Branco
Vestiu branco. Dos pés à cabeça. Afinal, sexta-feira. Bateu o portão. Saiu de casa todo perfumado, cabelo com goma, cheiro de alfazema que deixava um rastro pra mais de dois metros. Olhou pro céu e pediu a São Pedro não mandar chuva. Ia atrapalhar o fim de semana que prometia ser animado. Andava a passos largos, orgulhoso de sua estampa. De repente, parou. Deu um pulo! Que susto! Não gostou do que viu. Se arrepiou todinho. Gato preto assim de frente era coisa pra tomar cuidado! Se apegou às guias que levava no pescoço como quem se segura a um bote salva-vidas, beijou uma a uma pedindo proteção. Saravá! Bangalô três vezes! Duvidou da própria sorte. Desconjuro! Chegou a pensar em voltar pra casa. Passar a salvo o fim de semana animado. Pensou. Ponderou. Respirou fundo, secou a testa preocupada, com um lenço igualmente branco. Recompôs-se a custo e resolveu seguir andando, embora ressabiado. Ia pelas calçadas esburacadas, cuidando pra não sujar o terno em nenhuma poça que pudesse manchar sua reputação e o linho impecavelmente limpo e bem passado. Não passou por debaixo de nenhuma escada que encontrou pelo caminho. Pediu licença inúmeras vezes, nas várias encruzilhadas, e benzeu-se na porta da Igreja Nossa Senhora da Penha. Tudo pra espantar o mau agouro do danado do gato preto. Parou num boteco pra fazer um ‘esquenta”, antes de ir pra roda de samba em Madureira.
Pediu a aguardente da casa. Antes de meter pra dentro a branquinha, deu o primeiro gole pro Santo, derramando a bebida no chão. Depois bateu em outros copos desejando saúde e saudando São Jorge, seu xará por nome. Sua mãe o batizara assim cumprindo promessa por graça alcançada!
- Salve Jorge! Jorge saudava.
- Salve! Todos respondiam.
Ficou no bar por mais ou menos uma hora. Jorge era homem de muitos amigos, querido em toda a vizinhança. Negro bonito, vaidoso e… Supertiscioso. Tinha suas mandingas, amuletos, fazia simpatias, rezava, batia tambor, acendia velas nos dias santos pra agradecer e fazer pedidos, freqüentava a Igreja e o candomblé, tinha suas manias e cacoetes, era sobretudo um homem de fé. Ultimamente andava cabreiro e atento. Bastante atento. No último jogo a cigana disse que Jorge, mulherengo nato, solteiro convicto, que tinha várias mulheres ao mesmo tempo, enfim, ia sossegar o facho. Estava prestes a encontrar o amor da sua vida, pelo menos foi o que a cigana disse.
Jorge – É mesmo, cigana? Tem certeza? Não é possível…
Cigana – Meu filho, teu jogo tá muito claro. As cartas tão dizendo que tu tá prestes a encontrar a mulher que vai virar tua cabeça. Vai ser paixão de ficar arriado, caído de quatro e mais num posso dizer que essas coisas a gente tem descobrir sozinho. Só te lembra de uma coisa: esteja atento.
Jorge curioso, perguntava: – Mas quem é essa dita cuja? É conhecida, desconhecida, vem de longe?
Cigana – Vem da onde tem que vir. Vai atravessar teu caminho.
Jorge – Mas cigana, como eu vou saber que ela é ela, na hora que eu encontrar?
Cigana - Filho, essas coisas a gente sabe e pronto. Essa mulher vai entrar na tua vida e depois dela teu destino já num é mais teu. Num adianta corrê, num adianta fugir…
E mais a cigana não disse. E Jorge que já era cheio das manias, ficou cabreiro e desconfiado de toda e qualquer mulher que se aproximasse: bonita, feia, magra, gorda, velha, moça, branca, negra… Olhava a todas com a mesma pergunta: Será que é ela?
Bebeu o último gole. Despediu-se dos amigos com tapinhas nas costas, sem muitos apertos, sem muitos abraços, pra não sujar o terno branco. Seguiu seu caminho, feliz da vida por estar indo pra roda de samba em Madureira.
Atravessou a rua. Madalena, uma mulata de parar o trânsito, vinha de um lado, Jorge ia do outro. Ao passar pela morena entortou o pescoço de tal modo que não viu uma bicicleta que vinha em sua direção. A colisão com a bicicleta jogou Jorge para o alto e depois ao chão. Batendo a cabeça. O sangue manchou todo o terno branco de vermelho.
Madalena voltou para acudi-lo. Ela ajoelhou-se no asfalto colocando o acidentado em seu colo, de modo que quando Jorge abriu os olhos, por poucos segundos, a primeira coisa que viu foi a boca carnuda de Madalena sorrindo pra ele. Foi amor à primeira vista. Era ela. Tinha certeza. Madalena abraçou-o como se finalmente o tivesse encontrado.
Jorge lembrou-se do gato preto e da cigana. Devia ter sido mais atento. Ter voltado pra casa. Estaria à salvo àquela hora. Mas aí… Aí não conheceria Madalena, seu grande amor. Uma lágrima escorreu ao mesmo tempo do rosto dos dois. Jorge fechou os olhos e pensou: não adianta correr, não adianta fugir. Segurou firme nas mãos da amada e entregou-lhe seu destino.
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