Azar o teu
Antônia: Eu quero. Eu quero!
André: Espera.
Antônia: Eu não agüento. Eu quero. Eu quero!
André: Eu já disse pra você esperar.
Antônia: Por quê?
André: O quê?
Antônia: Esperar por quê?
André: Por que é mais gostoso assim.
Antônia: Mas eu to explodindo, André.
André: Eu não disse que eu não vou dar. Só não vou dar agora.
Antônia: Quando? Quando?
André: Daqui a pouco.
Antônia: Daqui a pouco quando? Me diz uma hora. Me dá uma minutagem.
André: Uma minutagem?
Antônia: Uma minutagem. Eu preciso de uma minutagem.
André: Três.
Antônia: Três minutos.
André: Três minutos.
Antônia: Começando quando?
André: Agora.
(Agora o leitor pára de ler esta cena aqui. Olha para o relógio de seu computador ou de pulso ou do celular. E aguarda três minutos. Quando o tempo acabar, desça a barra de rolagem até o fim da cena para ler o final)
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Se passam apenas alguns segundos. Sem que André veja, Antônia pega um biscoito de chocolate e o come. André percebe.
André: Eram só três minutos. Três minutos. Eu te pedi três minutos! Você podia ter minimizado a página, ido a um outro site, levantado até o banheiro ou até ter esperado três minutos pacientemente, em frente ao computador! Mas você não agüentou. E comeu o doce antes do tempo. Azar o teu.
Eu sou um biscoito recheado
Trecho da peça- Rua dos Sonhadores
Num banco de um Rua, Ana está sentada, escrevendo no seu bloquinho sobre tudo o que acontece. Do lado dela está sentado um rapaz. Entra Filipinho, meio perdido.
FILIPINHO PARA ANA: Aqui que é a Rua dos Sonhadores?
ANA RINDO IRÔCANICAMENTE: Sim.
FILIPINHPO: Nossa difícil de encontrar, né?
ANA: Pois é…
FILIPINHO: Na verdade eu nunca tinha ouvido falar até hoje.
ANA: Pois é…
FILIPINHO: Mas eu nem me apresentei me chamo…
RAPAZ: Espera! Não fala!
FILIPINHO: Oi?
ANA: Ele tem o dom da adivinhação de nomes.
RAPAZ: Você se chama… Tá difícil…Filipinho!
FILIPINHO: Errou! Errou!
RAPAZ: Não errei , não errei!
ANA: Errou! Errou!
RAPAZ: Não errei , não errei!
FILIPINHO: Meu nome agora é Biscoito.
ANA: Como?
RAPAZ: Não disse, ele é maluco, o nome dele não é biscoito é Filipinho!
FILIPINHO: Para mim eu sou um Biscoito, e pronto!
ANA: Por quê?
FILIPINHO: Se eu fosse um biscoito, tipo esses biscoitos doces, um biscoito doce recheado. Sim, um biscoito doce recheado de chocolate. Provavelmente eu seria muito gostoso. Provavelmente eu andaria na rua e todos olhariam pra mim. Provavelmente todos olhariam pra mim e fariam cara de que querem me comer. Se eu fosse um biscoito recheado de chocolate todos iam querer me comer. Eu seria objeto de desejo de todos aqueles que gostam de biscoito recheado de chocolate. E não são poucos, pois eu já perguntei, já perguntei quem gosta de biscoito recheado de chocolate e muita gente, muita gente respondeu que biscoito recheado de chocolate é a melhor coisa que o homem já inventou. Então, se eu fosse um biscoito recheado de chocolate, eu seria a melhor coisa que o homem já inventou.
SILÊNCIO
RAPAZ PARA ANA: Eu não disse que o cara é maluco?
ANA ASSUSTADA PEGA O SEU BLOQUINHO ONDE ESCREVE E COMEÇA ANOTAR TUDO.
ENTRA RUTH, UMA JOVEM PERTURBADA QUE ACHA QUE ALICE DO PAÍS DAS MARAVILHAS CAIU NO BUEIRO
RUTH: Alice! Alice, você taí? Alice? Taí, Alice? Alice!
FILIPINHO SE APROXIMA, ENQUANTO ISSO ANA ESTÁ NO BANCO ESCREVENDO E O RAPAZ TENTANDO LER.
RUTH: Alice! Alice, tá me ouvindo? Você tá me ouvindo? Hein? Alice! Al! lice… ice…ce… e…Alice, como está aí em baixo? É possível descer? Assim, alguém como eu, eu quero dizer… alguém como eu poderia descer?
FILIPINHO APANHA UM PACOTE DE BISCOITO RECHEADO DE CHOCOLATE E COMEÇA A COMÊ-LO.
RUTH: Alice, eu tenho uma coisa pra te contar. Um segredo, um segredo que você vai gostar muito de ouvir.
FILIPINHO: Alice!! Alice!!! É muito perigoso ficar aí dentro. PARA RUTH: Aceita um biscoito?
RUTH IGNORA
FILIPINHO: Alice, você está nos preocupando! PARA RUTH: O que essa moça foi fazer aí em baixo?
RUTH IGNORA
RUTH: Alice você está me fazendo chamar atenção! Venha cá já! Eu preciso falar com você, já disse e não vou repetir, hein?
FILIPINHO: Você não ouviu a sua amiga? Ela precisa falar com você. Olha, eu sou um biscoito, sabia? Um biscoito recheado de chocolate. Você gosta? PARA RUTH: Assim ela é capaz de aparecer.
RUTH IGNORA- OS DOIS COMEÇAM A CHAMAR POR ALICE DE FORMA MAIS ACELERADA ATÉ CHAMAREM A ATENÇÃO DE ANA E O RAPAZ QUE ESTÃO NO BANCO. ESTES VÃO ATÉ O BUEIRO.
ANA: O que tá acontecendo aqui?
FILIPINHO: Tem uma moça chamada Alice que se enfiou aí dentro.
ANA: Ah! Mentira!! ANOTA NO BLOQUINHO
RUTH: Alice, tá me fazendo passar vergonha!
ANA PARA RUTH: É sua filha?
RUTH IGNORA
ANA: É a sua filha?
RUTH IGNORA
ANA : É a sua filha? Me responde, por favor?
RAPAZ PARA ANA: Por que você é contra?
ANA: Contra o quê?
RAPAZ: Você não disse que é contra?
RUTH: Alice! Venha logo!
FILIPINHO: Eu sou um biscoito de chocolate!
ANA PARA O FILIPINHO: O que foi que você disse?
FILPINHO PARA ANA: É pra impressionar!
RAPAZ PARA RUTH: Você tem cara de Ruth
RUTH: Alice!!!
ANA: Você não tá vendo que isso ta ficando sério? Vamos ter que chamar a polícia, os bombeiros…
RAPAZ PARA RUTH: Eu adivinhei seu nome, não foi?
RUTH: Alice eu estou muito decepcionada com você !
ANA: Isso é muito sério, essa Alice não pode ficar lá dentro. Eu vou lá em baixo!
RUTH: Alice por que você nunca me levou?
ANA: Me levou? Pra onde?
FILIPINHO PARA O RAPAZ: Eu não tenho cara de Biscoite recheado de chocolate?
RAPAZ: Não.
FILIPINHO: E você?
RAPAZ: Eu o quê?
FILIPINHO: Tem cara de rapaz.
RUTH:Alice eu vou parar de te procurar, eu tô falando sério.
ANA: Eu vou ligar pra polícia então.
COMEÇA A DISCAR NO CELULAR- APARECE A MÃE DE RUTH
MÃE PARA RUTH: Então você estava aí. Eu não acredito que você está fazendo isso comigo!
ANA: Quem é a senhora?
MÃE IGNORANDO ANA: Eu não agüento mais você! Eu não agüento mais!!
ANA: Eu tô chamando a polícia!
MÃE: Vamos pra casa já! Pára com essa besteira…
ANA: Tem uma moça chamada Alice lá…
MÃE: Eu ainda acabo te internando, e tô falando sério! (PAUSA) Passa pra lá! (PAUSA) Passa!
Anda!
RUTH PASSA- SILÊNCIO DE TODOS
MÃE: Me desculpem. Isso não era pra ter acontecido.
SAI COM RUTH
SILÊNCIO- TODOS OLHAM PARA O BUEIRO
RAPAZ PARA ANA: Por que você é contra?
ANA: Oi?
RAPAZ: Por que é contra?
ANA: Por que quer saber?
RAPAZ: Porque…
ANA: Sou contra porque sou contra. Sou contra porque quero ser contra. Porque tive um pai que não era contra, uma mãe que é contra mas fazia escondido, então resolvi ser contra, pra me fazer feliz, pra me sentir gente, pra poder dizer que sou contra pelo simples fato de ser contra, e poder ter alguma opinião em alguma coisa, depois de tudo que passei, depois de tudo que vivi, e pra aquilo que ainda vou viver, e na verdade, eu que gostaria de estar nesse bueiro, sou eu, e na verdade, eu gostaria de me chamar Alice, e não gostaria de me chamar Ana, pelo simples fato que Ana é muito Ana, e eu não sou muito Ana, e eu não gostaria de estar falando isso pra você, e eu não tenho a menor idéia por que te devo satisfação se não te conheço, e te acho maluco, mais maluco do que essa possível Alice, e o que você tem contra o fato de eu ser contra?
SILÊNCIO- FILIPINHO APLAUDE- ANA SENTA-VOLTA A ESCREVER
RAPAZ PARA FILIPINHO: Eu não sou maluco. Você é maluco.
FILIPINHO: Eu sou um biscoito recheado de chocolate. Você quer me comer?
FILIPINHO SAI
FIM DA CENA
Para Diego Molina o memorável Bicoito Recheado (de morango)
Se o meu pacote de Trakinas falasse!
BONO: (come um biscoito de chocolate. Longa pausa) Hoje eu olho o letreiro de neon pela janela e choro. Não choro sem motivo porque não sou do tipo que se deprime. Choro pela cor do neon, um vermelho vibrante que fere meus olhos. Parece descolamento de retina. Tenho certeza que não é. Jamais permitiria que minha retina saísse dos meus olhos… Não sou do tipo que desapega fácil. Você bem sabe. Você é um caso à parte. Ah, como eu queria poder odiar você com todas as forças! Choro de raiva. Tento odiar você. Não consigo. Nada é mais triste do que a indiferença. Não preciso odiar você. Ser você mesma já é tristeza o suficiente. Sua bunda inexistente e quase murcha, seus seios decadentes, sempre tão carentes de um sutiã corajoso, sua saboneteira numa posição triste. Nunca disse isso… Sua saboneteira parece pia de banheiro público. Não sei explicar como, mas é igual, um pouco mais feia, porque você tem estrias nos seios… muitas… Não preciso enumerá-las… Você sabe que tem… Agora entendo porque você não gosta de tomar banho. Para se lavar você deve, sem querer, acabar contando quantas estrias tem nos seios… Ou reparar na quantidade de perebas que você possui pelo corpo. Nunca acreditei que eram espinhas. As espinhas secam em algum momento. O seu corpo de coxinha, seu físico de Senhora Cabeça de Batata… Hum, estou começando a ficar enjoado. Preciso me divertir. (bebe um copo de água estupidamente gelada) Nada melhor do que um bom copo de água muito gelada para tirar o enjôo causado pelo chocolate. (Fecha os olhos e balança rapidamente a cabeça) Me enganei. Acho que era vodka. Viva a Rússia! Ah, sim… Quero falar da sua cultura (ri durante um tempo quase insuportável) Será que posso falar da sua cultura? Você tem cultura? (gargalha) Você me faz rir. Nunca pensei que ter pena de alguém pudesse divertir tanto! (imita a mulher) Eu sentava, bebia e discutia de igual para igual com o pessoal de filosofia da PUC. (debocha) Da PUC. Nunca suportei sua burrice! Detesto suas conversas inúteis e intermináveis sobre os sentimentos que você nunca teve. Ah, sim… é importante ressaltar que você tem desequilíbrio mental. Além de um orgulho boçal: ser ignorante! Opa, é importante lembrar o seu grande sonho: conhecer o estrangeiro. Uma vênia para a Disneylândia em sua homenagem! Um cumprimento para o free shop! Espero que um dia você passe por lá e compre cremes. Cremes para acabar com estrias, cremes à base de creolina mata pereba, cremes para fazer sua bunda crescer. (filosófico) Onde abunda a bunda? (muda tom) O que me faz realmente feliz, o que me faz continuar… você continuará feia. Feia, apesar do dinheiro, das plásticas, dos cremes, feia apesar de tudo. Não sei se alguém já disse isso antes… Então eu devo dizer: você é muito feia. (Debocha) Jogaram uma pitadinha generosa de desgraça na sua forminha. Acho que era isso terminei. (come um biscoito de chocolate. Num rompante irônico satisfeito) Acho que nunca contei isso… Eu… Eu só comi você porque… porque estudei em colégio franciscano. Treinei muito tempo o desapego. Mas, com você… Você só desce com luz apagada e olhos bem fechados. (pausa) Nunca vou me perdoar… Um dia comprei um biscoito caro de limão para dividir com você. O biscoito era ruim, não era tão ruim como o seu gosto coroado por badalhocas… Eu sempre preferi Negresco… (gargalha) Eu contei que comi você, contei bem baixinho para o meu pacote de biscoito de chocolate… E a bolacha traquinas que estava nas minhas mãos riu! (pausa) Feliz Dias das Mães! Fim. (muda tom) Professora, já acabei a redação. Posso desenhar?
Esmênia
Marta está sentada na frente do médico.
Médico – Então dona… (olha o prontuário) dona Marta… o que a senhora tem?
Marta – O senhor também acha?
Médico – Acha o quê?
Marta – Que eu tenho alguma coisa.
Médico – Não, dona Marta, eu não acho nada.
Marta – E por que perguntou o que tenho?
Medico – Porque se a senhora está aqui, deve ter alguma coisa.
Marta – Não se pode mais visitar um médico? É proibido? É uma ditadura? É isso?
(Silêncio)
Médico – Bem, acho que essa agradável visita pode terminar, já que a senhora está bem.
Marta – Quem disse que eu estou bem?
Medico –Dona Marta, me diga então: a senhora está sentindo alguma coisa?
Marta – O que é estar bem? Quem pode estar bem quando se vive num mundo onde as calotas polares estão derretendo?
Médico – Bem…
Marta – Quem consegue estar bem quando pensa que a qualquer momento um trombo pode se desprender de uma veia, indo parar na circulação, trancando uma artéria do pulmão, levando a morte imediata sem nenhum aviso prévio?
Médico – A senhora está sentindo alguma coisa?
Marta – Como assim estou sentindo alguma coisa? Sinto tudo o tempo todo. Não há uma só célula em degeneração que eu não sinta.
Médico – Mas o que a senhora sente especificamente?
Marta – O senhor quer mesmo saber?
Médico – Estou aqui para isso.
Marta – Olha, é muito complexo. Não sei se o senhor vai entender.
Medico – Tente explicar.
Marta olha para um lado e depois para o outro como se procurasse alguém.
Marta – Tem certeza de que estamos sozinhos?
Médico – Sim, Dona Marta, é claro.
Marta – Digo isso porque ela não pode escutar de jeito nenhum. Se me escuta falando sobre ela, muda novamente de lugar e aí não vou poder ficar com o senhor, entende? E achei sua cara tão boa, tem cara de competente, bom médico, saudável. E ainda é homem. Gosto. Mulher não vou; médica mulher não confio.
Medico – Do que a senhora está falando, Dona Marta?
Marta – (sussurrando) Da minha doença.
Medico – E qual é a sua doença, Dona Marta?
Marta – Não é como as outras, tem características únicas. Nunca vi algo assim. Veio personalizada e isso é o que mais me assusta, foi feita para mim, tenho certeza. Sob medida.
Médico – E como é isso?
Marta – Está vendo? Nem o senhor sabe o que estou falando… mas já me acostumei: fui ao angiologista, cardiologista, dermatologista, infectologista, neurologista, hematologista, gastroenterologista, reumatologista… Fui até num mecânico, porque esses caras sempre acham problema no carro da gente, achei que podia dar certo. Troquei o pistão e a ventoinha, mas doença que é bom, nada. Até hoje ninguém soube dizer o que tenho.
Medico – Mas o que a senhora sente?
Marta – (Sem ouvir.) Outro dia, li em um jornal médico que eu assino que existem 4297 doenças. Eu não acredito. Acho pouco. Pelo menos o dobro. O estranho é que exista gente saudável no mundo. O senhor acha que isso é verdade? Estão enganando a gente. A minha vizinha, a Adelaide, por exemplo: sei que ela me esconde alguma coisa. Encontro com ela no elevador e pergunto “tudo bem?” e ela responde “tudo!” Tudo??? Tudo é muito, o senhor não acha? Será que ela não desconfia que, talvez, entre uma garfada e outra na hora do almoço, sua glote pode inchar, simplesmente, porque um grão de arroz foi parar no lugar errado? Pense bem, doutor? Qual é a garantia que a vida me dá de que a minha língua na hora da deglutição não vai ter uma sincope e dobrar para trás e me sufocar até a morte. Que controle tenho sobre esse aparelho que funciona sem minha autorização prévia. (pausa) Graças à Deus tenho plano de saúde… Plano de saúde é igual plano de carreira, sem ele não se tem para que viver.
Médico – Minha senhora, acho que descobri o seu problema.
Marta – Meu problema é que eu leio demais. Li num livro de neurobiologia que as células do corpo humano se renovam de 7 em 7 anos. Todas. Aí me deu pavor. Se de sete em sete anos as células mudam para onde foi a outra de mim que não sou mais eu? E há três anos e meio atrás quando eu já tinha metade das células novas e a outra metade das antigas? Quem eu era? O senhor não acha que isso é de matar?
Médico – Dona Marta…
Marta – Depois disso nem sei mais se é a Marta que está aqui, como o senhor tem tanta certeza, posso ser outra, qualquer uma, afinal estou com 37 anos, já mudei mais de 4 vezes?
Médico – Sinto dizer, mas…. acho que seu problema é na cabeça.
Marta – Isso mesmo!!! Está na cabeça! Sabia que o senhor era muito competente; sempre acerto, gente competente tem esse jeito articulado de falar.
Médico – A senhora sabe, então.
Marta – Claro, a doença está na cabeça agora, mas já esteve até no pé. Foi parar na cabeça, tem uma semana.
Médico – Acho que a senhora não está me entendendo…
Marta – (sem ouvir) Começou com o tendão do pé direito, não conseguia andar. Tive que parar a academia, e olha que estava ficando muito bem, bonita, gostosa… nunca vi três dias de academia dar tanto resultado, o senhor tinha que ver! Mas o tendão me paralisou e pronto, voltei ao ócio.
Médico – Sei…
Marta – Depois foi a enxaqueca que me derrubou e não pude mais freqüentar os almoços de família aos domingo. Era uma doença disciplinada, aparecia sempre no mesmo dia da semana. Depois foi a língua: ela ficou tão áspera e ácida que só biscoito de chocolate dava jeito. Todo dia o mesmo problema… e “dá lhe” biscoitinho de chocolate! E olha que não sou muito chegada em doce.
Médico – Entendo.
Marta – E toda vez que ia a um médico, ele me passava um remédio, mas quando ia tomar a dor mudava de lugar. É uma doença mutante, flutuante. Num carnaval, sentia uma dor no peito que só curava com vodka, imagine só isso… nunca fui de beber e passei uma semana embriagada. E, cá para nós doutor, outro dia li a bula de um remédio para DOR de cabeça em que o efeito colateral poderia levar ao óbito. Aí eu entendi a propaganda, porque se o sujeito toma e morre, não vai ter mesmo mais dor de cabeça né? Seria muito melhor, então, tomar remédio para morrer e ficar com dor de cabeça.
Médico – E quando a senhora começou a ter esses sintomas?
Marta – A Esmênia?
Médico – Quem?
Marta – Dei um nome para ela – Esmênia, acho que combina. “Esmenia – uma doença mutante”, estou pensando em escrever um livro. Ou um artigo médico, ainda não decidi. (pensativa) Talvez um musical…
Médico – A senhora deu um nome para a sua doença?
Marta – Li num livro de auto-ajuda que dar nome a doença ajuda a curá-la.
Médico – Conheço o livro…
Marta – Vou te confessar uma coisa: não gosto dela, mas fico com pena.
Médico – Pena?
Marta – Da Esmênia… sozinha pelo meu corpo, não tem mais ninguém, só convive comigo, que vivo tentando matá-la… enfim… Ela deve viver muito mal, nem sei porque continua me acompanhando.
Médico – (pensativo) Minha senhora… a Esmênia tem quantos anos?
Marta – Ah, está jovem ainda! E já é tão esperta, né doutor? Dá gosto de ver. Nasceu com a minha separação, que tem 5 anos. Depois que meu marido saiu de casa, Esmênia apareceu. Meu marido… Joelson…eu amava tanto… tanto… e me deixou…
Médico segura a mão dela. Faz cara de solidário.
Marta – Mas, enfim, eu vim aqui porque quero mandar Esmênia embora, pois pela lei do concubinato ela já tem direito a metade das coisas que tenho… Doutor… Doutor! Alooooo!
Médico – Sim?
Marta – O que o senhor vai me receitar?
Médico – A senhora acha que a Esmênia se daria bem com uma doença que fosse, digamos assim, fixa…
Marta – Como?
Médico – Uma doença que aparecesse numa região localizada. N
uma região que fizesse, digamos… que fizesse um homem, quando nervoso, não conseguir… não conseguir fazer…
Marta – Entendo…
Médico – Acha que a Esmênia gostaria?
Marta – Não estou entendendo…
Médico – É que acho que posso dar jeito, nisso.
Marta – Pode?
Médico – O que a senhora vai fazer hoje à noite?
Marta – Não sei, por que?
Médico – Quer jantar comigo?
Marta – Doutor… que isso?
Médico – Eu posso apresentar a Esmênia para o Oscar, a doença fixa que tenho há três anos, desde que encontrei minha mulher com outro na cama.
Marta – Três anos?
Médico – Tenho certeza de que resolverá o problema de todo mundo: seu, da Esmênia, do Oscar… e quem sabe o meu.
Marta – Sabe o que é? Pensando melhor, to meio apegada a Esmênia e não sei se quero perdê-la agora. Doença é como gato, quando a gente se apega, se apega mesmo.
Médico – Mas e a lei do concubinato?
Marta – Eu tava brincando, até gosto de saber que alguém vai querer ficar com o “quase nada” que eu tenho.
Médico – Mas…
Marta – Vou pensar melhor e qualquer coisa ligo.
(Vai embora.)
Marta – É cada louco que aparece. É só dar uma brecha que sai falando da própria vida… Cara cheio de problemas não dá … até é bonitinho… mas brocha é triste… (pausa) Né, Esmênia?
Morango é de menina
Mãe e seus dois filhos num supermercado. As crianças, um menino e uma menina, tem por volta dos sete anos.
Mãe (segurando as crianças pelos braços, um de cada lado) – Cada um pode escolher um biscoito pra levar. Só um que a mãe tá sem dinheiro.
As crianças disparam pelo mercado e correm até a sessão de biscoitos. A menina é objetiva e pega um pacote de Cheetos Bolinha.
Mãe – Ah, não! Essa coisa de plástico fedorento, não!
O menino está paralisado, diante das inúmeras e quase infinitas opções.
Mãe – Anda garoto! Não tenho o dia inteiro!
A menina volta puta da vida. Dá sinais de uma personalidade forte e que não pode ser contrariada. Quer porque quer Cheetos Bolinha. Naquele momento nada é mais importante que um pacote de Cheetos Bolinha.
Mãe – Eu já falei que não!
Menina chora, esperneia, bate o pé. O menino, por sua vez, troca, destroca, decide, se arrepende, pega, volta, analisa, destroca de novo o pacote de biscoito. É a decisão mais importante de sua vida, não pode errar.
Mãe (falando com a moça do caixa) – Quer saber? (Vai até a sessão de biscoitos. Pega um pacote de chocolate, outro de morango). Esse é pra você, esse é pra você.
Morango pra menina, chocolate pro menino.
Mãe – E eu nunca mais compro biscoito pra vocês. A gente quer agradar, só tem aborrecimento.
Menino – Mãe… eu preferia o biscoito de morango.
Mãe – Não, chega.
Menino – Por que ela pode morango e eu não?
Mãe (categórica e convencida) – Morango é de menina.
Menino – Mas mãe…
Mãe – Não discute! Vai ficar sem nenhum.
Chegando em casa, o menino, ainda inconformado, após ensaiar bastante a pergunta – com medo e vergonha – cochicha no ouvido da irmã.
Menino – Você troca um biscoito de morango por um de chocolate comigo?
FIM.
Amor
2- oi, meu anjo?
1- passa pra mim?
2- oi?
1- o biscoito.
2- aqui.
1- obrigado.
2- espera. eu sei o que você quer.
1- sabe?
2- toma.
2 abre o biscoito e dá na boca de 1 apenas o recheio.
2- não é bom?
1- é bom sim.
FIM

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Domingo