Idas e vindas
Personagens:
Nádia: Quarenta anos, solteira. Se veste sobriamente e se comporta como uma senhora.
Diná: Oitenta anos, solteira. Se veste como uma típica senhora de Copacabana.
Um apartamento cheio de caixas, com alguns móveis já desembalados, todos meio antigos. Toca o telefone.
Nádia- Já vai. Já vai! Alô… Não! Pela décima vez, eu já disse que não tem nenhuma Maria de Lourdes! Desliga. Que maçada!
Toca de novo.
Nádia- Mas será o Benedito? (Atende) Escuta aqui, seu mequetrefe, se você continuar ligando pra cá eu vou lhe passar uma carraspana que vai fazer você se arrepender de ter saído do útero da sua mãe no infeliz dia do seu nascimento! (pausa). Oi tia. Desculpa. Não, tia. Não tem nada de errado com o útero da vovó não, é que eu achei que fosse outra pessoa. Tia… Tia, eu já disse que não tem nada com o útero da vovó, até porque ele já não existe há mais de dezessete anos! O quê? Ta, ta tudo bem. To só um pouco cansada com essa mudança. Não tenho mais idade pra isso não. Se o prédio é bonito? É meio bocomoco, mas a gente se acostuma, né? Pelo menos o apartamento é bom e eu consegui me livrar daqueles arruaceiros lá da Ronald de Carvalho. (Numa crescente irritação) Ai, finalmente. Aquele lugar parecia uma selva! Era britadeira de dia, batucada de tarde, boogie woogie de noite e bengalafumenga a madrugada inteira. Olha, se eu não saísse dali por espontânea vontade, sairia algemada por assassinato em primeiro grau seguido de esquartejamento!!! (pausa) Eu to calma tia, eu to calma! Eu só preciso descansar um pouco. E agora as coisas vão melhorar. Paz e silêncio. É tudo o que eu preciso pra me recuperar do estresse e voltar a escrever.
Entra um funk em volume altíssimo!
Nádia: Ai, minha Santa Genoveva, eu não acredito. Tia, eu te ligo depois. Eu acho que a Ronald de Carvalho inteira ficou com saudades e resolveu me dar uma festa de boas vindas em cima da minha cabeça!
Nádia interfona para a portaria.
Nádia- Seu José, o senhor poderia pedir para o rapaz do 304 abaixar o som? Ah… não é rapaz? Então pede para essa mocinha… Ah… Não é mocinha? (Grossa) Então pede para esse traveco tirar essa música horrorosa, antes que os meus tímpanos sofram uma ruptura irreversível!
Nádia desliga na cara do porteiro. O som some por um tempo. Nádia faz cara de alívio. Daqui a pouco o som volta à toda.
Liga de novo.
Nádia- Seu José! Pediu? E ela disse o quê? Não entendeu? É uma traveca surda por acaso? Fala com a síndica! Ela é a síndica? Onde é que eu fui amarrar o meu bode? Me disseram que essa era um prédio tranqüilo. De idosos. Escuta aqui, seu José, o senhor fala de novo ou eu não respondo por mim!
A música pára de novo. Nádia senta aliviada. Ouvimos agora um som de móveis se arrastando.
Nádia- Só pode ser piada.
Interfona.
Nádia- Seu José! Pede para essa maluca mudar os móveis de lugar numa hora apropriada! No meu relógio já são dez e três da noite. E caso ela não saiba, a lei do silêncio começa a vigorar ás dez! Não é dez e um, nem dez e dois, nem dez e três. É às dez! O senhor me faça o favor de interfonar agora, senão eu vou pessoalmente enfiar uma batedeira no ouvido dela!
Ela desliga. O barulho pára. Passam-se alguns segundos. Ouvimos o barulho de batidas no chão.
Nádia: Ah, não. Estão abusando da minha boa educação. Será que eu vou até ter que arrumar um charivari logo no meu primeiro dia nesse prédio? É o fim da picada.
Nádia batendo à porta de Diná. Diná abre. É uma senhora meiga com um rostinho ingênuo. Nádia olha para a senhora e para dentro de sua casa.
Diná: Pois não?
Nádia- Eu acho que eu toquei errado. Desculpe eu devo ter acordado a senhora.
Diná- No problems, querida. (e fecha a porta)
Nádia dá um passo e o barulho volta. Ela olha em volta. Se dá conta de que o barulho vem do apartamento de Diná mesmo. Toca novamente.
Diná- (Simpática) Errado de novo?
Nádia- Esse aqui não é o 304?
Diná- Até hoje sim!
Nádia- A senhora…
Diná: “Você”, querida. Por favor, me chame de você. Meu nome é Diná.
Nádia: A senhora mora sozinha?
Diná- (Olhando para dentro e vê seu aquário) Não. Moro com a Gilda…
Nádia- Ah, então ta explicado. A senhora pede, por favor, para a sua netinha fazer menos barulho porque eu preciso dormir. E caso ela não conheça a lei do silêncio, que passe a conhecer! Passe bem!
Diná vai responder, mas Nádia sai rápido. Nádia volta para o seu apartamento e coloca novamente a camisola e se deita. Diná vai até o aquário onde se encontra um Beta e conversa com ele.
Diná- (Rindo) Tá vendo, Gilda! Borbulhar mais baixo, entendeu?
Virose em Copacabana
Queria escrever sobre Copacabana, falar das dores, amores, violências, belezas, poesia e trsiteza.
Queria falar dos turistas e dos meninos de rua.
Queria falar da terceira idade e da nova juventude.
Queria falar da calmaria do Bairro Peixoto e da loucura da Nossa senhora de Copacabana.
Queria falar da sujeira da madrugada e da alegria das manhãs nas praças.
Queria falar da Praia e do Forte.
Das favelas e dos Becos.
Queria falar sobre um monte de coisas.
Mas agora nesse instante só consigo falar e escrever sobre essa virose , doença incógnita, que me assola e me impede de escrever sobre Copacabana, bairro em que vivo.
Porém, prometo que assim que estiver melhor, e espero que seja breve, volto aqui e escrevo meu texto sobre Copacabana.
Agradeço a compreensão.
Um grande abraço, a autora.
Eu vou correndo buscar a Glória
Som de campainha. Candy abre a porta Hardy entra. Abraçam-se.
Hardy: Então é aqui.
Candy: Não é tão terrível quanto parece.
Hardy: Não foi o que eu disse.
Candy: Foi o que você pensou, aposto. Sua chegada foi uma surpresa para mim. Não tive tempo de arrumar nada.
Hardy: Há 30 dias escrevi dizendo que viria.
Candy: Você sabe que minha memória é volúvel.
Hardy: Escrevesse na mão para se lembrar.
Candy: Não consigo ficar 30 dias sem tomar banho.
Hardy: Uma pena, você nunca me surpreende. Detesto saber exatamente a dramaturgia pessoal de alguém. Eu pensei: eu chegarei, ela estará desorganizada, assim como a casa e seus cabelos. Você insiste nesse corte. Já disse várias vezes que te dá ares de desequilibrada. Você já tem olheiras, querida.
Candy: Quer um copo d´água?
Hardy: Agora estou quase surpresa. Geralmente as pessoas oferecem café.
Candy: Sei que você não bebe café, que teve uma úlcera no passado e que oferecer um copo d´água é um modo prático para você fazer silêncio. (pausa) Natural ou gelada?
Hardy: O quê?
Candy: Você quer água natural ou gelada.
Hardy: Gelada. Detesto viajar. Meu estômago está queimando.
Candy: Sei. Uma queimação até a garganta, um nó estrangulando o esôfago banhado num mar de suco gástrico, uma espécie de ácido sulfúrico que corrói suas entranhas e canta para sua mucosa bye ,bye, baby, bye, bye. (entre dentes) Detesto saber a dramaturgia pessoal de alguém.
(Hardy bebe a água gemendo)
Candy: Quer um remédio?
Hardy: Você sabe que só acredito em homeopatia.
Candy: Eu não acredito em nada. Mas, as bulas de remédio me divertem.
Hardy: Acho que nossa conversa não precisa ser tão dura.
Candy: Estou tentando. Minha essência é agressiva.
Hardy: Você comprou os jornais? Está procurando.
Candy: Estou, mas tenho dificuldades. Não tenho vontade de morar nos bairros onde fiz sexo. Não sei lidar com quem já vi sem roupa. Sou supersticiosa, não pego os ônibus que passam pelos bairros onde meus ex-amantes moram. Pensei em mudar de cidade para recomeçar. Achei um apartamento barato na Glória… Não consegui olhar. Um dia corri da Benjamin Constant até o relógio chorando, quase fui atropelada pelo 571, meu fone de ouvido tocava eu vou correndo buscar a glória.
Hardy: Que bobagem.
Candy: Quando vi o anúncio, a música não me saía da cabeça. O Cathete me diverte, é um bairro com th. No Flamengo tem o morro azul. No Largo do Machado eles roubam até cabelo de crente. Tenho pânico de Copacabana, Ipanema e sua garota me enervam, não lido bem com a Gávea, acho que ela é apenas um disfarce de Icaraí. Tenho certeza que a Gávea fica em Niterói. A Gávea é o blefe da zona sul. Assim como o aterro do Flamengo, uma versão pockett do Piscinão de Ramos. O Leblon me atrai. Aquele IPTU alto. Uma janela para Manoel Carlos outra para Ney Matogrosso, as calçadas cheias de labradores e suas dondocas plastificadas com chinelos de dedo Marc Jacobs. O Leblon é o encontro com a paz, com as verdades do mundo. Porque o mundo, mamãe, é falso.
Hardy: Senti falta do seu senso de humor.
Candy: Sou muito espirituosa. Quanto tempo você vai ficar?
Hardy: O suficiente. (pausa. Abre a bolsa e pega o cheque) Aqui está o cheque. A sua parte da herança. (entrega o cheque para Candy) Tenho que voltar para o aeroporto. Detesto essa cidade. Não sei como você agüenta viver aqui.
Candy: Eu não agüento. Insisto apenas porque tenho prazer em me torturar.
Hardy: Por favor, querida compre um apartamento e procure um emprego. Escrever livros infantis é um hobby para donas de casa. Preste um concurso público ou trate de arrumar um marido. Eu não queria dizer isso. Mas, meu instinto pediu.
Candy: Acho que não conseguimos ter uma conversa leve.
Hardy: Trouxe essas guloseimas que ganhei no avião para você (entregando para Candy. As duas se abraçam e choram baixinho) Sugar. Oh honey, honey! You´re my candy girl! (pausa) Desculpe alguma coisa… (sai do abraço. Candy abre a porta despedindo-se. Hardy sai. Elas nunca mais se encontrarão novamente).
FIM
Meu amor não chega em Olaria
Em parceria com André Boucinhas
Ela – Você me ama?
Ele – Mais que tudo
Ela – Faria qualquer coisa por mim?
Ele –Qualquer coisa.
Ela – E se eu fosse gorda?
Ele –Amaria do mesmo jeito,
Ela – E se eu fosse banguela?
Ele –Mais ainda.
Ela – Se eu fosse baixinha.
Ele –Tesão.
Ela – Se eu tivesse 6 dedos na mão direita.
Ele –Por que não na esquerda também!
Ela – E se eu morasse em Olaria?
(pausa)
Ele –Como?
Ela – Se eu morasse em Olaria?
Ele –Você nunca moraria em Olaria.
Ela – Mas e se eu morasse?
Ele –Essa possibilidade não existe.
Ela – É uma hipótese, como todas as outras…
Ele –Querida, morar em Olaria não é uma hipótese, é um pesadelo.
Ela – Você não iria até Olaria me ver?
Ele –Depende.
Ela – Do quê?
Ele –De carro?
Ela – Ônibus.
Ele –Sem trânsito?
Ela – Com.
Ele –Uma vez por semana?
Ela – Todos os dias.
Ele –Mas a gente vai fazer sexo todos os dias?
Ela – Se fizer, você vai?
Ele –Não sei.
(pausa)
Ele –Não pode ser só em casos urgentes, tipo uma epidemia de Ebola? Se for isso, eu vou.
Ela – Vai nada. Vai ter medo de se infectar.
Ele –E com toda a razão, ebola é muito contagioso.
(pausa)
Ele –Não.
Ela – Não?
Ele – Não dá, desculpa.
Ela – Como assim?
Ele –Meu amor por você não vai até Olaria..
Ela – Não???
Ele –Serve Tijuca?
Ela – Não.
Ele –Meu amor só vai até a Tijuca.
Ela – Só?
Ele –No máximo. E se for perto do túnel, porque longe eu me perco.
Ele –Licença poética.
Ela – Licença poética??? O seu amor não envolve nem me ver ali do lado?
Ele –”Ali do lado”???
Ela – Licença poética.
(longa pausa)
Ele –E você?
Ela – Eu o quê?
Ele –Até onde vai a sua paixão por mim?
Ela – Agora não sei mais, porque…
Ele –Não enrola.
Ela – Ipanema.
Ele –Mas você mora em Ipanema!
Ela – Você também!
Ele –Isso não vem ao caso.
Ela – Por que eu iria a outro lugar se você mora aqui???
Ele –E se eu me mudasse para Olaria?
Ela – Você acabou de dizer que jamais iria até lá.
Ele –Mas se eu fosse?
Ela – Como assim? Por mim, você não iria, mas por outra… Quem é essa outra?
Ele –Que outra? Tá maluca?
Ela – Você é um galinha e não merece que vá até lá.
Ele –Que isso amor, nunca te traí…
Ela – Traiu sim!Não ir a Olaria é uma traição! Se fosse Acre, eu até pensava, mas Olaria é logo ali. A gente precisa dar um tempo.
(pausa)
Ele -Tá bom, eu vou.
Ela- Vai?
Ele –Vou para Olaria te ver.
Ela – E para o Acre?
Abelha rainha
É carnaval, todo mundo pirado.
Um sol de rachar o crânio.
Rio 40graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos, etc.
Samba, suor e cerveja… Muita cerveja.
Um bloco de rua, contornando a pracinha da Urca.
Ah… A Urca! Ainda lembro das meninas de biquíni lilás, os estrangeiros com cara queimada, as velhas enxotando os pombos e a gente correndo pelas ruas da Urca.
É carnaval.
A Bailarina barbada, com seu peitoral exposto, seu tchu tchu ensopado de cerveja, a barba por fazer, sorriso safado, berrando o “Alalaô”. Avista no outro lado do bloco, a Mulher Maravilha, botas vermelhas e cabeleira negra. A Bailarina Barbada vai se esgueirando pela multidão, pipocando de canto em canto até chegar à Mulher Maravilha.
Bailarina Barbada: (ao pé do ouvido da Mulher Maravilha) Você é linda demais!!!!!
Mulher Maravilha: (sambando) Oi?
Bailarina Barbada: (quase ao grito) Você é linda demais!!!
Mulher Maravilha: Obrigada…
Bailarina Barbada: Posso te contar uma coisa?
Mulher Maravilha: (fazendo esforço para ouvi-lo) Oi?
Bailarina Barbada: (articulado) Posso te contar uma coisa???
Mulher Maravilha: Conta.
Bailarina Barbada: Eu só vim até aqui pra te ver.
Mulher Maravilha: Sério?
Bailarina Barbada: Sério.
E o Bloco vai andando, eles acompanhando.
Bailarina Barbada: Eu vi você no ano passado. Estava fantasiada de Mulher Gato. Eu te pedi um beijo e você me deu. Ficamos nos beijando por horas, sem parar. Com fome, com sede, debaixo da chuva, matando todas as vontades um no outro.
Mulher Maravilha: (rindo_ importante frisar que ela já está mais pra la do que pra cá) Ih… Mas ano passado eu beijei tanta gente!… Você estava fantasiado de que mesmo?
Bailarina Barbada: Carmem Miranda.
Mulher Maravilha: hahhahaaha Gente!!! Verdade!!! Que delicia!!! Você curte essa onda de se fantasiar de mulher, é?…hahahhaa
Bailarina Barbada: ahahhahaa E você curte heroínas de história em quadrinhos.
Mulher Maravilha: Eu adoro carnaval. Fico louca.
Bailarina Barbada: Eu também.
Mulher Maravilha: Oi?
Bailarina Barbada: (ao grito) Eu disse que também adoro carnaval!
Tudo é tão despretensioso. Todo mundo leva tudo na esportiva. Tem uma colombina em cada esquina, um pirata bêbado na calçada, parece um ano novo com duração de uma semana.
Mulher Maravilha: Carnaval é tudo!
Bailarina Barbada: Carnaval é beijo roubado, sandália desgastada, pé pisoteado, garganta berrando, cerveja gelada, cara suada, sorriso estampado, a vontade em sua máxima voltagem.
Mulher Maravilha: Carnaval é tudo de bom três vezes!
A Mulher Maravilha faz uma pausa, tira uma nota de dois reais de seu decote e compra mais uma latinha de cerveja, de um camarada que passa com um isopor escorado nos ombros.
Mulher Maravilha: Carnaval é tudo e mais um pouco!
Bailarina Barbada: Carnaval é aquela Mulher gato que não sai da cabeça, essa Mulher Maravilha que mexe com tudo que tem dentro. Não consegui parar de pensar em você durante um ano. Um ano, cara. Se passou um ano e eu ainda gosto de você. Ainda penso em você. Ainda fico virado pensando em você. Um ano.
Mulher Maravilha: Mulata bossa nova
Caiu no hully gully
E só dá ela
Ê ê ê ê ê ê ê ê
Na passarela
.. carnaval é tudo!!!
Bailarina Barbada: Um ano com seu gosto na minha boca, a lembrança de suas curvas, o toque de suas mãos. Um ano e não passou. Não passou a vontade de te devorar inteira, com embalagem e tudo. Não passou a vontade de te dobrar e colocar no meu bolso pra ninguém te pegar. Saber seu nome, do que gosta de fazer, de dividir meus segredos, te telefonar de madrugada, te levar ao cinema, dividir um cachorro quente, rir da nossa falta de grana, brigar por nossas escolhas opostas, beijar até chegar o amanhecer… Um ano. Aqui, nessa praia vermelha de desejo, com esse bondinho derretendo de açúcar, e esse sorriso que não me sai, não me sai, não me sai do pensamento…
Mulher Maravilha: (surda) Oi?
Bailarina Barbada: Você não me sai do pensamento.
Mulher Maravilha: (sem entender) Oi????
Bailarina Barbada: Você nem se dá conta do que eu sinto.
Mulher Maravilha: Fala mais alto.
Bailarina Barbada: Eu quero mais.
Mulher Maravilha: Cerveja?
Bailarina Barbada: Beijo.
Mulher Maravilha: Na boca?
Bailarina Barbada: Agora!
Mulher Maravilha: Ah, ta! Por que demorou tanto pra pedir????
Ela vai até ele e os dois se beijam demoradamente. Uma chuva fina se encarrega de juntar a massa, escorrer o todo, um chorume de luxúria escoando pelo ralo. O Bloco segue, a Mulher Maravilha termina o beijo numa mordidinha leve nos lábios da Bailarina Barbada.
Mulher Maravilha: (seguindo o Bloco, indo longe, grita) Se a gente não se esbarrar por aí, ano que vem a gente se vê aqui.
Bailarina Barbada: (paralisado, vendo a moça partir) Você vem de que?
Mulher Maravilha: Mulher Biônica. E você?
Bailarina Barbada: Estou na dúvida entre Minnie Mouse ou Maga Patológica.
Mulher Maravilha sorri, lança um beijinho saliente e desaparece na multidão.
Bailarina Barbada fica com cara de babaca ali na chuva. Mas ainda é sábado de carnaval…
Se apaixonará no domingo por uma Branca de Neve, na segunda vai jurar amor eterno pra uma Cigana, morrer de ciúmes na terça pela Nêga Maluca e acordar com puta ressaca na quarta ao lado de uma Abelha Rainha.
Fim.
Para o amigo querido Paulo Verlings, feliz aniversário meu camarada.
Um piano em Botafogo
Rio de Janeiro, verão de 2008.
(Toca o despertador. Rita dorme sobre o piano e acorda simulando um estado de plena felicidade) Bom jour tristesse! Outro dia maravilhoso. (Olha que horas são) 11 horas da manhã! Eu não acredito, essa merda só pode estar com defeito. Não pode ser tão cedo, eu acabei de deitar! (Manha depressiva) Não… Não… (Abre um sorriso. Pega uma caixa de remédios ao lado do piano) Eu faço isso de propósito. Toda manhã é assim, eu tenho aquele tempinho de achar que é o fim do mundo por ter dormido pouco e logo em seguida descobrir que eu mesma adiantei o relógio 20 minutos. Na verdade ainda são 10h40 da manhã, minha gente! (Tomando remédio) O tempo de tomar o meu remédio pra gastrite e voltar a dormir feliz.
(Cobre a cabeça e deixa os pés de fora. Volta a dormir. Imediatamente, toca o celular) Ué? Quem será a essa hora? Eu não vou atender de jeito nenhum… (olha o número na bina) Número oculto… Que esquisito… Primeiro vem aquela sensação de temor, porque faz parte dos meus 10 mandamentos “Nunca atenderás um número oculto”. Eu sempre acho que pode ser um assaltante, um tarado estuprador me ligando. (Fecha a cortina da janela) Então eu não atendo a ligação e tento voltar a dormir morrendo de curiosidade: será que era um estuprador? Logo depois do medo, vem o arrependimento. E se fosse a grande oportunidade da minha vida? Será que a grande oportunidade da vida liga pro nosso celular? (Celular toca de novo. Exita. Misto de medo e curiosidade. Atende. Grita) – Alô!!!?
Eu atendo gritando. Porque é óbvio que eu não vou deixar a pessoa perceber que eu estou dormindo às 11h da manhã. Vão pensar que eu sou preguiçosa e eu perco o emprego. (pausa) Sim, porque as grandes oportunidades da vida são podem ser bons empregos. Ou alguém achou que eu tava falando de amor?
Alô!!!? O segredo é atender como se estivesse no meio da Uruguaiana. – Não, eu não tava dormindo, não… Minha voz tá ruim, eu tô com um probleminha na garganta. Então, me fala! (frustrada) Ah, é do consultório do D. Henry… Eu vou, sim. (Perdendo a paciência) Escuta aqui minha filha, você não tem o que fazer, não? É claro que eu vou na consulta, se eu fui eu quem marquei! Precisa acordar os outros pra perguntar isso? Eu sei bem o que é, eu tenho uma tia espírita igualzinha. Você deve estar aí morrendo de sono, porque teve que acordar cedo pra pegar um trem, um metrô e um ônibus pra ir trabalhar… Gentinha invejosa da zona norte! (Orgulhosa) Querida, sinto muito, mas eu não moro mais na Tijuca. Além de tudo você é uma péssima funcionária, porque seu cadastro está desatualizado. (enche a boca pra falar) Agora eu moro na zona sul. Ipanema não porque… ah, porque é óbvio demais. Eu até gosto, mas… é… muito quente. Ai, e o Leblon não dá, toda hora aparece em novela, muita exposição. Tô morando em Botafogo. É, Botafogo, sim… (Sendo insultada) Bairro de passagem é a porra da favelinha da casa da sua vó! (Desliga)
Bairro de passagem… (liga o rádio. Acende um cigarro)
(Locutor em off. Fala diretamente com Rita, como se fosse sua consciência) Você, cara ouvinte, sai dessa cama! Apaga esse cigarro! Vai procurar um emprego sua vagabunda! Queima O segredo, larga a igreja, sai da terapia e vai trabalhar. Arruma essa casa que a depressão melhora! Depressão, minha senhora, é casa suja!
Mas como é que eu vou arrumar a casa com um piano desses aqui dentro? Não tenho espaço pra nada… Não posso botar um sofá, uma televisão, uma churrasqueira na sala se eu quisesse, qual o problema? E todo dia eu bato com meu dedo mindinho do pé nessa merda. (Num impulso de energia) Não dá pra ficar refém de um piano.
Tijuca
1- Não é a Tijuca, entende? É esse apartamento.
2- O que tem? Nada demais. Foi tua mãe que te educou mal, filhadaputa.
1- Não. O carpete preto. Quase não tem móvel nenhum. Só esse sofá preto também com as flores prateadas. São prateadas essas flores? São sim.
2- Viadinho metido. não gosta da Tijuca? Nem da currascaria debaixo do prédio?! Tão em conta.
1- Na tua gaveta de criado mudo, aquele KY pela metade…
2- Marise Barros, a belíssima igreja da praça São Francisco Xavier…
1- Fora o seu pai que é quase cego? Não. É cego mesmo.
2- Oitenta anos que ele tem, seu insensssssssssível!
1- Outro escroto igual você. Outro tijucano. Que cuida do pai moribundo. Saco.
2- Ele não é Tijucano! Toma-lhe!!! É de Salvador, seu merda! E eu? Eu nasci no Meier!!!!!!!
1- Existia a Tijuca já, quando ele nasceu?! O teu pai?
2- Claro que já! Não viu “Anos Dourados”? Não torceu pra Malu? Burro! Alienado!
1- Foda-se. O que importa agora é que você vai pra Europa inteira, vai viajar a valer e eu fico aqui na Tijuca. Onde quase não tem árvore. Vou sozinho pra Saens Peña ver se eu acho algum cinema. Faço sozinho nossa mudança pra Urca.
2- Dobre a língua pra falar da Tijuca, seu merda!
1- Se ainda fosse a Glória. Eu moraria na Glória.
2- Pois você vai morar num apartamento cheio de ratos. vai pra Glória sim, seu infeliz!
1- O que você tem contra a Glória?
2- Nada.
1- Uma vez eu estava na frente do Ziembinsky e acertaram uma bala de fuzil no banner.
2- Nossa.
1- Minha mãe se perdeu aqui na Tijuca uma vez, faz uns meses.
2- Coitada. Aquela vaca que te ensinou a ser a piranha que você é. A culpa é dela! Deixa eu ligar pra ela agora! Qual o telefone?!
1- E quando tem jogo no Maracanã mata qualquer amor, acaba tudo.
2- Porque bichinha não gosta de futebol. Só liga pro trânsito.
1- Mas tem a UERJ.
2- Parece que tem muito suicídio por lá.
(PAUSA)
1- Não de Tijucano. Aposto.
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo