Convida César Amorim
OH… DORES!
Marina, 30 anos, muito bonita, vestida de noiva, sofre sentada na privada. Faz força e geme de dor de barriga. Rodrigo, 35 anos, também bonito, um pouco gordo, ainda com o terno do casamento, entra sem bater.
MARINA – Sai! Sai, Rodrigo!
RODRIGO – Vim ver se você tava bem. Já faz mais de uma hora.
MARINA – Eu estou usando o banheiro, não tá vendo?
RODRIGO – Não só vendo, como sentindo! Que lindo!
MARINA – Deixa de ser nojento. Sai daqui!
RODRIGO – Que noite de núpcias, hein!
MARINA – Culpa sua! Eu falei pra encomendarmos os salgados naquele Buffet chiquérrimo, mas não, você quis a sua prima Vivinha. “É mais barato”, você disse. Tá vendo a merda que deu? Ai!!
RODRIGO – Os salgadinhos da prima Vivinha estavam ótimos. Eu estou ótimo.
MARINA – Depois falamos sobre isso.
Ela solta um peido.
MARINA – Meu Deus, que vergonha. Ninguém nunca me viu assim. Por favor, sai daqui!
RODRIGO – Nem teu pai nem tua mãe?
MARINA – Ninguém!
RODRIGO – Que bobagem, Marina. Somos marido e mulher agora. Tá mais do que na hora de compartilharmos nossos odores.
MARINA – Não quero compartilhar nada! SAI!
RODRIGO – Eu não tenho nojo de você. Isso é lindo! O cheiro aqui tá tenebroso, mas eu te amo mesmo assim. Tá vendo? Não me atinge. Tou te conhecendo mais.
MARINA – (com muita dor) Não…é…o…momento… Por favor. Não tenho forças pra te botar pra fora, então, eu te imploro, me deixa em paz.
RODRIGO – Quer um antiácido?
MARINA – Meu problema não é estômago. É intestino!!
RODRIGO – Pois pra mim sempre funciona. Tomo um antiácido e já melhoro.
MARINA – Rodrigo, meu amor, não me faça te odiar mais do que já tou te odiando. Por tudo o que é mais sagrado, tenha pena de mim e me deixe em paz. Não dá pra me concentrar na dor e em você ao mesmo tempo.
RODRIGO – Não seja ingrata. Eu só queria te dar um apoio. Só queria te dizer que mesmo você desse jeito aí, exalando esse cheiro fétido, eu te amo mais do que tudo na minha vida. Eu nunca tive coragem de ver minhas outras namoradas defecando, mas com você é diferente. Se tinha alguma dúvida que te amava, agora não tenho mais.
MARINA – Você tinha dúvidas se me amava? Precisou me ver cagando pra ter certeza?
RODRIGO – Sabe o que é, sempre tive medo desse momento. Eu evitada isso. Fugia como o diabo da cruz. Mulher minha, pra mim, não fazia essas coisas aí. Claro que eu sabia que fazia, porra, mas falava pra mim que não. E tentava me convencer que, se ela fazia, era um cocô perfumado, com cheiro de flores do campo.
MARINA – Ai, Rodrigo, minha vida, meu amor, meu tudo, me deixa só um minutinho. Eu não exalo flores do campo quando defeco.
RODRIGO – Eu sei e, apesar disso, te amo.
MARINA – Meu Deus, definitivamente, você não é normal. Ok, já vi que me ama. Nossa, que legal. Agora sai só um pouquinho. Já tou acabando.
Rodrigo se ajoelha, emocionado.
RODRIGO – Marina, eu reforço aqui, agora, o juramento que fiz há pouco na igreja. Vou te amar pra sempre. Você me fez um homem normal. Antes eu não era. Idealizava. Agora não. Estou com uma mulher real, de carne e osso e que faz cocô lindamente. E eu não tenho nojo. Essa sua carinha de quem tá fazendo uma força terrível me deixa ainda mais apaixonado. Acho que vou fazer questão de te ver sempre assim. Por favor, quando quiser vir ao banheiro de novo, me chama? Mas saio antes de você se limpar, tá? Isso, realmente, ainda não superei. Te amo.
Ele a abraça. Ela grita.
MARINA – Não aperta a minha barriga, seu doente!
Barulho de diarréia.
MARINA – Viu o que você fez? Viu o que você fez?
RODRIGO – (com ânsia de vômito) Minha virgem, que cheiro é esse? Eu preciso… Gente do céu… Essa foi demais. Superou tudo. Meu amor, eu ainda te amo, mas preciso…
Ele corre para a pia e vomita. Marina chora.
MARINA – Sai do banheiro. Sai desse apartamento! Sai da minha vida!!
RODRIGO – Só um minuto, minha linda… Deixa eu…
Ele vomita de novo na pia.
MARINA – Não dá mais! Não pode haver relação assim. Você invadiu o meu espaço. Invadiu e se apossou dele. Eu tenho a minha redoma. A minha proteção. Daqui ninguém passa. Aqui, ó, ao meu redor, assim, nesse espaço, com meus braços abertos, ninguém invade. Nem você, seu pervertido! Os meus odores são meus! Meus! Não há amor que resista a isso. É o fim, Rodrigo! O fim!
RODRIGO – Está bem, vamos conversar quando você acabar. Eu já vi e senti o bastante. E continuo te amando. Pra mim é o suficiente. Te espero lá fora. Você se limpa sozinha, não quero ver isso, tá? Isso não.
MARINA – Ah, é? Perfeito. Você não vai sair daqui assim. Eu vou me limpar na sua frente. Não queria saber de tudo? Ver tudo? Então, se é pra chutar o pau da barraca, que seja de uma vez.
RODRIGO – Não, se limpar na minha frente não! Isso eu não admito. Te espero lá fora.
Marina se levanta e fica na frente da porta, impedindo a passagem dele.
MARINA – Daqui você não sai! Não me ama? Agora vai ter que aguentar.
RODRIGO – Isso eu não posso. É a minha redoma. Não sou obrigado a ver isso. Me deixa sair. Tá bom, eu não quero te ver assim de novo. Mas me deixa sair, por favor.
Marina pega o papel higiênico bem devagar, olhando sadicamente para Rodrigo.
MARINA – Eu quero sua prova de amor. Agora quem quer sou eu.
Marina levanta a saia do vestido de noiva. Rodrigo faz cara de nojo. Ela leva o papel higiênico até a bunda. Tudo muito devagar. Rodrigo faz cara de choro. Marina começa a se limpar.
RODRIGO – Ok, você venceu! É o fim! Peço o divórcio amanhã mesmo! Tá vendo a merda que fez? Você matou o meu amor!
FIM
CÉSAR AMORIM é dramaturgo, ator e diretor teatral, natural de Natal/RN. Escreveu, dentre outros, os seguintes espetáculos: Não Matei, Mas Sei Quem Fui; Dois pra lá, Dois pra cá; Pequenas Histórias do Mundo; Imprevisível, eu?; As Fúrias. Em 2010, juntamente com outros nove autores, escreveu o livro Cena Impressa – Teatro à La Carte;. participou da Oficina de Teledramaturgia da Rede Globo de Televisão; e faz parte do projeto Clube da Cena, como autor.
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo