A história de Romeu e Julieta
Suzane v.H. – menina, 5 anos
Suzane V.: Como assim, vovó?
Avó: Você já me fez essa pergunta.
Suzane V.: O quê?
Avó: Outra pergunta.
Suzane V.: Hein?
Avó: Faz outra pergunta.
Suzane V.: Mas eu quero fazer essa.
Avó: Ta bem. Qual é a pergunta?
Suzane V.: Hoje entrou uma menina nova lá na escolinha. Daí, a tia Aldene falou que o nome dela é Julieta..
Avó: Cadê a pergunta? Até agora você só fez 2 afirmações.
Suzane V.: Como é que o nome dela pode ser Julieta?
Avó: Cadê meu rivotril?
Suzane V.: Como é que o nome dela é Julieta?
Avó: Isso é rivotril ou ruipinol?
Suzane V.: Responde vovó.
Avó: Diabo de vista cansada.
Suzane V.: Responde.
Avó: Qual é a pergunta, meu Deus?
Suzane V.: Como é que o nome da menina é Julieta? Julieta não é aquela coisa vermelha que eu como junto com Romeu de sobremesa?
Avó: Não, Suzane. Aquela coisa vermelha é goiabada. Que você come junto com queijo. Os nomes são goiabada e queijo. Romeu e Julieta são outra coisa.
Suzane V.: Não to entendendo, vovó.
Avó: Graças a deus. Ocadil ainda tem.
Suzane V.: Como é que aquela coisa vermelha é isso daí que você falou e aquela coisa branca é queijo se a mamãe sempre fala que é Romeu e Julieta?
Avó: Não me irrita Suzane. Não me irrita que hoje só tem Ocadil. E a sua mãe fala muitas coisas.
Suzane V.: Então a mamãe mente?
Avó: Claro que ela mente. Ela e o resto do mundo.
Suzane V.: Não to entendendo, vovó. Não to entendendo.
Avó: Todo mundo mente. O mundo mente. Mente.
Suzane V.: Vovó. Não to entendo, vóvó. Não to mesmo.
Avó: Ah, não ta? Então senta aqui que a vovó vai te explicar. As pessoas são loucas, minha neta. Loucas. Elas dizem uma coisa e querem dizer outra. Elas dizem uma coisa e querem dizer outra. Elas dizem uma coisa e querem dizer outra.
Suzane V.: Você já falou isso, vovó.
Avó: Elas dizem uma coisa e querem dizer outra.
Suzane V.: Mas, vovó. Você já falou isso.
Avó: Fica quieta! Pelo menos eu estou dizendo uma coisa que eu quero dizer. As pessoas não. As pessoas. As pessoas dizem uma coisa e querem dizer outra.
Suzane V.: Ta bom, vovó.
Avó: Elas dizem que são normais, mas compram revistas com fotos dos outros mostrando seus banheiros. Elas dizem que são equilibradas, mas pagam pra ter uma toxina que mata carrapato de boi injetada no canto dos olhos. Elas dizem que são honestas, mas só vendem pacotes com doze salsichas e oito pães de cachorro quente!
Suzane V.: Não to entendento vovó.
Avó: Sempre sobram quatro salsichas!
Suzane V.: Salsicha é tão gostoso.
Avó: As pessoas mentem, minha neta. Elas mentem!
Suzane V.: Então quer dizer que a minha sobremesa preferida não é Romeu e Julieta?
Avó: Não.
Suzane V.: É gobada com queijo.
Avó: Goiabada, analfabeta.
Suzane V.: Que que é analfabeta, vovó?
Avó: Você.
Suzane V.: Por que que eu sou isso aí que você falou, vovó?
Avó: Porque você não sabe ler, analfabeta. Nem escrever.
Suzane V.: Mas eu só tenho cinco anos.
Suzane V.: A culpa não é minha. Você continua sendo analfabeta.
Suzane V.: Vovó, me explica uma coisa.
Avó: Ai, meu deus, de novo.
Suzane V.: Se a minha sobremesa preferida não é Romeu e Julieta… o que é Romeu e Julieta, vovó?
Avó: Um casal de namorados que – impedidos de se amar pelas famílias – acabou se matando. Ela com veneno, ele com uma facada. Ou um tiro na cabeça se você levar em conta a refilmagem do Baz Lhurman.
Suzane V.: Romeu e Julieta são dois mortos?
Avó: Exatamente.
Suzane V.: Romeu e Julieta… são… um menino… e uma menina… e eles… estão…mortos?
Avó: Ficou surda agora?
Suzane V.: Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.
Avó: Se controla Suzane. Se controla que hoje só tem Ocadil.
Suzane V.: A minha sobremesa preferida são dois mortos. Buáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.
Avó: Suzane.
Suzane: Buáaaaaaaaaaa.
Avó: Suzane!
Suzane: Buáaaaaaaaaaa.
Avó: SUZANE!
Suzane silencia.
Avó: Eles não morreram de verdade.
Suzane V.: Mas você disse que eles morreram.
Avó: Eles não existiram.
Suzane V.: Como é que eles não existiram, vovó? Eles têm até nome.
Avó: Eu sei, minha neta. Mas eles são personagens.
Suzane V.: Personagens?
Avó: De ficção.
Suzane V.: O que é que é ficção, vovó?
Avó: Tudo que é de mentirinha.
Suzane V.: Mas você disse que todo mundo mente, vovó.
Avó: É verdade.
Suzane V.: Então todo mundo é de ficção, vovó?
Avó: Exatamente, minha neta. É tudo ficção.
Mãe grita de dentro.
Mãe: Suzane, vem almoçar senão vai ficar sem sobremesa.
Suzane sai correndo.
Tudo que é sólido desmancha no estômago
ou Conversa Acadêmica
Na mesa de jantar tem: um frango assado, rosbife ao molho madeira, batata rostie, batata assada ao molho de alecrim, arroz a la grega, empadão vegetariano de queijo brie e berinjela, kibe, feijão, panquecas de queijo, saladas, peixe a la belle meuniere, combinados de sushi. Vinho, sucos, refrigerante e água.
Professor e Professora sentam na mesa.
Começam pela salada.
Professor: Estamos num impasse.
Professora: Estou sabendo.
Professor: Um de nós vai ser demitido.
Professora: Tenho certeza de que não será eu.
Professor: E eu tenho certeza de que não será eu.
Professora: Minhas aulas são maravilhosas.
Professor (comendo uma cenoura): As minhas também.
Professora (debochada): O que você ensina? A questão das ruelas segmentadas da Galiléia na era do rafting no Rio Jordão? Tá bom. (come um pepino)
Professor: Ha ha ha, engraçadinha, faço muito melhor! (come uma cenoura) Discuto a relação entre a páscoa e os coelhos da Tailândia. Fique sabendo, Dona sabe-tudo, que foi com essa veemência na aula que os alunos quase tiveram uma orgia cultural. Afinal, temos que admitir que é muito sério (come alface) toda aquela plantação no meio do Triângulo das Bermudas, vingar sem nem sequer valorizar pascoalinamente as pesquisas acadêmicas feitas pelo primeiro time da Universidade de Cambridge.
Professora (comendo ovos de codorna): Não, não. Você não pode chegar a conclusões precipitadas sobre a origem das aves de rapina sem consultar a Biblioteca extinta da Babilônia! O que é que é isso? Aonde nós estamos? Muito mais sensato que queiram te demitir. Um acadêmico não pode sair espalhando por aí (Professora come milho em conserva) que as mulheres são como galinhas à procura da sua pipoca. Isso é ridículo.
Professor (passa da salada pro empadão vegetariano): Ridícula é você com seu discurso neo-marxista de que as flores só servem para um alimentação balanceada quando estamos na floresta. Esse papo não é válido para nós, seres pensantes, mesmo que toda a população passe a comer comida vegetariana. Não esqueça que os animais irracionais foram criados unicamente para que os anfíbios usufruam de suas peles antropológicas. Me admira muito um ser como você ainda acreditar nessas repugnâncias filosóficas.
Professora (também comendo empadão vegetariano): Ah, por favor! Não me venha agora com discursozinho besta sobre anarquia! A França desde o início do século XII fez a famosa reforma da berinjela. O que é muito semelhante ao caso Clinton, que reformou todo um sistema epistemológico de comunicação em massa. Você não pode chegar pra mim agora e fingir que não leu sobre a astrologia quântica. Não seja ridículo por favor. O que você quer? Conquistar alguma aluna com esse ar empírico? Se enxerga!
Professor (comendo farofa): Mas o quê? (tosse) Mas o quê?(tosse) Esqueceu que toda farinha procura um lugar para colocar seu grão? Assim vão pensar que seus alunos estão exasperados e enlouquecidos por causa de uma mulher sem coordenação motora! Em se tratando da teologia analítica, o que você sabe me dizer sobre Sartre? O que você faz no meio acadêmico? (tosse e bebe água) O que você faz no meio acadêmico sem a menor noção de desentupimento reativo hidráulico? É melhor VOCÊ pedir demissão logo e acabar com esse impasse pós-moderno.
Professora (rindo bem exaltada, comendo rosbife ao molho madeira): Ha, ha. Muito engraçadinho você chegar ao ponto de colocar banca com um discursozinho militarista. Você tem que perceber que nossa madeira está acabando por causa de pessoas que pensam como você, que acreditam que o filé da política não precisa parar de cortar árvores, pra cruzar a costa oceânica. (Professora pega uma faca mais pontuda) Se passar pelos sanguinários da FARC colombiana, não compre cartão postal! Por favor, já ta na hora de você (Professora come uma panqueca de queijo) enrolar seu material suíço na casa das massas quentes!
Professor (bem exaltado deliciando a batata rostie): Você é muito louca mesmo. Fala da liberação do croissant só porque encontrou Thomas Mann na porta da sua academia de dança de salão. As batatas jamais foram caseiras na geração de Dom Depardieu, mas sim na geração de Isabelle Huppert, uma verdadeira rainha das ilusões clandestinas. Você é uma russa metida a francesa de Avignon. Se eles aceitarem você como professora oficial, vão estar (pega um colher de arroz) cavando o cereal na casa do (degusta um sushi) Kawasaki.
Professora: Não seja hostil com suas palavras (toma um suco de tomate) rubras. Quem é você pra (come o peixe a la belle meuniere) pra impedir que os aquários sejam extintos das (come um kibe) mesquitas de Toledo? Não me venha com hipocrisias nessa questão de (come feijão) racismo sobre a cultura negro-africana.
Professor (bebe refrigerante): Quer saber? Estou farto da sua apologia ao capitalismo industrial! Chega dessa palhaçada equatoriana. Me recuso a jantar com pessoas que não possuem calibre pra uma discussão civilizada. Eu vou embora.
Professora (tomando um suco de limão): Vai mesmo! Vai mesmo ir plantar sua limonada em outras bandas.! Eu é que não quero jantar com um cara fracassado que sem sombra de dúvidas será demitido dessa instituição.
Professor: Me poupe dessa sua presença ordinária! Vou matar minha fome em outra mesa. Aqui é impossível . Espero que você seja demitida e arrume um marido.
Professora: O quê? Atrevido. Como Marx dizia: tudo o que é sólido desmancha no ar! Verás se sua soberania inventada continuará pairando. Eu mesma me retiro.
Professor: Não cite Marx com tamanha maleabilidade. Estou morrendo de fome. Perdi meu tempo tentando me conciliar com uma azedume.
Professora: Ainda bem que não comemos nada, eu teria enjoado comendo na sua presença.
Professor: Adeus, professora Ediléia.
Professora: Adeus, professor Aristofênico, acho que nunca mais nos veremos.
Professor (voltando atrás) Professora Ediléia!
Professora: Sim?
Professor: Para não focarmos nesse clima tão egóico, proponho ficarmos quietos por alguns segundos e pedirmos o jantar. Estou morrendo de fome, e, afinal, nunca mais nos veremos mesmo.
Professora: Tudo bem, contato que realmente não conversemos sobre nossas desavenças acadêmicas. Também estou morrendo de fome. Não como há horas.
Professor: Professora Ediléia?
Professora: Sim?
Professor: Já que um de nós dois será despedido mesmo, e não nos veremos nunca mais, gostaria de jantar na minha casa? Claro que esse convite só serve caso a senhora não tenha nada mais articulado esporadicamente para fazer…
Professora: Ah, professor, professor. Não acho a sua idéia de todo ruim, em se tratando dessa ocasião tão alucinada para como um todo.
Professor: Então, já que tudo que nos rodeia parece ser uma conjuntura averiguada, proponho um jantar antropofágico.
Professora: Contando que o senhor não deixe de comer a minha vagina, opa, desculpa, a minha empada.
Professor: Sem dúvidas, você vai experimentar o melhor peru, quer dizer, chester assado.
Professora: Então vamos, que estou morrendo de fome.
Professor: No final das contas, foi bom a comida não ter chegado, meu estômago está vazio, como se eu estivesse dando uma aula de filosofia da permanência.
Professora (ri): E o meu como se estivesse escrevendo sobre apologia reencontrada.
Professor: Nossa última conversa, nossa última noite, professora Ediléia.
Professora: Uma coisa, professor…
Professor: Fale tudo o que lhe vier à mente.
Professora: Prometamos ficar em silêncio.
Professor: Muito justo. Como disse meu amigo
Francisco Cuoco: “mais vale uma boca alimentada sagradamente do que duas falando sobre o mundo como representação.”
FIM
Bolinho de chuva
Trecho da peça Buá Buá E Snif Snif
(Música de suspense. Contra-luz acende mostrando as meninas como se fossem cientistas malucas fabricando poções.)
CAROL: Sólido. (Carol Joga uma pedra de gelo para Juju)
JU: Líquido. (Ju coloca água num frasco.)
CAROL: Gasoso. (Carol joga um comprimido na água que faz fumaça e borbulha. Meninas tossem.)
CAROL: (Tossindo) Eu preciso da fórmula química.
(JU Entregando um copo com água para Carol que bebe.)
CAROL: H2O!
JU: Me dá um gole?
(Carol Entrega um copo com água para Ju que bebe. Pausa. Meninas voltam para as suas “poções”.)
CAROL: Eu quero ver como é que ficou.
JU: Lógico que não. Mostra o seu que eu mostro meu.
CAROL: Eu quero ver o seu primeiro.
JU: Pra quê?
CAROL: Pra ver se você fez direito.
JU: Lógico que eu fiz… Ai, falta uma coisa! (Ju pega recipiente com a massa corre no mesmo lugar um tempo depois coloca massa sobre a mesa.)
CAROL: O que é que você está fazendo?
JU: Colocando a massa para descansar.
CAROL: Eu não devia ter chamado você para me ajudar. Daqui a pouco a mamãe vai chegar de viagem e não vai ter nenhum bolinho de chuva pronto.
JU: Não vai ter mesmo. Você não sabe fazer bolinho de chuva.
CAROL: O que é que você disse, madame Ju?
JU: O que eu acabei de falar, dona Carol.
CAROL: Então repete!
JU: Eu já falei, vou repetir, você não faz bolinho nem de abacaxi.
CAROL: Faço sim. Eu já fiz mais de mil bo
linhos de terra, bolinho de chuva deve ser quase igual.
JU: Já sei para fazer bolinho de chuva a gente precisa de terra molhada.
JU e CAROL: EEEEEEEEEE!
JU: Vou buscar terra no quintal. (Ju vai sair de cena e tropeça derrubando vários objetos da cozinha. Cai um livro na cabeça da Carol.)
CAROL: Ai!
JU (olhando para o livro): O que é isso?
CAROL: O livro de receitas da vovó!
JU: Posso ler?
CAROL: Ah, não. Agora é minha vez de ler.
JU: Ah, que porcaria.
CAROL: Vamos fazer um combinado: eu leio e você faz a massa.
JU: Oba!
(Enquanto Carol lê o livro procurando a receita de bolinho de chuva Ju arrasta um banco e fica atrás da Carol. Juju reage fazendo caretas.)
CAROL: Creme de espinafre, não. Jiló Recheado, não. Sopa de Cebola, não. Achei! Bolinho de chuva! Ingredientes: (Caro lê, Juju prepara a massa.) Três xícaras de farinha de trigo, uma xícara de leite, uma xícara de açúcar, uma pitada de sal, dois ovos (Ju imita uma galinha), três colheres de chá de fermento em pó e óleo para fritar.
JU: Ué, faltou a terra molhada.
CAROL: Não tem terra molhada na receita.
JU: Que bolinho mais estranho.
CAROL: Vamos fazer o bolinho rápido antes que a mamãe chegue.
JU: Mestre cuca Carol, os ingredientes já estão prontos para fazer uma surpresa para a mamãe!
CAROL: Muito bem, Juju ajudante. Modo de preparo: misture a farinha, os ovos, o leite, açúcar, sal e fermento.
(Ju faz uma bagunça com os ingredientes)
CAROL: Bata até a massa ficar homogênea.
JU: Ah, sua massa mal-criada. Tome isso, isso e mais isso, sua sapequinha. Você vai ficar de castigo na bacia até ficar homogênea!
(Silêncio)
CAROL: Pronto?
>JU: Pensou no que você fez? Promete ser uma massa homogênea? Muito bem. Pode sair da bacia.
CAROL: Pegue a massa e faça bolinhos pequenininhos.
JU: Oba!
(Ju e Carol fazem vários bolinhos com a massa)
CAROL: Olha o bolinho que eu fiz.
JU: Eu fiz um bolinho bebê.
CAROL: Pronto agora é só fritar.
(Ju pega os bolinhos e joga na frigideira que borbulha muito. Carol risca um fósforo. Barulho de explosão/trovão.)
Continua…
Cebola na salada de frutas
Ele – Te amo, meu pudim.
Ela – Vem cá meu pão-de-ló.
Ele – Você é a minha torta de amora?
Ela – Com cobertura de limão!
Ele – Ui!
Ela – O quê?
Ele – Limão não dá!
Ela – De morango!
Ele – Não está na estação.
Ela – Então sem calda…
Ele – Aí fica sem sal…
Ela – Pôxa, pudim…
Ele – Ah… é que amora sem nada, eu não quero.
Ela – (Levantando) Ai! Você está de ovo virado hoje!
Ele – (Puxando ela para si) Espera aí meu caqui! Eu estava brincando…
Ela – (Doce novamente) Sou seu caqui com mostarda?
Ele – Caqui com mostarda?
Ela – Caqui com uva!
Ele – Não sabia que você tinha esse estômago de avestruz.
Ela – Ué… caqui com uva não combina?
Ele – É que nem misturar banana com Ketchup.
Ela – Hum… pode ser saboroso…bananinha é doce, Ketchup é cítrico… acho gostosinho.
Pausa. Ele fica sentado na cama pensativo. Ela se aproxima.
Ela – O que foi cuscuzinho?
Ele – Tô achando que a sua jaca não combina com o meu tomate.
Ela- Como não? Somos como água para chocolate.
Ele – Estou um pouco inseguro com essa salada de pensamentos.
Ela – Mas você sempre foi tão maduro.
Ele – Na verdade acho que a nossa relação está muito xuxu com arroz.
Ela – Imagina, sempre fomos tão queijo e goiabada!
Ele – Precisamos centrifugar nossas emoções.
Ela se desvencilha.
Ela – Não vou fritar os meus miolos com essa bobagem!
Ele – Você não percebe que estamos com uma batata quente nas mãos?
Ela – E você acha que namorar é mamão com açúcar?
Ele – Preciso de uma relação mais apimentada.
Ela – Nossa relação está morna porque você é muito seco.
Ele – Então você tinha que me amolecer.
Ela – Machista! Quer moleza senta na gelatina!
Ele – Não sabia que você era tão casca grossa.
Ela – E eu não sabia que você era um banana! Frutinha!
Ele começa a vestir as roupas.
Ele – E outra coisa, sua bunda está uma geléia, sabia?
Ela – Ah! Agora a culpa é minha, vai deixar o pepino na minha mão?
Ele – A verdade é que você está um maracujá de gaveta.
Ela– Eu??? Você é que é o cão chupando manga!
Ele – Farinha pouca para o meu pirão!
Ela- Tá se achando o rei da cocada preta, mas é um angu de caroço!
Ele – Osso duro de roer!
Ela – Vocês homens são todos farinha do mesmo saco.
Ele- E vocês mulheres são iguais a arroz de festa!
Ela – Acha que é a última bolacha do pacote?
Ele – Vá catar coquinhos!
Ela – Quero ver arrumar alguém como eu, rapadura é doce mas não é mole não!
Ele sai batendo a porta.
Dia seguinte ele volta e toca a campainha. Ela atende. Ele chora.
Ele – Desculpe, pirei na batatinha…
Ela – Agora vem chorar pitangas?
Ele – Sei que escorreguei no quiabo… perdão!
Ela – Eu também confundi alhos com bugalhos.
Ele – No frigir do ovos, percebi que até gosto de caqui com mostarda.
Ela – É… viajamos juntos na maionese…
Ele – Vamos fazer uma limonada desse limão.
Ela e ele se beijam, fazem amor e tudo acaba em pizza.
O amor mais doce
Bruna, meio sensual.
Voz rouca, meio vingativa.
(telefone toca)
Vicentinho: (gentil, coçando a cabeça com um lápis) Doceria “Derretendo na boca”, em que posso servi-lo?
Voz rouca: Alô, Vicentinho?
Vicentinho: Sim é ele. Quem fala?
Voz rouca: Alguém que não gosta de ver os outros fazendo papel de palhaço.
(tempo)
(o lápis cai no chão)
Vicentinho: (trêmulo, já suando nas têmporas) Algum doce especial? Uma encomenda?
Voz rouca: (risada sardônica) Tá sentado, meu camarada? Porque segura que é badejo………….. Bruna, a sua mulher, faz barba, cabelo e bigode!
(silencio)
Voz rouca: Você está aí?
(silencio)
Voz rouca: Vicentinho?
(silencio)
Voz rouca: Vicentinho…
Vicentinho: Duas xícaras de leite e meia dúzia de ovos. Separa a clara da gema, mas não joga a gema fora, se aproveita mais tarde.
Voz rouca: Tem alguém aí com você? Chegou alguém na loja? Você ouviu o que eu falei?
Vicentinho: Como se faz um bolo de nozes. Duas xícaras de leite e meia dúzia de ovos. Separa a clara da gema, mas não joga a gema fora, se aproveita mais tarde.
Voz rouca: Não faz o louco! Você me ouviu muito bem… Bruna, a sua mulher, faz vida na zona!
Vicentinho: (sem expressão alguma) Sim, um bolo de nozes é mais fácil do que você imagina. O segredo está na farinha, às vezes o barato sai caro, é melhor pagar um pouco mais e ter uma farinha mais digna.
Voz rouca: (intrigado) Isso é um código? O que tem a farinha… Repete.
Vicentinho: A farinha deve ser aquela bem branquinha, pra dar liga com a gema mais tarde. Ao contrário da manteiga, que no caso pode ser qualquer uma.
Voz rouca: Seu mariola! Por um acaso está debochando da minha cara? (nova gargalhada, mais amarga) Sei até o preço que a sua mulher cobra! Sei até o preço!
Vicentinho: As nozes realmente são caras, mas se preferir pode substituir por amendoim, é mixuruca, mas engana. Empapuce as nozes, ou o amendoim, na farinha e bata tudo por vinte minutos. Unte a forma com claybon , despeje tudo e leve ao forno brando.
Voz rouca: Bruna, a sua mulher, se deita com seus amigos a preço de banana! Será que você não consegue entender? Você é o escárnio geral, a piada mal contada, o berro da tartaruga! Eu tenho pena de você Vicentinho, morro de pena! Mas não deveria, pois tem gente que nasceu com vocação pra trair, outros com resignação pra ser traído! Se você prefere fingir que nada aconteceu, lavo as minhas mãos. Mas se tiver um pingo de vergonha na cara: escorraça essa pilantra da sua casa à base de sopapo!!! Bruna, a sua mulher, não vale um alfajor! (desliga)
(silencio profundo.)
(O fone cai lento das mãos de Vicentinho ainda com as últimas palavras ecoando em sua cabeça)
Vicentinho: (parado contemplando nada)
(entra Bruna pelos fundos, sem que ele veja)
Bruna: (sorridente, tapando os olhos do marido por trás dele, ao pé do ouvido) Um queijo ou um beijo?
(Vicentinho apático)
(Bruna retira as mãos dos olhos do marido e lasca um beijinho de estalo)
Bruna: (com a inocência de quem trai) Eu tenho um segredo pra te contar… Faz algum tempo que venho escondendo isso de você… Mas acho que chegou a hora de você ficar sabendo…
(tira um envelope grande de sua bolsa)
Bruna: Sabe o que está em minhas mãos agora? (emocionada) Aqui… (indica o envelope) Você não consegue imaginar…? (uma lágrima de alegria escorre em seu rosto) Vicentinho… O nosso maior sonho… (sorri) Vicentinho… Nesse envelope… Vicentinho… Aquilo que a gente mais esperava. (ajeita os cabelos por trás das orelhas, suspira fundo e revela) O resultado do exame: Eu estou grávida… Você vai ser pai.
(Vicentinho tonto. Sem ar.)
Bruna: Você esperou tanto por esse dia, meu doce. Tanto! Seremos enfim uma família completa. Esse é o dia mais feliz da minha vida.
(Vicentinho sai do balcão cambaleando)
Bruna: (numa maravilha cega, protegendo a barriga com doçura) Nosso filho… Ele está aqui, Vicentinho… O fruto do nosso amor. Um rebento. O seu sucessor.
(Vicentinho abrindo uma garrafa de água ardente escondida numa prateleira e virando no gargalo)
Bruna: Já fazia um tempo que eu desconfiava, mas queria ter certeza. Tinha que ser especial. Tentamos tantas vezes, eu não queria gerar uma expectativa pra te frustrar depois… Me parte o coração. Mas eu rezei tanto, Vicentinho! Tanto! Muito mais do que você pode imaginar… Fiz promessa pra meia dúzia de santo! E quando eu vi o resultado do exame, hoje pela manhã, nem pude acreditar! Quase fui atropelada lá no centro da cidade, de tão pasma! Eu vim correndo pra cá… Confesso que não só apenas por conta disso, Não vou mentir, serei mãe e mãe não mente. Pois bem: No segundo seguinte em que tive a confirmação, meu primeiro desejo de grávida me veio implacável: como uma ordem divina, uma ânsia incontrolável… Uma vontade de comer um doce! Como se a minha própria existência dependesse disso. Mas eu não sei qual doce, ainda… Corri pra cá pra escolher! Meu primeiro desejo de grávida vai ser saciado aqui!
(Vicentinho virando a garrafa toda)
Bruna: (se colocando no centro da loja de doces, entre as máquinas de balas, chicletes, algodão doces, um paraíso açucarado) Eu quero comer um… (pensa, muito sapeca) Um… (olha todos os doces da loja, muito coloridos e atraentes) Um… (saliva enquanto seus olhos correm por cada prateleira abarrotada de guloseimas) Um… (acaricia os lábios numa expectativa libidinosa) Um… (perde o ar maravilhada avistando o doce cobiçado, quase num sussurro) Alfajor… Eu quero comer um alfajor!… (num murmúrio vampiresco, com o coração na boca)Você não pode me negar, Vicentinho, não pode… Desejo de mulher grávida não se contraria… Eu quero aquele alfajor… Eu quero todos eles… Todos em minha boca agora… Eu quero Vicentinho… Você quer que seu filho nasça com cara de alfajor? Não quer. Então vai me fazer a vontade… Pega pra mim… (mais sussurrada, mas vampiresca, com os braços estendidos, com as pontas dos dedos nervosas) Eu quero comer todos… Todos… Todos na minha boca… Agora… A cobertura de açúcar quebradiça… O recheio cremoso, com um toque de limão… Camada por camada… Derretendo… Escorrendo entre os meus dentes… Quero lamber o laminado protetor… Nenhum grãozinho poderá ser desperdiçado… Eu os quero! Um por um… Deixa. (mais vampiresca, compulsiva) Estraçalhar sem pena! Enfiar três na boca ao mesmo tempo! Esfregar nos meus lábios até inchar! Eu quero engolir tudo sem morder! Deixa, Vicentinho… Deixa! (possuída) À mulher grávida não se contraria!
Vicentinho: (frio) Não.
Bruna: (caindo das nuvens) Como assim?…
Vicentinho: (numa raiva surda) Qualquer um, ouviu? Você pode escolher por qualquer um… Menos por esse. Esse: você- não- come. Ouviu? Não encosta um dedo. Nunca mais! Você não come esse doce nunca mais.
(Bruna catatônica)
Vicentinho: (frio como um tubarão) Escuta, pois é a última vez que lhe digo: o dia em que eu souber que você encostou, viu, sentiu o cheiro desse doce… Eu espanco você até matar… (tempo) Entendeu?
(Bruna chocada)
Vicentinho: Entendeu?
Bruna: (num sopro) Sim.
Vicentinho: (mudando o tom absolutamente) Agora vamos comemorar! Hoje a loja não funciona! (animalesco) Eu vou ser pai! (gritando pela porta da loja) Eu vou ser pai!!! Hoje é o dia mais feliz da minha vida!!!!!!!!
(Luz caindo em silêncio profundo)
Antropofagia
Tão servidos?
Caminhos de sangue – Jantar à meia-noite

<<<- Cecília Hoeltz como Adenaura e Bruno Balthazar como Lobo, 2004
Restaurante muito chique. Lobo e Adenaura jantam juntos.
LOBO- Que noite especial! Você é uma mulher maravilhosa Adenaura. E linda. Você é linda.
ADENAURA (Ri encabulada.)- Para, por favor. Tá me deixando sem graça de novo.
LOBO- O que eu posso fazer? Tenho que dizer a verdade.
ADENAURA- Eu… talvez seja o momento… Talvez eu tenha que te dizer umas verdades também.
LOBO- Do que você está falando?
ADENAURA- O meu passado é conturbado… Há coisas sobre mim que nem você, nem a imprensa, nem ninguém sabe.
LOBO- Pode confiar em mim, meu amor.
ADENAURA- Bem… Eu tenho uma filha. É isso.
LOBO- Uma filha??? Mas… eu nunca iria imaginar.
ADENAURA-. Nem você nem o Brasil inteiro, meu querido.
LOBO- E onde ela está que ninguém nunca viu?
ADENAURA- Nós não nos falamos há dez anos. Ela me odeia. Na verdade, a existência dela é insignificante, mas eu precisava contar a alguém. Há dez anos carrego este e outros segredos comigo.
LOBO- Pode contar tudo. Eu quero que confie em mim.
ADENAURA- Um segredo por vez! Bom, resumindo, eu morava numa pequena cidadezinha do interior, casei e tive trigêmeas. Logo em seguida, fui abandonada por meu marido que fugiu com a vendedora de churros da cidadezinha. Sofri muito, sozinha com minhas três filhas, elas cresceram me odiando, me culpavam pela fuga do pai, achavam que eu nunca tinha me casado de verdade, que eu era uma vadia mentirosa. Duas das minhas filhas morreram num acidente bobo envolvendo um trator desgovernado, por sorte eu havia feito seguro de vida para elas. Não agüentando a companhia e as constantes acusações de minha terceira filha, a mais cruel de todas, peguei todo o dinheiro do seguro e fugi para a cidade grande… e aqui estou.
LOBO- Que história fascinante!
ADENAURA- Você tem que me prometer que ninguém saberá da existência dessa minha filha. Eu não quero vê-la de maneira alguma.
LOBO- Prometo.
ADENAURA- Obrigada.
LOBO- Adenaura, estar aqui contigo é extremamente agradável, eu nem sinto o tempo passar, nem percebi anoitecendo, estamos conversando há horas.
ADENAURA- É verdade.
LOBO- É como se nos conhecêssemos há anos.
ADENAURA- É sim
LOBO (Subitamente tenso.)- Que horas são, aliás???
ADENAURA- Deixa ver… Dez pra meia noite! (A parte.) Oh não!!!
LOBO (A parte.)- Oh Não!!!
ADENAURA (A parte.)- Se eu não passar meus cremes de beleza em dez minutos minha idade verdadeira me atingirá como uma machadada na cabeça!!!
LOBO (A parte.)- Se eu não comer fígado humano em dez minutos me transformarei na minha verdadeira e odiosa forma predadora!!!
ADENAURA (A parte. Examina a bolsa com alegria.)- Graças a Deus trago sempre comigo minha nécessaire! Tenho aqui tudo o que preciso! (Para o Lobo.) Você me dá licença um instantinho, vou ao toalete. (Ela sai apressada.)
LOBO (Olha as próprias mãos, elas já estão com garras. Declama como num filme de terror dos anos 50.)- Eu preciso de sangue. A noite toma conta do meu corpo encharcando a minha roupa com suor de lobo. Os pêlos de lobo crescem lentamente e esquentam meu corpo quente por baixo do meu Armani. É nessas horas que me dá uma vontade de esquecer a minha nobre educação e comer todo mundo nesse restaurante, os garçons, fregueses, cozinheira… Não! A cozinheira não. Gorda e gordurenta, a cara cheia de sebo das frituras de um dia inteiro com a cara no fogão. (Procura com o olhar.) E o garçom simpático? Não sei, não deve ter gosto de nada, sem sal, e muito magro, sem bunda, pele e osso esse garçom. Onde estava aquela do peitão, aquelas duas tetas de respeito, mordida macia… Foi embora já, eu acho. Poxa, não queria comer a Adenaura ainda, não assim logo no primeiro encontro.
ADENAURA (Volta do banheiro com o rosto todo lambuzado num creme azul. Como se nada estivesse acontecendo.)- Desculpe a demora.
LOBO (Nervoso.)- Não, que é isso. Eu também tenho que ir. Com licença. (Sai.)
ADENAURA (Para si mesma em êxtase.)- Vai creminho, come a minha pele. Transforma minha pele em plástico, meu sangue em mercúrio-cromo, minhas carnes sintéticas para sempre eternas. Eu quero ser de petróleo, velha como os dinossauros e bela. Mais do que conservada, refeita.
LOBO (Volta com a cara toda lambuzada de sangue.)- Ai, que delicia!
ADENAURA- O quê?
LOBO- Estar aqui contigo. Eu te amo Adenaura. Eu te amo.
ADENAURA- Eu também te amo, Lobo Mau.
LOBO- Acho melhor irmos embora.
ADENAURA- Você é que sabe.
ELES saem do restaurante, lambusados e em idílio…
continua….

Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo