20/08/2010 ! Rodrigo de Roure

Que canção sou eu

- Entra…

eu entrei.

- Tá tudo bem com você?

eu disse tudo. Que tudo estava bem.

- Eu estou completamente tonto.

eu também estava. mas tonta que pião.

- Acho que preciso de um banho.

e eu tonta por ele. na verdade suja. suja.

- Então vou tomar um banho. Álcool saindo pelos poros.

eu ia tomar banho com ele. mas não fui. preferi ficar suja.

- Você pode ficar à vontade, viu. Liga o som. Abre a janela.

ligar o som nem pensar. queria é ouvir o silêncio dele. com som vai ser fácil ele conseguir o que quer. ele voltou. deve ter esquecido a toalha. tenho certeza.

- Olha, fica aqui comigo no banheiro enquanto eu tomo banho. Você se incomoda?

ah, que abusado. pensa que eu sou o quê? de ferro? aço? nunca gostei de ver ninguém sem roupa antes de pelo menos beijar. acho a nudez sem força se não é pra chegar perto.

- Bem, então tudo bem. É rapidinho.

liguei o som.

“escute essa canção que é pra tocar no rádio ao lado do seu coração…”

desliguei o som.

não quero canções. não quero que elas ilustrem o meu destino. [que espécie de mulher sou eu? que canção sou eu? estou assustada]

- Que canção é essa que está tocando?

grita perguntando e bate a porta. quem grita e bate portas é gente sensível por demais. ele tem cara de perfeito. complicado e perfeitinho.

- AH!

saiu do banheiro e entrou no quarto. deve ter esquecido a cueca. bateu a porta do quarto. ele bate portas demais. quem bate portas assim costuma ter o coração quente. deixou o chuveiro ligado. a água não para de cair. abri a janela. ele voltou ao banheiro. assobiou.

- “Diga… se te deixei faltar amor…”

conheço essa canção que ele está assobiando. melhor eu ficar nua. vou fechar a janela. prédios muito colados. não quero ser sirigaita quente pro vizinho.

- Olha, até que a festinha foi boa, você curtiu?

curti a festa. mas curti muito mais porque finalmente ele foi. tanto que eu fiz pra esse homem aparecer na minha frente. nunca nos esbarrávamos. era quase essa coisa chamada destino que impedia. mas eu havia pré-destinado tudo. porque quem manda em mim sou eu. euzinha. eu sou uma pré-destinada. a que? vai vendo.

- Há quanto tempo nos conhecemos, não é? E nunca chegamos tão perto assim.

viu?

então ele fez o que queria. e eu também. complicado e perfeitinho. mas por enquanto era só perfeitinho. paramos.

- Quer mais uma cerveja?

parar de transar pra beber é coisa de gente insegura? eu perguntei isso a minha mãe. ela disse que não necessariamente. mas é mais inseguro quem aceita parar de transar pra beber à convite do outro. foi o que me disse a velha. ela estava certa. bebemos mais umas. retomamos. foi fácil. não foi difícil, não. não éramos bobos.

- Deixa eu te ver…

deixei. mandei ele me penetrar com urgência. antes que eu arrancasse a cabeça dele [eu sempre arranco a cabeça do homem que não me entende. ou mesmo se me entende. ou do homem que demora. bem, o fato é que eu sempre arranco a cabeça deles.]

- Olha…a gente não precisa ter pressa…

que mal há em ter pressa? mal é não sucumbir ao destino.

- Acabou a cerveja. Tenho um vinho. Quer?

eu não quis. quando a gente não aceita o que nos oferecem nesses momentos, não há mais volta. perguntei a minha mãe depois se ela achava normal alguém oferecer vinho, já que não tinha mais cerveja, antes de ultrapassar o horizonte da pequena morte.

- Eu vou beber um bocado desse vinho.

a memória que aquela garrafa de vinho carregava era enorme. eu já estava me apegando à garrafa daquele vinho. pensei em colocar as botas novamente. ficar de botas. nua e de botas. uma égua. ele me fez sentir uma égua. recomeçamos. modéstia a parte, eu trabalho bem no baixo ventre deles. [antes que eu arranque de vez suas cabeças]. até que o vinho não era de todo mal. mandei ele entrar de uma vez em mim.

- acho que estamos bêbados.

ele estava. homens que ficam bêbados e não conseguem nada é melhor que nunca bebam. eles não entendem isso. e já era hora d’eu ir trotando.

- Você é muito perfeita. Estou deslumbrado.

e eu alambrada. calcinada, calcei minhas botas e vesti minhas roupas. sim, roupas. eu uso muitas. ele vestiu as calças.

se me arrependi? me ressequei inteira.

fim.

Tema: ARREPENDIMENTO

2 comentários em “Que canção sou eu”

Alexandre de Roure

kkkkkkk… Muito F… adorei !!!
Bjão,

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