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domingo, 16 de agosto de 2009

TESTAMENTO NO YOUTUBE de Camilo Pellegrini


1= VELHA SENHORA, 79 anos, saúde fragil. Está sentada em uma cama e usa um edredom pra se cobrir.

2= RAPAGÃO beirando os 30, pecado bronzeado, transpira vitalidade, beleza rústica, cheiro de açaí. Está sentado lendo um gibi.



1- Como você sabe, amanhã faço oitenta anos.

2- (RESMUNGA) Mmm...

1- E há uma coisa que preciso dizer... (PAUSA) Antônio Carlos, larga esse gibi! Você está prestando atenção? (PAUSA) É hora de nos despedirmos.

2- Mmm...

1- Acho que já deu pra nós dois.... (PAUSA)... Melhor você ir.

2- Como?

1- Não restou nada a falar.

2- Não entendi.

1- Quero que você saia da minha casa.

2- Amor...

1- Não me chama de amor.

2- Querida.

1- Agora. Some da minha frente, Antônio Carlos.

2- Meu anjo, mas o que foi que aconteceu?

1- Aconteceu d’eu não engolir teu cinismo. Não tenho mais estômago pra isso.

2- Não fala assim.

1- Essa tua cara de pau que me dá nojo.

2- Cotinha...

1- Vai embora! Some daqui!

2- Não está se sentindo bem?

1- Claro que não! Digo com todas as letras! Olhar nos teus olhos me dá vontade de vomitar!

2- O enjôo é culpa dos remédios.

1- A culpa é sua!!! Sua!!!

2- Anjo, assim você até me ofende.

1- E esse teu cheiro...

2- Que cheiro.

1- Não suporto mais esse cheiro aqui dentro.

2- Sempre gostou do meu cheiro.

1- Isso foi antes. Antes de você me dar na cara.

2- Oi?

1- De você me amarrar...

2- Amor, eu? Tem certeza que a gente está no mesmo assunto?

1- Me botar amarrada, toda suja de cocô, dias a fio.

2- Você sonhou isso, querida.

1- Dias e mais dias fedendo. Tendo que me alimentar, dormir, suja de merda.

2- Ou então...

1- Achei que fosse morrer.

2- ... Está gagá.

1- Suplicando.

2- Ficou gagá. Pronto.

1- O quê?

2- Só pode ser.

1- Cala essa boca!!!

2- Não calo.

1- Fora!!!!! Fora!!!!!

2- Não saio!

1- Fui tão idiota. Desde o começo! Desde o primeiro dia!

2- Quem te chamou de idiota aqui, Cotinha?

1- O que você quer desde o início! Eu sei! Só fingia que não!

2- Amoreco...

1- Mas eu sei.

2- Vamos recomeçar essa conversa.

1- Sempre gostou de Copacabana. Se vira bem melhor aqui do que em Caxias.

2- Olha que grande absurdo que você está falando.

1- Se enturmou rápido com a malandragem. Cheio de amigos. A praia logo ali.

2- Quer um chazinho pra se acalmar?

1- Não quero nada das suas mãos! Nada!

2- Assim você me corta o coração.

1- Então eu quero sim! Me passa o telefone! Eu vou falar com a minha neta.

2- (GARGALHA) Essa é boa! (GARGALHA)

1- Anda, seu lerdo! Me dá esse telefone aqui!

2- Você não consegue nem discar. Vai ligar pra quem, Cotinha?

1- Pra minha neta, já disse!

2- A Priscila deve achar que você já morreu.

1- Mentira! Mentira! Ela gosta de mim!

2- Por que os outros três não aparecem por aqui já faz mais de anos.

1- Eles são ocupados... trabalham muito...

2- Claro. Trabalham sem parar.

1- Mas a Priscila...

2- Essa outra deve estar em Amsterdã se entupindo de maconha.

1- Cala a boca!!! Não fala assim da minha neta!

2- Ninguém lembra da senhora! Estão só esperando a notícia. Aí sim, aparecem os quatro tudo junto. Imóvel, quem não quer? Vão os quatro espernear cada um pelo seu pedacinho da minha quitinete. Eles que esperem.

1- “Sua” quitinete?

2- Oi?

1- Sua? Repete!

2- O quê?

1- Não leva nada, Antônio Carlos! Sai daqui agora, com uma mão na frente e outra atrás.

2- Antes disso, você tem que ver um vídeo. Uma parada que está circulando na internet, aí. Pelo Youtube.

1- Pelo o quê?

2- Não é do seu tempo.

RAPAGÃO liga uma tevê. (Ouve-se a voz dos personagem em off ou a televisão mostra um vídeo da SENHORA e do RAPAGÃO nus se agarrando. ELES gemem sôfregos.)

1- Me beija. Me beija na boca.

2- (CHEIO DE DESEJO) Cotinha... Não escovei os dentes.

1- Anda! Beija.

GEMIDOS

1- Mete em mim. Diz que eu sou sua mulher.

2- Você é minha mulher.

GEMIDOS

2- E eu?

1- (DOIDA DE PRAZER) Ãh?

1- Sou teu homem?

1- É meu homem!

2- Seu marido?

1- Meu marido, sim! Meu marido!

2- (SÔFREGO) A quitinete é nossa, então? Deixa pra mim, Cotinha, a quitinete!

1- Vou gozar!!!

RAPAGÃO desliga a televisão.

2- Diz se não é um belo dum testamento?

Depois de uma pausa perplexa, a SENHORA cai na gargalhada.

1- Você gravou a nossa trepada?

2- Já deu mais de dez mil acessos. E crescendo enquanto eu falo com você. Diz se não vale pro juiz? A gente tem uma relação estável.

1- Isso não serve pra nada, idiota! Nem pra bater punheta. É sórdido. Triste. Desprezível.

2- Engraçado. Eu gosto. São duas pessoas que se amam fazendo amor. É bonito.

1- Amanhã eu faço oitenta. Amanhã deixo de ter direito às minhas posses.

2- Cotinha, do que você está...?

1- Considerada legalmente incapaz. Qualquer um que faz oitenta. Minha netinha é que vai ser a dona desse buraco que você tanto gosta.

2- Não é possível.

1- A lei é assim.

2- Mas não pode! (PAUSA) A gente vai ter que dar uma adiantada aí no seu relógio biológico.

1- O quê?

2- Você estava certa.

1- Antônio Carlos...

2- É hora da gente se despedir.

1- Eu vou gritar!

2- Aceita. Aceita que dói menos.

1- (APAVORADA) Não.

2- Tchau.

.......

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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

NÃO EXISTE ESSA OPÇÃO de Renata Mizrahi

(Julia, em sua mesa de trabalho, liga. Após quatro chamadas atende o Atendente Eletrônico.)

Voz: Boa tarde. Vejo que você está ligando do número 4011-5062. Confirma?

Julia: Confirma.

Voz: Não entendi. Diga sim ou não.

Julia: Sim.

Voz: Entendi. Agora diga o número que deseja. Para saber sobre o próximo pagamento diga 1, para fazer parte do novo plano sócio-mais diga 2, para ativar o serviço funcionário-alerta diga 3, para conhecer nossos novos produtos diga 4, para outras opções diga 5.

Júlia: Cinco.

Voz: Você escolheu a opção 5. Está correta essa informação?

Júlia: Está. Quer dizer. Sim.

Voz: Não entendi. Diga sim ou não.

Julia: Sim!

Voz: Entendi. Diga o que deseja.

Julia: Pedido de demissão.

Voz: Não entendi. Diga o que deseja.

Julia: Pe-di-do de de-mis-são.

Voz: Desculpe não foi possível atender ao seu pedido. Para falar com um dos nossos atendentes diga: falar com um dos atendentes.

Júlia: Falar com um dos atendentes

Voz: Entendi. Aguarde um momento. Estou passando a sua ligação. Para a sua segurança esta ligação está sendo gravada.

(Entra uma gravação.)

Gravação: Olá, bem vinda à Master Empresa de Comunicações. Temos um grande prazer em tê-lo com a gente. Entre no nosso site e descubra as quantidades de benefício que a Máster empresa de comunicações apresenta. www. master...

(atende alguém)

Rodrigo: Rodrigo Logueiro, boa tarde, em que posso ajudá-lo?

Julia: Boa tarde. Eu gostaria de fazer um pedido de demissão da empresa.

Rodrigo: Da onde você está falando?

Julia: Da própria empresa. É que os funcionários não podem fazer seus próprios pedidos de demissão. Precisam falar com um dos atendentes, mas o endereço é o mesmo...

Rodrigo: Endereço, por favor.

Julia: Rua Presidente Vargas 189/1004.

Rodrigo: Bairro?

Julia: Centro.

Rodrigo: Sabe o CEP?

Julia: Não, mas você sabe.

Rodrigo: Aguarde um instante na linha que estou confirmando seus dados.

(Ela aguarda entra a gravação.)

Gravação: Olá, bem vinda à Master empresa de comunicações. Temos um grande prazer em tê-lo com a gente. Entre no nosso site e descubra as quantidades de benefícios que a Máster empresa de comunicações apresenta. www.master...

Rodrigo: Obrigado por aguardar. Senhora Júlia Sapatino?

Julia: Sim, sou eu mesma.

Rodrigo: Pode confirmar sua identidade e CPF, por favor?

Julia: Identidade: 85658659-12. CPF: 036-985-741-23

Rodrigo: Muito obrigado. Qual é o motivo da sua ligação?

Julia: Eu já disse quero pedir demissão da empresa. É que os próprios funcionários não podem...

Rodrigo: Desculpe-me, mas não temos essa opção no sistema.

Julia: Como não? Foi esse o número que me deram.

Rodrigo: Desculpe-me, mas aqui no sistema não consta essa opção.

Julia: Por que você não me disse isso antes?

Rodrigo: Eu precisava recolher os seus dados...

Julia: Recolher os meus dados? Eu trabalho nessa empresa há mais de 10 anos. A única coisa que eu quero é pedir demissão!!!!!!!!

Rodrigo: Para esse serviço estamos disponibilizando outro número de telefone. A senhora gostaria de anotar?

Júlia: Que telefone? Que telefone?

Rodrigo: 400362. Mais alguma coisa?

Júlia: Rodrigo, eu sei exatamente em que andar você trabalha. Se você não registrar o meu pedido de demissão eu vou até a sua mesa e te mato (cai a ligação) AAAHHH!!!!!!! (o telefone de sua mesa toca, ela atende)

Julia: Julia Sapatino falando, boa tarde, em que posso ajudá-lo? (pausa) Pois não. Um momento que vou verificar. (ela aperta um botão para deixar o cliente esperando e levanta) Cadê ele? Cadê o Rodrigo. Cadê? (percebemos que ela e Rodrigo trabalham no mesmo departamento. Ela vai até a mesa dele que está escrito: almoço) Esperto. Vai ver só. (volta pra sua mesa para atender ao cliente) Obrigado por esperar. Para sua solicitação eu vou te encaminhar para um outro departamento, o senhor gostaria de anotar o numero do protocolo? (pausa) 7896369. Mais alguma coisa? A Master comunicação agradece. Tenha uma boa tarde.

(Ela respira e liga no número que Rodrigo passou. Atende uma voz)

Voz: Serviço de atendimento aos funcionários. Diga o numero que deseja. Para abrir mão do plano de saúde diga 1, para desconto do décimo terceiro diga 2, para o plano funcionário fidelity diga 3, para outras opções diga 4.

Julia: Quatro!!!!!

Voz: Entendi. Para abrir uma conta master comunicações diga 1, para doar seu salário para um de nossos projetos sociais diga 2, para se cadastrar em nosso site diga 3, para pedido de demissão diga 4, para falar com um dos nossos...

Julia: Quatro!!! Quatro!!!!

Voz: Entendi.

Julia: Finalmente.

Voz: Não entendi.

Julia: Quatro!Quatro!

Voz: Entendi. Um momento. Estamos verificando o pedido. Para sua segurança esta ligação está sendo gravada. (tempo) Desculpe. Infelizmente esta opção não está disponível. Para abrir uma conta master comunicações diga 1....

Julia: AAAAhhh!!!

Voz: Para doar seu salário para uma de nossos projetos sociais diga 2, para se cadastrar em nosso site diga 3, para pedido de demissão diga 4, para falar com um dos nossos atendentes diga 5...

Julia: Cinco!

Voz: Entendi. Um momento. Estamos transferindo a sua ligação. Para sua segurança esta ligação está sendo gravada.

Gravação: Olá, bem vinda à Master empresa de comunicações. Temos um grande prazer em tê-lo com a gente. Entre no nosso site e descubra as quantidades de benefício que a Máster empresa de comunicações apresenta. WWW. Master...

Rodrigo: Rodrigo Logueiro falando, boa tarde, em que posso ajudá-lo.

Julia: Ah, voltou do almoço, Rodrigo?

Rodrigo: Boa tarde, em que posso ajudá-lo?

Julia: Não está reconhecendo a minha voz.

Rodrigo: O que a senhora deseja?

Julia: Não lembra mais de mim, Rodrigo? Julia Sapatino.

Rodrigo: Boa tarde, Julia. A senhora poderia confirmar o endereço da onde está falando?

Julia: Sim, claro. Como não? Anota aí. Rua Presidente Vargas 189/1004 em frente a sua mesa. Eu estou tirando uma faca da minha bolsa e olhando pra sua cara de pamonha sem sal e pensando que vou acabar com ela todinha se você não registra o meu pedido de demissão dessa maldita empresa... (cai a ligação) AAAAHHH! (ela pega a faca e vai andando, decidida em direção a Rodrigo)

Rodrigo: Senhora Julia, eu não tenho nada a ver com isso. É a empresa...

Julia: Registra.

Rodrigo: Eu não posso, eles não deixam...

Julia: Registra.

Rodrigo: Se eu fizer isso eu perco o emprego. É o meu primeiro emprego, entende? Eu entrei ontem. Eu sei que você não agüenta mais, mas eu não. Eu sinto que vou vencer aqui dentro. Eu sinto que vou vencer! Por favor, entenda.

Julia: Re-gis-tra!

Rodrigo: Não posso, não há essa opção, eles não deixam

(ela rapidamente corta um pedaço do cabelo dele)

Rodrigo: Aaaiuii!!! Não, não, não!!!

Julia: Registra.

(Corta outra parte do cabelo dele.)

Rodrigo: Meu cabelinho lindo!

Julia: Registra.

Rodrigo: Eu não posso. Eu fui treinado. Eu não posso.

Julia (muito nervosa): Eu tentei. Todo mundo sabe que eu tentei. Eu fiz o procedimento padrão, eu liguei, falei com a puta da máquina, fiz tudo o que me mandaram, todos os malditos procedimentos que a empresa tem para pedir a porra da demissão. Então eu acho bom você registrar o meu pedido e não impedir de eu e ganhar os meus direitos. Os meus direitos que eles tentaram ocultar durante esses 10 malditos anos. Meus bônus, meus décimos terceiros. Eu quero, eu quero! Eu quero cancelar o meu plano de funcionária idiota. Eu queroooooo!!!!Registra!!!!!!!!!

Rodrigo: Mas não tem essa opção aqui. Tá escirto: "Não para Julia Sapatino."

Julia: Foda-se! Registraaaaaaaaa!!!! (ela quebra tudo em cima da mesa dele)

Rodrigo: Não!!!!!

Julia: Então você vai ter o que merece!Aaaahhh!!

Rodrigo: Não!!!! Eu não tenho nada a ver com isso. Não!!!!!!!

(Ela o mata a facadas. Após o ato vai elegantemente até o computador dele e escreve.)

“Julia Sapatino: pedido de demissão aceito com louvor.”


(Pega elegantemente a sua bolsa, ajeita o seu cabelo, sorri, sorri muito aliviada, feliz. Vai até o a sua mesa e joga tudo no chão. O telefone toca e ela atende a sua ultima ligação.)

Julia: Julia Sapatino, boa tarde, em que posso ajudá-lo? Quer cancelar?Claro. Mas a máster não vai deixar você cancelar. Porque você não processa a empresa? Eu posso te dar todos os dados pra você acabar com ela. Fazer ela ir além da falência. O que acha? (pausa) Ótimo. Então anota aí...

(Ela continua falando vitoriosa.)

FIM.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

SAUDADE DANADA DE BANDIDA de Larissa Câmara

Tema: despedida

(Ele correu, abriu porta, pulou janela, espantou o cachorro do vizinho, pulou a cerca e roubou a flor. A moça com vestido (de chita) estava sentada na praça. Mãos ansiosas segurando um doce de leite embrulhado no guardanapo. Ele chegou por trás dela e entregou a flor. Ela emocionada agradeceu e estendeu o doce de leite. Sentados no banco da praça esperaram o pôr do sol. Luz cai em resistência. Passagem de tempo. Luz acende. Ela está de pé diante do banco da praça. Ele com uma mala nas mãos do outro lado da rua. Ela acena despedindo-se. Ele cheira o lenço branco que estava nos cabelos dela e agora virou lembrança de cheiro e afeto. Ele acena despedindo-se. Luz cai. Ela no foco, uma janela, escrevendo num diário)

ELA: Sou Valentina Viana!
Pego touro na unha!
Vendo leite na garupa da bicicleta.
Aos domingos pinto a unha, lavo os cabelos de um jeito grande e escorrido, depois fico na janela fazendo trança esperando meu amor passar.
Quando estou com vergonha corro para dentro de casa e escrevo - é um jeito prático de desaparecer.
Escrevo cartas de amor das “mais maiores” pro meu amor secreto.
Ninguém sabe que o nome dele é Antônio.
Perto dele viro Antônia e Maria e, dentro das suas mãos enormes fico pequena do tamanho de um botão, fico quente e delicada, e como louca escrevo amor nas paredes do que sai do meu coração vermelho.
Quando as mãos dele pesam em mim e me apertam meu coração sossega, mas minha saia ainda gira.
Fico nervosa mais uma vez, e numa loucura apaixonada lavo meus cabelos com água fria e leite.
É branca a banheira onde Antônio me banha.

(do lado oposto, foco de luz nele vestido como se fosse pra guerra)

ELE: (atônito em pé segurando o lenço branco) Saudade danada de bandida. Um coice no peito da gente tirando o ar. Se eu pudesse corria, voava, arrumava um jeito de acelerar os ponteiros do relógio pra acabar com esse esticamento de distância. Esse tempo de agonia. (pausa) Me espera! Eu volto! Vou no galope do cavalo. Quando meu olho bater no seu de novo... nossa vida vai ser domingo de sol resplandecendo na água da Lagoa!

(Sai foco dele. Acende foco nas folhas secas no chão. Ela aparece, pela aparência dela podemos ver que o tempo passou. Um vento forte mexe com as folhas, com os cabelos e com o vestido dela. Vemos apenas a silhueta dele trabalhando muito longe)

ELE: Alguma coisa apertava dentro (dela).
Muito pior do que castigo de ajoelhar no milho.

ELA: Qualquer barulho podia ser o cavalo do Antônio chegando.

ELE: O coração dela galopava na janela.

ELE e ELA: Amar é simples demais.

ELA: (como se escrevesse) Debaixo das mãos calejadas de Antônio, Valentina queria ajoelhar sussurrando: sou sua!

(Luz cai em resistência. Contra-luz no banco da praça. Ela chega com a flor que ganhou bem murcha. Anda com uma certa dificuldade. Usa um óculos pesado, fundo de garrafa formoso. Senta e deixa sobre o banco um doce de leite embrulhado no guardanapo. Ouvimos um barulho de ônibus. Foco acende. Ele aparece com uma mala muito maior. Ele caminha com certa dificuldade até ela. Pára diante dela. Peito ofegante dos dois. Tempo. Falas num humor comovido apaixonado, quase triste. Ela olha para a mala)

ELE:(colocando as mãos na mala) Lembranças...

ELA: (num nervoso que não é) Se fosse mulher ia dizer que é bolsa e sapato. (ri de si)

ELE: (sorrindo) Saudades da Valentina que conheci. Ela era danada de engraçada. Sapeca demais!

ELA: (sorrindo) Saudades do Antônio que conheci. Ele tinha cabelo na cabeça.

(Os dois gargalham. Ela nervosa entrega o doce de leite pra ele. Ao segurar ele mostra que ainda carrega o lenço branco dela, agora amarelado)

ELE: Quer esperar o sol alaranjar?

ELA: Nem. Quero ver a noite de estrelas. (pausa) Me abraça.

(ELE abraça. Os dois se abraçam muito apertado)

ELA: (num suspiro) Abraço dos ”mais maiores”.

ELE: (num riso) Apertado com a força de pegar touro na unha.

ELA: (numa provocação do amor) O Antônio que conheci me pegava no colo.

(Ele sorri pegando ela no colo até o sol alaranjar e a noite brilhar com as estrelas)

FIM (romântico)

Carinho meu para meus colegas de vida e ofício porque amor é apesar de...
LOVE
Bjs

terça-feira, 11 de agosto de 2009

COBRANÇA de Felipe Barenco

Para brincar no videokê ela precisava de uma aula de canto. E para sair com suas amigas ela tinha que estar um pouco mais magra. Cobrava-se ter sempre o dinheiro pra merenda e por isso preferia não comer. Gostaria de estar mais confortável de grana e então inúmeras vezes deixou de viajar. De tanto esperar o princípe encantado, por pura cobrança, ela não transava com ninguém. Por sentir-se feia deixava de sair. Por sentir-se chata deixava de conhecer pessoas novas. Por não ter um bom emprego ela preferia matar o trabalho. Ela cobrava-se ser a melhor e por isso sofria com a possibilidade de ser mediana. De ser normal. Cobrava-se os melhores perfumes e deixava de sentir o aroma de um corpo nu. Cobrava-se um carro e por isso perdeu o prazer de caminhar. Cobrava-se apenas os melhores pensamentos e por isso vivia culpada. Cobrava tanto de si mesma, que cobrava muito mais dos outros. Deixava de enxergar grandes qualidades por conta de besteiras, de bobagens. Cobrava-se não usar drogas, cobrava-se não beber e cobrava não mentir. Nunca se permitiu dançar. Nunca se permitiu ser ridicularizada.

No fundo, e esta é a mais profunda verdade, ela só queria desafinar as mais altas notas no videokê, não estar tão cheirosa ou bem vestida assim; só queria estar descabelada e gorda e sentir-se um pouco ridícula, bêbada e drogada, e ser salva não por um príncipe encantado, mas por um homem bruto qualquer que a levasse para a cama e no dia seguinte não desse nem tchau. E ela voltaria à pé, respirando um certo aroma de alívio, e não tomaria o melhor café da sua vida naquela manhã, mas curtiria a possibilidade do café que era possível naquele momento. E faria planos futuros pensando na mixaria que ganhava no trabalho, e naquele dia chegaria um pouco atrasada no escritório. Mentiria para o chefe com uma desculpa mirabolante e não sentiria uma gota de arrependimento. Ela queria ser feliz. Medianamente feliz. E normal.




Julia e Rodrigo, foi um imenso prazer dividir tanto aprendizado e amadurecimento ao lado de vocês. Com muito amor, carinho e admiração. Obrigado!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ARIZONA NUNCA MAIS de Jô Bilac

Dia. Ludmila e Henri, sala de reuniões.


Ludmila: Olá, Henri. Você me chamou? Algum problema em especial?

Henri: Ludmila, por favor, sente-se.

Ludmila: Estou bem de pé, Henri. Estou cheia de trabalho no escritório e amanhã cedo eu tenho uma reunião em...

Henri: Ludmila, sente-se por um minuto. Eu preciso falar uma coisa antes...

Ludmila: O que você quer me dizer, que eu não posso ouvir de pé?

Henri: Ludmila isso é muito dificil pra mim, muito mesmo, mas espero que entenda... (respira fundo e dispara) Você está despedida.

Ludmila: (sorri amarelo) Oi?

Henri: Eu sinto muito.

Ludmila: Desculpa, mas eu não entendi...

Henri: Você é uma ótima funcionária, dedicada, inteligente, sensível, mas estamos passando por um momento de crise e espero que compreenda. Não é nada com o seu trabalho. O problema está na empresa....

(silêncio)

Henri: Ludmila...

(sem resposta)

Henri: Ludmila, você está bem?

Ludmila: (voltando a si) Sim, claro. Imagina! Eu já esperava por isso.

Henri: Você com certeza vai conseguir em breve um novo emprego que te proporcione algo melhor que podemos oferecer.

Ludmila: Claro! Imagina! Tenho certeza disso.

Henri: Foi ótimo trabalhar com você.

Ludmila: Pra mim também. Eu aprendi muito com vocês, Henri. Obrigada por tudo.

Henri: Está certo. Boa tarde.

Ludmila: Boa tarde. Ah!(volta) Henri, vai tomar no cú.

sai da sala

passagem de tempo

Ludmila e Henri, no mesmo dia, noite. Jantar luz de velas.

Henri: (chegando) Oi meu amor, um jantar especial. O que foi? Alguma comemoração?

Ludmila: Henri... Sente-se por favor...

Henri: Claro. Estou faminto, doido pra comer uma costela, ou algo bem...

Ludmila: Henri, espera um minuto. Eu queria te dizer uma coisa antes...

Henri: O que você quer me dizer que eu não posso ouvir comendo?

Ludmila: Henri, isso é muito dificil pra mim, muito mesmo, mas espero que entenda... ( respira fundo e dispara) Está tudo acabado entre nós.

Henri: (sorri amarelo) Oi?

Ludmila: Eu sinto muito.

Henri: Desculpa, mas eu não entendi...

Ludmila: Henri, você é um ótimo namorado, dedicado, inteligente, sensível... Mas estamos passando por um momento difícil, espero que compreenda, não é nada com você...É comigo .... O problema está em mim...

Henri: (puto) Sim! Claro! Imagina! Eu já esperava por isso!

Ludmila: Olha... Você em breve vai conseguir uma mulher especial que te complete realmente e que te faça feliz de verdade, que possa te oferecer algo melhor...

Henri: (numa raiva controlada)Eu tenho certeza disso.

Ludmila: Foi muito bom enquanto durou...

Henri: Pra mim também, Ludmila. Aprendi muitas coisas com você.

Ludmila: Obrigada por tudo.

Henri: (prendendo o choro)

Ludmila: Henri...

(henri quase chorando)

Ludmila: Henri... você está bem?

Henri: Ludmila...

Ludmila: Oi?

Henri: Vai tomar no cú.

levanta da mesa e sai.

fim.

domingo, 9 de agosto de 2009

CORA E EU de Rodrigo de Roure

Camilo Pellegrini convida Rodrigo de Roure



Eu – O que você tá fazendo aqui?

Cora – Vou com você.

Eu – Tá de sacanagem?!

Cora – Vou, sim...

(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.)

Cora – “Você quer ser uma pessoa má?!! Quer?! Você não vai ser uma pessoa má!! Não vai! Se depender de mim, não vai! Tá me escutando?!!!” foi o que eu disse...

Eu – E espancou a pobrezinha...

Cora – Dei um tapa.

Eu – Na cara.

Cora – Na cara.

Eu – E deixou a coitada chorando.

Cora – Ficou lá... nem sei...

Eu – Claro que ficou... (Referindo-se ao trem cheio) Insuportável isso aqui...

Cora – É. É insuportável. Memê tá insuportável... todo mundo tá insuportável...

Eu – Tá segurando firme?

Cora – Tou. Acho que tou, né.

Eu – Então segura. Essa estação enche mais que todas...

Cora - Não imaginava que meu fim do dia ia ser esse... disputar por um pedaço desse ferro... pra não cair...

Eu – Não caia.

(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.)

Cora – Comprou seus remédios da homeopatia?

Eu – Tão aqui.

Cora – Tomou?

Eu – Vou tomar em casa. Com calma.

Cora – Precisa de calma pra tomar remédio?

Eu – Preciso. Ando bem melhor. (Muda o tom) Olha aquilo.

Cora – Onde.

Eu – Ali. A mulher. A porta do trem segurou a bolsa dela. Tá fudida.

Cora – Imbecil. (Cora desanda a rir nervosamente)

Eu – Cala a boca.

Cora – Não dá... (Continua a se escangalhar de rir)

Eu – Ridícula.

Cora – Você!

Eu – Sua mãe tem toda razão.

Cora – Deixa a minha mãe fora dessa!

Eu – Deixo não. Ela está certa quanto a você.

Cora – Minha mãe me fudeu! Tá ouvindo?!! Me fudeu! A vida toda ela me fudeu!

Eu – Se segura. Agora é que fudeu mesmo. Acho que a gente vai morrer nessa estação!

Cora – Você tinha que resolver ir embora na hora do rush?!! Imbecil!

Eu – Eu sempre vou embora da sua casa na hora do rush.

(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.)

Cora – Não acredito nessa gorda!

Eu – Empurra ela pra lá!

Cora – Vou dar um soco na boca do estômago dela!

Eu – (Contendo-se, mas com raiva) Fala mais alto, vai! Grita, porra!

Cora – Cala a boca! Tá maluco?!

Eu – (Mudando o tom.) Merda, não acredito!

Cora – Ahh! Nem eu!

Eu – Por que as pessoas resolvem fazer compra de mês quando saem do trabalho?

Cora – Deviam morrer.

Eu – Eu não vou entrar mais na tua pilha. Você tá me fazendo mal, Cora.

Cora – Não começa a falar essas coisas. Você sabe da sua capacidade de arrasar a minha vida!

Eu – Todo mundo arrasa a sua vida, Cora.

Cora – Não sei por que vim atrás de você.

Eu – Eu queria entender.

Cora – Eu vou embora.

Eu – Eu já tou indo.

(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. O trem passa em um túnel. A luz apaga brevemente. Quando volta a acender, Cora não está mais. “Eu” está só”. Barulho fraco de trem. Luz sobre “Eu”. Toca o celular de “Eu”.

Eu – Fala, Cora... tá chorando por quê? A Memê? Não é com a Memê. É com a sua mãe... ah saquei... Agora você espancou sua mãe, Cora??!!! Porra, caralho... como é que tu faz isso?!...(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco pelo telefone. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Luz vai apagando devagar. B.O.)


sábado, 8 de agosto de 2009

CLUBE DOS MEDIANOS de André Boucinhas

Julia Spadaccini convida André Boucinhas


Uma grande mesa e as pessoas (de terno, mas sem gravata e muitos com paletó na cadeira) distribuídas por ela. No centro está o presidente.

Presidente - Está aberta a décima segunda sessão do Clube dos Medianos deste ano. Hoje vamos tratar de um assunto mais ou menos.

(Os participantes vibram.)

Presidente - Fizemos um estudo rigoroso, mas não muito, sobre a média de relações sexuais dos nossos filiados e o resultado foi o seguinte:

(Mostra um gráfico feito a mão. Ele tem três traços saindo do eixo y: um para “os bonitos e/ou inteligentes” com um grau altíssimo de relações sexuais; outro para “os medianos” com um nível mediano de relações com uma alteração brusca no meio do gráfico; o ultimo traço é para “os impotentes” e beira o zero, com algumas alterações. )

Presidente - Como podemos ver, continuamos muito a frente dos impotentes o que é ótimo... (os participantes fazem comentários não muito empolgados) mas, se pensarmos bem, considerando que eles são impotentes... não é grandes coisas! (Todos vibram muito.)

Presidente - Ao mesmo tempo, o fato de estarmos muito atrás das pessoas bonitas e/ou inteligentes também não indica nada além da normalidade e, espero não estar exagerando aqui... da média! (Todos vão ao delírio.)

Presidente - No entanto, nem tudo são notícias medianas. (Apreensão geral.) Trouxe um analista que é um associado do nosso grupo e faz um trabalho razoável por um preço nem muito caro nem muito barato.

Analista - Boa tarde, senhores. Vejo um problema grave nesse gráfico. Nos primeiros seis meses, mantivemos a excelente média de uma relação sexual a cada 20 dias. Não só é um número excelente por ser bem mais ou menos, mas foram seis meses na mesma média, o que é admirável. Contudo...

Participante meio tenso – Fale logo, não estou acostumado a esse suspense!

Analista – Já chego lá. Esse desvio aqui no gráfico aponta para algo meio sério...

Participante meio tenso – Sabia que não devia entrar em clube nenhum... é muita adrenalina...

Analista – Bom, os números indicam que, nesse período aqui, pelo menos metade de nós... Não sei se metade, talvez um pouquinho a mais ou a menos. Eu teria que fazer uma conta meio complicada para saber exatamente quantos de nós...

(Participante meio tenso dá um tiro na cabeça.)

Analista – Então, o desvio indica que mais ou menos metade de nós, no mês de julho, fez 5 ou 6 vezes mais sexo do que a média. Mais ou menos.

Participante 2 – Mas isso está muito fora da média!!

Todos - OH!

(Pequena confusão.)

Presidente – Não vamos nos exaltar muito, senhores. E também não fiquemos calmos demais.

Participante 3 – Senhores, vamos pensar um pouco. Eu estou nesse clube desde a fundação e posso garantir que nenhum de nós é capaz de fazer sexo 5 vezes a cada 20 dias. (Todos apoiam.) Deve haver algum engano na realização do gráfico. Foi você mesmo quem o fez?

Analista – Não. Eu coordenei a pesquisa de longe. Quem de fato construiu o gráfico foi meu ajudante aqui.

(Aponta para a pessoa ao lado dele que levanta. Usa óculos fundo de garrafa e tem a mão direita muito trêmula.)

Ajudante – Eu garanto que fiz o melhor trabalho possível nas minhas condições!

Analista – Estou com o Trimilique há anos e garanto que ele nunca me decepcionou muito. É verdade que nunca fez um trabalho perfeito mas... é isso que nós queremos aqui?

Presidente – Por Deus, não!

Ajudante – O que eu acho estranho é que um de nós tenha pedido a palavra para exigir mais qualidade...

Presidente – O que você está insinuando?

Ajudante – (fazendo manha) Nada...

Presidente – (entrando no jogo dele) Ah, fala...

Ajudante – Ah não, depois vocês vão pensar que eu to de raivinha só porque me criticaram...

Presidente – Para com bobeira e fala...

Ajudante – É que eu acho que tem alguém aqui que não é uma pessoa mediana!

Presidente – Mas isso é uma acusação muito séria!

Ajudante – Ah, mais ou menos.

Presidente – Pior ainda!

(Pequena confusão. Mais alguém tenta dar um tiro na cabeça, erra e acerta a pessoa do lado.)

Participante 3 – Se você está se referindo a mim, está muito enganado! Só uma pessoa medíocre acusa alguém por causa de um gráfico estúpido em um clube idiota!

Presidente – Isso é verdade...

(Todos concordam.)

Participante 3 – Eu proponho o seguinte: façamos o nosso ritual de fechamento de gala.

Presidente – Mas hoje foi uma reunião ordinária.

Participante 3 – Por isso mesmo!

(Todos apóiam.)

Presidente – Então está bem. Todos a postos? (Todos se sentam.) Preparados? (Todos pegam pequenos livrinhos e colocam a sua frente na mesa e ficam com um lápis à mão.) Vamos às palavras cruzadas!

Luz apagando e se ouve:

- Pessoa ordinária, comum, 7 letras... alguém?
- Difícil...
- Pula essa.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

OASIS de Diego Molina

Renata Mizrahi convida Diego Molina

convidado
con.vi.da.do
sm (part de convidar) 1 Indivíduo a quem se fez convite. 2 Ferramenta retangular de metal utilizada no garimpo. 3 Pensamento de ordem bagaceira sem sentido absolutamente verossímil. 4 Xingamento hindu. Ex: “Tire as mãos da minha esposa, convidado do inferno!”. 5 O mesmo que bumba-meu-boi, só que de trás-pra-frente.

***

Um homem cruza o palco correndo, da direita para a esquerda, até desaparecer pela coxia. Está apertado para ir ao banheiro. De fora, ouvimos seus gemidos de alívio, os sons correspondentes e o barulho da descarga. O homem retorna vagarosamente ao palco, em direção a porta por onde entrou. Está com o semblante de uma pessoa realizada. Ao chegar à coxia direita, percebe que a porta está trancada. Tenta abri-la, irritado, sem obter sucesso.

HOMEM – Alô?! Tem alguém aí fora? Tem gente presa aqui no banheiro! Alô?! Alguém me ouve? (Silêncio.) Merda! Vou perder o ônibus!

O homem chuta a porta e caminha de um lado para o outro até encontrar um curioso objeto no chão: um cubo de metal. De repente, tem uma idéia. Pega o cubo e vai em direção à porta. Toma fôlego e se prepara para arrebentar a maçaneta. Até que surge, de dentro do banheiro, uma figura inusitada.

BAUER – Não faça isso!

HOMEM – O quê?

BAUER – Cuidado, cara! Vai matar a gente!

HOMEM – Estamos presos. Estou tentando abrir a porta com isso.

BAUER – Isso é uma bomba!

HOMEM – Oi? Tá maluco? É só uma caixinha de metal.

BAUER – Passa pra cá! (Toma o objeto.) Eu sei do que estou falando.

HOMEM (Irônico.) – Fique a vontade, “senhor esquadrão anti-bombas”. Mas seja rápido porque meu ônibus sai em cinco minutos!

BAUER – Não sou do esquadrão anti-bombas. Sou Jack Bauer, ex-agente secreto do FBI.

HOMEM – Como é que é? Você está dizendo que é “o” Jack Bauer, do seriado “24 horas”? É isso?

BAUER – Sim. E se eu não der um jeito nessa ogiva nuclear rapidamente você não vai perder só o ônibus.

HOMEM (Rindo.) – Ah! Ogiva nuclear?

BAUER – É... parece que os malditos xiitas aprontaram mais uma!

HOMEM – Essa foi boa! Agora só me responde uma coisa: o que diabos o Jack Bauer da televisão está fazendo num banheiro de beira de estrada?

BAUER – Não faça perguntas idiotas. Todo homem tem direito a uma mijada descente.

HOMEM – Meu Deus, estou preso dentro de um banheiro fedido junto com um lunático!

BAUER – É um dispositivo muito engenhoso, mas acho que consigo desativá-lo.

HOMEM – Meu amigo, você não vai desativar nada porque isso não é uma bomba!

Surge outra figura inusitada de dentro do banheiro.

LANGDON – Ele tem razão. Trata-se da Caixa Secreta de Michelangelo.

HOMEM – Meu Deus, quem é você?

LANGDON – Robert Langdon, professor de simbologia religiosa da Universidade de Harvard.

HOMEM – Calma aí! Você é o cara do “Código Da Vinci”?!

BAUER – E do “Anjos e demônios”.

LANGDON – E não se esqueça do “Fortaleza digital”. Em 2012, nos cinemas.

BAUER (Fingindo cordialidade.) – E aí, Robert?

LANGDON (O mesmo.) – Como vai, Jack?

HOMEM – Vocês se conhecem?

BAUER – Nos esbarramos de vez em quando.

HOMEM – Isso só pode ser um sonho...

LANGDON – Ou um pesadelo, meu caro. Uma vez fora do seu esconderijo, a Caixa Secreta de Michelangelo emite um poderoso sinal rastreador informando sua localização exata aos seus guardiões.

HOMEM – Do que está falando?

BAUER – Não ligue pra ele, cara!

LANGDON – Da ordem dos Cavaleiros Sistinos da Mesopotâmia. São os únicos que podem provar que Michelangelo era negro!

BAUER – Isso não passa de uma lenda!

HOMEM – Que blasfêmia...

LANGDON – É o que todo o mundo achava. Mas, de alguma maneira ainda não explicada, a Caixa Secreta de Michelangelo veio parar aqui, nesse banheiro. E temo que a qualquer instante os Cavaleiros Sistinos da Mesopotâmia possam chegar e dar cabo de todos os que estiverem próximos a ela!

HOMEM – Você quer dizer... matar... a gente?

LANGDON – Infelizmente sim.

HOMEM – Estamos perdidos!

BAUER – Pode apostar! Não dou mais que três minutos pra essa ogiva nuclear explodir!

LANGDON – Ora, não comece com suas maluquices, Jack! Dê-me isso, por favor.

BAUER – Chega pra lá, Robert! Não vou deixar você ferrar com tudo, como da última vez!

LANGDON – Não se faça de sonso! Foi você quem achou que o guaxinim era fêmea!

BAUER – Porra, tava de contraluz...

LANGDON – Passa pra mim, anda!

BAUER (Sacando uma arma e apontando para Langdon.) – Então vem pegar!

HOMEM – Meu Deus, o que é isso? Vocês estão loucos?

Surge mais uma figura inusitada.

JONES – Loucos não. Equivocados.

HOMEM – O que é isso, uma convenção?

BAUER – Olha quem resolveu aparecer! O renomado Doutor Jones.

JONES – Indiana, pra você. Digo, Doutor Jones está bom. (Para Langdon.) E vejo que terei que salvá-lo mais uma vez, não é, Robert?

LANGDON – Tenho que concordar que chegou em boa hora, Indiana.

HOMEM – Jesus, que diabo de banheiro é esse...

BAUER – Acho que alguém aqui nunca pegou a Rio-São Paulo!

Todos riem, menos o homem.

JONES – Agora chega de gracinhas, Jack. Eu quero o Oráculo!

HOMEM – Tá... manda a sua versão, vai.

JONES – Estou falando do Oráculo Perdido das Doze Tribos. Foi criado pela primeira dinastia judaica durante o êxodo, numa tentativa de se comunicarem com os extraterrestres. Se mal utilizado pode emitir um gás venenoso, ou um peru de madeira, não se sabe ao certo.

HOMEM – Já comprei um desses trecos numa feirinha em Salvador.

JONES – Só que não estou a fim de descobrir a verdade. Jogue-a pra mim, Jack!

BAUER – Ah, tá legal! E você tá achando que esse chicotinho vai dar conta da minha 9mm?

JONES (Sacando uma arma.) – Não andou vendo meus filmes, não é? Passe o Oráculo!

LANGDON (Sacando também uma arma.) – Não desta vez, Indiana. (Para Bauer.) A Caixa Secreta de Michelangelo é minha!

BAUER – A ogiva nuclear não sai das minhas mãos!

JONES – Oráculo Perdido das Doze Tribos!

LANGDON – Caixa Secreta de Michelangelo!

BAUER – Ogiva nuclear!

Inicia-se uma discussão interminável.

HOMEM – Chega, vocês três! O que é que é isso? Virou puteiro isso aqui? Alguém me livre de vocês, pelo amor de Deus!

Surge mais uma figura.

COLORADO – Eu! O Chapolim Colorado!

Bauer vira sua arma para Colorado e atira nele, que cambaleando, cai no chão, dramaticamente.

HOMEM – Por que você fez isso??

BAUER – Sempre gostei mais do Chaves...

Colorado, gemendo, tenta se levantar, pedindo ajuda com sua expressão moribunda. Langdon e Jones apontam também suas armas para Colorado e os três atiram nele, que morre, finalmente.

LANGDON – É, eu também...

JONES – Eu também...

HOMEM – Ok, vocês venceram. Atirem a vontade uns nos outros. Ninguém consegue se entender aqui mesmo. Isso é o que dá juntar três americanos e um mexicano. Se ao menos tivesse um herói brasileiro aqui comigo. (Se dando conta.) Merda, o que foi que eu disse?!

Surge, do banheiro, uma quinta figura.

NASCIMENTO – E aí, rapaziada? Todo mundo cantando a música do abc?

HOMEM (Estupefato.) – Um de vocês, por favor, atire em mim agora.

OS TRÊS – Pelé?

NASCIMENTO – O próprio! Pediram um herói nacional, e cá estou!

HOMEM – Que esculhambação...

Os três se aproximam de Nascimento para pedir autógrafos.

HOMEM – Não vai me dizer que isso é uma bola, vai?

NASCIMENTO – Exatamente! A bola do gol-de-mão que Maradona fez na copa!
Nascimento começa a fazer embaixadinhas com o objeto de metal.

HOMEM – Ai, meu pai do céu... aonde essa história vai parar?

Surge uma sexta figura, desta vez pela porta, que é aberta rapidamente.

BRAGA – Essa é uma ótima pergunta.

HOMEM – A porta! Segura a...

A porta se fecha novamente.

HOMEM – Não acredito! Você deixou a porta fechar de novo!

BRAGA – Ora, deixe de ser maricas.

NASCIMENTO – Ei, quem e você?

HOMEM (Extremamente magoado.) – Maricas?

BRAGA – Meu nome é Gilberto Braga. Sou autor de novelas.

JONES – Um momento, o que está acontecendo aqui?

BRAGA – Digamos que vocês são todos meus convidados.

HOMEM – Ah, então você é o responsável por tudo isso?

BRAGA – Acho que sim. Acontece que tive problemas com os diretos autorais de vocês e tive que parar de escrever a novela.

LANGDON – O que está insinuando?

BRAGA – Daí resolvi transformar tudo isso num teatro de revista.

NASCIMENTO – Teatro de revista? (Cantando.) “A, b, c! A, b, c! Toda criança tem que ler e escrever”!

BRAGA – Mas tive problemas com o ECAD.

BAUER – Malditos! Nunca ajudam em nada!

BRAGA – É verdade. Até escrevi uma peça chamada “Como explodi o ECAD e fiz um mundo melhor”. Mas isso é outra história, da qual vocês não fazem parte.

HOMEM – Espere aí! Quer dizer que nós somos personagens de uma história de ficção?

BRAGA – Exatamente. De um esquete, na verdade. É o que deu pra fazer com tanta burocracia.

LANGDON – Nossa... nunca me senti tão superficial.

JONES – E o que veio fazer aqui, seu Gilberto?

BRAGA – Vim ver se vocês me ajudam a terminar isso aqui.

HOMEM – Que tal abrir a porta e deixar todos seguirem seus caminhos?

BRAGA – Chato de mais.

NASCIMENTO – Vamos terminar cantando!

HOMEM – Ora, cale a boca!

BRAGA – Como num teatro de revista?

NASCIMENTO – É! Só que mais curto.

BAUER – Faz sentido... talvez eles não encham o saco.

HOMEM – Não acredito no que estou ouvindo!

BRAGA – Acho que podemos tentar. Quem sabe não nos inscrevemos em algum festival no interior?

JONES – Acha que temos chances de ganhar?

BRAGA – Não, mas pode ser bem divertido!

LANGDON – Ok, eu topo!

Todos aceitam, menos o homem.

HOMEM – Meu Deus! Isso não faz sentido! É até inverossímil!

BAUER – Ah, não fode, mané!

BRAGA – Então vamos lá! Que entrem as mulatas!

HOMEM (Profundamente sentido.) – Não fode, mané?

Entram várias mulatas sambando. Todos comemoram. Junto a elas, surgem o Osama Bin Laden, o Cavaleiro Sistino da Mesopotâmia, o ET de Varginha e José Sarney, dançando, animados. Todos entram na folia, menos o homem. Cantam uma marchinha de carnaval qualquer, realizando uma divertida coreografia. Aos poucos, o homem vai se entregando ao clima. Ao final do número, que não precisa durar muito tempo, todos vão saindo de cena, satisfeitos, até sobrarem no palco: o homem, Sarney, Bin Laden, o cavaleiro e o ET. O cubo de metal, durante a folia, acabou ficando nas mãos do Sarney.

HOMEM (Se dando conta da situação.) – Merda, isso não é bom sinal!

SARNEY – Puta merda, sobrou pra mim de novo!

Entra em cena o Professor Raimundo.

RAIMUNDO – E o salário, ó!

Vinheta de “Os trapalhões”. Blecaute. Som de explosão.

***

Nota do autor: mude os personagens deste esquete e anime a festa de fim de ano da sua empresa!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

ANTICLÁSSICO UMA DESCONFERÊNCIA E O ENIGMA VAZIO, especial para o Drama Diário

Rodrigo Nogueira convida Alessandra Colasanti


Uma bailarina de vermelho, um punk, um piano, um microfone, sonatas de Chopin, um vídeo ilustrativo e uma guitarra imaginária.
BAILARINA

- Bom, antes de me apresentar, de dizer o meu nome, eu gostaria de pedir desculpas pelo atraso. Des-culpa. Interessante essa palavra. Não era a minha intenção. Mas vocês estão sabendo, né? Devem ter visto nos jornais, nas revistas, na TV, os helicópteros, enfim. Devem ter ouvido falar. Foi muito difícil enviar esse texto, foi muito difícil chegar até aqui. Né. Por quê? Porque tá um tumulto muito grande pelas ruas. São muitos índios, jagunços, caciques, paparazzi, correndo pra todos os lados, nesse momento de caos histórico, são muitas pessoas evacuando e copulando e pelas ruas. Depois-não-entendem-por-que-que-eu-falo-mal-do-brasil. Bom, antes de me apresentar, de dizer o meu nome, propriamente, eu gostaria de agradecer a todos pela presença aqui, eu gostaria de agradecer à organização do coletivo pelo convite, é uma honra muito grande estar aqui , se-é-que-eu-estou-aqui, participando dessa primeira edição, e primeira é uma questão de perspectiva, e por que não dizer da edição número zero desse Seminário Ausente Internacional, que esse ano acontece dentro da Quadrienal do Plágio aqui no site Drama Diário. Muito obrigada. Como ponto de partida, eu diria que a coisa em si é a não coisa. Quero deixar claro, é importante que se diga, que eu não tenho nenhuma bandeira na manga, também não tenho nenhuma manga na manga, e também não tenho nenhuma manga, at all. Antes de me apresentar, de dizer o meu nome, propriamente, eu vou dizer que não. Não. Eu não vou me apresentar. E no lugar do meu nome eu vou dizer uma frase do Chet Baker que diz. What a difference a name makes? Parafraseando Tatiana Leskova em seu livro Uma Bailarina Solta no Mundo - é fundamental fornecer as fontes, ok? Eu diria. GESTO DE ABRE ASPAS. Os russos não me consideram russa, os franceses não me consideram francesa e os brasileiros não me consideram brasileira. Fecha aspas. E eu não me considero eu. De fato, eu não estou aqui. Eu não sou eu. Eu sou o herói, a heroína, sei lá, sem trajetória dessa fala sem trajetória. Bem, como diria Benjamim, adoro, essa é a história dos restos da história, e vocês são a platéia. Eu diria ainda, atenção, não confundir a lógica do sentido oculto com culto do não-sentido. Primeiro parágrafo já foi. Aconselho anotar tudo o que eu falo, tudo o que eu falo cai! Isso posto, eu já não sei, o que é, enfim, vamos apresentar a ementa desta noite. Conteúdo programático também no nosso news letter a cada 15 dias. Primeiro eu vou dizer bom, depois eu vou pedir desculpas pela o atraso na entrega do texto, desculpas, e vou achar interessante essa palavra, depois eu vou introduzir uma espécie de preâmbulo, teoricamente digressivo, mas na prática metonímico, vou então chegar a esse momento aqui agora. Passou. Vou falar um texto, que é esse aqui. Logo em seguida eu vou dizer que esse texto não é meu. Vou contar uma anedota, vou sim. Vou mostrar um vídeo ilustrativo. Com o perdão da má palavra, eu não gostaria de ofender ninguém, de criar nenhuma celeuma, com nenhum purista, nenhum tradicionalista da contemporaneidade, trata-se apenas de um vídeo ilustrativo. Ilustrativo-no-sentido-de-vídeo, mesmo. E a título de contraponto, simultaneamente ao vídeo, eu vou o quê? Eu vou elencar. O quê? Uma série de perspectivas. De temas. De problemas. De questões. Enfim. Aparentemente sem nexo, mas com um objetivo muito. Como direi? Objetivo. Não esperem de mim uma palestra com princípio, meio e fim. Não esperem de mim uma palestra. Duvidem de mim. Tenham essa coragem. Duvidem de tudo que eu estou falando. E lembrem-se. É muito importante isso. Tem alguém anotando? É preciso realocar os velhos paradigmas. Adóessafra. Logo após o vídeo abriremos uma janela. Metafórica. Para uma narrativa provocativa, que será acompanhada de um coffe-break-brain-storm. E em seguida, finalmente, abriremos para as perguntas de vocês. Eu aviso logo que eu não sei se eu vou responder às perguntas de vocês, não por nenhuma razão, mas porque simplesmente eu não me sinto detentora de nenhuma verdade, até mesmo porque eu nem sei se é possível se falar em verdade nos dias de hoje. Sobre esse tema, qual seria o tema? A questão da verdade, alguém aqui não concorda comigo? Então, sobre esse tema eu indico uma bibliografia básica, dois livros fundamentais, que eu cito aqui, estamos aqui não estamos? Que eu cito aqui apenas a título de reiteração, pois certamente todos aqui já leram, La Faculté de Jugér, de Derrida, não foi traduzido no Brasil, e um livro meu, A Grande Trapaça da Verdade, esgotadíssimo, mas enfim, talvez pela Amazon vocês consigam a edição portuguesa, que é uma excelente tradução, ou senão a própria edição original mesmo em inglês que é perfeita. Isso não quer dizer que vocês não possam perguntar. Vocês podem perguntar. Vocês devem perguntar. Eu só não sei se eu vou responder. Que gênero é esse? É uma questão. Vamos falar sobre isso mais tarde. Guarda isso que depois a gente retoma. Aproveitaremos para vender alguns produtos e encerraremos a explanação com um número de air guitar, a guitarra imaginária. Só um minutinho que eu tive uma idéia. UM MINUTINHO. Bom, podemos começar. Bom. Antes de me apresentar, de dizer o meu nome propriamente, eu gostaria de parabenizar a todos pela presença aqui no real gabinete de leitura. Foram enviados mais de 22.843 currículos, mais de 22.834 pessoas enviaram seus currículos na expectativa de poder estar aqui nesse encontro. Eu li todos. Eu gostei muito do que eu li. Portanto, esse é um momento de grande alegria. Parabéns a todos vocês, os 35 selecionados pela presença aqui na Societé Française de Philosophie. TEXTO EM FRANCÊS. Desculpa é muita coisa. Como-é-que-se-fala-isso-mesmo-em-português?. Enfim, é o jet leg. Tanto faz. De fato, como eu aprendi com o professor Jarry no Collège de France, e toda vez que eu falo no Collège de France eu lembro da questão do Barthes, do Roland Barthes, que todos dizem que foi atropelado na porta do Collège de France, ça c’est um falacie, é uma falácia, é uma mentira, porque o Barthes tá vivo, tá em Menphis, sempre me liga, enfim, mas conforme eu aprendi com o professor Jarry no Collège de France, e toda vez que eu falo no Collège de France eu lembro da questão do Barthes, mas vamos tentar avançar, eu deveria ter aprontado essa desconferência, eu deveria estar apresentando aqui um material já concluído. Eu digo, concluído-no-sentido-de-conclusão. Mas, de fato, a presente proposta se apresenta muito mais no sentido de uma contra operação, é muito mais um trabalho de desconstrução do que de construção. Calma. Sobre Derrida nós vamos falar depois. Anota. Depois-alguém-me-lembra. Derrida é o autor da emblemática frase, que eu cito aqui apenas a título de reiteração, enfim, certamente todos aqui conhecem, que diz: “A linguagem se cria e cria mundos”. Agora, interessante pensar, né? Quando eu tava vindo pra cá, ou-indo-pra-lá-já-não-sei-já-não-lembro, eu li no jornal que a Toshiba acaba de criar o menor HD do mundo, o que aponta a priori para a contingência dogmática entre o Ser e o Significado, mas sobre isso nós vamos falar a posteriori. Na verdade, se é que se pode falar em verdade hoje em dia, eu irei apresentar o que aqui agora? É uma pergunta que se faz. Eu irei apresentar aqui algumas possibilidades, alguns caminhos, e por que não dizer, alguns descaminhos, inclusive, adoessapalá, e conto com a ajuda de vocês como receptores ativos na complementação do não dito. Enfim, concuacolaboraçã de vocês. Nessa parte aqui, nesse parágrafo aqui que acabou de passar, eu deveria ter dito um texto do Foucault, do Michel Foucault, mas eu não fiz isso. Eu deveria ter dito o texto de abertura da conferência, da magistral conferência “O que é um autor?”, proferida por Foucault, na Sorbonne no dia 22 de fevereiro de 1969, mas eu não fiz isso, eu não fiz isso, e acabei falando um texto meu, né, acabei falando um texto meu. Agora interessante pensar, a partir do advento da morte do autor, enfim, se não há autor por trás do texto, na verdade eu não sei quem falou, se quem se falou foi o próprio texto, ou o quê, mas, enfim também não tá mais aqui quem falou. Sobre Foucault, eu tenho uma história interessantíssima, essa é a parte que eu vou contar a anedota, uma história curiosa, quando o Foucault veio ao RI, ARFA Brasil, desculpe é que eu acho esse país muito engraçado, quando o Foucault veio ao Brasil na década de 70, convidado pela PUC, lhe foi oferecido um jantar, um jantar prestigioso em sua homenagem e, ninguém sabe o que aconteceu, é uma lenda no meio acadêmico carioca, porque ninguém foi nesse jantar, né, ninguém foi. Mas o Foucault foi. O Foucault foi, e o Foucault ficou, Foucault, ficou, ficou Foucault, Foucault lá. Foucault foi né? Morreu. Na década de 80 assim como muitas outras coisas. Mas afinal? Vocês me perguntarão. Outra questão que se coloca: com quantos clássicos se faz uma canoa? Que horas são? É dos clássicos que elas gostam mais? Are the classics the girls best friends? Em português: Os clássicos são eternos? E ainda: um livro que nunca foi lido pode ser considerado um clássico? São questões. São questões. Sobre isso eu tenho uma teoria muito interessante, mas depois eu falo, enfim, vamos passar ao vídeo ilustrativo. Hamlet por favor. VÍDEO ILUSTRATIVO.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

GALERIA DE ARTE de Leandro Muniz

Larissa Câmara convida Leandro Muniz


HOMEM e MULHER caminham por uma galeria de arte e conversam.

HOMEM
Eu pinto quadros desde os 3 anos de idade.

MULHER
Incrível!

HOMEM
No Jardim dois eu ganhei prêmios com um desenho do palhaço Carequinha em giz de cera.

MULHER
Que máximo!

Os dois param de caminhar. HOMEM se aproxima de MULHER.

HOMEM ( insinua-se)
Desde então... Desde então eu não penso em outra coisa senão: pintar.

MULHER
Edu, você transborda: talento.

Os dois voltam a caminhar

MULHER
Eu vi aquele seu quadro “Eu e Marli no deserto do Saara nus e suados comendo carne crua ao som de Billy Holliday”. Você tem muito jeito pra coisa Edu. Mas achei aquela paisagem amarela um pouco over, isso me passa uma sensação de desconforto sua em relação ao seu eu interior. Você tem questões raciais e bloqueios sexuais visíveis!

HOMEM
Você está redondamente enganada! Aquilo não é amarelo! E o que quero dizer com aquele quadro é muito mais simples. Quero dizer que a verdadeira obra de arte pode ser compreendida pela incompreensão que ela propõe, podendo ser entendida de maneiras diferentes desde que compreendamos de maneiras diferentes e/ou incompreensivas. Entendeu?

MULHER
Não.

HOMEM
Daltônica!

MULHER
Invejoso!
HOMEM
Petulante!

MULHER
Mal amado!

HOMEM
Mesquinha!

MULHER
Fracassado!

HOMEM
Frustada!

MULHER
Gostoso!

HOMEM e MULHER se agarram e se beijam ferozmente. Em seguida, os dois se recompõe e voltam a andar pela galeria, e a observar alguns quadros.


MULHER
Sua mãe e eu nos demos muito bem.

HOMEM
Destino.

MULHER
A gente combina nas coisas que gostamos em você.

HOMEM
Incrível.

MULHER
E até nas coisas que não gostamos em você.

HOMEM
Por exemplo?

MULHER
Sua capacidade de ser mais egoísta do que sua sombra, mais perverso com as pessoas do que seu próprio pai que desgraçou a vida da sua mãe com inúmeras esquisitices ignorâncias e violências e coisas bem peculiares suas como não saber tratar uma mulher, não cuidar da casa, não ser sociável, amável, arrotar na mesa, chupão no pescoço de alguma vagabunda, destratar qualquer pessoa que não tenha o mesmo nível intelectual e/ou financeiro que você. Entendeu?

HOMEM
Vacas!

MULHER
Baitola!

HOMEM
Piranha!

MULHER
Imbecilóide!

HOMEM
Mongolóide!

MULHER
Preconceituoso!

HOMEM
Mulherzinha!

MULHER
Brocha!

HOMEM
Estéril !


HOMEM e MULHER se agarram e se beijam novamente, dessa vez de forma mais violenta. Entre carícias e pegadas agressivas, ameaçam ir para o chão, mas percebem um grupo de pessoas próximas dali, e param de agir.


MULHER
Eu não sei o que eu vi em você Edu

HOMEM
Nem eu sei o que vi em você, Maristela.

MULHER
A começar pelo nome

HOMEM
Terminando pelo cheiro.

MULHER
Eu odeio tudo em você

HOMEM
Tudo em você


MULHER
Façamos o seguinte

HOMEM
Não nos veremos mais!

MULHER
Lê meus pensamentos.

HOMEM
Tenho nojo deles, assim como tudo em você

MULHER
Me enoja!

HOMEM
Tudo.

MULHER
Teu jeito de falar!

HOMEM
Reclamar, acertar!

MULHER
Andar, respirar ,vestir!

HOMEM
Piranhar, fofocar, arrumar!

MULHER
Cuspir!

HOMEM
Despir!

MULHER
Me despir ? Jamais!

HOMEM
Que assim seja!

MULHER
Prefiro a morte!

Os dois se aproximam com voracidade, porém recuam.


Homem sai.


MULHER
Espera! Que horas marcamos amanhã?

FIM

terça-feira, 4 de agosto de 2009

SUSAN INFERNO SARANDON de Rafael Souza-Ribeiro

Felipe Barenco convida Rafael Souza-Ribeiro

MULHER – Não! Não! Me solta!

HOMEM – Acorda, minha fada! Você está sonhando.

MULHER – Oi? Onde eu tô? Ai, cacete. De novo, amor sublime.

HOMEM – Outro sonho daqueles?

MULHER – Sim, outro sonho com Susan Sarandon.

HOMEM – Eu vou pegar água.

MULHER – Não! Não me deixe aqui sozinha. Eu tenho medo. Só acende a luz.

HOMEM – Não vai acontecer nada, minha fada.

MULHER – Eu não agüento mais...

HOMEM – Não chora.

MULHER – Eu não consigo mais ter uma noite inteira de sono sem ser assombrada por ela.

HOMEM – Minha fada, são apenas sonhos.

MULHER – Eu sei, eu sei. Mas isso tem acabado comigo. Minha vida virou um inferno depois que eu comecei a sonhar com a Susan Sarandon.

HOMEM – Vai fumar agora?

MULHER – Estou nervosa, você tem que me entender. Aonde você vai?

HOMEM – Abrir a janela.

MULHER – Eu quero meu sono de volta, minha tranquilidade.

HOMEM – Você não faz nenhuma ideia do porquê desses sonhos?

MULHER – Não. É inexplicável.

HOMEM – Se ao menos você fosse uma fã, se gostasse muito de algum filme dela...

MULHER – Nem uma coisa nem outra. Não tem explicação. Os próprios sonhos não fazem sentido. Eu sempre estou correndo na Lagoa quando ela vem e se emparelha a mim, aí a gente começa a correr, ela me diz que são meus últimos passos, pega a minha mão e me puxa em direção à água. A gente começa a afundar. Aí, quando o ar começa a acabar, quando eu começo a morrer, eu acordo.

HOMEM – Minha fada, nós precisamos procurar ajuda.

MULHER – De jeito nenhum. Eu morro de vergonha. Ninguém precisa saber desse meu problema.

HOMEM – Mas, minha fada, você não tem do que se envergonhar. A primeira vitória é assumir que precisa de ajuda. Você quer ou não quer acabar com essa tormenta?

MULHER – Ela falou de você dessa vez.

HOMEM – De mim? Como assim? Susan Sarandon falou de mim num sonho?

MULHER – É.

HOMEM – E o que ela disse?

MULHER – Ela disse que eu devo continuar em busca do meu grande amor porque você não é o homem da minha vida. O homem que se deita ao seu lado, foi assim que ela disse, não é o homem que se levanta por você.

HOMEM – Ela disse isso?

MULHER – Disse.

HOMEM – Em inglês ou português?

MULHER – Taí. Não sei. Me apertou sem abraçar. Não reparei qual era a língua.

HOMEM – E você acha que existe algum sentido no que ela disse?

MULHER – Você deve saber disso melhor do que eu.

HOMEM – Isso é loucura.

MULHER – Vai fumar também?

HOMEM – Perdi o sono.

MULHER – Toda noite agora é esse inferno.

HOMEM – E justo por causa de quem? Por minha causa que não é. Esse inferno é por causa de ninguém mais ninguém menos que Susan Sarandon. Ela está destruindo não só as nossas noites, como a nossa vida. Você percebe? É isso que ela quer: acabar com a nossa vida, sabe-se lá por quê. Que Susan Sarandon quer nos ver separados, ah quer.

MULHER – E pelo visto ela não vai sossegar enquanto não conseguir. Demônia!

HOMEM – Será que essa merda morreu e o que aparece no seu sonho é o espírito dela?

MULHER – Antes fosse, faria mais sentido. Mas ela está viva.

HOMEM – Que mais ela disse?

MULHER – Nada. Vamos dormir.

HOMEM – Você está me escondendo alguma coisa.

MULHER – Tô escondendo nada, amor sublime. Vamos dormir, são quase quatro horas. Daqui a pouco é dia.

HOMEM – Me conta pelo amor de Deus, pelo amor que você tem a mim, eu faço o que você quiser, eu me ajoelho, olha, eu me ajoelho, mas me diz, o que mais a Susan Sarandon falou pra você?

MULHER – Ela disse que...

HOMEM – Fala o que ela disse, minha fada!

MULHER – Ela disse que você me esconde um segredo.

HOMEM – Ela disse isso? Eu vou matar essa mulher.

MULHER – Eu não acredito nela, pode ficar tranquilo. Não fica assim, amor sublime.

HOMEM – Como você quer que eu reaja? Estão tentando nos colocar um contra o outro.

MULHER – Não, amor sublime, é só um sonho.

HOMEM – Então diz que não acredita nela, diz. Diz que confia em mim.

MULHER – ...

HOMEM – Que foi? Você está em dúvida?

MULHER – Você não acha que está irritado demais por causa das insinuações da Susan Sarandon?

HOMEM – Você acha? Tá pegando mal?

MULHER – Um pouco. Daqui a pouco eu vou achar que você me esconde mesmo um segredo.

HOMEM – Quer saber? Pra mim chega.

MULHER – Aonde você vai?

HOMEM – Eu vou embora. Acabou!

MULHER – Não seja dramático!

HOMEM – Eu cansei de disputar você com a Susan Sarandon. Chega! São oito meses dessa insanidade.

MULHER – Eu preferiria morrer a estar vivendo essa desgraça.

HOMEM – Não era eu o dramático aqui?

MULHER – Se você for embora, o que Susan falou vai fazer todo o sentido: você realmente não é o homem da minha vida.

HOMEM – Talvez ela esteja certa.

MULHER – Isso é loucura. Daqui a pouco chove bosta aqui dentro do quarto. Chega de delírios!

HOMEM – Acabou o cigarro.

MULHER – Volta pra cama.

HOMEM – Não. Eu tô muito ferido.

MULHER – Nós temos que ser fortes. A gente tem que encarar isso com mais distanciamento, sei lá, encarar como fantasia, é..., é..., é..., enfim, sonho, como qualquer coisa que não seja real. Os meus sonhos com a Susan Sarandon não podem interferir no nosso relacionamento, a gente não pode deixar que uma fulana qualquer interfira dessa forma na nossa vida. A gente tem uma história. E na história da fada e do amor sublime, qual o papel de Susan Sarandon? Nenhum! Ela não é ninguém.

HOMEM – Ela tem um Oscar.

MULHER – Caguei! Eu tenho você, amor sublime.

HOMEM – Danada.

MULHER – Hoje foi o último dia que a gente se estressou por causa disso, ok? Vamos combinar que a partir de amanhã a gente não vai mais se aborrecer? Nem se irritar? Vamos rir dessa história a partir de amanhã?

HOMEM – Eu te amo.

MULHER – Eu te amo também. Que tal dormir antes que amanheça?

HOMEM – Show!

MULHER – Então apaga a luz. Fecha a janela primeiro. É só a gente ficar quietinho que o sono volta.

HOMEM - ...

MULHER - ...

HOMEM – Minha fada, já dormiu?

MULHER – Oi?

HOMEM – Eu... preciso dizer uma coisa. Aquilo que a... Susan falou, é verdade. Ela conseguiu o que tanto queria. Eu... eu tenho mesmo um... um segredo.

MULHER – Qual?

HOMEM – Eu também tenho sonhos. Os meus são com Denzel Washington.

MULHER – Danado!

HOMEM – O segredo é que são sonhos eróticos.

MULHER – Entendi... (4 minutos depois) Os cigarros acabaram mesmo?


FIM

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

FOBIA de Marilia Toledo

Jô Bilac Convida Marilia Toledo


Nota do Jô: Conheci Marília em São Paulo, em meio a um grupo interessantíssimo de dramaturgos oriundos de todo o país. O encontro foi na tão célebre praça Roosevelt em uma entrevista para a Ilustrada (Folha de São Paulo). Além de ser uma jovem elegante e inteligente, Marilia hoje é um dos valiosos talentos da nova dramaturgia brasileira. Conexão sampa/rio, boa leitura.
j. Bilac


Personagens:

Elisa – mulher, rica, sessenta anos.
Élcio – seu marido.
Motorista.

ELISA ESTÁ NO HALL DE ENTRADA DE SUA MANSÃO, VESTIDA DE MANEIRA MUITO ELEGANTE. ELA ESTÁ BASTANTE AGITADA.

ELISA: (FALA ALTO COM O MOTORISTA, QUE ESTÁ NO ANDAR DE CIMA) Jorge, já estamos atrasados. Pode trazer as minhas malas? (OLHA NO RELÓGIO) Oito e dezenove!

MOTORISTA: (EM OFF) Claro, dona Elisa. Já estou indo.

MOTORISTA CHEGA AFOBADO, COM AS MALAS.

ELISA: Precisamos mandar arrumar o elevador. Já não temos mais idade para subir e descer essas escadas.

MOTORISTA: O técnico vem na próxima semana, quando a senhora voltar.

ELISA: (OLHA NO PRÓPRIO RELÓGIO, MAS QUER TER CERTEZA) Que horas são?

MOTORISTA: Oito e vinte.

ELISA: Estou atrasada. Muito atrasada. Ponha tudo no carro que eu vou chamar o Élcio.

MOTORISTA: O doutor não vai querer sair agora, ainda faltam quinze minutos para o horário limite de saída da senhora. Mas… quarenta minutos para o horário limite dele.

ELISA: Desta vez sou eu quem decide porque a viagem é minha. Ele está indo ao aeroporto conosco de intrometido que é! Não posso perder este vôo.

ÉLCIO ENTRA.

ELISA: Ah, que bom, meu querido. Vai mesmo nos acompanhar? Já estamos indo.

ÉLCIO: Querida, não faz o menor sentido sairmos agora. Levaremos uma hora até Guarulhos. Você ainda terá duas horas de espera antes do check in.

ELISA: Não vamos começar tudo de novo. Jorge, por favor. Leve as malas.

ÉLCIO: Vou pegar minha carteira no escritório.

O MARIDO E O MOTORISTA DEIXAM A SALA.

ELISA: (ANDANDO DE UM LADO PARA O OUTRO) Meu Deus, vou perder o vôo! Tenho certeza de que vamos pegar o maior trânsito e depois vou enfrentar uma fila dos diabos e não vou conseguir embarcar. Eu sei que isso vai acontecer. Tenho certeza.

JORGE VOLTA.

ELISA: Por que SEMPRE ele faz isso comigo, Jorge? Ele sabe que eu gosto de ir com calma.

MOTORISTA: Fique tranquila, dona Elisa. Temos tempo.

ELISA: Não temos tempo, não. Você sabe melhor do que ninguém como é o trânsito.

ÉLCIO VOLTA.

ELISA: Pronto?

ÉLCIO: Ainda não. Vou colocar comida para os peixes.

ELISA: Mas será possível? Deixe isso para os empregados.

MOTORISTA: Ih, já saiu todo mundo. Como o senhor Élcio decidiu ir para a praia…

ÉLCIO: Mandei o Jorge dar folga para todos. Não quero ninguém em casa esta semana. Merecemos descansar um pouco.

ELISA: Alimente os peixes na volta.

ÉLCIO: Não me aborreça.

ÉLCIO SAI.

ELISA: Que horas são, Jorge? No meu relógio são oito e vinte e cinco.

MOTORISTA: Oito e vinte e cinco.

ELISA COMEÇA A RESPIRAR DE MANEIRA OFEGANTE.

MOTORISTA: Respire fundo, dona Elisa. Lembre-se do que o seu médico falou. Respiração de cachorrinho!

ELISA: Cachorrinho é para grávida, Jorge! O meu médico mandou fazer respiração curta e forte.

MOTORISTA: E não é a mesma coisa?

ELISA: Claro que não! Pare de falar, você está me deixando ainda mais nervosa.

MOTORISTA: Sim, senhora.

ELISA: Que horas são?

MOTORISTA: Oito e vinte e sete.

ELISA: Oito e vinte e sete!

ÉLCIO ENTRA.

ÉLCIO: Eu não consigo encontrar o meu celular. Você viu onde eu larguei?

ELISA: Quando você voltar do aeroporto procura. Para quem vai ligar agora? Não tem a menor necessidade.

ÉLCIO: Você sabe que eu não consigo sair de casa sem ele.

ELISA: E você sabe que eu não suporto chegar atrasada nos lugares. Passamos a maior parte da vida sem esse troço e agora parece que se der um passo sem o celular vai ter um ataque do coração!

ÉlCIO: Esta bem, vamos.

OS TRÊS ANDAM EM DIREÇÃO AO CARRO, MAS ÉLCIO RECUA.

ÉLCIO: Carteira!

ELISA: Santo Cristo! Não pegou?

ÉLCIO: Esqueci. Fiquei procurando o celular…

ELISA: Deus do Céu! Agora tenho certeza que não vai mais dar tempo. Que horas são?

MOTORISTA: Oito e vinte e oito.

ELISA: Viu!

ÉLCIO: (PASSANDO POR ELISA) Elisa, quanto teatro! Temos tempo de sobra.

ELISA: Nunca vi uma pessoa tão sossegada! (GRITA) Querido, deixe que eu vou sozinha com o Jorge. Sei que você quer ser gentil comigo, mas…

ÉLCIO: (PASSANDO NOVAMENTE POR ELA) Já peguei a carteira. Vou subir rapidinho para pegar um presentinho que eu comprei para você levar no avião!

ELISA: (TOTALMENTE SEM PACIÊNCIA) Amor… meu presente é a viagem! Isso se eu conseguir chegar a tempo no aeroporto. Tá vendo! Ele vai fazer de propósito, Jorge! No fundo não quer que eu vá!

MOTORISTA: Ele só está querendo agradar a senhora!

ELISA: Agradar nada! Isso é pura provocação! Por favor, vá indo para o carro e nos espere lá.

MOTORISTA SAI.

ELISA: Deus meu, dai-me paciência! Vou perder esse avião… oito e vinte e nove!

SILÊNCIO.

ELISA: (FALANDO PARA O ANDAR DE CIMA) Querido, você subiu de elevador?

ÉLCIO: (OFF) Não. Mandou consertar?

ELISA: Claro! Está em seu perfeito estado!

ÉLCIO: (OFF) Ótimo! Já estou indo. Peguei o presente e meu paletó.

OUVIMOS BARULHO DE UMA PORTA DE FERRO SE FECHANDO E DEPOIS UM BARULHO DE ENGRENAGEM SE ROMPENDO.

ÉLCIO: (OFF) Que porcaria! Já quebrou de novo! Não consigo abrir a porta. Quem foi o imbecil que fez este serviço?

ELISA: Ninguém, meu amor. O elevador nunca foi arrumado!

ÉLCIO: (OFF) Elisa, (PAUSA) então você… você…

SILÊNCIO.

ÉLCIO: (GRITA) Elisa!!!!!

ELISA SAI DE CASA E TRANCA A PORTA.

ELISA: Vamos, Jorge! Élcio decidiu ficar. Depois que me deixar no aeroporto pode ir para a sua casa direto. É mais perto, não é?

MOTORISTA: É sim, dona Elisa. Mas… e o carro?

ELISA: Fique com ele. Você não vai ter que me pegar daqui uma semana?

FIM.