Cristianne Fridman
Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Mestrado em Português-Literaturas. Participou da Oficina de Roteiristas da TV Globo, 1996. Foi co-autora da novela Dona Anja, SBT. Colaborei no programa Gente Inocente, TV Globo, apresentado pelo Marcio Garcia. Depois escreveu Malhação, duas temporadas, com Andrea Maltarolli e Ricardo Hoffestetter. Colaborou na novela Coração de Estudante, TV Globo, em 2002, Emanuel Jacobina. Escreveu Carga Pesada. E na Record colaborou com a novela Essas Mulheres do Marcílio Moraes, 2005; foi co-autora da novela Bicho do Mato, com Bosco Brasil, em 2006 e autora de Chamas da Vida, em 2008/09.
Comecei a trabalhar com Cristianne Fridman quando ela assinou sua primeira novela como cabeça, cinco anos atrás. Foi o tempo que precisou para ela se tornar a autora mais expressiva da Record. Eu, particularmente, admiro muito como a Cris desconstrói os clichês da teledramaturgia, como ela anseia em sua escrita pela aspereza do “real” sem abrir mão do extraordinário.“Chamas da Vida” foi um grande sucesso e tratava de diversos temas polêmicos: pedofilia, drogas sintéticas, aborto, rachas… Um dos personagens mais interessantes era o bombeiro Guilherme. Muito mulherengo e sem nunca se precaver, Guilherme acabava contraindo o vírus da AIDS. Guilherme penou um bocado antes de encarar de frente sua nova condição. Sem coragem de contar para sua noiva, se certifica de que ela não foi contaminada e se afasta dela abruptamente. É impedido de continuar servindo como bombeiro quando o comandante fica sabendo do HIV. O clímax da dor de Guilherme se dá na revelação a Brito, seu pai. O apoio de Brito será fundamental para Guilherme perceber que a vida continua.
CAMILO PELEGRINI
Chamas da vida de Cristianne Fridman
CAP 112
CENA 30. BOTECO. EXT. NOITE.
GUILHERME já alterado. Seu ROCHA tenso.
GUILHERME — O amor e a estupidez andam juntos!
ROCHA — Chamei o seu pai, Guilherme. Você está bebendo muito.
GUILHERME — Tem que se proteger, seu Rocha!
BRITO entra no bar, todo afobado.
BRITO — Guilherme, meu Deus… (T) Vamos embora pra casa, filho!
GUILHERME — Pai! Diz aí, o senhor também usa preservativo com a mamãe, não usa?
BRITO — Guilherme, por favor. .(P/ROCHA) Desculpa de novo, seu Rocha.
ROCHA — Vão com Deus.
BRITO —Vem filho, você já bebeu demais!
GUILHERME — Minha vida acabou, pai! Acabou!
BRITO — Não acabou não! Vem, vamos embora!
BRITO vai levando GUILHERME, que sai tropeçando.
CORTA EM CONTINUIDADE PARA
CENA 31. RUA. EXT. NOITE.
GUILHERME alterado e BRITO tentando conduzir ELE. GUILHERME um pouco agressivo, revoltado.
BRITO — Deixa eu te ajudar, filho, você pode cair.
GUILHERME ri, exagerada e debochadamente.
GUILHERME — (ALTO) Eu já caí!!! Eu já me estabaquei!!! Me arrebentei!!!
BRITO — Ô, meu filho… deixa eu te ajudar.
E BRITO tenta pegar no braço de GUILHERME, para ampará-lo, conduzi-lo. GUILHERME puxa o braço, não aceita o auxílio do pai.
GUILHERME — Ninguém pode me ajudar!!! Ninguém!!!
BRITO — Eu posso te ajudar, sim.
GUILHERME — (MAIS AGRESSIVO, REVOLTADO) Não pode!!! Não pode!!! Ouviu bem? Ninguém, nem o senhor, pode me ajudar!!!
BRITO — Pára com isso!! Eu sou seu pai!!! Você é sangue do meu sangue e sempre vou poder te ajudar!
GUILHERME — (IRRITADÍSSIMO) Sangue do seu sangue, é? Pois olha bem, pai!!!
E GUILHERME dá com a cabeça em um poste ou parede, causando um leve corte, do qual escorre sangue.
BRITO — Meu filho não faz isso!! Guilherme, o que deu em você?!
GUILHERME passa a mão no ferimento e mostra para BRITO a mão suja de sangue.
GUILHERME — Meu sangue ó!!! Podre!!! Podre!!!
BRITO — O que é isso, filho, pára…
GUILHERME — Isso aqui, pai, é o meu sangue podre!!! Eu estou contaminado!!! (GRITA) Eu tenho AIDS!!!! AIDS!!!! AIDS!!!
REAÇÃO de BRITO,
FIM
CAP 113
CENA 01. RUA. EXT. NOITE.
CONT. CAP. ANTERIOR. BRITO e GUILHERME. BRITO impactado.
BRITO — Aids?… Filho…
GUILHERME — Eu vou morrer!!! Eu vou morrer!!! Morrer, entendeu?
E cai aos prantos. BRITO paralisado. Pausinha na imobilidade DELE diante do FILHO até que BRITO rompe em um grito abafado, uma dor e sofrimento tão grande que implode o som da sua dor. O corpo de BRITO se retesa, as mãos se fecham, cerradas, o rosto tem a expressão como se fora uma mãe na hora do parto fazendo força pra expulsar do ventre o seu filho, dar-lhe a vida, a dor e esforço de parir.
BRITO — Nãoooo…
GUILHERME olha o PAI, o espelho da sua própria dor. E GUILHERME, como uma criança que cai e rala o joelhos, amedrontada com o machucado, suplica o socorro do pai.
GUILHERME — Pai… dói muito…eu não quero morrer…
BRITO — Meu filho…meu filhinho…
E BRITO abraça tão forte GUILHERME, o coloca com seu rosto recostado sobre o seu peito, aconchegando-o como um menino de cinco anos de idade, balançando o filho, protegendo-o no calor do seu colo.
BRITO — Papai está aqui…eu não vou deixar você morrer…. (FIRME/REVOLTADO/AMEDRONTADO) Deus não vai fazer isso… Não vai levar meu filho não!!! Não vou deixar, ouviu Deus? Ouviu? Não vai levar o meu filho não!!! Não vai!!!
BRITO, aconchegando o filho no colo, e GUILHERME chorando. Na dor imensurável de PAI e FILHO
CORTA PARA
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