Banana para o Brasil

Dia de jogo do Brasil. O barulho infernal das vuvuzelas no estádio e dentro de casa. Churrasco no quintal, família reunida na sala cheia e ansiosa. Falatório geral e aquele parente buscando concentração, tentando organizar a bagunça.

TIO -  Xiiii! Silêncio! Vai começar!

TIA -  Parece que quem tá entrando no estádio é ele.

ROBERTINHO – O hino cara, vamos respeitar.

PRIMO – Quer que eu levante pra cantar junto?

ROBERTINHO – Tem sobremesa, mãe?

PRIMA 1 – Aiiiiii, o Kaká é tãaaaaaaaao liiiiindo!

PRIMA 2 – Eu não acho. Prefiro o Elano.

PRIMINHA 3 – Eu prefiro o Edward!

ROBERTINHO – Caralho, o Elano é muito feio.

PRIMO – E o Kaká não é? Huuuuuuum!

FAMÍLIA – Êeeeeeeh!

TIA – Desliga essa vuvuzela, garoto!

FILHA – Mãe, vuvuzela não tem botão, não.

TIA – Então desliga o menino.

TIO – Cala a boca, Galvão! Muito chato!

MÃE – Já começou o jogo? Quem vai querer banana com sorvete?

TIA – Eu quero!

MÃE – Você é diabética, não pode. Vai comer só a banana.

TIA – Não tem sorvete diet?

MÃE – Dei pro cachorro.

TIO – Sabe qual o único sorvete permitido na África?

PRIMO – Qual?

TIO – Negresco!

PRIMO – Hahahahahaha!

ROBERTINHO – Muito ruim, tio.

TIO – E qual o ponto…

MÃE – Chega, Hermes. Piada de ponto, não! Senão eu quebro esse prato na tua cabeça e você vai tomar ponto no hospital.

ROBERTINHO – Vocês duas podem conversar lá fora?

TIA – Larga essa vuvuzela, peste!

TIO – A jabulani é muito ruim.

VÓ – Quem é jabulani?

ROBERTINHO – É a bola, vó.

PRIMA – Vai Kaká, vaiiiiii!!!!

TIA – Já experimentou entrar pro coral? Essa menina tem um agudo!

MÃE – É a lírica da família.

ROBERTINHO – Porra, ele não corre! O Kaká é muito lerdo. Puta que o pariu.

TIA – Eu gostava era do Bebeto. Um menino bom e não era evangélico. Sabe que a mulher do Kaká vai lançar um cd?

MÃE – Vou lá buscar o sorvete pra vocês, espera aí.

ROBERTINHO – A mãe acha que dá pra pausar o jogo!

TODOS RIEM.

ROBERTINHO (SACANA) – Gente, vâmo fingir que foi gol do Brasil? A mãe vai sair correndo da cozinha.

PRIMA – Vâmo!!!

TIA – Que sacanagem…

ROBERTINHO – Quando eu contar 3.

De repente, silêncio na sala.

ROBERTINHO – 1…2…3…

TODOS – GOOOOOOOOOOOOOL!!!!!!!!!!!!!

A mãe vem correndo da cozinha com o pano de prato na mão!

MÃE – Já foi gol?!!!

GARGALHADAS.

IRMÃ – Era mentira, mãe. O Robertinho inventou!

TIA – Que engraçado!

MÃE – Esse Robertinho! Tava tirando a banana caramelada do forno, ouvi o gol, a banana caiu no meu colo… olha só o meu vestido, todo manchado! (SAI)

Poucos segundos depois, como num milagre, numa pegadinha do destino, o Brasil faz um gol. De verdade.

FAMÍLIA – GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!

A mãe, com cara de ”dois raios não caem num mesmo lugar” , ignora solemente e vai buscar a calda de chocolate no armário.

FIM

DEDICADO A DOMINIQUE ARANTES, TIA GRAÇA E FELIPE HERZOG, MEUS ATORES-PERSONAGENS DA VIDA REAL.

Herói anônimo

- Toda a vez que eu vou ao banheiro, a seleção marca um gol!

Essa frase foi como um veredicto para Leopoldo. O Brasil não ganhava uma Copa há 24 anos. Esperanças renovadas, um grupo de amigos resolveu se reunir para assistir todos os jogos. Uma corrente pra frente que por motivo algum poderia ser quebrada. Após a primeira vitória, tudo deveria ficar no mesmo lugar, todos deveriam cumprir o mesmo ritual. As camisas não poderiam ser trocadas, sequer lavadas. Afinal, em time que está ganhando não se mexe. Tiago compra a cerveja e senta na poltrona listrada. Janete faz a pipoca e senta no lado direito do sofá e… Leopoldo fica no banheiro.

O intestino de Leopoldo sempre funcionou muito bem. Como um relógio. Daí a explicação para a sua pele boa e seu corpo esbelto, sem barriga. Seu problema era uma incontinência urinária crônica. Sempre foi um mijão. Fez xixi na cama até os 15 anos. Fato do qual se envergonhava e guardava segredo. Era de se esperar que durante o jogo, bebendo litros de cerveja e nervoso diante de momentos decisivos para a história da humanidade, Leopoldo fosse inúmeras vezes ao banheiro. Afinal, não era um simples jogo de futebol. Era um jogo de Copa do Mundo! Com 23 anos, Leopoldo nunca tinha visto o Brasil ser campeão. Foi assim que Leopoldo perdeu os dois gols do Brasil contra a Rússia no jogo de estréia da Copa do Mundo de 1994.

- Vocês estão loucos! Isto é um absurdo! Vocês não podem fazer isso comigo!

Foi muito difícil para os amigos tomarem uma decisão tão extrema. Mas era para o bem da nação. Uma decisão errada poderia colocar em risco a campanha da seleção e 150 milhões de pessoas poderiam sofrer desesperadamente. Jovens desiludidos poderiam se entregar às drogas, cardíacos poderiam sofrer enfartes fulminantes, prostitutas poderiam perder fregueses pela falta de apetite sexual diante de tamanha decepção… Uma derrota poderia até mesmo prejudicar a economia do país! Tiago argumentava fervorosamente:

- Pense no velhinho paulista que vai assistir a Copa pela última vez, no menino gaúcho que vai assistir pela primeira vez! Pense  no grupo de senhoras que passou a madrugada enfeitando uma rua no subúrbio carioca, pense na nossa música, nas nossas praias, na Amazônia, no Pão de Açúcar, no pão de queijo, pense no Nordeste, no nosso povo sofrido, Brasil!!!

Todo o plano foi meticulosamente articulado. O banheiro estava devidamente equipado com colchonete, travesseiro, cobertor, frigobar e tratamento acústico anti-ruídos. Tiveram até a perspicácia de fazer uma pequena passagem no sopé da porta por onde o torcedor prisioneiro poderia receber alimentos, remédios e produtos de limpeza. Depois, foi só esperar pacientemente a vitima ‘levar o cachorro no poste’ para então trancafiá-lo por amor a pátria.

- Me tirem daqui! Eu vou chamar a polícia!

Leopoldo passou quase um mês trancado no banheiro. E como era Copa do Mundo, ninguém sentiu a sua falta. É publico e notório que políticos e demais profissionais do crime aproveitam a distração pela Copa para cometer as maiores barbaridades. No começo Leopoldo protestou. Mas o Brasil foi vencendo, avançando na competição, e Leopoldo resignou-se. Mesmo sentindo-se muito só, Leopoldo humildemente se convenceu que sua árdua missão era um ato de heroísmo.

- Brasil! Campeão! Brasil! Campeão! Brasil! Campeão!

Não existe nada melhor que ser campeão do mundo. Aquela sensação de felicidade plena, de comunhão fraternal, de auto-estima turbinada! Tiago e Janete deram pulos de alegria e foram correndo abrir a porta do banheiro para, enfim, resgatar o amigo Leopoldo, o herói anônimo que tanto se sacrificara pelo título mundial. Mas ao abrirem a porta, encontraram Leopoldo desfalecido no chão frio do banheiro. Um forte cheiro de gás impregnava o ambiente. Leopoldo tinha morrido vítima de um estúpido vazamento de gás. Morreu sozinho. E o pior: sem ver o Brasil se tornar Campeão do Mundo. O que até hoje conforta amigos e parentes de Leopoldo é que ele não morreu em vão. 

Fim.

Horas esparsas de uma mulher só

CENA 1

Vera limpa com um pano alguns copos finos. Um copo cai e quebra.

VERA – Pelo menos me livrei dos dedos no copo. Quando uma coisa é impossível de resolver, é melhor quebrar… Assim é que é. (Som de fogos) Quem será que fez gol? Esses copos estão embaçados… Não adianta nem lavar… (Tempo. Quebra todos os copos de uma vez. Tempo. Fala muito dócil) Eu não fiz isso. Eu não faço essas coisas… Senão eu já teria arrancado meus pêlos à unha. Tenho tantos. (Pega uma garrafa de cinzano que estava escondida sob a mesa, serve-se e começa a beber) Não se pode ser tão impulsiva. Além do mais. Copa do Mundo não é todo ano… Por que ainda assistem se o Brasil já perdeu? Acho que a última copa que assisti com meu marido, o Júnior ainda jogava. E o Zico também. Roberto Dinamite já tava aposentado… acho. Eu era louca no Roberto Dinamite. Pelé já era patrimônio, obviamente… Me lembro do Dunga mais feliz. Tem um Dunga aí, né… acho que tem. Será que é o mesmo? Teve um que ficou devendo a umas meninas aí. No motel. Coitadas das meninas. Eram meninas mesmo? Acho que já assisti jogo em motel, se bem me lembro. Não entendo por que torcedor é tão fiel se nem os jogadores são com seus times. Jogam onde querem. Ou aonde podem. Nunca acreditei em jogo. Mas eu sei jogar. Brasil perdeu, hein, bem? Naquela copa, lembra amor, que a gente só comia de verdade mesmo aos domingos na casa da mamãe? Durante a semana as crianças se contentavam com qualquer coisa. Agora, meu bem, tá rico, né? ENTÃO VÊ SE TU PAGA ESSAS PUTAS DIREITO QUE EU NÃO QUERO VAGABUNDA GAÚCHA AQUI NA MINHA PORTA!

CENA 2

Toca o telefone. Luz em um rapaz. Luz em Vera limpando copos novamente. Um liquidificador está ligado o tempo inteiro nesta cena.

- Alôôôcadêseupaimorreusematou?

- Papai teve que fazer uma viagem urgente, mãe.

- Viagemqueviagem?

- Foi pra Porto Alegre. Assim ele disse.

- Oqueelefoifazerlá?!

- Ainda não sei. Ele disse que liga amanhã.

- Mas ele vinha assistir a final aqui! O Brasil já está jogando!

- Que Brasil, mamãe! Brasil já perdeu a Copa!!

- Ah, perdeu?…

- Perdeu! A senhora não viu?

- Não sabia! Não vi!

- Olha…

- Que é?

- Também tou ligando pra dizer que já tou assistindo o jogo aqui.

- Aqui onde?

- Aqui.

- Você não vem ver o jogo em casa?

- Se eu tou assistindo aqui é porque não vou assistir aí.

- Aqui onde?

- Aqui, mãe! Na casa do Marinho.

- Tápensandoqueeusouburra, é!

- Não!

- Vocês, hein, vou te contar. Me dá o telefone de onde seu pai está.

- Não sei onde ele está.

- Tenho certeza que ele tá na tia Carmem! Dessa vez eu arranco os bagos dele!

- Que tal Carmen?

- Tia Carmen! Tia Carmen! Não sabe onde é a Tia Carmen!?

- Não.

- Esses dedos nunca saem desse copo, meu deus…

- Que? Onde é essa Carmen!

- PUTEIRO, garoto! PUTEIRO! Todo mundo assiste jogo de futebol lá!!

- Ah, mamãe… a senhora sempre viajando… hein… para com isso!

- No verão eu vou pro Sul! (Quebra o copo) Ah!

- Que houve aí?

- Quebrei o copo… Que bom! Assim me livro desses dedos de uma vez.

- Cuidadopranãosecortargoooooooooooooooool!Goooooooooooooooooooooooooooooooooolllllllll! Vou desligar, mãe! Tchau!

CENA 3

Som de telefone ocupado.

VERA – (Olhando o buço com um espelhinho) Alguma coisa pra inibir o crescimento dos meus pêlos, era só o que eu precisava agora… Antes que amanheça… Esse copo está cheio de dedos. Os dedos não saem dos copos…

Ouve-se o Hino de um país qualquer. Ela Tenta ver alguma coisa na TV – que é a platéia. O que vê parece não ter importância.

VERA – O estádio está cheio… Que onipresença.

CENA 4

Toca o telefone. Vera bate na carne com vontade enquanto fala ao telefone.

VERA – Anlônn. Não tá assistindo o jogo, não, Clarice? Não, não tenho mel aqui. (Olha a garrafa de cinzano) Tenho outra coisa…! Meu marido? Não. Não tenho marido nenhum aqui. Não tem homem nenhum aqui. Toda copa é assim. Tou no olho do furacão! Tem lingüiça aí, Clarice? Ah, me arranja uma? (Pausa) Pode ser uma calabreza. Pra eu fritar. Adoro. Como? Eu tou bem. Tou bem, sim. Eu? Bebendo? Eu não bebo mais. Há anos que não bebo. Você sabe que eu parei de beber, Clarice. Você sabe da minha vida, Clarice… você sabe. (Para si) Amanhã eu acordo em pânico, puta merda… Me traz a lingüiça, Clarice…Só uma linguicinha, meu amor…

Som de fogos.

VERA – É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLL!!!!!!!! GOLLLLLLLLLLLL! Gol de quem? Gol de quem, Clarice? Tá, amor. A gente nunca sabe quem faz o gol. Te espero aqui. Beijo. (Desliga. Som de Telefone ocupado. B.O.)

FIM.

Jogo de cama

Cena 1 – Quarto. Casal na cama. Marco Antonio todo animado beija e faz carinhos em Sandra que não consegue desgrudar os olhos da TV.

Sandra: Que passe! Que passe! Viu a finta que ele deu no zagueiro?

Marco Antonio: Finta? Que Finta, benzinho?

Sandra: Não viu, Marco Antonio?

Marco Antonio: Eu só vejo você, coisa mais gostosa…

Sandra: Que drible. Mó jogo de cintura…

Marco Antonio: Que cintura. Cinturinha…

Sandra: Ah, não!!! Ô, Banderinha filho da mãe!!! Não tava impedido coisa nenhuma! Bandeirinha ladrão!!! Você acha que ele estava impedido, Marco Antonio?

Marco Antonio: Amor, pra mim não tem impedimento nunca. Tô sempre na área….

Sandra: Justamente. O camisa 9 já estava na pequena área quando foi feito o lançamento. Posição legal.

Marco Antonio: É o melhor lugar: a pequena área. Melhor posição impossível…

Sandra: Ai, Marco Antonio, não gosto quando você baba na minha orelha.

Marco Antônio:  Jogo duro!

Sandra: Duríssimo! Tá lá e cá.

Marco Antonio: Mó zero a zero.

Sandra: Tem que marcar a saída de bola no campo do adversário.

Marco Antonio: Marcação cerrada. Sou dessa tática.

Sandra: Vai, vai, passa a bola. Passa! Isso! Que lançamento! Vai, vai! Chuta! Chuta, caceta!

Marco Antonio: Tô doido pra ir pra marca do penalty…

Sandra: Pênalty! Foi Pênalty! Penalty claro. O Jorginho foi derrubado e o juiz não deu!  Você não viu, Marco Antonio? Juiz ladrão, filho da mãe!

Marco Antonio: Acho que eu vou te derrubar agora mesmo…

Sandra: O que é isso, Marco Antonio? Tá maluco? Ma larga! Me larga… (ele beija Sandra com volúpia, ela vai cedendo e quase sem forças pede) Sai da frente da TV, eu quero ver esse contra ataque.

Marco Antonio: Eu acho que eu vou ganhar essa partida.

Sandra: Só se for na prorrogação…

Marco Antonio: Não importa, eu sou paciente.

Sandra: É a qualidade dos grandes artilheiros… Mas eu te aviso: Minha defesa é a menos vazada.

Marco Antonio: Quer apostar quanto que eu vou marcar um gol?

Sandra: O Futebol é imprevisível, uma caixinha de surpresas.

Sandra e Marco Antonio se agarram. Na TV o comentarista esportivo narra o jogo.

Comentarista esportivo: Jorginho faz o passe para Wellington, Wellington abre na lateral esquerda e faz cruzamento para Diguinho, boa jogada de Diguinho, olha o Jorginho, chegando, tabela com Diguinho, vai bater, vai bater… e é Gooooool! Gooool! Gooool do Brasil!!!!!!!

O canto da coruja

Barcelona, dias atrás, prorrogação…

que isto?

ãnh…

seu juíz, o que é isso???

quuue…?

olha o que eu achei…!

shhh!!!

são dentes…!

aff…

dentes pretos!

rrrr…

enegrecidos por cigarros e café!

pffff….

esquece o jogo e olha pra mim!

p….q..p……

são dentes!!! dentes!!!

onde achou esse lixo?

no canto da coruja.

não pode ser! escanteio?

não! ali! ALI!

impedimento?

só pode ser do tempo do Franco!

e quer o quê? cariou, caiu…

não percebe? tem um corpo em campo!

holandês?

chamem a rainha Sofia!

opA!!! É

GGGOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

que que cê tava falando mesmo?

sei lá. me abraça!