A lembrança
Outro: De quê?
Um: Me esqueci.
Outro: Sim, mas de quê?
Um: Justamente. Eu me esqueci do que eu esqueci, entendeu?
Outro: Não.
Um: Eu me esqueci de alguma coisa. Então resolvi te falar. Só que na hora de verbalizar eu me esqueci o que eu tinha esquecido.
Outro: Esquecimento do esquecimento.
Um: Pois é.
Outro: Inveja dos elefantes.
Um: Eu não. Eles têm a pele muito seca.
Outro: Mas não esquecem.
Um: Não esquecem?
Outro: Nunca. A memória do elefante é uma coisa impressionante.
Um: Por que será, hein?
Outro: Tem a ver com o peso.
Um: O peso?
Outro: O peso. Elefantes são animais pesados. Contato com a terra. Pé no chão. Memória forte.
Um: Faz sentido.
Outro: Quanto mais aéreo é o animal, menos memória ele tem.
Um: Coitada da águia.
Outro: E do falcão?
Um: Nem se fala.
(pausa)
Outro: Por que será que a gente não se esquece de respirar.
Um: Mas esquece. Uma tia minha já se esqueceu
Outro: De respirar?
Um: É. Ela era magra. Muito magra. Um dia ela se esqueceu de respirar.
Outro: Por quanto tempo?
Um: Um bom tempo.
Outro: E o que aconteceu com ela?
Um: Ela morreu.
Outro: Que coisa. Morte por esquecimento é uma coisa muito triste.
Um: Vive acontecendo na minha família.
Outro: É mesmo?
Um: Bastante. Já tive um primo que morreu por que se esqueceu de como andar.
Outro: Morreu sozinho em casa?
Um: Não. Atropelado por uma kombi bordeaux na Voluntários da Pátria. Estava atravessando a rua e se esqueceu de como andar.
Outro: Como é que você sabe?
Um: O quê?
Outro: Que ele se esqueceu de como andar.
Um: Ele me disse.
Outro: Você estava com ele?
Um: Do lado.
Outro: E ele falou assim? Do nada? “Me esqueci de como se anda”?
Um: Exatamente.
Outro: Que coisa.
Um: Agora pior que isso só mesmo o meu tio avô.
Outro: Morreu também?
Um: Não. Mas ele se esqueceu da palavra “eu”.
Outro: A palavra “eu”?
Um: É. Esqueceu completamente. Do significado e da própria palavra.
Outro: Como é que ele faz?
Um: Como é que ele faz o quê?
Outro: Pra viver!
Um: Ué. Normal. Mas ele nunca fala dele. Só dos outros.
Outro: Mas e se ele precisa falar alguma coisa que está acontecendo com ele.
Um: Tipo o quê?
Outro: Tipo uma dor que ele esteja sentindo.
Um: Ele não sente.
Outro: Não sente?
Um: Não. Como tudo o que ele diz só diz respeito ao outro, as coisas não acontecem mais com ele.
Outro: Que interessante.
Um: Nem tanto. Por que tudo passa acontecer com os outros.
Outro: Outros?
Um: Ele não diz, por exemplo, “eu estou com fome”. No lugar ele sempre fala “você está com fome”. E acaba que a pessoa para quem ele fala isso, acaba tendo fome mesmo.
Outro: Verdade?
Um: Total. Outro dia passei a tarde com ele e comi uns três pacotes de biscoito.
Outro: Por quê?
Um: Porque ele dizia que eu queria comer biscoitos.
Outro: E você queria?
Um: A partir do momento que ele falava sim.
Outro: Mas não faz sentido.
Um: Claro que faz. É que na verdade, é ele quem quer comer biscoitos. É um impulso genuíno.
Outro: Até aí tudo bem.
Um: Mas como ele se esqueceu da palavra “eu”, ele passa o tal impulso pra outra pessoa.
Outro: Esquecimento do eu… Esse deve realmente ser o pior de todos os esquecimentos.
Um: Tem seu lado bom. Ele faz sexo com as mulheres mais maravilhosas que eu já vi. E olha que ele já tem setenta anos.
Outro: Sua família é muito aérea, né?
Um: Muito. Você não faz idéia.
Outro: Por quê?
Um: Você é meu pai.
Outro: Como assim???
Um: É que você se esqueceu.
Frederico no avião
Primeira viagem de Frederico no avião. Ele já está sentado em seu assento. O avião está se preparando para decolar.
Frederico (pensando): Ainda bem que não me colocaram na janela. Só de pensar em olhar para o lado e ver o céu, eu tremo. Vai que eu vejo um pássaro e vai que ele me vê. A gente ia trocar olhares. Ia ser um pouco constrangedor… Eu ia me sentir muito antipático atrás desse vidro duplo, o pássaro ia achar que sou arrogante. Odeio gente arrogante, eles são muito… arrogantes. Não, não gostaria de fazer esse papel. Foi bom. Parece até que eles adivinharam. Eu realmente não queria sentar na janela. Vai que de repente um impulso suicida se instala em mim e eu fico louco pra me atirar. Se bem que eu acho bem improvável. Seria mais prudente eu tomar umas caixas de Lexotan, tem mais a ver comigo… Estou bem melhor aqui no corredor. Assim eu posso ter mais contato com as aeromoças, aliás, que gatas.
(Ele olha para trás e vê uma mulher bem gorda sentada atrás dele)
Frederico (pensando): Opa, essa mulher ainda não colocou o cinto de segurança. Se o avião frear, vai ser em cima de mim que ela vai cair. Eu não agüentarei o peso e morrerei esmagado. Ou pior: meus órgãos ficarão amassados, e eu viverei o resto da minha vida numa cadeira de rodas sem poder me mexer. Se bem que aviões não freiam. Oh, meu Deus! Então pra que eles pedem pra colocar o cinto de segurança, se esse transporte é um dos mais seguros do mundo? Mas se é um dos mais seguros, por que cai ou perde o controle? Preciso ir embora, vou levantar, vou levantar. Ah, não! Se eu não tivesse que estar em uma hora em São Paulo, eu saía daqui imediatamente. Que pena…
(Ele dá um sorrisinho para a mulher de trás e fala com ela)
Frederico- O cinto. É bom colocar o cinto.
Mulher de trás bem mal humorada- Não enche!
(Ele dá um sorrisinho constrangido)
Frederico- Desculpe.
(Volta pra frente. Olha para o seu lado e vê um cara barbado lendo jornal)
Frederico (pensando): Esse cara aí não me engana, não me engana. Ele é um deles. Vai explodir tudo isso aqui assim que decolarmos. Melhor esconder minha estrela de David. Se ele souber que sou simpatizante do judaísmo, é bem capaz de colocar veneno no meu suco sem que eu perceba. Se bem que pra quem vai explodir um avião, colocar veneno é um ato amador. Atingir um quando se pode atingir centenas é estupidez. Oh, meu Deus, ele está lendo notícias sobre o Talibã! Ei! Então ele é um Talibã. Preciso denunciá-lo! Eu não posso morrer desse jeito. Seu idiota, estúpido. Estamos no Brasil, não precisa explodir um avião só porque eu simpatizo com o judaísmo, não faz sentido, seu insensível, olha praquela criança ali, ela não tem culpa de nada, de nada!
(O cara barbado olha pra ele)
Frederico (pensando): Ele me viu, ele olhou nos meus olhos. É melhor eu fazer amizade para que ele tenha pena de cometer esse genocídio.
Frederico- Oi, tudo bem?
O cara barbado, sem querer começar uma conversa- Tudo.
Frederico- Notícias doidas, não?
O cara barbado, sem querer começar uma conversa- É.
Frederico fala-O quê você tá lendo?
(O cara barbado, sem querer começar uma conversa, mostra o jornal)
Frederico lê em voz alta-“Sistema Talibã avança em países da América Latina.” (Ri.) Esses caras são muito loucos, né?
(O cara barbado, sem querer começar uma conversa, dá um sorrisinho amarelo)
Frederico- Mas, olha. Sabe que eu gosto muito desses caras? (Ri)
(O cara barbado, sem querer começar uma conversa, faz uma cara de quem não entende)
Frederico- Eu odeio judeus, odeio. Deviam todos explodir. Não! Não! Não! Explodir não, né? Explodir não. Deviam matá-los em terra. É. Em terra.
(O cara barbado, sem querer começar uma conversa, muda a página do jornal e ignora Frederico completamente)
Frederico- Me ignorou, me ignorou. Acho que ainda dá tempo de ligar pra polícia. Onde eu coloquei meu celular? Puxa, deixei na mala que despachei. Se bem que assim é melhor. Não vai ser o meu celular que vai causar pane no sistema aéreo. Disso, ninguém poderá me acusar. Vou tentar outra coisa.
(Ele olha para o cara barbado)
Frederico- Boa leitura pra você.
O cara barbado, sem querer começar uma conversa -Obrigado. (sorri)
Frederico (pensando): Ele sorriu pra mim, é um bom sinal. Ninguém que quer explodir o avião sorriria para sua vítima mais próxima. Devo estar salvo por algum tempo, melhor ser bem simpático com esse cara.
(Frederico dá vários sorrisinhos para o cara barbado. De repente, ele vê um jovem ouvindo iPod)
Frederico (pensando): Oh, meu Deus, esse negócio no ouvido deve dar interferência no céu. Alguém tem que avisar aquele menino sobre isso, ele não pode colocar em risco a vida de centenas de pessoas por causa de umas musiquinhas dentro de uma caixinha tão pequena. Alguém precisa ver isso, alguém tem que ver isso! Moleque safado, fica cantando, não tá nem aí para os outros. Isso é o reflexo do individualismo contemporâneo. Um egoísmo coletivo. Cada um só pensa em si e chega. Anti-social, deve estar viajando na musiquinha que, pelo visto, é heavy metal, do jeito que ele se mexe. Eu não posso deixar. Vou salvar o avião da pane.
Frederico- Ei, garoto!
(O garoto do iPod não escuta)
Frederico- Jovem?
(Ele não escuta)
Frederico fala alto- Eiii!
(O garoto vira sem tirar o iPod do ouvido. Frederico faz vários gestos, como se estivesse falando numa linguagem de surdos-mudos inventada. O garoto olha, ri e fala)
Garoto do iPod- Aí, tu deve tá me confundido. (volta pra frente)
Frederico (pensando): Oh, meu Deus! Ele se fez de desentendido, e agora vou morrer por causa de uma caixinha de música. Enfermeira! Enfermeira! O que estou pensando? Essas moças não são enfermeiras. Se bem que poderiam ser… Tão bonitas e maquiadas, sorriem pra todos… Poderiam ser. Viriam até aqui, colocariam o copinho de suco na minha boca e depois veriam se eu babei pra poder limpar… Ah, como eu gosto disso…seria o mundo perfeito…
(As aeromoças começam a dar o aviso de decolagem)
Frederico (pensando): O que é isso? O que essas mulheres estão fazendo? Ninguém me avisou que ia ter teatrinho!
Aeromoça_ “Senhores passageiros, coloquem os cintos…
Frederico (pensando): Ahá! Agora a mulher gorda de trás não tem saída.
(Ele olha pra mulher de trás que já colocou os cintos)
Frederico fala pra ela com ar de vitória- Bem feito. (ri)
Aeromoça- “…O avião já vai decolar…”
Frederico (pensando) Já mesmo? Não podia esperar mais duas horinhas até eu pegar no sono?
Aeromoça- “…Em caso de problemas técnicos, temos duas saídas de emergência na parte dianteira, duas na parte traseira e uma à sua direita…”
Frederico (pensando): Como deve ser a traseira de um avião prostituto?
Aeromoça- “…No caso de falta de ar, máscaras de oxigênio cairão sobre vossas cabeças…”
Frederico (pensando): Cairão sobre vossas cabeças?
Aeromoça- “…Caso precisem de alguma coisa, basta chamar e nossos comissários de bordo lhes atenderão. Tenham uma boa viagem.”
Frederico (pensando): Oh, meu Deus! Quanta informação. Poderia repetir?
Aeromoça- “Ladies and gentlemen…”
Frederico (pensando): Em inglês não! Por que eu não terminei o IBEU? Onde é mesmo a parte dianteira? E a traseira? Desculpe pensar sacanagem, é mais forte do que eu, eu perdi essa parte. E esse garoto que não pára de ouvir música? E o talibã do meu lado? Ninguém vai fazer nada? Eu não quero morrer, eu não quero morrer!
(O avi
ão começa a taxiar)
Frederico (pensando): O que é isso? O avião tá se mexendo, tá se mexendo! Eu não quero voar, eu desisti , eu desisto. Parem o avião! Socorro! Enfermeira! Não, aeromoça! Me salve, me pegue no colo e me acaricie entre as pernas! O avião vai voar. Onde eu estava com a cabeça quando entrei aqui? Eu vou gritar, eu vou gritar!
Frederico chama a aeromoça- Oi, eu posso te pedir uma coisa?
Aeromoça- Pois não?
Frederico (pensando): Tira o meu cinto, me beija na boca, rasga minha roupa, me chupa todinho, me faz todo seu!
Frederico- Um copo d’água, por favor?
Aeromoça- Um momentinho, já vou pegar.
O avião decola. Frederico continua pensando, mas prefere ficar calado.
FIM
Turbina do amor
Interior do avião. Off sobre instruções durante o vôo. Comisárias de bordo fazendo a mímica clássica de intruções, mas sem muita emoção e com um certo constrangimento visto que já trabalham há um tempo na empresa.
Personagens principais:
Moça de primeira viagem: com o desejo comunicativo dos inseguros
Homem: obssessivo
Aeromoça: prestes a se entregar aos desvarios do amor
Homem (sentado na poltrona segurando um gravador): Ela fecha o cinto de segurança. Vai soltar a máscara ao ouvir: máscaras de ar cairão sobre sua cabeça… (aeromoça solta a máscara) Sórdida!
(Homem volta a sussurar coisas inaudíveis num gravador e olha para a aeromoça com olhos de ódio. Predador. Aeromoça continua fazendo a mímica das instruções e ao olhar para o homem fica visivelmente abalada. Ao terminar a mímica tenta manter a dignidade segurando as lágrimas e sai)
Moça de primeira viagem (para o homem): É a primeira vez que eu vôo de avião…
Homem: Vai dar tudo certo. (pausa) Me diz uma coisa, você enjoa?
Moça de primeira viagem (para o homem): O quê?
Homem: É a primeira vez que você viaja de avião é natural você ficar nervosa, você enjoa?
Moça de primeira viagem (para o homem): Não, não sei acho que não… Desculpe é minha primeira vez, estou muito confusa…
Homem: Tudo bem. Fiquei calma. Perguntei porque esse saco de vômito é meu. Eu coleciono sacos de vômito…
Moça de primeira viagem (para o homem): Você coleciona sacos de vômito?
Homem: Coleciono. Sacos de vômito são muito úteis! Você pode usar como porta documentos, guarda-volumes, embalagem para presente… É incrível! Só não vai no microondas, fora isso você pode fazer tudo com o saco de vômito, até vomitar dentro dele! (pausa) Se você for enjoar, chame agora a aeromoça e peça um para você.
(Moça de primeira viagem fica magoada e finge se distrair com a revista de bordo. Aeromoça surge no corredor servindo lanches)
Homem (sentado na poltrona segurando um gravador): Se ela oferecer o chocolate tem interesse sexual pelo senhor da primeira classe.
Aeromoça: Aceita um chocolate, senhor?
Homem (sentado na poltrona segurando um gravador): Interesse sexual.
Aeromoça: Aqui está um chocolate aerado, meu preferido.
Homem (para a moça): Desculpe mocinha, mas acho que vou estragar a sua primeira vez. (levanta fazendo um escândalo) Você prefere aerado? Dissimulada!
Aeromoça: Senhor, por favor volte para o seu lugar.
Homem: Foi você quem me tirou do eixo. Eu ainda guardo o seu bilhete infeliz: Seu amor é muito aéreo. Distraído demais. Adeus!!!
Aeromoça: Para de me perseguir. Volte para o seu lugar. (contendo o choro) Me deixe em paz!
Homem: Eu vou dizer o que todos precisam saber: Aéreo – do Latim aeriu. Adjetivo – formado de ar; que vive no ar; que se passa no ar; figurativo – ligeiro; vaporoso; fútil; distraído; sem fundamento. (Pausa. Com o desespero clássico dos amantes incuráveis) Sem fundamento para mim é viver sem o seu amor. (colocando a mão na porta de saída de emergência) Vou me atirar nas turbinas do avião. Preciso destroçar meu coração para ele parar de bater por você!
Aeromoça e Moça juntas: NÃO!
Moça de primeira viagem (para o homem): Você esqueceu seu saco de vômito.
(Homem pega o saco de vômito agradecido e se volta decidido para a porta de saída de emergência)
Aeromoça: Não! Não posso me enganar. Meu coração bate gritando o seu nome. Irei com você para as turbinas!
Aeromoça e homem beijam-se com furor.
Off do Piloto avisando que o avião vai pousar.
FIM
O menino aéreo
Aéreo era um menino que não conseguia ter foco em absolutamente nada. Um dia sua mãe, Dona Dispersilda, e seu pai, o doutor Distraildo, resolveram levá-lo a um médico amigo, especialista em crianças com seu tipo de distúrbio.
Na sala do Médico.
Médico – Vamos entrando, por favor!
Dona Dispersilda – Nossa! Mas que flores lindas vocês tem pelo corredor do prédio!
Distraildo – Que flores?
Aéreo – Que prédio?
Médico – Obrigado. Mas vamos ao que interessa. O que está acontecendo com esse menino bonito?
Dona Dispersilda – Ele é mesmo muito bonito, é a cara do seu tio avô. Mas faz uma coisinha com a testa que parece com a bisavó momentos antes de sua morte e…
Distraildo interrompe assustado.
Distraildo – A bisa morreu?
Aéreo – Que bisa?
Médico – Do que o menino sofre?
Dona Dispersilda – Ah, doutor! Cada um tem um sofrimento diferente, né? O meu irmão, por exemplo, tinha um olhar perdido. Quando eu digo olhar perdido, é perdido mesmo. Roubaram o olho esquerdo dele, num assalto, pensando que era uma esmeralda. Olhos verdes, sabe como é?
Distraildo – Você tem um irmão?
Aéreo – Eu vi Indiana Jones em Busca da Esmeralda!
Médico – Estou vendo que esse é um mal de família…
Dona Dispersilda – O mal de hoje é mesmo a violência, né? Imagine que estava passeando na Lagoa e uma bicicleta em alta velocidade, no caminho dos pedestres, quase me atropelou… e era o caminho dos pedestres… minha vontade era um dia andar no caminho das bicicletas e atropelas alguma…
Médico – Bem,vou dar um remedinho que vai ajudá-lo a não perder o foco.
Distraildo – Ajudar a quem?
Médico – Seu filho.
Distraildo – Bem que eu percebi que ele estava muito pálido, será anemia?
Médico – Acho que vocês poderiam tomar também. Cinco gotas do xarope Lembrecil e vamos acabar com o problema de vocês.
Distraildo – Que problema?
Aéreo – Eu fiz o meu dever de matemática, nem vem pai!
Dona Dispersilda – Problemas são sempre problemas! Olha a nossa família, por exemplo. Ontem mesmo o tio Esmorecil teve uma crise e ficou paralisado por horas seguidas, uma andorinha pousou na sua careca e quando ele voltou a si já havia um ninho por ali.
Médico – Então, tomando o remédio vamos resolver esse problema de família.
Distraildo – De qual família o senhor está falando?
Dona Dispersilda – O senhor está querendo dizer que minha família é um problema? Não entendi?
Distraildo – Amor, vamos embora que não tenho idéia do que esse senhor está dizendo…
Aéreo – Pai, eu já vi Indiana Jones?
Todos saem da sala do médico que permanece atônito. Saindo do prédio do consultório, Dona Dispesilda, diz ao marido.
Dona Dispersilda – Distraildo, precisamos urgente resolver o problema do Aéreo, ele está com notas muito baixas. O boletim todo vermelho.
Distraildo – Mas por que você não me disse nada?
Dona Dispersilda – bem, achei que você tinha reparado que seu filho andava assim.
Distraildo- Assim como?
Aéreo- Mãe, por que você não me dá um irmãozinho?
Dona Dispersilda – De novo essa conversa, filho? Esqueceu que estou grávida.
Distraildo – Grávida?
Dona Dispersilda- É. Você não comprou camisinha lembra?
Aéreo – Quem é Indiana Jones?
8 meses depois nasce “Esquecildo”.
Top! Top!
Lars: com a simpatia dos paqueradores.
(aeroporto internacional, indo e vindo infinito. Lars aborda Camila)
Lars: (sussurra ao pé do ouvido da moça) Mira a sua boca na minha e atira…
Camila: (distraída) Oi?
Lars: Você tem um cigarro que possa me dar?
Camila: Hum… Desculpa esse é o último…
Lars: (faz que vai sair)
Camila: Ei!
(ele volta)
Camila: Eu posso dividir com você se quiser… Sem problemas.
Lars: Imagina, o último é sagrado.
Camila: Pega. (estende o cigarro ao rapaz.)
(tempo)
(ele pega.)
(traga, quase litúrgico. )
(tempo)
(devolve o cigarro)
Lars: Chegando?
Camila: Partindo.
Lars: Você vai pra onde?
Camila: Madri…E você?
Lars: Índia.
Camila: Sério?
Lars: (sorrindo de lado) Não. Eu vou pra Blumenau. Mas eu sempre quis conhecer a Índia.
Camila : E por que não vai?
Lars: Ah…Complicado.
Camila : Nem tanto.
Lars: É uma baba… E eu estou num perrengue…! To juntando uma grana, quando ficar bacana, Aí sai de baixo! Vou conhecer tudo, Índia, China, Luanda… Madri…!
Camila: E Blumenau?
Lars: Família. Madri?
Camila: Fuga.
Lars: ?
Camila: Você quer ouvir um segredo?
Lars: Se você quiser contar…
Camila: (ao pé do ouvido dele) Matei um industrial e estou fugindo com o cadáver na minha mala… Agora que te contei talvez eu tenha que fazer o mesmo com você…
Lars: Ah… Você está brincando, né?
Camila: Sua Mãe nunca lhe disse pra não conversar com estranhos? (tempo) Eu posso ser uma assassina perigosa… A mulher do presidente… Atriz de cinema mudo… Um homem disfarçado… Uma louca que anda com malas pra cima e pra baixo… Cantora de ópera… Veterinária… Uma alucinação sua… Um fantasma do passado… A irmã gêmea má trocada na maternidade reivindicando vingança… Um anjo da guarda… Um demônio da sorte… Alguém que vai te matar.. Ou te amar eternamente…
(silêncio)
Lars: Estou meio tenso…
Camila: Medo de voar?
Lars: Não… Medo de me apaixonar por você…
Camila: Ai, que brabo! (risos) Franco atirador.
Lars: Sério… (enquanto fumam o cigarro) Você acredita no destino?
Camila: (desdém) Destino…
Lars: Acha mesmo que foi mero acaso a gente ter se esbarrado aqui, agora? (galanteador) Estamos predestinados um pro outro…
Camila: (rindo)
Lars: Não ri… É sério. Quando meus olhos bateram nos seus eu vi que alguma coisa aconteceu! Eu não sei explicar, mas acelerou alguma coisa em mim, e desde então eu não consigo parar de olhar pra você.
Camila: (incrédula) Você está falando sério?
Lars: É sério.
Camila: Pára.
Lars: Olha, eu sei que você deve estar me achando meio doido, mas tem certas coisas que simplesmente não tem explicação.
Camila: Você me conheceu não tem nem cinco minutos.
Lars: E foi suficiente pra descobrir em você tudo o que eu precisava.Você não acredita em amor ä primeira vista? Almas gêmeas? Fica comigo. Não vai embora.
Camila: Não posso.
Lars: Pode sim, é só você querer.
Camila: Não é assim…
Lars: Chuta o balde.
Camila: Eu vou te fazer sofrer…
Lars: Mas sofrer de amor é maravilhoso.
Camila: Não é não…
Lars: É sim… Sofrer de amor é luxo. Olha, eu não quero sofrer por fome, ou doença, ou por alguém querido que morreu, ou por dor de dente, ou por falta de grana, ou por falta de amor. Pelo contrário, quero sofrer por muito amor. Muito. Aquele tanto que não cabe, mas a gente empurra goela a baixo, amor que engasga, amor que dilacera , amor grande, amor insuportavelmente amado. Com certeza se eu tiver que morrer, que eu morra de amor. Não porque me faltou um, mas pelo excesso, que em meu peito explode _ e que se doesse, sorrir seria insuportável. Quero morrer assim: com o amor explodindo o meu coração como um balaço alucinante. Caramba: Eu quero morrer agora de amor! (puxa a moça e beija)
(abre o cenário e é revelado ao público que a cena que acabamos de ver faz parte de um filme que passa na tela de um cinema)
(no escurinho do cinema, está Rô e Fil, ela uma gordinha com cara melancólica, ele meio saturado e barbudo, os dois acompanham a cena na telona.)
Rô: (de olho no filme, sussurra para o marido) Fil…
(tempo)
Rô: Fil…
(tempo)
Rô: Ei, Fil…
Fil: (de olho no filme, enchendo a boca de pipoca) Que é, Rô?
Rô: (sussurra triste) Eu também quero morrer de amor…
(tempo)
Rô: (infantil) Fil… Eu estou falando com você… Fil… Fil…
Fil: Terça que vem.
Rô: Que tem?
Fil: Morre de amor terça que vem. Agora fica quietinha pra gente ver o filme.
(tempo)
(Rô triangula com o filme e compara com o aspecto do marido. Observa com certo desprezo a pipoca caindo da boca até o colo.)
Rô: (ainda sussurrada e doce) Não. Eu quero morrer de amor agora.
Fil: Dá um tempo Rô.
Rô: Fil… Eu quero morrer de amor agora.
Fil: (vira-se irritado) Que aporrinhação! Você enche meu saco pra vir ao cinema e quando venho, você fica falando mais do que pobre no sol! Se continuar a ladainha: me levanto e te deixo aqui sozinha.
(Rô volta-se para o filme)
(cena do filme, Lars e Camila ainda se beijando muito e a música muito alta)
(Rô muito ressentida com tudo.)
(Rô respira fundo e dispara)
Rô: Por que você me quer pela metade? Por que não olha pra mim? Por que demora? Por que me ignora? Por que não sorri ? Por que não me faz acreditar? Por que não diz que quer me beijar? Por que não é direto? Por que faz isso comigo? Por que me desrespeita? Por que não me quer? Por que não pede pra eu ficar? Por que não tenta? Por que não me pede? Por que você não me diz coisas bonitas? Por que não me chama pra tomar um café? Por que não me manda flores? Por que não diz que sente falta de mim? Por que faz com que eu me sinta como um estorvo no seu caminho? Por que você faz com que eu me sinta feia? Suja? Sem jeito? Por que? (eleva a voz)
Me surpreenda. Me faça dormir sorrindo. Me faça sonhar com você. Me faça te esquecer de vez. Me faça acreditar que pode ser diferente. Me leva pra dançar. Me apresenta um livro que eu nunca li. Me canta uma musica que eu adoro ouvir. Me deixa um bilhete . Me deixa ter vontade. Me deixa bem. Me elogia. (eleva mais a voz, o marido vai virando-se lentamente pra ela) Você não vai me magoar mais, não vai mais me fazer esperar. Não vai me deixar sem saber. Não vai fazer com que eu me ache incapaz de ser amada. Vai passar. Eu sei que vai. Eu vou esquecer você, eu vou esquecer de te lembrar. Eu não quero mais você. Você me machuca tanto. Me faz triste. Faz com que tudo perca a graça. Eu não quero mais isso. Não quero mais ficar presa nisso.
(abre a luz)
Voz microfonada: Corta! Ok. Valeu.
Atriz que interpreta Rô: (natural) Eu posso ir do começo se você quiser, sem problemas pra mim.
Voz microfonada: Foi ótimo.
Atriz que interpreta Rô: Mesmo? Eu achei o finzinho meio forçado…
Voz: Foi maravilhoso, fica fria. Cinco minutinhos e a gente continua. Pode ser?
Atriz que interpreta Rô: Sem problemas.
Ator que interpreta Fil: Juju, eu vou dar uma lida na próxima cena e depois você bate o texto comigo novamente?
Atriz que interpreta Rô:
Claro, amor.
Ator que interpreta Fil: Juju. Posso te contar uma coisa?
Atriz que interpreta Rô: Claro.
Ator que interpreta Fil: É uma coisa muito séria…
Atriz que interpreta Rô: (com ar preocupado) Aconteceu alguma coisa?
Ator que interpreta Fil: (com uma lágrima escorrendo pelo rosto) Jura que não conta…
Atriz que interpreta Rô: O que aconteceu?
Ator que interpreta Fil: Eu não queria…
Atriz que interpreta Rô: (mais preocupada) Você está me assustando. O que aconteceu.
Ator que interpreta Fil: Eu juro, Ju. Eu não queria…
Atriz que interpreta Ro: Fala!
Ator que interpreta Fil: É na verdade eu estou completamente…
(A fala é abafada por um som grave de turbinas de avião)
(luz abre, estamos dentro de um avião)
Aeromoça: (catuca o passageiro que cochila)
Passageiro: (desperta sonolento)
Aeromoça: Chegamos senhor.
Passageiro: (sorri e imediatamente liga seu telefone. Disca muito entusiasmado. Cai na secretária eletrônica.) Oi meu querido, sou eu, Renato. Desculpa te ligar essa hora, é que acabei de ter um sonho muito louco e acho que dá samba, aí to te ligando pra não esquecer… Parecia tão real… Poxa, que pena que você não atendeu… Enfim… Eu acabei de chegar, passo na sua casa e explico melhor a idéia. Acho que rende um texto pro seu site… O tema da semana é Aéreo, não é? Ok, te explico melhor quando chegar. Beijão, Jô. (desliga)
Luz cai em resistência, foco nas mãos de Jô Bilac, digitando tudo às 4:50 da manhã.
Digita uma última palavra: Fim.
Livremente inspirado no Universo de Rodrigo Nogueira.
Os tijucanos suicidas
Ela – (berra da janela exaltada) Dá pra desligar a porra do som!
Ele – O que é que foi, hein?
Ela – Ah, finalmente eu tô vendo a sua cara… É esse som alto todo santo dia!
Ele – E daí?
Ela – Já viu que horas são?
Ele – Não… (saindo da janela) Caralho, já são 15 pras 6!
Ela – Faz favor de baixar o volume que tá me atrapalhando.
Ela – Isso não é hora, vai dormir… Vamos respeitar a lei do silêncio. Ele – Você é a síndica? Ela – Não. Ele – (calmo e didático) Então eu vou te ensinar como funciona essa tal lei do silêncio. Faz assim: enfia… Ambos permanecem imóveis nas janelas. Ela – O que é? Dá pra respeitar a minha privacidade e não falar comigo? Ele – Calma, não precisa se irritar. Ela – Tá, desculpa. Parecem disfarçar e/ou esconder algo um do outro. Ele – Tô esperando o Jorginho ligar, que ele trabalha na mídia. Com sorte eu ainda apareço ao vivo no Bom Dia Rio. Acho que no máximo em meia hora eu me jogo. Ele – Você vai se jogar??? “Jogar” de “se jogar lá embaixo”? Ela – (quase como uma doutora) Prefiro dizer “me jogar”, porque transmite justamente essa idéia de “mergulhar de cabeça numa nova fase”, “coragem para enfrentar desafios”, “mulher destemida”… Ele – Ah, não! Você não pode se matar! Ela – Claro que eu posso. E não vem com papinho, que eu tô a meses tomando coragem e não volto mais atrás. Ele – Não é questão de voltar atrás. Ela – E qual é “a questão”? Ele – Eu também vou me jogar! Ela – Tá brincando! Ele – É sério! Ela – Hoje? Ele – Agora. Ela – Se mata outro dia porque hoje sou eu! Tô a dois meses ensaiando pra trepar nessa janela, que eu morro de medo de altura, não vou dividir esse momento com ninguém. Ela – Você podia ser ao menos um pouquinho cavalheiro e compreensivo nesse meu momento de dificuldade psicológica e me deixar ir na frente. Eu não vou amargar essa derrota! Tô sempre, sempre em segundo lugar pra tudo! Ele – Sinto muito, mas nesse caso eu não vou poder te ajudar. Ela – Ah, mas você não vai se jogar mesmo! Nem que pra isso eu tenha que ir aí te matar antes. Não vem querendo roubar minha idéia não, seu… aproveitador… Oportunista! Ele – Se enxerga! Só falta me dizer que inventou o suicídio… Tá pensando que é quem? Ela – (vaidosa) Brigite Barloff. Ele – Hum, saquei… você faz programas… Ele – (interessado) A mocinha! Ela – Não, era a banana mesmo. Ficava dançando na abertura ao lado do cacho de uva. Fiz também aquele comercial da Doriana… A mão que aparecia logo no início era a minha. Ele – Huuum… não tô lembrando de você, não. Também, nessa época eu quase não assistia televisão, ensaiava muito com a minha banda. Ela – Uma banda…. bem que você tem um jeitão de “meio roqueiro, meio professor de História”. O que vocês tocavam? Ele – Na verdade tocar mesmo, nós nunca tocamos. A gente se reunia só pra fumar maconha. (desconversa) O papo tá ótimo, mas reviver não é viver. E eu preciso ir. (Liga o som). Ir dessa pra uma melhor! (Solta uma gargalhada) Ai, eu fico impressionado com o meu bom humor. Ela – Acho Legião tão fúnebre… depressivo. Ele – E você queria o quê? Que eu tocasse Pluct Plact Zum? Ela – Queria algo mais… romântico. Tô tão carente… Os dois olham-se diferente pela primeira vez. Climinha romântico. Ele – Você é legal… Não se mata, não. Ela – Pra mim chega. Todas as luzes no fim do meu túnel queimaram. Não agüento mais ver as portas se fechando. E como diz o ditado: Deus fecha a porta, o diabo abre a janela. Ele – Tá deixando alguma carta pra sua família? Ela – Nada… só o meu autógrafo. Ele – Me dá um autógrafo seu também? Ela – (surpresa) Você quer mesmo? Ele – Se eu tô pedindo… Ela – (assina e arremessa o papel) A minha terapeuta dizia que suicídio não é o caminho, que é fuga… Ai, bons tempos que eu podia pagar uma terapia, pelo menos eu tinha alguém pra conversar. Você imagina o que é chegar em casa pra desabafar e o seu marido gritar – Deixa de ser extremista! Agora você vê a palavra que ele inventou… extremista! Eu falava: – Roberto, eu sou tua mulher, não sou nenhum grupo radical xiita, faz favor! Você vê, eu querendo apoio e ele pisando, pisando, pisando… Ela – Separei. Ele – (filosófico) Ninguém mais se percebe, né? Ontem eu ia fazer um show de despedida pros meus amigos, mas daí eu lembrei que não tinha nada no repertório pra cantar. Pior que eu já tinha alugado o espaço, comprado um monte de cerveja… e ninguém apareceu. Conclusão, fiquei lá fumando. (reflexivo) E sabe que eu até me senti melhor? Confesso que deu uma vontade de tentar de novo… Ela – Você é jovem, refaz a sua vida! Ele – E você acha que eu paguei as contas de ontem como? Peguei um empréstimo. Agora tenho que me matar mesmo, não tem volta. (Lendo o autógrafo) “A vida é uma gangorra. Quando a gente tá por cima, vem um babaca te puxar pra baixo. Um beijo com carinho, Brigite Barloff”. Que lindo… “Ps. 2267…” Ela – (insinua-se) O número do meu telefone, vai que precisa! Sons de tiro. Ele – Ouviu????! Ela – Ouvi!!! É tiroteio!!! Ah, meu Deus! Morrer de bala perdida, não! Ele – E na Tijuca, o que é pior! (Os dois encondem-se. Silêncio) Acho que parou…
>Ela – Melhor você ficar aí dentro. Ele – Tá querendo me enrolar, é? Ela – Tô falando sério… O morro do Tatuzinho aí atrás, vira e mexe eles acertam uma bala na tua parede. Ele – Isso é hora pra tiroteio… Eles não respeitam mais nem o nosso café da manhã. Olha lá embaixo, a rua ficou vazia. Ela – Quer saber? Eu não vou deixar traficante nenhum me ofuscar! (Tira a blusa e fica de sutiã) Hoje é o meu dia! Uhúuuuuuu! Ele –Não apela moça, deixa de ser vulgar. Ela – FO-DA-SE! Ele – Pois você quer ver eu acabar com esse seu showzinho agora mesmo? Eu vou pular já! Ela - (fazendo pouco caso) Pula que eu quero ver! Ele – Pulo, sim. Ela – Pula! Pula se tu é homem! Ele – Não me desafia que você não me conhece. Ela – Pula que depois eu falo que fui eu quem te empurrei! Hahaha! (Sarcástica) E eu ainda vou dar um monte de entrevista como a famosa “Psicótica da Tijuca”. Ele – Ok, também não precisa chantagear. Vamos agir como duas pessoas civilizadas, que eu quero morrer em paz. Ela – É, você tem razão… Imagina que sofrimento, por causa de uma briguinha nossos espíritos não evoluírem e ficarem amarrados aqui, presos dentro de uma quitinete. Deus me livre! Ele (segurando o riso) – Não sei como eu só fui te conhecer hoje… Ela – O que você tá rindo? Ele – Seu cabelo despenteado… tá engraçado… Ela – Jura? Pior que nem o espelho eu tenho mais… dei como parte do pagamento pra pagar esse vestido. Ele – Um espelho por um vestido? Ela – Pois é. Troquei com a Iracema, aquela índia emergente dona do brechó. Incrível como eles ainda gostam dessas coisas… Ele – Posso dar uma sugestão? Por que você não passa um batom? Confesso que tenho tesão em mulher com batom. Ela – (patética) Huuum, taradão! Ele – O que você acha da gente dar um trepadinha antes de morrer? Assim, eu sou um cara objetivo entendeu? Acho que a gente não tem tempo a perder. Ela – É, acho que podemos fazer um duplo homicídio. A gente se mata de prazer. Ok? Ele – Ok. Os dois urram em orgasmos múltiplos.
Ele – O que é que foi, hein?
Ela – Grosso!
Ele – Não enche!
Ele – Moça! Psiu…
Ele – O que você tá fazendo aí pendurada?
Ele – Eu cheguei aqui primeiro. Vamos ser justos e respeitar a ordem de chegada. Tenho preferência.
Ela – Querido, eu fiz aquela novela “Banana Tropical”. Era a protagonista.
Ele – (decepcionado) Você é casada?
FIM
Criaturas aéreas
CABINE DE UM BOEING.
COMANDANTE,
CO-PILOTO,
JULIANA, A DESTEMIDA COMISSÁRIA DE BORDO.
COMANDANTE – Que baderna é essa lá atrás, comissária Juliana?
JULIANA – Um pequeno contratempo, comandante.
CO-PILOTO – Xi! Lá vem bomba.
COMANDANTE – Atenção à latitude, rapaz! Deixa que da Juliana cuido eu.
CO-PILOTO – Que ranzinza.
COMANDANTE – Desembucha, Juliana! O que foi? O que é esse quebra-quebra lá atrás?
JULIANA – Não sei por onde começar, comandante.
CO-PILOTO – (RINDO) Ai, ai! Você é uma figurinha, Juliana!
COMANDANTE – Cale-se! Deixe a moça falar! Então?! Explique essa balburdia!
JULIANA – O barulho, comandante, é porque houve uma ligeira despressurização da cabine.
COMANDANTE – Ligeira despressurização?! Juliana, você está tirando uma com a minha cara? Está me achando com pinta de palhaço?! Ou despressuriza-se uma cabine, ou não, caracoles!
CO-PILOTO – Bem que eu desconfiava deste ponteirinho.
COMANDANTE – O quê???!!! Seu grandessíssimo palerma! Você é pago pra quê, infeliz!!! Olha os marcadores, os cronômetros, os medidores, os botões coloridos! Tudo indica que estamos no auge da despressurização!!! Como não percebi isso antes?!
CO-PILOTO – (P/ SI) Quem não tem competência, não se estabelece.
PILOTO dá um tapão na cabeça do CO-PILOTO.
COMANDANTE – Cale essa bocarra cheia de dentes, seu co-piloto de meia tigela! Essa barulhada lá atrás que não pára!
JULIANA – São as bagagens de mão voando pro espaço, os talheres, os refrigerantes. (MUITO TRISTE) Marinildes e Jéssica também foram chupadas pra fora da nave.
COMANDANTE – É pior do que eu pensava! Mas por quê?! Por quê?!
JULIANA – Ao que parece, a culpa é do presunto.
CO-PILOTO – Essa é nova!
COMANDANTE – Como assim, mulher?!
JULIANA – Primeiro foi uma senhora gorda. Entre os sanduichinhos de presunto e de queijo ela escolheu o primeiro. Após umas poucas mastigadas, a louca abriu a porta da aeronave e pulou pra fora. Máscaras de oxigênio caíram como tentáculos enredando a tripulação. Me agarrei com força numa das máscaras colocando primeiro em mim pra depois auxiliar o menininho que estava aliperto. Mas o pequenino arrancou a máscara da face com um sorriso de louco, um brilho no olhar daqueles que já se perderam, e se atirou pra fora do avião numa felicidade embaraçosa.
(SILÊNCIO… ouve-se apenas a balburdia esparsa ao fundo…)
COMANDANTE – Você está me dizendo que aquele garotinho de cinco anos se suicidou?
JULIANA – Tanto ele quanto todos os outros cinqüenta e sete passageiros que comeram o sanduíche de presunto.
CO-PILOTO – Quem comeu o presunto está querendo virar presunto também? (RI DA PRÓPRIA PIADA)
COMANDANTE – Cale-se, iditota!!!
JULIANA – O que eu faço, Comandante?
COMANDANTE – Sabia que nossas refeições eram uma porcaria, mas assim é demais.
JULIANA – E agora?
COMANDANTE – Traga dois sanduichinhos pra gente, Juliana. Eu e esse inútil vamos experimentar.
(MUSICA DE SUSPENSE. JULIANA E CO-PILOTO ASSUSTADOS)
JULIANA – Dois sanduíches, Comandante?
CO-PILOTO – Como assim?!
COMANDANTE – Ficou surda, mulher!!! Anda com isso!!!
JULIANA – O senhor vai querer de queijo ou…
COMANDANTE – Presunto, Juliana!!! Não estou te reconhecendo!!! Dessa besta aqui do meu lado eu espero qualquer coisa, mas de você?!
JULIANA – Aqui estão. Sobraram dois de presunto no meu bolso.
JULIANA ENTREGA DOIS SANDUÍCHES DE PRESUNTO PARA ELES. PILOTO DÁ UMA BOA MORDIDA. CO-PILOTO MORDE UMA LASQUINHA.
COMANDANTE – Morde isso direito, seu monte de esterco! Temos que descobrir o que está se passando nesta aeronave!
TEMPINHO NA TENSÃO, ELES COMEM OS SANDUIÍCHES.
JULIANA – Comandante?! O senhor está se sentindo bem?
COMANDANTE – Bem…? Ótimo… Estou muito bem…
CO-PILOTO – Minhas mãos estão formigando.
JULIANA – Suas mãos?
COMANDANTE – As minhas também. Parece que algo está nascendo bem debaixo das minhas unhas. Olha só?! Está vendo Juliana?
JULIANA – Não estou vendo nada.
CO-PILOTO – Nas minhas também! Olha aqui!
JULIANA – Não vejo…
CO-PILOTO – São… penas!!!
JULIANA – Não pode ser!!!
COMANDANTE – Pela primeira vez este jegue da aviação está certo! São penas sim senhor!
JULIANA – Não pode ser, não vejo nada!
CO-PILOTO – Penas pelo braço inteiro! Entre os meus dedos! Estou livre, finalmente! Quero voar!!!
JULIANA – Não, co-piloto! Você está enganado! É uma ilusão, um delírio!
CO-PILOTO – Me larga, Juliana! Eu quero voar!!! Voar!!!
CO-PILOTO SAI DALI APESAR DA TENTATIVA DE JULIANA EM SEGURÁ-LO.
COMANDANTE – Também vou! Me espera! Minhas asas estão abertas! Quero mergulhar no céu!
JULIANA – Comandante! Por favor, não faça isso!!!
COMANDANTE – Adeus!!!!!
COMANDANTE SAI DALI. JULIANA ASSUME O BANCO DE PILOTO. OUVIMOS O SOM COMO SE O AVIÃO ESTIVESSE CAINDO. JULIANA SE ESFORÇA PARA GANHAR ALTITUDE.
JULIANA – Por favor… Por favor… sobe…
O AVIÃO VOLTA AO NORMAL, JULIANA CONSEGUIU MANTER O CONTROLE.
JULIANA – Graças a Deus.
JULIANA PERCEBE ALGUMA COISA A SUA FRENTE. ELA ACENA.
JULIANA – Comandante?! É o senhor?! Conseguiu! O senhor está voando! O senhor conseguiu!
NA FELICIDADE DE JULIANA ACENANDO PARA FRENTE.
FIM
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Domingo