O sofá
Sofá – Um dia, eu estava tão deprimida, mas tão deprimida, que me transformei num sofá. No começo, fiquei orgulhosa da minha condição de sofá. Um objeto sólido e durável. Eu pensava: um sofá não tem com o que se preocupar. Não tem contas a pagar. Não precisa votar para presidente. Não precisa ser bem sucedido, ter um bom emprego. Fica no seu canto sem incomodar ninguém. Doce ilusão. Fui parar justamente no pior lugar possível para um sofá. Eu sou um sofá de sala de espera de um consultório de dentista. Isso é muito desagradável. (irônica) Mas não sou um sofá qualquer. Eu sou um senhor sofá. Um sofá robusto, velho, usado, sujo, remendado, de braços largos e acentos gastos, verdadeiras almofadas movediças que sugam todos que ousam ocupar um dos meus três lugares. Sim, eu sou um sofá de três lugares. Verde musgo. Com farelos de biscoito maizena, grampos de cabelo, papéis de balas e canetas BIC nas minhas entranhas. Não existe nada mais deprimente do que ser um sofá de sala de espera de um consultório de dentista. Uma sala minúscula com uma decoração fossilizada desde 1977, ano de sua inauguração. Carpete cinza, papel de parede amarelo encardido, flores de plástico, uma TV, um abajur na mesinha lateral e um ‘balde’ de revistas antigas onde se destacam edições comemorativas da inauguração de Brasília, da chegada do homem na Lua e do casamento do Príncipe Charles e da Princesa Diana. Não existe nada mais deprimente do que ser um sofá de sala de espera de um consultório de dentista. Os pacientes chegam por volta de nove horas da manhã despejando seus fluídos e odores no meu tecido poroso. Lembro de um homem pálido que transpirava de pavor. Sentava-se encolhido. Eu ficava ensopada de suor. Um suor azedo e repugnante. Lembro de uma senhora gorda. Devia pesar cem quilos, uma tonelada! Fez um tratamento de canal que durou meses. Como foi terrível sustentar aquele peso no meu colo. Todos os dias. Crianças mal educadas pulam nas minhas costas. Como vingança, desejo do fundo de minha alma, uma vida longa para esses pestinhas, cheia de cáries e muito sofrimento. Aqui, neste lugar, onde a força gravitacional parece ser mais intensa, passo todos os meus dias, tardes, noites inteiras, semanas, fins de semana, sábados e domingos, feriados, meses, anos. Passo toda a minha vida. Olhando para o teto. Vagando por pensamentos inúteis. Vendo televisão. Acompanhando os acontecimentos do Brasil e do Mundo. Todos repetitivos e previsíveis. Como as novelas. O Natal. O Réveillon. Depois o carnaval, a semana santa, dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, eleições, Copa do Mundo… E a festa não tem hora para acabar! Vez em quando acontece algum crime para quebrar a rotina. Um casal joga uma filha pela janela. Um terremoto mata milhares de pessoas em algum ponto insignificante do planeta. Um político corrupto coloca dinheiro na cueca. Mas crimes e tragédias são cada vez mais freqüentes e as pessoas vão ficando cada vez mais anestesiadas. Todas deitadas nos seus respectivos sofás. Imagino um dia em que ninguém conseguirá levantar do sofá. O mundo vai parar porque toda a população da Terra estará deitada nos milhões de sofás espalhados pelos cinco continentes. E todos assistirão reprises em suas respectivas televisões. Retrospectivas de fim de ano. Retrospectivas do fim do mundo…
Trecho da peça ‘Epheitos Kolaterais (Novas Metamorfoses)’
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