26/08/2010 ! Carla Faour

Das atribulações da vida moderna

Tenho a sensação de que de uns tempos pra cá, o tempo deu para passar mais rápido, sei lá! Já ouvi, inclusive, uma dessas teorias da hora (perdoem-me o trocadilho), que provam por A + B que o tempo, hoje em dia, passa mais rápido que outrora. Não me perguntem se a teoria é confiável que não sou boa entendedora de fórmulas. Mas se me perguntarem pura e simplesmente, posso garantir que meus dias, hoje em dia, não têm mais 24 horas. Se não, como explicar a incapacidade de acomodar todos meus afazeres dentro dos parcos 1440 minutos diários a que temos direito? A prática do dia a dia mostra que os tempos são outros.

Tomemos como exemplo o dia de ontem. Acordei, tomei banho, tomei café, tomei alguns comprimidos, esperei o elevador. Esperei o elevador. Esperei o elevador. Droga! Estava acontecendo alguma coisa. Já eram 8:47h. Devia ter pegado o elevador às 8:30h. 10° andar, 9°, 8°! Chegou! Chegou! Graças a Deus! 4º andar, 3º, 2º, 1º, Play, Térreo! Amém. Corri até a garagem desembestada. Peguei o carro, peguei trânsito, peguei engarrafamento. Fiquei engarrafada um tempão. Olhei pro relógio. 10hs! Como assim? E o trânsito não andava, não andava. Li o jornal, fiz abdominal, fiz sobrancelha, fiz as unhas. Fiz figa para o trânsito andar. Nada. Continuava parada dentro do carro. Peguei o celular. Liguei pra vizinha, tia, irmão, marquei dentista, marquei eletricista, liguei para cancelar o plano de TV com 320 canais, esperei, esperei, esperei. Ouvi musiquinha, falei com atendente, falei com gerente, xinguei a mãe, quando estava prestes a ser atendida , finalmente, cheguei no trabalho a tempo de sair para almoçar.

Pensei que ia relaxar um pouco na hora do almoço porque, enfim, depois de vários dias de intensa negociação, consegui marcar de almoçar com uma das minhas melhores amigas, pra gente botar o papo em dia. Chegamos afobadas. As duas. Ela com o celular no ouvido. Dois beijinhos. Sentamos. Perguntei como iam as crianças.

- Ótimas. Ela perguntou do Pedro.

- Quando a gente se encontra, ele me parece bem. Respondi.

- Ainda estão casados? Claro, só não nos encontramos muito. Sabe como é. Apê grande. Horários diferentes…

- Ah, entendo. De repente ela perguntou e ela mesma respondeu em seguida.

- Que horas são? Já? Nossa, como o almoço passou rápido!

- Passou, Dani? A comida nem chegou, a gente nem comeu…

- Desculpa, amiga! Não posso mais esperar. Tenho que estar em Copacabana… Aliás, já deveria estar em Copacabana. Estou atrasadíssima! Tenho que correr se não…

E já não escutei mais o que a Dani falava quando ela se levantou, me jogou dois beijinhos econômicos do outro lado da mesa e sumiu atendendo a outra chamada do celular, que tocava pela terceira vez, durante o nosso não-almoço de 15 minutos. Só soube notícias dela quando recebi o seguinte e-mail: Adorei te ver! Vamos marcar mais vezes! Bjs! Não tenho certeza, mas acho que ela se referia ao nosso não-almoço.

Pra variar saí do restaurante atrasada. Restaurante cheio, sabe como é. A conta demorou a chegar. Saí esbaforida para voltar ao trabalho. Decidi ir andando, que eu não ia ficar presa no trânsito de novo. Ah, não! Andando é eufemismo, corri uma prova de 800 metros com muitas barreiras, onde o percurso da prova consistia em ir do local do restaurante até o escritório.  Tentei me desviar de todas as barreiras e obstáculos que me impediam de baixar o recorde de tempo que eu levo para fazer tal percurso, como por exemplo: os distribuidores de panfletos nas ruas. O fato de eu ter que diminuir a velocidade dos passos e fazer o simples gesto de esticar a mão para pegar um panfletinho me toma um tempo incrível. No dia de ontem a oferta de panfletos era variada. A cada cinco passadas, uma panfletada: “Dinheiro na hora a peso de ouro”, “promoção de unha francesinha a R$15,00”, “recarga de cartuchos usados”, o clássico dos clássicos: “trago a pessoa amada em 7 dias”, entre muitos outros. Para adiantar o serviço fiquei com a mão esticada, na posição estratégica, pegando sem questionar tudo o que me foi oferecido. Mas, depois de um tempo, já que atravesso três quadras – fui atacada por dolorosas câimbras. Não sei como ainda não inventaram uma mão mecânica, ou um gancho, tipo capitão gancho mesmo, em que os distribuidores de papéis espetariam seus panfletos sem que tivéssemos que parar para atendê-los. Muito mais prático e… rápido!

Estava a apenas uma quadra do trabalho, satisfeita por estar atrasada apenas 20 minutos, quando o acaso me pegou distraída. Parei na esquina, esperando o sinal abrir para atravessar a rua, quando percebi, que ao meu lado, um sujeito segurando um mapa, com cara de “Esqueceram de mim 2” +  “O Turista acidental”, me olhava. Coloquei os óculos escuros e virei para o lado oposto. Não! Tudo menos dar informação! Dar informação toma o maior tempo. Se for em outra língua então, nem se fala… Demora demais! Cheguei a ficar com taquicardia só de imaginar o relógio passando. Tic tac tic tac…

- Por favor, a senhora sabe onde é a Rua Pires de Albuquerque? Fingi que não era comigo. Ele insistiu.

– Por favor, Rua Pires de Albuquerque?

O “por favor”, confesso, me quebrou, tenho o coração mole.

- O senhor quer chegar na rua Pires de Albuquerque?  O senhor conhece a Rua Aurora?

- Não.

Não? Definitivamente o caso ia demorar. Respirei novamente.

- Então faz o seguinte: pega a primeira esquerda. Depois a segunda direita, passa o primeiro sinal. O senhor é de São Paulo? É, é semáforo, sim. (falar semáforo gasta um tempão) Passa o primeiro semáforo, passa o segundo semáforo, quando passar o terceiro semáforo o senhor vai dar numa praça. Eu não, o senhor! O senhor vai dar numa praça, aí o senhor contorna a praça, vai ver uma banca de jornal. Chegou na banca de jornal o senhor pega uma reta de uns 100 metros, aí sobe uma ladeira. Descendo a ladeira, à direita, tem a Rua Aurora. A Pires de Albuquerque é uma travessa à esquerda da rua Aurora. Entendeu?

Que pergunta idiota. É claro que ele não entendeu! É claro que tive que repetir toda a explicação novamente. Uma espécie de tira teima, com os melhores momentos. Lá se foi quase meia hora, ladeira abaixo.

Não sei por que, mas tenho a impressão que aquela teoria do tempo está certa. Como está certa também aquela outra…  Aquela que não é teoria! É lei. Qual é mesmo o nome? A lei de Murphy! Pode apostar: Se o dia está ruim, ainda pode piorar. Não deu outra. Depois de finalmente despachar o turista acidental, eis que ouço alguém berrando o meu nome:

- Bebel! Isabel! Maria Isabel! (detesto que me chamem de Maria Isabel).

Era Elisa Coimbra das Neves. Colega da época de colégio. Elisinha, a fofoqueira, como era conhecida. Elisinha veio furiosamente em minha direção, com uma disposição de atleta, para bater um longo papo, com muitas novidades, e claro, várias fofocas. Começou sem introdução e sem cerimônia a emendar um assunto no outro. Eu juro que tentei me livrar várias vezes de Elisinha, sem sucesso. Cada vez que eu insinuava que tinha que voltar para o trabalho e estava atrasada, ela renovava o fôlego e retomava de forma obsessiva sua narrativa abundante em detalhes, adjetivos e dramaticidade, uma overdose verborrágica. Depois de um tempo só conseguia ver na minha frente a imensa boca de Elisinha articulando e cuspindo mil e uma palavras.  Sem conseguir me livrar de Elisinha da forma tradicional, simplesmente virei para o lado e saí correndo, como uma maluca,  com a Lei de Murphy e a Teoria do tempo atrás de mim, dando gargalhadas às minhas custas. Acho que a Teoria do caos também estava junta, pelo menos tive a impressão. Conclusão: Cheguei no escritório já no fim do expediente. 

E assim são os meus dias.  Uma corrida contra o tempo na qual sou sempre vencida. Hoje, por exemplo, por causa dos atrasos de ontem, já sei de antemão que estarei atrasada o próximo mês inteiro. Quiçá o próximo verão. Parece, de fato, que o dia encolheu. Estamos vivendo sob a égide dos dias anãos, das horas nanicas, dos segundos pigmeus… De quem é mesmo a teoria do tempo que passa mais rápido? A propósito, se tudo der certo, e eu colocar meus compromissos em dia, acho que de acordo com os atrasos acumulados – chegarei em ponto no trabalho, daqui a dois meses novamente.

Tema: TEMPO

8 comentários em “Das atribulações da vida moderna”

ezio de oliveira rocha

O tempo não para nunca e se parar nós é que paramos juntos…

Alexandre de Roure

Quase não tive tempo de ler o seu texto inteiro… rsrsrs…
Claro que eu atrasei o meu trabalho por conta disso, mas daqui a uns meses eu estarei em dia… rsrsrs…
Ótimo texto Carla !

Alessandra Gelio

É… resolver pepinos burocráticos de matrícula, assistir aula, andar até o metrô, ser esmagado no metrô, andar cinco quadras até o médico, negar panfletos (enquanto corre aquela meia – meia nada, mega – maratona dos fumantes fudidos), esperar aqueles 15 minutos no consultório que vão fazer uma diferença drástica nos seus planos milimetricamente arquitetados, entrar no médico, esperar ela atender o telefonema e pior, manter uma conversação com a paciente, a mãe, o filho e outra paciente (Tá ocupando meu tempo com seus problemas pessoais? Comproblemas de outros pacientes? Que mão de vaca, porque ela não paga uma secretária? Ah! Lembrei… É do plano…), pegar o elevador, apertar cinco vezes o botão do térreo só pra dar a sensaão de que ele vai descer mais rápido – dane-se que você sabe que ele não vai descer mais rápido, pelo menos enquanto aperta você está distraindo o tempo. Térreo. Sai caminhando, andando rápido, tábom, trotando. Sai trotando da galeria. Parar, ou não parar? eis a questão? Você merece aquele café que está querendo tomar desde foi esmagado no metrô? Pára. Comprar um café pra viagem, pegar o ônibus e beber o café enquanto atende a amiga que já te ligou duas vezes mas você estava com as três mãos (desculpe, eu disse três? ato falho) ocupadas, pegar o filho na casa dos avós, trazer o menino e aquela mochila de rodinhas lerdas e teimosas que ficam virando e quicando na calçada, explicar pra ele porque ele não deve ficar chateado porque esqueceu o álbum do Brasileirão na casa da avó (ele não vai morrer se colar as figurinhas amanhã!- trincando os dentes), deixá-lo em casa, ir ensaiar, voltar pra casa, colocar o filho pra dormir e cumprir aquele compromisso de ir dançar com a amiga? Dançar com a amiga? Dançar?Já rebolou o dia todo pra driblar o famigerado tempo! “Alo, oi amiga… Semana que vem, pode ser? Vou ter mais tempo.” – A esperança é a última que morre, custe o tempo que custar…

Carla, o fato é que me identifiquei e ponto.

Adorei seu texto porque senti a pressa correr dentro de mim. E fui correndo apressada porque ele tava me conduzindo em alta velocidade a algum lugar.MAs cada lugar dele, era habitado. Nada passou batido, mesmo na pressa. Acho que é isso aí, né?
Bem bom.

Fernanda Faour

Ganhei um tempinho lendo seu texto aqui, com atenção. Bom é que podemos mexer em nossos conceitos. E assim abrir mão de coisas que são apenas consideradas fundamentais optando por outras que transformam perda em ganho. Bjs e +sucesso!

jerline

como sempre ótimo texto!

Felipe Barenco

Que texto delicioso, Carlinha! Eu fico pensando que a correria do dia é tanta, que agora é inevitavel sentir-se culpado quando paramos 5 minutos para não fazer absolutamente nada.

Carla Faour

Pessoal, ADOREI todos os comentários. Obrigada por vocês terem achado um “tempinho” pra ler o texto, nessa correria que é a vida!

Clara Carvalho

Muito bom texto! É assim mesmo que acontece.

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