Felipe Barenco convida Danilo Marcks

Trecho da peça Eu preciso dizer que vou te amar, de Danilo Marcks.

CENA 2

11h da manha. Sàbado de sol. Ipanema. O sol entra pela janela. No colcháo no chao, esta Veronica e Alex deitados desnudos. Roupas espalhas pelo quarto. O radio desperta.Toca bossa- nova. Alex desperta. Levanta. Procura um banheiro. Náo encontra.Olha pro colcháo. Admira Veronica que esta deitada desnuda. Ela desperta.

Alex – Você gosta de bossa nova?

Veronica – Que? (assustada, ainda despertando)

Alex – Bossa- Nova. Você gosta de bossa nova? Isso é bossa nova, não é?

Veronica – João Gilberto. Não. Vinicius, eu acho.

Alex – Eu gosto.

Veronica – Do Vinicius? (ela levanta)

Alex – De Bossa – Nova.

Veronica – Tô morrendo de dor de cabeça. (T) Qual seu nome mesmo?

Alex – Alex.

Veronica – Alex. A gente fez tudo?

Alex – Como?

Veronica – Se a gente fudeu…

Alex – Eu não lembro muito bem. Acho que não.

Veronica – Não??

Alex – Eu acho que eu tava muito cansado para isso.

Veronica  – (ela acende um cigarro) Quer?

Alex – Eu não fumo.

Veronica – Pensei que fumasse..

Alex – Digo cigarro.

Veronica – Entendo. (T) Quer alguma coisa? Quer beber alguma coisa, sei lá?

Alex – Eu queria minha cueca.

Veronica – Ah sim. (ela olha pro penis dele) Deve estar por aquí, em algum lugar (procurando sem graça pelos lençois).  Achei. Aqui.

Alex – Obrigado (ele coloca)

Veronica – Por que vocë ficou, esta, sei lá, nu, se não fizemos nada?

Alex – Eu não disse que não fizemos.

Veronica – Não?

Alex – Eu disse que eu acho que não fizemos nada porque estavamos cansados. Na verdade, eu estava cansado, mas não sei se nao fizemos ou nao. Mas se quiser, podemos fazer…

Veronica – O que?

Alex – Sexo

Veronica – Não disse que está cansado?

Alex – Eu disse que eu estava cansado. Não disse que estou cansado.

Veronica – Eu to morrendo de dor de cabeça

Alex – Entao não tem como fazer…

Veronica – O que?

Alex – Sexo.

Veronica – ( Ela coloca a roupa) Na verdade, você precisa ir.

Alex – Para onde?

Veronica – Para sua casa, ora.

Alex – Não posso ficar aquí?

Veronica – Aquí? Aquí onde? Na minha casa?

Alex – É. Só por hoje. Só mais uma noite.

Veronica – Mas por que eu deveria fazer isso?

Alex – Por que você parece ser uma pessoa bacana.

Veronica – E só porque eu pareço ser uma pessoa bacana, eu tenho que deixar você ficar aquí na minha casa?

Alex – Não que você precise, mas é que eu preciso.

Veronica – Como assim precisa?

Alex – Não posso voltar para casa. Na verdade eu nao tenho para onde ir.

Veronica – Deixa de brincadeira. Quer comer alguma coisa ou não?

Alex – Qual seu nome?

Veronica – Eu não te falei meu nome?

Alex – Que eu lembre não.

Veronica – Mais um motivo para você ir embora agora.

Alex – Por que?

Veronica – Porque eu não te conheço.

Alex – Prazer, Alex.

Veronica – Eu não iria trazer uma pessoa para minha casa, que nem meu nome sabe.

Alex – Eu só não sei porque voce náo me falou. Talvez não fosse necessário. (T) Voce só queria sexo mesmo…

Veronica – Quem disse isso?

Alex – Você.

Veronica – Eu disse isso? Quando?

Alex – Ontem.

Veronica – Eu disse que eu só queria fuder ontem?

Alex – Não. Não, assim não. Você não disse: Eu quero só fuder. Mas na verdade não precisava dizer nada

Veronica – Ora, por que?

Alex – Seu rosto já dizia tudo.

Veronica – (T) Olha tudo bem. Agora não importa, se a gente trepou ou não. O fato é que, você agora precisa ir para sua casa e eu preciso, sei lá, resolver mil coisas.

Alex – Que coisas?

Veronica – Voce não vai querer que eu te explique agora neh?

Alex – Nem o seu nome, eu posso saber?

Veronica – Agora?

Alex – Seria bom saber com quem eu transei ontem

Veronica – Você não precisa de um nome para saber isso. Você tem o meu rosto, não tem?

Alex – Você tem cara de Veronica.

Veronica- Que?

Alex – Eu disse que você tem a fisionomia de uma pessoa que se chama Veronica. Que você parece com alguém que se chama Veronica. Entendeu?

Veronica – Perfeitamente. (procurando a bolsa) Cadê minha bolsa?

Alex – Essa? (ele aponta)

Veronica – (ela abre e procura a carteira)

Alex – O que procura?

Veronica – Minha identidade

Alex – Eu não roubei.

Veronica – (pegando a identidade) Eu sei disso.

Alex – É Veronica não é? Acertei?

Veronica – Você esta brincando comigo não está?

Alex – (ele vai ate a janela) Eu gosto dessa música.

Veronica – Gosta?

Alex – Combina com o dia de hoje.

Veronica – (ela vai até a janela) Tá um dia lindo mesmo… Olha esse mar.

Alex – Eu lembro que quando eu era pequeno, eu gostava de vir aquí para praia para brincar na areia, sabe? Eu gostava de correr na areia. De sentir a areia nos meus pés. Tinha varias crianças que choravam, que esperniavam para não colocar os pés na areia. Comigo não. Comigo as coisas sempre foram muito diferentes. Eu gostava de sentir algo estranho no meus pés. De sentir aqueles pequenos graos (T). Olha lá que gostoso, aquelas pequenas crianças brincando na areia. Estão felizes.

Veronica – Parece que sim. Sim. Estão aparentemente felizes. Eu não gosto tanto da areia assim. Acho que fui uma dessas crianças que choravam quando a máe colocava nossos pès na areia. Era incomodo para mim. Eu gostava de sentir o mar. De sentir a onda batendo nos meus pès. Indo e voltando. E voltando sempre diferente. De sentir o barulho. Chuaaaa. Chuaaaa. O cheiro de sal. E o barulho que faz. O cheiro e o barulho. Gostava de sentir batendo na minhas pernas. E quando vinha mais forte, sentir os meus joelhos um pouco mais gelados.

Alex – Eu gosto disso também. Mas gosto de sentir depois que os meus pès estáo quentes por causa do sol e do calor que faz na areia. Sentir aquele frescor nos pès. E um bom mergulho. (T) Vamos dar um mergulho?

Veronica – Agora?

Alex – É, o mar parece estar uma delicia. Vamos?

Veronica – Mas, sei lá. Eu nem sei muito bem quem è voce. Eu não sei se devo. Eu tenho coisas para fazer. Eu…

Alex – Eu te carrego no colo para não sentir a areia quente nos seus pés..

Veronica (ela ri) – N~\o è isso. O sol deve estar forte. Muito forte. Estou muito branca. Sou muito branca.

Alex – É só um mergulho. Voce não usa esse mar?

Veronica – Quase nunca. Na verdade, nunca.

Alex – Voce não disfruta dessa paisagem? Fica só como um quadro aquí no seu quarto? Que desperdicio. Se eu tivesse um quadro desse na minha casa, eu entraria dentro dele sempre. Eu mergulharia todo dia. Eu sentiria o mar todo dia.

Veronica – Talvez você tenha razão. Talvez eu deveria aproveitar mais.

Alex – Vamos?

Veronica – Eu… Eu… Não sei.(T) Tá. Pode ser. Preciso colocar protetor.

Alex – E um biquine. Ou vai assim? Desnuda?

Veronica – Ai meu deus. È verdade. Eu…

Alex – Eu te espero.

Luz apaga

Danilo Marcks começou seu contato com o teatro aos 15 anos. Aos 18, ingressou na faculdade de jornalismo, onde se especializou em Rádio e TV, seguindo carreira como repórter, radialista e apresentador em rádios do Estado do Rio. Danilo também foi colunista de uma revista eletrônica, comentando sobre TV e Teatro. Aos 22, voltou aos palcos como ator em cursos de improvisações. Aos 23 ingressou na faculdade de Artes Dramáticas se formando pela UniverCidade. Atuo como ator nas peças: A idéia de um teatro, Migramor, Os sonhos nossos de cada dia, Rapunzel, , Despertar, Os 7 gatinhos, Perdoa-me por me traíres, Solidao nos campos de algodao, Leila Baby e Quando as máquinas param. Depois o jornalista, investiu sua carreira na dramaturgia com as peças escritas: Eu não sei dançar, da qual ganhou prêmio como autor revelação no Festival de Teatro de Macaé, Despertar, Três Cigarros, sexo e chocolate com leite , e o infantis, Presenteie o Natal com o seu melhor e a Magia está no Ar, que fez parte do Projeto Caravana Iluminada Coca-Cola 2008 e 2009. Nesse mesmo ano, o autor e ator, realizou o roteiro dramatúrgico do projeto Conexões-Francesas, que esteve em cartaz na Casa Rosa, no Sesc Tijuca. Atualmente, Danilo Marcks se encontra em Buenos Aires-Argentina, onde finaliza o curso de Investigaçao Atoral e Dramaturgia, com sua nova obra: Eu preciso dizer que vou te amar. Uma das características do trabalho do autor é buscar referências em filmes, livros e também entrevistando pessoas reais e afins aos seus personagens. Contato do autor: danmarksbr@gmail.com

Convida Poliana Paiva

PRA FRENTE É QUE SE AMA

-Ele é bonito?
-Não exatamente.
-Inteligente?
-Muito.
-Mas inteligente inteligente ou inteligente intelectual?
-E tem diferença?
-Muita! O inteligente inteligente pega as coisas no ar, faz associações inusitadas e ainda te presenteia com piadas engraçadas.
-E o inteligente intelectual?
-Costuma também pegar as coisas no ar e fazer associações inusitadas, mas, ao invés de te contar piadas, fica citando Foucault, Kant e às vezes um pouco de Almodovar, só pra passar de popular.
-Pô, mas nem Almodovar pode?
-Pode, claro, tô brincando com você.
-Sei…
-Quando a conta chega na mesa, ele paga de pronto?
-Lógico, né?
-Bonitinha, nada é tão lógico assim que não seja passível de dúvida, mas diga, e o pau, é belo?
-Ah, não, isso é foro íntimo!
-Óbvio que é, mas nós duas sempre falamos dos paus dos homens e isso nunca foi um problema.
-Tsc.
-Fala, filha!
-Tá, mas se você der mole pra ele, eu te mato, ok?
-Combinado, mas e o pau?
-Expressivo e cortado.
-Judeu?
-Não, fimose mesmo.
-O beijo?
-Passível de melhora.
-Língua hiperativa, é?
-Por aí.
-Acontece. E lá embaixo, ele faz com gosto?
-Sim.
-Mas tipo vai e mergulha como se não houvesse amanhã ou dá aquelas lambidinhas paliativas, só pra não dar na pinta de que nem curte o ofício tanto assim?
-Se tivesse uma música pra ser a trilha sonora da devoção do bofe seria Pussy in the sky with diamonds.
-Hahahahahaha! Sensacional!
-Satisfeita?
-Ainda não, quero saber se na hora que ele mete você consegue gozar.
-Não acha que tá querendo saber demais não, bela?
-Tô, mas foda-se, sou ou não sou sua melhor amiga?
-É…
-Goza ou não goza?
-Se eu ficar por cima, na magnífica posição de Cavalgada das Valquírias, sim.
-Que putinha mais wagneriana você…
-Também acho. Algo mais?
-Sim, o mais importante.
-Manda.
-Se você se pegasse grávida, assim, por uma distração, encararia ser mãe de um filho dele?
-Querida, você me conhece o suficiente pra saber que eu não me distraio.
-Eu sei que não, mas, hipoteticamente falando, o que você faria?
-Precisaria pensar, nunca engravidei pra saber como é carregar um coração além do meu.
-Ai, que bonito isso que você disse.
-Achou?
-Lindo, você devia ser romancista.
-E você, psicanalista.
-Posso perguntar só mais uma coisinha?
-Adianta eu dizer que não aguento mais tanta pergunta?
-Não.
-Então desembucha.
-Levaria ele prum coquetel de abertura de um evento da sua produtora?
-Acho que sim.
-Hummm.
-Hummm o quê?
-Deixa.
-Agora vai até o fim, mulha.
-Pra isso precisaria de mais uma pergunta…
-Manda.
-Você admira ele?
-Sei lá, nunca me peguei tão embevecida por um homem a ponto de ficar de quatro.
-É, e todo mundo sabe que de quatro ninguém é normal.
-Hahahahahahahhahahaha.

Pararam por ali, enquanto ainda riam, pois sabiam que esse negócio de admiração era a única coisa capaz de abrir espaço praquele sentimento nobre de quatro letras que tanto tira o sono da maioria dos humanos.

À bem-comida restava a chance de aproveitar os bons momentos, sem nunca esquecer que o novo é chão pra ser pisado devagarinho, de preferência sem olhar muito pra trás, para evitar comparações cruéis.

Até mesmo porque, não só quando engravidamos somos capazes de carregar um coração além do nosso.

Poliana Paiva começou no Teatro. Depois se formou em Cinema e virou pesquisadora e assistente de direção em programas de TV, documentários e projetos de artes integradas. É uma das sócias da Jurubeba Produções e dirigiu três curtas, estando o mais recente, ‘Muito além do chuveiro’, em cartaz na programação do Canal Brasil. Escreve compulsivamente e mantém dois blogs. Em 2011 estreará como roteirista de TV.

Convida César Amorim

OH… DORES!

Marina, 30 anos, muito bonita, vestida de noiva, sofre sentada na privada. Faz força e geme de dor de barriga. Rodrigo, 35 anos, também bonito, um pouco gordo, ainda com o terno do casamento, entra sem bater.

MARINA – Sai! Sai, Rodrigo!
RODRIGO – Vim ver se você tava bem. Já faz mais de uma hora.
MARINA – Eu estou usando o banheiro, não tá vendo?
RODRIGO – Não só vendo, como sentindo! Que lindo!
MARINA – Deixa de ser nojento. Sai daqui!
RODRIGO – Que noite de núpcias, hein!
MARINA – Culpa sua! Eu falei pra encomendarmos os salgados naquele Buffet chiquérrimo, mas não, você quis a sua prima Vivinha. “É mais barato”, você disse. Tá vendo a merda que deu? Ai!!
RODRIGO – Os salgadinhos da prima Vivinha estavam ótimos. Eu estou ótimo.
MARINA – Depois falamos sobre isso.

Ela solta um peido.

MARINA – Meu Deus, que vergonha. Ninguém nunca me viu assim. Por favor, sai daqui!
RODRIGO – Nem teu pai nem tua mãe?
MARINA – Ninguém!
RODRIGO – Que bobagem, Marina. Somos marido e mulher agora. Tá mais do que na hora de compartilharmos nossos odores.
MARINA – Não quero compartilhar nada! SAI!
RODRIGO – Eu não tenho nojo de você. Isso é lindo! O cheiro aqui tá tenebroso, mas eu te amo mesmo assim. Tá vendo? Não me atinge. Tou te conhecendo mais.
MARINA – (com muita dor) Não…é…o…momento… Por favor. Não tenho forças pra te botar pra fora, então, eu te imploro, me deixa em paz.
RODRIGO – Quer um antiácido?
MARINA – Meu problema não é estômago. É intestino!!
RODRIGO – Pois pra mim sempre funciona. Tomo um antiácido e já melhoro.
MARINA – Rodrigo, meu amor, não me faça te odiar mais do que já tou te odiando. Por tudo o que é mais sagrado, tenha pena de mim e me deixe em paz. Não dá pra me concentrar na dor e em você ao mesmo tempo.
RODRIGO – Não seja ingrata. Eu só queria te dar um apoio. Só queria te dizer que mesmo você desse jeito aí, exalando esse cheiro fétido, eu te amo mais do que tudo na minha vida. Eu nunca tive coragem de ver minhas outras namoradas defecando, mas com você é diferente. Se tinha alguma dúvida que te amava, agora não tenho mais.
MARINA – Você tinha dúvidas se me amava? Precisou me ver cagando pra ter certeza?
RODRIGO – Sabe o que é, sempre tive medo desse momento. Eu evitada isso. Fugia como o diabo da cruz. Mulher minha, pra mim, não fazia essas coisas aí. Claro que eu sabia que fazia, porra, mas falava pra mim que não. E tentava me convencer que, se ela fazia, era um cocô perfumado, com cheiro de flores do campo.
MARINA – Ai, Rodrigo, minha vida, meu amor, meu tudo, me deixa só um minutinho. Eu não exalo flores do campo quando defeco.
RODRIGO – Eu sei e, apesar disso, te amo.
MARINA – Meu Deus, definitivamente, você não é normal. Ok, já vi que me ama. Nossa, que legal. Agora sai só um pouquinho. Já tou acabando.

Rodrigo se ajoelha, emocionado.

RODRIGO – Marina, eu reforço aqui, agora, o juramento que fiz há pouco na igreja. Vou te amar pra sempre. Você me fez um homem normal. Antes eu não era. Idealizava. Agora não. Estou com uma mulher real, de carne e osso e que faz cocô lindamente. E eu não tenho nojo. Essa sua carinha de quem tá fazendo uma força terrível me deixa ainda mais apaixonado. Acho que vou fazer questão de te ver sempre assim. Por favor, quando quiser vir ao banheiro de novo, me chama? Mas saio antes de você se limpar, tá? Isso, realmente, ainda não superei. Te amo.

Ele a abraça. Ela grita.

MARINA – Não aperta a minha barriga, seu doente!

Barulho de diarréia.

MARINA – Viu o que você fez? Viu o que você fez?
RODRIGO – (com ânsia de vômito) Minha virgem, que cheiro é esse? Eu preciso… Gente do céu… Essa foi demais. Superou tudo. Meu amor, eu ainda te amo, mas preciso…

Ele corre para a pia e vomita. Marina chora.

MARINA – Sai do banheiro. Sai desse apartamento! Sai da minha vida!!
RODRIGO – Só um minuto, minha linda… Deixa eu…

Ele vomita de novo na pia.

MARINA – Não dá mais! Não pode haver relação assim. Você invadiu o meu espaço. Invadiu e se apossou dele. Eu tenho a minha redoma. A minha proteção. Daqui ninguém passa. Aqui, ó, ao meu redor, assim, nesse espaço, com meus braços abertos, ninguém invade. Nem você, seu pervertido! Os meus odores são meus! Meus! Não há amor que resista a isso. É o fim, Rodrigo! O fim!
RODRIGO – Está bem, vamos conversar quando você acabar. Eu já vi e senti o bastante. E continuo te amando. Pra mim é o suficiente. Te espero lá fora. Você se limpa sozinha, não quero ver isso, tá? Isso não.
MARINA – Ah, é? Perfeito. Você não vai sair daqui assim. Eu vou me limpar na sua frente. Não queria saber de tudo? Ver tudo? Então, se é pra chutar o pau da barraca, que seja de uma vez.
RODRIGO – Não, se limpar na minha frente não! Isso eu não admito. Te espero lá fora.
Marina se levanta e fica na frente da porta, impedindo a passagem dele.
MARINA – Daqui você não sai! Não me ama? Agora vai ter que aguentar.
RODRIGO – Isso eu não posso. É a minha redoma. Não sou obrigado a ver isso. Me deixa sair. Tá bom, eu não quero te ver assim de novo. Mas me deixa sair, por favor.

Marina pega o papel higiênico bem devagar, olhando sadicamente para Rodrigo.

MARINA – Eu quero sua prova de amor. Agora quem quer sou eu.

Marina levanta a saia do vestido de noiva. Rodrigo faz cara de nojo. Ela leva o papel higiênico até a bunda. Tudo muito devagar. Rodrigo faz cara de choro. Marina começa a se limpar.

RODRIGO – Ok, você venceu! É o fim! Peço o divórcio amanhã mesmo! Tá vendo a merda que fez? Você matou o meu amor!

FIM
CÉSAR AMORIM é dramaturgo, ator e diretor teatral, natural de Natal/RN. Escreveu, dentre outros, os seguintes espetáculos: Não Matei, Mas Sei Quem Fui; Dois pra lá, Dois pra cá; Pequenas Histórias do Mundo; Imprevisível, eu?; As Fúrias. Em 2010, juntamente com outros nove autores, escreveu o livro Cena Impressa – Teatro à La Carte;. participou da Oficina de Teledramaturgia da Rede Globo de Televisão; e faz parte do projeto Clube da Cena, como autor.

Convida Haroldo Mourão

LINHA CRUZADA

- Copacabana, por favor.

- …

- …

- A senhora prefere que vá pela praia ou…

- Só um instante…Alô? Oi! Desculpa, aquela hora caiu…Mas, só pra finalizar…liguei pra dizer que eu concordo com você que rede social na internet fica no limite entre o que é público e o que é privado…E eu não sou dessa geração. Definitivamente. Você até que transita bem nisso…

- Senhora, praia ou…

- Praia. Oi? Não. Já tô no táxi. Tá cortando. Não tô ouvindo nada…Caiu…

- O sinal daqui não é bom…

- Oi? Sinal? Ah, é o sinal dessa operadora é péssimo.

- Eu tô falando do sinal dessa rua. Tá sempre com defeito. Já vi mais de mil acidentes aqui.

- Ah, tá. É. Que horror…só um instante…Alô! Oi…É. Caiu. Pois é. Que saco. Do que a gente tava falando?

- Do sinal.

- Desculpe. Não estou falando com o senhor…Não! Com você não. É com o motorista. Aham. Ih, desculpa, tá entrando outra ligação. Essa eu tenho que atender. Já te ligo. Oi. Fala. O que? Mas eu deixei a chave. Deve estar perto da…ai…merda!! Caiu…de novo!! Olha, tem que ter fôlego, viu? O meu já está acabando.

- Fôlego? A senhora imagina passar doze horas aqui sentado, além do stress que é aturar o trânsito…Ih, agora é o meu…Alô. O que? Hã? Fala pra ele comer. Fala que vai ficar sem televisão!

- Oi, desculpa. Eu tô num táxi…num engarrafamento chato…

- Não quero saber! Quando eu chegar aí, não vai ter conversa!

- Alô. Oi. É, caiu. O que é que tá acontecendo? Não sei. Não estamos conversando?

- Claro. Conheço a Rio Branco. Que que tem?

- O problema é que me perco fácil…Não sei usar nem e-mail direito…

- Associação…das?

- …

- …

- Caiu. De novo!!

- Ih, o meu acabou a bateria. Por isso que eu prefiro rádio.

- Não consigo falar com ninguém. O trânsito tá péssimo. Que dia, viu?

- Meu filho não queria comer sopa. Só a gelatina. E depois tenho que voltar pra onde peguei a senhora pra ir na Associação num sei do que…é mole?

- Eu que não me atraso nunca. Hoje estou atrasadíssima.

- Esse trânsito não tem jeito não, senhora…é sempre assim…não tem mais hora pra engarrafamento…E se chover então aí é brabo. É uma insensatez o que esses urbanistas fazem. A senhora vê a Presidente Vargas como fica…ande pela Rua dos Andradas…e a Mem de Sá? é uma coisa…

- Não conheço essas ruas. Não sou daqui…

- É um absurdo.

- Imagino. O Senhor trabalha há muito anos de taxista?

- Mais de trinta anos. Faço ponto na Candelária. Meu filho nasceu e foi criado no centro da cidade. Naquela época não tinha essa violência toda que a gente vê…Mas daqui eu não saio…

- Só um instante. Alô! Oi. Nossa…Tá impossível, né?

- Fora isso tudo, chego em casa com uma dor de cabeça que remédio nenhum passa…a senhora acredita que…

- Moço…desculpa…é uma ligação urgente…sim…fala…Também tô com saudades…Mas não é nada agradável saber que você está dividido. Ainda mais pela internet. Foi você que mudou seu status pra solteiro, querido. E não vai ser desse jeito que…Quem tá falando? Puta merda. Linha cruzada. Tem uma linha cruzada. Depois te ligo.

- Tenho um amigo que está atrás de um padre pra confessar os pecados.

- Moço, vou ficar aqui mesmo. Vou a pé.

- Mas ainda está longe, senhora.

- Então o senhor cala a boca e me ouve: Tenho 47 anos. Sou separada. Estou com problemas no emprego e tenho vontade de matar meu chefe. Meu novo namorado só sabe se relacionar através de uma tela de computador. Não fumo, não bebo, não cheiro. Não tenho tatuagem. Não gosto de futebol e estou com um quisto no ovário do tamanho de um limão. Tá bom ou quer mais?

- É…parece que finalmente o trânsito resolveu andar.


Haroldo Mourão é jornalista e roteirista do programa Casseta & Planeta desde 1998, também já trabalhou no Museu da Imagem e do Som, na TVE e participou da equipe de roteiristas do longa metragem “Ressaca”de Bruno Vianna.

convida Valéria Motta

MÃE NO BANHEIRO de Valéria Motta

MÃE – Há quanto tempo aqui? Bom, na casa mesmo tem uns dez anos, mas neste banheiro uns dois. Sabe como é? Os filhos crescem e tomam conta do nosso espaço. (T) Hein? Se não é o contrário? Não, não. Esse contrário aí ainda vai demorar. Por que filho adolescente é assim mesmo. Ocupa espaço. Preenche com as vontades, entende? A psicóloga do colégio dizia que era tudo desejo… isso porque não era na casa dela. Acredita que nem visita recebia mais? O lavabo era irremediavelmente pros desejos dele. Hooooras lá dentro. Bom, pelo menos o garoto saía calminho, o marido não reclamava, a irmã não chorava e a empregada não pedia mais as contas. A vida da gente, hoje em dia, é assim. Melhor não perturbar… só a minha pessoa, claro. Foi por conta disto que dei um basta, tipo socorro mamãe surtou. Pois é… me dei o direito de bater a porta como eles fazem e me trancar aqui. Só que ninguém nunca imaginou que os minutos virariam horas que virariam dias… anos. Agora é a coitada da Justa que sabe da casa. Só fico escutando: Justa cadê isso, cadê aquilo. (T) Hã? A família? Reclamou no começo, mas depois se acostumou. Normal como dizia a minha menor. Saudade deles? Sinto… claro… só que descobri que amo dormir o tempo que meu corpo pede, compreende? Porque tava demais, vou ser sincera. Me sacrifiquei anos a fio no virar de móveis e utensílios! Ah, não dá, né? Não gosto dessa invisibilidade! Sabe quem nem vontade tinha mais? Juro. Vai cansando. Sério. (T) Hein? Como que cansa? Ah… pensa bem, você no maior sono, a cama balança, aquele troço vai se chegando, você fica meio lá meio cá… já não tem aquela agilidade toda e pronto foi… Mas tudo bem, fazia parte. Pelo menos a cama balançava de vez em quando. Agora as crianças… meio decepção, entende? A mais nova vivia mais na casa das amigas do que aqui. Não sei que tanta graça ela via em dormir na casa da Lê, da Pri e da Rê. E a mãe aqui que agüentasse esta sinfonia! Mas passa… minha avó dizia que o bom da adolescência é que passa. Eu mesmo, nem lembro direito da minha. Lembra da sua? Pois é. Todo mundo pula essa parte. (T) Hein? Se não me arrependo de morar aqui? Imagina! Tem barulhinho de água quando fico com vontade de chorar. Tem espelho quando penso que tenho vinte anos a menos, tem até banheira, olha só. O problema é que já estou naquela fase do entala, mas para relaxar os pés dá. Difícil relaxar… assim… depois de tanto tempo sem ter com quem conversar(T) Hã? Já vai? Mas, o que foi? Não respondi tudo certo? Ah, sei… tem mais gente pra pesquisar. Sei como é que é… toda mãe sabe como é que é…a gente nasceu para entender tudo. (T) Tudo bem. O próximo censo é quando mesmo? Hum… é trienal, entendi. Hã? Se sou feliz? Claro… tenho família, amigos… celular, mas acho que… Oi? Estou sendo sincera sim! Imagina! A minha vida é quase perfeita. Só falta uma pitada de coragem, pra abrir a porta, mas isso a gente vai levando.

Valéria Motta, 46 anos, é jornalista, roteirista e escritora. Já publicou um livro com a jornalista Nara Franco ” Último Dia de Aula”( Ed. Objetiva, 1997), escreveu para a série “Confissões de Adolescentes”, dirigido por Daniel Filho. Atuou durante nove anos no mercado editorial e desde 2006 trabalha na Record, já tendo colaborado nas novelas “Bicho do Mato”e “Chamas da vida” de Cristianne Frdiman, “Amor e Intrigas” e “Bela, a feia” de Gisele Joras. Atualmente integra a equipe da versão brasileira de “Rebelde”, escrita por Margareth Boury. Participa também do blog Enterlinha.blogspot.com

contato com a autora: valeria_motta@superig.com.br

A Beleza da Morte

 

Zé Roberto, com uma faca de cozinha nas mãos, corre atrás de Ana Lúcia.

 Zé Roberto: Eu vou te mataaaaar!

 Ana Lúcia: Para, stop, freeze, autos!

 Zé Roberto: Isso não é “pique-esconde”, Ana Lúcia.

 Ana Lúcia: Calma, Zé Roberto. Se vou morrer, vamos fazer a coisa direito.

 Zé Roberto: Como assim direito? Eu vou te matar e pronto! Mulher traidora! Pérfida!

 Ana Lúcia: Tudo bem, Zé Roberto, já concordei com você. Mas quero pelo menos morrer com dignidade.

 Zé Roberto: Uma mulher indigna que quer morrer com dignidade, essa é boa!

 Ana Lúcia: Zé Roberto, lembra que todas as manhãs eu tiro a casca do pão francês pra você?

 Zé Roberto: E daí?

 Ana Lúcia: E daí que eu também sou boa, não sou?

 Zé Roberto: Ana Lúcia, você me traiu sem dó nem piedade, na frente de todo mundo!

 Ana Lúcia: Todos os domingos, corto com tesourinha os pelinhos do seu nariz!

 Zé Roberto: Ana Lúcia, não muda de assunto! Você é uma safada! Me traiu com meu melhor amigo!

 Ana Lúcia: Grande amigo! Dar em cima da sua mulher! Se você parar pra pensar, te traí com o seu pior inimigo, ou seja, fui até bacana…

 Zé Roberto: Não tente inverter as coisas, Ana Lúcia! Eu vou te matar, te degolar!

 Ana Lúcia: Olha aí! Olha aí! Você tá falando como se eu fosse uma galinha.

 Zé Roberto: Mas você é uma galinha!

 Ana Lúcia: Por tudo que a gente viveu, pelas casquinhas do pão francês! Não me mata com uma faca de cozinha! Vou ficar com cheiro de cebola no caixão!

 Zé Roberto: Você quer que eu te mate como?

 Ana Lúcia: Lembra daquele filme que a gente viu? Aquele que a mocinha morria de falta de ar?

 Zé Roberto: Você quer que eu te enforque?

 Ana Lúcia: Não Zé! A mocinha morria de nervoso.

 Zé Roberto: Nervoso tô eu!

 Ana Lúcia: Posso também morrer de tuberculose igual a “Dama das Camélias”, acho lindo!

 Zé Roberto: Quem?

 Ana Lúcia: A protagonista do livro do Alexandre Dumas!

 Zé Roberto: Do que você tá falando???

 Ana Lúcia: Tá vendo, não lê nada e aí fica sem imaginação na hora de matar!

 Zé Roberto: Ana Lúcia isso vai ser um assassinato passional!

 Ana Lúcia: Passional significa que você ainda é apaixonado, ou não?

 Zé Roberto: Eu estou apaixonado pela vontade de acabar com a sua vida.

 Ana Lúcia: Posso pelo menos escolher as cores do caixão?

 Zé Roberto revira os olhos.

 Ana Lúcia: Poxa, tenho direito!

 Zé Roberto: Você tem o direito de ficar calada!

 Ana Lúcia: Olha, já que estarei morta, quero no caixão cores vivas para contrastar! Imagina que lindo, meu rosto branco, pálido, e uma fita laranja na lateral. Ai, até me deu arrepio!

Zé abaixa a faca de cozinha e vai saindo.

 Ana Lúcia: Que foi Zé?

 Zé Roberto: Cansei, Ana Lúcia, cansei.

 Ana Lúcia: Não vai mais me matar?

 Zé Roberto: Amanhã.

 Ana Lúcia: Ah, não! Agora que eu tava acostumada com a idéia da morte!

 Zé Roberto sai.

 Ana Lúcia: Droga!

 Ana Lúcia olha para a faca de cozinha e a pega.

 Ana Lúcia: Ai, sempre eu que tomo a iniciativa na relação!

 Ana Lúcia corta seu próprio pescoço e cai sorrindo no chão.

180 segundos!

(PLANO FECHADO NOS PERSONAGENS TECLANDO)

Cora e eu

Texto de Rodrigo de Roure

Camilo Pellegrini convida Rodrigo de Roure



Eu – O que você tá fazendo aqui?

Cora – Vou com você.

Eu – Tá de sacanagem?!

Cora – Vou, sim…

(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.)

Cora – “Você quer ser uma pessoa má?!! Quer?! Você não vai ser uma pessoa má!! Não vai! Se depender de mim, não vai! Tá me escutando?!!!” foi o que eu disse…

Eu – E espancou a pobrezinha…

Cora – Dei um tapa.

Eu – Na cara.

Cora – Na cara.

Eu – E deixou a coitada chorando.

Cora – Ficou lá… nem sei…

Eu – Claro que ficou… (Referindo-se ao trem cheio) Insuportável isso aqui…

Cora – É. É insuportável. Memê tá insuportável… todo mundo tá insuportável…

Eu – Tá segurando firme?

Cora – Tou. Acho que tou, né.

Eu – Então segura. Essa estação enche mais que todas…

Cora – Não imaginava que meu fim do dia ia ser esse… disputar por um pedaço desse ferro… pra não cair…

Eu – Não caia.

(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.)

Cora – Comprou seus remédios da homeopatia?

Eu – Tão aqui.

Cora – Tomou?

Eu – Vou tomar em casa. Com calma.

Cora – Precisa de calma pra tomar remédio?

Eu – Preciso. Ando bem melhor. (Muda o tom) Olha aquilo.

Cora – Onde.

Eu – Ali. A mulher. A porta do trem segurou a bolsa dela. Tá fudida.

Cora – Imbecil. (Cora desanda a rir nervosamente)

Eu – Cala a boca.

Cora – Não dá… (Continua a se escangalhar de rir)

Eu – Ridícula.

Cora – Você!

Eu – Sua mãe tem toda razão.

Cora – Deixa a minha mãe fora dessa!

Eu – Deixo não. Ela está certa quanto a você.

Cora – Minha mãe me fudeu! Tá ouvindo?!! Me fudeu! A vida toda ela me fudeu!

Eu – Se segura. Agora é que fudeu mesmo. Acho que a gente vai morrer nessa estação!

Cora – Você tinha que resolver ir embora na hora do rush?!! Imbecil!

Eu – Eu sempre vou embora da sua casa na hora do rush.

(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Quando o barulho diminui, pode-se ouvi-los novamente.)

Cora – Não acredito nessa gorda!

Eu – Empurra ela pra lá!

Cora – Vou dar um soco na boca do estômago dela!

Eu – (Contendo-se, mas com raiva) Fala mais alto, vai! Grita, porra!

Cora – Cala a boca! Tá maluco?!

Eu – (Mudando o tom.) Merda, não acredito!

Cora – Ahh! Nem eu!

Eu – Por que as pessoas resolvem fazer compra de mês quando saem do trabalho?

Cora – Deviam morrer.

Eu – Eu não vou entrar mais na tua pilha. Você tá me fazendo mal, Cora.

Cora – Não começa a falar essas coisas. Você sabe da sua capacidade de arrasar a minha vida!

Eu – Todo mundo arrasa a sua vida, Cora.

Cora – Não sei por que vim atrás de você.

Eu – Eu queria entender.

Cora – Eu vou embora.

Eu – Eu já tou indo.

(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. O trem passa em um túnel. A luz apaga brevemente. Quando volta a acender, Cora não está mais. “Eu” está só”. Barulho fraco de trem. Luz sobre “Eu”. Toca o celular de “Eu”.

Eu – Fala, Cora… tá chorando por quê? A Memê? Não é com a Memê. É com a sua mãe… ah saquei… Agora você espancou sua mãe, Cora??!!! Porra, caralho… como é que tu faz isso?!…(Barulho forte de trem em movimento. ‘Cora e Eu’ discutem um pouco pelo telefone. As vozes são encobertas pelo barulho do trem. Luz vai apagando devagar. B.O.)

Clube dos medianos

Julia Spadaccini convida André Boucinhas

Uma grande mesa e as pessoas (de terno, mas sem gravata e muitos com paletó na cadeira) distribuídas por ela. No centro está o presidente.

Presidente – Está aberta a décima segunda sessão do Clube dos Medianos deste ano. Hoje vamos tratar de um assunto mais ou menos.

(Os participantes vibram.)

Presidente – Fizemos um estudo rigoroso, mas não muito, sobre a média de relações sexuais dos nossos filiados e o resultado foi o seguinte:

(Mostra um gráfico feito a mão. Ele tem três traços saindo do eixo y: um para “os bonitos e/ou inteligentes” com um grau altíssimo de relações sexuais; outro para “os medianos” com um nível mediano de relações com uma alteração brusca no meio do gráfico; o ultimo traço é para “os impotentes” e beira o zero, com algumas alterações. )

Presidente – Como podemos ver, continuamos muito a frente dos impotentes o que é ótimo… (os participantes fazem comentários não muito empolgados) mas, se pensarmos bem, considerando que eles são impotentes… não é grandes coisas! (Todos vibram muito.)

Presidente – Ao mesmo tempo, o fato de estarmos muito atrás das pessoas bonitas e/ou inteligentes também não indica nada além da normalidade e, espero não estar exagerando aqui… da média! (Todos vão ao delírio.)

Presidente – No entanto, nem tudo são notícias medianas. (Apreensão geral.) Trouxe um analista que é um associado do nosso grupo e faz um trabalho razoável por um preço nem muito caro nem muito barato.

Analista – Boa tarde, senhores. Vejo um problema grave nesse gráfico. Nos primeiros seis meses, mantivemos a excelente média de uma relação sexual a cada 20 dias. Não só é um número excelente por ser bem mais ou menos, mas foram seis meses na mesma média, o que é admirável. Contudo…

Participante meio tenso – Fale logo, não estou acostumado a esse suspense!

Analista – Já chego lá. Esse desvio aqui no gráfico aponta para algo meio sério…

Participante meio tenso – Sabia que não devia entrar em clube nenhum… é muita adrenalina…

Analista – Bom, os números indicam que, nesse período aqui, pelo menos metade de nós… Não sei se metade, talvez um pouquinho a mais ou a menos. Eu teria que fazer uma conta meio complicada para saber exatamente quantos de nós…

(Participante meio tenso dá um tiro na cabeça.)

Analista – Então, o desvio indica que mais ou menos metade de nós, no mês de julho, fez 5 ou 6 vezes mais sexo do que a média. Mais ou menos.

Participante 2 – Mas isso está muito fora da média!!

Todos – OH!

(Pequena confusão.)

Presidente – Não vamos nos exaltar muito, senhores. E também não fiquemos calmos demais.

Participante 3 – Senhores, vamos pensar um pouco. Eu estou nesse clube desde a fundação e posso garantir que nenhum de nós é capaz de fazer sexo 5 vezes a cada 20 dias. (Todos apoiam.) Deve haver algum engano na realização do gráfico. Foi você mesmo quem o fez?

Analista – Não. Eu coordenei a pesquisa de longe. Quem de fato construiu o gráfico foi meu ajudante aqui.

(Aponta para a pessoa ao lado dele que levanta. Usa óculos fundo de garrafa e tem a mão direita muito trêmula.)

Ajudante – Eu garanto que fiz o melhor trabalho possível nas minhas condições!

Analista – Estou com o Trimilique há anos e garanto que ele nunca me decepcionou muito. É verdade que nunca fez um trabalho perfeito mas… é isso que nós queremos aqui?

Presidente – Por Deus, não!

Ajudante – O que eu acho estranho é que um de nós tenha pedido a palavra para exigir mais qualidade…

Presidente – O que você está insinuando?

Ajudante – (fazendo manha) Nada…

Presidente – (entrando no jogo dele) Ah, fala…

Ajudante – Ah não, depois vocês vão pensar que eu to de raivinha só porque me criticaram…

Presidente – Para com bobeira e fala…

Ajudante – É que eu acho que tem alguém aqui que não é uma pessoa mediana!

Presidente – Mas isso é uma acusação muito séria!

Ajudante – Ah, mais ou menos.

Presidente – Pior ainda!

(Pequena confusão. Mais alguém tenta dar um tiro na cabeça, erra e acerta a pessoa do lado.)

Participante 3 – Se você está se referindo a mim, está muito enganado! Só uma pessoa medíocre acusa alguém por causa de um gráfico estúpido em um clube idiota!

Presidente – Isso é verdade…

(Todos concordam.)

Participante 3 – Eu proponho o seguinte: façamos o nosso ritual de fechamento de gala.

Presidente – Mas hoje foi uma reunião ordinária.

Participante 3 – Por isso mesmo!

(Todos apóiam.)

Presidente – Então está bem. Todos a postos? (Todos se sentam.) Preparados? (Todos pegam pequenos livrinhos e colocam a sua frente na mesa e ficam com um lápis à mão.) Vamos às palavras cruzadas!

Luz apagando e se ouve:

- Pessoa ordinária, comum, 7 letras… alguém?
- Difícil…
- Pula essa.

Oasis

Renata Mizrahi convida Diego Molina

convidado
con.vi.da.do
sm (part de convidar) 1 Indivíduo a quem se fez convite. 2 Ferramenta retangular de metal utilizada no garimpo. 3 Pensamento de ordem bagaceira sem sentido absolutamente verossímil. 4 Xingamento hindu. Ex: “Tire as mãos da minha esposa, convidado do inferno!”. 5 O mesmo que bumba-meu-boi, só que de trás-pra-frente.

***

Um homem cruza o palco correndo, da direita para a esquerda, até desaparecer pela coxia. Está apertado para ir ao banheiro. De fora, ouvimos seus gemidos de alívio, os sons correspondentes e o barulho da descarga. O homem retorna vagarosamente ao palco, em direção a porta por onde entrou. Está com o semblante de uma pessoa realizada. Ao chegar à coxia direita, percebe que a porta está trancada. Tenta abri-la, irritado, sem obter sucesso.

HOMEM – Alô?! Tem alguém aí fora? Tem gente presa aqui no banheiro! Alô?! Alguém me ouve? (Silêncio.) Merda! Vou perder o ônibus!

O homem chuta a porta e caminha de um lado para o outro até encontrar um curioso objeto no chão: um cubo de metal. De repente, tem uma idéia. Pega o cubo e vai em direção à porta. Toma fôlego e se prepara para arrebentar a maçaneta. Até que surge, de dentro do banheiro, uma figura inusitada.

BAUER – Não faça isso!

HOMEM – O quê?

BAUER – Cuidado, cara! Vai matar a gente!

HOMEM – Estamos presos. Estou tentando abrir a porta com isso.

BAUER – Isso é uma bomba!

HOMEM – Oi? Tá maluco? É só uma caixinha de metal.

BAUER – Passa pra cá! (Toma o objeto.) Eu sei do que estou falando.

HOMEM (Irônico.) – Fique a vontade, “senhor esquadrão anti-bombas”. Mas seja rápido porque meu ônibus sai em cinco minutos!

BAUER – Não sou do esquadrão anti-bombas. Sou Jack Bauer, ex-agente secreto do FBI.

HOMEM – Como é que é? Você está dizendo que é “o” Jack Bauer, do seriado “24 horas”? É isso?

BAUER – Sim. E se eu não der um jeito nessa ogiva nuclear rapidamente você não vai perder só o ônibus.

HOMEM (Rindo.) – Ah! Ogiva nuclear?

BAUER – É… parece que os malditos xiitas aprontaram mais uma!

HOMEM – Essa foi boa! Agora só me responde uma coisa: o que diabos o Jack Bauer da televisão está fazendo num banheiro de beira de estrada?

BAUER – Não faça perguntas idiotas. Todo homem tem direito a uma mijada descente.

HOMEM – Meu Deus, estou preso dentro de um banheiro fedido junto com um lunático!

BAUER – É um dispositivo muito engenhoso, mas acho que consigo desativá-lo.

HOMEM – Meu amigo, você não vai desativar nada porque isso não é uma bomba!

Surge outra figura inusitada de dentro do banheiro.

LANGDON – Ele tem razão. Trata-se da Caixa Secreta de Michelangelo.

HOMEM – Meu Deus, quem é você?

LANGDON – Robert Langdon, professor de simbologia religiosa da Universidade de Harvard.

HOMEM – Calma aí! Você é o cara do “Código Da Vinci”?!

BAUER – E do “Anjos e demônios”.

LANGDON – E não se esqueça do “Fortaleza digital”. Em 2012, nos cinemas.

BAUER (Fingindo cordialidade.) – E aí, Robert?

LANGDON (O mesmo.) – Como vai, Jack?

HOMEM – Vocês se conhecem?

BAUER – Nos esbarramos de vez em quando.

HOMEM – Isso só pode ser um sonho…

LANGDON – Ou um pesadelo, meu caro. Uma vez fora do seu esconderijo, a Caixa Secreta de Michelangelo emite um poderoso sinal rastreador informando sua localização exata aos seus guardiões.

HOMEM – Do que está falando?

BAUER – Não ligue pra ele, cara!

LANGDON – Da ordem dos Cavaleiros Sistinos da Mesopotâmia. São os únicos que podem provar que Michelangelo era negro!

BAUER – Isso não passa de uma lenda!

HOMEM – Que blasfêmia…

LANGDON – É o que todo o mundo achava. Mas, de alguma maneira ainda não explicada, a Caixa Secreta de Michelangelo veio parar aqui, nesse banheiro. E temo que a qualquer instante os Cavaleiros Sistinos da Mesopotâmia possam chegar e dar cabo de todos os que estiverem próximos a ela!

HOMEM – Você quer dizer… matar… a gente?

LANGDON – Infelizmente sim.

HOMEM – Estamos perdidos!

BAUER – Pode apostar! Não dou mais que três minutos pra essa ogiva nuclear explodir!

LANGDON – Ora, não comece com suas maluquices, Jack! Dê-me isso, por favor.

BAUER – Chega pra lá, Robert! Não vou deixar você ferrar com tudo, como da última vez!

LANGDON – Não se faça de sonso! Foi você quem achou que o guaxinim era fêmea!

BAUER – Porra, tava de contraluz…

LANGDON – Passa pra mim, anda!

BAUER (Sacando uma arma e apontando para Langdon.) – Então vem pegar!

HOMEM – Meu Deus, o que é isso? Vocês estão loucos?

Surge mais uma figura inusitada.

JONES – Loucos não. Equivocados.

HOMEM – O que é isso, uma convenção?

BAUER – Olha quem resolveu aparecer! O renomado Doutor Jones.

JONES – Indiana, pra você. Digo, Doutor Jones está bom. (Para Langdon.) E vejo que terei que salvá-lo mais uma vez, não é, Robert?

LANGDON – Tenho que concordar que chegou em boa hora, Indiana.

HOMEM – Jesus, que diabo de banheiro é esse…

BAUER – Acho que alguém aqui nunca pegou a Rio-São Paulo!

Todos riem, menos o homem.

JONES – Agora chega de gracinhas, Jack. Eu quero o Oráculo!

HOMEM – Tá… manda a sua versão, vai.

JONES – Estou falando do Oráculo Perdido das Doze Tribos. Foi criado pela primeira dinastia judaica durante o êxodo, numa tentativa de se comunicarem com os extraterrestres. Se mal utilizado pode emitir um gás venenoso, ou um peru de madeira, não se sabe ao certo.

HOMEM – Já comprei um desses trecos numa feirinha em Salvador.

JONES – Só que não estou a fim de descobrir a verdade. Jogue-a pra mim, Jack!

BAUER – Ah, tá legal! E você tá achando que esse chicotinho vai dar conta da minha 9mm?

JONES (Sacando uma arma.) – Não andou vendo meus filmes, não é? Passe o Oráculo!

LANGDON (Sacando também uma arma.) – Não desta vez, Indiana. (Para Bauer.) A Caixa Secreta de Michelangelo é minha!

BAUER – A ogiva nuclear não sai das minhas mãos!

JONES – Oráculo Perdido das Doze Tribos!

LANGDON – Caixa Secreta de Michelangelo!

BAUER – Ogiva nuclear!

Inicia-se uma discussão interminável.

HOMEM – Chega, vocês três! O que é que é isso? Virou puteiro isso aqui? Alguém me livre de vocês, pelo amor de Deus!

Surge mais uma figura.

COLORADO – Eu! O Chapolim Colorado!

Bauer vira sua arma para Colorado e atira nele, que cambaleando, cai no chão, dramaticamente.

HOMEM – Por que você fez isso??

BAUER – Sempre gostei mais do Chaves…

Colorado, gemendo, tenta se levantar, pedindo ajuda com sua expressão moribunda. Langdon e Jones apontam também suas armas para Colorado e os três atiram nele, que morre, finalmente.

LANGDON – É, eu também…

JONES – Eu também…

HOMEM – Ok, vocês venceram. Atirem a vontade uns nos outros. Ninguém consegue se entender aqui mesmo. Isso é o que dá juntar três americanos e um mexicano. Se ao menos tivesse um herói brasileiro aqui comigo. (Se dando conta.) Merda, o que foi que eu disse?!

Surge, do banheiro, uma quinta figura.

NASCIMENTO – E aí, rapaziada? Todo mundo cantando a música do abc?

HOMEM (Estupefato.) – Um de vocês, por favor, atire em mim agora.

OS TRÊS – Pelé?

NASCIMENTO – O próprio! Pediram um herói nacional, e cá estou!

HOMEM – Que esculhambação…

Os três se aproximam de Nascimento para pedir autógrafos.

HOMEM – Não vai me dizer que isso é uma bola, vai?

NASCIMENTO – Exatamente! A bola do gol-de-mão que Maradona fez na copa!
Nascimento começa a fazer embaixadinhas com o objeto de metal.

HOMEM – Ai, meu pai do céu… aonde essa história vai parar?

Surge uma sexta figura, desta vez pela porta, que é aberta rapidamente.

BRAGA – Essa é uma ótima pergunta.

HOMEM – A porta! Segura a…

A porta se fecha novamente.

HOMEM – Não acredito! Você deixou a porta fechar de novo!

BRAGA – Ora, deixe de ser maricas.

NASCIMENTO – Ei, quem e você?

HOMEM (Extremamente magoado.) – Maricas?

BRAGA – Meu nome é Gilberto Braga. Sou autor de novelas.

JONES – Um momento, o que está acontecendo aqui?

BRAGA – Digamos que vocês são todos meus convidados.

HOMEM – Ah, então você é o responsável por tudo isso?

BRAGA – Acho que sim. Acontece que tive problemas com os diretos autorais de vocês e tive que parar de escrever a novela.

LANGDON – O que está insinuando?

BRAGA – Daí resolvi transformar tudo isso num teatro de revista.

NASCIMENTO – Teatro de revista? (Cantando.) “A, b, c! A, b, c! Toda criança tem que ler e escrever”!

BRAGA – Mas tive problemas com o ECAD.

BAUER – Malditos! Nunca ajudam em nada!

BRAGA – É verdade. Até escrevi uma peça chamada “Como explodi o ECAD e fiz um mundo melhor”. Mas isso é outra história, da qual vocês não fazem parte.

HOMEM – Espere aí! Quer dizer que nós somos personagens de uma história de ficção?

BRAGA – Exatamente. De um esquete, na verdade. É o que deu pra fazer com tanta burocracia.

LANGDON – Nossa… nunca me senti tão superficial.

JONES – E o que veio fazer aqui, seu Gilberto?

BRAGA – Vim ver se vocês me ajudam a terminar isso aqui.

HOMEM – Que tal abrir a porta e deixar todos seguirem seus caminhos?

BRAGA – Chato de mais.

NASCIMENTO – Vamos terminar cantando!

HOMEM – Ora, cale a boca!

BRAGA – Como num teatro de revista?

NASCIMENTO – É! Só que mais curto.

BAUER – Faz sentido… talvez eles não encham o saco.

HOMEM – Não acredito no que estou ouvindo!

BRAGA – Acho que podemos tentar. Quem sabe não nos inscrevemos em algum festival no interior?

JONES – Acha que temos chances de ganhar?

BRAGA – Não, mas pode ser bem divertido!

LANGDON – Ok, eu topo!

Todos aceitam, menos o homem.

HOMEM – Meu Deus! Isso não faz sentido! É até inverossímil!

BAUER – Ah, não fode, mané!

BRAGA – Então vamos lá! Que entrem as mulatas!

HOMEM (Profundamente sentido.) – Não fode, mané?

Entram várias mulatas sambando. Todos comemoram. Junto a elas, surgem o Osama Bin Laden, o Cavaleiro Sistino da Mesopotâmia, o ET de Varginha e José Sarney, dançando, animados. Todos entram na folia, menos o homem. Cantam uma marchinha de carnaval qualquer, realizando uma divertida coreografia. Aos poucos, o homem vai se entregando ao clima. Ao final do número, que não precisa durar muito tempo, todos vão saindo de cena, satisfeitos, até sobrarem no palco: o homem, Sarney, Bin Laden, o cavaleiro e o ET. O cubo de metal, durante a folia, acabou ficando nas mãos do Sarney.

HOMEM (Se dando conta da situação.) – Merda, isso não é bom sinal!

SARNEY – Puta merda, sobrou pra mim de novo!

Entra em cena o Professor Raimundo.

RAIMUNDO – E o salário, ó!

Vinheta de “Os trapalhões”. Blecaute. Som de explosão.

***

Nota do autor: mude os personagens deste esquete e anime a festa de fim de ano da sua empresa!

Galeria de arte

Larissa Câmara convida Leandro Muniz

HOMEM e MULHER caminham por uma galeria de arte e conversam.

HOMEM
Eu pinto quadros desde os 3 anos de idade.

MULHER
Incrível!

HOMEM
No Jardim dois eu ganhei prêmios com um desenho do palhaço Carequinha em giz de cera.

MULHER
Que máximo!

Os dois param de caminhar. HOMEM se aproxima de MULHER.

HOMEM ( insinua-se)
Desde então… Desde então eu não penso em outra coisa senão: pintar.

MULHER
Edu, você transborda: talento.

Os dois voltam a caminhar

MULHER
Eu vi aquele seu quadro “Eu e Marli no deserto do Saara nus e suados comendo carne crua ao som de Billy Holliday”. Você tem muito jeito pra coisa Edu. Mas achei aquela paisagem amarela um pouco over, isso me passa uma sensação de desconforto sua em relação ao seu eu interior. Você tem questões raciais e bloqueios sexuais visíveis!

HOMEM
Você está redondamente enganada! Aquilo não é amarelo! E o que quero dizer com aquele quadro é muito mais simples. Quero dizer que a verdadeira obra de arte pode ser compreendida pela incompreensão que ela propõe, podendo ser entendida de maneiras diferentes desde que compreendamos de maneiras diferentes e/ou incompreensivas. Entendeu?

MULHER
Não.

HOMEM
Daltônica!

MULHER
Invejoso!
HOMEM
Petulante!

MULHER
Mal amado!

HOMEM
Mesquinha!

MULHER
Fracassado!

HOMEM
Frustada!

MULHER
Gostoso!

HOMEM e MULHER se agarram e se beijam ferozmente. Em seguida, os dois se recompõe e voltam a andar pela galeria, e a observar alguns quadros.

MULHER
Sua mãe e eu nos demos muito bem.

HOMEM
Destino.

MULHER
A gente combina nas coisas que gostamos em você.

HOMEM
Incrível.

MULHER
E até nas coisas que não gostamos em você.

HOMEM
Por exemplo?

MULHER
Sua capacidade de ser mais egoísta do que sua sombra, mais perverso com as pessoas do que seu próprio pai que desgraçou a vida da sua mãe com inúmeras esquisitices ignorâncias e violências e coisas bem peculiares suas como não saber tratar uma mulher, não cuidar da casa, não ser sociável, amável, arrotar na mesa, chupão no pescoço de alguma vagabunda, destratar qualquer pessoa que não tenha o mesmo nível intelectual e/ou financeiro que você. Entendeu?

HOMEM
Vacas!

MULHER
Baitola!

HOMEM
Piranha!

MULHER
Imbecilóide!

HOMEM
Mongolóide!

MULHER
Preconceituoso!

HOMEM
Mulherzinha!

MULHER
Brocha!

HOMEM
Estéril !

HOMEM e MULHER se agarram e se beijam novamente, dessa vez de forma mais violenta. Entre carícias e pegadas agressivas, ameaçam ir para o chão, mas percebem um grupo de pessoas próximas dali, e param de agir.

MULHER
Eu não sei o que eu vi em você Edu

HOMEM
Nem eu sei o que vi em você, Maristela.

MULHER
A começar pelo nome

HOMEM
Terminando pelo cheiro.

MULHER
Eu odeio tudo em você

HOMEM
Tudo em você

MULHER
Façamos o seguinte

HOMEM
Não nos veremos mais!

MULHER
Lê meus pensamentos.

HOMEM
Tenho nojo deles, assim como tudo em você

MULHER
Me enoja!

HOMEM
Tudo.

MULHER
Teu jeito de falar!

HOMEM
Reclamar, acertar!

MULHER
Andar, respirar ,vestir!

HOMEM
Piranhar, fofocar, arrumar!

MULHER
Cuspir!

HOMEM
Despir!

MULHER
Me despir ? Jamais!

HOMEM
Que assim seja!

MULHER
Prefiro a morte!

Os dois se aproximam com voracidade, porém recuam.

Homem sai.

MULHER
Espera! Que horas marcamos amanhã?

FIM

Susan Inferno Sarandon

Felipe Barenco convida Rafael Souza-Ribeiro

MULHER – Não! Não! Me solta!

HOMEM – Acorda, minha fada! Você está sonhando.

MULHER – Oi? Onde eu tô? Ai, cacete. De novo, amor sublime.

HOMEM – Outro sonho daqueles?

MULHER – Sim, outro sonho com Susan Sarandon.

HOMEM – Eu vou pegar água.

MULHER – Não! Não me deixe aqui sozinha. Eu tenho medo. Só acende a luz.

HOMEM – Não vai acontecer nada, minha fada.

MULHER – Eu não agüento mais…

HOMEM – Não chora.

MULHER – Eu não consigo mais ter uma noite inteira de sono sem ser assombrada por ela.

HOMEM – Minha fada, são apenas sonhos.

MULHER – Eu sei, eu sei. Mas isso tem acabado comigo. Minha vida virou um inferno depois que eu comecei a sonhar com a Susan Sarandon.

HOMEM – Vai fumar agora?

MULHER – Estou nervosa, você tem que me entender. Aonde você vai?

HOMEM – Abrir a janela.

MULHER – Eu quero meu sono de volta, minha tranquilidade.

HOMEM – Você não faz nenhuma ideia do porquê desses sonhos?

MULHER – Não. É inexplicável.

HOMEM – Se ao menos você fosse uma fã, se gostasse muito de algum filme dela…

MULHER – Nem uma coisa nem outra. Não tem explicação. Os próprios sonhos não fazem sentido. Eu sempre estou correndo na Lagoa quando ela vem e se emparelha a mim, aí a gente começa a correr, ela me diz que são meus últimos passos, pega a minha mão e me puxa em direção à água. A gente começa a afundar. Aí, quando o ar começa a acabar, quando eu começo a morrer, eu acordo.

HOMEM – Minha fada, nós precisamos procurar ajuda.

MULHER – De jeito nenhum. Eu morro de vergonha. Ninguém precisa saber desse meu problema.

HOMEM – Mas, minha fada, você não tem do que se envergonhar. A primeira vitória é assumir que precisa de ajuda. Você quer ou não quer acabar com essa tormenta?

MULHER – Ela falou de você dessa vez.

HOMEM – De mim? Como assim? Susan Sarandon falou de mim num sonho?

MULHER – É.

HOMEM – E o que ela disse?

MULHER – Ela disse que eu devo continuar em busca do meu grande amor porque você não é o homem da minha vida. O homem que se deita ao seu lado, foi assim que ela disse, não é o homem que se levanta por você.

HOMEM – Ela disse isso?

MULHER – Disse.

HOMEM – Em inglês ou português?

MULHER – Taí. Não sei. Me apertou sem abraçar. Não reparei qual era a língua.

HOMEM – E você acha que existe algum sentido no que ela disse?

MULHER – Você deve saber disso melhor do que eu.

HOMEM – Isso é loucura.

MULHER – Vai fumar também?

HOMEM – Perdi o sono.

MULHER – Toda noite agora é esse inferno.

HOMEM – E justo por causa de quem? Por minha causa que não é. Esse inferno é por causa de ninguém mais ninguém menos que Susan Sarandon. Ela está destruindo não só as nossas noites, como a nossa vida. Você percebe? É isso que ela quer: acabar com a nossa vida, sabe-se lá por quê. Que Susan Sarandon quer nos ver separados, ah quer.

MULHER – E pelo visto ela não vai sossegar enquanto não conseguir. Demônia!

HOMEM – Será que essa merda morreu e o que aparece no seu sonho é o espírito dela?

MULHER – Antes fosse, faria mais sentido. Mas ela está viva.

HOMEM – Que mais ela disse?

MULHER – Nada. Vamos dormir.

HOMEM – Você está me escondendo alguma coisa.

MULHER – Tô escondendo nada, amor sublime. Vamos dormir, são quase quatro horas. Daqui a pouco é dia.

HOMEM – Me conta pelo amor de Deus, pelo amor que você tem a mim, eu faço o que você quiser, eu me ajoelho, olha, eu me ajoelho, mas me diz, o que mais a Susan Sarandon falou pra você?

MULHER – Ela disse que…

HOMEM – Fala o que ela disse, minha fada!

MULHER – Ela disse que você me esconde um segredo.

HOMEM – Ela disse isso? Eu vou matar essa mulher.

MULHER – Eu não acredito nela, pode ficar tranquilo. Não fica assim, amor sublime.

HOMEM – Como você quer que eu reaja? Estão tentando nos colocar um contra o outro.

MULHER – Não, amor sublime, é só um sonho.

HOMEM – Então diz que não acredita nela, diz. Diz que confia em mim.

MULHER – …

HOMEM – Que foi? Você está em dúvida?

MULHER – Você não acha que está irritado demais por causa das insinuações da Susan Sarandon?

HOMEM – Você acha? Tá pegando mal?

MULHER – Um pouco. Daqui a pouco eu vou achar que você me esconde mesmo um segredo.

HOMEM – Quer saber? Pra mim chega.

MULHER – Aonde você vai?

HOMEM – Eu vou embora. Acabou!

MULHER – Não seja dramático!

HOMEM – Eu cansei de disputar você com a Susan Sarandon. Chega! São oito meses dessa insanidade.

MULHER – Eu preferiria morrer a estar vivendo essa desgraça.

HOMEM – Não era eu o dramático aqui?

MULHER – Se você for embora, o que Susan falou vai fazer todo o sentido: você realmente não é o homem da minha vida.

HOMEM – Talvez ela esteja certa.

MULHER – Isso é loucura. Daqui a pouco chove bosta aqui dentro do quarto. Chega de delírios!

HOMEM – Acabou o cigarro.

MULHER – Volta pra cama.

HOMEM – Não. Eu tô muito ferido.

MULHER – Nós temos que ser fortes. A gente tem que encarar isso com mais distanciamento, sei lá, encarar como fantasia, é…, é…, é…, enfim, sonho, como qualquer coisa que não seja real. Os meus sonhos com a Susan Sarandon não podem interferir no nosso relacionamento, a gente não pode deixar que uma fulana qualquer interfira dessa forma na nossa vida. A gente tem uma história. E na história da fada e do amor sublime, qual o papel de Susan Sarandon? Nenhum! Ela não é ninguém.

HOMEM – Ela tem um Oscar.

MULHER – Caguei! Eu tenho você, amor sublime.

HOMEM – Danada.

MULHER – Hoje foi o último dia que a gente se estressou por causa disso, ok? Vamos combinar que a partir de amanhã a gente não vai mais se aborrecer? Nem se irritar? Vamos rir dessa história a partir de amanhã?

HOMEM – Eu te amo.

MULHER – Eu te amo também. Que tal dormir antes que amanheça?

HOMEM – Show!

MULHER – Então apaga a luz. Fecha a janela primeiro. É só a gente ficar quietinho que o sono volta.

HOMEM – …

MULHER – …

HOMEM – Minha fada, já dormiu?

MULHER – Oi?

HOMEM – Eu… preciso dizer uma coisa. Aquilo que a… Susan falou, é verdade. Ela conseguiu o que tanto queria. Eu… eu tenho mesmo um… um segredo.

MULHER – Qual?

HOMEM – Eu também tenho sonhos. Os meus são com Denzel Washington.

MULHER – Danado!

HOMEM – O segredo é que são sonhos eróticos.

MULHER – Entendi… (4 minutos depois) Os cigarros acabaram mesmo?

FIM

Fobia

Jô Bilac Convida Marilia Toledo

Nota do Jô: Conheci Marília em São Paulo, em meio a um grupo interessantíssimo de dramaturgos oriundos de todo o país. O encontro foi na tão célebre praça Roosevelt em uma entrevista para a Ilustrada (Folha de São Paulo). Além de ser uma jovem elegante e inteligente, Marilia hoje é um dos valiosos talentos da nova dramaturgia brasileira. Conexão sampa/rio, boa leitura.
j. Bilac

Personagens:

Elisa – mulher, rica, sessenta anos.
Élcio – seu marido.
Motorista.

ELISA ESTÁ NO HALL DE ENTRADA DE SUA MANSÃO, VESTIDA DE MANEIRA MUITO ELEGANTE. ELA ESTÁ BASTANTE AGITADA.

ELISA: (FALA ALTO COM O MOTORISTA, QUE ESTÁ NO ANDAR DE CIMA) Jorge, já estamos atrasados. Pode trazer as minhas malas? (OLHA NO RELÓGIO) Oito e dezenove!

MOTORISTA: (EM OFF) Claro, dona Elisa. Já estou indo.

MOTORISTA CHEGA AFOBADO, COM AS MALAS.

ELISA: Precisamos mandar arrumar o elevador. Já não temos mais idade para subir e descer essas escadas.

MOTORISTA: O técnico vem na próxima semana, quando a senhora voltar.

ELISA: (OLHA NO PRÓPRIO RELÓGIO, MAS QUER TER CERTEZA) Que horas são?

MOTORISTA: Oito e vinte.

ELISA: Estou atrasada. Muito atrasada. Ponha tudo no carro que eu vou chamar o Élcio.

MOTORISTA: O doutor não vai querer sair agora, ainda faltam quinze minutos para o horário limite de saída da senhora. Mas… quarenta minutos para o horário limite dele.

ELISA: Desta vez sou eu quem decide porque a viagem é minha. Ele está indo ao aeroporto conosco de intrometido que é! Não posso perder este vôo.

ÉLCIO ENTRA.

ELISA: Ah, que bom, meu querido. Vai mesmo nos acompanhar? Já estamos indo.

ÉLCIO: Querida, não faz o menor sentido sairmos agora. Levaremos uma hora até Guarulhos. Você ainda terá duas horas de espera antes do check in.

ELISA: Não vamos começar tudo de novo. Jorge, por favor. Leve as malas.

ÉLCIO: Vou pegar minha carteira no escritório.

O MARIDO E O MOTORISTA DEIXAM A SALA.

ELISA: (ANDANDO DE UM LADO PARA O OUTRO) Meu Deus, vou perder o vôo! Tenho certeza de que vamos pegar o maior trânsito e depois vou enfrentar uma fila dos diabos e não vou conseguir embarcar. Eu sei que isso vai acontecer. Tenho certeza.

JORGE VOLTA.

ELISA: Por que SEMPRE ele faz isso comigo, Jorge? Ele sabe que eu gosto de ir com calma.

MOTORISTA: Fique tranquila, dona Elisa. Temos tempo.

ELISA: Não temos tempo, não. Você sabe melhor do que ninguém como é o trânsito.

ÉLCIO VOLTA.

ELISA: Pronto?

ÉLCIO: Ainda não. Vou colocar comida para os peixes.

ELISA: Mas será possível? Deixe isso para os empregados.

MOTORISTA: Ih, já saiu todo mundo. Como o senhor Élcio decidiu ir para a praia…

ÉLCIO: Mandei o Jorge dar folga para todos. Não quero ninguém em casa esta semana. Merecemos descansar um pouco.

ELISA: Alimente os peixes na volta.

ÉLCIO: Não me aborreça.

ÉLCIO SAI.

ELISA: Que horas são, Jorge? No meu relógio são oito e vinte e cinco.

MOTORISTA: Oito e vinte e cinco.

ELISA COMEÇA A RESPIRAR DE MANEIRA OFEGANTE.

MOTORISTA: Respire fundo, dona Elisa. Lembre-se do que o seu médico falou. Respiração de cachorrinho!

ELISA: Cachorrinho é para grávida, Jorge! O meu médico mandou fazer respiração curta e forte.

MOTORISTA: E não é a mesma coisa?

ELISA: Claro que não! Pare de falar, você está me deixando ainda mais nervosa.

MOTORISTA: Sim, senhora.

ELISA: Que horas são?

MOTORISTA: Oito e vinte e sete.

ELISA: Oito e vinte e sete!

ÉLCIO ENTRA.

ÉLCIO: Eu não consigo encontrar o meu celular. Você viu onde eu larguei?

ELISA: Quando você voltar do aeroporto procura. Para quem vai ligar agora? Não tem a menor necessidade.

ÉLCIO: Você sabe que eu não consigo sair de casa sem ele.

ELISA: E você sabe que eu não suporto chegar atrasada nos lugares. Passamos a maior parte da vida sem esse troço e agora parece que se der um passo sem o celular vai ter um ataque do coração!

ÉlCIO: Esta bem, vamos.

OS TRÊS ANDAM EM DIREÇÃO AO CARRO, MAS ÉLCIO RECUA.

ÉLCIO: Carteira!

ELISA: Santo Cristo! Não pegou?

ÉLCIO: Esqueci. Fiquei procurando o celular…

ELISA: Deus do Céu! Agora tenho certeza que não vai mais dar tempo. Que horas são?

MOTORISTA: Oito e vinte e oito.

ELISA: Viu!

ÉLCIO: (PASSANDO POR ELISA) Elisa, quanto teatro! Temos tempo de sobra.

ELISA: Nunca vi uma pessoa tão sossegada! (GRITA) Querido, deixe que eu vou sozinha com o Jorge. Sei que você quer ser gentil comigo, mas…

ÉLCIO: (PASSANDO NOVAMENTE POR ELA) Já peguei a carteira. Vou subir rapidinho para pegar um presentinho que eu comprei para você levar no avião!

ELISA: (TOTALMENTE SEM PACIÊNCIA) Amor… meu presente é a viagem! Isso se eu conseguir chegar a tempo no aeroporto. Tá vendo! Ele vai fazer de propósito, Jorge! No fundo não quer que eu vá!

MOTORISTA: Ele só está querendo agradar a senhora!

ELISA: Agradar nada! Isso é pura provocação! Por favor, vá indo para o carro e nos espere lá.

MOTORISTA SAI.

ELISA: Deus meu, dai-me paciência! Vou perder esse avião… oito e vinte e nove!

SILÊNCIO.

ELISA: (FALANDO PARA O ANDAR DE CIMA) Querido, você subiu de elevador?

ÉLCIO: (OFF) Não. Mandou consertar?

ELISA: Claro! Está em seu perfeito estado!

ÉLCIO: (OFF) Ótimo! Já estou indo. Peguei o presente e meu paletó.

OUVIMOS BARULHO DE UMA PORTA DE FERRO SE FECHANDO E DEPOIS UM BARULHO DE ENGRENAGEM SE ROMPENDO.

ÉLCIO: (OFF) Que porcaria! Já quebrou de novo! Não consigo abrir a porta. Quem foi o imbecil que fez este serviço?

ELISA: Ninguém, meu amor. O elevador nunca foi arrumado!

ÉLCIO: (OFF) Elisa, (PAUSA) então você… você…

SILÊNCIO.

ÉLCIO: (GRITA) Elisa!!!!!

ELISA SAI DE CASA E TRANCA A PORTA.

ELISA: Vamos, Jorge! Élcio decidiu ficar. Depois que me deixar no aeroporto pode ir para a sua casa direto. É mais perto, não é?

MOTORISTA: É sim, dona Elisa. Mas… e o carro?

ELISA: Fique com ele. Você não vai ter que me pegar daqui uma semana?

FIM.