Não haverá mais primavera

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A Beleza da Morte

 

Zé Roberto, com uma faca de cozinha nas mãos, corre atrás de Ana Lúcia.

 Zé Roberto: Eu vou te mataaaaar!

 Ana Lúcia: Para, stop, freeze, autos!

 Zé Roberto: Isso não é “pique-esconde”, Ana Lúcia.

 Ana Lúcia: Calma, Zé Roberto. Se vou morrer, vamos fazer a coisa direito.

 Zé Roberto: Como assim direito? Eu vou te matar e pronto! Mulher traidora! Pérfida!

 Ana Lúcia: Tudo bem, Zé Roberto, já concordei com você. Mas quero pelo menos morrer com dignidade.

 Zé Roberto: Uma mulher indigna que quer morrer com dignidade, essa é boa!

 Ana Lúcia: Zé Roberto, lembra que todas as manhãs eu tiro a casca do pão francês pra você?

 Zé Roberto: E daí?

 Ana Lúcia: E daí que eu também sou boa, não sou?

 Zé Roberto: Ana Lúcia, você me traiu sem dó nem piedade, na frente de todo mundo!

 Ana Lúcia: Todos os domingos, corto com tesourinha os pelinhos do seu nariz!

 Zé Roberto: Ana Lúcia, não muda de assunto! Você é uma safada! Me traiu com meu melhor amigo!

 Ana Lúcia: Grande amigo! Dar em cima da sua mulher! Se você parar pra pensar, te traí com o seu pior inimigo, ou seja, fui até bacana…

 Zé Roberto: Não tente inverter as coisas, Ana Lúcia! Eu vou te matar, te degolar!

 Ana Lúcia: Olha aí! Olha aí! Você tá falando como se eu fosse uma galinha.

 Zé Roberto: Mas você é uma galinha!

 Ana Lúcia: Por tudo que a gente viveu, pelas casquinhas do pão francês! Não me mata com uma faca de cozinha! Vou ficar com cheiro de cebola no caixão!

 Zé Roberto: Você quer que eu te mate como?

 Ana Lúcia: Lembra daquele filme que a gente viu? Aquele que a mocinha morria de falta de ar?

 Zé Roberto: Você quer que eu te enforque?

 Ana Lúcia: Não Zé! A mocinha morria de nervoso.

 Zé Roberto: Nervoso tô eu!

 Ana Lúcia: Posso também morrer de tuberculose igual a “Dama das Camélias”, acho lindo!

 Zé Roberto: Quem?

 Ana Lúcia: A protagonista do livro do Alexandre Dumas!

 Zé Roberto: Do que você tá falando???

 Ana Lúcia: Tá vendo, não lê nada e aí fica sem imaginação na hora de matar!

 Zé Roberto: Ana Lúcia isso vai ser um assassinato passional!

 Ana Lúcia: Passional significa que você ainda é apaixonado, ou não?

 Zé Roberto: Eu estou apaixonado pela vontade de acabar com a sua vida.

 Ana Lúcia: Posso pelo menos escolher as cores do caixão?

 Zé Roberto revira os olhos.

 Ana Lúcia: Poxa, tenho direito!

 Zé Roberto: Você tem o direito de ficar calada!

 Ana Lúcia: Olha, já que estarei morta, quero no caixão cores vivas para contrastar! Imagina que lindo, meu rosto branco, pálido, e uma fita laranja na lateral. Ai, até me deu arrepio!

Zé abaixa a faca de cozinha e vai saindo.

 Ana Lúcia: Que foi Zé?

 Zé Roberto: Cansei, Ana Lúcia, cansei.

 Ana Lúcia: Não vai mais me matar?

 Zé Roberto: Amanhã.

 Ana Lúcia: Ah, não! Agora que eu tava acostumada com a idéia da morte!

 Zé Roberto sai.

 Ana Lúcia: Droga!

 Ana Lúcia olha para a faca de cozinha e a pega.

 Ana Lúcia: Ai, sempre eu que tomo a iniciativa na relação!

 Ana Lúcia corta seu próprio pescoço e cai sorrindo no chão.

180 segundos!

(PLANO FECHADO NOS PERSONAGENS TECLANDO)