Caixinha de fósforos

MÃE

FILHO (A)

MÃE entrega uma caixa para FILHO. Durante a cena, FILHO vai abrindo a caixa e sempre encontrando dentro uma caixa menor, até chegar na caixa final.

M- Olha o presente mais lindo que mamãe trouxe pro neném!

F- O que é, mãezinha?

M- Abre! Vai firme!

F- Mas dá uma dica!

M- (BREGUINHA) A caixa pode parecer até pequena. Mas dentro você vai encontrar muita luz… Um calor sem limites…

F- Oba! Mas muita luz, quanto?

M- Quanto?

F- Muita quanto?

M- Muita, anjinho… Infinito.

F- Infinito? E leva pilha?

M- Nem precisa de pilha. Você vai ver, é incrível!

F- Legal!

M- Muito útil.

F- Maneiro.

M- É sim.

F- Que cheiro estranho, mãezica. Está sentindo?

M- Cheiro? Que cheiro?

F- Um cheiro forte. E o chão está todo molhado.

M- Ah! É a gasolina, anjinho.

F- Por que está com gasolina pela sala inteira?

M- Deixa isso pra lá, querido. Quem se importa? Rasgue logo o embrulho! Estraçalhe se lhe der na veneta!

F- O presente! Tinha quase me esquecido.

M- Focaliza no presente.

F- E é lançamento?

M- Lançamento?

F- Lançamento, mãe.

M- Como assim, lançamento?

F- Se é novo, mãezinha! Se acabou de ser lançado no mercado de brinquedos e artigos infantis. (DESABAFA) Parece retardada…

M- (FECHA O TEMPO) Não chama mamãe de retardada que é tão feio!

F- Não falei nada!

MÃE pega o presente de volta.

M- Vai dar pra mentir agora, Carlos Henrique? Eu ouvi! Não sou surda!

F- Me devolve meu presente!

M- Chamou ou não chamou sua santa mãezinha de retardada? Responde e aí eu devolvo.

F- Eu quis dizer retardada no sentido assim… especial.

M- Como?

F- Especial, mãezinha.

M- Especial.

F- Como o presente que você me deu com tanto amor. Especial como uma mãe especial. Como você.

FILHO pega o presente de volta.

M- Não se faz de sonso, moleque!

F- Sonso?

M- Dá cá esse presente!

F- Não!!! Mas mãe!

M- Mas mãe coisa nenhuma!

F-(CHORA) Não!!! Meu presente!

MÃE pega o presente de volta.

M- Não merece.

F- Eu quero! Meu presenteeeeeeeeeeeee!!!

M- Retardada… Você vai ver quem é retardada.

F- Especiaaaaal!!! Especiaaaal!!!

M- Uma pinóia.

F- Meu presenteeeeeeeeeeeeeeeee!!!

M- Vou bater na tua perninha até ficar vermelha!

F- Presenteeeeeeeeeeeeeeeee!!!

M- Está bem! Está bem! Eu devolvo! Só que você vai ter que se desculpar.

F- Desculpa! Desculpa!

M- Ok. Tome.

F- Oba! Obrigado, mãezinha querida!

M- De nada, tesouro.

F- Você é muito especial por me perdoar.

M- (PESAROSA) Nem lembro por que começamos a discutir assim tão pesado.

F- Eu perguntei se era lançamento e até agora você não me respondeu.

M- (SÉRIA) Não é lançamento não. É antigo como os tempos, mas só quando o homem se distanciou dos outros seres, é que aprendemos a dominá-lo.

F- (DESAPONTADO) Está brincando.

M- Foi Prometeu que nos cedeu essa dádiva. E por conta dessa estripulia ele está lá, perdendo um naco de fígado por dia! Só por que amava os humanos.

F- Não entendi. Quem prometeu?

M- E agora ele está aí. Nas tuas mãos. Essa ferramenta pulsante da qual os deuses quiseram nos privar. Aí está! A seu alcance. Estique a mão! Tome posse do seu destino.

F- Não sei se eu quero mais.

M- Abra!

FILHO abre a última caixa, tem uma caixinha de fósforos dentro.

M- (DRAMÁTICA) Ó fogo! Ô dádiva divina dos deuses! A força! O poder em suas mãos! Faça uso dele, Carlos Henrique!

FILHO parece meio decepcionado.

M- Que foi? Não gostou do presente?

F- Minha professora me ensinou que não é bom brincar com fogo.

M- Ela é uma burra! Uma estúpida!

F- Que quem brinca com fogo pode se queimar.

M- Não sabe de nada a tia Jacira. Ela não pode afirmar isso.

F- Mas não pode acender fogo perto de gasolina. Gasolina é IN-FLA-MÁ-VEL. A tia Jacira me ensinou isso também.

M- Tia Jacira vai queimar no fogo do inferno por mentir desse jeito para crianças tão inocentes!

F- (SUBITAMENTE EMPOLGADO) Então é tudo mentirinha? Posso mesmo brincar com fogo? Você deixa, mamãezinha querida?

M- (ANGELICAL) Deixo, meu docinho de farinha. Brinca sim. Não há perigo algum. Mergulhe de cabeça nessa gostosa brincadeira que é acender fósforos por diversão.

F- Você juro que eu não vou me machucar? Me queimar? Nada disso?

M- Amore, a gente não fez ontem aquele seguro de vida pra você?

F- Aquele que me deixa imortal, mamãe?

M- Esse mesmo. Então, anjinho? Não percebe? Não há perigo algum.

F- Eu te amo, mamãe.

M- Mamãe também te ama. Espera um pouquinho. Só começa a acender quando a mamãe sair daqui.

MÃE sai correndo. FILHO acende um fósforo. Trevas. Som de explosão.

FIM


Suco de laranja e café com creme

Após o “brownie com sorvete”, estou lançando uma série gastronômica.

Carol e Zé em um bar. Carol já chegou

Carol: (para a platéia, sentada na mesa) Ele não vai me reconhecer, eu sei, eu sinto, ele vai olhar pra mim, mas não vai, eu sei, não vai. Caraca, por que eu cheguei tão cedo? Meia hora adiantada. Que ansiedade! Segura a ansiedade, Carol, segura… Eu não podia ter chegado primeiro. Ele chegou, vou fingir que tô chegando agora.

(Ela levanta da mesa e finge que está chegando. Ele entra e a vê)

ZÉ: (para a platéia) Nossa ela tá tão arrumada. Eu devia ter me arrumado mais. Ter colocado um terno, sei lá… Espero que ela não repare na minha roupa.
(se esbarram)

ZÉ: Oi, tudo bem?

CAROL: Tudo. Tá aqui há muito tempo?

ZÉ: Não, na verdade eu acabei de chegar. Desculpa.

CAROL: Que é isso, imagina, eu também cheguei agora, maior trânsito.

ZÉ (para a platéia): Ela tá linda, uma deusa. Mais bonita ao vivo que na foto. Uau, é hoje!!! Calma, Zé , se segura, não a assusta, segura a sua onda e seja simpático….(sorri para ela e diz) Vamos sentar.

(Eles sentam e ele continua sorrindo para ela)

CAROL: (para a platéia) Que sorriso estranho. O que é que ele quer dizer com isso? Minha foto no Orkut é muito mais bonita que eu sou na verdade. Eu devia ter colocado uma foto mais simples. Não essa de estúdio que ele achou linda. Deve ter se decepcionado. Ele vai acabar desistindo. Aí vai ser o fim. É melhor eu inventar alguma coisa antes de ele ir embora e me deixar aqui sozinha. (Para ele) Puxa, eu não vou poder ficar muito tempo, eu tenho hora.

ZÉ: Tem hora?

CAROL: É. Trabalho.

ZÉ: Claro, eu entendo. (Para a platéia) Putz, ela deve ser uma daquelas mulheres multimídia que nunca tem tempo nada. Deve odiar homem paradão… Eu preciso inventar alguma coisa antes que ela pense que eu sou um nerd. (Para ela) Fica tranqüila que eu aproveito e faço uma trilha que eu estava para fazer.

CAROL: Trilha? Que legal! Pra teatro ou cinema?

ZÉ (ri): Não. Trilha, trilha. De caminhada. Eu meio que tinha marcado de fazer a trilha da Pedra da Gávea.

CAROL: Ah!!! (eles riem)

(Falam para a platéia ao mesmo tempo)

CAROL: Nossa, ele é um daqueles caras que fazem trilha e deve adorar acordar cedo para tomar café da manhã e andar de bicicleta. No mínimo deve adorar viajar para as montanhas. E eu falando de trilha para teatro e cinema. Ele deve me achar uma urbanóide, viciada em internet. Putz, que furo! Mal sabe ele que eu adoro fazer trilhas, adoro caminhadas e acordar cedo!!! Ele precisa saber! Vou dar um jeito.

ZÉ: Nossa, ela é uma daquelas que adora música, deve passar horas na internet pesquisando novas tendências musicais, novos artistas. E eu falando em fazer trilha na Pedra da Gávea, sem noção. Ela deve me achar um cara estilo: “saúde é o que interessa”. Putz, que furo! Mal sabe ela que eu adoro trilhas sonoras, pesquisar horas na internet e acordar tardão! Ela precisa saber! Vou dar um jeito.

(voltam)

CAROL: Olha, eu adoro fazer caminhadas. Acho o máximo.

ZÉ: E eu adoro prestar atenção nas trilhas musicais. Me interesso muito por isso.

CAROL (para a platéia): Tá querendo me agradar só porque eu falei de teatro e cinema. Aposto que ele nem deve ir ao teatro ou ao cinema. Preciso ir para outro rumo (para ele) Você vai pedir o quê?

ZÉ: (para a platéia) Tadinha, tá querendo me agradar. O que eu vou pedir? Se eu pedir um chopp, vai achar que eu quero embebedá-la e levá-la pro meu apartamento. Se bem que não seria uma má idéia. Não, mas aí ela ia se assustar e tem esse tal compromisso de trabalho. Mas também, compromisso de trabalho num domingo! Mulheres… Então eu vou pedir um café, que dá um ar mais intelectual. Mas se bem que eu odeio café. Refrigerante acho caído, muito caído. Ah, um suco! Um suco é zona neutra, suco de laranja, não tem erro.(para ela) Um suco. De laranja. E você?

CAROL: (para a platéia) Suco de laranja? Esse cara deve ser daqueles que só come alimento vivo. Mas até aqui? Eu pensei que ele fosse pedir um chopp. Se ele pedisse um chopp eu ia acompanhá-lo e seria um bom motivo para “desmarcar” o meu inexistente compromisso de trabalho e ele desmarcar essa tal de trilha na pedra da gávea. A gente ia ficar altinho, ele ia me agarrar e me levar para o apartamento dele. Agora um suco? Um suco? Pra onde essa conversa vai com um suco? Ah, não! Putz, eu tô entendendo tudo. Ele tá fazendo isso para me dispensar. Ai, Carol, como você é burra. Essas coisas de amor só acontecem em filmes. Que chato. Só pra contrariar vou pedir um café com creme! (para ele) Um café com creme.

ZÉ: Garçom, um suco de laranja e um café com creme. (para a platéia) Caraca, ela deve ser uma puta intelectual. Café com creme é pedido de intelectual.

CAROL: (para a platéia) Agora é uma ótima oportunidade para começar a fumar. (para ele) Tem um cigarro?

ZÉ: (para a platéia) Vou fingir que eu não fumo. (para ela) Eu não fumo.

CAROL: (para a platéia e para ele) Imaginei.

ZÉ: Mas então Carol, você trabalha com o que mesmo?

CAROL: (para a platéia)Ah, tá querendo saber o quanto eu ganho, só pode ser. E se eu disser que eu não trabalho, que tô desempregada? Como eu queria estar agora no seu apartamento tomando vinho e tirando a minha roupa. (para ele) Eu estou terminando o mestrado.

ZÉ: Que ótimo. E sobre o que é a sua tese?

CAROL: (para a platéia) Merda! Pra que eu fui falar sobre isso? Eu nem terminei a faculdade. Merda! Agora já era. Papo chato! Ele só quer saber do meu intelecto, nem tá interessado no meu corpo! Vou acabar com esse papo agora.(para ele) Caixinha de fósforos.

ZÉ: Oi?

CAROL: Caixinha de fósforos.

ZÉ: Caixinha de fósforos? Que interessante. (para a platéia) Essa mulher deve ser um gênio, um crânio. Eu sabia que existem teses de mestrado sobre tudo, eu mesmo fiz sobre a importância do grampeador na vida moderna. Mas caixinha de fósforos? Essa superou. E agora? Será que eu pergunto mais sobre isso? Se eu não perguntar ela vai achar que eu não tô nem um pouco interessado no intelecto e só no corpo… (para ela) Me fala um pouco sobre a sua tese.

CAROL: (para a platéia) Merda, caralho, puta que o pariu!!! Será que esse cara é um chato?? Não é possível!!Ai, Carol, você só se mete em furada. Tava crente que ia transar. (para ele) Ah, é uma tese complexa, deixa pra lá. Vamos falar de outra coisa.

ZÉ: (para a platéia) Ela tá me subestimando. (para ela) Claro, podemos falar de outra coisa, imagino que deva estar trabalhando tanto com a questão de que os palitos de fósforo são um artigo, curto, fino, feito de madeira, papelão ou barbante encerado, e geralmente possui fósforo vermelho em uma das extremidades e que quando entra em contato com outros objetos de superfícies ásperas se decompõe e arde diante de baixas temperaturas e incendeia os demais produtos produzindo fogo. A combustão ocorre de uma reação gerada pelo atrito do clorato de potássio existente na cabeça do palito contra o elemento químico “fósforo” que está na lixa da caixinha. Além de ser fabricado com fósforo vermelho, para uma maior segurança, seus ingredientes inflamáveis foram colocados em dois locais distintos: na cabeça do palito e do lado de fora da caixa, junto com o material abrasivo. A cabeça do palito de fósforo é feita de uma massa química, não contendo fósforo nem pólvora. Esta massa contém um composto químico chamado clorato de potássio, que cede oxigênio com facilidade. Na lixa da caixinha de fósforos se encontra o elemento químico fósforo.

(silencio. Os dois para a platéia ao mesmo tempo.)

CAROL: Odeio ele par
a o resto da minha vida.

ZÉ: Já ganhei para hoje.

CAROL: (para ele) Puxa, que legal. Você sabe bem, né?(para a platéia) Babaca , passa logo a mão na minha perna.

ZÉ: (para a platéia) Eu queria mesmo é te levar pra casa e transar a noite toda. (para ela) É, eu sei alguma coisas.

CAROL: (para a platéia) Arrogante (para ele) Inteligente.

ZÉ: (para platéia) Que peito lindo…(para ela) Imagina, não mais que você.

CAROL: Bom, mas eu acho que já tá na minha hora. (para a platéia) Se ele não me agarrar agora a gente nunca mais se vê.

ZÉ: (para a platéia) Eu quero te ver pelada. (para ela) Que pena, foi tão pouquinho.

CAROL: (para a platéia) Otário. (para ele) Pois é…

ZÉ: Tem certeza que não pode ficar mais?

CAROL: (para platéia) Não. (para ele) Sim.

ZÉ: (para a platéia) Sacanagem. Marcou comigo só pra me sacanear. (para ela) Eu entendo.

CAROL: Bom, então a gente se vê numa próxima oportunidade

ZÉ: (para a platéia ) E se eu a agarrasse agora? (para ela) Então tá…

CAROL: (para a platéia) Vai ver que ele é virgem. (para ele) Tá.

ZÉ: (para a platéia) Eu nem peguei o telefone dela. (para ela) Carol?

CAROL: (para a platéia) Ah, ele se arrependeu, vai me agarrar, me morder toda aqui mesmo. (para ele) Oi.

ZÉ: (para a platéia) Falo ou não falo? Falo ou não falo? Falo ou não falo? (para ela). Você quer conhecer minha coleção de fósforos?

CAROL: (para a platéia) Coleção de fósforos? (para ele) Claro, eu adoraria. Agora?

ZÉ: Ah, esqueci que você tem que ir…

CAROL: Eu desmarco o trabalho… Afinal, sua coleção tem tudo a ver com minha tese.

ZÉ: (para a platéia) Eu não tenho coleção de fósforos. (para ela) Que bom, vai ser um prazer.

CAROL; (para a platéia) Se ele não me comer, eu nunca mais o vejo na vida. (olha para ele e ri)

ZÉ: (para a platéia) É melhor eu ir com calma. (para ela) Meu carro tá na esquina, eu vou lá pegar.

CAROL: (para a platéia) Uhu! Ele tem carro. Vamos viajar muito e ter muitos filhos em Itaipava! (para ele). Eu espero.

ZÉ: (para a platéia) Ela espera! Ainda bem que comprei aquele vinho mais caro. (para ela) Já volto.

(Ele vai)

CAROL: (para a platéia) Caixinha de fósforos…

FIM

Normal

Mesa de bar. Uma pessoa sentada. De costas para a platéia. Outro aborda.

Homem: Oi. Dá licença. Você tem fogo? (pessoa faz que não) Não? E essa caixinha de fósforo ta fazendo o quê em cima da mesa? (pessoa sentada responde algo que não ouvimos) Ah (fala mais alguma coisa que não ouvimos) Jura? Com um cágado? Que interessante. Bom mas se essa caixinha não é sua então você provavelmente não fuma, acertei? Ah, que ótimo. Então esse é o lugar ideal pra eu me sentar e você a companhia perfeita pra mim. (se sentando e mudando de tom) Não. Desculpa. Eu não quis te passar uma cantada barata, imagina. È que ultimamente eu só tenho me sentado em lugares seguros. Lugares livres da fumaça. Você sabia que um fumante passivo tem a mesma chance de ter câncer de pulmão do que um fumante… ativo? Pois é. Eu percebi que eu estava morrendo aos poucos quando ficava perto dessa gente… Os fumantes. Cada inalada que eu dava na fumaça alheia era uma aumento significativo de chance de ter câncer de pulmão. Fora que é muito anti-higiênico… você respirar uma coisa que já esteve dentro da outra pessoa. Por que é isso que acontece, né? Você inala o resquício do vício da outra pessoa. Você respira o resquício do vício da outra pessoa. Você bota pra dentro do seu corpo o resquício do vício da outra pessoa. Agora pergunta prum fumante se ele aceitaria botar pra dentro o resquício do vício de alguém que bebe cerveja… Claro que não. Claro que não. Porquê? Porque é nojento. Ora, faça me o favor. Beber mijo não pode mas respirar fumaça usada é normal? (quebra) É por isso que eu estou mudando de amigos. Não dava pra continuar com os meus amigos. Todos eles fumam. Uma coisa impressionante. Vão comer num restaurante: fumam. Sentam numa mesa de bar: fumam. Saem do cinema: fumam. Gente! Será que o cigarro é um item tão essencial pra discutir Woody Allen, jogar conversa fora ou digerir um prato de carpaccio! Pra mim não. E quer saber? Eu to me sentindo ótimo. Eu ainda não achei novos amigos, mas só de me livrar dos fumantes já foi um passo e tanto. Eu não posso em sã consciência chamar de amigo quem me mata aos poucos com fumaça de cigarro. Graças a Deus, a minha vida está mudando. Graças a Deus! (Olha pra caixa de fósforo) Um cágado! Mas que curioso… (quebra) Aliás ontem eu decidi que vou mudar de namorada também. Vou mudar de namorada. Namorada. Vou mudar de namorada. E porque não? Foi enorme! Eu tive uma decepção enorme. Quando a gente ta apaixonado a gente fica cego pros defeitos da pessoa. Acaba aceitando umas coisas, umas atitudes que com o passar do tempo vão se repetindo e acabam minando um relacionamento. E ontem eu cheguei à conclusão de que eu já não to mais tão apaixonado assim a ponto de ignorar os defeitos da minha namorada. Ela tem uma fungada lateral. (tenta fazer). Não sei imitar. É uma coisa horrenda. Ela faz um troço com o nariz. Dá até medo. A qualquer momento. No meio de uma conversa, comendo, (falando baixo) até no sexo ela já fez. Lateral. Uma fungada lateral. Esquerda. A diaba só pelo lado esquerdo! Eu comecei perceber que não adianta tapar o sol com a peneira, sabe? Lado esquerdo… Não ia rolar. Eu não podia passar o resto da minha vida com uma pessoa que aquilo. Fora que ela tem as articulações da mão muito maleáveis. Parece de borracha. Tem umas posições que ela faz com mão que me incomodam muito. Encostar os dedos no punho. Sei lá. Também é meio nojento… (Solta uma risada meio solta) Cágado! A caixa de fósforo ta aí por causa… Uma coisa impressionante. Muita coincidência. Um cágado. (pessoa fala algo que não ouvimos) Oi? Terapeuta? Engraçado você perguntar isso porque eu também decidi que vou mudar de terapeuta. É. Ela não tava me ajudando em nada. Terapeuta. A minha terapeuta. Só tava me deixando pior! Primeiro que ela falava “que seje”! Que seje! Gente! Como é que eu posso falar da minha vida, dos meus problemas mais íntimos pra alguém que não sabe conjugar o verbo ser na terceira pessoa do subjuntivo. Não há a menor possibilidade. E ela também usa uma calça da Dimpus semi-baggy em pelo século XXI! Parece até piada. E se eu te falar da cor do esmalte dela então. Você vai cair pra trás. (A pessoa se levanta) Não espera aí… Você já ta indo embora? Fica mais tempo. Vamos conversar. É que como você não fuma eu pensei que você pudesse ser minha amiga. (T) Minha namorada? (T) Minha terapeuta? Volta! (Homem se senta confortável na cadeira olha pra caixa de fósforo e sorri). Um cágado!

Loucura de amor


Personagens:
Clark – o charme e a masculinidade trajando sobretudo
Geri – uma elegância prestes a desabar
Gislaine – a menção honrosa da fé e da simpatia

(Clima de filme Noir. Os personagens estão no aeroporto. Tentam ser discretos, mas se vestem como os procurados pela polícia em filmes. Geri deverá partir)

Voz off do aeroporto: Primeira chamada do vôo 755…

Clark: Com licença, a senhora deixou cair isso. (entrega passaporte para Geri).

Geri: Obrigada!

(os dois olham para os lados, muito misteriosos, de costas um para o outro tentando não chamar a atenção)

Clark: Nenhum tira por perto.

Geri: Diga tudo o que eu preciso saber.

Clark: O rim já está a caminho da Itália. O gângster depositou parte do dinheiro na conta secreta. Seu novo nome está escrito no passaporte. Seja discreta e não levante suspeitas…

Geri: Tudo certo.

Clark: Eu ainda não acabei, não me interrompa!

Geri: Desculpe, lindo, quer dizer chefe.

Clark: Agora, você deve assumir uma nova identidade. (fala muito rápido) Detesta animais, tem admiração pelo outono, nunca fez artes marciais, tem alergia a mamão, adora Ikebana e perdeu o rim num trágico acidente num veleiro que também levou o seu pai.

Geri: Ah, que pena. Que triste.

Clark: Nunca. Eu disse nunca, eu repito nunca. Ninguém poderá saber que você vendeu seu rim para a Itália.

Geri: Nunca. Entendi.

Clark: Segure a minha mão.

(Geri suspira emocionada)

Clark: Um pouco de dinheiro para você se virar até eu chegar. (olham um policial mantendo as mãos unidas. Entre dentes) Atenção, tem um policial bem ali.

Geri: Ai, benzinho fico tão sensível no mês dos namorados.

Clark: (sorri e solta a mão de Geri. Os dois ficam frente a frente) Adeus, querida! Espere por mim. Seremos muito felizes em Boca Raton.

Geri: Ai, meu doce! (emotiva falando alto) Eu sempre quis conhecer Boca Raton!

Clark: Shhh!

Geri: (empolgada) Lugar de ser feliz é Boca Raton. (pausa) Já dizia minha tia grega que mora na Barra.

Voz off do aeroporto: Segunda chamada do vôo 755 com destino a Boca Raton.

(como nos filmes românticos, Geri gira no próprio eixo e se atira nos braços de Clark, que está tenso com medo de chamar a atenção da polícia. Durante o gesto ouvimos a o tema do filme “Dying Young” tocado por Kenny G http://www.youtube.com/watch?gl=BR&hl=pt&v=qH3T3cNGhp8. Da platéia, entra Gislaine com um coração inflável amparada por sua equipe de mensagem ao vivo, com balões e demais cafonices necessárias para uma prova de amor extravagante. (Se o elenco preferir ela poderá entrar sozinha e a voz do homem da equipe poderá ser em off))

Gislaine: Há quinze anos com todo carinho ela nascia. Suas primeiras palavras foram: mamá e Cacáca. Aos primeiros passos… (um homem da equipe de Gislaine interrompe)

Homem: Ô, Gi! Essa foi a mensagem da matinê. Agora é loucura de amor.

(Gislaine sempre sorrindo sem perder a calma e a fé, interrompe a música. Revira seus papéis até achar a mensagem loucura de amor. Respira fundo. Sorri aberto e recomeça a música).

Gislaine: (com a emoção das pessoas que entregam mensagens ao vivo) Essa Loucura de amor é para você! Vamos aplaudir a homenageada. Estamos aqui hoje para dizer o quanto você é bonita, querida e amada. O seu amado quando pensa em você, fecha os olhos de saudade. Agora… agüenta coração. Um momento de grande emoção, como diria o rei Roberto: “Sabe bicho, são tantas emoções”. Receba com todo o carinho a mensagem que marcou a vida de vocês (faz sinal p/ a música de fundo aumentar) Eu não vou negar
Que sou louco por você
“Tô” maluco pra te ver
Eu não vou negar

Eu não vou negar
Sem você tudo é saudade
Você trás felicidade
Eu não vou negar

Eu não vou negar
Você é meu doce mel
Meu pedacinho de céu
Eu não vou negar

Você é minha doce amada
Minha alegria
Meu conto de fadas, minha fantasia
A paz que eu preciso pra sobreviver

Eu sou o seu apaixonado
De alma transparente
Um louco alucinado
Meio inconsequente
Um caso complicado de se entender

(agora todo mundo, pede para a platéia cantar agitando as mãos como num show. Nesse momento a música de fundo sai)
É o Amor
Que mexe com minha cabeça
E me deixa assim
Que faz eu pensar em você
E esquecer de mim
Que faz eu esquecer
Que a vida é feita pra viver

É o Amor
Que veio como um tiro certo
No meu coração
Que derrubou a base forte
Da minha paixão
E fez eu entender que a vida
É nada sem você

(todos da cena aplaudem música de fundo volta. (rubrica opcional:Policial observa.)

Gislaine: (vai até Geri) Parabéns pela loucura de amor! Qual é o seu nome?

Geri: (Tensa e emocionada) Carol-Caroline, quer dizer, (pega o passaporte e olha) Ge-ri (Perguntando para Clark atônito) Geri, é assim que fala bem?

Gislaine: Sabe quem mandou essa mensagem para você?

Geri: (para Clark) Ai, bobo. Não precisava.

Gislaine: Ele mesmo. Wesley mandou a mensagem.

Geri: Wesley? Ai meu namoradinho do colégio. Ganhei tanta bala Juquinha naquela época.(para Clark) Me desculpe, estou balançada. (pausa) Eu amava tanto o Wesley. Nunca mais nos vimos desde que ele foi coaptado pelo tráfico.

Voz off do aeroporto: Penúltima chamada do vôo 755 com destino a Boca Raton.

Clark: (conduzindo-a para o portão de embarque) Querida, é o seu vôo. È hora de dizer adeus.

Geri: (novelesca) Me solta. Eu não sei mais se quero ir. Minha cabeça diz sim, meu coração bate talvez. Eu gostava tanto do Wesley. Ele me tratava tão bem. Eu até gosto de você, mas você tem andado tão grosseiro. Seu talão de cheques não substitui carinho… Está difícil. (pausa. Numa súplica divina) Ai, minha tia… Eu queria tanto ser feliz em Boca Raton.

Gislaine: Explode coração: É hora do pedido de casamento!

Geri: (boba) Jura? Cadê o Wesley? Ele era tão loirinho.

(um homem da equipe de Gislaine interrompe)

Homem: Ô, Gi! Essa Loucura de amor era para ser no Santos Dumont. Aqui é o Galeão.

Gislaine: (num ataque de vergonha sem perder a simpatia) Essa foi a nossa cortesia, loucura de amor para você! (joga confetes sobre Geri e entrega uma flor e um balão)

(Clark e Geri batem boca loucamente: Quem é esse tal de Wesley? Seu cavalo. Falam ao mesmo tempo à la descida da ladeira. Enquanto isso Gislaine vai saindo pela platéia falando sobre sua empresa no microfone)

Gislaine: Loucura de amor. Atendimento personalizado! Temos lindas cestas de café da manhã. Fartas e bem decoradas. Reserve já. Faça alguém feliz! Entregamos em domicilio!Pague na lotérica e receba em casa ou no trabalho! Ligue e confira!Mensagem ao vivo com carro de som enfeitado com bolas. E ainda no combo gold: Queima de fogos, chuva de prata, banho de espuma, tapete vermelho, brindes e muito mais… Para mensagem ao vivo aceitamos cartão de crédito. Faça já a sua reserva! Já pensou num helicóptero soltando pétalas de rosas sobre sua pessoa amada? (quebra) Se bem que dependendo da pessoa dá vontade mesmo é de jogar um bloco de concreto em cima, não é mesmo? (volta a ficar emotiva) Enfim, surpreenda quem você ama!
(pausa. Para Geri. Lúcida) Ei! ô Minha filha, eu sou uma mulher vivida e me sinto na obrigação de dizer uma coisa: homem não é igual a palito de caixa de fósforos, que você encontra em qualquer birosca e pode sair testando à vontade. (vai sair e volta) E a v
ida não é um bombom de cereja ao licor, mas com certeza é mais doce do que isso. (pausa) Loucura de amor! Ideal para aniversários, 15 anos, declaração, pedido de desculpas, reconciliação e muito mais… (sai)

Voz off do aeroporto: Última chamada do vôo 755 com destino a Boca Raton.

(Clark e Geri se olham com ternura. Se encontram caminhando no melhor estilo comercial de Molico na praia. Se abraçam, giram, beijam-se. Ele a segura no beijo como num Tango e tenta enforcá-la. Ela se debate. Ela dá uma joelhada nele e chama a polícia. Barulho de sirene de polícia)

Geri: Ele tentou me matar! (pausa segurando o passaporte, muito superior e decidida) Eu mereço ser feliz em Boca Raton!

FIM

Ambição

O rapaz encontra uma caixa de fósfora no meio da rua. Ao abrir a caixa, surge um gênio.

Gênio – Finalmente!

O rapaz chocado.

Gênio – Finalmente uma boa alma se interessou por uma caixinha de fósforo.

Rapaz – Quem é você?

Gênio – Eu sou o gênio da caixinha de fósforo. (olhar desconfiado do rapaz) É sério. Lâmpada mágica é coisa do Egito antigo. E você está no Brasil, no Rio de Janeiro, em Inhaúma.

Rapaz – Desculpa, é que eu nunca imaginei encontrar um gênio em Inhaúma. (pega um fósforo pra acender o cigarro)

Gênio – Não faça isso, pelo amor de Deus! Vai gastar um dos seus três pedidos.

Rapaz – Ah! Perdão… é que eu tô morrendo de vontade de fumar. Não tinha dinheiro nem pra comprar um isqueiro, quando pimba, achei essa caixinha de fósforo.

Gênio – Pode fazer seu primeiro pedido.

Rapaz – Qualquer um?

Gênio – Você não está convencido que eu sou um gênio, né?

Rapaz – Pra ser sincero, não.

Gênio – (pensando alto) Por isso que não vale a pena vir na zona norte.

Rapaz – O que o senhor disse?

Gênio – Se é um rico que encontra uma caixa de fósforo mágica, o cara nem hesita e pede logo pra quadruplicar a fortuna. O pobre não. Fica querendo entender a lógica das coisas.

Rapaz – Tá bem, não precisa ofender. Eu quero… quero…

Gênio – Se você pedir um cigarro eu vou embora.

Rapaz – (risca o fósforo decidido) Eu quero parar de fumar.

Gênio – Olha! Você me surpreendeu. (faz um gesto simbólico) Desejo atendido. Pode fazer outro.

Rapaz – Eu quero poder fazer quantos pedidos eu quiser eternamente…

Gênio – (cortando) Nanão. Foi só elogiar… se o espertinho quiser se dar bem trapaceando, me assalte logo de uma vez.

Rapaz – (pensando bastante) Eu quero acabar com a fome na Àfrica.

Gênio – Esse é meio clichê, mas tudo bem. Pedido atendido.

Rapaz – Só uma dúvida… como eu posso ter certeza que o meu pedido foi realizado?

Gênio – Você pode desejar uma passagem de avião até a África e ficar por lá mesmo.

Rapaz – Não precisa ser estúpido.

Gênio – Não, não pode desejar ser o gênio. Eu leio pensamentos.

Rapaz – Geralmente as pessoas pedem o quê?

Gênio – Sexo e muito dinheiro. Geralmente começam pedindo dinheiro, porque o resto vem junto.

Rapaz – Sei… (pensando)

Gênio – Não pode demorar muito não, que eu tenho hora.

Rapaz – Alguém já pediu pra ser feliz?

Gênio – Raramente.

Rapaz – Porque é um desejo muito difícil de realizar, né?

Gênio – Digamos que seja um desejo complexo.

Rapaz – Eu posso pedir pra alguém desejar pra mim?

Gênio – (consigo) Eu nunca mais volto em Inhaúma.

Rapaz – Ah, tá certo. Pronto. Decidi.

Gênio – Pode falar.

Rapaz – Eu desejo voltar a fumar.

Gênio – Como assim?

Rapaz – Eu já acabei com a fome na África, não censure os meus pedidos. Eu era muito feliz fumando.

Gênio – Sabe que fazendo esse pedido você conseguiu, pela primeira vez na história da humanidade, fazer três pedidos e ficar exatamente na mesma situação de merda do início?

Rapaz – É, né?

Gênio – Pois é.

Rapaz – Então eu quero outra coisa.

Gênio – Sim.

Rapaz – (risca o fósforo) Eu desejo um isqueiro.

FIM

Estúpido direito de sofrer

Personagens

Letícia, a noiva.
Mateus, o noivo.
Padre

(Altar de uma igreja. Mateus ao lado do padre e os padrinhos. Ave Maria, entra a noiva com o rosto coberto pelo pesado véu branco, impedindo que seu rosto seja visto.)

(A noiva caminha lenta até o altar.)

( O Noivo levanta seu véu sem pressa)

Mateus: (espanto pavoroso) O que é isso??!!!

Letícia: (sorri constrangida) Mateus…

Mateus: (revoltado) O que você está fazendo aqui?

Letícia: (doce) Me casando com você…

Mateus: Que brincadeira de mau gosto é essa?

Letícia: (canto de boca) Mateus… Pelo amor de Deus… Olha o escândalo…

Mateus: Quem é você?

Letícia: Que papelão, meu deus…

Mateus: Quem é essa mulher? Cadê a minha noiva?

Letícia: Estou aqui…

Mateus: Você não é a minha noiva… Onde está a minha noiva? (perdido)

Letícia: (ao público) Ele está nervoso… Natural… Casamento é coisa séria. (sorri) Mateus, sou eu… Sua Letíciazinha… Aqui, meu amor… Fica calmo, tudo vai dar certo…

Mateus: (sorri incrédulo) É pegadinha?

Letícia: Pegadinha…?

Mateus: Tem câmeras escondidas aqui! Onde estão????

Letícia: Do que você está falando, meu amor?

Mateus: Aposto que esse padre nem é de verdade… É tudo uma farsa!

Letícia: Não tem câmera nenhuma, Mateus…

Mateus: Pára de falar meu nome!!! Como é que você sabe o meu nome?

Letícia: (ri nervosa) Você está fora de si… Controle-se…

Mateus: Fora de mim eu vou ficar se você não me disser agora o que está acontecendo aqui!!!

Letícia: Um casamento.

Mateus: Estou vendo.

Letícia: O nosso casamento…

Mateus: Nosso? Como assim cara pálida? Eu nem sei quem é você!

Letícia: (chorosa) Por que você está fazendo isso comigo…?

Mateus: Isso o que?

Letícia: Isso… Humilhação, vergonha, desprezo… Bem no dia que deveria ser o mais feliz da minha vida! Se não queria casar, era só falar. Eu ia sofrer claro, mas ia passar! Agora você me inventa essa palhaçada de última hora, arma esse coreto e diz na minha cara que não sabe nem quem eu sou? Monstro!

Mateus: Espera aí! Deve estar havendo algum engano, minha querida.

Letícia: “Minha querida” ? Ah!!! Agora eu sou “a sua querida”???

Mateus: Eu não sei quem é você!

Letícia: Seu canalha!

Mateus: Não inverta a situação, sua maluca! Eu quero casar , é claro que eu quero casar. Eu vou casar!!! Mas não com você…

Letícia: Aiiii……Torpe!

Mateus: Nada pessoal… Mas não posso me casar com quem eu não conheço?

Letícia: Isso é sentido figurado? Porque, eu sei que não conhecemos ninguém de verdade por dentro, não completamente, mas olha, eu posso te assegurar que eu continuo sendo a mesma e…

Mateus: Não!!! É literal, mesmo. Eu não sei, de verdade, do fundo do meu coração, sinceramente, eu não faço a mínima idéia de quem é você…

Letícia: Eu sou Letícia, a mulher que até ontem você disse que amava…

Mateus: Você deve estar me confundindo… Olha, vai ver você entrou na igreja errada. Acontece. Nunca te vi, nunca te amei.

Letícia: Cínico! (esbofeteia o noivo)

(todos: Ohhhhhhhhh!!!)

Mateus: O que é isso?!!! Doeu, sabia?

Letícia: Era pra doer mesmo!!!

Mateus: Maluca!!! Essa mulher é uma louca!! Padre, eu exijo uma explicação para tudo isso!

Letícia: Padre, condene esse homem ao inferno!

Mateus: Padre, diz pra ela que ela está cometendo um grande engano…

Letícia: O grande engano foi eu ter acreditado em você!

Mateus: Padre! Diz alguma coisa!!!

Padre: Caixinha de fósforos.

Mateus: O que? Pirou? (muda o tom) Já sei: eu estou num daqueles sonhos bizarros, sem sentido, mas que parecem reais. É isso. Daqui a pouco eu acordo… Você deve ser um sentimento de culpa, ou alguma projeção dos meus medos da infância… É isso. Nada disso está acontecendo de fato. Você não é real.

Letícia: (ela cospe na cara dele) Isso parece real pra você?

Mateus: Que merda!!!! Não faz mais isso!

Letícia: A explicação disso tudo é explícita e objetiva: você é um covarde, e não merece o meu amor! Quem não casa agora, sou eu!!!

Mateus: Paciência. Pois eu vou casar. A minha noiva vai entrar por essa igreja daqui a pouco e vamos juntos viver uma vida de amor e respeito, com direito a lua de mel em Maceió.

Letícia: Eu odeio você, Mateus!!! Odeio Maceió!

Mateus: Olha, se eu provar que você está enganada, você vai embora e me deixar em paz de uma vez por todas?

Letícia: Provar que eu estou enganada? Então você insiste nessa loucura… Meu deus… Você deve ter surtado! Isso… É essa a explicação… Você surtou! Ou então bateu com a cabeça em algum lugar e por isso está assim… Tadinho! Ai meu amor, eu cuido de você, deixa…

Mateus: Me larga! Que inferno! Gente? Ninguém vai fazer nada?

Letícia: Gente ele está com problemas… Acontece. Não vamos julgá-lo, sim? Vamos aceita-lo e esperar que ele supere essa fase difícil da vida dele…

Mateus: Ei! A única pessoa com problema aqui é você, minha filha!

Letícia: Nós te amamos, Mateus. Mateus é um bom companheiro, Mateus é um bom companheiro… Abraço coletivo!!!!

Mateus: Saiiiii!!! Olha, eu não sei o que está acontecendo aqui, mas eu vou provar que esta mulher é uma fraude!!!!

Letícia: Prove.

Mateus: As alianças! Está vendo aqui? (indica a aliança) Aqui está gravado o nome da minha noiva!

Letícia: Sim. Leia em voz alta. Diz. Qual é o nome da sua noiva???

Mateus: Você acha mesmo que vai se casar comigo, não é?

Letícia: Não sou mulher de achismos. Sou fundamentada em certezas!

Mateus: (sorri sádico) Chacotinha! Vai quebrar a cara.

Letícia: (desafiadora) Pago pra ver…

Mateus: O nome da minha noiva é… ( Lê na aliança, suspense. Desfaz o sorriso , num pavor) Letícia?

Letícia: A máscara caiu, meu bem!

Mateus: Que sinistra anedota é essa? O que está acontecendo aqui?

Letícia: O que está acontecendo aqui é que você acaba de ser desmoralizado na frente de todo mundo!!!

Mateus: Não é possível… Eu não conheço você… Eu juro… Eu juro…

Letícia: Você é o meu noivo!

Mateus: Não! Eu juro que não!!!

Letícia: Está na aliança! Como você mesmo decretou: a prova dos nove.

Mateus: Não é possível…

Letícia: É possível sim, meu amor. Eu também tenho o seu nome escrito aqui na minha aliança, em letras garrafais… (lê na aliança) Rogério?

Mateus: Rogério? Quem é Rogério?

Letícia: Essa aliança está errada… Eu não sei quem é Rogério…

Mateus: Rogério é o seu noivo!

Letícia: Não…

Mateus: Sim! É isso. Você realmente vai se casar, mas não comigo…

Letícia: O que? Que isso? É uma pegadinha? Tem Câmeras aqui????

Mateus: Desculpa, eu devo ter me enganado de igreja… Fiquei tão tenso com tudo que entrei na igreja errada… Mil desculpas!

Letícia: Eu não sei quem é Rogério… Mateus, acredita em mim!!! Que brincadeira de mau gosto é essa?????

Mateus: Está bem claro nas alianças: Letícia, você. Rogério: Seu noivo! Felicidades!!

Letícia: Não… Eu juro… Deve ter acontecido algum engano…

Mateus: Sim… Me perdoe pelo engano. (aos convidados) Perdão padre!
Foi mal pessoal! Realmente não conheço nenhum de vocês…

Letícia: (assombrada) Eu também não… Não são seus convidados?

Mateus: Não.

Letícia: Mas e agora?

Mateus: Sinto muito. Seu nome está aí… Agora, o problema é seu… (saindo feliz)

Letícia: (do altar) Volta aqui, Mateus! Mateus!!! Volta agora!

Mateus: Estou atrasado para o meu casamento!!! Beijos! Felicitações ao seu noivo Rogério!!

Letícia: Eu já disse que não sei quem é Rogério!!! Mateus!! Mateus!! Mateus !!!!!!!!!!!!

( Mateus dá um tchauzinho de longe e some)

Letícia: (sem entender nada) Gente… Que loucura… (ao padre) Caixinha de fósforos?

(valsa nupcial, luz caindo em resistência)

fim