Estranha Obsessão – capítulo 14
Para escutar a trilha sonora:
CENA 1 – APART LEO. SALA. INT. DIA.
Livia se segura na estante como se o chão lhe faltasse, como se a venda que lhe cobria os olhos, fosse arrancada, bruscamente. Sim, já estivera naquele apartamento, um ano antes. Quando fora visitar Marina e lhe anunciar, perversa, a reconquista de Marcelo. Como não reconheceu o lugar? É verdade que a falta de um mínimo senso estético, não marcava em nada o ambiente. Além disso, a madrugada, o álcool, o rímel preto, a separação na véspera, a proximidade de um corpo jovem, e a simples vontade de não enxergar, confundiram a percepção de Lívia. Olhou em volta. Quanta tristeza. Que ironia. Sentia-se tão superior à rival. Mais bonita, mais inteligente, mais interessante, mais magra, bem mais. Por que estava, mais uma vez, em desvantagem? Será que sua sina era correr eternamente? Tentar alcançar o desejo? Se comparar até o final dos dias? Subtrair, pesar, parecer. Anos, quilos, sucesso. Já estava na idade em que as mulheres esticam a pele, encurtam roupas, pintam cabelo. Com quem competia? Quem deveria vencer? Onde era a linha de chegada? O que queria provar? Estava cansada. Definitivamente, Marina, nunca teve gosto para decoração.
LEO – Você tá bem? Quer um copo d’água, alguma coisa?
LIVIA – Leo. Leo de Leonardo. Nome bonito.
LEO – Como você adivinhou que meu nome é Leonardo?
LIVIA – Tão óbvio. Estava na minha cara o tempo todo.
LEO – Não acho óbvio. Podia ser “Leo” de Leandro, de Leopoldo…
LIVIA – Você tem jeito de Leonardo.
LEO – Minha mãe que escolheu esse nome.
LIVIA – Você disse que seus pais estão namorando?
LEO – Às escondidas. Acredita?
LIVIA – Acredito.
LEO – Meu pai se envolveu com uma mulher aí. Isso já tem mais de um ano. Foi logo depois que ele foi me visitar, em Londres. De lá ele foi pra Lisboa, foi em Lisboa tudo aconteceu, ele deu uma pirada. Quando voltou ao Brasil já foi direto morar com a outra. Mas nesse tempo todo ele nunca deixou de procurar minha mãe. Eles começaram a se encontrar, às escondidas. Toda semana. Minha mãe é amante do meu pai. Não é engraçado? Acho estranho. Pra falar a verdade eu não entendo ele.
LIVIA – Nem eu…
LEO – Como?
LIVIA – Nada, falei sozinha. Adoro Lisboa.
LEO – Por que ele não resolve logo com qual das duas ele quer ficar?
LIVIA – Escolher é uma das coisas mais difíceis da vida.
LEO – Eu acho um privilégio. Poder escolher.
LIVIA – Tem gente não tem esse talento. Passa a vida inteira sem fazer uma escolha. Deixa que os outros decidam. Você sabe quem foi Pôncio Pilatos?
LEO – Não foi aquele que lavou as mãos? Eu estudei em colégio católico.
LIVIA – Esse mesmo.
LEO – Você tá dizendo que meu pai?
LIVIA – É uma situação cômoda, não acha?
LEO – Só sei que minha mãe tá sofrendo muito.
LIVIA – E a outra?
LEO – O que é que tem?
LIVIA – Também deve sofrer.
LEO – Quero mais é que ela se dane! Ela sabia que meu pai era casado e mesmo assim.
LIVIA – Acho que eu vou aceitar o copo d’água.
LEO VAI PEGAR ÁGUA PARA LÍVIA.
LEO – Não pensou nas conseqüências. Não pensou que estava terminando com um casamento de 18 anos. Foi egoísta.
LIVIA – (LIVIA BEBE ÁGUA) Esse discurso moralista não combina com você, Leo. Tão jovem. Tão esperto… Obrigada.
LEO – Pra mim ela sabe dos dois e tá se fazendo de morta. Não é possível que ela não desconfie de nada, a não ser que ela seja idiota.
LIVIA – Felizes dos idiotas que não sofrem.
LEO – Minha mãe não tem nada de idiota, e está sofrendo. Quer dizer, estava.
LIVIA – Não está mais?
LEO – Eu dei uma forcinha pra ela.
LIVIA – O que foi que você fez?
LEO – Promete que fica entre a gente?
LIVIA – Segredo nosso.
LEO – Eu mandei uma carta. Anônima.
LIVIA – Que idéia estúpida.
LEO – Estúpida? Pois eu tirei de um livro que você escreveu. Fiz igualzinho. Escrevi uma carta anônima pra tal mulher. Na carta, contei tudo o que estava acontecendo entre meu pai e minha mãe, pra ver se ela se tocava.
LIVIA – Pra ver se ela mesma terminava com seu pai e deixava o caminho livre pra sua mãe…
LEO – Parece que deu certo.
LIVIA – Parece que sim.
LEO – Pelo menos minha mãe dormiu fora, essa noite.
LIVIA – “A vingança de uma mulher”. Meu segundo livro. Já está na terceira edição.
LEO – Adoro como você escreve.
LIVIA – Só bobagens. Você não devia levar a sério.
LEO – Você tá pálida. Fica ainda mais bonita. Pálida.
LIVIA – Leo, eu podia ser sua mãe.
LEO – Ainda bem que você não é.
LIVIA – Ainda bem.
LEO – Mãe bonita dá um trabalho.
LIVIA – Eu preciso ir.
LEO – Você tá estranha. Aconteceu alguma coisa?
LIVIA – Sempre. A vida não para de acontecer. A vida não tira férias… Não dá sossego. Tá sempre arquitetando uma forma de surpreender a gente.
LEO – Então eu vou te surpreender: Eu estou apaixonado por você.
LIVIA – Não fala assim.
LEO – Você é que manda: Eu estou… louco por você. Melhorou?
LIVIA – Você é bem melhor do que eu imaginava.
E Livia saiu atormentada deixando Leo com aquele sorriso besta que toma conta do rosto da gente, quando a paixão acontece. A primeira paixão da vida do rapaz, a que a gente nunca esquece, carrega pra sempre, o primeiro amor.
CENA 2. APART DE ARTHUR. INT. NOITE.
LIVIA TOCA A CAMPAINHA . ARTHUR ACORDA SOBRESSALTADO.
LIVIA – Não fale nada. Apenas me abrace e me deixe ficar aqui um pouco.
ARTHUR – Por onde você andou? Te procurei feito um louco.
LIVIA – Eu estava onde não devia estar, Arthur. Eu sinto que vou fazer uma coisa da qual eu vou me arrepender. Mas mesmo sabendo que eu não devo fazer, eu sinto que vou acabar fazendo. Entende?
ARTHUR – Acho que nós dois precisamos de um copo. Uísque ou vodka?
FIM DO CAPÍTULO.
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