A metade da laranja
UMA DONA DE CASA NO CENÁRIO DE COZINHA INSPIRADO NOS ANOS 50. A MULHER, CASADA E INFELIZ, É ESCRAVA DO FOGÃO E DOS DESEJOS DE VIVER UM AMOR ARDENTE. COMPLETAMENTE SOZINHA, INTERAGE COM O PÚBLICO IMAGINÁRIO DE SEU PROGRAMA DE TV, TAMBÉM IMAGINÁRIO.
LUCY – Boa tarde, amiga dona de casa. Hoje é um dia especial. A receita que eu vou ensinar pra vocês é uma deliciosa geleia de laranja.
ELA TIRA DEBAIXO DA MESA UM PESADO SACO DE LARANJAS E ENQUANTO AS DESCASCA, CANTAROLA UMA CANÇÃO BEM ROMÂNTICA DE FÁBIO JUNIOR. ELA TEM UM POSTER DO CANTOR COLADO NA TAMPA DO FOGÃO.
LUCY – (SEGURANDO UMA LARANJA. DIDÁTICA) O amor é o encontro de duas almas. Quando Deus criou o homem, dele também foi feita a mulher. (PARTE A LARANJA AO MEIO) Amiga companheira, que todas as manhãs acompanha o meu programa, para esta receita nós vamos usar 15 laranjas cortadas em pedaços pequenos. (VAI CORTANDO AS LARANJAS) Não precisa descascar, ouviram? Você, amiga dona de casa, que teve a sorte de encontrar a sua metade da laranja e agora passa os dias enfiada dentro dessa cozinha, fazendo comida esperando o seu marido chegar, ou você amiga que ainda não encontrou o seu companheiro e está se sentindo como aquela metade da laranja chupada lançada impiedosa dentro de uma lixeira… essa receita é pra você, que precisa encarar a vida com mais doçura. (COLOCA UM SACO DE AÇÚCAR SOBRE A MESA) Para esta receita, você vai precisar de quatro xícaras de açúcar bem cheias. “Mas Lucy, açúcar engorda. Tá muito caro. Posso usar adoçante?” Não, não pode. O amor, quando é verdadeiro, engorda. (OLHA PARA A CÂMERA IMAGINÁRIA) A paixão não combina com gente magra. Se você não tiver açúcar, não faça uma geleia. Prefira uma laranjada! (RASPANDO A CASCA DE UMA LARANJA) Nós vamos usar também a casca de três laranjas-pera raladas bem fininhas. Mas é só a raspinha, de leve, pra não azedar o doce. (CANTAROLA ENQUANTO RASPA. DEPOIS, PEGA UM LIMÃO E CORTA-LHE AO MEIO) Por fim, uma tacinha de suco de limão. (FALA RÁPIDO) Numa panela, coloque todos os ingredientes. Cozinhe, mexendo de vez em quando, até dar ponto de geleia. Para testar, coloque um pires vazio no freezer por alguns minutos. Retire um pouco da geleia e derrame no pires gelado. Leve novamente ao freezer por dois minutos. Ao inclinar o pires, a geleia não deverá escorrer. Deixe amornar e transfira para potes de vidros esterilizados e tampe bem. (QUANDO TERMINA DE DAR A RECEITA, ESTÁ SEM FÔLEGO) Entenderam? Quando você abrir o pote, pimba. O amor vem. (T) Pausa para os comerciais, que vou deixar o meu câmera, Sindoval, provar um pouquinho do meu doce.
SINDOVAL: É O CÂMERA MAN GOSTOSO. PINTA DE CAFAJESTE E SAFADO, ENTRA NA COZINHA DE LUCY PARA PROVAR A GELEIA.
LUCY – Fique aí, Sindoval. Quem deixou você entrar? Não me tenta!
SINDOVAL É MAL-EDUCADO E GROSSEIRO. ENQUANTO ELE TIRA A CAMISA, LUCY PERDE O FÔLEGO. UMA MÚSICA QUE REFORCE O CLIMA DE LOUCURA. TODA A PRÓXIMA SEQUÊNCIA É MINIMAMENTE COREOGRAFADA.
LUCY – Não dê mais um passo! Eu sou casada, eu já encontrei a minha cara metade.
SUGESTÃO: IMAGINE O GOSTOSÃO DO SINDOVAL PEGANDO LUCY DE JEITO AO SOM DE REHAB.
SINDOVAL APROXIMA-SE, PEGA LUCY DE JEITO POR TRÁS E A AGARRA NA PAREDE. DÁ-LHE UM BEIJO DE TIRAR O FÔLEGO E ELA SE ENTREGA DEIXANDO A COLHER DE PAU CAIR DENTRO DA PIA. PEGA NA COXA DA MULHER, PASSANDO A MÃO POR DEBAIXO DO AVENTAL ENQUANTO BEIJA A SUA NUCA. PUXA LUCY PELOS BRAÇOS, JOGA TODAS AS LARANJAS NO CHÃO E DEITA A MULHER NA MESA – NEM MUITO GRANDE, NEM MUITO PEQUENA – COM AQUELE DESCONFORTO IDEAL PARA O SEXO.
TIRA A CALÇA DE FORMA SENSUAL, DANÇANDO REHAB. PEGA UMAS LARANJAS E ESPREME SOBRE O CORPO DE LUCY. DEPOIS, COM UMA LINGUA QUE SÓ O DIABO CONHECE, DESCE LENTAMENTE DO CANTO DIREITO DOS LÁBIOS DELA, PASSANDO PELO PESCOÇO, DESCENDO ATÉ O BIQUINHO DE SEU SEIO, CHEGANDO ATÉ O UMBIGO, VIRILHA E COXA, PASSANDO PELA BATATA DA PERNA ATÉ, POR FIM, CHEGAR AOS PÉS DA MULHER. TIRA OS SAPATOS DE LUCY, SEGURA AS SUAS PERNAS COM FORÇA, COLOCA SOBRE SEUS OMBROS E DEIXA LUCY DE PERNAS PRO AR, LITERALMENTE. ELA SÓ RESPONDE COM GEMIDOS DE MAIS PURO E INDESCRITÍVEL PRAZER. A PANELA ESTÁ NO FOGO, A TORNEIRA DA PIA ABERTA. E SINDOVAL METE GOSTOSO, COM CARINHO E BRUTALIDADE, MEIO LIMÃO, MEIO LARANJA, ENQUANTO LUCY SEGURA NAS BORDAS DA MESA E AINDA TEM TEMPO DE ESPIAR, DE LONGE, QUASE COMO UM PISCAR DE OLHOS DE CUMPLICIDADE, O POSTER DE FÁBIO JUNIOR. É A GOZADA MAIS RÁPIDA E INTENSA DA HISTÓRIA. ELA DÁ UM BERRO, PERDE AS FORÇAS E APENAS RELAXA.
SINDOVAL DESAPARECE.
LUCY LEVANTA, DESCABELADA, AINDA SEM SABER DIREITO AONDE ESTÁ, OLHA PARA A CÂMERA, SORRI E DIZ: Voltamos amanhã. Para outra receita. Acorda, menina!
ps. e convido a todos a acompanharem a estreia de “Edificio 256″ amanhã!
Gilda
Este é um trecho do monólogo “Os Últimos Dias de Gilda” .
Gilda é uma criadora de porcos e galinhas e, na peça, está em sua cozinha vestida com seu avental sujo de sangue acuada pela perseguição de Cacilda e das outras mulheres da vizinhança. Todas querem a cabeça de Gilda por ela receber todos os homens da rua em sua casa e cozinhar pra eles.
Gilda: O que acontece é que não posso sair na rua. As mulheres da vila tão tudo me esperando com as mangas arregaçadas. Inda bem que mandei o Toninho passar uns dias com a vó. Senão ia ficar aqui vendo a mãe dele ser maltratada, estropiada. Tou numa solidão que só eu sei. Essas mulheres troncheiras, de apetite ferino, castradas até na alma. Eu crio porcos e elas que criam seus homens como se fossem porcos. Eu não era pra estar aqui nesse lugar, no meio dessa gente ingrata e sem futuro, eu era pra ser artista de cinema, vestir vestido longo vermelho e usar piteira de âmbar. Mas tou é sentindo a mesma coisa que senti quando ouvi no rádio que os Estados Unidos ia invadir o Iraque, que ia ter morte sangrenta, que ia morrer todo mundo, e eu que tenho a impressão que vou morrer nessa guerra aqui da minha vila, no meio das minhas galinhas e dos meus porcos que não fazem nada nem por mim, nem por eles, a não ser morrer pra eu ter uns trocados. Essas mulheres pensam que é coisa do diabo andar com sangue de galinha correndo no dia a dia, eu devo ser é alguém que satisfaz o interesse humano por sangue e morte, já que esses filmes americanos não estão mais satisfazendo os sanguinários, então está tudo virando realidade, e cada um sendo a vítima de si mesmo, e eu fico exasperada com realidade sangrenta porque eu gosto muito de amor e de beijo na mão. Sou delicada e enciumada. Mas ando com medo de vento, ando com medo de tempestade, minha alma teme até sombra de avião, barulho de eletrodoméstico em curto circuito. A vila toda anda com medo porque os carros da polícia não param de rondar o pé do morro. Eu tou é preocupada com o Wallace. É, o Wallace. O Wallace é o policial que não sai daqui da esquina. Não sei o que dá em alguém pra querer ser policial. Wallace vem aqui, ou melhor, ele vem ali em frente visitar a Jandira. Jandira depois que recebeu a herança do pai dela, mandou o marido embora e ficou sozinha tendo vida independente, assim tipo fina, não fala com qualquer um, não, não olha pra homem nenhum, não, a não ser pro o Wallace que vai de farda todo dia na casa dela. Ele veio aqui também. Gostou de mim. Disse que eu sou flor que se cheire. A Jandira também ele cheira, mas eu sou flor que se cheire inteira, que nenhuma mulher aqui tem meu cheiro. Eu deixei ele me cheirar, vou fazer o quê. Agora ele vai na Jandira e vem aqui também. Eu admiro muito a Jandira, u’a mulher de fibra a Jandira, não é igual a essas sovinas de marido, achando que família formada e instituída traz felicidade e segurança, se outra guerra explode, explode o mundo e voa família, voa homem, voa tudo. Todas elas pensam que eu sou mulher de roubar os homens dela. Estão tudo mais que enganadas. Não quero homem pra deitar no meu sofá e coçar o saco ou roncar no meu ouvido a tarde toda. Tá tudo muito errado. A vida tá muito truculenta, desinteressante, muita miséria, muita mediocridade, eu sou medíocre também, eu sei, quem não é, mas não tenho a alma medíocre, faço tudo o que eu bem quero e o que bem não quero. Por exemplo, tem dias que como muito, tem dias que não como nada. Tem dias que o Inácio come a tarde toda comigo, tem dias que é o Ismael. O Alvinho não aceita nada. Mas não é cerimônia do Alvinho, não. É dele mesmo essa coisa de não aceitar. O Wallace é comilão por natureza, aceita tudo, e até o que nem é pra aceitar ele aceita. Outro dia fiz receita nova, fiz carne assada com recheio de abacaxi. Meus porcos eu não como. De jeito nenhum, carne aqui é carne de boi ou de galinha. As minhas galinhas eu como, porque eu não tenho pena delas. Galinha é bicho esquisito, parece que não pensa, vive em devaneio, por isso eu como todas que eu posso, galinha é mesmo feita pra ser comida, assim, como vítimas da humanidade.
(Barulho de galinhas alvoroçadas, porcos gritando, roncando e tudo mais. Todas as vezes que os animais fazem barulho, Gilda grita com as vizinhas)
Gilda: Que qui é?! Que qui vocês querem de mim se eu nem sei o que eu quero de mim, inda bem, inda bem, ainda bem que tou viva!!!! Vivíssima!!! E só eu sei como tou viva! Que qui é, hein, Cacilda?! Tá exasperada à toa. Pega teu marido e corta em dois assim ó como ameaçou Salomão a fazer com a criança, já qui tu pensa que é a dona dele. Cacilda é daquelas que esconde dinheiro, o Ismael me falou. É daquelas mulheres que roubam muito dinheiro do marido e guardam pra fazer não sei o quê. Cacilda tem nojo e asco, por exemplo, daquela gente que fica logo ali no lixão no meio dos urubus catando o que dá pra catar. Queria é dar uma galinha e um porco pra cada um desse pessoal, mas eu não sou Jesus Cristo, e não vou resolver a miséria do coração de ninguém. Meu pai falava que miséria é problema do governo, mas não é só do governo, não. Miséria é coisa antiga como o mundo, disso eu sei. A gente já nasce devendo e pecando, mesmo se tiver muito o que comer. E eu que sempre como com culpa quando vejo descer do morro aqueles meninos magros, mortos de fome, com barriga inchada de verme, aquelas crianças feias e quase mortas, criaturinhas na tentativa de ser da família e ganhar diploma de ser humano. É melhor eu ficar em contenda aqui comigo mesmo a sair falando por aí o que não deve. Eu tou é amarga, revoltada. Mal amada eu não sou, não, porque homem não me falta, sou chamada de puta, sirigaita, saracura, mas tou com meu coração aberto pra quem quer que queira beijar o meu coração. Às vezes penso que num sou desse mundo, queria arrumar minhas trouxas e ir embora definitivamente lá pras bandas da mamãe no meio do mato. Agora com essa história de guerra toda hora, guerra de vizinha, guerra na cidade, guerra que pára, guerra que começa, não sei nem pra onde é que se pode ir. Tou falando mesmo é dessa guerra aqui, da minha vila e da minha cidade. (P/ as vizinhas) E essas troncheiras tão pensando que eu tenho medo delas, que por isso não saio de casa, elas que tão todas doidas pra ver sangue rolar e me pegar pra culpada das suas angústias. Mas elas pra mim não são nada demais, porque eu vou sair quando eu tiver uma solução pra acabar com tanta miséria e sofrimento no mundo, (ai, daqui há um tanto eu vou ser crucificada qui nem Jesus por falar desse jeito), me chamam de louca, descontrolada, desequilibrada, mas cá estou esperando. Esperando todo dia novidade de paz, de sossego, tenho tanta palavra na cabeça que me irrito, se eu fosse escrever um livro ia ser escritora mal humorada. Mas o que me dá alegria é cozinhar pros outros, meu filho come muito bem. Alegria de mãe é ver filho comer bem sem reclamar, ou não é? Toninho quando era pequeno tinha muita ânsia de vômito quando colocava qualquer coisa na boca, eu não sabia o que era o que ele sentia. Eu falava: tá comendo muita porcaria por aí, tão te dando muita porcaria, num sei onde tu vai parar, e ele vomitava todo o almoço. Mas eu fazia tudo de novo. Quando ele era mais meninote então, eu corria atrás dele de prato e colher na mão, se ele ia pro banheiro eu ia atrás e dava comida no banheiro mesmo e ele comia, Toninho nunca ficou sem uma refeição. Aprendi assim com minha mãe que valorizava muito estômago e cabeça da gente. Os moleques filhos dessas donas aqui da vila, não comem direito e não pensam direito. Quando eles vêm me visitar dou sempre um jeito de dar um pedaço de qualquer coisa, dou uma maçã ou uma banana, passo patê no pão. Patê sou eu que faço. Patê de fígado de porco. Tiro a gordurada toda, não tenho atração por gordura. Já Inácio prefere a gordura da carne sem a carne. Alvinho gosta de bife grelhado com umas folhas de agrião. Ismael, a Cacilda nem sabe, uma idiota a Cacilda, Ismael gosta de boi moído na brasa. Diz ele que a Cacilda nunca fez um boi moído na brasa pra ele. Fico besta como homem come. No começo eu ficava pasma, agora me acostumei. Tenho até atração por homem que come muito. Eles vêm aqui, me ajudam com os porcos e com as galinhas e eu dou de comer. E eles comem. (Grita com Cacilda. Som de galinhas, cachorros e roncos de porcos) Que qui é, hein, Cacilda?! Tu vai ficar podre, vai pra debaixo da terra ser comida pelos vermes, tu não sabia, não? Ihhhh, tou com u’a pena de você, Cacilda! Não fala assim comigo, não fala assim comigo, não fala assim comigo pode parando, não fala assim comigo me deixa em paz… (Gilda não para de falar. A música vai cobrindo o texto junto com o barulho dos bichos. Luz vai baixando até o B.O.)
Açaí e Dedos
Cena da peça “Açaí e Dedos” - Laura e Junior na cozinha. Ela cozinhando, ele com uma máquina fotográfica.
Laura: Pára, Junior. Pára, não gosto de tirar foto assim.
Junior: Só um sorriso, mãe. Pra câmera. Vai, um sorriso.
Laura: Toda despenteada, sem batom e com cheiro de cebola? Não vale.
Junior: Essa máquina é boa, mas nem tanto, não vai pegar o cheiro de cebola, mãe.
Laura: Tanta coisa melhor pra fotografar. Deixa eu fazer o almoço em paz. Quero fazer uma coisa especial.
Junior: É o aniversário de alguém?
Laura: Tô cansada de comer essas comidinhas que eu faço. Sempre a mesma coisa, cansa. É bom mudar. Sabe que eu nunca comi comida japonesa? Nem chinesa, nem tailandesa… Tinha vontade de provar comida mexicana. Dizem que é apimentada.
Junior: Você gosta de uma pimentinha, não é, mãe? Pede pro pai te levar num restaurante.
Laura: Não dão! Não dão receita dessas comidas nesses programas! Já escrevi pra lá e tudo, não adianta, eu acho que é monopólio. A máfia dos chefs de cozinha que não deixa ensinar as receitas pra gente na televisão, para não ter concorrência.
Junior: Conheço um restaurante indiano que você vai gostar.
Laura: Eu gosto de comida baiana. Acarajé, abará, vatapá, essas comidinhas mais leves!
Junior: Faz logo uma carne moída. Almôndegas. Adoro.
Laura: Queria uma coisa diferente.
Junior: De quem é o aniversário, fala?
Laura: Não diz ao seu pai que eu contei. Ele mesmo quer mostrar. Fazer surpresa.
Junior: Que mistério.
Laura: (ela pega o jornal e mostra a Junior) Fizeram uma reportagem com ele. Umas duas páginas no Jornalzinho do colégio. Professor mais antigo de língua portuguesa. Não é qualquer um que tem duas páginas, com foto e tudo. Olha. Tirei Xerox, mandei ampliar e plastificar. Não ficou uma beleza?
Junior: Agora o livro do pai sai.
Laura: Ficou muito bem nessa foto, não acha?
Junior: Tá um pouco fora de foco ou é impressão minha?
Laura: Seu pai tem fotogenia.
Junior: Pede pro papai te levar nesse restaurante indiano.
Laura: Sabe o que eu não gosto em restaurante, Junior? Tem sempre aqueles casais mudos que ficam um em frente ao outro, sem dizer uma palavra, já reparou? Passam a noite inteira olhando pro lado, pro teto, mexendo no guardanapo, quebrando palito de dente. A gente só escuta o barulho dos talheres ou então quando um deles não aguenta mais e diz: “a conta, por favor”. (ela ri) Chega a ser engraçado.
Estela
Trecho de “AMORES DE SABRINA”.
Os três primeiros comentários com a palavra “calabresa” ganham convites para essa última semana da peça no Teatro Sérgio Porto, Humaitá, RJ.
Estela, lendo, sentada num sofá…
ESTELA- Ainda sob o efeito das drogas colocadas por seu verdadeiro noivo no champanhe, Marília corria para o desfiladeiro sem consciência nenhuma do perigo que a espreitava, e sem saber que sua única chance de salvação residia naquele rapaz de pernas másculas e bem delineadas que corria veloz atrás dela. Rodolfo, o homem mais gentil e atraente que ela conhecera em toda a sua vida… (Ela olha pro nada… perdida em seus sonhos… Gláuber chega por trás muito mal humorado.)
GLÁUBER- Inferno!!!
ESTELA (Se assusta.)- Ahhh!!!
GLÁUBER- O que foi?
ESTELA- Foi susto. (Disfarçadamente tenta esconder o livro.)
GLÁUBER- Que é isso que você tá lendo aí?
ESTELA- Er… Receitas….
GLÁUBER- Receitas. Sei.
ESTELA- Aconteceu alguma coisa?
GLÁUBER- Um inferno! Inferno! Mas já passa.
ESTELA- Alguma coisa no trabalho?
GLÁUBER (Quase estourando.)- Aquele puto do Dr. Carlos!!!
ESTELA- Mas não fala palavrão. Se acalma um pouco.
GLÁUBER- Ah! Não enche meu saco, Estela! Me deixa!
ESTELA- Tem alguma coisa que eu possa fazer…?
GLÁUBER- Fica quieta. Cala essa matraca que ajuda bastante. Só preciso de um pouco de silêncio.
(Pausa.)
ESTELA- Grosseiro.
GLÁUBER- Que tá gemendo aí?
(Pausa.)
ESTELA- Grosseiro. É o que você é.
GLÁUBER- Sei. Quero é novidade. (Pausa…) Pronto. Passou. Chega. Não vou pensar mais nisso. Que que tem aí pra comer?
ESTELA- Grosso.
GLÁUBER- E pra comer, o que que tem?
ESTELA- Vai pegar você.
GLÁUBER- Depende. É o quê?
ESTELA- Sopa de legumes.
GLÁUBER- Mas nem pensar! Vou pedir pizza!!!
ESTELA- Glauber!!!
GLÁUBER- Se ainda fosse rã! Mas sopa!
ESTELA- É pro teu coração! Você sabe! O doutor…
GLÁUBER- Calabresa! Calabresa! Calabresa!
ESTELA- Gláuber! Não! Para com isso!
GLÁUBER- E fica lendo receita o dia inteiro aí… (Pega o livro das mãos de Estela antes que ela possa reagir.)
ESTELA- Me devolve!!!
GLÁUBER- …e me vem com sopa de legumes! Francamente! Não tem nada melhorzinho nesse teu livro? (Olha dentro do livro. Pasmo.) Mas isso aqui não é receita.
ESTELA- Me devolve isso agora!!!
GLÁUBER- Espera um pouco…
ESTELA- É meu! Você não tem o direito!!!
GLÁUBER (Lendo atento.)- Então Rodolfo beijou suavemente sua nuca criando na pele de Marília um leque de sensações de calor e carinho, de desejo e de afago. Este caos de emoções fez todo seu corpo de mulher estremecer, pedindo pelo de Rodolfo colado ao seu.
ESTELA- (Muito encabulada.) Me dá!!!
GLÁUBER- Isso é receita pra quê? Pra sacanagem?
ESTELA- Devolve! Seu grosso!!! Grosso!!!
GLÁUBER (Pegando no pulso dela.)- Sou grosso, né? Mas tu bem que gosta. Safadinha!
ESTELA- Larga!!!
GLÁUBER- Toma aqui o teu livrinho pornô. Te dou, não precisa brigar. Mas vêm aqui que eu te mostro. Vêm pra eu te dar um beijinho no cangote. Te mostro que eu sou bem melhor do que esse tal Rodolfo… (Tenta acariciá-la.)
ESTELA- Me larga, seu MERDA!!!
GLÁUBER (Larga Estela assustado.)- Que é isso? Agora xinga? Aprendeu a xingar com o teu livrinho?
ESTELA (Transtornada.)- Eu tenho tanta pena de você… mais do que de mim mesma.
GLÁUBER- Antes não falava nem pum que era feio! Agora manda um belo e sonoro “merda”.
ESTELA- Nunca vai entender nada. Ignorante! Pra mim chega! Chega!!! Eu quero mais é que você afunde na tua burrice e no sebo das tuas pizzas. (Pega uma bolsa.)
GLÁUBER- Onde você vai?
ESTELA- Vou embora!!! Vou embora!!! E não tente me impedir!!! Você cuida das crianças viu. Ah! E fica com esse aqui de presente! (Atira o livro em Gláuber.) Quem sabe não aprende a beijar uma nuca direito. Seu escroto!
GLÁUBER- Estela! Você não pode abandonar as crianças! Não pode me deixar aqui! Estela!
ESTELA (Profética.)- Escuta só uma vez! Cansei de ser mulher! Deserto o meu lar e o meu passado enfadonho. Agora eu sou uma heroína! E o senhor é bom cuidar bem das crianças como eu fiz esses anos todos, se não eu volto e te arrebento! Adeus. (Sai. Pausa… Glauber olha no relógio despreocupado.)
GLÁUBER- Ridícula… não dou dois minutos pra voltar.
Ou ela, ou eu!
BIA – To louca para morar com você na nossa nova casa.
DECO – Vou te dar tudo o que você quiser, meu amor.
BIA- Um quarto bem confortável…
DECO- Para nos amarmos com espaço.
BIA- Um banheiro com hidromassagem…..
DECO- Para relaxarmos a dois.
BIA – Uma sala aconchegante…
DECO – Para recebermos nossos melhores amigos.
BIA – Um escritório clean…
DECO – Para trabalharmos em harmonia.
BIA – E assim seremos muito felizes!
(DECO ri)
BIA – (rindo) Gostou, né?
DECO – Como você é engraçada!
BIA- Por quê?
DECO – Faltou a cozinha, onde vamos fazer os nossos jantarzinhos…
BIA – Pode parar! Nem pensar!
DECO – Nem pensar o quê?
BIA – Minha casa não terá cozinha.
DECO – Oi?
BIA – Minha casa não terá cozinha.
DECO – NOSSA casa não terá cozinha? (Tempo – começa a rir) Meu amor, você tem tanto senso de humor.
BIA- Estou falando sério, não quero cozinha e pronto.
DECO – Como isso pode ser sério? Uma casa sem cozinha é como uma praia sem o mar.
BIA – Uma casa sem cozinha é a árvore do paraíso sem a maçã do pecado.
DECO – BIA, da onde você tirou essa ideia?
BIA – De todos os lugares. Meu amor, eu sou uma mulher moderna, antenada, pra frente e magra! Eu não quero virar uma dessas mulheres que casam, engordam e passam horas na cozinha comendo ao mesmo tempo que veem Ana Maria Braga! Não, não!
DECO – É? E como EU vou me alimentar?
BIA – A gente não precisa comer dentro de casa, gastar dinheiro com louças, panelas, que horror! A gente come fora, meu amor.
DECO – E vamos à falência?
BIA – Deixa de ser egoísta!
DECO – Eu? Você quer tirar a melhor parte da casa e eu sou o egoísta.
BIA – Tá vendo? Tá vendo? Te peguei! Te peguei! “Melhor parte da casa”. Tá vendo? Eu sabia. Eu não vou permitir isso. Eu já to vendo tudo: eu, dormindo, enquanto você ataca a geladeira, ou, no meu aniversário, meus convidados todos conversando na cozinha, que horror! Não, não, não! Eu não permitirei isso. Pra quê? Quem disse que uma casa precisa ter cozinha? Quem disse? Eu não quero.
DECO – Bia, isso o que você tá falando não tem cabimento!
BIA – O que não tem cabimento é eu ser trocada por uma cozinha.
DECO – Quem tá falando em troca aqui?
BIA – Pensa que eu não sei? A cozinha é o que estraga um casamento. Eu vejo nos jornais, os casais brigam na cozinha e acabam até se matando com a facão da carne. E os presentes? Daqui a pouco você vai começar a me dar um liquidificador, uma batedeiras. Tudo para colocar aonde? Na cozinha! Não, a gente pode evitar isso, meu amor. Não vamos deixar que esse ambiente aprisionador acabe com o nosso amor.
DECO – Bia, para de ler essas revistas femininas imediatamente!
BIA – Ou você fica com a cozinha ou você fica comigo!
DECO – Oi?
BIA – É isso mesmo que você ouviu: ou ela, ou eu!
DECO – (tempo) Eu nunca pensei que um dia eu teria que fazer uma escolha dessas.
BIA – Eu nunca pensei que um dia eu precisaria te fazer escolher uma coisas dessas. (chora)
DECO – Não, meu amor, não chora! Você tem que tentar me entender…
BIA – E eu? E eu ? Por que você não tenta me entender?
DECO – É que é uma coisa muito inusitada…
BIA – Inusitada? O que é tão inusitado? A gente só tá optando por não ter um parte da casa…
DECO – Uma parte importante…
BIA – Importante só pra você! (chora desesperadamente)
DECO (indo consolá-la) – Calma, calma, calma, meu amor. Olha, tá tudo bem. Tudo bem. Eu abro mão da cozinha.
BIA (para de chorar) – Jura?!
DECO- Juro. Vai ser difícil, mas eu eu vou tentar me acostumar.
BIA (o abraça) – Ai, meu amor, meu amorzinho lindo, eu sabia que você ia entender. Eu te amo, te amo muito!
DECO (conformado) – Que bom… o importante é a gente ficar juntos.
BIA – Isso. O importante é a gente ficar juntos. ( o beija)
(tempo)
DECO- Biazinha?
BIA- Oi, meu coração.
DECO- Podemos pelo menos ter um frigobar?
FIM





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