Baila comigo
HOMEM
MULHER
HOMEM conduz MULHER para o centro da pista de dança. ELES dançam suavemente, calmamente, durante toda a cena. Acho melhor não colocar trilha sonora, imagino que fique melhor com os dois dançando sem música.
H- Que bom.
M- O quê?
H- Você ter aceitado.
M- Ah. Isso.
H- Dançar comigo.
M- Tão galante, você.
H- Jura? Acha mesmo?
M- O que você propor, eu topo.
H- Linda. Parece uma deusa.
M- Fala isso pra todas. Aposto.
H- De jeito nenhum. Sabia que era uma mulher incrível assim que te vi.
M- Conversa mole.
H- Namora comigo?
M- Namorar?
H- Responde, vai?
M- Tudo bem! Aceito!
H- Tão bom ficar juntinho.
M- Também gosto bastante!
H- Casa comigo?
M- Assim, de repente?
H- Esperar pra quê?
M- Está certo! Eu caso! Pronto!
H- Nossa lua de mel…
M- Vai com calma. Faz tempo que não faço essas coisas.
H- Muito tempo?
M- Uns bons minutos.
H- Lembra que eu amo você.
ELES dão uma bitoquinha.
H- E então?
M- Legal…
H- Foi bom?
M- Ótimo. A gente há de melhorar com o tempo.
H- Tem que praticar.
ELES dão mais uma bitoca.
M- Amor?
H- Fala, meu anjo.
M- Estou uns dois segundos atrasada, acho que…
H- O quê?
M- Grávida.
H- Mas já?
M- Cedo?
H- Nem viajamos pro estrangeiro.
M- Você também tem culpa no cartório!
H- Tem culpa eu?
M- Não fiz o filho sozinha!
H- Tão de súbito.
M- Foi dois pra lá… dois pra cá… Fui na tua conversa… Olha só no que deu.
H- Aborto?
M- Nem pensar!!!
H- Vamos ter o pestinha então.
M- Ai, benzinho! Obrigada! Eu amo você!
H- Tudo certo aí?
M- Vai nascer!
H- Mas já?
M- Nove segundos passam voando! As contrações!
H- Respira!
M- Nasceu!
HOMEM tira um bebê de dentro do bolso ou debaixo da saia de MULHER.
H- É homem!
M- Que sorte.
H- Prefiro menina.
M- Dá mais trabalho.
H- Não consigo dançar segurando esse troço.
M- Já trocou a fralda dele?
H- É pedir demais para um pobre trabalhador como eu.
M- Não ajuda em nada. Nunca vi.
H- Não fiz curso pra ser pai, cacete!
M-Deixa o Júnior com a babá.
HOMEM atira o bebê para a coxia.
H- Como gasta o vermezinho! Só de fralda dava pra comprar uma casa!
M- Não fala assim do meu filho!
H- Se aborreceu? Fechou o tempo?
M- Detesto quando chama o Júnior de verme.
H- Apelido carinhoso.
M- Você mudou. Não olha mais pra mim.
H- Não é verdade… Vem aqui, vem.
ELES dão uma bitoca.
M- Amor. Atrasou de novo.
H- Está querendo dizer o quê?
M- Você sabe.
H- Emprenhou?
M- Vai ser bom! Júnior precisa de um irmão.
H- Droga…
M- Assim você me magoa. Profundamente.
H- Se mágoa causasse aborto…
M- Nunca, ouviu bem?! Nunca!!!
H- Novidade.
M- Vai nascer! Estourou a bolsa!
H- Tô sabendo…
HOMEM tira mais um bebê de MULHER.
M- E então?
H- É menina.
M- Não está feliz?
H- Médio.
M- Ela tem os seus olhos.
H- Deixa
ela com a babá.
HOMEM atira o bebê para a coxia.
M- O que houve?
H- O quê?
M- Por que você está assim?
H- Mau humor mesmo. A escolinha do Júnior aumentou.
M- Antes era tudo diferente.
H- Era nada. A mesma porcaria.
M- Minutos atrás era tão bom…
H- Te chamei pra dançar um tango e nossa vida virou um forró.
M- Não fala isso.
H- Um forró bem rastaqüera.
M- Você me faz muito triste.
H- Chega mais perto. Retiro o que disse.
M- Me deixa. Não estou legal. Dor de cabeça.
H- Depois eu procuro na rua e como é que fica?
M- Grosso! Vai a merda! Estúpido!
H- Lava essa boca! Não me obriga a te descer a mão.
M- Quero terminar.
H- Você está fora de si! E os nossos filhos?
M- Eu sei da sua amante!
H- Amante? Só se for telepatia! Não desgrudo de você um milésimo de segundo!
M- A gente se odeia! Melhor separar mesmo!
H- Não sou homem bastante? É isso?
M- Você está me machucando!
H- Gosta que seja na força! Te excita! Só umas palmadas e fica doidinha de tesão!
M- Eu não quero! Me larga! Não quero!
HOMEM obriga MULHER a lhe dar uma bitoquinha. Prosseguem dançando, ambos arrasados.
H- Não estou passando muito bem.
M- Eu te odeio.
H- Tudo meio turvo.
M- Me dá o divórcio. Eu quero o divórcio.
H- Por cima do meu cadáver!
M- Você vai morrer podre! Todo podre!
H- Deus te ouça.
M- As contrações. Vai nascer o terceiro.
H- Você que quis esse. É todo seu.
M- Desgraçado.
H- Falei pra abortar. Alguém não quis.
M- Nunca!!! Nunca!!!
HOMEM tira mais um bebê de mulher.
H- Outro menino.
M- Júnior e Jéssica vão ficar felizes. Pagou a babá?
H- Essa molecada me suga o dinheiro todo! Não sobra nada!
M- Nada pras tuas amantes!
H- Não tenho amante, porcaria! Antes tivesse! (SENTE) Ai, que dor!
M- O quê?
H- Está doendo demais! Piorou muito!
M- Chega de adiar. Pro médico.
H- Os exames! Chegaram!
MULHER lê os exames.
M- Mas isso aqui… Não pode ser…
H- Fala!
M- É morte.
H- (DISFARÇA O MEDO) Todo mundo morre um dia.
M- Poucos segundos, meu anjo. A doença está muito avançada.
H- Mentira.
M- Não tem mais como operar.
H- Não fala uma coisa dessas.
M- Se descobrisse uns segundos mais cedo.
H- Estou com tanto medo.
M- Três… Dois… Um…
H- Não me deixa só.
M- Adeus.
HOMEM morre. MULHER vai embora.
Ninguém baila como eu bailo
Léo, menino mais feio e nerd da escola, se aproxima de Mariane, uma das meninas mais bonitas.
Léo = L
Mariane = M
L – Oi.
M – Quem disse?
L- Disse o que?
M – Que você pode falar comigo?
L- Eu não posso falar com você?
M- Não, até que eu diga que você pode.
L- E quando isso vai acontecer?
M- Nunca.
L- Você nunca vai querer falar comigo?
M- Menino, se manca! Tá queimando o meu filme. Se toca!
L – Mariane.
M- Não fala o meu nome! Que mico! Nunca mais repete meu nome!
L- Mariane não é só o seu nome. Tenho uma prima chamada Mariane.
M – Circula, garoto! Estou esperando o meu namorado.
L- Era justamente sobre isso que eu queria conversar contigo.
M- Conversar??? Ah! Garoto, e eu lá quero conversar com uma lombriga, como você?
L- Lombrigas são muito espertas sabia? Podem viver anos a fio sem nunca serem descobertas.
M- Que nojo, garoto! Sai daqui!
L- É que eu estava pensando que devia te dizer uma coisa sobre o seu namorado.
M- Quê? Tá maluco? Não fala o nome do meu namorado!
L- Eu não sei o nome do seu namorado.
M – E o que tem o meu namorado?
L- Eu acho que ele… tem um desvio de personalidade.
M- Que desvio?
(pausa)
L- Mari, eu acho que ele frita.
M- Frita o que?
L – Frita na pista.
M – Como assim?
L – É, frita na pista; camufla; escamoteia; carrega bandeja…
M- Eu vou chamar o inspetor.
L – Seguinte, Mari, eu sei que você me acha feio agora, mas eu vou crescer, minhas canelas vão engrossar, minhas espinhas vão sumir, vou passar na faculdade de economia, trabalhar na bolsa de valores, ser um homem de negócios rico e importante, um bom marido, bom pai. Já o seu atual namorado… bem, ele vai… vai… se é que você me entende?
M – Ele vai o que?
L – Vai, digamos, que vai trocar samba pela lambada.
M – Ele não gosta de dançar.
L – Vamos lá, Marizinha, você pode mais que isso. Eu quero dizer que aquela toalha é canga; que aquela Coca é Fanta…
M – Não acredito.
L- Tenho certeza. Você pode ser passional e deixar que o seu namorado te leve ao baile, ou pode pensar no seu futuro e fazer a coisa certa.
M – E qual é o meu futuro?
L – Mas, cá pra nós, você é bonitinha, mas seu nariz vai crescer, suas coxas e quadris vão aumentar. Você não tem muito dinheiro e é péssima aluna, enfim, não vai muito longe depois da escola.
M- Que horror!
L – Te dou uma dica: cola comigo.
M – Mas eu tenho nojo de você!
L- Isso vai passar em no máximo 7 anos.
M – 7 anos???
L – No máximo. Mas te garanto que vai valer a pena. Eu compenso esse nojo te passando as respostas das provas.
M – Hmm… Você é bom em Matemática?
L – Minha melhor matéria.
M – Você vai me dar cola em todas as provas?
L – Todas.
(Pausa)
M – Pode ser.
L – Acho que não.
M – Como assim??
L – Com todo respeito, você nem é tão bonita assim. E essa sua coxa promete ser uma celulitelândia… E se eu te conquistei com esse papo em 5 minutos, posso fazer melhor e conseguir uma garota realmente bonita.
(Leo começa a ir embora.)
M – Escuta!
L – Fala logo que estou com pressa.
M – E o Bob?
L – Quem é Bob?
M – Meu namorado… ele frita?
FIM
Brownie com sorvete
(Uma festa de casamento, muita música, muita comida, muita gente bonita. Leiza, sempre muito simpática, está com um monte de salgadinhos na mão. Ela sem quere esbarra em Nelson, também sempre muito simpático, com um monte de salgadinhos na mão. Ao se esbarrarem os salgadinhos caem no chão.)
NELSON: Opa, desculpa.
LEIZA: Não, imagina. Desculpa eu.
NELSON: Não, imagina. Fui eu que esbarrei em você.
LEIZA: Que é isso? Imagina. Eu é que sou super distraída.
NELSON: Que é isso? Imagina, eu é que sou.
LEIZA: Que é isso? Faz parte.
NELSON: É, faz parte.
LEIZA: É, faz parte.
(silencio. Estão sem graça)
NELSON: Prazer, Nelson.
LEIZA; Leiza.
NELSON: Leiza? Não é Le-í-za?
LEIZA: Não. É Leiza mesmo. Sem acento.
NELSON: Diferente.
LEIZA: Pois é.
NELSON: Você faz o que? Leíza sem acento (riso).
LEIZA(sem achar graça): eu, administro uma empresa de cosméticos.
NELSON: que interessante.
LEIZA: É. Muito. E você?
NELSON: Sou médico. Ginecologista.
LEIZA: Uau. Me dá o seu cartão. (riso tenso).
(Silencio constrangedor)
NELSON: Mas você conhece o noivo ou a noiva?
LEIZA: O noivo ou a noiva? (pequeno constrangimento) Adivinha.
NELSON: Deixa eu ver… Pelo visto você é amiga da noiva.
LEIZA: Por quê? Você é?
NELSON: Não. Do noivo.
LEIZA(aliviada): Eu sou da noiva mesmo.
NELSON: É mesmo? Você é amiga da… Da… Nossa deu branco. Como é o nome da noiva mesmo? Ah, meu Deus. Que loucura, qual é mesmo?
LEIZA: Ah, meu Deus, me deu branco também, peraí… Como é mesmo? Que loucura.
NELSON: E olha que você é amiga dela, hein?
LEIZA: Pois é…é que a gente não se vê há tanto tempo.
NELSON: Eu entendo. Amigas da época da infância.
LEIZA: Na verdade somos amigas da época de bebê. Sabe, eu bebê era muito amiga dela bebê.
NELSON: Que legal. E ela te convidou para o casamento? Que simpático.
LEIZA: Olha só, né? Esses casamentos mega. Eles convidam todo mundo que já passaram pela suas vidas. Um luxo.
NELSON: É para depois eles verem no vídeo como eles conhecem gente.
LEIZA(insegura, mas disfarçando): Pois é… Ah, lembrei. O nome dela é Amanda.
NELSON(disfarçando, fingindo que lembrou também) Amanda! Claro. Amanda!
LEIZA: Amanda!
NELSON. Amandinha.
LEIZA: Amandíssima.
NELSON: Adoro a Amandinha. Imagina, como esquecer? Que loucura.
LEIZA: Loucura total! E você conhece o noivo da onde?
NELSON: O noivo?
LEIZA: É, ele não é seu amigo?
NELSON: Muito amigo, muito amigo. Conheço ele da escola.
LEIZA: Ah, que fofo. Estudaram juntos?
NELSON: Mais ou menos. Eu sou um ano mais velho.
LEIZA: Que simpático.
NELSON: Muito simpático.
LEIZA: ai, gente. Hoje eu não to boa. Qual é o nome dele mesmo?
NELSON: (completamente inseguro) O nome dele é… Rogério.
LEIZA: Rogério, claro!!! Rogério.
NELSON: Olha só. Rogério! Rô Rô para os íntimos.
LEIZA: A Amanda me falava dele antes de casar.
NELSON: Falava do Rogério? Mas vocês não eram amigas de bebê? Será que desde tão nova ela já tinha conhecido o Rogério? (riso histérico)
LEIZA (séria): Pois é. Já. (ele para de rir) E você? Imagino que de tão amigo do Rô Rô. deva ter um monte de segredinhos com ele.
NELSON: Tenho mesmo. Cada história.
LEIZA: Imagino.
NELSON: E vocês, já que eram tão amigas de bebê, devem ter também várias histórias. Tipo: Quem babou primeiro ou quem fez caquinha na enfermeira. (riso histérico)
LEIZA(nervosa): E já que você é tão amigo do Rô Rô, vai lá abraçá-lo. Ele está bem ali falando com aquele grupo de convidados. Que me parecem que são amigos de infância também.
NELSON: Com certeza. Aliás, eu gostaria muito de te ver junto com a Amanda em uma foto para relembrar a época de bebê. Ela e o fotógrafo estão bem ali, fotografando as amigas.
LEIZA: Vai você primeiro.
NELSON: Não, vai você.
LEIZA: Que é isso, vai você.
NELSON: Primeiro as damas.
LEIZA: Que não deve não teme.
(começa a tocar uma musica do Michael Jackson. Beat It)
NELSON: Olha só, escuta. Ta ouvindo essa música?
LEIZA: Claro, o DJ ta fazendo questão que todo mundo escute.
NELSON: Eu vou mostrar a coreografia que eu fazia com o Rogério nos tempos de infância.
LEIZA: Não precisa…
(ele começa a dançar a música bem toscamente. Ela fica constrangida e tenta falar com ele.)
LEIZA: Você está chamando a atenção pra cá. (ri para as pessoas.) É melhor parar. Tá chamando a atenção. (Fala com alguém da festa) Oi, tudo bem? Viva os noivos!
NELSON: Dança comigo. Já que é tão íntima da noiva. Ela vai adorar quando te vir no vídeo dançando.
LEIZA: No vídeo? Não, eu odeio isso…
(Ele a puxa para dançar e dança com ela muito exageradamente , uma dança meio sexy/vulgar. Ela vai se deixando levar e acaba se empolgando. Eles dão um”show”. Terminam de dançar e ouvem os aplausos. Agradecem constrangidos.)
NELSON: Nós arrasamos. Tenho certeza que a Amanda vai ficar muito feliz quando te vir no vídeo.
LEIZA: É. E o Rogério vai poder relembrar a coreô da infância.
NELSON: Olha, lá. O fotógrafo.
(Eles fazem uma pose para a foto)
LEIZA(doida para se mandar): Olha, foi um prazer imenso te conhecer, mas eu tenho que acordar cedo amanhã…
(Entra a voz em off do cerimonialista)
Voz em off: Agora os noivos, Regina e Marcelo, convidam todos para valsa nupcial.
(silêncio. Eles se olham sem graça)
NELSON: Quem é Amanda?
LEIZA: E quem é Rogério… Ou melhor: Rô Rô?
(Cúmplices, se entendem no silêncio)
LEIZA: Eu só queria comer alguns salgadinhos… Eu nunca tinha feito isso… Eu tô tensa… Sabe como é, né? É a crise… Tá foda.
NELSON: Calma, fica tranqüila. Eu já faço isso há anos.
LEIZA: Há anos?
NELSON: É um tipo de compulsão. Sei lá. Minha analista falou que é porque eu nunca tive festa de aniversário na infância. Meus pais achavam fútil.
LEIZA: Que triste.
NELSON: Aí eu desenvolvi a técnica do dançarino. Ninguém desconfia…Pelo contrario, querem tirar foto, me filmar, nem questionam…
LEIZA: Ah, sei… Olha, tudo bem. Vamos fingir que não nos conhecemos.
NELSON: Por quê? Estamos indo tão bem. Olha a foto! (tiram mais uma foto juntos)
LEIZA: Olha, na verdade eu não me chamo Leiza. Meu nome é Vânia.
NELSON: Eu também não me chamo Nelson e não sou medico ginecologista. Na verdade eu me chamo Afonso e sou ator.
VÂNIA: Que ótimo porque eu também não administro uma empresa de cosméticos, sou operadora de telemarketing e vendedora da Avon..
AFONSO: Puxa…
VÂNOA: Pois é…
(silêncio)
AFONSO: Por que logo Leiza e não Leíza?
VÂNIA: É em homenagem a uma tia avó que nunca foi numa festa de casamento.
AFONSO: Uau.
VÂNIA: pois é…
AFONSO: Olha lá, estão servindo a sobremesa. Parece que é brownie com sorvete.
VÂNIA: Brownie com sorvete??? Nossa, eu amo. Essa eu não posso perder. A gente se esbarra por aí.
AFONSO: De repente a gente se encontra numa outra festa…
VÂNIA: De repente. Ei, garçom!
(ela sai atrás da so
bremesa e ele fica sozinha na pista de dança. Na cara de pau, vai falar com o noivo)
AFONSO(indo para fora da coxia): Marcelo!!! Gostou da dançinha? Tão tão feliz por você…
FIM.
Ambervison
(Para: 4 mulheres e dois homens, um homem vestido de mulher)
Era chegado o grande dia! Hoje todas as moças casadoiras estavam asseadas, excitadas, preparadas para quem sabe se tornar a mais nova senhora do local. Dona Katia estava ansiosa, arrumava as cinco filhas loucamente. Todas deviam estar lindas no grande momento.
Dona Katia fez de tudo por suas meninas, abandonou até sua promissora carreira na MPB.
(Foco de luz em Katia diante de um pedestal cantando trecho de “não está sendo fácil”. É importante lembrar que ela erra o microfone ao dublar.)
Realmente a vida de Dona Katia não foi fácil. Seu marido, por quem ela era cega de amores, foi sair para trabalhar. Ele ganhava a vida fazendo cover de Steve Wonder em bailes de formatura. (aparece ator com óculos escuros)
Katia – Vá com Deus, querido! (pequena pausa) Deus é amor. O amor é cego. Você é cego! Você é Deus! (ator Steve ri, beija a mulher balbuciando “What a Wonderful World”)
Mas, no momento de atravessar a Rua.
(ator Steve como se estivesse na calçada)
Katia – Honey!
(ator Steve vira a cabeça na direção de Katia, ou não)
Katia – I just call to say I love you!
Steve – Baby, you´re the sunshine of my life!
E depois de se despedir e colocar o fone do seu walkman no ouvido ao pisar na rua, um caminhão desgovernado atropela o marido de Katia.
(Luz alta no rosto do ator Steve. Estrondo. Elenco faz uma meia lua na frente do ator para que ele possa sair de cena. Kátia canta chorando mais um trecho de “não está sendo fácil”. Filhas acompanham chorando.)
Mas as dores ficaram no passado. Agora a expectativa reina, porque hoje é o grande dia. Hoje o filho do traficante mais quente do pedaço… Ops, o filho do deputado, vai escolher uma noiva! (Filhas de Katia suspiram) No grande baile do Pancadão do Morro das Lacraias Uivantes.
(Luzes piscam. Música. Atores começam a dançar. Pausa. Mulheres fazem fila se apresentando para o príncipe.)
Atriz 1 – Oi meu nome é Ariel faço natação desde criança. Meu sonho é chegar na igreja saída de um carro rabo de peixe. Ah, sei fazer uma moqueca ótima!
Atriz 2 – Oi meu nome é Aurora, eu acho que a felicidade é química. Conheço uns comprimidos muito loucos. Um dia tomei um coquetel de lexotan e tive a sensação de ter dormido por uns 100 anos.
Atriz 3 – Como você pode notar eu sou a Bela! Não sou superficial, adoro ler revistas, especialmente a parte das figuras. Também adoro aventuras em lugares distantes, de preferência os cruzeiros onde o Roberto Carlos faz show. E olha só, nem vem dando uma de monstro para cima de mim porque eu viro uma fera.
Atriz 4 – Oi Meu nome é Branca. Posso assegurar que quase não darei despesas porque tenho umas sete empregadas que são pequenininhas e ótimas. Elas limpam muito bem o chão e as prateleiras de baixo, uma beleza.
Príncipe – (com um olhar para o além) Papai, eu não quero mais ouvir uma palavra dessas estrupícias. Eu disse que a melhor opção era procurar uma agência de relacionamentos, mas o senhor não quis me ouvir. Minha pele está ficando cansada, papai. Vamos fazer um concurso de dança! A primeira que descer até o chão será minha noiva.
(As filhas de Katia começam a descer até o chão loucamente. A filha que desce mais é o menino vestido de mulher.)
Príncipe – (Faz um sinal para a música parar) É você a escolhida meu anjo! (falando no ouvido da escolhida) Apareça na calada da noite no meu quarto, e leve um copo de leite morno para mim, se quiser mesmo ser a futura rainha do baile.
O grande baile foi encerrado. Dona Katia colocou as filhas para dormir e ficou assistindo ao corujão na sala.
A grande escolhida não conseguia dormir. Revirava na cama pensando na ameaça do príncipe. Decidiu sair. Colocou um véu para não ser reconhecida e óculos ambervision. Passou por trás da mãe sem que ela visse. Pegou uma garrafa de leite fervendo, fez uma ligação direta no fusca abóbora da vizinha e saiu rumo ao palácio.
Nos aposentos do príncipe:
Príncipe – Eu sabia que você viria!
Escolhida – Trouxe o seu leite.
Príncipe – Tire esses óculos.
Escolhida – Para quê?
Príncipe – Para eu ver você melhor!
Príncipe – Tire o véu.
Escolhida – Para quê?
Príncipe – Para eu sentir você melhor!
Escolhida – (deixando escapar a voz grossa) Seu leite vai esfriar.
Príncipe – O que houve com a sua bela voz? Está resfriada.
Escolhida – Não. Foi um acidente. Quando eu era menina caí feio do balanço e desloquei a glote, o que causou profundas alterações nas minhas pregas… vocais.
Príncipe – Não precisa dizer mais nada! (Pega escolhida para uma clássica cena de beijo de cinema, mas percebe que ela é homem) O que é isso?
Escolhida – Uma hérnia. No acidente, fiz muita força para levantar depois que caí do balanço.
Príncipe – Sua caloteira! Suma daqui!
(Escolhida imobiliza Príncipe amordaçando-o)
Escolhida – Agora, vamos conversar um pouquinho sobre mim. Um dos meus passatempos preferidos é Ikebana, a arte japonesa do arranjo floral. Como esse é meu hobby desde criança tenho uma tesourinha que ganhei da mamãe. (exibe tesoura de cortar grama) Veja que relíquia, meu bem. Cada sujeito que me faz infeliz eu corto um pedacinho dele. Para ele aprender a nunca mais despedaçar meu coração. Como hoje você foi muito malcriado vou cortar um pedacinho da sua língua. (marca para Escolhida cortar a língua do príncipe) Mais uma coisa meu bem, às vezes a gente demora muito para enxergar o amor. Mas, eu devo dizer para você, querido: o amor é cego. (joga o leite fervendo nos olhos do príncipe cegando-o)
(Música. Marcação de casamento o príncipe não consegue dizer sim, Escolhida empurra a cabeça dele para que ele aceite casar.)
E o príncipe e sua escolhida viveram cegos de amores e infelizes para sempre.
UNHAPPY END
As gêmeas
Off. Buba e Babi eram um casal de gêmeas bastante peculiar: exceto a aparência, elas não tinham absolutamente nada a ver uma com a outra. Buba era a gêmea má.
Buba – Má. Muito má. Um exagero de má! (SOLTA UMA GARGALHADA DE VILÃ)
Babi era a gêmea boa.
Babi – Boa. Muito boa. Gostosa demais! (INSINUA-SE PARA O PÚBLICO)
Off. Depois que nasceram, ainda muito pequenas foram levadas por sua madrasta para um circo. Lá foram criadas sem cerimônia e eram largadas soltas no picadeiro. Buba, com apenas 5 anos, vivia entre os leões.
Buba – Má. Muito má. Um exagero de má! (SOLTA UMA GARGALHADA DE VILÃ)
Babi era a gêmea boa.
Babi – Boa. Muito boa. Gostosa demais! (INSINUA-SE PARA O PÚBLICO)
Off. Depois que nasceram, ainda muito pequenas foram levadas por sua madrasta para
um circo. Lá foram criadas sem cerimônia e eram largadas soltas no picadeiro. Buba,
com apenas 5 anos, vivia entre os leões.
Buba – (COM UM PEDAÇO DE BIFE NAS MÃOS) Vem, gatinho! Psispisisipsis.
(PSICOPATA) Vem cá, que eu tô mandando!
Off. Babi ficava sentadinha comendo pipoca enquanto assistia o número dos palhaços no
picadeiro.
Babi – (SOLTA UMA GARGALHADA) Mais! Mais! Mais!
Off. Adolescentes, por causa de sua semelhança tão gritante, as duas irmãs começaram a
trabalhar como bailarinas-acrobatas e faziam um enorme sucesso entre o público, que lotava todas as sessões para assistir Buba e Babi. No entanto, a fama inesperada começou a semear a discórdia entre as duas, a mais pura e sombria inveja.
AS DUAS TREINAM O NÚMERO.
Babi – (PENSANDO ALTO) Tô sentindo uma coisa tão estranha, uma vontade de ser
muito melhor que a Buba. Será que isso é normal?
Buba – (PENSANDO ALTO) Tô sentindo uma coisa tão boa, uma paz, uma vontade de
assassinar a Babi.
Babi – (CONFUSA) Cobiça é a pessoa querer aquilo que a outra tem.
Buba – (DECIDIDA) Inveja é a pessoa querer que a outra não tenha aquilo que ela tem.
Off. Respeitável público, com vocês, Buba e Babi as bailarinas de Graiscow!
E OUSAM NAS COREOGRAFIAS. BUBA TENTA SABOTAR A IRMÃ NOS NÚMEROS,
TENTANDO ASSASSINÁ-LA. BABI, POR SUA VEZ, EXIBE AS PERNAS PARA O
PÚBLICO E PREJUDICA AS MARCAÇÕES DE BUBA. FINAL DA APRESENTAÇÃO E QUEBRA-PAU ENTRE AS IRMÃS.
Babi – Tá acontecendo alguma coisa? Você quer conversar?
Buba – Assim não dá, você pisou no pé três vezes.
Babi – Desculpa, mas você também quase me decapitou no número com a foice.
Buba – Você está sempre se fazendo de vítima.
Babi – Eu não estou acusando você de nada. (MAIS FORTE DO QUE ELA) Assassina!
Buba – Ah, finalmente falou.
Babi – Olha, confesso que eu fiquei um pouco chateada com você mesmo. (IMPULSO DE
SINCERIDADE) Homicida!
Buba – Se você repetir essa barbaridade mais uma vez, eu vou partir a tua cara e o único
número que você vai ser capaz de fazer é a Conga.
Babi – Você está sendo muito injusta comigo. Que papelão. (CUSPIU) Serial Killer!
Buba – Chega! Acabou. Cansei dessa palhaçada.
Babi – Pois eu também cansei.
Ambas – Acho melhor a gente se separar.
Off. Buba e Babi seguiram em suas carreiras solo, mas nunca conseguiram fazer o
sucesso de outrora. De estrelas de Graiscow, Buba e Babi foram rebaixadas à função
mais ordinária e repugnante do circo: cortar os pelos da Mulher-Barbada. Humilhadas,
as gêmeas fugiram do circo e, cada uma em seu canto, abriram um salão de cabeleireiro
onde disputavam à tesoura os moradores da cidade.
INTERAGEM COM O PÚBLICO.
Buba – (PARA UMA FREGUESA. PSICÓTICA) Se você fizer essa escova com a minha
irmã de novo, eu te mato, hein!
Babi – (PARA UM FREGUÊS) Deus que me perdoe, mas quem cortou o cabelo do senhor?
De longe parece um figurante de algum filme de terror. Minha-Nossa-Senhora!
AS DUAS IRMÃS, DEPOIS DE ANOS, FINALMENTE SE REENCONTRAM.
Ambas – Finalmente.
Babi – Você não tem vergonha de ameaçar os clientes, não? A Dona Lurdes deu queixa na
polícia ontem.
Buba – Ela tinha que se queixar era do corte que você fez.
Babi – Eu acho muito feio esse corpo a corpo que você faz com o povo. Fiquei sabendo da
chave-de-braço que você deu no menino de 7 anos ontem porque ele raspou a máquina
zero comigo.
Buba – Agora a heroína do século XIX vai querer me dar lição de moral. Aos olhos da
mídia eu sou a vilã, mas você sempre teve inveja de mim.
Babi – Inveja, não! Cobiça. São coisas completamente diferentes.
Buba – Pois pra mim é tudo mal-caratismo.
Babi – Cobiça é a pessoa querer o que a outra tem. Inveja é a pessoa querer que a outra
não tenha aquilo…
Buba – (CORTANDO) Chega de blá blá blá. Você tá sempre querendo me ensinar a
cartilha. Na sua opinião eu sou uma jumenta, incapaz de entender qualquer coisa sozinha.
Babi – Não, eu nunca falei isso. Pra variar, você está colocando palavras na minha boca.
Eu só acho que você tem o seu tempo de aprendizado particular, é uma deficiência que
independe da pessoa, você não é culpada.
Buba – Eu quero que você feche o seu salão.
Babi – Há!
Buba – Mude de profissão.
Babi – Hahá!
Buba – E vá embora dessa cidade.
Babi – Hahaha!
Buba – Pra mim sempre foi insuportável ser tão, tão, tão parecida com você. Acordar
todos os dias e ter que me deparar com alguém que só queria ser melhor do que eu. Uma
esponja sugando toda a minha energia.
Babi – Pois você acha que era fácil pra mim sempre ser confundida contigo no colégio, no
mercado, no shopping? Não, eu sou a Babi. Você deve estar me confundindo com a minha
irmã, é que nós somos gêmeas. Você se usou disso para roubar o Geraldinho de mim!
Buba – Eu pensei que Geraldinho fosse um assunto resolvido.
Babi – Foi um trauma pra mim.
Buba – O Geraldinho já virou comida de leão a muito tempo.
Babi – Eu não quero mais ser sua irmã.
Buba – Há!
Babi – Mude de fisionomia.
Buba – Hahá!
Babi – E vá embora dessa cidade.
Buba – Hahaha!
Babi – Embora sejamos gêmeas, eu não nasci grudada em você.
Buba – É, podia ter sido muito pior, termos sido gêmeas siamesas.
Off. Respeitável público, com vocês, Buba e Babi as bailarinas de Graiscow!
E AS DUAS IRMÃS RELEMBRA-SE DE TODO O SUCESSO JUNTAS NUM FLASH-BACK
DE MEMÓRIA. ELAS FAZEM OS NÚMEROS DO INÍCIO COMO SE FOSSEM GÊMEAS
SIAMESAS E É UM CAOS.
Babi – Eu nasci primeiro. Seja delicada e vá embora. (CAI EM PRANTO) Por favor, eu só
quero ser feliz. Eu sinto muita saudade de nós duas.
Buba – (SENSIBILIZADA) Não fica assim também.
Babi – Não quero mais brigar com você. Eu abro mão de tudo pela sua felicidade. (PEGA
UMA GARRAFA DE VINHO) Mas antes de ir embora, eu queria fazer um brinde a nossa
amizade. Vamos fazer as pazes?
Buba – Muito esquisito. Por que você mudou de idéia tão rápido?
Babi – Porque eu sou a gêmea boa e estava me comportando como uma vilã. (SERVE O
VINHO E DÁ A TAÇA A IRMÃ)
Buba – Você sempre quis roubar o meu papel. (BEBE) No fundo, eu também queria ser a
mocinha.
BABI SOLTA UMA GARGALHADA DE VILÃ AO VER QUE A IRMÃ BEBEU O VINHO.
Babi ??
? Como você foi idiota, Buba.
BABI MOSTRA UMA VIRADA DE CARÁTER ESPETACULAR.
Babi – Sabe este vinho que você acabou de beber? Está envenenado. Tcharam!
Buba – Óh! (MALÍCIA) Será?
Babi – Como assim?
Buba – Eu já sabia de tudo. Você não sabia que eu já sabia que você não sabia que eu
troquei o vinho por corante no início da cena. Na verdade, Babi, nós não somos irmãs
gêmeas. Tcharam!
Babi – Óh! (MALÍCIA) Será?
Buba – Como assim?
Babi – Eu sempre soube que nós não éramos gêmeas. Eu fingi acreditar nesta fábula para
te enlouquecer. O que você nunca soube, Buba, é que na verdade eu não sou mulher. Eu
sou homem! Tcharam!
Buba– Óh! (MALÍCIA) Será?
Babi – Como assim?
Babi – Eu já sabia desde o início que você era um homem. O que você não sabia é que na
verdade eu não sou humana. Eu sou um holograma e este corpo é apenas a projeção dos
seus pensamentos… Tcharam!
PANE GERAL.
Buba– Óh! (MALÍCIA) Será?
Babi – Tcharam!
Buba– Óh! (MALÍCIA)Tcharam!
Babi – Será?
Buba– Óh! Será?
Babi – Tcharam!
(…)
A LUZ CAI EM RESISTÊNCIA.
Maçã do amor
Personagens:
Breno: Belo moço, com casaca e cravo na lapela.
Seu Osvaldo: Calado. De costas.
Dona Deise: Ainda atraente para a idade que tem.
Rosane: No quarto.
(depois de um longo silêncio, ousou dizer)
Breno: Quero agradecer mais uma vez pela a confiança do senhor…
(sem resposta)
Breno: De verdade. A Rosane é uma moça especial. Especialíssima. E eu a respeito muito.
(sem resposta)
Breno: Estaremos aqui antes de meia noite. Honrarei com a confiança que o senhor depositou em mim.
(sem resposta)
Breno: Rosane é especial.
(sem resposta)
Breno: Eu gosto dela… E por isso muito a respeito. Não pretendo apressar as coisas entre nós…
(sem resposta)
Breno: Rosane é formidável. O senhor deve se orgulhar muito dela, não é?
(sem resposta)
Breno: Eu me orgulharia… Não que o senhor não se orgulhe, não é isso que eu quero dizer… Eu também me orgulharia em ter um pai como o senhor. Sem dúvidas. Me orgulharia muito. Muito mesmo. Porque daí eu seria uma moça assim… Como a Rosane… Não que eu queira ser uma moça, não! É que a Rosane…. Enfim… Ela é uma moça tão… Tão… Educada.
(sem resposta)
Breno: E muito bonita… A casa do senhor… É muito bonita.
(sem resposta)
Breno: Ampla…
(sem resposta)
Breno: De fora não parece… (sorri débil)
(sem resposta)
Breno: (constrangido) Não que pareça pequena… Não é isso… É que não parece tão grande… De fora… Mas de dentro… É diferente…
(sem resposta)
Breno: Será que a Rosane já está pronta?
(surge dona Deise)
Dona Deise: (com uma bandeja e um copo) Um refresco de tangerina. Gosta, Breno?
Breno: (sorri) Não precisava, dona Deise…
Dona Deise: De modo algum. Você está com quantos anos?
Breno: 17.
Dona Deise: Hum… Lástima, eu poderia misturar com gin, mas na sua idade…
Breno: Não é necessário, obrigado.
Dona Deise: Osvaldo te importunou muito com seu fatigante ponto de vista a respeito das coisas?
(Osvaldo em silêncio)
Breno: Não. Seu Osvaldo é uma companhia adorável.
Dona Deise: (explode numa gargalhada) Adorável? (acendendo um cigarro) Você realmente é um querido, Breno. Um querido! (oferece o cigarro)
Breno: Obrigado, não fumo.
Dona Deise: É de menta.
Breno: Realmente, eu não fumo.
Dona Deise: Nem de menta?
Breno: Nem de menta.
Dona Deise: Rosane está no quarto. Passou a semana toda se cuidando pra ficar bem bonita…
Breno: Impossível… (percebendo a mancada) Quer dizer, impossível ela ficar mais bonita do que já é…
Dona Deise: Eu entendi, meu querido.
Breno: Posso…? (ao refresco)
Dona Deise: Claro, Breno. Fiz pra você. (sorri maliciosa)
Breno: (se servindo) Acabava de falar com seu Osvaldo o quanto a Rosane é especial. Um biscoito fino.
Dona Deise: Rosane… (solta a fumaça do cigarro de forma quase vulgar)
Breno: (suando nas têmporas) Falava também da casa. Muito bonita. Ampla. (bebe)
Dona Deise: (se aproximando dele com olhar fixo)
Breno: (constrangido com a proximidade) A casa é realmente… Grandona…
Dona Deise: (mais próxima)
Breno: (paralisado sem entender) A casa é diferente… Ampla… Eu já disse ampla? (ri sem graça) Mas é mesmo. Muito ampla…
Dona Deise: (bem próxima ao rosto do rapaz, sentindo o vapor de sua respiração)
Breno: (tenso com a audácia da mulher frente ao marido) Eu achei bem… Bem… Como se diz…? É… Bem…
Dona Deise: (com seu olhar de aranha) Uma espinha…
Breno: O que?
Dona Deise: (bem próxima) Tem uma espinha aqui, na pontinha do seu nariz…
Breno: Sério?
Dona Deise: (faz que sim)
Breno: (ainda com a mulher em cima de seu rosto) Que lástima…
Dona Deise: Posso espremer?
(sem resposta, a respiração cada vez mais tensa do rapaz)
Dona Deise: (manhosa) Deixa… Eu gosto… Por favor…
Breno: (virginal) Vai marcar… Melhor não…
Dona Deise: (sinuosa) Deixa… Marcas são provas extremas da frivolidade viva dos nossos dias… Não vai doer… Deixa…
Breno: (faz que sim)
Dona Deise: (debruça delicadamente suas unhas azuis na ponta do nariz do rapaz. Espreme a espinha. Limpa a sujeira com seu lencinho bordô, retirado do decote) Viu? Nem doeu…
Breno: (levanta-se aflito) A Rosane está demorando…
Dona Deise: O primeiro baile é o primeiro baile.
Breno: Mas já são dez para as nove… Daqui a pouco não chegamos a tempo…
Dona Deise: A tempo de que…?
Breno: (desconcertado) Ah… Não sei… A tempo de… Dançar… Beber… Um pouco… Beber só um pouco…
Dona Deise: Ora, não seja por isso… Façamos uma prévia do baile por aqui…
Breno: Oi?
Dona Deise: (colocando um disco na vitrola) Podemos dançar um pouco… Faz um tempo que não danço… Osvaldo não gosta… Osvaldo não gosta de nada…
Breno: Não sei se é um bom momento, dona Deise…
Dona Deise: (dançando enquanto fuma.) Nunca é um mau momento para dançar… Dançar é divino, celestial… Os anjos dançam o tempo inteiro enquanto os homens dizem amém! Vem… (puxa o rapaz que se vê compelido a dançar)
Breno: Será que a Rosane vai demorar muito ainda?
Dona Deise: (dançando colada ao rapaz) Rosane aprendeu a dançar comigo, sabia? Eu sou uma boa professora…
Breno: Ela está demorando tanto, não seria melhor a senhora ir chamá-la?
Dona Deise: Não sei se Rosane é uma boa aluna… Ensinei tudo de perto… Dei boas aulas de conduta e a importante capacidade de ser superior às coisas pequenas que nos magoam tanto…
Breno: Rosane deveria ter tido aulas de pontualidade! (ri amarelo)
Dona Deise: Rosane é ruim de aprender as coisas… Entra num ouvido e sai no outro… Eu também falei da pontualidade e da importante capacidade de superar pequenos obstáculos da vida… Você poderia me dizer…
Breno: O que a senhora quer saber?
Dona Deise: Se Rosane foi uma boa aluna com você…
Breno: Na escola?
(os dois sempre dançando)
Dona Deise: Nas coisas práticas da vida… Ela fez jus às boas aulas que dei?
Breno: Não compreendo…
Dona Deise: (sofrida) Me sinto tão fracassada… Me sinto tão frustrada com tudo isso, me perguntando onde foi que eu errei…sabe?
Breno: A Rosane é uma grande garota…
Dona Deise: Eu fui uma péssima professora…
Breno: Não a senhora não foi, dona Deise…
Dona Deise: Deise. Me chama só de Deise…
Breno: Deise?
Dona Deise: Era um nome de uma personagem trágica num conto de inverno…
Breno: De Quem?
Dona Deise: De quem era o conto?
Breno: Não. De Quem a senhora está falando?
Dona Deise: Rosane.
Breno: A personagem trágica…?
Dona Deise: A autora do conto de inverno.
Breno: A senhora deu o nome da autora sua filha…
Dona Deise: Deise. A autora se chamava Deise.
Breno: E a personagem: Rosane?
Dona Deise: Exatamente.
Breno: E ela acaba como?
Dona Deise: Morta.
Breno: A personagem trágica do conto de inverno?
Dona Deise: Não. Rosane, a minha filha, dentro do quarto, se enforcou hoje às cinco e meia.
Breno: (tomado por uma vertigem assombrosa. Num
sopro) O que?
Dona Deise: (chora) Eu não fui uma boa professora, Breno… Eu fracassei…Me perdoa, ela não vai ao baile com você.
Breno: Rosane… Rosane…
( tomado pelo sinistro impacto da revelação, vai em direção ao quarto da jovem)
Dona Deise: (chorando, corroída pela dor) Eu não fui uma boa professora, Breno… Me perdoa!!!!!
( Breno abre a porta. Breno num grito profundo.)
Dona Deise: (possessa de forma animalesca, bradando frente ao marido) A culpa foi sua, Osvaldo! A culpa foi sua!!!!! Eu odeio você! Eu odeio você!!!!
( Breno apavorado, cambaleando pela casa em estado de choque )
Dona Deise: (na sinceridade de sua dor de mãe. Possuída pelo ódio) Eu odeio você, Osvaldo! Eu odeio você!!!!! Eu odeio você!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
(na vitrola o disco rodando furioso, em alto volume, embalando o cadáver de Rosane, que como um pêndulo, dança no ar, vestida de debutante.)
Fim.
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo