paraíso para ninguém ter gangrena de tanta falta do que fazer.

H – E a comilança?

A – Frutas, no máximo uma bananinha com mel, quando as abelhas resolvem ajudar...

H- E a praia?

A – Laguinho.

H – Mas só de não precisar trabalhar já está bom...

A – Não precisa trabalhar? Você tem noção do que é passar o dia pegando fruta no pé, água do lago para banho e acolhendo os que acabaram de morrer. Você está tranqüilo, mas tem suicida que chega aqui arrependido e você tem que acalmar, é um desastre...

H- Suicida entra aqui no paraíso.

A – To dizendo que as coisas mudaram.

H- Mas então eu quero ir para o inferno.

A – Não dá mais.

H- Pelo amor de Deus, me ajuda!

A – Escolhe, quer que eu ajude ou Deus?

H – Eu faço qualquer coisa para ir para o inferno!

A – Qualquer coisa?

H – Qualquer!

A –Mesmo?

H- To dizendo!

A – Então você tem que assinar aqui.

H- Eu assino.

Anjo tira documento do bolso.

A – Assina aqui e aqui. Com letra legível, hein. Isso.

Homem assina.

A – Pronto, agora você pode seguir por ali que vai direto para o inferno.

H- Ai, obrigada, queridão! Você foi realmente um anjo!!!!

A – Imagina...

Homem sai feliz da vida. Entra outro anjo, agora de cachinhos douradinhos, arpa e tudo.

Anjo 2 – Você viu um cara chamado José por aqui? Tenho que levar ele para o paraíso e estou atrasado...

Mostrando a direção.

A – Ele foi por ali.

Anjo 2 – Ah, obrigada!

Assim que o anjo 2 sai, Anjo 1 mostra o rabinho de capeta para a platéia.

A – Ai, ai, difícil fazer o trabalho todo sozinho...

A dá uma gargalhada e sai.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

POR TODA A ETERNIDADE de Renata Mizrahi

(Marcos e Patrícia estão deitados no chão. Ele acorda primeiro que ela. Ele olha ao redor. Vê que está em um ambiente diferente do que está acostumado e gosta do que vê).

MARCOS: Pati, Pati, meu amor, acorda.

(Patrícia vai acordando devagar)

PATRÍCIA: mhummumm

MARCOS: Acorda, meu amor. Sou eu.

PATRÍCIA: Mhummumm

MARCOS: Amor da minha vida, acorda.

(finalmente ela acorda)

PATRÍCIA: Marcos?

MARCOS: Sou eu, meu amor.

PATRÍCIA (assustada): Ah, não meu amor, eu não sei se é uma boa idéia. Não, meu amor, vamos mudar de idéia. Não sei se...(ela repara num outro lugar) Que lugar é esse?

MARCOS: Meu amor, eu acho que a gente conseguiu.

PATRÍCIA: Conseguiu o quê?

MARCOS: A gente conseguiu, meu amor. Eu não disse? A gente ia conseguir. Que bom, que bom.

PATRÍCIA: Marcos, o que a gente conseguiu?

MARCOS: Você não lembra, meu amor? A gente conseguiu! Eu nem acredito. Olha para esse lugar. É lindo, é mágico. Eu sabia, eu sabia, meu amor. Agora estamos aqui. Juntinhos. Eu e você por toda a eternidade.

(Após marcos falar essas palavras, Patrícia se levanta assustada)

PATRÍCIA: Por toda a eternidade?

MARCOS: Olha que lugar lindo, meu amor. Respira esse ar puro, olha as cores. Eu sabia, eu sabia. Vem cá, vamos comemorar, me beija.

PATRÍCIA (se afasta): Marcos... Isso é um sonho, não é possível, isso só pode ser um sonho. Não é possível. Não! Marcos, não pode ser. Não.

MARCOS: Por que você tá assim, meu amor?

PATRÍCIA: Eu tô confusa.

MARCOS: Confusa por quê?

PATRÍCIA: Marcos, eu disse pra você que eu não queria. Eu não queria. Por que você fez isso comigo? Por quê?

MARCOS: Pelo seu bem, meu amor. Pelo nosso bem. Tá vendo? Agora podemos viver uma vida nova. Cheia de alegrias, cheia de maravilhas.

PATRÍCIA: Não, Marcos, não. Uma vida nova? O que você chama de vida nova? Você acabou completamente com a minha vida! Aaahhh!!!

MARCOS: Não esqueça que você queria. Você queria. Só desistiu no final. Ficou com medo. Mas era tarde demais. No final não vale. Já não dava mais tempo. Mas pensa que deu certo. Deu certo. Deu certo.

PATRÍCIA: Será mesmo que deu certo?

MARCOS: Olha em volta, meu amor. Só pode ter dado certo. Olha em volta.

PATRÍCIA: Será? O a gente que fez não foi coisa que Ele aprove assim, Marcos.

MARCOS: Como não aprova? Olha onde Ele nos colocou. Pássaros cantando, flores, céu azul, cheiro de orvalho. Ele viu que o que a gente fez foi por uma causa nobre. Tudo quando é por amor é perdoado. Agora estamos aqui, livres, felizes no paraíso, por toda a eternidade.

PATRÍCIA: Estamos? Livres, felizes no paraíso?

MARCOS: Você não está vendo?

PATRÍCIA: Sim, estou vendo. Mas... tudo é tão estranho.


MARCOS: não pensa assim. Pensa que o amor vence todas as barreiras, que o amor supera todas as causas.

PATRÍCIA: Sim, entendo. Estou conseguindo ver. O amor! Por amor!

MARCOS: Isso. Por amor.

PATRÍCIA: E quando é por amor, até o suici...

MARCOS: Não fala essa palavra. Em respeito ao lugar, eu acho melhor a gente não arriscar.

PATRÍCIA: Mas nós já estamos aqui...

MARCOS: Graças a mim. Graças a minha brilhante idéia. Graças aquele vene...

PATRÍCIA: Não fala essa palavra. Em respeito ao lugar. Eu também acho melhor a gente não arriscar.

MARCOS: Isso, meu amor. Isso. Vamos aproveitar, vamos aproveitar o nosso amor.

PATRÍCIA: Por toda a eternidade.

MARCOS: Por toda a eternidade. Como a gente sempre quis.

PATRÍCIA: Olha, Marcos. Flores! Flores por todos os lados.

MARCOS: Olha a grama verde!

PATRÍCIA: Olha quantos passarinhos!

MARCOS: Cantam que é uma beleza.

(nesse momento eles começam a cantar como se estivessem num musical)

PATRÍCIA e MARCOS: cantam
“Passarinhos. Passarinhos.
Eles cantam só pra mim.
Quantas flores. Muitas cores.
O paraíso é mesmo assim.

É tanto verde.
E o céu todo azul.
Alegria.
Do norte até o sul.

Estamos juntos. Sempre juntos.
Agora eu posso ser feliz...”

PATRÍCIA: Puxa, meu amor. Desculpa, eu duvidei de você. Tô até envergonhada.

MARCOS: O nosso amor era grande demais para aquele mundinho, aquele lugar fétido sem esperanças. Aqui estaremos muito melhor.

PATRÍCIA: Será que aqui, já que tudo pode acontecer, conseguirei finalmente ter filhos com você?

MARCOS: Claro, claro. Por que não? Nossos filhos serão anjos correndo por esse jardim.

PATRÍCIA: Meu amor, isso é um sonho. Meu amor, que alegria! Obrigada. Eu amo você!

MARCOS: Eu amo você também!

(eles correm e se abraçam pela primeira vez. Ao se encostarem, gritam de dor, como se tivessem levado um choque. Se abraçam de novo e acontece o mesmo. Repetem esse gesto várias vezes.)

PATRÍCIA: Meu amor, que estranho. O que está acontecendo?

MARCOS: Não sei meu amor. Vamos tentar nos encostar bem devargazinho...

PATRÍCIA: Confesso que estou com medo.

MARCOS: Não tenha medo. Nosso amor supera tudo.

PATRÍCIA: Foram essas palavras que você disse na hora do suicí...

MARCOS: Não!! Nós já combinamos. Vai. Devagar...Ponta do dedo com ponta do dedo.

(eles vão devagar tentando encostar as pontas do dedo, ao encostarem se afastam como se tivessem levado um choque.)

MARCOS: Não é possível. Alguma coisa está dando errada!

PATRÍCIA: Eu disse, eu disse. Ele jamais concordaria com uma coisas dessas. Você não leu a bíblia, a torá, o alcorão?

MARCOS: Não. Fizemos isso por um desejo único de sermos felizes por toda a eternidade. Que mal há nisso?

PATRÍCIA: Mas Marcos, na hora eu desisti e você me obrigou ...

MARCOS: Você não podia ter desistido. Não vê que na verdade eu te salvei...

PATRÍCIA: Salvou? Salvou mesmo? De que adianta estarmos nesse lugar lindo, com pássaros cantado e flores coloridas, se não podemos nem nos tocar? (tempo) Aaah! Eu quero volta, eu quero voltar. AAhhh!!!!! (ela fica completamente histérica)

MARCOS: Cala a boca! Cala a boca! Sua voz parece o inferno!

(silêncio)

Os dois! AAAAHHHH!!!!

(Volta a música bem distorcida)

FIM.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

MOTEL PARAÍSO de Larissa Câmara

Personagens:
Rock – a virilidade com alma de salto alto
Bruna – esmalte vermelho desejo com força
Dr. Marcondes – uma resolução de caráter...


(A Ação se passa num quarto do Motel Paraíso. Luzes piscam, ouvimos em alto e bom som a música “Don´t stop the music” , ou similar, (http://www.youtube.com/watch?v=xsRWpK4pf90&feature=fvst ) Rock e Bruna, putos de aluguel, começam seu show para o contratante. Bruna está agarrada na cintura de Rock. Eles executam uma coreografia que deve ser sexualmente provocante, mas beira o patético. Bruna numa sensualidade vulgar e Rock com uma virilidade exibicionista).

Dr. Marcondes: (falando alto até interromper a música) Pára... Pára. Pára!

(Rock e Bruna se olham sem entender. A música pára. Rock e Bruna levemente constrangidos)

Bruna: Quer que troque a música?

Rock: A gente pode fazer outra coreô...

(Dr. Marcondes sentado olhando para baixo com a cabeça entre as mãos em silêncio.)

Bruna: (quase maternal) Já sei. Ele quer relaxar... (piscando confiante) Rock, vamos fazer aquela!

(Com a emoção dos bailarinos de festa de formatura, começam uma coreografia romântica ao som da música Say You'll Be There (http://www.youtube.com/watch?v=9ro0FW9Qt-4))

Rock: (num sorriso singelo) Uhul! Spice Girls Adoro!

(Dr. Marcondes faz sinais discretos com a mão pedindo para eles pararem. Rock e Bruna param de dançar. A música pára. Dr. Marcondes começa a chorar)

Bruna: (tirando um chicote da liga. Dominatrix para Dr. Marcondes) Hum, o gatinho quer ser dominado? Se continuar chorando vai apanhar? Quer levar muitas palmadas nesse bumbum? Vem aqui! A sua dona vai te bater!

(Dr. Marcondes faz sinal de pausa. Vai até o banheiro lavar o rosto)

Rock: (num suspiro) Ai, meu pai!

Bruna: Isso nunca me aconteceu antes.

Rock: (afetado) Sei. Tem certeza que é aqui?

Bruna: Claro.

Rock: Claro, nada Bruna. Você é meio burra para anotar recado.

Bruna: (tirando uma folha do bloco de recados dos seios) Motel Paraíso, bloco Jardim do Éden, quarto 7. É aqui mesmo.

Rock: Sei não, heim, Bruna. Cliente que chora dá um azar.

Bruna: Ih, Rock. A situação já está difícil vai querer bancar o implicante?

Rock: (semi magoado) Ih, tá bom. Não falo mais nada. (pausa malvada) Não sei... Acho que ele chorou porque sacou que você parou de malhar. Sua bunda tá uma gelatina.

Bruna: (gargalha) Ele chorou porque você deu pinta. Você é mais mulher do que eu. Ele contratou um casal, não um show lésbico mexicano.

Rock: (go-go boy ferido) Ih, eu sou super bofe!

Bruna: (rindo) Bofe de unha postiça.

Rock: Ih, parei com você. Pintei francesinha. Tô super discreto. A unha postiça eu posso arrancar, meu amor. Mas, a sua bunda, só Jesus!

Bruna: Eu piso no seu recalque, bicha ploc!

Rock: (estourando uma bola de chiclete) É Bubbaloo, meu amor! Eu sou fino! (pausa) Você combinou o preço antes?

Bruna: Meu querido, eu não saio de casa sem saber quanto eu vou ganhar.

Rock: Acho bom mesmo. (pausa) Tô quase achando que ele chorou para ganhar desconto.

Bruna: Fala baixo que ele está voltando.

Dr. Marcondes: Oi. Boa Noite.

Bruna: (piranha light) Boa noite!

(Rock faz um aceno de cabeça e cruza os braços, muito viril escondendo as unhas postiças)

Dr. Marcondes: Meu nome é Marcondes.

Bruna: Eu sou a Bruna. Ele é o Rock. E aí? Tudo legal?!

Dr. Marcondes: Vocês estão vendo aquela caixa? (aponta para uma caixa de ventilador no canto do quarto).

Bruna: (meio tensa, mas querendo ser fofa) Aham... Olha só eu posso até tentar entrar na caixa, mas eu não sou muito alongada. Eu tenho uma amiga que é contorcionista do forró...

Dr. Marcondes: (interrompendo) A caixa está ocupada.

Bruna: Ah, tá Legal.

Rock: (Semi tenso para Bruna) Sinistrinho, esse cara.

Dr. Marcondes: Eu quero os dois de quatro no chão agora!

(Rock e Bruna ficam de quatro. Dr. Marcondes pega uma pá)

Rock: (medroso) Na boa, eu faço de tudo... Mas, não quero que me bate nem que puxe o meu cabelo.

Bruna: Ai, Rock.

Dr. Marcondes: (num suspiro. Acende um charuto) A sociedade está cheia de desentendimentos. Por exemplo, eu acho que nós não estamos nos entendendo. Isso é fruto de quê? Da falta de comunicabilidade da sociedade contemporânea.

Bruna: (burra) É verdade. Super concordo.

Dr. Marcondes: Não me interrompa.

Bruna: Desculpa.

Dr. Marcondes: Eu estava na sacada da minha cobertura com a minha mulher. Nós nos desentendemos por um motivo bobo, um motivo banal, eu diria. O seguro de vida milionário dela... Banal, não é mesmo? Ela se desequilibrou e caiu da sacada. Um acidente. Eu diria mais: Um joguete do destino. Agora tudo o que sobrou dela está naquela caixa de ventilador portátil. Nunca pensei que ela pudesse acabar assim. (reflexivo) É da vida não se leva nada.

Rock: (num sussurro de pavor) Eu não queria estar aqui. Eu ganho muito mais fazendo cover da Britney Spears em festa infantil.

Bruna: Quietinho, neném.

Dr. Marcondes: Eu vou explicar como funciona. Vocês vão arrancar o carpete encardido desse quarto e começar a cavar uma cova linda para minha esposa. Quando o meu charuto acabar eu quero a cova pronta, ou eu acabarei com vocês. Entenderam?

(Rock e Bruna apavorados acenam a cabeça num sim trêmulo. Dr. Marcondes joga a pá para Rock.)

Rock: (num gemido) Ai, minha unha postiça.

(Rock e Bruna num abraço repentino com choro sincero)

Dr. Marcondes: (numa baforada de charuto cruel seguida de uma gargalhada) Comecem a cavar!

Fim...
“Final Bônus Track”
(Rick e Bruna cavando cantarolam chorando juntos)

Rock e Bruna: I´m a slave for you! (http://www.youtube.com/watch?v=kuZKbXNGDs4)

FUMAÇA DE CHARUTO... TREVAS...

terça-feira, 23 de junho de 2009

O PARAÍSO PERDIDO de Felipe Barenco

“Eu não me acostumo sem seus beijos, e não sei viver sem seus abraços, aprendi que pouco tempo é muito se estou longe dos seus braços... E por isso eu te procuro tanto e te telefono a toda hora, pra dizer mais uma vez te amo como estou dizendo agora... Faço qualquer coisa nessa vida para ficar um pouco do seu lado...”

R – Eu errei, mas quero voltar atrás.

L – O que eu mais admirava em você era o seu caráter e você me traiu. Eu nunca poderia imaginar que isso fosse acontecer.

R – Eu não soube como contar. Fui covarde... Me perdoe.

L – Você foi egoísta.

R – Eu não consegui mais te ver como homem. Você se transformou em um pai, um irmão, um melhor amigo para quem eu poderia contar tudo.

L – Você não me respeitou como amigo, isso é o que dói mais.

R – Acho que eu me apaixonei pela sua companhia... meu coração ficou confuso.

L – Vocês ficaram quanto tempo juntos?

R – Um mês.

L – E nunca pensou em me contar?

R – Não. Você pode não acreditar, mas era pra te proteger.

L – Eu quero te pedir uma coisa.

R – Pode falar...

L – Por respeito e consideração ao amor que eu ainda sinto por você, e que eu não faço idéia de como vou arrancar de dentro de mim, não me procure, não me ligue e não queira saber como eu estou.

R – Nós não podemos nem ser amigos?

L – Eu jamais vou conseguir te esquecer se nós convivermos como amigos.

R – Eu não quero que você pense que o que nós vivemos foi mentira.

L – Várias vezes, quando eu pressenti que algo estranho acontecia, eu me apegava às pequenas coisas para te defender da minha desconfiança: o respeito que você tem pelos seus pais, a sua responsabilidade com o trabalho, as suas orações antes de dormir...

R – Me perdoa, por favor... eu não sei como ficar longe de você...

L – Não dá mais... uma mentira dessas me fez perceber que eu nunca soube com quem estava. Isso é assustador.

R – Você sabe que me conhece.

L – Eu vou embora porque eu preciso cuidar de mim. Eu errei pagando as suas contas, eu errei te esperando até tarde, eu errei fazendo comida para você ter o que almoçar... eu contribuí para que você me enxergasse apenas como um irmão.

R – Eu te amo, eu te amo tanto, acredita em mim... por favor!

L – Quando eu lhe pedi em namoro, você respondeu que era para termos paciência, porque dessa vez você queria acertar...

R – Eu quero acertar com você.

L – Se você puder me devolver aquele escapulário que eu lhe dei de presente...

R – Por quê?

L – Porque era meu. E outra vez errei presenteando você...

R – Desculpa, por favor.

L – Eu vou apagar seu telefone, todos os emails que nós trocamos, as fotos... pode ser que daqui a um tempo eu consiga falar contigo, mas agora não dá.

R – Eu respeito...

L – E pode ser que daqui a vinte anos eu olhe pra trás e perceba que você foi o grande amor da minha vida... mas eu preciso abrir mão dessa história que nunca existiu.

R – Existiu, sim.

L – Existiu e você fez questão de destruir. Devolve o meu espaculário, por favor.

Tira o cordão do pescoço e entrega.

R – Desculpa... estou morrendo de vergonha.

L – Não precisa se desculpar... Apesar de toda a dor, eu vou embora em paz, porque eu me entreguei a você de verdade. E eu não quero transformar nada disso numa frustração.

R – Eu vou ficar com os melhores momentos e os melhores dias.

L – Tá bem.

R – Estarei de longe acompanhando tudo o que você faz e torcendo...

L – Não esqueça que um dia eu te convidei para acompanhar tudo de perto, para fazer parte e compartilhar.

R – Fica um pouco mais.

L – Eu preciso ir, não deveria nem ter vindo aqui... Fica com Deus... E esqueça que eu existi, porque eu preferia nunca ter conhecido você.

Vai embora e os dois choram.

“...Todo mundo diz que não existe ninguém mais apaixonado. Meu amor, você é minha vida. Sua vida também sei que sou... Cada vez mais juntos, quem procura por você sabe onde estou... Olha, eu te amo tanto e você sabe... sou capaz de tudo se preciso, só pra ver brilhar a todo instante no seu rosto esse sorriso...” Eu te amo tanto – Roberto Carlos


FIM?
ps. queridos leitores, postei hoje também meu texto da semana passada sob o tema Portugal.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

"Paraíso zona sul" de Jô Bilac

Personagens: Vicentinho, meio careca.
Bruna, meio sensual.
Voz rouca, meio vingativa.



(telefone toca)

Vicentinho: (gentil, coçando a cabeça com um lápis) Doceria “Paraíso na boca”, em que posso servi-lo?

Voz rouca: Alô, Vicentinho?

Vicentinho: Sim é ele. Quem fala?

Voz rouca: Alguém que não gosta de ver os outros fazendo papel de palhaço.

(tempo)
(o lápis cai no chão)

Vicentinho: (trêmulo, já suando nas têmporas) Algum doce especial? Uma encomenda?

Voz rouca: (risada sardônica) Tá sentado, meu camarada? Porque segura que é badejo..............

Vicentinho: O senhor poderia ser mais específico... Não estou ouvindo bem?

Voz Rouca: É sobre Bruna, a sua mulher.

Vicentinho: (dissimulado) Fala mais alto, por favor, senhor.

Voz Rouca: Bruna, a sua mulher, faz barba, cabelo e bigode!

(silencio)

Voz rouca: Você está aí?

(silencio)

Voz rouca: Vicentinho?

(silencio)

Voz rouca: Vicentinho...

Vicentinho: Duas xícaras de leite e meia dúzia de ovos. Separa a clara da gema, mas não joga a gema fora, se aproveita mais tarde.

Voz rouca: Tem alguém aí com você? Chegou alguém na loja? Você ouviu o que eu falei?

Vicentinho: Como se faz um bolo de nozes. Duas xícaras de leite e meia dúzia de ovos. Separa a clara da gema, mas não joga a gema fora, se aproveita mais tarde.

Voz rouca: Não faz o louco! Você me ouviu muito bem... Bruna, a sua mulher, faz vida na zona!

Vicentinho: (sem expressão alguma) Sim, um bolo de nozes é mais fácil do que você imagina. O segredo está na farinha, às vezes o barato sai caro, é melhor pagar um pouco mais e ter uma farinha mais digna.

Voz rouca: (intrigado) Isso é um código? O que tem a farinha... Repete.

Vicentinho: A farinha deve ser aquela bem branquinha, pra dar liga com a gema mais tarde. Ao contrário da manteiga, que no caso pode ser qualquer uma.

Voz rouca: Seu abestalhado! Por um acaso está debochando da minha cara? (nova gargalhada, mais amarga) Sei até o preço que a sua mulher cobra! Sei até o preço!

Vicentinho: As nozes realmente são caras, mas se preferir pode substituir por amendoim, é mixuruca, mas engana. Empapuce as nozes, ou o amendoim, na farinha e bata tudo por vinte minutos. Unte a forma com claybon , despeje tudo e leve ao forno brando.

Voz rouca: Bruna, a sua mulher, se lambuza com batom cereja e vai desfilar no calçadão!Bebe água de coco com americano! Com americano! Será que você não consegue entender? Você é o escárnio geral, a piada mal contada, o berro da tartaruga! Eu tenho pena de você Vicentinho, morro de pena! Mas não deveria, pois tem gente que nasceu com vocação pra trair, outros com resignação pra ser traído! Se você prefere fingir que nada aconteceu, lavo as minhas mãos. Mas se tiver um pingo de vergonha na cara: escorraça essa pilantra da sua casa à base de sopapo!!! Bruna, a sua mulher, não vale um alfajor! (desliga)

(silencio profundo.)

(O fone cai lento das mãos de Vicentinho ainda com as últimas palavras ecoando em sua cabeça)

Vicentinho: (parado contemplando nada)

(entra Bruna pelos fundos, sem que ele veja)

Bruna: (sorridente, tapando os olhos do marido por trás dele, ao pé do ouvido) Um queijo ou um beijo?

(Vicentinho apático)

(Bruna retira as mãos dos olhos do marido e lasca um beijinho de estalo)

Bruna: (com a inocência de quem trai) Eu tenho um segredo pra te contar... Faz algum tempo que venho escondendo isso de você... Mas acho que chegou a hora de você ficar sabendo...

(tira um envelope grande de sua bolsa)

Bruna: Sabe o que está em minhas mãos agora? (emocionada) Aqui... (indica o envelope) Você não consegue imaginar...? (uma lágrima de alegria escorre em seu rosto) Vicentinho... O nosso maior sonho... (sorri) Vicentinho... Nesse envelope... Vicentinho... Aquilo que a gente mais esperava. (ajeita os cabelos por trás das orelhas, suspira fundo e revela) O resultado do exame: Eu estou grávida... Você vai ser pai.

(Vicentinho tonto. Sem ar.)

Bruna: Você esperou tanto por esse dia, meu doce. Tanto! Seremos enfim uma família completa. Esse é o dia mais feliz da minha vida.

(Vicentinho sai do balcão cambaleando)

Bruna: (numa maravilha cega, protegendo a barriga com doçura) Nosso filho... Ele está aqui, Vicentinho... O fruto do nosso amor. Um rebento. O seu sucessor.

(Vicentinho abrindo uma garrafa de água ardente escondida numa prateleira e virando no gargalo)

Bruna: Já fazia um tempo que eu desconfiava, mas queria ter certeza. Tinha que ser especial. Tentamos tantas vezes, eu não queria gerar uma expectativa pra te frustrar depois... Me parte o coração. Mas eu rezei tanto, Vicentinho! Tanto! Muito mais do que você pode imaginar... Fiz promessa pra meia dúzia de santo! E quando eu vi o resultado do exame, hoje pela manhã, nem pude acreditar! Quase fui atropelada lá no centro da cidade, de tão pasma! Eu vim correndo pra cá... Confesso que não só apenas por conta disso, Não vou mentir, serei mãe e mãe não mente. Pois bem: No segundo seguinte em que tive a confirmação, meu primeiro desejo de grávida me veio implacável: como uma ordem divina, uma ânsia incontrolável... Uma vontade de comer um doce! Como se a minha própria existência dependesse disso. Mas eu não sei qual doce, ainda... Corri pra cá pra escolher! Meu primeiro desejo de grávida vai ser saciado aqui!

(Vicentinho virando a garrafa toda)

Bruna: (se colocando no centro da loja de doces, entre as máquinas de balas, chicletes, algodão doces, um paraíso açucarado) Eu quero comer um... (pensa, muito sapeca) Um... (olha todos os doces da loja, muito coloridos e atraentes) Um... (saliva enquanto seus olhos correm por cada prateleira abarrotada de guloseimas) Um... (acaricia os lábios numa expectativa libidinosa) Um... (perde o ar maravilhada avistando o doce cobiçado, quase num sussurro) Alfajor... Eu quero comer um alfajor!... (num murmúrio vampiresco, com o coração na boca)Você não pode me negar, Vicentinho, não pode... Desejo de mulher grávida não se contraria... Eu quero aquele alfajor... Eu quero todos eles... Todos em minha boca agora... Eu quero Vicentinho... Você quer que seu filho nasça com cara de alfajor? Não quer. Então vai me fazer a vontade... Pega pra mim... (mais sussurrada, mas vampiresca, com os braços estendidos, com as pontas dos dedos nervosas) Eu quero comer todos... Todos... Todos na minha boca... Agora... A cobertura de açúcar quebradiça... O recheio cremoso, com um toque de limão... Camada por camada... Derretendo... Escorrendo entre os meus dentes... Quero lamber o laminado protetor... Nenhum grãozinho poderá ser desperdiçado... Eu os quero! Um por um... Deixa. (mais vampiresca, compulsiva) Estraçalhar sem pena! Enfiar três na boca ao mesmo tempo! Esfregar nos meus lábios até inchar! Eu quero engolir tudo sem morder! Deixa, Vicentinho... Deixa! (possuída) À mulher grávida não se contraria!

Vicentinho: (frio) Não.

Bruna: (caindo das nuvens) Como assim?...

Vicentinho: (numa raiva surda) Qualquer um, ouviu? Você pode escolher por qualquer um... Menos por esse. Esse: você- não- come. Ouviu? Não encosta um dedo. Nunca mais! Você não come esse doce nunca mais.

(Bruna catatônica)

Vicentinho: (frio como um tubarão) Escuta, pois é a última vez que lhe digo: o dia em que eu souber que você encostou, viu, sentiu o cheiro desse doce... Eu espanco você até matar... (tempo) Entendeu?

(Bruna chocada)

Vicentinho: Entendeu?

Bruna: (num sopro) Sim.

Vicentinho: (mudando o tom absolutamente) Agora vamos comemorar! Hoje aqui: é feriado! (animalesco) Eu vou ser pai! (gritando pela porta da loja) Eu vou ser pai!!! Hoje é o dia mais feliz da minha vida!!!!!!!! Eu quero tomar banho de mar.

(Luz caindo em silêncio profundo)

domingo, 21 de junho de 2009

PORTUGUÊS NO GELO de Camilo Pellegrini

NAVEGANTE

INQUISIDOR (ou INQUISIDORA)

NAVEGANTE está todo molhado, com andrajos em farrapos que relembram a época do descobrimento do Brasil, ELE tem os braços amarrados. Não vemos o INQUISIDOR em princípio. NAVEGANTE é português. Se der pra fazer sotaque, tudo bem, mas se não der não tem problema.

I- O senhor tem a pachorra de dizer que não sabe porque está aqui?

N- Não sei não, senhor.

I- Nenhuma idéia? Nada?

N- Quem é que está a falar?

I- Por que não chuta?

N- Estou com muito frio.

I- Faz bem pros neurônios, chutar de vez em quando.

N- Chutar o quê, santo Deus? Quer me botar maluco? Chutar onde? Do que é que estás a falar? Onde estão os outros?

I- Morreram todos.

N- Não.

I- Só sobrou o senhor.

N- O que é que aconteceu com a caravela?

I- Perdão?

N- A caravela! Onde ela está? O maldita, sob minha responsabilidade!

I- Sinto muito.

N- Não pode ser.

I- Não foi encontrada caravela nenhuma.

NAVEGANTE chora copiosamente.

N- Estou perdido! Hão de matar-me!!!

I- Calma. Não é para tanto.

N- Sabe quanto caiambá custa uma embarcação daquelas?

I- Não faço idéia.

N- O Imperador deve estar a querer minha cabeça!

I- Duvido muito.

N- Por que isso foi acontecer?! Logo comigo?! Onde eu errei, meu Deus?

I- Você não tem idéia, Manuel? Jura que não sabe o que fez de errado?

N- Pelo amor de Deus! Não!!! Por que estão me mantendo aqui?

I- Faz um esforço. Vamos lá.

N- Alguém me tira daqui! É frio demais! Estou a morrer!

I- (RI SARCÁSTICO) Duvido, e muito. Se não morreu até agora.

N- Alguém pode, pela graça do Senhor, me explicar o que está acontecendo?

Voz do INQUISIDOR parece mais sinistra, mais opressora.

I- Acho que não entendeu, seu Manuel. Quem vai falar aqui é o senhor. O senhor vai fazer a gentileza de nos dizer o que fez de errado. O senhor sabe que precisa pagar, não sabe?

N- Pagar? Não fiz nada! Juro por tudo! Não fui eu! Sou inocente!

I- Minha paciência está se extinguindo a passos largos.

N- A culpa não foi minha. Era gelo pra todo lado. A caravela bateu numa geleira. Eu caí na água fria e não lembro mais de coisa alguma.

I- Encontramos o senhor anteontem, preso num enorme cubo de gelo. Como um pernilongo no âmbar. O senhor permaneceu ali, intacto, congelado os anos todos. O gelo que afundou seu barquinho abraçou o senhor e o manteve vivo até então.

N- Então foi assim que eu não morri. Não foi dessa vez que me levaram desse lodo.

I- Dificilmente. O senhor está mais vivo neste lodo do que pensa. Pedaços do senhor estão espalhados por todo o país. E em mim também. Eu tenho um pouco do senhor, como tantos outros.

N- Chega! Estás a me enlouquecer!!! Chama minha mulher! Eu quero minha mulher! Meus filhos!

I- Todos já morreram. E não estamos em Portugal, seu Manuel.

N- Morreram?! Onde?! Onde estou?!

I- Estamos no Brasil.

N- Brasil?...

I- Lembra de uma pequena safadeza que fizeste nas terras de cá? Uma estripulia sem conseqüências. Uma jogadinha de água pra fora da bacia?

N- Estás a falar português mesmo? Não entendo! O que quer de mim?

I- Apenas que confesse.

N- Confessar o quê, Jesus? Nunca fiz mal a ninguém.

I- Nem a uma moça chamada Paixanambé?

N- Paixanambé, o senhor diz a índia?

I- Conhece outra?

N- (REVOLTADO) Era o que faltava! Manter-me cativo aqui, a me crivar de perguntas, por conta de uma índia!

I- O senhor não a obrigou a abrir as pernas apontando uma faca pra garganta dela?

N- São animais, o senhor não compreende! Não tem alma como a gente branca de Portugal!

INQUISIDOR aparece, veste uma roupa futurista. Se preferir com toques indígenas, uma pena ou outra, um colar.

I- O filho dessa violência que o senhor praticou contra Paixanambé nasceu mestiço. Esse mestiço teve dez filhos e cada um deles teve mais quinze rebentos.

N- Canalha! Até que enfim resolveu mostrar a cara!

I- Minha cara bem podia ser a sua. Somos parentes.

N- O senhor perdeu a razão de vez!

I- As minhas unhas, por exemplo. As minhas unhas são idênticas geneticamente às da minha tátara – tátara - tátara- tátara- tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara - tátara - tátara - tátara - tátara – avó, Paixanambé.

N- Suas unhas?

I- Elas crescem rápido, são duras. Perfeitas para escalar árvores e descascar mandioca.

N- Unhas de um animal, só pode ser.

I- Mas eu tenho pedaços do senhor também, seu Manuel, caro ancestral. Esse defeitinho aqui na sobrancelha e uma sede de sexo insaciável. Eu vi no nosso genoma. Igualzinho ao senhor.

N- Se o senhor é meu parente, me liberta dessas cordas! Dá cá um abraço!

I- Trinta e dois por cento do nosso Brasil de meu Deus é descendente do senhor e da índia Paixanambé! Trinta e dois por cento, filhos de um estupro! E é esse trinta e dois por cento que decidiu que o senhor deve voltar pro gelo! Será re-congelado! Passará outros mil anos à deriva, esperando o próximo aquecimento global!

N- Piedade! Tem piedade de mim!

I- Mesmo sendo tão único, um pedacinho descascado do tempo, melhor botar de volta no mar.

N- Se eu não tivesse amado aquela índia, nenhum de vocês teria nascido!

I- É verdade. Mas a gente vai te mandar pro gelo assim mesmo. Adeus, Manuel. Até nunca mais.

N- Nããããããããããããããããããããoooo!!!!!

FIM............................

sábado, 20 de junho de 2009

SIMPLICIDADE PORTUGUESA de Julia Spadaccini

HOMEM português sentado esperando por sua amada que é uma MULHER brasileira. Ele olha o relógio, ela está atrasada. Ela chega e senta a sua frente.

M- Oi amor, desculpe o atraso, tudo bem?

H- Depende.

M- Que foi?

H - Foi o que?

M -Está passando mal?

H- Não.

M – Está com algum problema?

H – Não.

M – Sua mãe está bem?

H – Está.

M - Te roubaram?

H- Quando?

M- Agora?

H- Agora não.

M – Me diga o que foi?

H- Não foi.

M -Como assim não foi.

H- Esta sendo.

M- O que está sendo?

H- Não.

M -Não o que?

H -Não é o que, mas como.

M - E como é?

H- Não é.

M -Não?

H- Já disse que está sendo.

M- Mas o que está acontecendo?

H -Não está acontecendo, esta sendo.

M -Me conte.

H- Não.

M- Não vai me contar?

H-Não é um conto para ser contado.

M-É o que, então?

H-Então o que?

M- Você não vai me dizer?

H - Não.

M -Mas eu to ficando doida com essa conversa.

H- Não é.

M -O que?

H -Uma conversa ainda.

M -Homem de Deus!

H-Não sou.

M-O que?

H-Religioso, sabes que não sou...

M- Vou perguntar pela última vez.

H- Impossível.

M- O que?

H- Perguntas se fazem por toda vida, se acaso não morras agora, continuaras a perguntar.

M -Estou falando com você!

H – Pois sou todo ouvidos.

M- Por que você está chateado?

H -Quem disse?

M- O que?

H- Que estou a me chatear.

M -Eu perguntei se você estava bem e você me respondeu que depende.

H- Sim.

M- Sim o que?

H- É verdade que disse isso quando chegastes.

M- Mas depende do que?

H- Não é do que.

M-Não?

H- De quem. Depende de quem.

M - Mas me diga, português!!!! Fala!

H- Vocês brasileiros tem mania de fazer isso.

M-Isso o que?

H - O que está fazendo.

M -E o que estou fazendo?

H - Agora?

M -É.

H- Agora estás a me olhaire com cara de maluca.

M -Maluco é você!!!!

H- Olha aí.

M -Olha o que?

H- Não sei. Tu olhas para onde quiseires...

M – Eu vou te matar se você não me falar agoraaaa!

H-Vocês brasileiros.

M - O que tem?

H - Não tem.

M- O que nós brasileiros fazemos? Fala, agora!

H- Tem mania de tomar as coisas pelo avesso...

M - Mas você me disse que não estava bem

H - Disse que dependia.

M - E dependia do que?

H - De me daires um beijo de chegada.

M -Não acredito.

H - Em que?

M - Não é em que, é em quem!

H- Quem?

M - Em você!!!!

Brasileira sai.

H- Não entendi....as brasileiras são muito nervosas. Ora, opá! Só por causa de um beijinho...

sexta-feira, 19 de junho de 2009

SE A VIDA FOSSE UM FILME ORIENTAL de Renata Mizrahi

Um mulher se arrumando. Ela passa o batom, veste a meia calça, coloca um flor no cabelo, ajeita o vestido se olha no espelho. Parece triste.

Um homem se arrumando. Coloca um casaco, tira o casaco, resolve ficar com o casaco. Está nervoso, diz uma palavras no espelho, improvisa um ensaio. Parece feliz.

Os dois saem de casa e se encontram em frente ao banco de uma praça em Lisboa, Portugal. Estão em pé. Ao se olharem, se abraçam. Se separam. Eles dizem ao mesmo tempo.

Ele: Quer casar comigo?

Ela: Eu quero voltar para o Brasil.

(Silêncio. Eles se olham.)

Ele: O que você disse?

Ela: Eu quero voltar para o Brasil.

Ele: Oi?

Ela: Eu quero voltar para o Brasil, Marcos. Eu quero voltar.

(A felicidade dele se transforma num desespero controlado)

Ele: Por quê?

Ela: Por quê? Não sei. Não sei, mas eu não posso mais. Esse lugar não é meu.

Ele: Não?

Ela: Eu tentei, Marcos. Eu tentei. Eu tô aqui. Se eu tô aqui é porque eu tentei, mas... Eu não consigo mais... É tão difícil. Desculpa.

Ele: Mas... Tava tudo indo tão bem...

Ela: Tava tudo indo bem pra você, Marcos. Que vive aqui, que conhece tudo, que sabe aonde ir. Mas e para mim? Eu não consigo me adaptar...

Ele: Calma, com o tempo...

Ela: Tempo? Que tempo? O seu tempo? Esse tempo de que você tá falando não é meu, Marcos. É o seu tempo. Meu tempo é outro e tá passando muito rápido.

Ele: Você não me ama mais?

Ela: Não é essa a questão.

Ele: Então...

Ela: Não é questão de amar você.

Ele: É o que, então? A gente tava indo tão bem.

Ela: Eu não, eu tô perdida...

(silencio)

Ele: A gente tá junto.

Ela: Eu acho que eu não sou capaz desse amor.

Ele: Não?

Ela: É que eu não posso ficar com você e me deixar. Deixar minha vida...

Ele: Você parecia tão feliz.

Ela: E estava. Mas no fundo eu tava com um medo tão grande. Quando eu aceitei vir para cá, para ficar com você, eu não medi as conseqüências. E agora...

Ele: E agora?

Ela: Não sei, Marcos. Eu sei que eu não tô inteira. Eu deixei minha carreira, minha vida, eu deixei tudo para estar aqui com você.

Ele: A gente tá construindo algo novo.

Ela: Mas pra construir algo novo é preciso destruir o que já se tinha?

Ele: Você não destruiu nada...

Ela: É fácil pra você falar isso. Você não teve que fazer nada. Foi tudo muito cômodo para você. Quem veio foi eu. Quem deixou todas as coisas de lado foi eu. Eu tenho o direito de questionar.

Ele: A minha vida também mudou, Ana.

Ela: O quanto? O quanto sua vida mudou? Nem um terço do quanto a minha vida mudou.

Ele: Eu sempre achei que era isso o que você queria.

Ela: Eu também achei. Me desculpe, eu sei, de repente eu chegar aqui e te falar tudo isso... Logo hoje.

Ele: Olha pra mim, Ana. Olha só esse final de tarde, essa praça que tantas vezes nos encontramos. Você também construiu isso, esse momento. Você também tá aqui...

Ela: Será que você é realmente capaz de me entender? Será que você consegue olhar pra mim de verdade?

Ele: Eu tô olhando pra você de verdade.

Ela: Então me entenda. Me entenda, por favor, me entenda. Não é você, não é esse lugar, ele é lindo. Eu queria mesmo vir pra cá. Sou eu, Marcos. Sou eu. Eu descobri que não é aqui que tenho que viver.

Ele: Eu amo você, Ana.

Ela: Não, você não me ama.

Ele: Como não te amo?

Ela: Você não pode me amar, Marcos.

Ele: Eu posso e eu te amo.

Ela: Você não pode me amar porque eu não estou sendo verdadeira com você.

Ele: Não?

Ela: Eu só vim aqui para te agradar, com medo de te perder. E é justo? É justo comigo? É justo com você?

Ele: E quem é você de verdade?

Ela: Eu não sei. Só sei que não pertenço a esse lugar. Desculpe, eu tentei.

Ele: O que você vai fazer?

Ela: Voltar.

Ele: Você quer dizer fugir?

Ela: Interprete como quiser. É isso que eu preciso fazer.

Ele E a gente?

Ela: A gente tem que respeitar esse momento.

Ele: Eu volto com você. Eu vou com você para o Brasil.

Ela: Não é isso, Marcos.

Ele: Deixa Ana. Deixa eu ir com você. Não vamos nos separar.

Ela: Não, Marcos. Você vai sentir o mesmo que eu. Depois de um tempo vai querer voltar.

Ele: Como você sabe?

Ela: Eu simplesmente sei.

(silêncio)

Ela: O que você ia me dizer?

Ele: Eu?

Ela: Naquela hora que chegamos. Você ia me dize alguma coisa.

Ele: Ia.

Ela: O quê?

Ele: Quer que eu repita?

Ela: Sim.

Ele: Quer casar comigo?

(silêncio)

Ela: Era isso?

Ele: Sim.

(silêncio)

Ela: Desculpa.

(silêncio)

Ele: Será que outros casais já passaram por isso?

Ela: Talvez.

Ele: Será que o amor é mesmo assim, tão limitado?

Ela: Limitado?

Ele: Limitado. Limitado a uma geografia, a uma cultura. No início, os homens só iam até onde suas pernas suportavam. Agora a gente pode voar, ir para outros continentes, mas continuamos apegados ao nosso lugar, às nossas conquistas. Será que é porque o homem não devia ter conquistado meios que vão além de suas próprias pernas, nem inventado os transportes, uma vez que eles nos fazem ultrapassar limites? E então nós somos levados a nos questionar se devíamos mesmo ultrapassá-los. Como o amor.

Ela: Não sei. Talvez. Não sei. Será?

Ele: Será?

Ela: Pra mim é algo maior que do que isso.

(silêncio.)

Ele: É isso mesmo o que você quer?

(silêncio)

Ela: Eu queria que agora surgisse algum sinal, algum código da vida, alguma coisa que me fizesse ver além...

Ele: Como uma poesia.

Ela: É. como uma poesia. Como se pudéssemos estar num filme e nessa parte do filme , diferente da cruel realidade, nessa parte tudo se clareasse. Como a beleza de um filme oriental, isso, o silêncio de um filme oriental. Se a vida fosse um filme oriental...


(Nesse momento um homem com um violão senta no banco e começa a cantar uma canção)

Canção:


Rara beleza que se perde ao vento
E se esconde ao longe, perto do seu olhar.
Rios que correm desembocam na praia,
Encontrando seus pés me esperando chegar

Flores colorem o pranto tão fino
Esboçando a canção que o amor me mandou.
Segurei tuas mãos que diziam adeus
Sua alma surgiu e nunca mais me deixou

Sorrisos são frase feitas que pertencem a você.
O mistério liberta o destino a dois
Vagando sem hora até o amanhecer
E quem sabe agora não exista o depois.

(Após ouvirem a canção ele se abraçam.)

FIM

quinta-feira, 18 de junho de 2009

EU VOU, de Rodrigo Nogueira

Homem e mulher jantando. Eles estão em silêncio. Ouvimos o barulho dos talheres. Homem pega o copo de água à sua frente. Lentamente. Mulher para de comer e o observa. Ele bebe lentamente. E de uma só vez. A mulher continua observando. A ação deve ser bem demorada. Os dois voltam a comer juntinhos, como se fosse marcado. Passa-se um tempo. Homem com dificuldades de cortar uma batata. Ela está dura. A batata salta de seu prato para o chão e sai rolando. Homem e mulher param de comer para acompanhar o trajeto da batata. A batata pára. Eles ficam um tempo olhando. E voltam a comer (e a fazer barulho com seus talheres). Passa-se mais um tempo. O homem pega um pedacinho de carne com o garfo. Levanta a carne à altura dos olhos. Olha fixamente para o pedaço de carne. E solta uma gargalhada. A mulher imediatamente pára de comer e o observa. Ela está visivelmente contrariada. Os dois ficam um tempo em silêncio, se olhando. E voltam a comer. Mais um tempo. De súbito, o homem pára de comer e abre a boca. Fica com a boca aberta olhando para a mulher que continua comendo. Ele faz um pequeno esforço, como se quisesse tirar algo da garganta. Deve ser um esforço muito dúbio e pequeno. Ele vai aumentando (pouco) gradativamente esse esforço. Até que fala:

Homem: Azeite.

A mulher toma um susto e deixa os talheres caírem.

Homem: Passa o azeite.

Longa pausa. Ela se levanta, cata os talheres no chão lentamente e os coloca em cima da mesa. Lentamente pega o azeite que está do lado de seu prato, caminha até a outra cabeceira (onde o homem está sentado) e deixa o azeite ao lado do prato do homem. Ela volta caminhando lentamente para seu lugar e se senta. Ela olha fixamente para o homem.


Homem: Portugal. (pausa) Esse azeite é de Portugal. (pausa) Os portugueses produzem alguns dos melhores azeites do mundo. Os portugueses.

(silêncio)

Homem: Os portugueses. Os portugueses. Os portugueses são, na sua origem, compostos por Celtas e Iberos, Celtiberos e, majoritariamente, pelos Lusitanos. Os Galaicos ou "gallaeci" são de origem celta e germânica. Os Cónios e outras tribos menos significativas constituem o resto da origem. Outras influências importantes foram também os Romanos (a Língua portuguesa deriva do Latim), os Visigodos e os Suevos, todos os quais povoaram o que é hoje território português. Influências menores foram os Gregos e os Fenícios-Cartagineses (com pequenas feitorias comerciais costeiras semi-permanentes), os Vândalos (Silingos e Asdingos), os Alanos (ambos expulsos ou parcialmente integrados pelos Vrisigodos) e os Berberes do norte de África.

(silêncio)

Homem: Os portugueses.

(silêncio)
Homem: Os portugueses falam português. Portugal, portugueses, português. Com mais de 210 milhões de falantes nativos, o português é a quinta língua mais falada no mundo e a terceira mais falada no mundo ocidental. É o idioma oficial de Portugal e do Brasil, e idioma oficial, em conjunto com outros idiomas, de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, sendo falada na antiga Índia Portuguesa (Goa, Damão, Diu e Dadrá e Nagar-Aveli), além de ter também estatuto oficial na União Europeia, na União de Nações Sul-Americanas e na União Africana.

(silêncio)

Homem: A maioria dos Portugueses (cerca de 84,5% da população total – segundo os resultados oficiais dos censos 2001), inscrevem-se numa tradição católica.A prática dominical do Catolicismo segundo um estudo da própria Igreja Católica (também de 2001) é realizada por 1.933.677 católicos praticantes (18,7% da população total) e o número de comungantes é de 1.065.036 (10,3% da população total).

(silêncio)

Homem: Portugal é um país fortemente vinícola, sendo célebres os vinhos do Douro, do Alentejo e do Dão, os vinhos verdes do Minho, e os licorosos do Porto e da Madeira. Entre os queijos sobressaem os da Serra da Estrela e de Azeitão. (se dá conta) Ah! Azeitão, azeite!

(silêncio)

Homem: Eu já mencionei que o território português é dividido em dezoito distritos e duas regiões autônomas?

Mulher: Eu quero me separar de você.

(silêncio)

Homem: As regiões autônomas são ilhas! As ilhas de Açores e Madeira.

Mulher: Agora. Eu quero me separar de você agora.

Homem: Elas se subdividem em 308 conselhos!

Mulher: Nem mais um minuto!

Homem: E 4257 freguesias!

Mulher: Agora!

Homem: As primeiras universidades portuguesas datam de 1290.

Mulher: Eu te odeio.

Homem: Na literatura portuguesa é eminente a poesia!

Mulher: Com todas as minhas forças.

Homem: Portugal foi um dos primeiros países do mundo a ter uma rede de autoestradas.

Mulher: As minhas e as dos outros.

Homem: E a televisão surgiu em 1950.

Mulher: Ódio.

Homem: O Açoriano Oriental está entre os dez jornais mais antigos do mundo!

Mulher: Nem mais um minuto.

Homem: Lisboa tem uma posição geográfica que a torna num ponto de escala para muitas companhias aéreas estrangeiras nos aeroportos em todo o país.

Mulher: Eu preciso!

Homem: E o governo está atualmente estudando o projeto para a construção de um novo Aeroporto Internacional em Alcochete!

Mulher: Cala a boca!

Homem: Algarve.

(silêncio)

Mulher já está de pé saindo. Ela encara o marido e sai.

Homem: Espera! (tempo) Você não pode me deixar. Você não tem pra onde ir.

(silêncio)

Mulher: Eu vou.

Homem: Não.

Mulher: Eu vou.

Homem: Por favor.

Mulher: Eu vou!

Homem: Pra onde?

Mulher: Pra Portugal.

FIM

quarta-feira, 17 de junho de 2009

FAÇA VOCÊ MESMA O SEU PASTEL DE BELÉM E CONCORRA A UM CD COM CANTIGAS de Larissa Câmara

“Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”
Fernando Pessoa


Personagens:
Lana Maria
Uma voz viril no telefone
Técnicos do estúdio
Cantora do Madredeus


Técnico 1: Lana Maria, 1 minuto para entrar no ar.

Lana Maria: (com o celular na mão) Um instante. (celular toca. Lana atende).

Uma voz viril no telefone (com um sotaque português sedutor):
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”
Minha querida, eu que li tanto esses versos de Fernando Pessoa para ti. Agora leio o bilhete de adeus. Meu coração não pode esperar mais. Adeus!

(Lana Maria desmaia. Técnicos correm até ela. Luz apaga. Acende novamente com o programa de culinária de Lana Maria começando)

Lana Maria: (tentando ser feliz, mas falando como quem morre) Bom dia! Acorda menina vem cá! (galo canta seguido de uma vinheta de fado) Hoje continuando o programa delícias de Portugal... (contém uma lágrima) Eu tenho uma surpresa muito especial para o dia dos namorados: Pastel de Belém! Para você pegar o seu amor pelo estômago. (chora e pede desculpa). Vamos aos ingredientes: (fala como as mulheres que anunciam vôos no aeroporto) Massa: 300 gramas de farinha de trigo, 250 gramas de margarina, sal, água. Recheio: 500 gramas de nata, 9 unidades de gema de ovo, 10 colheres de sopa de açúcar. (pausa) Ai, amiga dona de casa como o açúcar faz falta na vida da gente. (perdida em desvarios do amor) Ah, o açúcar! (pausa) Anotaram tudo! Ótimo! (escuta o ponto eletrônico perguntando se ela está bem. Respondendo à la estrela brilhante atacada) Tá tudo ótimo! Minha pele é ótima, minha cabeça é ótima! Eu estou lúcida. Sou lúcida e não estou aqui à toa. A Câmera, esse olho mágico divino me escolheu. Eu fui agraciada com o poder da criação. (toma um esporro no ponto eletrônico e se recompõe) Minha amiga, hoje esse “poder” da criação chegará até você através das suas mãos. Eu vou dar a você o poder de criar o seu próprio Pastel de Belém. (animadíssima) É isso mesmo está lançada hoje a promoção: faça você mesma o seu Pastel de Belém e concorra a um Cd com cantigas! O nosso repórter Eparisto irá provar várias receitas. A melhor receita leva o Cd. Acorda menina! É hora de botar a mão na massa. (vinheta animada) Vamos ao modo de preparo: Misture a farinha o sal e a água. Trabalhe... Trabalhe bem a massa até dar a liga. (escuta um esporro no ponto eletrônico. Responde grossa) O que é que é? Tem que dar a liga! Onde já se viu não dar a liga na massa? Você não entende nada de massa meu filho. Falar desaforo nesse microfoninho para mim é fácil. Quero ver dar a liga na massa. Não era para eu fazer isso agora? E você mandou eu anunciar a promoção por quê? Já sei você é estagiário, né? Só pode ser. Pelo tom inseguro da sua voz adolescente eu percebo que você só pode ser estagiário. Só digo uma coisa para você, bebê: Se depender de mim você não será efetivado nunca. Pode dizer adeus para o seu sonho de trainee. (pausa. Fica amável novamente) agora vamos apresentar o grupo musical que está participando da promoção: faça você mesma o seu Pastel de Belém e concorra a um Cd com cantigas! Um grupo musical português de maior projeção mundial. Um luxo! Com vocês: Madredeus.

(a cantora do Madredeus entra. Lana e a cantora se cumprimentam muito simpáticas. Lana se posiciona e começa. A cantora deverá dublar a música Alfama com muita elegância e Glamour. Lana ao ouvir a letra se emociona muito. Em determinados momentos os movimentos das duas podem ser espelhados. (Para quem quiser ouvir a música: http://www.mandamusica.net/madredeus-alfama))

Cantora: Agora,
que lembro,
As horas ao longo do tempo;

Desejo,
voltar,
voltar a ti,
desejo te encontrar;

Esquecida,
em cada dia que passa,
nunca mais revi a graça
dos teus olhos
que amei.

Má sorte, foi amor que não retive,
e se calhar distraí-me...
- Qualquer coisa que encontrei.

Lana Maria: (Aplaude muito. Pára emotiva e frágil) Muito obrigada, querida. Sua música falou direto ao meu coração. Obrigada!

(cantora agradece como diva e sai)

Lana Maria: Minhas queridas telespectadoras, donas de casa, minhas amigas. Eu vou mudar o programa hoje. Estou emocionada demais para passar a receita do pastel de Belém. Hoje eu preciso recompor a massa, a liga do meu coração. Você que tem um coração que ama, vai me entender. Hoje no dia dos namorados eu perdi um grande amor... E por isso terminarei o programa de hoje com um belíssimo poema. Eu dedico esse poema à cozinha maravilhosa da Ofélia, minha musa inspiradora, ao Ronivon, meu cantor querido e amor meu amor perdido. Senhoras e senhores com vocês: Tabacaria.

Técnico 1: Não vai dar é muito grande!

Outros técnicos: Shhhh!

(os técnicos tentam tirar Lana do palco enquanto ela recita. Ela se livra deles e volta para tentar terminar o poema. Dessa forma ela só consegue dizer as partes entre aspas)

Lana Maria: “Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,”
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


“Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,”
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

“Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!”...

TREVAS... FIM...

FOGO SAGRADO de Julia Spadaccini

Mulher e Homem num jantar a luz de velas.

M- (toda fofa) Comprei um negócio para você...

H- Eu também!

M- Jura! Que lindo! Você lembrou?

H- Lembrei do que? Ai, meu Deus! Esqueci de pagar a conta de luz, perdão!

M- Não, tô falando da gente!

H- Hoje é seu aniversário?

M- (falando mais alto) Claro que não, Adeílton!

H- Quer falar meu nome baixo, as pessoas estão olhando!

M- Não acredito que você esqueceu de novo!

H- Aniversário da sua mãe?

M - Pô Deton! Você disse que comprou um presente para mim, mas não sabe o por quê, assim não tem graça..

H- Pô, mas a graça está em comprar alguma coisa sem dia marcado?

M- Então me dá logo.

H - Primeiro me dá o seu, porque o meu é realmente especial.

M- (feliz) Nossa...

Mulher tira pacote da bolsa.

M- Aqui ó!

Adeílton abre. É um isqueiro.

H- (sem muito entusiasmo) Ah! Bacana.

M- Se vai fumar, pelo menos que seja com charme, né Deton?.

H- Obrigada... lindona!

M- E o meu! Dá! Dá! Dá!

Adeílton tira um pacotinho do bolso, todo contente.

H- Aqui ó!

Mulher abre e é uma caixinha de fósforos.

M- Que isso Adeílton? Uma caixinha de fósforos...

H- E é Fiat Lux!

M- Mas eu não fumo, Adeílton? É o que? Por que vc não pagou a conta de luz agora vou ter que acender velas, é isso? É uma brincadeira, Adeílton???

H- Não, meu amor... você não entendeu?

(pausa, ela faz cara, irônica, de que está entendendo, depois muda)

M- Aaaaah.... Não! Não entendi!

H- É para manter aceso o fogo do nosso amor!

M- Como é?

H- Você não disse que era para eu ser mais espontâneo com você?

M- Adeílton, eu disse espontâneo e não CAFONA!

H- Ô benzinho, tô usando uma mandrágora para falar da gente!

M- METÁFORA, Adeílton, mandrágora é uma planta.

H- Jura?

M- É...

H- Planta?

M- É uma planta que tem a raiz na forma de um ser humano e que GRITA! quando é arrancada da terra.

H - Querida, é uma maneira de dizer que quero ficar muitos e muitos anos com você!

M- (irônica) Ah! Que lindo, sendo assim (pausa) eu odiei!!!

H - Minha flor! Não faça isso, comprei com muito carinho, era á última caixinha de palitos longos Fiat Lux!

Mulher abre a caixinha.

M- Adeílton! Estão usados!

H- Ah! Amor, desculpa, é que vindo para cá, fiquei com medo de você não gostar e por nervosismo acendi alguns cigarros.

M- Adeílton, você fumou (olhando o número de palitos na caixinha) 234 cigarros?

H- Não querida... é que...

M- O que?

H- É que o Marcão passou lá no trabalho... e o Zequinha... aí fui tomar um chope, para relaxar os nervos, antes de te encontrar e já viu, né?

M- Você usou nossos fósforos do amor para acender o cigarros dos seus amigos?

H- Mas o que vale é a planta!

M- Que planta?

H- A planta que grita com o ser humano.

M - Eu não acredito que no dia do nosso aniversário de 1 ano e 23 dias e 3 minutos de namoro, você tenha me dado um presente usado.

H- Peraí? Mas isso não é uma data especial... é?

M- Todos os dias são datas especiais, Adeílton.

Mulher começa a chorar.

H- Então! Mas é justamente isso que eu queria dizer, meu amor!

M- O que?

H- Que todo o dia é dia de acender velas para o nosso lindo amor!

M- Como é?

H- Cada fósforo queimado significa uma Pentagora do nosso amor!

Mulher se levanta, dá um grito com o marido e depois sai.

H - Marinalva!!! Volta aqui, Marinalva!

Homem pega um cigarro, tira o isqueiro e acende.

BLACK OUT

terça-feira, 16 de junho de 2009

SAUDADE de Felipe Barenco

Um homem sobe ao palco, pega o microfone, tira do bolso uma carta amassada mas não consegue ler.

Boa noite, senhoras e senhores

Estou um pouco nervoso, pois é a primeira vez que falo em público. Quer dizer, é a primeira vez que falo em público publicamente, entenderam? Eu conheci uma garota a 3 anos atrás que me fez perder a cabeça. Não sei se devo dizer o nome dela, pois acredito que a Manoela mor... o nome dela é Manoela. Nós nos conhecemos por acaso. Eu estava sentado num dos bancos do calcadão de Copacabana quando reparei uma menina linda, bem vestida e com ar de intelectual conversando com a estátua do Carlos Drummond de Andrade. Minha primeira reação, antes de achar aquilo esquisito, foi uma incontrolável crise de riso... mas ela fazia aquilo de forma tão sincera, e tão intensa, que eu senti pena porque ela era jovem e tinha ficado maluca. O mais estranho é que as pessoas à volta dela pareciam não dar muita atenção pra aquilo, como se fosse absolutamente normal. Será que o doido era eu que ainda não conversava com estátuas? Depois de algum tempo espiando, ela tirou um livro de dentro da bolsa, sentou no colo da estátua e começou a recitar alguns poemas dele... do Drummond. Então as pessoas se aproximaram e ela foi aplaudida. Resumindo, a Manoela era portuguesa, artista plástica e performer. Ela explicou que fazia essa performance em vários países. Que ela começou em Portugal, recitando Camões nas praças, depois foi para a França onde lia dentro dos banheiros públicos Jean Genet... enfim. Eu achei aquilo tão fantástico, a maneira como ela se relacionava com o mundo aparentemente tão sozinha e ao mesmo tempo cercada de tanta gente, tomada por um objetivo artístico tão profundo, que ela me fez sentir sozinho. E eu me apaixonei completamente por ela. Nós sentamos pra tomar um café, contei que era escritor mas nunca tinha publicado um livro. Perdoem o meu radicalismo, mas escritor pra mim não é só quem escreve, é quem publica. Eu sempre fui muito tímido e recusei ser o orador da minha turma no 3° ano porque não tive coragem de falar em público. Eu nunca gostei de ser o centro das atenções, embora hoje eu entenda que os tímidos são as pessoas mais egocêntricas que existem. Voltando a Manoela... ela era portuguesa e tinha um bigodinho... brincadeira. A Manoela tinha olhos tão penetrantes, que ao final do dia eu já havia contado toda a minha pra ela. E eu me senti um pouco naquele filme “Antes do amanhecer”, porque a Manoela estava com a passagem comprada para o dia seguinte e nós tinhamos pouco mais de 24 horas para nos curtimos. Como escritor vocês podem imaginar que eu mal tinha o dinheiro no bolso pra pagar o café dela, então era fora de cogitação comprar uma passagem para Portugal e ser feliz para o resto da vida. Nós bebemos, nós rimos, nós transamos, nós comemos, nos rimos, nos transamos de novo, nós dormirmos e transamos de novo.... ela recitava Camões, gemia, falava trechos do Saramago, gemia e gozávamos. Conhecê-la não foi apenas um caso de amor, foi uma experiência modificadora. Dizem que na performance, quanto mais explosiva é a aparição, mais explosivo é o desaparecimento. E estes estilhaços são estilhaços de memória, tornam-se eventos marcantes e por vezes inesquecíveis na mente de quem as presenciou. Depois da Manoela, eu me senti preenchido, como se tivesse quebrado uma casca e a partir de então me considero capaz de fazer qualquer coisa. Só depois da Manoela eu teria coragem de subir num palco. Antes de mais nada, eu quero dizer publicamente que eu me amo. Eu me conheci e foi amor à primeira vista. Eu morro de tesão em mim mesmo. Sabe, é muito bom subir no palco e declarar amor a si próprio. Pouquíssimas pessoas já fizeram isso e vão fazer. Enchem a boca pra dizer que amam o seu parceiro mas... enfim... tem um monte de gente assim na platéia. Eu gostaria de agradecer a Manoela por esse bem, por essa descoberta que ela me causou... e dizer que mesmo sem nunca ter conhecido Portugal, talvez por falarmos a mesma língua, é um país que eu morro de saudades. Eu trouxe um trecho de Clarisse Lispector para ler pra vocês, esta seria a minha primeira performance. Mas eu acho que já foi suficiente...

FIM

segunda-feira, 15 de junho de 2009

“Lingua Lambe (versão 2)” de Jô Bilac

Cj/33anos

June_RJ

( conversa por msn)


Cj/33 diz:
Oi June, blza?

June_RJ diz:
blza. Quem é vc?

Cj/33 diz:
Seu.

June_RJ diz:
Meu o que?

Cj/33 diz:
Só seu.

June_RJ diz:
Meu carma, meu lixo, meu entulho?rsrs

Cj/33 diz:
Seu gajo, seu macho, seu tudo...

June_ RJ diz:
Cafoooooonaaaaaa

Cj/33 diz:
Romântico.

June_RJ diz:
Tá bom. Tc de onde?

Cj/33 diz:
Portugal e vc?

June_RJ diz:
Longe...

Cj/33 diz:
Onde?

June_ RJ diz:
Rio de Janeiro.

Cj/33 diz:
Carioca... Garota de Ipanema?

June_RJ diz:
Garota de Del Castilho.

Cj/33 diz:
Onde?

June_RJ diz:
Longe...
Quantos anos você tem?

Cj/33 diz:
33. e vc?

June_RJ diz:
29. já tclamos antes?

Cj/33 diz:
num lembro. Como vc me achou?

June_RJ diz:
Fui achada...

Cj/33 diz:
Como vc é?

June_RJ diz:
branca, 1.67m, 54k, cabelo curto louro, olhar distante, contemplativo, levemente sexual. Alérgica a camarão e torcedora do botafogo. E vc?

Cj/33 diz:
Sarado, 1.82m, moreno claro, olhos castanhos, ardidos, vermelhos, querentes. Boca grande, coração quente...


June_RJ diz:
Pena que Portugal é longe...

Cj/33 diz:
Tá sozinha aí? Liga a cam.

June_RJ diz:
Não posso. Estou trabalhando. Escritório. E vc?

Cj/33 diz:
Sozinho... sem cueca...cheio de vontade...

June_RJ diz:
Vontade de que, menino?

Cj/33 diz:
Adivinha...

June_RJ diz:
Comer feijoada...?

Cj/33 diz:
Acertou na mosca!

June_RJ diz:
Haushauhsuasuasuahuah

Cj/33 diz:
Ou Se vc sugerir algo melhor...eu como...

June_RJ diz:
Hum... algo de chupar ou de morder...?

Cj/33 diz:
Algo que Dê p passar a língua...

June_RJ diz:
Vc curte uma linguada? Hahahhaa

Cj/33 diz:
Curto mais linguar, na verdade! Hehhehe

June_RJ diz:
Onde?

Cj/33 diz:
Vc está fugindo do assunto...

June_RJ diz:
Nem. Estou indo direto a ele.

Cj/33 diz:
Atá.

June_RJ diz:
Onde a lingua lambe?

Cj/33 diz:
A minha ou a sua?

June_RJ diz:
A sua lingua, no caso.

Cj/33 diz:
Hum... depende.

June_RJ diz:
Da lingua??????????

Cj/33 diz:
Depende o que se está lambendo… E o que se pode lamber…

June_RJ diz:
Deixa a língua seguir o fluxo que ela estiver afim…

Cj/33 diz:
Sempre. Nunca forço minha língua a nada que ela não queira fazer.

June_RJ diz:
Estamos falando a mesma lingua?

Cj/33 diz:
A mesma. Em tom diferente. Mas a língua é a mesma.

June_RJ diz:
E Como é o tom da língua de um portugês?

June_RJ PEDE ATENÇÂO

Cj/33 diz:
Calma.. To pensando... :P

June_RJ diz:
como ela faz?

cj/33 diz:
Quem?

June_RJ diz:
A língua.

Cj/33 diz:
Vocês brasileiras são bem diretas...

June_RJ diz:
Vocês portugueses é que são devagar...Diz logo.... Como a língua lambe?

Cj/33 diz:
Quer saber...?

June_Rj diz:
Agora...

Cj/33 diz:
Devagarinho… mas sem ser lenta. Com força… mas sem machucar… Sinuosa, sem perder a retidão. Entrando e saindo, sem muita insistência... em pontadas, em carícias, às vezes larga, às vezes estreita.

June_RJ diz:
E o qual é o trajeto da língua...?

Cj/33 diz:
A Língua lambe da nuca até a covinha da cauda. Desliza molhada, num rastro lambido, queixoso de mordidinhas levianas_ a língua lambe despretensiosamente as dobradiças secretas de suas coxas, do joelho ao calcanhar. A língua segue lambendo entre os dedos, trêmulos de desejo, enciumados de lambidas, exigindo os dentes, carentes, ensopados de saliva. A língua lambe a gengiva, coçando o céu da boca, a língua é louca. A língua lambe o redondilho de seus seios, escorrendo ao mamilo, se escondendo em seu umbigo. A língua lambe seu sexo. Invadindo sem receio. Língua sem freio. Língua invertebrada. Língua já cansada. Língua que não pára. Língua que só quer lamber.Língua que se afoga em seus pelos, língua convulsa, lingua que impulsa sua mucosa nelvrálgica.

June_RJ diz:
Estou imaginando vc lambendo...

Cj/33 diz:
Descreve.

June_RJ diz:
Sua boca inchada cavando meu sexo. Minhas mãos emboladas em seus cabelos, te sufocando entre minhas pernas. Minhas pernas. Agressivas, em espasmos, cravadas em suas costas largas. Meus pés roçando sua bunda carnuda, nua, contorcida em desejo. O desejo me deixa tonta e sem saber ao certo: se quero que vc continue ou pare...

Cj/33 diz:
Deixa eu continuar...

June_RJ diz:
Eu deixo.

Cj/33 diz:
e como vc quer que eu continue...?

June_RJ diz:
entre minhas coxas. Seus braços sustentando minhas pernas, numa alavanca despudorada, pronta pra me partir em duas. Metade a ser devorada agora, metade a se aproveitar mais tarde.

Cj/33 diz:
Posso morder...?

June_RJ diz:
Vc se impõe. Não tenho escolha. Estou tomada. Uma vontade insuportável de ceder, de colocar tudo dentro de mim. Como se eu sozinha, fosse capaz de abrigar o mundo em meu sexo. Enfiar vc por inteiro em meu avesso. Eu deixo. Pois já não é questão de deixar.

Cj/33
Posso tirar pedaço? Estraçalhar... Romper? Quero te comer com meus dentes, fazer digestão de vc. Quero te lambuzar, te regar com meu leite, e fazer de vc uma massa, um todo, uma coisa só. Consumida crua, ainda sangrando. Meu leite escorre em sua garganta.

June_RJ diz:
Vc me engole como...?

Cj/33 diz:
Mastigando pra não engasgar.

June_ RJ diz:
Minhas unhas sangram sua nuca.

Cj/33 diz:
Meus dentes dilaceram suas coxas.

June_Rj diz:
Estou com vc por completo dentro de mim...

Cj/33 diz:
Estou a vir..

June_Rj diz:

No divino impudor da mocidade,

Nesse êxtase pagão que vence a sorte,

Num frémito vibrante de ansiedade,

Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…

A nuvem que arrastou o vento norte…

- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:

Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…

São os dedos do sol quando te abraço,

Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos

Vão-te envolvendo em círculos dantescos

Felinamente, em voluptuosas danças…






cai a conexão.
fim.

texto incidental: "Volúpia" de Florbela Espanca, poetisa portuguesa.

domingo, 14 de junho de 2009

CAIXINHA DE FÓSFOROS de Camilo Pellegrini

MÃE

FILHO (A)

MÃE entrega uma caixa para FILHO. Durante a cena, FILHO vai abrindo a caixa e sempre encontrando dentro uma caixa menor, até chegar na caixa final.

M- Olha o presente mais lindo que mamãe trouxe pro neném!

F- O que é, mãezinha?

M- Abre! Vai firme!

F- Mas dá uma dica!

M- (BREGUINHA) A caixa pode parecer até pequena. Mas dentro você vai encontrar muita luz... Um calor sem limites...

F- Oba! Mas muita luz, quanto?

M- Quanto?

F- Muita quanto?

M- Muita, anjinho... Infinito.

F- Infinito? E leva pilha?

M- Nem precisa de pilha. Você vai ver, é incrível!

F- Legal!

M- Muito útil.

F- Maneiro.

M- É sim.

F- Que cheiro estranho, mãezica. Está sentindo?

M- Cheiro? Que cheiro?

F- Um cheiro forte. E o chão está todo molhado.

M- Ah! É a gasolina, anjinho.

F- Por que está com gasolina pela sala inteira?

M- Deixa isso pra lá, querido. Quem se importa? Rasgue logo o embrulho! Estraçalhe se lhe der na veneta!

F- O presente! Tinha quase me esquecido.

M- Focaliza no presente.

F- E é lançamento?

M- Lançamento?

F- Lançamento, mãe.

M- Como assim, lançamento?

F- Se é novo, mãezinha! Se acabou de ser lançado no mercado de brinquedos e artigos infantis. (DESABAFA) Parece retardada...

M- (FECHA O TEMPO) Não chama mamãe de retardada que é tão feio!

F- Não falei nada!

MÃE pega o presente de volta.

M- Vai dar pra mentir agora, Carlos Henrique? Eu ouvi! Não sou surda!

F- Me devolve meu presente!

M- Chamou ou não chamou sua santa mãezinha de retardada? Responde e aí eu devolvo.

F- Eu quis dizer retardada no sentido assim... especial.

M- Como?

F- Especial, mãezinha.

M- Especial.

F- Como o presente que você me deu com tanto amor. Especial como uma mãe especial. Como você.

FILHO pega o presente de volta.

M- Não se faz de sonso, moleque!

F- Sonso?

M- Dá cá esse presente!

F- Não!!! Mas mãe!

M- Mas mãe coisa nenhuma!

F-(CHORA) Não!!! Meu presente!

MÃE pega o presente de volta.

M- Não merece.

F- Eu quero! Meu presenteeeeeeeeeeeee!!!

M- Retardada... Você vai ver quem é retardada.

F- Especiaaaaal!!! Especiaaaal!!!

M- Uma pinóia.

F- Meu presenteeeeeeeeeeeeeeeee!!!

M- Vou bater na tua perninha até ficar vermelha!

F- Presenteeeeeeeeeeeeeeeee!!!

M- Está bem! Está bem! Eu devolvo! Só que você vai ter que se desculpar.

F- Desculpa! Desculpa!

M- Ok. Tome.

F- Oba! Obrigado, mãezinha querida!

M- De nada, tesouro.

F- Você é muito especial por me perdoar.

M- (PESAROSA) Nem lembro por que começamos a discutir assim tão pesado.

F- Eu perguntei se era lançamento e até agora você não me respondeu.

M- (SÉRIA) Não é lançamento não. É antigo como os tempos, mas só quando o homem se distanciou dos outros seres, é que aprendemos a dominá-lo.

F- (DESAPONTADO) Está brincando.

M- Foi Prometeu que nos cedeu essa dádiva. E por conta dessa estripulia ele está lá, perdendo um naco de fígado por dia! Só por que amava os humanos.

F- Não entendi. Quem prometeu?

M- E agora ele está aí. Nas tuas mãos. Essa ferramenta pulsante da qual os deuses quiseram nos privar. Aí está! A seu alcance. Estique a mão! Tome posse do seu destino.

F- Não sei se eu quero mais.

M- Abra!

FILHO abre a última caixa, tem uma caixinha de fósforos dentro.

M- (DRAMÁTICA) Ó fogo! Ô dádiva divina dos deuses! A força! O poder em suas mãos! Faça uso dele, Carlos Henrique!

FILHO parece meio decepcionado.

M- Que foi? Não gostou do presente?

F- Minha professora me ensinou que não é bom brincar com fogo.

M- Ela é uma burra! Uma estúpida!

F- Que quem brinca com fogo pode se queimar.

M- Não sabe de nada a tia Jacira. Ela não pode afirmar isso.

F- Mas não pode acender fogo perto de gasolina. Gasolina é IN-FLA-MÁ-VEL. A tia Jacira me ensinou isso também.

M- Tia Jacira vai queimar no fogo do inferno por mentir desse jeito para crianças tão inocentes!

F- (SUBITAMENTE EMPOLGADO) Então é tudo mentirinha? Posso mesmo brincar com fogo? Você deixa, mamãezinha querida?

M- (ANGELICAL) Deixo, meu docinho de farinha. Brinca sim. Não há perigo algum. Mergulhe de cabeça nessa gostosa brincadeira que é acender fósforos por diversão.

F- Você juro que eu não vou me machucar? Me queimar? Nada disso?

M- Amore, a gente não fez ontem aquele seguro de vida pra você?

F- Aquele que me deixa imortal, mamãe?

M- Esse mesmo. Então, anjinho? Não percebe? Não há perigo algum.

F- Eu te amo, mamãe.

M- Mamãe também te ama. Espera um pouquinho. Só começa a acender quando a mamãe sair daqui.

MÃE sai correndo. FILHO acende um fósforo. Trevas. Som de explosão.

FIM

sexta-feira, 12 de junho de 2009

SUCO DE LARANJA E CAFÉ COM CREME de Renata Mizrahi

Após o “brownie com sorvete”, estou lançando uma série gastronômica.

Carol e Zé em um bar. Carol já chegou

Carol: (para a platéia, sentada na mesa) Ele não vai me reconhecer, eu sei, eu sinto, ele vai olhar pra mim, mas não vai, eu sei, não vai. Caraca, por que eu cheguei tão cedo? Meia hora adiantada. Que ansiedade! Segura a ansiedade, Carol, segura... Eu não podia ter chegado primeiro. Ele chegou, vou fingir que tô chegando agora.

(Ela levanta da mesa e finge que está chegando. Ele entra e a vê)

ZÉ: (para a platéia) Nossa ela tá tão arrumada. Eu devia ter me arrumado mais. Ter colocado um terno, sei lá... Espero que ela não repare na minha roupa.
(se esbarram)

ZÉ: Oi, tudo bem?

CAROL: Tudo. Tá aqui há muito tempo?

ZÉ: Não, na verdade eu acabei de chegar. Desculpa.

CAROL: Que é isso, imagina, eu também cheguei agora, maior trânsito.

ZÉ (para a platéia): Ela tá linda, uma deusa. Mais bonita ao vivo que na foto. Uau, é hoje!!! Calma, Zé , se segura, não a assusta, segura a sua onda e seja simpático....(sorri para ela e diz) Vamos sentar.

(Eles sentam e ele continua sorrindo para ela)

CAROL: (para a platéia) Que sorriso estranho. O que é que ele quer dizer com isso? Minha foto no Orkut é muito mais bonita que eu sou na verdade. Eu devia ter colocado uma foto mais simples. Não essa de estúdio que ele achou linda. Deve ter se decepcionado. Ele vai acabar desistindo. Aí vai ser o fim. É melhor eu inventar alguma coisa antes de ele ir embora e me deixar aqui sozinha. (Para ele) Puxa, eu não vou poder ficar muito tempo, eu tenho hora.

ZÉ: Tem hora?

CAROL: É. Trabalho.

ZÉ: Claro, eu entendo. (Para a platéia) Putz, ela deve ser uma daquelas mulheres multimídia que nunca tem tempo nada. Deve odiar homem paradão... Eu preciso inventar alguma coisa antes que ela pense que eu sou um nerd. (Para ela) Fica tranqüila que eu aproveito e faço uma trilha que eu estava para fazer.

CAROL: Trilha? Que legal! Pra teatro ou cinema?

ZÉ (ri): Não. Trilha, trilha. De caminhada. Eu meio que tinha marcado de fazer a trilha da Pedra da Gávea.

CAROL: Ah!!! (eles riem)

(Falam para a platéia ao mesmo tempo)

CAROL: Nossa, ele é um daqueles caras que fazem trilha e deve adorar acordar cedo para tomar café da manhã e andar de bicicleta. No mínimo deve adorar viajar para as montanhas. E eu falando de trilha para teatro e cinema. Ele deve me achar uma urbanóide, viciada em internet. Putz, que furo! Mal sabe ele que eu adoro fazer trilhas, adoro caminhadas e acordar cedo!!! Ele precisa saber! Vou dar um jeito.

ZÉ: Nossa, ela é uma daquelas que adora música, deve passar horas na internet pesquisando novas tendências musicais, novos artistas. E eu falando em fazer trilha na Pedra da Gávea, sem noção. Ela deve me achar um cara estilo: “saúde é o que interessa”. Putz, que furo! Mal sabe ela que eu adoro trilhas sonoras, pesquisar horas na internet e acordar tardão! Ela precisa saber! Vou dar um jeito.

(voltam)

CAROL: Olha, eu adoro fazer caminhadas. Acho o máximo.

ZÉ: E eu adoro prestar atenção nas trilhas musicais. Me interesso muito por isso.

CAROL (para a platéia): Tá querendo me agradar só porque eu falei de teatro e cinema. Aposto que ele nem deve ir ao teatro ou ao cinema. Preciso ir para outro rumo (para ele) Você vai pedir o quê?

ZÉ: (para a platéia) Tadinha, tá querendo me agradar. O que eu vou pedir? Se eu pedir um chopp, vai achar que eu quero embebedá-la e levá-la pro meu apartamento. Se bem que não seria uma má idéia. Não, mas aí ela ia se assustar e tem esse tal compromisso de trabalho. Mas também, compromisso de trabalho num domingo! Mulheres... Então eu vou pedir um café, que dá um ar mais intelectual. Mas se bem que eu odeio café. Refrigerante acho caído, muito caído. Ah, um suco! Um suco é zona neutra, suco de laranja, não tem erro.(para ela) Um suco. De laranja. E você?

CAROL: (para a platéia) Suco de laranja? Esse cara deve ser daqueles que só come alimento vivo. Mas até aqui? Eu pensei que ele fosse pedir um chopp. Se ele pedisse um chopp eu ia acompanhá-lo e seria um bom motivo para “desmarcar” o meu inexistente compromisso de trabalho e ele desmarcar essa tal de trilha na pedra da gávea. A gente ia ficar altinho, ele ia me agarrar e me levar para o apartamento dele. Agora um suco? Um suco? Pra onde essa conversa vai com um suco? Ah, não! Putz, eu tô entendendo tudo. Ele tá fazendo isso para me dispensar. Ai, Carol, como você é burra. Essas coisas de amor só acontecem em filmes. Que chato. Só pra contrariar vou pedir um café com creme! (para ele) Um café com creme.

ZÉ: Garçom, um suco de laranja e um café com creme. (para a platéia) Caraca, ela deve ser uma puta intelectual. Café com creme é pedido de intelectual.

CAROL: (para a platéia) Agora é uma ótima oportunidade para começar a fumar. (para ele) Tem um cigarro?

ZÉ: (para a platéia) Vou fingir que eu não fumo. (para ela) Eu não fumo.

CAROL: (para a platéia e para ele) Imaginei.

ZÉ: Mas então Carol, você trabalha com o que mesmo?

CAROL: (para a platéia)Ah, tá querendo saber o quanto eu ganho, só pode ser. E se eu disser que eu não trabalho, que tô desempregada? Como eu queria estar agora no seu apartamento tomando vinho e tirando a minha roupa. (para ele) Eu estou terminando o mestrado.

ZÉ: Que ótimo. E sobre o que é a sua tese?

CAROL: (para a platéia) Merda! Pra que eu fui falar sobre isso? Eu nem terminei a faculdade. Merda! Agora já era. Papo chato! Ele só quer saber do meu intelecto, nem tá interessado no meu corpo! Vou acabar com esse papo agora.(para ele) Caixinha de fósforos.

ZÉ: Oi?

CAROL: Caixinha de fósforos.

ZÉ: Caixinha de fósforos? Que interessante. (para a platéia) Essa mulher deve ser um gênio, um crânio. Eu sabia que existem teses de mestrado sobre tudo, eu mesmo fiz sobre a importância do grampeador na vida moderna. Mas caixinha de fósforos? Essa superou. E agora? Será que eu pergunto mais sobre isso? Se eu não perguntar ela vai achar que eu não tô nem um pouco interessado no intelecto e só no corpo... (para ela) Me fala um pouco sobre a sua tese.

CAROL: (para a platéia) Merda, caralho, puta que o pariu!!! Será que esse cara é um chato?? Não é possível!!Ai, Carol, você só se mete em furada. Tava crente que ia transar. (para ele) Ah, é uma tese complexa, deixa pra lá. Vamos falar de outra coisa.

ZÉ: (para a platéia) Ela tá me subestimando. (para ela) Claro, podemos falar de outra coisa, imagino que deva estar trabalhando tanto com a questão de que os palitos de fósforo são um artigo, curto, fino, feito de madeira, papelão ou barbante encerado, e geralmente possui fósforo vermelho em uma das extremidades e que quando entra em contato com outros objetos de superfícies ásperas se decompõe e arde diante de baixas temperaturas e incendeia os demais produtos produzindo fogo. A combustão ocorre de uma reação gerada pelo atrito do clorato de potássio existente na cabeça do palito contra o elemento químico "fósforo" que está na lixa da caixinha. Além de ser fabricado com fósforo vermelho, para uma maior segurança, seus ingredientes inflamáveis foram colocados em dois locais distintos: na cabeça do palito e do lado de fora da caixa, junto com o material abrasivo. A cabeça do palito de fósforo é feita de uma massa química, não contendo fósforo nem pólvora. Esta massa contém um composto químico chamado clorato de potássio, que cede oxigênio com facilidade. Na lixa da caixinha de fósforos se encontra o elemento químico fósforo.

(silencio. Os dois para a platéia ao mesmo tempo.)

CAROL: Odeio ele para o resto da minha vida.

ZÉ: Já ganhei para hoje.


CAROL: (para ele) Puxa, que legal. Você sabe bem, né?(para a platéia) Babaca , passa logo a mão na minha perna.

ZÉ: (para a platéia) Eu queria mesmo é te levar pra casa e transar a noite toda. (para ela) É, eu sei alguma coisas.

CAROL: (para a platéia) Arrogante (para ele) Inteligente.

ZÉ: (para platéia) Que peito lindo...(para ela) Imagina, não mais que você.

CAROL: Bom, mas eu acho que já tá na minha hora. (para a platéia) Se ele não me agarrar agora a gente nunca mais se vê.

ZÉ: (para a platéia) Eu quero te ver pelada. (para ela) Que pena, foi tão pouquinho.

CAROL: (para a platéia) Otário. (para ele) Pois é...

ZÉ: Tem certeza que não pode ficar mais?

CAROL: (para platéia) Não. (para ele) Sim.

ZÉ: (para a platéia) Sacanagem. Marcou comigo só pra me sacanear. (para ela) Eu entendo.


CAROL: Bom, então a gente se vê numa próxima oportunidade

ZÉ: (para a platéia ) E se eu a agarrasse agora? (para ela) Então tá...

CAROL: (para a platéia) Vai ver que ele é virgem. (para ele) Tá.

ZÉ: (para a platéia) Eu nem peguei o telefone dela. (para ela) Carol?

CAROL: (para a platéia) Ah, ele se arrependeu, vai me agarrar, me morder toda aqui mesmo. (para ele) Oi.

ZÉ: (para a platéia) Falo ou não falo? Falo ou não falo? Falo ou não falo? (para ela). Você quer conhecer minha coleção de fósforos?

CAROL: (para a platéia) Coleção de fósforos? (para ele) Claro, eu adoraria. Agora?

ZÉ: Ah, esqueci que você tem que ir...

CAROL: Eu desmarco o trabalho... Afinal, sua coleção tem tudo a ver com minha tese.

ZÉ: (para a platéia) Eu não tenho coleção de fósforos. (para ela) Que bom, vai ser um prazer.

CAROL; (para a platéia) Se ele não me comer, eu nunca mais o vejo na vida. (olha para ele e ri)

ZÉ: (para a platéia) É melhor eu ir com calma. (para ela) Meu carro tá na esquina, eu vou lá pegar.

CAROL: (para a platéia) Uhu! Ele tem carro. Vamos viajar muito e ter muitos filhos em Itaipava! (para ele). Eu espero.


ZÉ: (para a platéia) Ela espera! Ainda bem que comprei aquele vinho mais caro. (para ela) Já volto.

(Ele vai)

CAROL: (para a platéia) Caixinha de fósforos...

FIM

quinta-feira, 11 de junho de 2009

NORMAL de Rodrigo Nogueira

Mesa de bar. Uma pessoa sentada. De costas para a platéia. Outro aborda.

Homem: Oi. Dá licença. Você tem fogo? (pessoa faz que não) Não? E essa caixinha de fósforo ta fazendo o quê em cima da mesa? (pessoa sentada responde algo que não ouvimos) Ah (fala mais alguma coisa que não ouvimos) Jura? Com um cágado? Que interessante. Bom mas se essa caixinha não é sua então você provavelmente não fuma, acertei? Ah, que ótimo. Então esse é o lugar ideal pra eu me sentar e você a companhia perfeita pra mim. (se sentando e mudando de tom) Não. Desculpa. Eu não quis te passar uma cantada barata, imagina. È que ultimamente eu só tenho me sentado em lugares seguros. Lugares livres da fumaça. Você sabia que um fumante passivo tem a mesma chance de ter câncer de pulmão do que um fumante... ativo? Pois é. Eu percebi que eu estava morrendo aos poucos quando ficava perto dessa gente... Os fumantes. Cada inalada que eu dava na fumaça alheia era uma aumento significativo de chance de ter câncer de pulmão. Fora que é muito anti-higiênico... você respirar uma coisa que já esteve dentro da outra pessoa. Por que é isso que acontece, né? Você inala o resquício do vício da outra pessoa. Você respira o resquício do vício da outra pessoa. Você bota pra dentro do seu corpo o resquício do vício da outra pessoa. Agora pergunta prum fumante se ele aceitaria botar pra dentro o resquício do vício de alguém que bebe cerveja... Claro que não. Claro que não. Porquê? Porque é nojento. Ora, faça me o favor. Beber mijo não pode mas respirar fumaça usada é normal? (quebra) É por isso que eu estou mudando de amigos. Não dava pra continuar com os meus amigos. Todos eles fumam. Uma coisa impressionante. Vão comer num restaurante: fumam. Sentam numa mesa de bar: fumam. Saem do cinema: fumam. Gente! Será que o cigarro é um item tão essencial pra discutir Woody Allen, jogar conversa fora ou digerir um prato de carpaccio! Pra mim não. E quer saber? Eu to me sentindo ótimo. Eu ainda não achei novos amigos, mas só de me livrar dos fumantes já foi um passo e tanto. Eu não posso em sã consciência chamar de amigo quem me mata aos poucos com fumaça de cigarro. Graças a Deus, a minha vida está mudando. Graças a Deus! (Olha pra caixa de fósforo) Um cágado! Mas que curioso... (quebra) Aliás ontem eu decidi que vou mudar de namorada também. Vou mudar de namorada. Namorada. Vou mudar de namorada. E porque não? Foi enorme! Eu tive uma decepção enorme. Quando a gente ta apaixonado a gente fica cego pros defeitos da pessoa. Acaba aceitando umas coisas, umas atitudes que com o passar do tempo vão se repetindo e acabam minando um relacionamento. E ontem eu cheguei à conclusão de que eu já não to mais tão apaixonado assim a ponto de ignorar os defeitos da minha namorada. Ela tem uma fungada lateral. (tenta fazer). Não sei imitar. É uma coisa horrenda. Ela faz um troço com o nariz. Dá até medo. A qualquer momento. No meio de uma conversa, comendo, (falando baixo) até no sexo ela já fez. Lateral. Uma fungada lateral. Esquerda. A diaba só pelo lado esquerdo! Eu comecei perceber que não adianta tapar o sol com a peneira, sabe? Lado esquerdo... Não ia rolar. Eu não podia passar o resto da minha vida com uma pessoa que aquilo. Fora que ela tem as articulações da mão muito maleáveis. Parece de borracha. Tem umas posições que ela faz com mão que me incomodam muito. Encostar os dedos no punho. Sei lá. Também é meio nojento... (Solta uma risada meio solta) Cágado! A caixa de fósforo ta aí por causa... Uma coisa impressionante. Muita coincidência. Um cágado. (pessoa fala algo que não ouvimos) Oi? Terapeuta? Engraçado você perguntar isso porque eu também decidi que vou mudar de terapeuta. É. Ela não tava me ajudando em nada. Terapeuta. A minha terapeuta. Só tava me deixando pior! Primeiro que ela falava “que seje”! Que seje! Gente! Como é que eu posso falar da minha vida, dos meus problemas mais íntimos pra alguém que não sabe conjugar o verbo ser na terceira pessoa do subjuntivo. Não há a menor possibilidade. E ela também usa uma calça da Dimpus semi-baggy em pelo século XXI! Parece até piada. E se eu te falar da cor do esmalte dela então. Você vai cair pra trás. (A pessoa se levanta) Não espera aí... Você já ta indo embora? Fica mais tempo. Vamos conversar. É que como você não fuma eu pensei que você pudesse ser minha amiga. (T) Minha namorada? (T) Minha terapeuta? Volta! (Homem se senta confortável na cadeira olha pra caixa de fósforo e sorri). Um cágado!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

LOUCURA DE AMOR de Larissa Câmara


Personagens:
Clark – o charme e a masculinidade trajando sobretudo
Geri – uma elegância prestes a desabar
Gislaine – a menção honrosa da fé e da simpatia


(Clima de filme Noir. Os personagens estão no aeroporto. Tentam ser discretos, mas se vestem como os procurados pela polícia em filmes. Geri deverá partir)

Voz off do aeroporto: Primeira chamada do vôo 755...

Clark: Com licença, a senhora deixou cair isso. (entrega passaporte para Geri).

Geri: Obrigada!

(os dois olham para os lados, muito misteriosos, de costas um para o outro tentando não chamar a atenção)

Clark: Nenhum tira por perto.

Geri: Diga tudo o que eu preciso saber.

Clark: O rim já está a caminho da Itália. O gângster depositou parte do dinheiro na conta secreta. Seu novo nome está escrito no passaporte. Seja discreta e não levante suspeitas...

Geri: Tudo certo.

Clark: Eu ainda não acabei, não me interrompa!

Geri: Desculpe, lindo, quer dizer chefe.

Clark: Agora, você deve assumir uma nova identidade. (fala muito rápido) Detesta animais, tem admiração pelo outono, nunca fez artes marciais, tem alergia a mamão, adora Ikebana e perdeu o rim num trágico acidente num veleiro que também levou o seu pai.

Geri: Ah, que pena. Que triste.

Clark: Nunca. Eu disse nunca, eu repito nunca. Ninguém poderá saber que você vendeu seu rim para a Itália.

Geri: Nunca. Entendi.

Clark: Segure a minha mão.

(Geri suspira emocionada)

Clark: Um pouco de dinheiro para você se virar até eu chegar. (olham um policial mantendo as mãos unidas. Entre dentes) Atenção, tem um policial bem ali.

Geri: Ai, benzinho fico tão sensível no mês dos namorados.

Clark: (sorri e solta a mão de Geri. Os dois ficam frente a frente) Adeus, querida! Espere por mim. Seremos muito felizes em Boca Raton.

Geri: Ai, meu doce! (emotiva falando alto) Eu sempre quis conhecer Boca Raton!

Clark: Shhh!

Geri: (empolgada) Lugar de ser feliz é Boca Raton. (pausa) Já dizia minha tia grega que mora na Barra.

Voz off do aeroporto: Segunda chamada do vôo 755 com destino a Boca Raton.

(como nos filmes românticos, Geri gira no próprio eixo e se atira nos braços de Clark, que está tenso com medo de chamar a atenção da polícia. Durante o gesto ouvimos a o tema do filme “Dying Young” tocado por Kenny G http://www.youtube.com/watch?gl=BR&hl=pt&v=qH3T3cNGhp8. Da platéia, entra Gislaine com um coração inflável amparada por sua equipe de mensagem ao vivo, com balões e demais cafonices necessárias para uma prova de amor extravagante. (Se o elenco preferir ela poderá entrar sozinha e a voz do homem da equipe poderá ser em off))

Gislaine: Há quinze anos com todo carinho ela nascia. Suas primeiras palavras foram: mamá e Cacáca. Aos primeiros passos... (um homem da equipe de Gislaine interrompe)

Homem: Ô, Gi! Essa foi a mensagem da matinê. Agora é loucura de amor.

(Gislaine sempre sorrindo sem perder a calma e a fé, interrompe a música. Revira seus papéis até achar a mensagem loucura de amor. Respira fundo. Sorri aberto e recomeça a música).

Gislaine: (com a emoção das pessoas que entregam mensagens ao vivo) Essa Loucura de amor é para você! Vamos aplaudir a homenageada. Estamos aqui hoje para dizer o quanto você é bonita, querida e amada. O seu amado quando pensa em você, fecha os olhos de saudade. Agora... agüenta coração. Um momento de grande emoção, como diria o rei Roberto: “Sabe bicho, são tantas emoções”. Receba com todo o carinho a mensagem que marcou a vida de vocês (faz sinal p/ a música de fundo aumentar) Eu não vou negar
Que sou louco por você
"Tô" maluco pra te ver
Eu não vou negar

Eu não vou negar
Sem você tudo é saudade
Você trás felicidade
Eu não vou negar

Eu não vou negar
Você é meu doce mel
Meu pedacinho de céu
Eu não vou negar

Você é minha doce amada
Minha alegria
Meu conto de fadas, minha fantasia
A paz que eu preciso pra sobreviver

Eu sou o seu apaixonado
De alma transparente
Um louco alucinado
Meio inconsequente
Um caso complicado de se entender

(agora todo mundo, pede para a platéia cantar agitando as mãos como num show. Nesse momento a música de fundo sai)
É o Amor
Que mexe com minha cabeça
E me deixa assim
Que faz eu pensar em você
E esquecer de mim
Que faz eu esquecer
Que a vida é feita pra viver

É o Amor
Que veio como um tiro certo
No meu coração
Que derrubou a base forte
Da minha paixão
E fez eu entender que a vida
É nada sem você

(todos da cena aplaudem música de fundo volta. (rubrica opcional:Policial observa.)

Gislaine: (vai até Geri) Parabéns pela loucura de amor! Qual é o seu nome?

Geri: (Tensa e emocionada) Carol-Caroline, quer dizer, (pega o passaporte e olha) Ge-ri (Perguntando para Clark atônito) Geri, é assim que fala bem?

Gislaine: Sabe quem mandou essa mensagem para você?

Geri: (para Clark) Ai, bobo. Não precisava.

Gislaine: Ele mesmo. Wesley mandou a mensagem.

Geri: Wesley? Ai meu namoradinho do colégio. Ganhei tanta bala Juquinha naquela época.(para Clark) Me desculpe, estou balançada. (pausa) Eu amava tanto o Wesley. Nunca mais nos vimos desde que ele foi coaptado pelo tráfico.

Voz off do aeroporto: Penúltima chamada do vôo 755 com destino a Boca Raton.

Clark: (conduzindo-a para o portão de embarque) Querida, é o seu vôo. È hora de dizer adeus.

Geri: (novelesca) Me solta. Eu não sei mais se quero ir. Minha cabeça diz sim, meu coração bate talvez. Eu gostava tanto do Wesley. Ele me tratava tão bem. Eu até gosto de você, mas você tem andado tão grosseiro. Seu talão de cheques não substitui carinho... Está difícil. (pausa. Numa súplica divina) Ai, minha tia... Eu queria tanto ser feliz em Boca Raton.

Gislaine: Explode coração: É hora do pedido de casamento!

Geri: (boba) Jura? Cadê o Wesley? Ele era tão loirinho.

(um homem da equipe de Gislaine interrompe)

Homem: Ô, Gi! Essa Loucura de amor era para ser no Santos Dumont. Aqui é o Galeão.

Gislaine: (num ataque de vergonha sem perder a simpatia) Essa foi a nossa cortesia, loucura de amor para você! (joga confetes sobre Geri e entrega uma flor e um balão)

(Clark e Geri batem boca loucamente: Quem é esse tal de Wesley? Seu cavalo. Falam ao mesmo tempo à la descida da ladeira. Enquanto isso Gislaine vai saindo pela platéia falando sobre sua empresa no microfone)

Gislaine: Loucura de amor. Atendimento personalizado! Temos lindas cestas de café da manhã. Fartas e bem decoradas. Reserve já. Faça alguém feliz! Entregamos em domicilio!Pague na lotérica e receba em casa ou no trabalho! Ligue e confira!Mensagem ao vivo com carro de som enfeitado com bolas. E ainda no combo gold: Queima de fogos, chuva de prata, banho de espuma, tapete vermelho, brindes e muito mais... Para mensagem ao vivo aceitamos cartão de crédito. Faça já a sua reserva! Já pensou num helicóptero soltando pétalas de rosas sobre sua pessoa amada? (quebra) Se bem que dependendo da pessoa dá vontade mesmo é de jogar um bloco de concreto em cima, não é mesmo? (volta a ficar emotiva) Enfim, surpreenda quem você ama!
(pausa. Para Geri. Lúcida) Ei! ô Minha filha, eu sou uma mulher vivida e me sinto na obrigação de dizer uma coisa: homem não é igual a palito de caixa de fósforos, que você encontra em qualquer birosca e pode sair testando à vontade. (vai sair e volta) E a vida não é um bombom de cereja ao licor, mas com certeza é mais doce do que isso. (pausa) Loucura de amor! Ideal para aniversários, 15 anos, declaração, pedido de desculpas, reconciliação e muito mais... (sai)

Voz off do aeroporto: Última chamada do vôo 755 com destino a Boca Raton.

(Clark e Geri se olham com ternura. Se encontram caminhando no melhor estilo comercial de Molico na praia. Se abraçam, giram, beijam-se. Ele a segura no beijo como num Tango e tenta enforcá-la. Ela se debate. Ela dá uma joelhada nele e chama a polícia. Barulho de sirene de polícia)

Geri: Ele tentou me matar! (pausa segurando o passaporte, muito superior e decidida) Eu mereço ser feliz em Boca Raton!

FIM

terça-feira, 9 de junho de 2009

AMBIÇÃO de Felipe Barenco

O rapaz encontra uma caixa de fósfora no meio da rua. Ao abrir a caixa, surge um gênio.

Gênio – Finalmente!

O rapaz chocado.

Gênio – Finalmente uma boa alma se interessou por uma caixinha de fósforo.

Rapaz – Quem é você?

Gênio – Eu sou o gênio da caixinha de fósforo. (olhar desconfiado do rapaz) É sério. Lâmpada mágica é coisa do Egito antigo. E você está no Brasil, no Rio de Janeiro, em Inhaúma.

Rapaz – Desculpa, é que eu nunca imaginei encontrar um gênio em Inhaúma. (pega um fósforo pra acender o cigarro)

Gênio – Não faça isso, pelo amor de Deus! Vai gastar um dos seus três pedidos.

Rapaz – Ah! Perdão... é que eu tô morrendo de vontade de fumar. Não tinha dinheiro nem pra comprar um isqueiro, quando pimba, achei essa caixinha de fósforo.

Gênio – Pode fazer seu primeiro pedido.

Rapaz – Qualquer um?

Gênio – Você não está convencido que eu sou um gênio, né?

Rapaz – Pra ser sincero, não.

Gênio – (pensando alto) Por isso que não vale a pena vir na zona norte.

Rapaz – O que o senhor disse?

Gênio – Se é um rico que encontra uma caixa de fósforo mágica, o cara nem hesita e pede logo pra quadruplicar a fortuna. O pobre não. Fica querendo entender a lógica das coisas.

Rapaz – Tá bem, não precisa ofender. Eu quero... quero...

Gênio – Se você pedir um cigarro eu vou embora.

Rapaz – (risca o fósforo decidido) Eu quero parar de fumar.

Gênio – Olha! Você me surpreendeu. (faz um gesto simbólico) Desejo atendido. Pode fazer outro.

Rapaz – Eu quero poder fazer quantos pedidos eu quiser eternamente...

Gênio – (cortando) Nanão. Foi só elogiar... se o espertinho quiser se dar bem trapaceando, me assalte logo de uma vez.

Rapaz – (pensando bastante) Eu quero acabar com a fome na Àfrica.

Gênio – Esse é meio clichê, mas tudo bem. Pedido atendido.

Rapaz – Só uma dúvida... como eu posso ter certeza que o meu pedido foi realizado?

Gênio – Você pode desejar uma passagem de avião até a África e ficar por lá mesmo.

Rapaz – Não precisa ser estúpido.

Gênio – Não, não pode desejar ser o gênio. Eu leio pensamentos.

Rapaz – Geralmente as pessoas pedem o quê?

Gênio – Sexo e muito dinheiro. Geralmente começam pedindo dinheiro, porque o resto vem junto.

Rapaz – Sei... (pensando)

Gênio – Não pode demorar muito não, que eu tenho hora.

Rapaz – Alguém já pediu pra ser feliz?

Gênio – Raramente.

Rapaz – Porque é um desejo muito difícil de realizar, né?

Gênio – Digamos que seja um desejo complexo.

Rapaz – Eu posso pedir pra alguém desejar pra mim?

Gênio – (consigo) Eu nunca mais volto em Inhaúma.

Rapaz – Ah, tá certo. Pronto. Decidi.

Gênio – Pode falar.

Rapaz – Eu desejo voltar a fumar.

Gênio – Como assim?

Rapaz – Eu já acabei com a fome na África, não censure os meus pedidos. Eu era muito feliz fumando.

Gênio – Sabe que fazendo esse pedido você conseguiu, pela primeira vez na história da humanidade, fazer três pedidos e ficar exatamente na mesma situação de merda do início?

Rapaz – É, né?

Gênio – Pois é.

Rapaz – Então eu quero outra coisa.

Gênio – Sim.

Rapaz – (risca o fósforo) Eu desejo um isqueiro.

FIM

segunda-feira, 8 de junho de 2009

“Estúpido direito de sofrer” De Jô Bilac

Personagens

Letícia, a noiva.
Mateus, o noivo.
Padre


(Altar de uma igreja. Mateus ao lado do padre e os padrinhos. Ave Maria, entra a noiva com o rosto coberto pelo pesado véu branco, impedindo que seu rosto seja visto.)

(A noiva caminha lenta até o altar.)

( O Noivo levanta seu véu sem pressa)

Mateus: (espanto pavoroso) O que é isso??!!!

Letícia: (sorri constrangida) Mateus...

Mateus: (revoltado) O que você está fazendo aqui?

Letícia: (doce) Me casando com você...

Mateus: Que brincadeira de mau gosto é essa?

Letícia: (canto de boca) Mateus... Pelo amor de Deus... Olha o escândalo...

Mateus: Quem é você?

Letícia: Que papelão, meu deus...

Mateus: Quem é essa mulher? Cadê a minha noiva?

Letícia: Estou aqui...

Mateus: Você não é a minha noiva... Onde está a minha noiva? (perdido)

Letícia: (ao público) Ele está nervoso... Natural... Casamento é coisa séria. (sorri) Mateus, sou eu... Sua Letíciazinha... Aqui, meu amor... Fica calmo, tudo vai dar certo...

Mateus: (sorri incrédulo) É pegadinha?

Letícia: Pegadinha...?

Mateus: Tem câmeras escondidas aqui! Onde estão????

Letícia: Do que você está falando, meu amor?

Mateus: Aposto que esse padre nem é de verdade... É tudo uma farsa!

Letícia: Não tem câmera nenhuma, Mateus...

Mateus: Pára de falar meu nome!!! Como é que você sabe o meu nome?

Letícia: (ri nervosa) Você está fora de si... Controle-se...

Mateus: Fora de mim eu vou ficar se você não me disser agora o que está acontecendo aqui!!!

Letícia: Um casamento.

Mateus: Estou vendo.

Letícia: O nosso casamento...

Mateus: Nosso? Como assim cara pálida? Eu nem sei quem é você!

Letícia: (chorosa) Por que você está fazendo isso comigo...?

Mateus: Isso o que?

Letícia: Isso... Humilhação, vergonha, desprezo... Bem no dia que deveria ser o mais feliz da minha vida! Se não queria casar, era só falar. Eu ia sofrer claro, mas ia passar! Agora você me inventa essa palhaçada de última hora, arma esse coreto e diz na minha cara que não sabe nem quem eu sou? Monstro!

Mateus: Espera aí! Deve estar havendo algum engano, minha querida.

Letícia: “Minha querida” ? Ah!!! Agora eu sou “a sua querida”???

Mateus: Eu não sei quem é você!

Letícia: Seu canalha!

Mateus: Não inverta a situação, sua maluca! Eu quero casar , é claro que eu quero casar. Eu vou casar!!! Mas não com você...

Letícia: Aiiii......Torpe!

Mateus: Nada pessoal... Mas não posso me casar com quem eu não conheço?

Letícia: Isso é sentido figurado? Porque, eu sei que não conhecemos ninguém de verdade por dentro, não completamente, mas olha, eu posso te assegurar que eu continuo sendo a mesma e...

Mateus: Não!!! É literal, mesmo. Eu não sei, de verdade, do fundo do meu coração, sinceramente, eu não faço a mínima idéia de quem é você...

Letícia: Eu sou Letícia, a mulher que até ontem você disse que amava...

Mateus: Você deve estar me confundindo... Olha, vai ver você entrou na igreja errada. Acontece. Nunca te vi, nunca te amei.

Letícia: Cínico! (esbofeteia o noivo)

(todos: Ohhhhhhhhh!!!)

Mateus: O que é isso?!!! Doeu, sabia?

Letícia: Era pra doer mesmo!!!

Mateus: Maluca!!! Essa mulher é uma louca!! Padre, eu exijo uma explicação para tudo isso!

Letícia: Padre, condene esse homem ao inferno!

Mateus: Padre, diz pra ela que ela está cometendo um grande engano...

Letícia: O grande engano foi eu ter acreditado em você!

Mateus: Padre! Diz alguma coisa!!!

Padre: Caixinha de fósforos.

Mateus: O que? Pirou? (muda o tom) Já sei: eu estou num daqueles sonhos bizarros, sem sentido, mas que parecem reais. É isso. Daqui a pouco eu acordo... Você deve ser um sentimento de culpa, ou alguma projeção dos meus medos da infância... É isso. Nada disso está acontecendo de fato. Você não é real.

Letícia: (ela cospe na cara dele) Isso parece real pra você?

Mateus: Que merda!!!! Não faz mais isso!

Letícia: A explicação disso tudo é explícita e objetiva: você é um covarde, e não merece o meu amor! Quem não casa agora, sou eu!!!

Mateus: Paciência. Pois eu vou casar. A minha noiva vai entrar por essa igreja daqui a pouco e vamos juntos viver uma vida de amor e respeito, com direito a lua de mel em Maceió.

Letícia: Eu odeio você, Mateus!!! Odeio Maceió!

Mateus: Olha, se eu provar que você está enganada, você vai embora e me deixar em paz de uma vez por todas?

Letícia: Provar que eu estou enganada? Então você insiste nessa loucura... Meu deus... Você deve ter surtado! Isso... É essa a explicação... Você surtou! Ou então bateu com a cabeça em algum lugar e por isso está assim... Tadinho! Ai meu amor, eu cuido de você, deixa...

Mateus: Me larga! Que inferno! Gente? Ninguém vai fazer nada?

Letícia: Gente ele está com problemas... Acontece. Não vamos julgá-lo, sim? Vamos aceita-lo e esperar que ele supere essa fase difícil da vida dele...

Mateus: Ei! A única pessoa com problema aqui é você, minha filha!

Letícia: Nós te amamos, Mateus. Mateus é um bom companheiro, Mateus é um bom companheiro... Abraço coletivo!!!!

Mateus: Saiiiii!!! Olha, eu não sei o que está acontecendo aqui, mas eu vou provar que esta mulher é uma fraude!!!!

Letícia: Prove.

Mateus: As alianças! Está vendo aqui? (indica a aliança) Aqui está gravado o nome da minha noiva!

Letícia: Sim. Leia em voz alta. Diz. Qual é o nome da sua noiva???

Mateus: Você acha mesmo que vai se casar comigo, não é?

Letícia: Não sou mulher de achismos. Sou fundamentada em certezas!

Mateus: (sorri sádico) Chacotinha! Vai quebrar a cara.

Letícia: (desafiadora) Pago pra ver...

Mateus: O nome da minha noiva é... ( Lê na aliança, suspense. Desfaz o sorriso , num pavor) Letícia?

Letícia: A máscara caiu, meu bem!

Mateus: Que sinistra anedota é essa? O que está acontecendo aqui?

Letícia: O que está acontecendo aqui é que você acaba de ser desmoralizado na frente de todo mundo!!!

Mateus: Não é possível... Eu não conheço você... Eu juro... Eu juro...

Letícia: Você é o meu noivo!

Mateus: Não! Eu juro que não!!!

Letícia: Está na aliança! Como você mesmo decretou: a prova dos nove.

Mateus: Não é possível...

Letícia: É possível sim, meu amor. Eu também tenho o seu nome escrito aqui na minha aliança, em letras garrafais... (lê na aliança) Rogério?

Mateus: Rogério? Quem é Rogério?

Letícia: Essa aliança está errada... Eu não sei quem é Rogério...

Mateus: Rogério é o seu noivo!

Letícia: Não...

Mateus: Sim! É isso. Você realmente vai se casar, mas não comigo...

Letícia: O que? Que isso? É uma pegadinha? Tem Câmeras aqui????

Mateus: Desculpa, eu devo ter me enganado de igreja... Fiquei tão tenso com tudo que entrei na igreja errada... Mil desculpas!

Letícia: Eu não sei quem é Rogério... Mateus, acredita em mim!!! Que brincadeira de mau gosto é essa?????

Mateus: Está bem claro nas alianças: Letícia, você. Rogério: Seu noivo! Felicidades!!

Letícia: Não... Eu juro... Deve ter acontecido algum engano...

Mateus: Sim... Me perdoe pelo engano. (aos convidados) Perdão padre! Foi mal pessoal! Realmente não conheço nenhum de vocês...

Letícia: (assombrada) Eu também não... Não são seus convidados?

Mateus: Não.

Letícia: Mas e agora?

Mateus: Sinto muito. Seu nome está aí... Agora, o problema é seu... (saindo feliz)

Letícia: (do altar) Volta aqui, Mateus! Mateus!!! Volta agora!

Mateus: Estou atrasado para o meu casamento!!! Beijos! Felicitações ao seu noivo Rogério!!

Letícia: Eu já disse que não sei quem é Rogério!!! Mateus!! Mateus!! Mateus !!!!!!!!!!!!

( Mateus dá um tchauzinho de longe e some)

Letícia: (sem entender nada) Gente... Que loucura... (ao padre) Caixinha de fósforos?

(valsa nupcial, luz caindo em resistência)

fim

domingo, 7 de junho de 2009

BAILA COMIGO de Camilo Pellegrini

HOMEM

MULHER

 

HOMEM conduz MULHER para o centro da pista de dança. ELES dançam suavemente, calmamente, durante toda a cena. Acho melhor não colocar trilha sonora, imagino que fique melhor com os dois dançando sem música.

H- Que bom.

M- O quê?

H- Você ter aceitado.

M- Ah. Isso.

H- Dançar comigo.

M- Tão galante, você.

H- Jura? Acha mesmo?

M- O que você propor, eu topo.

H- Linda. Parece uma deusa.

M- Fala isso pra todas. Aposto.

H- De jeito nenhum. Sabia que era uma mulher incrível assim que te vi.

M- Conversa mole.

H- Namora comigo?

M- Namorar?

H- Responde, vai?

M- Tudo bem! Aceito!

H- Tão bom ficar juntinho.

M- Também gosto bastante!

H- Casa comigo?

M- Assim, de repente?

H- Esperar pra quê?

M- Está certo! Eu caso! Pronto!

H- Nossa lua de mel...

M- Vai com calma. Faz tempo que não faço essas coisas.

H- Muito tempo?

M- Uns bons minutos.

H- Lembra que eu amo você.

ELES dão uma bitoquinha.

H- E então?

M- Legal...

H- Foi bom?

M- Ótimo. A gente há de melhorar com o tempo.

H- Tem que praticar.

ELES dão mais uma bitoca.

M- Amor?

H- Fala, meu anjo.

M- Estou uns dois segundos atrasada, acho que...

H- O quê?

M- Grávida.

H- Mas já?

M- Cedo?

H- Nem viajamos pro estrangeiro.

M- Você também tem culpa no cartório!

H- Tem culpa eu?

M- Não fiz o filho sozinha!

H- Tão de súbito.

M- Foi dois pra lá... dois pra cá... Fui na tua conversa... Olha só no que deu.

H- Aborto?

M- Nem pensar!!!

H- Vamos ter o pestinha então.

M- Ai, benzinho! Obrigada! Eu amo você!

H- Tudo certo aí?

M- Vai nascer!

H- Mas já?

M- Nove segundos passam voando! As contrações!

H- Respira!

M- Nasceu!

HOMEM tira um bebê de dentro do bolso ou debaixo da saia de MULHER.

H- É homem!

M- Que sorte.

H- Prefiro menina.

M- Dá mais trabalho.

H- Não consigo dançar segurando esse troço.

M- Já trocou a fralda dele?

H- É pedir demais para um pobre trabalhador como eu.

M- Não ajuda em nada. Nunca vi.

H- Não fiz curso pra ser pai, cacete!

M-Deixa o Júnior com a babá.

HOMEM atira o bebê para a coxia.

H- Como gasta o vermezinho! Só de fralda dava pra comprar uma casa!

M- Não fala assim do meu filho!

H- Se aborreceu? Fechou o tempo?

M- Detesto quando chama o Júnior de verme.

H- Apelido carinhoso.

M- Você mudou. Não olha mais pra mim.

H- Não é verdade... Vem aqui, vem.

ELES dão uma bitoca.

M- Amor. Atrasou de novo.

H- Está querendo dizer o quê?

M- Você sabe.

H- Emprenhou?

M- Vai ser bom! Júnior precisa de um irmão.

H- Droga...

M- Assim você me magoa. Profundamente.

H- Se mágoa causasse aborto...

M- Nunca, ouviu bem?! Nunca!!!

H- Novidade.

M- Vai nascer! Estourou a bolsa!

H- Tô sabendo...

HOMEM tira mais um bebê de MULHER.

M- E então?

H- É menina.

M- Não está feliz?

H- Médio.

M- Ela tem os seus olhos.

H- Deixa ela com a babá.

HOMEM atira o bebê para a coxia.

M- O que houve?

H- O quê?

M- Por que você está assim?

H- Mau humor mesmo. A escolinha do Júnior aumentou.

M- Antes era tudo diferente.

H- Era nada. A mesma porcaria.

M- Minutos atrás era tão bom...

H- Te chamei pra dançar um tango e nossa vida virou um forró.

M- Não fala isso.

H- Um forró bem rastaqüera.

M- Você me faz muito triste.

H- Chega mais perto. Retiro o que disse.

M- Me deixa. Não estou legal. Dor de cabeça.

H- Depois eu procuro na rua e como é que fica?

M- Grosso! Vai a merda! Estúpido!

H- Lava essa boca! Não me obriga a te descer a mão.

M- Quero terminar.

H- Você está fora de si! E os nossos filhos?

M- Eu sei da sua amante!

H- Amante? Só se for telepatia! Não desgrudo de você um milésimo de segundo!

M- A gente se odeia! Melhor separar mesmo!

H- Não sou homem bastante? É isso?

M- Você está me machucando!

H- Gosta que seja na força! Te excita! Só umas palmadas e fica doidinha de tesão!

M- Eu não quero! Me larga! Não quero!

HOMEM obriga MULHER a lhe dar uma bitoquinha. Prosseguem dançando, ambos arrasados.

H- Não estou passando muito bem.

M- Eu te odeio.

H- Tudo meio turvo.

M- Me dá o divórcio. Eu quero o divórcio.

H- Por cima do meu cadáver!

M- Você vai morrer podre! Todo podre!

H- Deus te ouça.

M- As contrações. Vai nascer o terceiro.

H- Você que quis esse. É todo seu.

M- Desgraçado.

H- Falei pra abortar. Alguém não quis.

M- Nunca!!! Nunca!!!

HOMEM tira mais um bebê de mulher.

H- Outro menino.

M- Júnior e Jéssica vão ficar felizes. Pagou a babá?

H- Essa molecada me suga o dinheiro todo! Não sobra nada!

M- Nada pras tuas amantes!

H- Não tenho amante, porcaria! Antes tivesse! (SENTE) Ai, que dor!

M- O quê?

H- Está doendo demais! Piorou muito!

M- Chega de adiar. Pro médico.

H- Os exames! Chegaram!

MULHER lê os exames.

M- Mas isso aqui... Não pode ser...

H- Fala!

M- É morte.

H- (DISFARÇA O MEDO) Todo mundo morre um dia.

M- Poucos segundos, meu anjo. A doença está muito avançada.

H- Mentira.

M- Não tem mais como operar.

H- Não fala uma coisa dessas.

M- Se descobrisse uns segundos mais cedo.

H- Estou com tanto medo.

M- Três... Dois... Um...

H- Não me deixa só.

M- Adeus.

HOMEM morre. MULHER vai embora.

sábado, 6 de junho de 2009

NINGUÉM BAILA COMO EU BAILO de Júlia Spadaccini

Léo, menino mais feio e nerd da escola, se aproxima de Mariane, uma das meninas mais bonitas.

Léo = L
Mariane = M

L – Oi.

M – Quem disse?

L- Disse o que?

M – Que você pode falar comigo?

L- Eu não posso falar com você?

M- Não, até que eu diga que você pode.

L- E quando isso vai acontecer?

M- Nunca.

L- Você nunca vai querer falar comigo?

M- Menino, se manca! Tá queimando o meu filme. Se toca!

L – Mariane.

M- Não fala o meu nome! Que mico! Nunca mais repete meu nome!

L- Mariane não é só o seu nome. Tenho uma prima chamada Mariane.

M – Circula, garoto! Estou esperando o meu namorado.

L- Era justamente sobre isso que eu queria conversar contigo.

M- Conversar??? Ah! Garoto, e eu lá quero conversar com uma lombriga, como você?

L- Lombrigas são muito espertas sabia? Podem viver anos a fio sem nunca serem descobertas.

M- Que nojo, garoto! Sai daqui!

L- É que eu estava pensando que devia te dizer uma coisa sobre o seu namorado.

M- Quê? Tá maluco? Não fala o nome do meu namorado!

L- Eu não sei o nome do seu namorado.

M – E o que tem o meu namorado?

L- Eu acho que ele... tem um desvio de personalidade.

M- Que desvio?

(pausa)

L- Mari, eu acho que ele frita.

M- Frita o que?

L – Frita na pista.

M – Como assim?

L – É, frita na pista; camufla; escamoteia; carrega bandeja...

M- Eu vou chamar o inspetor.

L – Seguinte, Mari, eu sei que você me acha feio agora, mas eu vou crescer, minhas canelas vão engrossar, minhas espinhas vão sumir, vou passar na faculdade de economia, trabalhar na bolsa de valores, ser um homem de negócios rico e importante, um bom marido, bom pai. Já o seu atual namorado... bem, ele vai... vai... se é que você me entende?

M – Ele vai o que?

L – Vai, digamos, que vai trocar samba pela lambada.

M – Ele não gosta de dançar.

L – Vamos lá, Marizinha, você pode mais que isso. Eu quero dizer que aquela toalha é canga; que aquela Coca é Fanta...

M – Não acredito.

L- Tenho certeza. Você pode ser passional e deixar que o seu namorado te leve ao baile, ou pode pensar no seu futuro e fazer a coisa certa.

M – E qual é o meu futuro?

L – Mas, cá pra nós, você é bonitinha, mas seu nariz vai crescer, suas coxas e quadris vão aumentar. Você não tem muito dinheiro e é péssima aluna, enfim, não vai muito longe depois da escola.

M- Que horror!

L – Te dou uma dica: cola comigo.

M – Mas eu tenho nojo de você!

L- Isso vai passar em no máximo 7 anos.

M – 7 anos???

L – No máximo. Mas te garanto que vai valer a pena. Eu compenso esse nojo te passando as respostas das provas.

M – Hmm... Você é bom em Matemática?

L – Minha melhor matéria.

M – Você vai me dar cola em todas as provas?

L – Todas.

(Pausa)

M – Pode ser.

L – Acho que não.

M – Como assim??

L – Com todo respeito, você nem é tão bonita assim. E essa sua coxa promete ser uma celulitelândia... E se eu te conquistei com esse papo em 5 minutos, posso fazer melhor e conseguir uma garota realmente bonita.

(Leo começa a ir embora.)

M – Escuta!

L – Fala logo que estou com pressa.

M – E o Bob?

L – Quem é Bob?

M – Meu namorado... ele frita?



FIM

sexta-feira, 5 de junho de 2009

BROWNIE COM SORVETE de Renata Mizrahi

(Uma festa de casamento, muita música, muita comida, muita gente bonita. Leiza, sempre muito simpática, está com um monte de salgadinhos na mão. Ela sem quere esbarra em Nelson, também sempre muito simpático, com um monte de salgadinhos na mão. Ao se esbarrarem os salgadinhos caem no chão.)

NELSON: Opa, desculpa.

LEIZA: Não, imagina. Desculpa eu.

NELSON: Não, imagina. Fui eu que esbarrei em você.

LEIZA: Que é isso? Imagina. Eu é que sou super distraída.

NELSON: Que é isso? Imagina, eu é que sou.

LEIZA: Que é isso? Faz parte.

NELSON: É, faz parte.

LEIZA: É, faz parte.

(silencio. Estão sem graça)

NELSON: Prazer, Nelson.

LEIZA; Leiza.

NELSON: Leiza? Não é Le-í-za?

LEIZA: Não. É Leiza mesmo. Sem acento.

NELSON: Diferente.

LEIZA: Pois é.

NELSON: Você faz o que? Leíza sem acento (riso).

LEIZA(sem achar graça): eu, administro uma empresa de cosméticos.

NELSON: que interessante.

LEIZA: É. Muito. E você?

NELSON: Sou médico. Ginecologista.

LEIZA: Uau. Me dá o seu cartão. (riso tenso).

(Silencio constrangedor)

NELSON: Mas você conhece o noivo ou a noiva?

LEIZA: O noivo ou a noiva? (pequeno constrangimento) Adivinha.

NELSON: Deixa eu ver... Pelo visto você é amiga da noiva.

LEIZA: Por quê? Você é?

NELSON: Não. Do noivo.

LEIZA(aliviada): Eu sou da noiva mesmo.

NELSON: É mesmo? Você é amiga da... Da... Nossa deu branco. Como é o nome da noiva mesmo? Ah, meu Deus. Que loucura, qual é mesmo?

LEIZA: Ah, meu Deus, me deu branco também, peraí... Como é mesmo? Que loucura.

NELSON: E olha que você é amiga dela, hein?

LEIZA: Pois é...é que a gente não se vê há tanto tempo.

NELSON: Eu entendo. Amigas da época da infância.

LEIZA: Na verdade somos amigas da época de bebê. Sabe, eu bebê era muito amiga dela bebê.

NELSON: Que legal. E ela te convidou para o casamento? Que simpático.

LEIZA: Olha só, né? Esses casamentos mega. Eles convidam todo mundo que já passaram pela suas vidas. Um luxo.

NELSON: É para depois eles verem no vídeo como eles conhecem gente.

LEIZA(insegura, mas disfarçando): Pois é... Ah, lembrei. O nome dela é Amanda.

NELSON(disfarçando, fingindo que lembrou também) Amanda! Claro. Amanda!

LEIZA: Amanda!

NELSON. Amandinha.

LEIZA: Amandíssima.

NELSON: Adoro a Amandinha. Imagina, como esquecer? Que loucura.

LEIZA: Loucura total! E você conhece o noivo da onde?

NELSON: O noivo?

LEIZA: É, ele não é seu amigo?

NELSON: Muito amigo, muito amigo. Conheço ele da escola.

LEIZA: Ah, que fofo. Estudaram juntos?

NELSON: Mais ou menos. Eu sou um ano mais velho.

LEIZA: Que simpático.

NELSON: Muito simpático.

LEIZA: ai, gente. Hoje eu não to boa. Qual é o nome dele mesmo?

NELSON: (completamente inseguro) O nome dele é... Rogério.

LEIZA: Rogério, claro!!! Rogério.

NELSON: Olha só. Rogério! Rô Rô para os íntimos.

LEIZA: A Amanda me falava dele antes de casar.

NELSON: Falava do Rogério? Mas vocês não eram amigas de bebê? Será que desde tão nova ela já tinha conhecido o Rogério? (riso histérico)

LEIZA (séria): Pois é. Já. (ele para de rir) E você? Imagino que de tão amigo do Rô Rô. deva ter um monte de segredinhos com ele.

NELSON: Tenho mesmo. Cada história.

LEIZA: Imagino.

NELSON: E vocês, já que eram tão amigas de bebê, devem ter também várias histórias. Tipo: Quem babou primeiro ou quem fez caquinha na enfermeira. (riso histérico)

LEIZA(nervosa): E já que você é tão amigo do Rô Rô, vai lá abraçá-lo. Ele está bem ali falando com aquele grupo de convidados. Que me parecem que são amigos de infância também.

NELSON: Com certeza. Aliás, eu gostaria muito de te ver junto com a Amanda em uma foto para relembrar a época de bebê. Ela e o fotógrafo estão bem ali, fotografando as amigas.

LEIZA: Vai você primeiro.

NELSON: Não, vai você.

LEIZA: Que é isso, vai você.

NELSON: Primeiro as damas.

LEIZA: Que não deve não teme.

(começa a tocar uma musica do Michael Jackson. Beat It)

NELSON: Olha só, escuta. Ta ouvindo essa música?

LEIZA: Claro, o DJ ta fazendo questão que todo mundo escute.

NELSON: Eu vou mostrar a coreografia que eu fazia com o Rogério nos tempos de infância.

LEIZA: Não precisa...

(ele começa a dançar a música bem toscamente. Ela fica constrangida e tenta falar com ele.)

LEIZA: Você está chamando a atenção pra cá. (ri para as pessoas.) É melhor parar. Tá chamando a atenção. (Fala com alguém da festa) Oi, tudo bem? Viva os noivos!

NELSON: Dança comigo. Já que é tão íntima da noiva. Ela vai adorar quando te vir no vídeo dançando.

LEIZA: No vídeo? Não, eu odeio isso...

(Ele a puxa para dançar e dança com ela muito exageradamente , uma dança meio sexy/vulgar. Ela vai se deixando levar e acaba se empolgando. Eles dão um”show”. Terminam de dançar e ouvem os aplausos. Agradecem constrangidos.)

NELSON: Nós arrasamos. Tenho certeza que a Amanda vai ficar muito feliz quando te vir no vídeo.

LEIZA: É. E o Rogério vai poder relembrar a coreô da infância.

NELSON: Olha, lá. O fotógrafo.

(Eles fazem uma pose para a foto)

LEIZA(doida para se mandar): Olha, foi um prazer imenso te conhecer, mas eu tenho que acordar cedo amanhã...

(Entra a voz em off do cerimonialista)

Voz em off: Agora os noivos, Regina e Marcelo, convidam todos para valsa nupcial.

(silêncio. Eles se olham sem graça)

NELSON: Quem é Amanda?

LEIZA: E quem é Rogério... Ou melhor: Rô Rô?

(Cúmplices, se entendem no silêncio)

LEIZA: Eu só queria comer alguns salgadinhos... Eu nunca tinha feito isso... Eu tô tensa... Sabe como é, né? É a crise... Tá foda.

NELSON: Calma, fica tranqüila. Eu já faço isso há anos.

LEIZA: Há anos?

NELSON: É um tipo de compulsão. Sei lá. Minha analista falou que é porque eu nunca tive festa de aniversário na infância. Meus pais achavam fútil.

LEIZA: Que triste.

NELSON: Aí eu desenvolvi a técnica do dançarino. Ninguém desconfia...Pelo contrario, querem tirar foto, me filmar, nem questionam...

LEIZA: Ah, sei... Olha, tudo bem. Vamos fingir que não nos conhecemos.

NELSON: Por quê? Estamos indo tão bem. Olha a foto! (tiram mais uma foto juntos)

LEIZA: Olha, na verdade eu não me chamo Leiza. Meu nome é Vânia.

NELSON: Eu também não me chamo Nelson e não sou medico ginecologista. Na verdade eu me chamo Afonso e sou ator.

VÂNIA: Que ótimo porque eu também não administro uma empresa de cosméticos, sou operadora de telemarketing e vendedora da Avon..

AFONSO: Puxa...

VÂNOA: Pois é...

(silêncio)

AFONSO: Por que logo Leiza e não Leíza?

VÂNIA: É em homenagem a uma tia avó que nunca foi numa festa de casamento.

AFONSO: Uau.

VÂNIA: pois é...

AFONSO: Olha lá, estão servindo a sobremesa. Parece que é brownie com sorvete.

VÂNIA: Brownie com sorvete??? Nossa, eu amo. Essa eu não posso perder. A gente se esbarra por aí.

AFONSO: De repente a gente se encontra numa outra festa...

VÂNIA: De repente. Ei, garçom!

(ela sai atrás da sobremesa e ele fica sozinha na pista de dança. Na cara de pau, vai falar com o noivo)

AFONSO(indo para fora da coxia): Marcelo!!! Gostou da dançinha? Tão tão feliz por você...

FIM.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

AMBERVISON de Larissa Câmara

(Para: 4 mulheres e dois homens, um homem vestido de mulher)

Era chegado o grande dia! Hoje todas as moças casadoiras estavam asseadas, excitadas, preparadas para quem sabe se tornar a mais nova senhora do local. Dona Katia estava ansiosa, arrumava as cinco filhas loucamente. Todas deviam estar lindas no grande momento.
Dona Katia fez de tudo por suas meninas, abandonou até sua promissora carreira na MPB.

(Foco de luz em Katia diante de um pedestal cantando trecho de “não está sendo fácil”. É importante lembrar que ela erra o microfone ao dublar.)

Realmente a vida de Dona Katia não foi fácil. Seu marido, por quem ela era cega de amores, foi sair para trabalhar. Ele ganhava a vida fazendo cover de Steve Wonder em bailes de formatura. (aparece ator com óculos escuros)

Katia – Vá com Deus, querido! (pequena pausa) Deus é amor. O amor é cego. Você é cego! Você é Deus! (ator Steve ri, beija a mulher balbuciando “What a Wonderful World”)

Mas, no momento de atravessar a Rua.

(ator Steve como se estivesse na calçada)

Katia – Honey!

(ator Steve vira a cabeça na direção de Katia, ou não)
Katia – I just call to say I love you!

Steve – Baby, you´re the sunshine of my life!

E depois de se despedir e colocar o fone do seu walkman no ouvido ao pisar na rua, um caminhão desgovernado atropela o marido de Katia.

(Luz alta no rosto do ator Steve. Estrondo. Elenco faz uma meia lua na frente do ator para que ele possa sair de cena. Kátia canta chorando mais um trecho de “não está sendo fácil”. Filhas acompanham chorando.)

Mas as dores ficaram no passado. Agora a expectativa reina, porque hoje é o grande dia. Hoje o filho do traficante mais quente do pedaço... Ops, o filho do deputado, vai escolher uma noiva! (Filhas de Katia suspiram) No grande baile do Pancadão do Morro das Lacraias Uivantes.

(Luzes piscam. Música. Atores começam a dançar. Pausa. Mulheres fazem fila se apresentando para o príncipe.)

Atriz 1 – Oi meu nome é Ariel faço natação desde criança. Meu sonho é chegar na igreja saída de um carro rabo de peixe. Ah, sei fazer uma moqueca ótima!

Atriz 2 – Oi meu nome é Aurora, eu acho que a felicidade é química. Conheço uns comprimidos muito loucos. Um dia tomei um coquetel de lexotan e tive a sensação de ter dormido por uns 100 anos.

Atriz 3 – Como você pode notar eu sou a Bela! Não sou superficial, adoro ler revistas, especialmente a parte das figuras. Também adoro aventuras em lugares distantes, de preferência os cruzeiros onde o Roberto Carlos faz show. E olha só, nem vem dando uma de monstro para cima de mim porque eu viro uma fera.

Atriz 4 – Oi Meu nome é Branca. Posso assegurar que quase não darei despesas porque tenho umas sete empregadas que são pequenininhas e ótimas. Elas limpam muito bem o chão e as prateleiras de baixo, uma beleza.

Príncipe – (com um olhar para o além) Papai, eu não quero mais ouvir uma palavra dessas estrupícias. Eu disse que a melhor opção era procurar uma agência de relacionamentos, mas o senhor não quis me ouvir. Minha pele está ficando cansada, papai. Vamos fazer um concurso de dança! A primeira que descer até o chão será minha noiva.

(As filhas de Katia começam a descer até o chão loucamente. A filha que desce mais é o menino vestido de mulher.)

Príncipe – (Faz um sinal para a música parar) É você a escolhida meu anjo! (falando no ouvido da escolhida) Apareça na calada da noite no meu quarto, e leve um copo de leite morno para mim, se quiser mesmo ser a futura rainha do baile.

O grande baile foi encerrado. Dona Katia colocou as filhas para dormir e ficou assistindo ao corujão na sala.

A grande escolhida não conseguia dormir. Revirava na cama pensando na ameaça do príncipe. Decidiu sair. Colocou um véu para não ser reconhecida e óculos ambervision. Passou por trás da mãe sem que ela visse. Pegou uma garrafa de leite fervendo, fez uma ligação direta no fusca abóbora da vizinha e saiu rumo ao palácio.

Nos aposentos do príncipe:

Príncipe – Eu sabia que você viria!

Escolhida – Trouxe o seu leite.

Príncipe – Tire esses óculos.

Escolhida – Para quê?

Príncipe – Para eu ver você melhor!

Príncipe – Tire o véu.

Escolhida – Para quê?

Príncipe – Para eu sentir você melhor!

Escolhida – (deixando escapar a voz grossa) Seu leite vai esfriar.

Príncipe – O que houve com a sua bela voz? Está resfriada.

Escolhida – Não. Foi um acidente. Quando eu era menina caí feio do balanço e desloquei a glote, o que causou profundas alterações nas minhas pregas... vocais.

Príncipe – Não precisa dizer mais nada! (Pega escolhida para uma clássica cena de beijo de cinema, mas percebe que ela é homem) O que é isso?

Escolhida – Uma hérnia. No acidente, fiz muita força para levantar depois que caí do balanço.

Príncipe – Sua caloteira! Suma daqui!
(Escolhida imobiliza Príncipe amordaçando-o)

Escolhida – Agora, vamos conversar um pouquinho sobre mim. Um dos meus passatempos preferidos é Ikebana, a arte japonesa do arranjo floral. Como esse é meu hobby desde criança tenho uma tesourinha que ganhei da mamãe. (exibe tesoura de cortar grama) Veja que relíquia, meu bem. Cada sujeito que me faz infeliz eu corto um pedacinho dele. Para ele aprender a nunca mais despedaçar meu coração. Como hoje você foi muito malcriado vou cortar um pedacinho da sua língua. (marca para Escolhida cortar a língua do príncipe) Mais uma coisa meu bem, às vezes a gente demora muito para enxergar o amor. Mas, eu devo dizer para você, querido: o amor é cego. (joga o leite fervendo nos olhos do príncipe cegando-o)
(Música. Marcação de casamento o príncipe não consegue dizer sim, Escolhida empurra a cabeça dele para que ele aceite casar.)
E o príncipe e sua escolhida viveram cegos de amores e infelizes para sempre.

UNHAPPY END

terça-feira, 2 de junho de 2009

AS GÊMEAS de Felipe Barenco

Off. Buba e Babi eram um casal de gêmeas bastante peculiar: exceto a aparência, elas não tinham absolutamente nada a ver uma com a outra. Buba era a gêmea má.

Buba – Má. Muito má. Um exagero de má! (SOLTA UMA GARGALHADA DE VILÃ)

Babi era a gêmea boa.

Babi – Boa. Muito boa. Gostosa demais! (INSINUA-SE PARA O PÚBLICO)

Off. Depois que nasceram, ainda muito pequenas foram levadas por sua madrasta para um circo. Lá foram criadas sem cerimônia e eram largadas soltas no picadeiro. Buba, com apenas 5 anos, vivia entre os leões.

Buba – Má. Muito má. Um exagero de má! (SOLTA UMA GARGALHADA DE VILÃ)

Babi era a gêmea boa.

Babi – Boa. Muito boa. Gostosa demais! (INSINUA-SE PARA O PÚBLICO)

Off. Depois que nasceram, ainda muito pequenas foram levadas por sua madrasta para
um circo. Lá foram criadas sem cerimônia e eram largadas soltas no picadeiro. Buba,
com apenas 5 anos, vivia entre os leões.


Buba – (COM UM PEDAÇO DE BIFE NAS MÃOS) Vem, gatinho! Psispisisipsis.
(PSICOPATA) Vem cá, que eu tô mandando!

Off. Babi ficava sentadinha comendo pipoca enquanto assistia o número dos palhaços no
picadeiro.


Babi – (SOLTA UMA GARGALHADA) Mais! Mais! Mais!

Off. Adolescentes, por causa de sua semelhança tão gritante, as duas irmãs começaram a
trabalhar como bailarinas-acrobatas e faziam um enorme sucesso entre o público, que lotava todas as sessões para assistir Buba e Babi. No entanto, a fama inesperada começou a semear a discórdia entre as duas, a mais pura e sombria inveja.


AS DUAS TREINAM O NÚMERO.

Babi – (PENSANDO ALTO) Tô sentindo uma coisa tão estranha, uma vontade de ser
muito melhor que a Buba. Será que isso é normal?

Buba – (PENSANDO ALTO) Tô sentindo uma coisa tão boa, uma paz, uma vontade de
assassinar a Babi.

Babi – (CONFUSA) Cobiça é a pessoa querer aquilo que a outra tem.

Buba – (DECIDIDA) Inveja é a pessoa querer que a outra não tenha aquilo que ela tem.

Off. Respeitável público, com vocês, Buba e Babi as bailarinas de Graiscow!

E OUSAM NAS COREOGRAFIAS. BUBA TENTA SABOTAR A IRMÃ NOS NÚMEROS,
TENTANDO ASSASSINÁ-LA. BABI, POR SUA VEZ, EXIBE AS PERNAS PARA O
PÚBLICO E PREJUDICA AS MARCAÇÕES DE BUBA. FINAL DA APRESENTAÇÃO E QUEBRA-PAU ENTRE AS IRMÃS.

Babi – Tá acontecendo alguma coisa? Você quer conversar?

Buba – Assim não dá, você pisou no pé três vezes.

Babi – Desculpa, mas você também quase me decapitou no número com a foice.

Buba – Você está sempre se fazendo de vítima.

Babi – Eu não estou acusando você de nada. (MAIS FORTE DO QUE ELA) Assassina!

Buba – Ah, finalmente falou.

Babi – Olha, confesso que eu fiquei um pouco chateada com você mesmo. (IMPULSO DE
SINCERIDADE) Homicida!

Buba – Se você repetir essa barbaridade mais uma vez, eu vou partir a tua cara e o único
número que você vai ser capaz de fazer é a Conga.

Babi – Você está sendo muito injusta comigo. Que papelão. (CUSPIU) Serial Killer!

Buba – Chega! Acabou. Cansei dessa palhaçada.

Babi – Pois eu também cansei.

Ambas – Acho melhor a gente se separar.

Off. Buba e Babi seguiram em suas carreiras solo, mas nunca conseguiram fazer o
sucesso de outrora. De estrelas de Graiscow, Buba e Babi foram rebaixadas à função
mais ordinária e repugnante do circo: cortar os pelos da Mulher-Barbada. Humilhadas,
as gêmeas fugiram do circo e, cada uma em seu canto, abriram um salão de cabeleireiro
onde disputavam à tesoura os moradores da cidade.

INTERAGEM COM O PÚBLICO.

Buba – (PARA UMA FREGUESA. PSICÓTICA) Se você fizer essa escova com a minha
irmã de novo, eu te mato, hein!

Babi – (PARA UM FREGUÊS) Deus que me perdoe, mas quem cortou o cabelo do senhor?
De longe parece um figurante de algum filme de terror. Minha-Nossa-Senhora!

AS DUAS IRMÃS, DEPOIS DE ANOS, FINALMENTE SE REENCONTRAM.

Ambas – Finalmente.

Babi – Você não tem vergonha de ameaçar os clientes, não? A Dona Lurdes deu queixa na
polícia ontem.

Buba – Ela tinha que se queixar era do corte que você fez.

Babi – Eu acho muito feio esse corpo a corpo que você faz com o povo. Fiquei sabendo da
chave-de-braço que você deu no menino de 7 anos ontem porque ele raspou a máquina
zero comigo.

Buba – Agora a heroína do século XIX vai querer me dar lição de moral. Aos olhos da
mídia eu sou a vilã, mas você sempre teve inveja de mim.

Babi – Inveja, não! Cobiça. São coisas completamente diferentes.

Buba – Pois pra mim é tudo mal-caratismo.

Babi – Cobiça é a pessoa querer o que a outra tem. Inveja é a pessoa querer que a outra
não tenha aquilo...

Buba – (CORTANDO) Chega de blá blá blá. Você tá sempre querendo me ensinar a
cartilha. Na sua opinião eu sou uma jumenta, incapaz de entender qualquer coisa sozinha.

Babi – Não, eu nunca falei isso. Pra variar, você está colocando palavras na minha boca.
Eu só acho que você tem o seu tempo de aprendizado particular, é uma deficiência que
independe da pessoa, você não é culpada.

Buba – Eu quero que você feche o seu salão.

Babi – Há!

Buba – Mude de profissão.

Babi – Hahá!

Buba – E vá embora dessa cidade.

Babi – Hahaha!

Buba – Pra mim sempre foi insuportável ser tão, tão, tão parecida com você. Acordar
todos os dias e ter que me deparar com alguém que só queria ser melhor do que eu. Uma
esponja sugando toda a minha energia.

Babi – Pois você acha que era fácil pra mim sempre ser confundida contigo no colégio, no
mercado, no shopping? Não, eu sou a Babi. Você deve estar me confundindo com a minha
irmã, é que nós somos gêmeas. Você se usou disso para roubar o Geraldinho de mim!

Buba – Eu pensei que Geraldinho fosse um assunto resolvido.

Babi – Foi um trauma pra mim.

Buba – O Geraldinho já virou comida de leão a muito tempo.

Babi – Eu não quero mais ser sua irmã.

Buba – Há!

Babi – Mude de fisionomia.

Buba – Hahá!

Babi – E vá embora dessa cidade.

Buba – Hahaha!

Babi – Embora sejamos gêmeas, eu não nasci grudada em você.

Buba – É, podia ter sido muito pior, termos sido gêmeas siamesas.

Off. Respeitável público, com vocês, Buba e Babi as bailarinas de Graiscow!

E AS DUAS IRMÃS RELEMBRA-SE DE TODO O SUCESSO JUNTAS NUM FLASH-BACK
DE MEMÓRIA. ELAS FAZEM OS NÚMEROS DO INÍCIO COMO SE FOSSEM GÊMEAS
SIAMESAS E É UM CAOS.

Babi – Eu nasci primeiro. Seja delicada e vá embora. (CAI EM PRANTO) Por favor, eu só
quero ser feliz. Eu sinto muita saudade de nós duas.

Buba – (SENSIBILIZADA) Não fica assim também.

Babi – Não quero mais brigar com você. Eu abro mão de tudo pela sua felicidade. (PEGA
UMA GARRAFA DE VINHO) Mas antes de ir embora, eu queria fazer um brinde a nossa
amizade. Vamos fazer as pazes?

Buba – Muito esquisito. Por que você mudou de idéia tão rápido?

Babi – Porque eu sou a gêmea boa e estava me comportando como uma vilã. (SERVE O
VINHO E DÁ A TAÇA A IRMÃ)

Buba – Você sempre quis roubar o meu papel. (BEBE) No fundo, eu também queria ser a
mocinha.

BABI SOLTA UMA GARGALHADA DE VILÃ AO VER QUE A IRMÃ BEBEU O VINHO.

Babi – Como você foi idiota, Buba.

BABI MOSTRA UMA VIRADA DE CARÁTER ESPETACULAR.

Babi – Sabe este vinho que você acabou de beber? Está envenenado. Tcharam!

Buba – Óh! (MALÍCIA) Será?

Babi – Como assim?

Buba – Eu já sabia de tudo. Você não sabia que eu já sabia que você não sabia que eu
troquei o vinho por corante no início da cena. Na verdade, Babi, nós não somos irmãs
gêmeas. Tcharam!

Babi – Óh! (MALÍCIA) Será?

Buba – Como assim?

Babi – Eu sempre soube que nós não éramos gêmeas. Eu fingi acreditar nesta fábula para
te enlouquecer. O que você nunca soube, Buba, é que na verdade eu não sou mulher. Eu
sou homem! Tcharam!

Buba– Óh! (MALÍCIA) Será?

Babi – Como assim?

Babi – Eu já sabia desde o início que você era um homem. O que você não sabia é que na
verdade eu não sou humana. Eu sou um holograma e este corpo é apenas a projeção dos
seus pensamentos... Tcharam!

PANE GERAL.

Buba– Óh! (MALÍCIA) Será?

Babi – Tcharam!

Buba– Óh! (MALÍCIA)Tcharam!

Babi – Será?

Buba– Óh! Será?

Babi – Tcharam!

(...)

A LUZ CAI EM RESISTÊNCIA.

Fim

segunda-feira, 1 de junho de 2009

"Maçã do amor" de Jô Bilac

Personagens:

Breno: Belo moço, com casaca e cravo na lapela.
Seu Osvaldo: Calado. De costas.
Dona Deise: Ainda atraente para a idade que tem.
Rosane: No quarto.


(depois de um longo silêncio, ousou dizer)

Breno: Quero agradecer mais uma vez pela a confiança do senhor...

(sem resposta)

Breno: De verdade. A Rosane é uma moça especial. Especialíssima. E eu a respeito muito.

(sem resposta)

Breno: Estaremos aqui antes de meia noite. Honrarei com a confiança que o senhor depositou em mim.

(sem resposta)

Breno: Rosane é especial.

(sem resposta)

Breno: Eu gosto dela... E por isso muito a respeito. Não pretendo apressar as coisas entre nós...

(sem resposta)

Breno: Rosane é formidável. O senhor deve se orgulhar muito dela, não é?

(sem resposta)

Breno: Eu me orgulharia... Não que o senhor não se orgulhe, não é isso que eu quero dizer... Eu também me orgulharia em ter um pai como o senhor. Sem dúvidas. Me orgulharia muito. Muito mesmo. Porque daí eu seria uma moça assim... Como a Rosane... Não que eu queira ser uma moça, não! É que a Rosane.... Enfim... Ela é uma moça tão... Tão... Educada.

(sem resposta)

Breno: E muito bonita... A casa do senhor... É muito bonita.

(sem resposta)

Breno: Ampla...

(sem resposta)

Breno: De fora não parece... (sorri débil)

(sem resposta)

Breno: (constrangido) Não que pareça pequena... Não é isso... É que não parece tão grande... De fora... Mas de dentro... É diferente...

(sem resposta)

Breno: Será que a Rosane já está pronta?

(surge dona Deise)

Dona Deise: (com uma bandeja e um copo) Um refresco de tangerina. Gosta, Breno?

Breno: (sorri) Não precisava, dona Deise...

Dona Deise: De modo algum. Você está com quantos anos?

Breno: 17.

Dona Deise: Hum... Lástima, eu poderia misturar com gin, mas na sua idade...

Breno: Não é necessário, obrigado.

Dona Deise: Osvaldo te importunou muito com seu fatigante ponto de vista a respeito das coisas?

(Osvaldo em silêncio)

Breno: Não. Seu Osvaldo é uma companhia adorável.

Dona Deise: (explode numa gargalhada) Adorável? (acendendo um cigarro) Você realmente é um querido, Breno. Um querido! (oferece o cigarro)

Breno: Obrigado, não fumo.

Dona Deise: É de menta.

Breno: Realmente, eu não fumo.

Dona Deise: Nem de menta?

Breno: Nem de menta.

Dona Deise: Rosane está no quarto. Passou a semana toda se cuidando pra ficar bem bonita...

Breno: Impossível... (percebendo a mancada) Quer dizer, impossível ela ficar mais bonita do que já é...

Dona Deise: Eu entendi, meu querido.

Breno: Posso...? (ao refresco)

Dona Deise: Claro, Breno. Fiz pra você. (sorri maliciosa)

Breno: (se servindo) Acabava de falar com seu Osvaldo o quanto a Rosane é especial. Um biscoito fino.

Dona Deise: Rosane... (solta a fumaça do cigarro de forma quase vulgar)

Breno: (suando nas têmporas) Falava também da casa. Muito bonita. Ampla. (bebe)

Dona Deise: (se aproximando dele com olhar fixo)

Breno: (constrangido com a proximidade) A casa é realmente... Grandona...

Dona Deise: (mais próxima)

Breno: (paralisado sem entender) A casa é diferente... Ampla... Eu já disse ampla? (ri sem graça) Mas é mesmo. Muito ampla...

Dona Deise: (bem próxima ao rosto do rapaz, sentindo o vapor de sua respiração)

Breno: (tenso com a audácia da mulher frente ao marido) Eu achei bem... Bem... Como se diz...? É... Bem...

Dona Deise: (com seu olhar de aranha) Uma espinha...

Breno: O que?

Dona Deise: (bem próxima) Tem uma espinha aqui, na pontinha do seu nariz...

Breno: Sério?

Dona Deise: (faz que sim)

Breno: (ainda com a mulher em cima de seu rosto) Que lástima...

Dona Deise: Posso espremer?

(sem resposta, a respiração cada vez mais tensa do rapaz)

Dona Deise: (manhosa) Deixa... Eu gosto... Por favor...

Breno: (virginal) Vai marcar... Melhor não...

Dona Deise: (sinuosa) Deixa... Marcas são provas extremas da frivolidade viva dos nossos dias... Não vai doer... Deixa...

Breno: (faz que sim)

Dona Deise: (debruça delicadamente suas unhas azuis na ponta do nariz do rapaz. Espreme a espinha. Limpa a sujeira com seu lencinho bordô, retirado do decote) Viu? Nem doeu...

Breno: (levanta-se aflito) A Rosane está demorando...

Dona Deise: O primeiro baile é o primeiro baile.

Breno: Mas já são dez para as nove... Daqui a pouco não chegamos a tempo...

Dona Deise: A tempo de que...?

Breno: (desconcertado) Ah... Não sei... A tempo de... Dançar... Beber... Um pouco... Beber só um pouco...

Dona Deise: Ora, não seja por isso... Façamos uma prévia do baile por aqui...

Breno: Oi?

Dona Deise: (colocando um disco na vitrola) Podemos dançar um pouco... Faz um tempo que não danço... Osvaldo não gosta... Osvaldo não gosta de nada...

Breno: Não sei se é um bom momento, dona Deise...

Dona Deise: (dançando enquanto fuma.) Nunca é um mau momento para dançar... Dançar é divino, celestial... Os anjos dançam o tempo inteiro enquanto os homens dizem amém! Vem... (puxa o rapaz que se vê compelido a dançar)

Breno: Será que a Rosane vai demorar muito ainda?

Dona Deise: (dançando colada ao rapaz) Rosane aprendeu a dançar comigo, sabia? Eu sou uma boa professora...

Breno: Ela está demorando tanto, não seria melhor a senhora ir chamá-la?

Dona Deise: Não sei se Rosane é uma boa aluna... Ensinei tudo de perto... Dei boas aulas de conduta e a importante capacidade de ser superior às coisas pequenas que nos magoam tanto...

Breno: Rosane deveria ter tido aulas de pontualidade! (ri amarelo)

Dona Deise: Rosane é ruim de aprender as coisas... Entra num ouvido e sai no outro... Eu também falei da pontualidade e da importante capacidade de superar pequenos obstáculos da vida... Você poderia me dizer...

Breno: O que a senhora quer saber?

Dona Deise: Se Rosane foi uma boa aluna com você...

Breno: Na escola?

(os dois sempre dançando)

Dona Deise: Nas coisas práticas da vida... Ela fez jus às boas aulas que dei?

Breno: Não compreendo...

Dona Deise: (sofrida) Me sinto tão fracassada... Me sinto tão frustrada com tudo isso, me perguntando onde foi que eu errei...sabe?

Breno: A Rosane é uma grande garota...

Dona Deise: Eu fui uma péssima professora...

Breno: Não a senhora não foi, dona Deise...

Dona Deise: Deise. Me chama só de Deise...

Breno: Deise?

Dona Deise: Era um nome de uma personagem trágica num conto de inverno...

Breno: De Quem?

Dona Deise: De quem era o conto?

Breno: Não. De Quem a senhora está falando?

Dona Deise: Rosane.

Breno: A personagem trágica...?

Dona Deise: A autora do conto de inverno.

Breno: A senhora deu o nome da autora sua filha...

Dona Deise: Deise. A autora se chamava Deise.

Breno: E a personagem: Rosane?

Dona Deise: Exatamente.

Breno: E ela acaba como?

Dona Deise: Morta.

Breno: A personagem trágica do conto de inverno?

Dona Deise: Não. Rosane, a minha filha, dentro do quarto, se enforcou hoje às cinco e meia.

Breno: (tomado por uma vertigem assombrosa. Num sopro) O que?

Dona Deise: (chora) Eu não fui uma boa professora, Breno... Eu fracassei...Me perdoa, ela não vai ao baile com você.

Breno: Rosane... Rosane...

( tomado pelo sinistro impacto da revelação, vai em direção ao quarto da jovem)

Dona Deise: (chorando, corroída pela dor) Eu não fui uma boa professora, Breno... Me perdoa!!!!!

( Breno abre a porta. Breno num grito profundo.)

Dona Deise: (possessa de forma animalesca, bradando frente ao marido) A culpa foi sua, Osvaldo! A culpa foi sua!!!!! Eu odeio você! Eu odeio você!!!!

( Breno apavorado, cambaleando pela casa em estado de choque )

Dona Deise: (na sinceridade de sua dor de mãe. Possuída pelo ódio) Eu odeio você, Osvaldo! Eu odeio você!!!!! Eu odeio você!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(na vitrola o disco rodando furioso, em alto volume, embalando o cadáver de Rosane, que como um pêndulo, dança no ar, vestida de debutante.)

Fim.