Coelhinho, se eu fosse como o Clô, ou Pânico na Páscoa

ZEZINHO trancado em seu quarto apavorado.

MÃE de ZEZINHO bate na porta.

Mãe- Abre Zezinho! Deixa eu dar teu ovo de páscoa pra você, filho!

Zezinho- Me deixa em paz!!!

M- Mas é do crocante! Não é desse que meu bebê gosta?

Z- Some daqui! Quero ficar sozinho! Ele não pode me achar!

M- Quem meu filho?

Z- Ele…

M- Quem? Fala mais alto!

Z- Mãe! Pelo amor de Deus! Se você tem amor pela sua vida! Me deixa! Desaparece! Foge daqui!

MÃE ARROMBA A PORTA.

M- Chega. Cansei da brincadeira. Levanta. Vamos trocar essa roupa.

Z- A senhora não podia ter feito isso!!! Agora senhora me matou! Assassinou seu próprio filho!

M- Não começa, Zezinho! Também sei frases de efeito! Você não vai gostar de ouvir!

Z- Ele vai entrar aqui! Vai me levar como levou os outros!

M- Ele quem? Quem? Abre essa boca! Troca uma idéia com a sua mãe!

Z- Quanto menos a senhora souber, melhor.

M- Você não se comunica. Perdeu o emprego, e agora isso!

Z- Todos no programa desapareceram, mamãe! Você não percebe?

M- Nunca fui com a cara daquele apresentador cabeçudo. Mas os outros eram engraçadinhos.

Z- Eu fui o único que restou! Até a japonesa! Ele conseguiu botar as garras esmaltadas nela!

M- Ele quem?

Z- Se fingiu de morto… ou pior! Está se vingando de além-túmulo! Por tudo que nós fizemos!

M- Você não está falando do…

Z- Não fale o nome dele em voz alta!

M- Você acha que a culpa é do Clô?

Z- Cala a boca, mãe! Eu disse pra não falar!

M- Nunca ouvi tamanha besteira!

Z- E como é que a senhora explica? Todos os integrantes do programa estão desaparecidos!

M- Mas filho! Essa galera é muito doida! Tudo metido a artista! Devem ter sumido pelo mundo! Tiraram férias!

Z- A equipe técnica também! Eu fui o único que restou! O câmera três!

M- Filho! O Clô não vai vir atrás de você. Não foi você que perseguiu, que galhofou tanto da pobre da bicha.

Z- Primeiro vem uma lufada de perfume, minúsculos fragmentos de purpurina, uma gargalhada de ovo na boca ao longe… e então ele aparece!

M- Você tem que se tratar!

Z- Ele!!! Ele está aqui!!! A senhora sente, mamãe? Sente o perfume francês no ar? Minha hora chegou!

M- Zezinho, você está fora de si! Você perdeu a cabeça!!!

NESTE INSTANTE, A CABEÇA DE MÃE VOA NO ESPAÇO. FOI DECEPATA POR UMA FIGURA QUE ESTAVA ALI PELAS SOMBRAS, VESTIDA DE NEGRO, ARMADA COM UMA GIGANTESCA TESOURA DA QUAL AINDA ESCORRE LENTO O SANGUE DE MÃE.

Z- Você!!! Você matou minha mãe! Voltou pra nos aterrorizar! O Pânico na tevê era só um bico! Me deixe viver! Por favor, Clô! Tenha piedade de mim!!!

A FIGURA DE NEGRO TIRA A MÁSCARA, REVELANDO SER UMA MULHER.

E- Eu não sou Clô. Eu sou a Eufrásia! Hahahahahahaha!!!

EUFRÁSIA DÁ UMAS TESOURADAS EM ZEZINHO ACABANDO COM A PÁSCOA.

Eu tenho um Clodovil

Homem na sala de um médico cirugião. Ele mostra a foto de Clodovil.

Homem – Eu quero ficar igual a ele.

Médico – Ao Clodovil?

Homem – Sim. Quero ser o Clodovil.

Médico – Mas que coisa mórbida… a face de um homem que morreu?

Homem – Ele não morreu.

Médico – Como?

Homem – Clodovil não morreu…

Médico – Mas… como assim? Morreu no mês passado.

Homem – Ele está guardado dentro de mim.

Médico – Você é maluco?

Homem – Eu sou…

Médico – É o que? Quem é você?

Homem – Eu sou…

Médico – Fala!

Homem – Sou eu.

Médico – Quem?

Homem – Eu sou o verdadeiro Clodovil, o único!

Médico – Você?

Homem – Sim. Passei anos me escondendo por trás desse rosto, mas por dentro de mim mora um Clodovil, o mais perfeito.

Médico – Vou chamar o Pinel.

Homem – Já passei pelo Pinel cinco vezes.Ninguém consegue ver que por trás desse homem, que se chama João Miguel, há um Clodovil. Ele está dentro de mim, querendo sair! O senhor tem que dar um jeito!

Médico – Mas como é isso é impossível!

Homem – Desde TV Mulher que ele olha para mim querendo me dizer coisas… ele me disse uma vez que seria Clô, só para os íntimos, me fez olhar para a câmera da verdade e…

Médico – E o que???

Homem – E depois disso não consigo mais ser o João Miguel. Eu preciso deixar esse Clodovil sair de dentro de mim. Ele está impregnando o meu ser…

Médico – Você tem certeza de que há um clodovil dentro de você?

Homem- Sim.

Médico – Eu vou te contar uma coisa mas você tem que guardar segredo.

Homem – Sou um túmulo!

Médico – Eu sinto que tem um Clóvis Bornay dentro de mim, desde o carnaval passado.

Homem olha e sorri de canto de boca para o médico. Os dois saem de mãos dadas. Clovis Bornay e Clodovil vão passear pela orla de Copacabana no final da tarde.

A outra história do Clodovil

(Renata está andando na rua e vê o Clodovil olhando pra ela. Acha isso interessante e continua seu rumo. Ela dobra a esquina e mais uma vez ele está lá. Acha que é apenas uma coincidência e continua andando. Ela pára num jornaleiro e mais uma vez o Clodovil está lá. Ele está sempre olhando para ela como se quisesse dizer alguma coisa. Renata desvia, começa a correr, se sente perseguida, ao dobrar a próxima rua dá de cara com ele.)

Renata: Ah!

Clodovil: Não foge.

Renata: O que você quer comigo?

Clodovil: Estamos sendo observados.

Renata: Desculpa, mas eu acho que você tá me confundindo com alguém.

Clodovil: Venha comigo.

Renata: Olha, eu não te conheço, quer dizer, eu te conheço, óbvio, mas não te conheço. Você entendeu, né Clodovil?

Clodovil: Clô.

Renata: O quê?

Clodovil: Pode me chamar de Clô.

Renata: Clo, o que você quer?

Clodovil: Escreva pra mim.

Renata (surpresa): O quê?

Clodovil: É isso mesmo o que você ouviu. Escreva uma peça pra mim.

Renata: Como você sabe que eu escrevo?

Clodovil: Garota. Escuta o que eu estou te dizendo. Escreva uma peça pra mim. Escreva e não discuta.

Renata: Por que eu?

Clodovil: Antes que eles me peguem. Escreva. Antes que…

Renata: Antes que o quê?

Clodovil: Olha pra mim. Eu não tenho tempo pra explicar. Escreva uma peça pra mim. Um monólogo. Um monólogo. Eu produzo.

Renata: Um monólogo. Ma você nem é ator.

(Clodovil ri com a aquela risada de sempre)

Clodivil: Ahahahaha. Minha querida, eu sou um grande ator. O maior ator desse país. O que você acha que eu faço o tempo todo, hein? O que você acha? Você acha que eu sou assim, querida? Que eu acordo desse jeito e durmo desse jeito? Eu sou um personagem, amor. Eu me inventei. Arrogante, esnobe, antipático. É tudo atuação. Mas na verdade eu sou um fofo, uma graça, um amor de pessoa. De manhã vou às comunidades carentes, ninguém sabe. Sou um cara simples. É isso o que você tem que escrever, tá entendendo? Você vai escrever sobre esse meu outro lado. O lado que ninguém conhece. Antes que…antes que…

Renata: Antes que o quê?

Clodovil: Olha aqui. Eu to te dando a oportunidade da sua vida. Eu tô te dando a chance de escrever um monólogo pra mim. Ninguém mais que O Clodovil. Eles dizem que me odeiam mas vão me assistir. Acha que não? Porque eu sou polêmico, garota. Você já fez algum sucesso? Já explodiu na bilheteria? Já foi indicada ao prêmio Shell? (silêncio- Clodovil ri) Então? O que tá esperando? Eu te escolhi.

Renata: Mas por que eu, Clô? Por que não outro autor?

Clodovil: Ô garota, você não escreve para o site Drama diário?

Renata (com um sorrido na boca) Sim! Eu escrevo! Você conhece esse site?

Clodovil: O que você acha que eu fico fazendo em Brasília? Lá todos conhecem esse site. Aliás, muito bom.

Renata: Tá. Mesmo assim são sete autores. Você poderia ter escolhido qualquer outro, mas…

Clodovil: Você é a única judia.

Renata: O quê?

Clodovil: Você é judia, não é?

Renata: Sim. E daí?

Clodovil: Eu também sou judeu.

Renata: Mentira. Dizem até que você é anti-semita.

Clodovil: Eu não admito que você fale assim de mim.

Renata: Não sou eu que falo, são os outros.

Clodovil: Na verdade, nasci na Polônia antes da segunda guerra mundial. Numa comunidade judaica pobre, e miserável. Naquela época eu ajudava a minha mãe com costuras pra fora. Daí o meu dom como estilista. Eu também ia todo sábado na sinagoga…

Renata: Você?

Clodovil: Depois que Hitler tomou o poder, tive que fugir. Meus pais foram pegos, levados para o campo de concentração e eu vim para o Brasil, fugido, num navio cargueiro, no meio de ratos, baratas e todo o tipo de sujeira que você possa imaginar.

Renata: Mas…

Clodovil: Eu sei, Renata. Você entende muito bem o que eu estou falando. Seu avô também veio nesse mesmo cargueiro que eu.

Renata: Você conheceu o meu avô?

Clodovil: Seu Saul. Um grande homem.

Renata: Meu Deus, eu nunca ia imaginar que o Clodovil…

Clodovil: Então? Agora você me entende? Ninguém sabe dessa história, ninguém.
Eu, para vencer na vida, tive que fingir ser quem eu sou. Tive que me tornar essa pessoa para poder ter um programa de televisão. Ser amado e odiado. Não foi fácil. Agora eu preciso limpar toda essa fama poluída e fétida que eu construí. Imagina! Eu ser anti-semita? Nunca. É por isso que eu preciso de você. Uma autora judia. Ninguém melhor que uma autora judia para contar a minha verdadeira história.

Renata: Olha, Clo… eu não…

Clodovil: Olha você, garota. Eu preciso que o Brasil conheça o meu outro lado, eu preciso. Tá entendendo? É o único jeito de… o único jeito…

Renata: Fala.

(Clodovil se aproxima dela, bem perto, e fala em segredo.)

Clodovil (sussurrando): Conseguir a presidência desse país. Me tornar o próximo presidente disso aqui. Esse povo, querida, adora político que faz teatro, acha chique e culto. Escreva, minha filha, escreva para mim e saia desse limbo!

Renata: Tá, eu escrevo. Ma eu preciso saber mais…

Clodovil: Tudo o que você precisa saber está nessa fita. (entrega uma fita de vídeo para ela)

Renata: Fita? Mas eu não tenho mais vídeo cassete.

Clodovil: Se vira, querida. Eu gravei essa fita há dez anos e ainda não tinha DVD. Você vai conseguir. Mas escreva logo, eu preciso estrear antes que… antes que…

Renata: Antes que o quê?

Clodovil: Antes que eu morra! Eles estão querendo me matar.

Renata: Eles quem?

Clodovil: Todos eles. O pessoal da emissora, o pessoal do congresso, meus ex-amigos. Eles me odeiam. Eu preciso estrear essa peça antes, ouviu?

Renata: Tá, eu vou tentar…

Clodovil: Tentar não, cherry. Tentar é coisa de pobre. Você vai conseguir. Eu preciso ir. Se alguém estiver nos vendo provavelmente vai dar um jeito de me eliminar. Mais uma coisa. Minha saúde está ótima.

Renata (sem entender): Que bom…

Clodovil: Escuta! Minha saúde está ótima. (ele sai)

Renata: “Minha saúde está ótima?” (se dá conta do que aconteceu.) Ah, meu Deus o Clodovil! Quem é que ainda tem vídeo em casa?

(sai correndo a procura de um amigo com vídeo. Pequeno B.O- quando volta a luz, Renata está vendo a fita de vídeo. Ouvimos a voz de Clodovil)

Voz: Olá. Meu nome é Clodovil Rabinovitch Erlich. Mais conhecido como Clodovil Hernandes…

(O som da TV do vizinho é ouvido e cobre a voz de Clodovil. Ouvimos a chamada de notícias trágicas da TV Globo)

Renata: Putz! (vai aumentar o som da voz de Clodovil quando é surpreendida pelo o que escuta na TV do vizinho)

Voz de Wiliam Boner: Morre essa tarde de aneurisma cerebral, o apresentador, estilista e político, Clodovil Hernandes…

Renata: O quê?

(Ela desliga o vídeo e liga a TV para escutar o noticiário)

Voz do apresentador: A morte foi causada por um acidente vascular cerebral…

Renata: Mas a saúde… Não!!! (liga do telefone fixo) Alô? É da Rede globo? Pode me passar para o departamento de notícias, por favor? (nessa mesma hora o celular toca) Alô?

Voz do celular grave e distorcida: Renata, sua saúde tá boa?

Renata: O quê?

Voz do celular: Não acha que ainda está cedo para ficar doente?

(ela desliga imediatamente. Volta no telefone com a Rede Globo)

Renata: Alô? Olha, desculpe, foi engano. Obrigada.

(Desliga. Atônit
a, volta para o vídeo do Clodovil, mas a fita, de repente, fica com defeito e fica o barulho de chiado com a voz de Clodovil por traz)

Voz de Clodovil com o chiado: Minha saúde está boa! Minha saúde está boa!

FIM.

Gênese

Um menino de 5 anos e uma bicha de uns 60. A bicha é grisalha com feições indígenas.

Bicha: Voal.

Menino: A gente vai voar?

Bicha: Não, criança chata. Voal é um tecido de quinta usado por gente de sexta que acredita que qualquer coisa que levanta quando bate uma brisa é chique.

Menino: Gente de sexta?

Bicha: Seres rastejantes que deixam suas peles encostar em excrementos tais como polyester e chita.

Menino: Mas Chita não é a macaca do Tarzan?

Bicha: Ai… Tarzan… O que um belo corpo não é capaz de fazer com um pedaço de tecido. Transforma qualquer trapinho sujo e esfarrapado numa desejada tanga bem recheada, senhora dos sortilégios lascivos da pura masculinidade.

Menino: O quê?

Bicha: Nada, não.

Menino: Vamos jogar futebol?

Bicha:Cruuuuuuuuuuuzes. Blusa de jerse com calção de nylon? Nem morta.

Menino: Soltar pipa?

Bicha: Só se for com linha de seda.

Menino: Esconde-esconde?

Bicha: Vai ter bofe?

Menino: Que que isso?

ENTRA UMA SENHORA. A BICHA SE RECOMPÕE E VIRA MACHO.

Senhora: Jacinto, a pia da cozinha tá pingando de novo.

Bicha (agora macha): Pode deixar que eu concerto meu amor. E é pra já!

BICHA SAI. FICA SENHORA E MENINO.

Senhora: Ai, seu avô é um homem e tanto. Quando crescer eu queria muito que você fosse igual a ele, Clô. Igual a ele.

Menino: Igualzinho, vovó?

Senhora: Igualzinho.

Olhe para a lente da verdade

Sons de aplausos gravados. Clodovil pisca para a platéia e se diverte ao som do pianista Marcos.

Clodovil: Meu amor! Para você que está despenteada, mal vestida e mal amada nesse sofá. Olhe para a lente da verdade. Olhe para o espelho e vá dar um sacode!

São Pedro: Clodovil.

Clodovil: Fala santa! Meu amoor, sinto informar, mas você não é o entrevistado da noite!

São Pedro: Volte já para o Paraíso.

Clodovil: Agora não.

São Pedro: Eu preciso que você volte imediatamente.

Clodovil: Ai, santa! Se hoje você está estressadinha não quero nem ver seu furor na
6a. feira da paixão.

São Pedro: CLODOVIL!

Clodovil: Você acha que eu tenho medo de voz grossa? Voz grossa me excita.

São Pedro: Mais respeito comigo.

Clodovil: Eu não consigo. Não consigo respeitar gente mal vestida. Se você tivesse mais respeito por você mesmo não estaria usando essa batinha horrorosa trabalhada no algodão cru.

São Pedro: Insolente! Eu vou contar tudo para Deus!

Clodovil: Não precisa. Deus é onipresente e onisciente. Ele já sabe.

São Pedro(ofendido e infantil): Então eu vou contar tudo para a sua mãe!

Clodovil (numa gargalhada típica): HAHAHA! Eu sou adotado!

São Pedro fica magoado Clodovil percebe.

Clodovil: Oh, querido. Sente-se, vamos conversar.

São Pedro: Eu não quero.

Clodovil: Ih, bobo, pára! Está com medo de sujar a batinha? A minha roupa é mais cara que a sua.

São Pedro senta.

Clodovil: Tire essa mágoa do coração. Rancor não faz bem para a pele. Pedroca, eu vou fazer essa recepção para a granfa da Barra da Tijuca porque você pediu. Eu vou por você, Pedroca.

São Pedro: Obrigado!

Clodovil: Juro, que se fosse pelo Gabriel, aquele loirinho com cara de bobo, eu não faria.

São Pedro: Ô, Clô! Eu fiquei emocionado.

Clodovil: Ah, pára! Agora vá para o altar que é seu lugar! Eu vou entrevistar uma amiga rapidinho e já vou.

São Pedro: Até breve! Estarei esperando!(sai)

Clodovil: Me espere no altar, querido! Ui! (volta para a mesa da entrevista)
Dercy, está pronta, meu amoor?

Dercy (da coxia): Ai, Clô, caralho, puta que pariu, essa porra desse zíper invisível desse tubinho escroto que você desenhou para mim não está fechando. Que merda! Porra!

Clodovil: Se vira, meu bem. Porque com o trapinho que você estava usando não dá nem para começar a conversar. Marcos, toque mais alto! Eu, Clodovil vou estar sempre olhando para lente da verdade e abrindo o jogo. Tá bom, meu amoor! HAHAHA!

FIM
Para Clodovil um dos meus ícones preferidos (na moda e na comédia)

O freguês e a razão

Senhora entra na farmácia. É o primeiro dia de trabalho do atendente.

Atendente – Posso ajudar?

Senhora – Uma caixinha de clodovil, por favor.

Atendente – Qual o nome?

Senhora – Clodovil.

Atendente confuso. Vai e volta.

Atendente – Perdão, a senhora disse clo-do-vil?

Senhora faz sim com a cabeça.

Ainda confuso, olha para os demais atendentes e eles fazem sinal para que ela não seja contrariada.

Atendente – Só uma dúvida… seria remédio pra quê?

Senhora – Dor de cabeça.

Atendente – Temos novalgina, pode ser?

Senhora – Não, eu quero clodovil mesmo. Aproveita e me dá uma caixinha de benzetacil.

Atendente pega a caixa de benzetacil, finge procurar o tal clodovil e retorna.

Atendente – Clodovil não temos.

Senhora – Como não?

Atendente – Clodovil está em falta.

Senhora – Vai dar uma olhada no estoque. Eu compro nessa drogaria a mais de 30 anos e nunca faltou.

Atendente sai, vai até o estoque sentindo-se patético e volta.

Senhora – Encontrou?

Atendente faz que não com a cabeça.

Senhora – Você é novo aqui?

Atendente – Sim, senhora…

Senhora – É por isso. Por isso essa merda vai falir.

Atendente – Desculpe.

Senhora – Desculpa o quê, menino! Trate de ir até lá buscar uma caixa de clodovil. Você é meu empegado e tem que fazer o que EU mando.

Atendente (explode) – Clodovil não é remédio!

Senhora – É sim.

Atendente – Não é.

Senhora – É!

Atendente – Não é, não!

Senhora – É!

Atendente – Então prova que eu quero ver! Mostra uma caixa de clodovil, umazinha só, que eu sambo na Presidente Vargas!

A senhora tira uma caixa qualquer de dentro da bolsa. Ao saber que a senhora é mãe de seu chefe, ele se faz de bobo e tira a horinha de almoço para sambar na Presidente Vargas.

Registro

(no cartório da Real Grandeza)

Tabelião: Nome.

Homem: Clodovil.

Tabelião: (olha por cima do balcão) Você é o Clodovil? Digo, Clodovil, Clodovil.

Homem: Eu sou Clodovil, mas não sou O Clodovil.

Tabelião: É primo? Parente?

Homem: Não. Sou apenas mais um Clodovil.

Tabelião: Que engraçado, pra mim só existia o Clodovil de Clodovil. Nunca ouvi falar noutro.

Homem: Pois é. Tem muitos Clodovis por aí e o senhor não sabe.

Tabelião: Que coisa…

Homem: Tem até uma comunidade no orkut: Eu me chamo Clodovil.

Tabelião: É mesmo?

Homem: Mais de 200 membros. E tem a “Eu conheço um Clodovil que não é O Clodovil”. Essa tem prá lá de 600.

Tabelião: Mas ele foi o primeiro Clodovil de todos.

Homem: É aí que o senhor se engana, meu bisavô se chamava Clodovil.

Tabelião: Gente, vivendo e aprendendo… Então, acho que o meu caso ainda é pior que o seu…

Homem: Qual é o seu nome?

Tabelião: Dercy.

Homem: Dercy, da Dercy?

Tabelião: Não extamente por causa da Dercy. Mas calhou do meu sobrenome também ser Gonçalves, então você imagina a confusão.

Homem: Caramba, você se chama Dercy Gonçalves…

Tabelião: Pois é. Meu pai me colocou esse nome, mas é unissex.

Homem: Dercy é super feminino.

Tabelião: Dercy é unissex. Nome que termina com y é unissex: Darly, Arcy, Jocy…

Homem: Marly, Cecy, Fany… Nem vem que não tem. Dercy é feminino.

Tabelião: Não mais que Clodovil.

Homem: E o que tem de feminino em Clodovil?

(silêncio)

Homem: Clodovil é super masculino.

(silêncio)

Homem: Clodovil é nome de homem e todo mundo sabe. Você conhece algum Clodovil mulher?

Tabelião: (sorriso malicioso)

Homem: Que sorrisinho escroto é esse? O que quer insinuar, meu chapa?

Tabelião: (debochado) Eu não disse nada, senhor Clodovil. (risinho)

Tabelião: Tá rindo de que? Você se chama Dercy Gonçalves, meu filho!

Tabelião: Pro seu governo, Dercy é o nome de um boxeador sueco premiado! E nome de um dos ministros da mesa da ONU. Dercy é de origem tupiguarani, de um jovem guerreiro morto em batalha para salvar a sua tribo. O pai da Dercy é que errou o gênero. Dercy é nome de macho.

Homem: Dercy gostava de macho, isso sim!

Tabelião: Olha a falta de respeito!

Homem: Camarada, eu estou com pressa. Me libera o meu documento de uma vez, ok.

Tabelião: Está nervosinho, senhor Clodovil? Será que é só a arrogância ou tem outras coisas que vem desse nome…?

Homem: Escuta aqui, Dercy Gonçalves, se você fizer mais uma piadinha eu quebro a sua cara e te deixo igualzinho a falecida que te inspirou.

(Tabelião entrega o papel a contragosto)

Tabelião: Passe bem, senhor Clodovil.

Homem: Pena eu não lhe desejar o mesmo, senhor Dercy Gonçalves.

(Homem sai.)

Tabelião:(resmungando) Esquentadinho… Não aguenta a brincadeira… Agora veja… Cada um que aparece…(chama) Próximo!

(Mulher se aproxima)

Mulher: Oi.

Tabelião: Sim?

Mulher: Vim reconhecer firma.

Tabelião: O nome da senhora, por favor?

Mulher: Chacrinha.

fim.