Estranha Obsessão – capítulo 03
CAPÍTULO 3
A meteorologia tinha previsto temporal para o final da tarde. Fazia um calor insuportável. Daqueles de sair fumaça do asfalto. Nenhuma brisa. Livia se abanava dentro do taxi parado no engarrafamento, embora a temperatura no interior do veículo atingisse um grau siberiano. O taxista se vangloriava do clima europeu: “Tenho o melhor ar condicionado de todo o Rio de Janeiro, Dona”. Tinham chegado de viagem. Ela e Marcelo. Ele pediu três dias para resolver as coisas. Foi para Botafogo. Queria preparar o terreno. Dar a notícia com calma. Para não haver escândalo. Livia concordou, claro meu amor. Mas em seu íntimo já tinha decidido: antes do terceiro faria uma visita surpresa na Rua das Palmeiras. Pegaria Marina desprevenida. Indefesa. Por isso estava ansiosa. Queria chegar logo. Antes que desabasse o temporal. Antes de Marcelo voltar do trabalho. Resolveria de uma vez por todas o assunto entre elas. Mas um acidente na São Clemente parou o trânsito. E assim parada, olhando o sol escaldante do lado de fora, lembrou-se da última vez em que se viram. O tempo também estava de ovo virado. Há dezoito anos chovia torrencialmente. Um dilúvio no Rio. Marina de branco. Marcelo na Igreja. Lívia desnorteada.
CENA 1 – 18 ANOS ANTES. CASA DE MARINA. QUARTO. INT. NOITE.
LÍVIA ABRE A PORTA DO QUARTO ONDE MARINA ESTÁ SE ARRUMANDO.
MARINA – Você?
LIVIA – Surpresa!
MARINA – O quê você veio fazer aqui?
LIVIA – Eu sabia!
MARINA – Como conseguiu entrar?
LIVIA – Sabia que seu vestido de noiva ia ser pavoroso! Nunca vi um vestido mais cafona!
MARINA – Não seja ridícula! Cadê todo mundo?
LIVIA – Já foram pra Igreja.
MARINA- E meu avô? Eu tenho que ir.
LIVIA – Vovô Joel está na sala. Me confundiu com a “dama de honra”! Tem certeza de que ele é que vai te levar até o altar?
MARINA – Adoraria ficar de papo com você, mas eu estou atrasada! Se você não sabe eu vou me casar.
LIVIA – Você não vai a lugar nenhum!
MARINA – Você não vai me impedir!
Livia espumava rancor. O ódio inchou a glote, estreitando o ar, sufocando o perdão. Nenhuma possibilidade de armistício entre as duas. A guerra estava declarada. Armas em punho. Unhas em riste. Livia partiu para cima do vestido de noiva de Marina. Se embolaram no chão feito duas gatas. Primeiro round da batalha. Muitos arranhões. Tecido branco rasgado. Ferido um coração.
MARINA – Sua louca! Olha o que você fez? Meu vestido!
LIVIA – Bem feito!
MARINA – Socorro! Alguém me ajude!
LIVIA – Pode gritar o quanto quiser. Pelo o que eu sei, Vovô Joel é praticamente surdo.
MARINA – Louca! O que você quer, fala!
LIVIA – Você sabe: Ele! Eu quero ele! O Marcelo é meu!
MARINA – Era! Você ainda não se conformou. Meu Deus! Você tem que aceitar! Não tenho culpa se ele preferiu a mim…
LIVIA – Ele não preferiu, você que se ofereceu!
MARINA – Quem ama se oferece!
LIVIA – Cínica! Foi naquela noite! Você me traiu naquela noite que eu caí de cama com rubéola. Antes de ir para o hospital eu pedi: Marina, me faz um favor. Liga para o Marcelo e diz que eu não vou poder ir ao encontro. E o que você fez? Em vez de você ligar, você é que foi! Se encontrar com ele! No meu lugar!
MARINA – Eu fui à luta. Só isso!
LIVIA – Você me enganou. Você era minha confidente. Minha melhor amiga. Mas na verdade o que você queria o tempo todo era roubar ele de mim!
MARINA – Eu não roubei ninguém. Sabe por quê? Porque ele nunca foi seu. Nunca!
LIVIA – Judas! Traidora!
MARINA – Depois daquela noite ele que passou a me procurar. Marcelo saia com você pra ir ao cinema, pra tomar sorvete… Depois te deixava em casa, com a desculpa de que tinha que acordar cedo, e ia correndo ao meu encontro! Feito um cachorrinho abanando o rabo.
LIVIA – Você o enfeitiçou!
MARINA – O Marcelo flertava comigo e você nem percebia. Me dizia gracinhas. Dizia o quanto eu era bonita, gostosa…
LIVIA – Mentira!
As palavras de Marina eram como lanças estocando a carne fragilizada da outra. Livia não aguentou a humilhação e partiu pra cima da rival. As duas no chão de novo. Segundo round. Rasgos. Gritos. Ofensas. Feridas mais profundas. Livia por cima de Marina. Marina presa entre suas pernas. Livia, enlouquecida , rasga o que sobrou do vestido branco.
MARINA – Você pode rasgar tudo se quiser, pouco me importa! Aposto que ele casa comigo de qualquer jeito! Até nua se for o caso! Aliás, acho até que ele vai preferir. Nua!
LIVIA – Piranha! Todo mundo sabe por que ele está se casando com você!
MARINA – Amor! Ele me ama.
LIVIA – Grávida! Sua… grávida! Todo mundo sabe que você engravidou pra forçar o casamento.
Marina, num ato desesperado, morde o braço de Livia conseguindo desvencilhar-se da outra. Livia ao tentar segurá-la pela calda do vestido acaba ficando com um pedaço de tecido nas mãos. Já na porta, em frangalhos, Marina se vira e diz sorrindo:
MARINA – Admita, Livia. Você perdeu. Perdeu! Nós estamos felizes. Vamos ter um filho. Ele me ama! O Marcelo é meu! Só meu!
Livia, estirada no chão, chora copiosamente vendo Marina afastar-se vitoriosa.
18 anos depois .
E aquelas frases ficaram reverberando durante dezoito anos no fundo da alma de Livia. O trânsito andou. O taxi virou na Rua das Palmeiras. Parou na altura de um prédio de azulejos. Ela pagou o que devia e ainda deixou o troco de gorjeta. Estava generosa naquela tarde. Saltou do carro quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Olhou para o céu. Olhou para a janela do 8º andar. A luz estava acesa. Podia ver o vulto de Marina atrás da cortina. Era chegada a hora. Abriu a bolsa e pegou um pedaço de pano branco amarelado pelo tempo. Apertou-o de encontro ao peito e entrou no prédio.
FIM DO 3º CAPÍTULO.
ATÉ QUINTA!
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