Alma de mãe
A = Alzira
E = Emiliana
M = Mamãe.
MAMÃE de óculos escuros, sentada no centro da mesa, imóvel. EMÍLIANA sentada de um lado, ALZIRA de outro.
A- Eu não sei, Emiliana. Mamãe definitivamente não está bem.
E- Você nem começa, Alzirinha. Depois de todo o escândalo já não estou mais com cabeça pros teus faniquitos.
A- Mas a mamãe… Emiliana…
E- O que é que tem mamãe?
A- Ela precisa de ajuda.
E- (imersa em seu CINISMO sem limites) Jura? Estou disposta a ajudar. (doce) O que é, mamãe? Está sentindo alguma coisa?
A- (SEM AR) Meu Deus… Meu Deus…
E- Nada. Está melhor que a gente, não é mamãe?
A- Acho que ela precisa de um médico!
E- (se deliciando, irônica) Você acha? Acha mesmo? Que bonitinha!
A- Vamos levar mamãe pro pronto socorro!
E- (firme) De jeito nenhum.
A- Por tudo quanto é sagrado, Emiliana. Me ouve!
E- Leva você. A chave do carro está com ela. (escondendo o ódio com falsa doçura) Onde você botou, mamãe? Onde a senhora enfiou a chave do carro?
A- Não responde…
E- A senhora acha que engana quem?
A- Dessa vez não é, Emiliana. Dessa vez mamãe não está fingindo.
EMÍLIANA passa as mãos na frente do rosto de MAMÃE. EMILIANA retira os óculos de MAMÃE, ELA passa as mãos na frente do olhar de MAMÃE mais uma vez. O olhar de MAMÃE o tempo todo estatelado. MAMÃE parece estar morta.
E- Mamãe é uma verdadeira craque. Estou impressionada, hein, mamãe!
A- Não! Você que não devia ter batido tão forte na cabeça dela.
E- Ai, Alzira! Faça me o favor! Eu vou buscar o bolo.
EMÍLIANA sai para a cozinha. ALZIRA, apavorada, estica o dedo para tocar no braço de MAMÃE. Ao sentir a ponta do dedo na pele fria de morta de MAMÃE, ALZIRA se encolhe e chora baixinho.
A- (tristonha) Por quê, Meu Deus? Por quê?
EMÍLIANA surge com o bolo, sorridente.
E- (CANTA) Com quem será? Com quem será? Com quem será que a mamãe vai se casar?
A- Ela está fria.
E- Assopra, mamãe? Apaga as velhinhas!
EMÍLIANA assopra as velas e vai cortando fatias do bolo enquanto fala.
E- Eu sempre gostei mais do “com quem será” do que do “parabéns pra você”. Tinha aquele menino, o Hercílio. Lembra do Hercílio., Alzirinha? (RI) Foi minha festa de oito anos! O menino ficou tão vermelho! Mas tão vermelho! Foi na hora do: “vai depender, vai depender se o Hercílio vai querer!!!”
EMILIANA cai no riso, mas estanca ao perceber o pavor de ALZIRA.
E- Que é que foi? (SECA) Comeu cocô?
A- Negar é pior, Emiliana! Não adianta. Logo ela vai começar a apodrecer.
E- Você nem vai notar, Alzirinha. Toma. O primeiro pedaço de bolo pra filha preferida.
A- Bolo?
E- Não faz cerimônia. Toma um você também, mamãe.
EMÍLIANA coloca pratinho de bolo na frente de mamãe e começa a comer o seu. ALZIRA chocada.
A- Como você consegue engolir? Como você tem coragem de comer pratinho de bolo?
E- Corta essa, Alzira. Eu sei que mamãe era diabética. Fiz o bolo foi pra você. Pra nós duas. Anda. Come. Primeiro pedaço é uma honra que não se recusa.
EMILIANA continua comendo bolo. ALZIRA experimenta um pedaço, se surpreende.
A- Mas isso aqui…?
E- O quê?
A- Está uma delícia!
ELAS continuam a comer, leves, quase felizes. ALZIRA olha para MAMÃE e volta a chorar enquanto come.
A- Que tristeza. Nunca mais ouvir mamãe, aquele arroto sonoro que ela dava depois de comer uma colherinha de feijão que fosse.
E- Você vai estar com ela antes do que imagina.
A- Com ela? Ela quem?
E- Mamãe, Alzirinha. Vai se juntar a mamãe dentro em pouco. Você e eu também.
A- Mas… do que você está faland…
E- (informativa) O bolo, querida. (soturna, rígida, calma, sádica, masoquista) A gente vai morrer.
AS DUAS são fulminadas pelo veneno do bolo. Desfalecem como se desmaiassem, sem dor, sem drama. Apenas se entregam ao sono eterno sem nenhuma resistência, sem tempo de pensar em lutar contra a queda. ALZIRA é a primeira a despertar para sua situação pós-morte.
A- Quem diria que é assim! Os planetas me abraçam! As partículas dos meus desejos sombrios não são mais nada! Poeira cósmica! Anéis violetas dançando com preguiça em volta dos astros. Minha alma se espalha no espaço sideral. Estou livre.
ALZIRA some dali, encontrou a paz…. EMILIANA confusa.
E- Ué? (P) Alzira? (P) Cadê você, mulher? (P) O que eu ainda faço aqui? Nessa saleta que detesto? (P) Cadê o céu? (P) Cadê o diabo? (P, temente) Deus? Deus? (P) Alô? (P) Oi? (P) Alguém? (P) Se tem alguém, se algo me ouve, faz favor, apareça! (P) Merda.
MAMÃE está ali agora, atuante, no auge de seu querer.
M- Emiliana, meu anjo.
E- Mamãe?!
M- Você não devia ter matado sua mãezinha.
E- Não chega perto!
M- E bem no meu aniversário!
E- Você que falou! Você que disse que não queria chegar aos sessenta!
M- Como eu odeio quando você se faz de burra.
E- Se afasta mamãe! Fica longe de mim!
M- Achou que podia fugir de tudo assim, tão fácil. Desistir. Jogar a toalha. Não é tão simples, anjo.
E- Se você chegar perto…
M- Dá um abraço na mamãe! Um abraço de feliz aniversário.
E- Eu vou gritar!
M- Não adianta. Já estamos nos unindo. Não percebe? Mesmo que a gente não queria. Nossas almas vão grudando. Em minutos, que soarão como séculos na terra lá embaixo, uniremos nossa essência. Não há escolha. Você será para sempre mamãe, e mamãe será você.
MAMÃE vai lentamente abraçar EMILIANA que está rígida. ELAS se abraçam como se unissem na mesma matéria.
FIM>…
O Assassinato Suicida
Laura está deitada numa sessão de análise deitada no divã.
Laura – Eu vim aqui porque estou no limite.
Analista – Sim.
Laura – No limite do limite.
Analista – Sim.
Laura – No limite da beira do abismo.
Analista – Sim.
Laura– Sim, o quê?
Analista – Sim.
Laura– Não acredito que vir aqui irá mudar alguma coisa, mas preciso de ajuda e achei melhor um psicanalista do que um delegado.
Analista – Sei.
Laura – Apesar de confiar mais num delegado do que num psicanalista.
Analista – Sei.
Laura – Sabe o quê?
Analista – Sei.
Laura – Eu ia me denunciar, me entregar a polícia, mas acho que ela merece uma chance antes que eu cometa o assassinato.
Analista – Ela quem?
Laura – A vítima.
Analista – Você vai matar quem?
Laura – Uma pessoa.
Analista – Que pessoa?
Laura – A pessoa mais cruel que já conheci.
Analista – Que é essa pessoa?
Laura– A que mora dentro de mim.
Analista – Como?
Laura – Vou matar a pessoa que mora dentro de mim há 10 anos e já está fazendo casa com vista para o mar.
Analista – E quem é a pessoa que mora dentro de você?
Laura – Eu não sei, mas está cada dia mais presente. Ontem recebi a fatura do cartão de crédito e vi que ela havia gasto 350 reais numa pochete de couro, eu nunca usei pochete, acho pochete a coisa mais triste que existe, toda vez que vejo alguém de pochete fico com um nó na garganta.
Analista – O seu pai usava pochete?
Laura olha para os lados paranóica.
Laura – Ela esteve aqui?
Analista – Como?
Laura – Como você sabe sobre a pochete do meu pai?
Analista – Eu não sei.
Laura – Não acredito que ela veio aqui antes de mim. O que ela te disse? Não acredite, hein? Ela é capaz de qualquer coisa para se livrar de mim, é perigosa, outro dia meu porteiro me viu beijando de língua o homem do 603 no elevador, pelo circuito do prédio. Imagine, só! foi ela! É claro! Eu jamais faria isso, o vizinho do 603 é o homem mais nojento do bairro. Barrigudo. Tem careca no meio da cabeça. Ainda fossem entradas laterais, mas no meio do cucuruto, um vazio de cabelos bem no meio. Ele usa camisa Pólo, tenho repulsa a camisa Pólo. Quando vejo aquele jóquei em cima do cavalinho tenho ânsia.
Analista – Seu pai se vestia com camisas Pólo?
Olhando para os lados.
Laura – Ela esteve aqui. Tenho certeza. Ela está te pagando tão bem quanto eu? Vai dar ouvidos aquela depravada. Eu mato. Juro que mato!
Analista – Laura, não tem ninguém morando dentro de você.
Laura – Tem sim! Está morando em mim desde o meu aniversário de 27 anos. Eu era linda, tinha um futuro brilhante, mas essa pessoa se alojou em mim e desde então as coisas não acontecem como deveriam, entende? Não há outra explicação, ela está em mim, todos os dias. Eu pensava no meu destino e ficava orgulhosa. Tapete vermelho, um marido lindo, filhos. E até agora nada. Nada. Nem um namoradinho, ela espanta, é chata, um tédio. Deu para beber, acordo de ressaca todos os dias. Tem mania de parar na confeitaria da esquina e se empanturrar de bombas de chocolate, tô vestindo calça número 48 por causa dela.
Analista – Laura, essa pessoa é você mesma.
Laura – Você está do lado dela?
Analista – Estou do seu lado.
Laura – Está do lado dela, estão armando contra mim, é isso? Querem me convencer de que sou maluca e assim ela ganha espaço e acaba me tomando por inteira. Estou sentindo que tenho pouco tempo, muito pouco. Depois dos 35 anos piorou, tenho até fios de cabelos brancos espalhados pela cabeça. Eu olho no espelho e não me enxergo mais, tudo que consigo ver é a feição dessa mulher, cheia de rugas e entradas. Imagine que meus seios que antes olhavam para o céu, alegres e agora vivem deprimidos. Não posso mais, quero voltar a ser inteira. Vou matá-la amanhã, quando acordar e ela ainda estiver dormindo, porque é preguiçosa. Estrangulo e pronto, volto para mim! Volto para mim!
Analista – Vou te passar um calmante.
Laura – Está vendo! Foi ela que pediu, não foi? Você é amiga dela? Não é possível que tenha a tenha preferido. É uma fresca, não gosta mais de sair a noite, usa sunquíni, imagina isso? Ninguém mais usa sunquíni! E você acha que ela tem razão, porque não receita um remedinho para ela, manda ela pro Pinel, você vai ver, é tão irritante que os malucos vão reclamar.
Analista – Laura, sua hora acabou.
Laura – Como acabou? Você vai me deixar ir embora assim? E se ela tentar me estrangular no meio da noite? E se acabar comigo de vez? Para onde eu vou?
Analista – Pensei que fosse você que queria matar ela.
Laura – Você está querendo me confundir? Quer me enlouquecer também? Ela te pagou para isso? Aquela senhora? Te pagou?
Analista se aproxima.
Laura – Não toca em mim! Não coloca a mão!
Analista – Calma Laura.
Laura – Calma? Estou te dizendo que tenho um hospedeiro dentro de mim e você pede calma? Estou dizendo que tem uma senhora gorda invadindo o meu ser e você pede calma? Estou dizendo! É a pura verdade! Pergunta para os meus amigos, para a família. Pergunta para o meu porteiro. Não sou eu! Eu estou indo embora e essa senhora vai tomar o meu lugar para sempre! É melhor avisar a população de que essas pessoas estão invadindo a gente. Quando você vê, pronto, foi embora sem conseguir se despedir. Desaparece e ninguém se lembra como você era.
Analista olha para um lado e para o outro.
Analista – Tem certeza?
Laura – Do que?
Analista – Dessas pessoas.
Laura – Tenho, por quê?
Analista – Porque eu sinto que tem uma lésbica morando em mim desde o ano passado.
FIM.
Trinta
Mulher entra no elevador.
Mulher: Hoje eu faço trinta anos. Meu Deus, maldita hora que eu resolvi comemorar. Eu devia ter ficado em casa receber a família. A família não falta. Mamãe, vóvo, irmão, irmã, cunhado, sobrinha e só. Já estaria muito bom. 30 anos… Quem inventou que 30 anos tem que comemorar? Tem que? Tem que nada. Por que logo 30? Só porque é o dobro de 15? Só porque é tipo 15 anos duas vezes? Ah, meus Deus, o elevador ta subindo e eu não to ouvindo a voz de ninguém. Mas eu convidei tanta gente. Eu odeio aniversario, odeio. Quem inventou o aniversário? Aliás, quem inventou que tem que comemorar festa de aniversário? Que 30 anos não podem se passar em branco. E por que os 29 e os 32 podem? Por que os 17 e os 24 podem? Logo 30? Já sei por que. Deve ser pra comemorar a ida dos 29. Porque eu vou te contar, 29, puta que pariu! O que é ter 29 anos? Quem passa pelos 29 tem mais é que comemorar mesmo. Não, porque 29, putz! Com 29 você ainda não tem 30, mas já tem. Com 29 é que vem o tal do retorno de saturno e faz uma bagunça, mas uma bagunça, que parece que vai ter que passar o resto da vida arrumando a bagunça que do tal retorno. Dizem que é bom, um momento de transformação de renascimento. Renascimento? Terminar namoro, questionar aquilo que a gente ta fazendo na vida? Não, porque a gente passa até os 29 tentando se estabilizar profissionalmente e vem a porra do retorno e te faz questionar se é isso mesmo. Vai à merda retorno. Dizem que com 30 passa. Que tudo se acalma. Que até financeiramente as coisas acontecem. Será? Então é bom comemorar. Mas e se não for ninguém? Olha, o senhor me desculpe, mas eu vou desistir. Tem como anular o andar?
(O ascensorista faz que não a cabeça.)
Mulher: Olha só, se não for ninguém, você gostaria de ir na minha festinha?
(O ascensorista faz que não com a cabeça.)
Mulher: O senhor poderia parar o elevador?
(O ascensorista faz que não com a cabeça.)
Mulher: Existe alguma maneira de parar esse elevador? Eu acabo de desistir.
(O ascensorista faz que não com a cabeça.)
Mulher: Se bem que, imagina. Como não vai ninguém? Eu chamei meu Orkut inteiro, passei o dia mandando recadinho individual para cada um. As amigas do colégio é que não devem ir, essas não devem ir mesmo. Não preciso delas, não preciso. O pessoal do teatro já está muito bom. A galera que se formou comigo na faculdade, o pessoal da academia, tem o pessoal do site, os alunos, os professores, as amigas da minha irmã. Vai bombar essa festa, vai bombar, eu devia ter chamado um assessor de imprensa, vai bombar. Mas por que é que eu não to ouvindo barulho nenhum? Eu to duas horas atrasada para minha própria festa, já devia ta todo mundo aí. Por que a Julia insistiu para eu fazer isso? Por quê? Ela não devia ter me convencido. Mas eu ainda posso desistir. Moço dá pra quando chegar no andar, me levar de volta ao primeiro?
(O ascensorista faz que não com a cabeça.)
Mulher: Ia ser muito mais legal se eu fosse para Lumiar com o pessoal do Coral Orgânico. Por que eu não fui pra Lumiar? Pior se a própria Julia não for. Aí eu a mato. Hoje não vai ter desculpa, se ela me falar que ficou presa no trabalho, eu a mato. Esse elevador não chega. (para o ascensorista) Oi, será que o elevador tá com problema?
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher: Bom, mas se esse elevador for tão lento assim, ninguém chega mesmo. Oi, será que só tem esse elevador que vai ao terraço?
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher: Que estranho… E se eu passasse mal? Droga. Desde pequena eu sempre tive medo de ninguém ir ao meu aniversário. Maldita hora que eu topei fazer essa festinha… Será que um dia eu vou superar isso? (para o ascensorista) Oi, o senhor não está achando estranho essa demora pra chegar não?
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher: O senhor poderia falar alguma coisa? É meu aniversário.
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher: Nós já estamos aqui há uns cinco minutos, não era para ter chegado?
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher: Será que tem um interfone aqui?
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher: Não ta achando estranho?
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher: Eu vou berrar, hein? To achando estranho, eu vou berrar. AAAAhhhh!!!
(ela berra e o ascensorista na reage)
Mulher: O senhor tem algum problema?
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher: Cansei dessa palhaçada, eu quero sair. Vamos, anda. Não quero saber de festa nem nada. Eu vou é pra minha casa ver televisão e comer a noite toda. Foda-se a festa. Quero sair. Ei, Moço?
(ela começa a cutuca-lo. O ascensorista, pela primeira vez olha pra ela)
Ascensorista: Desculpe-me, mas senhorita não vai dizer o andar que vai?
Mulher: oi?
Ascensorista: A senhorita está aí há mais de três minutos e não disse nada. Qual o andar a senhorita deseja ir?
Mulher: Eu não disse nada?
(o ascensorista diz que não com a cabeça)
Mulher (como que acordando de um transe): Desculpa. Terraço por favor.
Ouve-se a porta do elevador fechar e o barulho do elevador subindo. Silêncio. A mulher está nervosa. Começa a ouvir vozes de muita gente lá de fora. As vozes vão aumentando conforme o elevador vai subindo. Ouve-se a porta do elevador abrindo. A luz apaga. Muitas vozes cantando parabéns pra você
FIM.
Valsa nupcial
Personagens:
Jaciara: Quando Deus debochou da feiúra.
Bruno: O irmão metódico de Jaciara.
Leonardo: Um homem para chamar de seu.
Um quarto com muitos presentes de casamento
Jaciara: Conjunto com toalha de rosto bordadinha! Ai, já estou vendo. Quero minhas iniciais bordadas. Tão fino ter as iniciais bordadas numa toalha.
Bruno: Falando sozinha?
Jaciara: Advinhe.
Bruno: Não sei.
Jaciara: Ganhei um presente útil, lindo e elegante.
Bruno: Um revólver.
Jaciara: Credo! Um conjunto de toalhas.
Bruno: Um presente útil, lindo e elegante. Jaciara, vamos conversar sobre ambição.
Jaciara: Ah, Bruno. Você é incapaz de compreender a doçura das iniciais bordadas na toalha.
Bruno: (seco) Entendo. Vá dormir. (pausa) Uma noiva com olheiras é uma coisa triste.
Jaciara: (provocante) Você morre de inveja de mim.
Bruno: Como?
Jaciara: Pensa que não percebo na sua respiração nos seus olhares de esguela? Você não suporta o fato, mas eu vou me casar.
Bruno: Querida, eu nunca terei inveja de um jogo de toalhas com bordados, brocados, ponto cruz. Aaah! Que coincidência, tia Méia adora toalhas. Compra muitas. Quando elas começam a exalar mofo ela dá a tolha de presente. (com agilidade cruel) Toalhas São Bento grandes e macias, para a nora – toalha de rosto, (enfático) mas quando a mulher é feia – ela dá de presente o piso do banheiro. Eu maldigo o seu enxoval de segunda mão. Cafona. E digo mais: pra quem se contenta com pouco, o nada é lucro.
Jaciara: Que horror! Sinto uma náusea terrível chamada horror! Você pensa que nasceu primeiro por astúcia? Eu arrebentei a bolsa. É preciso ter sangue frio para não se afogar no mar de placenta! Não se deixar abalar pela violência das contrações. Você nasceu primeiro por covardia! Um arrependimento me consome: não ter enforcado você com o cordão umbilical.
Bruno: Sórdida! Eu nasci primeiro porque não suportava mais olhar para sua cara feia. Sua aparência é um deboche de deus. Sua fisionomia é o eufemismo da desgraça. Ainda lembro com pavor do meu aniversário de quinze anos.
Jaciara: Nosso aniversário.
Bruno: Durante a valsa papai viu tudo.
Jaciara: Cale-se!
Bruno: Leonardo não tirava os olhos do meu vestido.
Jaciara: Eu não quero ouvir.
Bruno: Seu noivo sempre me quis!
Jaciara: Mentira!
Bruno: Leonardo é meu.
Jaciara: (delirante) Chega! Leonardo é meu destino! Está escrito! Nas toalhas bordadas do enxoval, no alfabeto o J fica ao lado do L.
Bruno: Depois do J vem o K. Uma mulher feia não pode ser burra! (Pega uma toalha grande do enxoval e envolve o pescoço de Jaciara) Era assim que você queria me enforcar com o cordão umbilical, irmãzinha. Responda!
(noiva se contorce, grita chora, fica sem ar. Leonardo aparece no quarto.)
Jaciara: (suspiro moribundo) Leonardo, escreva na minha lápide: bonita. Sempre quis ser bonita. (morre)
Bruno e Leonardo olham-se profundamente.
FIM
Babá de crianças especiais
BABÁ – Três, só? Ah, é fácil! Eu consigo me definir em 3 coisas… Deixa eu pensar… Eu sou babá e trabalho numa creche. Adoro crianças especiais. E sou contadora de histórias.
A cena se passa numa creche. Crianças fazem bagunça.
Giovani! Quer fazer o favor de descer daí, meu lindinho? (VOZ DE BEBÊ) Vem clá, blincá de Comandos em Ação. (COM OUTRA CRIANÇA) Larissa, minha bonequinha, não puxa o cabelo da Renata! Machuca. É, dói. Não pode. Você tem que ter mais delicadeza, olha o tamanho da sua mãozinha… E Julia, não quero saber de você usando seus poderes telepáticos na hora do lanche. (VÊ OUTRA) Desce daí Camilo, eu já avisei! Quer quebrar a cabeça? (LEVA UM BELISCÃO) Ai-ai-ai! Quantas vezes eu já falei que eu não quero ninguém ficando invisível aqui? Lindinhos, por favor, vamos colaborar com a tia… Que tal uma cantiga de roda? Ó! “A dona Aranha subiu pela parede…” Que odeia cantiga o quê, Rodrigo! Uma criança na sua idade não ter que estar lendo Pinter, não. Isso faz mal pra cabeça. Sei… e esse Artaud que tá escondido embaixo da sua camisa? Dá pra tia. Me dá. Me dá! Eu vou mandar o Camilo te morder, você vai virar vampiro e nunca mais vai poder ver a luz do dia. Já imaginou que tristeza? Todos os seus coleguinhas brincando no parque e você dormindo dentro de um caixão? Cruzes! (ASSUSTADA) Sangue não, hein! Por favor! Como é que eu vou explicar pra sua mãe depois, Camilo? (E PARA OUTRA) Desce daí… Jô! Que garoto teimoso! Gi-o-va-ni! Ah, machucou, né? Eu avisei… eu avisei. Quer uma folha pra você desenhar? Olha lá a Larissa, que gracinha… tá desenhando. (PEGA A FOLHA DE LARISSA) Deixa eu ver sua obra de arte, Larissa. (HORRORIZADA) Minha Nossa Senhora! (TENTANDO MANTER A DOÇURA) Larissa, senta aqui no colo da tia. Deixa eu explicar uma coisa. Você é menina, não pode ficar desenhando seus amiguinhos sem cabeça… olha esse… você me desenhou sendo atropelada. Como é que eu vou explicar isso pra sua mamãe na reunião de pais? (LEVA UM SUSTO) Ai, Júlia! Que brincadeira de mal gosto! Assustei, olha meu coração. Eu sou cardíaca, tá? Eu vou mandar você lá pro inspetor se ficar com essa mania de ficar invisível. Você é muito mal-educada. Igual a Renata. As duas. Eu vou separar vocês ano que vem, escuta o que eu tô falando. “Foda-se” não, Julia! Não, não tô sendo injusta, não. Que hipócrita! Desde quando você tem idade pra saber o que é hipocrisia? “Hipócrita”, essa boa… Sabe o que é isso? Fica andando muito com o Rodrigo. Ele tá emprestando o dicionário escondido pra você ler? (IRRITADA) Eu não admito, ouviram, não admito um palavrão aqui dentro dessa sala.
Toca a campainha.
Silêncio! Hoje tá chegando aquele coleguinha especial, tá? Nós já conversamos sobre isso, não quero deboche e ninguém zombando. O Felipe não é deficiente, Jô. Quer que ele ouça uma barbaridade dessas? (SUSSURRA) Não é assim que se fala. Como é que eu expliquei pra vocês? Ele é “especial”. (CAMPAINHA DE NOVO) Sentadinhos no sofá enquanto eu pego ele. Tá todo mundo aqui? 1, 2, 3…7… O menino que voa taí? Ok, ok… Vou atender a porta. (RISINHOS. A BABÁ ENTRA COM UMA CRIANÇA NORMAL) Fique à vontade… Esses são os seus coleguinhas. Digam “Olá” pro novo amigo de vocês. (SILÊNCIO. CONSTRANGIDA) Vamos, queridos… “Olá…”. Renata tem boca e não fala. (PARA FELIPE) Você pode ir até a caixa de brinquedos e escolher um… Cadê a caixa que tava ali? Ele não é “autista” não, Rodrigo. O que você falou??? Eu ouvi direito??? (TRANSTORNADA) Todo mundo de castigo, agora! Chega, cansei de vocês seus pequenos demônios!
As crianças ficam mudas e assustadas. A doce babá transforma-se num capeta.
Eu vou contar uma historinha pra vocês. (PEGA FELIPE NO COLO) Era uma vez um menino que falou pra mãe que sabia voar. A mãe, BURRA, ouviram? O que eu falei? Hein? Burra! Ignorante! A mãe BURRA aceitou o filho como ele era, não cortou as asinhas e deixou ele voar. Só que um dia, um caçador muito mal… (BESLICA JÚLIA) confundiu o homem que voava com um pássaro e deu um tiro na asa dele. (LARISSA RI. RENATA E CAMILO CHORAM) Não quero ninguém chorando aqui! Engole o choro! (DOCE. PRENDE AS CRIANÇAS NUMA JAULA. VOZ DE NENÉM) Então, a cliança que voava ficou felida e foi plesa dentro de uma gaiola pro leeeeeeesto da vida… (SÁDICA) E quanto mais a criança chorava, mais feliz o caçador ficava, porque ele achava… olhem a ironia, pequeninos escritores demoníacos… o caçador achava que o passarinho tava cantando!!! Não é lindo?! (RINDO) Gostaram da contação de história? Quem quer adivinhar a moral? (CRIANÇAS CHOCADAS) Sabem qual é a moral? Vai ser padeiro, médico, advogado… Vai ser bancário, meu filho! Vai ser guarda-noturno e seja feliz!
Larga essa mania de querer escrever. Não voa, não!
FIM
Festa pra dois
(Lola com maiô violeta, numa cadeira de praia . Usa um grande chapéu e óculos escuros. Várias cadeiras de praia vazias pelo espaço formam um deserto colorido. Chega Mike, carregando uma caixa grande de presente, trajando smoking.)
Mike: (num misto de raiva e surpresa) Não acredito! Lola!!! O que foi que combinamos?
Lola: (deitada, blasé) Boa tarde pra você também, Mike.
Mike: Você realmente consegue estragar o meu humor com uma facilidade absurda!
Lola: Eu também te amo.
Mike: Parece que faz isso pra me provocar!!! Mas não estamos numa guerra, minha querida. Não por agora.
Lola: Meu dia também foi lindo.
Mike: Por que você ainda está assim?
Lola: Três adjetivos.
Mike:Deitada. Maltrapilha. Dopada.
Lola: Deitada é condição. Maltrapilha é ponto de vista. E dopada é sujeito oculto, subjetivo presente mais que perfeito.
Mike: Daqui a pouco os convidados chegam e te encontram nesse estado!
Lola: É uma festa na piscina, Mike. Estou conexa.
Mike:Não é uma festa na piscina.
Lola: Ah, não?
Mike: Vem o Governador e a esposa, o cônsul e sua esposa, o desembargador e sua esposa, o Ministro da Cultura e seu “amigo”… Você acha mesmo que todos vão sorrir e te agradar deitados aos seus pés na borda do azulejo?
Lola: Tem maiô pra todo mundo… Na falta, a nudez ainda nos cai bem. É um ato civilizado permanecer nu, sem criar constrangimentos. Somos sofisticados suficiente para isso ou não?
Mike:E os amiguinhos da Meg Joy? Pelados também? Nadando com o desembargador? Todos como num quadro de Botero. E você como a Vênus de Milo, virginal em sua concha. (agressivo) Você armou esse circo, Lola, agora levanta e daí ocupa o seu lugar no picadeiro!
Lola: Vênus de Milo não tem braços. O Renascimento de vênus foi pintada por Boccicelli. E você está sendo alarmista, além de estúpido e grosseiro. Não enche o meu saco!
(clima)
Mike: Onde está a Meg Joy?
Lola: Meg Joy?
Mike: Meg Joy. Onde está a Meg Joy?
Lola: Quem é Meg Joy?
Mike: (RI numa ira) Lola! Como assim “quem é Meg Joy”? Meg Joy é nossa filha!
Lola: (ri debochada) Mike, Meg Joy não é a nossa filha.
Mike: Meg Joy é nossa filha e eu não sei se você está ciente, mas hoje é aniversário dela, tem uma festa com banquete em homenagem a ela! E você continua querendo me irritar com tudo isso, ao invés de ajudar!!! Ah!!!!!!!!!!!!!!!!!
Lola: (levanta decidida) Mike: Meg Joy é o nome dessa boneca que você comprou.
(Ele vai até a boneca e constata)
Mike : É verdade… (assombrado) Então qual é o nome da nossa filha?
Lola :( se bronzeando, blasé) Sei lá… não lembro agora, mas eu sei que é alguma coisa com P…
Mike : Bruna? Berenice? Bárbara?
Lola : Não, Mike, “P” de pato.
Mike – Patrícia? Paula? Priscila? Qual é o nome da nossa filha? (SACODE LOLA) Responde Lola!
Lola: Me solta! Já disse que não sei. Pergunta a ela!
Mike: E onde ela está?
(silêncio)
(os dois se olham constrangidos. Procuram pelos cantos)
Mike: (como se chamasse um cão) Filhinha…Vem aqui, vem…
Lola: (procurando debaixo das cadeiras de praia) Filhinha… Vem com a mamãe!
Mike: Filhinha…
(entram em desespero e por fim desistem)
Mike: Cansei… Vamos cancelar a festa.
Lola: ( desanima) Cancelar a festa?
Mike: Sim, Lola. Cancelar a festa. Ou você deseja dar uma festa sem a aniversariante estar presente.
Lola: Mas e o banquete? E a imprensa? E o Governador!? Ai, Mike…!
Mike: Vamos cancelar!!
Lola: Ai, Mike…
Mike: Por favor, Lola! O que vão pensar da gente? O que vão falar nas nossas costas??? Dirão que somos dois vermezinhos burgueses e que não somos decentes nem pra tomar conta de uma criança. Aqueles porcos chauvinistas só vêm aqui para comer a nossa comida e falar mal da nossa decoração . Enquanto envenenam-se com nosso whisky caro, enxertam nossos ouvidos com suas vozezinhas de moscas… Zunem, zunem, zunem ávidos pelo sangue da carniça. E tramando, jogando, gargalhando como pequenos demônios fumando charutos, discutem a respeito da idade de Deus…
Lola: E se levarmos a boneca? Até que é parecida com a nossa filha. Ninguém vai reparar. Ela tem a nossa cor, pelo menos. E olhando com atenção bem que tem uns traços seus.
Mike: Mas ela não anda!
Lola: Diremos que é paralítica!
Mike: Mas ela é rígida!
Lola: Diremos que foi criada num colégio militar.
Mike: Mas ela não fala!
Lola: Diremos que é muda.
Mike: Mas ela não pisca!
Lola: Diremos que é cega.
Mike: Mas ela não pára de sorrir!
Lola: Diremos que, apesar de tudo, é simpática!
Mike: Não sei se vai dar certo…
Lola: É claro que vai. É só colocarmos as roupas da nossa filha na boneca. Ninguém vai reparar! Não vão nem sentir a diferença…
Mike: (refletindo) É… Mas e a nossa filha? O que terá realmente acontecido à nossa filhinha?
Lola: Ta na Disney.
Mike: Desde quando?
Lola: Desde o ano passado… Não voltou até agora. Pegou amizade com o Pato Donald.
Mike: Ah! Então não temos com o que nos preocupar…
Lola: Foi o que eu disse. Alarmista!
Mike: Você se troca em 15 minutos?
Lola: Só se você me fizer feliz em dez.
Mike: Dá tempo?
Lola: Sempre!!!!!
(os dois se agarram num desejo animal, se embolando em beijos suculentos)
fim
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