O bidê e a insônia

Um homem numa sessão de análise.

Homem: Eu não consigo dormir. Eu não consigo dormir mais. E a culpa é dos fabricantes de bidê. Eu não consigo mais dormir e a culpa é dos fabricantes de bidê. Eu tenho passado noites em claro pensando no bidê. Tenho prazer. Eu me regozijo, por exemplo toda vez que eu entro no banheiro e vejo o bidê. Você entende o bidê? Ele tem exatamente a mesma forma do vaso sanitário. As as pessoas sentam, lá, como sentam no vaso sanitário. Ele inclusive fica quase sempre ao lado do vaso sanitário. Então porque o bidê não tem um assento como o do vaso sanitário? Aquele que os homens levantam na privada para fazer xixi, sabe? Porque é que nenhum fabricante meteu um assento daqueles em cima do bidê? Não tem explicação. Mas a culpa é do fabricantes. A culpa é dos fabricantes! A não ser que os fabricantes de bidê são uns sádicos desgraçados e adoram ver o desespero do usuário ao sentir a região interna das coxas em contato com aquela porcelana gelada! Mas essa explicação seria fácil demais. Eu encontrei uma explicação muito mais lógica. Os fabricantes de bidê são os mesmos fabricantes do chuveirinho. Eu pesquisei. Acompanha meu raciocínio: O lucro por peça fabricada de bidê é de 17,8%. Eu pesquisei. Já o lucro por cada chuveirinho que é vendido ao sair da fábrica é de 21,4. Eu também pesquisei. Eu sei que pode não parecer muito. Mas levando em conta que 8% da população mundial que usa papel higiênico preferem complementar a higiene pós-fecal com água, sai muito mais em conta para os fabricantes que as pessoas deixem de usar bidê e passem a usar chuveirinhos. Por isso eu fui ignorado pelas 143 empresas fabricantes de bidês para as quais eu mandei carta sugerindo o uso de assento nos bidês. Porque eles querem forçar o mundo a parar de comprar bidês. É um complô contra os bidês. Um complô que tá me tirando o sono. Eu não consigo mais dormir. E a culpa é dos fabricantes de bidê.

Por todas as coisas

Bárbara: Calma!

Cláudia: Me solta!

Bárbara: Você não pode fazer isso, enlouqueceu.

Cláudia: Há muito tempo! Eu tô completamente doida, tô maluca, eu assumo isso. Agora sai daqui, me deixa em paz.

Bárbara: Eu não vou deixar você fazer isso sem motivo nenhum!

Cláudia: Motivo nenhum? Eu venho enfiando os pés pelas pernas desde que eu nasci. E você diz motivo nenhum?

Bárbara: E daí? Todo mundo enfia os pés pelas pernas. O mundo é assim…

Cláudia: Esse é o problema, esse é o problema. O mundo é assim. Uma merda. E sabe por que ele é assim? Porque eu contribuo pra isso. Eu não presto. Agora mesmo, vindo pra cá, eu passei por umas seis crianças na rua me pedindo dinheiro. Seis crianças. E sabe o que eu fiz? Nada. Eu não dei dinheiro, eu dei um olhar assustador, um olhar de medo. E não foi só hoje. Eu raramente dou alguma coisas para essas pessoas, elas estão assim, por que pessoas como eu, que só pensam em si mesmas não fazem nada. Eu não agüento mais. E não adianta me impedir.

Bárbara: Você acha que é a única? Você só está usando isso como desculpas para fazer essa besteira. E eu não vou deixar.

Claudia: Não chega perto! Não chega perto!Quando eu tinha 12 anos eu falei mal da minha melhor amiga pra uma outra que eu nem gostava tanto. Eu magoei demais a minha melhor amiga e até hoje ela nunca me perdoou. Eu não suporto mais isso dentro de mim.

Bárbara; Isso já faz muitos anos, ela nem deve lembrar.

Claudia: Mas eu lembro, eu lembro. eu lembro de tanta coisa. Eu traí meu namorado porque me apaixonei por outro e até hoje eu sofro com isso. Eu lembro de tudo. De toda a merda que joguei debaixo do tapete. Eu não suporto mais isso, eu não suporto…

Bárabara: Deixa de ser estúpida. Quem é que já não colocou alguma merda debaixo do tapete?

Cláudia: Eu não quero saber dos outros. Não agüento mais…

Bárbara: Mas o que é que você não aguenta mais?

Cláudia: Eu não agüento mais sair de casa e ver um muro de prédios, uns colados nos outros, e uma fumaça de poluição invadindo meus poros sem pedir permissão, que vai me matando aos poucos, e eu fingindo que nada está acontecendo. Não aguento mais pedir dinheiro emprestado e fingir que esqueci de pagar, simplesmente porque sinto preguiça. Não aguento mais me olhar no espelho, achar meu corpo horroroso e ainda assim colocar pra dentro todas as porcarias industrializadas que acabam com a minha saúde. Eu não agüento fingir quem eu não sou pra implorar trabalho e ainda assim não conseguir me sustentar…

Bárbara: Chega com essa baboseira. Você não é responsável por todos os males que acontece no mundo e com você. Não é.

Claudia: Sou, sou responsável. Outro dia , eu reclamei de uma garçom para o dono do restaurante e o garçom foi despedido. Eu não consigo mais dormir, sonho que o garçom tá atrás de mim querendo se vingar. E se ele tiver uma família? E se ele precisa sustentar alguém doente? Eu fiz ele ser despedido, isso é certo? Eu não presto, eu me odeio, eu tô sufocada de tanto errar, sofrer e não conseguir me transformar.

Bárbara: O que você quer? Se nomear a responsável por todos o males causados pela humanidade? Que ridículo!

Cláudia: Eu tenho atrasado prazos, enrolados pessoas dizendo que posso fazer coisas em tempo recordes mas não posso. Eu sou estúpida quando não quero ser, trato mal alguém quando só quero dar um beijo. Me faço de vítima e não me perdôo por isso…

Bárbara: Você se cobra demais.

Cláudia: Eu vou me livrar desse buraco dentro de mim, essa angustia que carrego desde que eu nasci.

Bárbara: Eu estou desistindo de você.

Cláudia: Melhor pra você. Pode ir. Não adianta. Nada do que você disser vai ser suficiente para que eu mude de idéia.

Bárbara: Então eu não digo mais nada.

Cláudia: É melhor. Não há nado o que dizer. O mundo ta perdido e eu sou responsável, você também.

Bárbara: Eu não tenho nada a ver com isso.

Cláudia: Não? E o que você faz? Você é quem nem eu. Só pensa unicamente naquilo que diz respeito ao seu interesse.

Bárbara: Eu não preciso ouvir isso. Tchau.

Cláudia: Vai, vai mesmo. Vai com toda esse peso nas costas. Não sei como você consegue fingir que as palavras que eu te disse não te afetaram. Vai logo, vai longe.

Bárbara: Quer saber? Foda-se você. Foda-se essa sua auto piedade patética. Se joga logo dessa janela. Você acha que se você morrer o mal do mundo vai acabar? Você, ó grande responsável por todas as coisas erradas, não vai salvar nada nem ninguém. Só vai fazer mais um favor pra humanidade. Menos uma, menos alguém pra comer. Menos alguém pra poluir o ar. Se mata logo. anda , eu quero ver. E quer saber? Quer saber mesmo? Quem vai se matar agora sou eu. Quem vai se atirar da merda dessa janela sou eu. O mundo é escroto mesmo e hoje eu comi batata frita no almoço.

Bárbara se joga do décimo terceiro andar do prédio. Claudia fica arrasada, chora, sente uma puta culpa pelo o que aconteceu, mas não consegue fazer nada.

FIM

A culpa é do padre

Mulher no confessionário e padre ouvindo entediado.

Mulher – Padre.

O padre não responde.

Mulher – O senhor está aí?

Padre – Não, ele está pendurado na cruz.

Mulher – Como?

Padre – Brincadeira.

Mulher – Como o senhor sabe?

Padre – É só olhar para cima.

Mulher – Estou falando do meu problema.

Padre – Como vou saber se a senhora não disse.

Mulher – Começou como uma brincadeira.

Padre – É sempre assim, começa com uma brincadeira e termina em assassinato.

Mulher – O senhor acha?

Padre – Tenho certeza.

Mulher – Meu Deus não pensei que…

Padre – Ninguém pensa. Começa na inocência e quando vê, assassinato qualificado.

Mulher – Mas foi só uma vez.

Padre – Uma vez basta para acabar em tragédia.

Mulher – O senhor está me assustando.

Padre – Senhora, assustador é o que vem por aí.

Mulher – E o que eu faço?

Padre – Difícil, nesse caso nem rezando.

Mulher – Nem 3 mil vezes o terço inteiro.

Padre – Nem um milhão.

Mulher – Mas, então, o que faço?

Padre – Nem Jesus salva.

Mulher – Misericórdia senhor! Algo tem que ser feito, não pode continuar…

Padre – Está traçado. Vai ter que se ver com o senhor. É direto com ele.

Mulher – Vou morrer.

Padre – Morrer é muito pouco.

Mulher – Nunca pensei que uma simples brincadeira.

Padre – Uma brincadeira nunca é tão simples.

Mulher – Só o roubei uma vez para me fazer companhia… Sou tão só.

Padre – Nada justifica a cobiça.

Mulher – Mas ele é tão bonito.

Padre – Pecado da carne.

Mulher – E ele me fez tão bem.

Padre – Faz bem agora e te devora depois.

Mulher – Ficamos juntinhos, agarrados, acariciei e ele ficou arrepiado, depois ele voltou para a casa dele direitinho.

Padre – Está ficando pior.

Mulher – Mas parece tão inofensivo e me dá uma alegria.

Padre – Parece inofensivo, mas te ataca por trás.

Mulher – E agora? Tenho vontade de fazer outras vezes…

Padre – Só a morte justifica tal erro.

Mulher – Se é assim….

Mulher volta para casa e mata o gato da vizinha.

Pequenas coisas da vida

Seguinte: estava eu no meu carro dando uma carona a minha amiga Tina Basset ( que adotou esse apelido logo depois do filme sobre a Tina Tunner, aquele com a Ângela Basset, no qual Tina só apanhava do Ike. Minha amiga é louca por esse filme e sonha um dia fazer no teatro, ela é atriz e no começo dos anos noventa fazia backing vocal numa banda de dance.) Eu estava meio aflita e Tina com sua cara gorda só me enchia ainda mais.

Tina: (na carona, se mirando num espelhinho enquanto passa seu batom cereja, super verão 93) Tem certeza que você precisa ir?

Kid: Já falei que sim, Tina.

Tina: Ninguém é obrigada a nada, Kid. Você não precisa ir se não quiser.

Kid: Mas eu quero ir.

Tina: Você quer ir pra não se sentir culpada depois.

Kid: É um bom motivo, não?

Tina: ( guarda o batom na bolsa) Amiga, a gente vai a festas pra se divertir e não para não nos sentirmos culpadas!

Kid: (com uma mão no volante e a outra acendendo meu cigarro, tive vontade de rir da cara dela, mas segurei a onda e tentei ser clara) Amiga, eu tenho que ir. A Laila me convidou há séculos… Eu não fui ao chá de fraldas, eu não fui à maternidade ver a criança, eu não mandei cartão! Eu nem liguei nos dias das mães. E no batizado da guria, cheguei ressacada, quase deixei a menina cair na pia batismal! Vexame. Tenho que fazer essa presença. Tenho que tirar essa impressão de madrinha má. Não quero que a Laila se arrependa por ter me escolhido. É um saco festa de criança, eu sei, mas a gente fica lá meia hora e depois partimos pra Suelen.

Tina: “A gente” quem, cara pálida?

Kid: Eu e você, não faz a louca! Você me disse que iria comigo na Laila.

Tina: Não, não. Eu te disse que aproveitaria a sua carona a caminho da festa da Laila, porque é caminho pra festa da Suelen.

Kid: Tina! Não me faça parar esse carro e te colocar pra fora!

Tina: Amiga, o que eu vou fazer com você na festa da filha da Laila? Me diz! Vai parecer que eu sou seu caso. Duas sapas em processo de adoção de uma criança asiática. Não dá, Kid.

Kid: Ai Tina, não existe nada pior do que ir numa festa infantil sozinha…

Tina: Por que você não chamou o Reinaldo pra ir com você?

Kid: Reinaldo é o fim da picada. Não te contei que da última vez ele me chamou pra ir comer uma pizza no Largo do Machado? Não dá. E eu ainda tinha que rachar a conta… Ah, amiga, não quero! Fico toda arrepiada só em lembrar!

Tina: Você é muito exigente com os homens.

Kid: Eu sou seletiva.

Tina: Exigente! Assuma. Pra você nenhum cara é bom o suficiente.

Kid: Ih, tá chata…

Tina: As mulheres reclamam que o problema é a falta de homem no mercado, mas os que
têm são desdenhados. Então, o problema está no nosso senso crítico. Estamos cada vez mais severas em nossas escolhas.

Kid: Tina, você voltou a ler “Cláudia” ?

Tina: Não. Sou uma mulher com opiniões próprias e muito claras. Uma mulher contemporânea e feminina, frágil/forte, Amélia/amante, primavera/outono, pão pão/queijo, queijo. E acho que, se você baixasse o escudo da intolerância, veria mais qualidades no Reinaldo.

Kid: Tá bom, Tina.

Tina: Não está “bom” não senhora. Olha pra você, obrigada a ir numa festa sozinha, cheia de mães felizes que olham pra gente como se fossemos criminosas só porque já passamos dos trinta e não temos filhos. Eu não sou uma criminosa! E não podemos nos sentir culpadas por isso.

Kid: Eu não passei dos trinta. Estou nos trinta.

Tina: Amiga, estar com trinta é a mesma coisa que já ter passado dos trinta. E demais a mais a Laila é uma cínica. Aquele sorrisinho com uma placa na testa :“Olha como eu sou fértil, olha como eu sou super bem aceita socialmente, apesar de engordar vinte quilos e parecer uma vaca leiteira” .

Kid: (sofri ao volante) Ai… O que eu faço? Não quero pagar de “tia encalhada legal pra caramba.”

Tina: Tinha que ter pensado nisso antes de dispensar o Reinaldo. Já pensou, você adentrando o salão com o Reinaldo a tira colo, colocando no chinelo aqueles buchos que são os maridos dessas vespas parideiras. Ia ser a fechação!

Kid: Sim, depois o Reinaldo iria pedir um saquinho pra levar salgadinhos pra casa e rachar a minha cara de vergonha. Não, esquece o Reinaldo, dele não me arrependo mesmo.

Tina: Então amiga: so sorry, boa sorte no covil das vespas.

Kid: E o pior é que eu não tenho nenhuma amiga com filhos a não ser a Laila. Nenhum sobrinho, nenhum priminho, nenhum filho de vizinha…afff se eu aparecesse com uma criança iria ser menos humilhante. Iam ver que eu tenho o dom da maternidade, que não ter filhos é uma opção madura e econômica.

Tina: Tá, mas onde você vai achar uma criança agora?

Nesse exato momento o sinal fechou e como uma dádiva divina, avistei na esquina um menino vendendo chicletes.

Kid: Ele ali.

Tina: Tá louca! Abilolou de vez criatura?

Kid: Ele é ótimo! Compro a caixa de chiclete toda se ele for à festa comigo.

(buzinei chamando o guri)

Tina: Amiga, aquilo não é um menino, é um anão.

Kid: Menina, não é que é mesmo… Mas de longe engana!

Tina: Não confio no caráter dos anões. Lembra do Jack? Aquele pilantra que vendia biju jurando que era jóia, lembra? Me vendeu um brinco falando que era de ouro, banhado de ouro, chapado no ouro, ouro, ouro… Eu otária acreditei. Sou alérgica, só uso ouro e o sórdido me vendeu uma chapinha de latão. Uma semana depois quase perdi a orelha. Parecia uma elefantíase na minha cabeça. Desde então tomei um ódio de anão.

Kid: Você está sendo preconceituosa, não se pode tirar a personalidade de um para todos.

Tina: Anão não presta. E, além disso, são muito temperamentais.

Kid: Fecha o bico, ele ta chegando. (baixei o vidro)

Anão: Vai chiclete?

Tina: Vigarista!

Kid: (catuquei a Tina com toda a minha força, pra ela segurar a onda)

Anão: Que foi que ela disse?

Kid: Nada, meu amor. Ela espirrou. (tentei imitar) Vigaristchin! Saúde! Essa mudança louca de tempo! Hahahahaha.

Anão: Vai chiclete?

Kid: Na verdade eu queria te fazer uma proposta… Não me leve a mal, mas eu estou a caminho de uma festa infantil e meio que preciso de um acompanhante.

Anão: Meio que precisa?

Kid: É. Um acompanhante pequenino… Se é que me entende.

Anão: Você quer que eu me passe por criança pra te acompanhar numa festa, para que
você não se sinta uma solteirona carente inimiga dos baixinhos?

Ai que canalhinha.

Kid: Isso aí, captou a mensagem.

Anão: Cinqüenta pratas.

Kid: O que? Meu filho, é só meia hora. Quinze pratas e não se fala mais nisso.

Anão: Trinta.

Kid: Vinte.

Anão: Vinte cinco e um chope.

Kid: Vinte e três e um cigarro varejo.

Anão: Carlton?

Kid: Free.

Ele refletiu, fez doce, mas por fim cedeu.

Anão: Vinte cinco e um cigarro varejo.

Kid: Entra aí.

Tina: (enquanto o anão dava a volta pelo carro) Você perdeu a noção, Kid! Colocar um estranho dentro do seu carro!

Kid: Ele é anão, qualquer coisa a gente bate nele.

Abri a porta e ele entrou.

Pouco se falou. Tina fez questão de ser antipática e ele também não puxou assunto. Tentei quebrar o gelo.

Kid: (dedilhando o rádio do carro) Pop… Country…?

Tina: Pop! / Anão: Country!

Kid: Ok… Sheryl Crow… Pode ser? Pop country… H
ehehe… Vamos lá gente, estou tentando! Essas caras de bunda não ajudam em nada. Qual é o seu nome, anão?

Anão: Eros.

Tina: Kakakakakaka! (risada desenfreada e claramente debochada)

Anão: Do que você está rindo?

Tina: Seu nome! Kakakkaka Fala sério que é Eros…

Anão: (sempre muito sério) E qual é o problema?

Tina: Kakakakkaakaka

Anão: (já meio puto) Sua amiga está tirando onda com a minha cara?

Kid: Não, imagina, Eros. É que a Tina é super ligada nessas coisas de mitologia e
tal. E Eros na mitologia, era um cupido. Pequenino. Tipo você, só que lourinho.

Tina: Kakakakakakaka

Anão: Pára o carro.

Kid: O que?

Anão: Pára o carro, acabou. Não quero servir de chacota pra vocês. O circo fechou!

Kid: Peraí, Eros…Calma, olha, o seu nome é lindo, e o cupido é super gracinha…

Anão: A sua amiga é muito mal educada e me tratou com desprezo desde a primeira vez
que me viu, mesmo sem me conhecer ou trocar uma palavra. É preconceituosa e cruel, pois sua frieza de alma não a faz perceber que eu sou um ser humano, que assim como ela não gosta de ser rejeitado ou tratado com repulsa. Diferente de vocês, sempre tive que enfrentar risinhos e piadas por conta de uma condição física, imposta acima de qualquer escolha. Sou menor que vocês, e isso não quer dizer que meu caráter também seja e muito menos a minha auto-estima e respeito pelo próximo. Poderia enumerar aqui mil defeitos seus só em olhar pra você, mas acho que já devem ter feito isso um dia contigo e acredito que não tenha sido uma experiência muito agradável de ter sido vivida. Então se realmente querem a minha ajuda para qualquer coisa, é bom que me tratem com respeito e consideração, digna de um ser individual que vive em sociedade. Respeito é bom e eu gosto.

(Silêncio sepulcral. Eros arrasou no discurso)

Kid: Desculpa Eros. (dei outra catucada na Tina)

Tina: (com dificuldade) Desculpa, não foi a minha intenção rir de você.

O anão sorriu em consentimento, deixei a Tina na Suelen e segui pra festa com ele. E foi justamente lá que se deu a grande surpresa:

Laila: (chocada) Eros?

Anão: (pálido) Laila?

Kid: Vocês se conhecem?

Laila: (trêmula) Eros… Por onde você esteve durante todos esses anos?

Kid: Ih, gente, perdi um capítulo dessa história…

Anão: Não Kid, Fui eu que perdi. Perdi a memória quando voltava do trabalho, num tombo inesperado. Roubaram meus documentos e por muito tempo Perambulei pelas ruas da cidade sem saber quem eu era. Até que um dia me lembrei de tudo ao te ver atravessando a avenida, Laila. Mas tive vergonha de me aproximar… Eu era um mendigo, sujo. E você tão linda, ao lado de seu marido e filha… Uma família feliz. Eu não poderia me intrometer depois de tanto tempo…

Laila: E você simplesmente saiu da minha vida sem dizer adeus?

Anão: Não foi a minha intenção, juro…

Laila: (com lágrimas nos olhos) Você sumiu, pensei que tivesse me abandonado, ou morrido…

Anão: Minha vaidade foi incapaz de sucumbir ao meu amor.

Poucas coisas me chocam nesse mundo e essa foi uma delas.

Laila: Você ainda me ama?

Anão: Nunca deixei de te amar desde o primeiro instante em que te vi. E você? Ainda
me ama?

Laila: O amor em mim estava retesado, como que numa represa mofada, pronta pra inundar o mundo inteiro. Se eu ainda te amo? Te amar nunca me foi uma escolha e sim uma condição.

Kid: … Vocês querem gelatina?

Eros e Laila lascam um beijo bem obsceno. Nem sei por quanto tempo. Foi bem longo o beijo. E parecia bem gostoso, devo frisar. Todos ficaram com cara de mula. Ravier, marido de Laila, que pra mim sempre foi mulheríssima, teve um desmaio súbito.

Resumo da ópera: Laila foi embora da festa com Eros, e eu fui encontrar com a Tina na Suelen.

No caminho ainda acendi um cigarro, orgulhosa por naquela noite ter sido eu o cupido.fim.

A menina e a fumaça escura

Idéia original de Felipe Herzog.

*Confiança é uma maldade*.

CORO

Era uma casa de fantasia
Jardim de amora, tapeçaria
Era um gramado vermelho neve
Armário cheio, pesado leve

O que envolvia a encantada rua
Era neblina, fumaça escura
Casa pintada de aquarela
Aquele mundo era só
Só ela!

Seus olhos teciam rima
Gira mundo ao contrário
Quando a base não era o chão
O céu era o porão
Sentir fazia sentido
Versos eram simétricos
Mocinho era bandido
E o novo podia ser velho

MENINA

Até que um dia… a porta abriu

CORO

Menina viu o que não tinha visto

MENINA

O que na casa era pintado
Lá fora era rabisco
O que na casa era quadrado
Lá fora era círculo
O que na casa era boato
Lá fora era perigo

Coro

Pediu chuva de brincadeira
E o Sol deixou o quarto
Por uma lágrima, corredeiras
A casa virou aquário

A menina falou com estranho
Fez-se deserto
Uma miragem, céu castanho

E achou no poço da juventude

Enquanto a rima se desfazia, a rima se des-fa-zi-a (continuamente)

des
fa
z
i
a

MENINA

Uma, duas, três moedas.

Surge o coro da vidente. Seu corifeu se destaca do coro, são cartas de um baralho.

VIDENTE

Se der cara, encara
Se não der, coroa.

AS CARTAS

Cara. Coroa. Cara. Coroa. Caracoroacaracoroa. (ouve-se um princípio de confusão)

VIDENTE

Cara. Encara.

AS CARTAS

Vai, encara! Mergulha no buraco de fechadura!

(Um velho desenha um circulo de giz no chão)

VIDENTE

Um sorriso de dragão verde
Com tristeza fazia a guerra
Entre o real e o imaginário
Entre o que é!

MENINA

E o que era?

VIDENTE

Caminho de barro ou caminho de ouro.

MENINA

Qual escolho?

VIDENTE

Caminho de barro ou caminho de ouro!

MENINA

Lê a mão! Qual escolho?

VIDENTE

A beleza do tempo é a volta do círculo.
Confia, menina, confia.

MENINA

Barro ou ouro? Qual escolho?

VELHO

Os olhos da cigana brilharam amarelos, piscaram ouro.

VIDENTE

Trazer futuro para o presente, exige outro presente.

MENINA

Só tenho esta moeda.

VIDENTE

Segue pelo caminho de barro.
O improvável guarda a recompensa.

(Menina vai, cigana sorri).

VIDENTE

Os dois caminhos dão no mesmo lado.
Confiança é uma maldade.

E a menina olha para trás.

Não devolve os olhos pro passado! O tempo cega. Vai! Não exita. O medo é só uma escolha entre a fé e a esperança. Vai!

Vidente e coro se desfazem. A menina parte em direção ao Velho.

Do três se fazia dois
Pra lá didepois
Uma outra vez
Traçou com giz

(Encontra um HOMEM perdido)

MENINA

Tô andando em círculos.

HOMEM

Está?

MENINA

Já pisei aqui.

HOMEM

Será?

MENINA

Eu nunca te vi.

HOMEM

Verá!

Ela enxergou que era tudo engano, que o conjunto unitário é um conjunto vazio e foi desfazendo o círculo. Desta vez avista um Velho – prisioneiro de seus próprios traços.

MENINA

De onde vem essa fumaça?

VELHO

Por que você faz tanta pergunta?

MENINA

Que pergunta?

VELHO

Está vendo!

MENINA

O quê?

VELHO

Qual seu nome?

MENINA

Eu nunca me perguntei isso.

VELHO

Essa resposta só chega com a morte. Também pegou o caminho de barro?

MENINA

Sim.

VELHO

Esse caminho não tem saída.

MENINA

Como esse círculo?

VELHO

Como esse círculo.

MENINA

Mas tem volta?

VELHO

Pra voltar na volta…

Tem que dá pé
Tem que dá fé
Tem que dá ré!

MENINA

Tem que dar ré! Pra voltar tem que dar ré!

VELHO

O Tempo é assim: ele deixar voltar, mas volta pra outro lugar.

A menina segue sua trajetória e vai parar no mercado.

CORO

É o mercado de aeiou
A E I O U
A E I O U

MENINA

Mercado de quê?

MERCADOR

De A E I O U. Você me compra a letra pra formar teu nome. Ou você vai ser sempre você. E você todo mundo é.

MENINA

É?

MERCADOR

Chama qualquer um de você, todo mundo atende. Você não é ninguém, você é todo mundo.

MENINA

Eu tenho duas moedas.

MERCADOR

Leva o “A”.

Ela entrega uma de suas moedas. Eis que surgem outro mercadores, coro.

CORO

“A” todo mundo tem. Não leva vogal, leva consoante.
Vogal todo mundo tem.
Leva vogal e leva consoante.
Leva os dois.

O coro e a gritaria se perdem na escuridão.

MENINA

Dois não é número?

Do caos do que era letra
Do que era vogal
Do que era número
O ar virou alfabeto
Virou frase, virou ditado

Surge um bando de artistas de rua. A música preenche todos os lugares, enfeitiça.

CANTOR

É nos teus olhos a luz
que ilumina e conduz minha nova ilusão
é nos teus olhos que eu vejo
o amor o desejo do meu coração

És um poema na terra
Uma estrela no céu
Um tesouro no mar
És tanta felicidade que nem a metade consigo exaltar!

Menina entrega a sua última moeda e a canção recomeça.

CANTOR

Do três que se fez em dois que se fez em um, se fez em rosa.
Caminha sem encostar os pés no chão.
A estrada já não era barro, já não era ouro.
Um horizonte de pétalas de rosa!

A menina sai enfeitiçada e tropeça num mendigo, com seu coro – estão no chão e entre eles há pessoas doentes.

MENDIGO

Você! Arruma moeda pra esse pobre homem que tá com fome.

MENINA

Por que não come este pão?

MENDIGO

Guardo para o dia que acabar a comida. Nesse dia ele vai valer muito.

A menina procura alguma moeda nos bolsos.

MENDIGO

Uma menina tão bela jamais negaria ajuda. Tem piedade!

MENINA

Piedade eu ainda carrego comigo, moço. Mas as moedas…

MENDIGO

Dá alguma coisa pra eu comer! Você é igual a todo mundo! Tá aqui pra ocupar espaço.

MENINA

Eu juro.

MENDIGO

Tem misericórdia! Tem pena de mim!

MENINA

Esta rosa é o que de mais valor eu conquistei.

MENDIGO

Uma rosa? Você conquistou uma(…)…(…)rosa? Poesia é uma armadilha!

E os mendigos riem, gargalham. Ela segue até o local mais próximo. E se depara com a cafetina A ÚNICA DO CORO COM LÁBIOS RUBROS.

MENINA

Se bem-me-quer, mal-me-quer
Só não queria ficar grande

CAFETINA

O futuro da inocência
Na barriga do gigante! (sorri misteriosamente)
Falando sozinha? Perdida?

MENINA

Não… só tava pensando… eu tava perdida no pensamento.

CAFETINA

Não pensa muito que paralisa… o corpo.

MENINA
/>Perdi as minhas três moedas.

CAFETINA

E por quê não as reconquista?

MENINA

Quero voltar pra minha casa.

CAFETINA

Vou lhe contar um segredo. Um segredo para que você conquiste tudo o que quiser. Quando quiser.

CORO

Menina que chora sangue
Baila no tempo sem majestade!
As moedas do caminho
Só retornam com a tempestade.

CAFETINA

Vem comigo! Confia!

Assustada, a menina corre e volta para sua casa, agora real, concreta.

MENINA

É uma casa de concreto
Onde tem chão, onde tem teto
É real… ponto final.

Sem imaginação.

Texto dedicado a todos os companheiros de jornada: Olivia Zisman, Alê Biá, Rosa (“por uma lágrima cachoeiras, não, trepadeiras, não!”), Ticiano Diógenes, Diogo Liberano, Léo Polck, Julia Gorman e Natássia Velo.

Em especial, ao amigo com quem compartilho sonhos, Felipe Herzog. Ao diretor a quem sempre confiarei os meus.

Tem culpa eu?

ABUSADA conversando com a platéia. PAPAI de olho na rua pela janela do apartamento.

ABUSADA – Culpa pra quê? Eu tenho mesmo prazer em ver coisa apodrecendo. Me dá alegria. Uma calma. O inevitável perder das cores, rachaduras que aparecem, veias exaustas ficando azuis e tão grossas! Como rios cansados! Almas se enegrecendo! O preto do mofo acuado sugando, surgindo e tomando conta da floresta devastada que já foram as tuas idéias, tua inocência indo embora.

PAPAI – Aquele maldito mendigo! (GRITA) Vai revirar lata da casa do caralho! Deixa aí!!! Deixa aí!!! Esse lixo é meu!!!!!!!!!!!!!!!!!

ABUSADA – E você, papai, que foi tão bonitão. Eu gosto de notar como as bochechas se degradam. Gosto de ver teus cabelos todos indo embora e a careca repletinha de manchas senis.

PAPAI- É meu sim senhor!!! Larga esse lixo! Desgraçado! Ladrão!!! Ladrão!!! Eu que comi esse frango! Larga a coxa! Larga!

ABUSADA – E fico imaginando, sabe? O teu pau. Tão viril. Como é que ele é hoje? Um penduricalho de carne? O senhor já tem pentelhos brancos, papai?

PAPAI- Larga!!! Pegou a coxa, desgraçado! Lá vai ele chupando os ossos que eu lambi! Que nojo!

ABUSADA – Eu gosto… gosto de observar as coisas até virarem pó. Tenho muita tralha em casa, mas são só as preferidas. Minha Barbie vai que vai num estado! Tadinha! esquecida… como todos nós um dia… esquecida… nem pena eu tenho. E lembrar quando saiu da caixa, o tamanho da alegria que eu senti, apesar de todo sangue na minha saia, eu sorri, sabe? Eu fiquei feliz.

PAPAI – Aqui, filhinha. Pra você.

ABUSADA – Obrigada! Ó papai! Muito obrigada!!! Pode fazer de novo se quiser!!!

PAPAI – Filho da puta! Mataram um pombo, filha! Atropelaram um pombo! Vem ver!!!

ABUSADA – Não quero. Não me interesso pela morte rápida! Fulminante que chega sem aviso! O sangue espirrando no vidro. Não gosto. Não quero. Tem um quê de espetáculo. Não é isso que eu quero. Quero a MORTE LENTA>>> O ENVELHECIMENTO devagar…… os dentes podres, a carne cai. Não tem memória, não tem vida, não sabe olhar, não pode ouvir, não sente gosto… tudo vai cessando enfim.

PAPAI- Filho da puta!

TELEFONE toca. ABUSADA vai atender.

ABUSADA – Alô… Barenco? oi Barenco? Desculpa o bolo que eu te dei duas semanas atrás! Eu queria mesmo ter feito a peça contemporânea, mas não deu! Não deu, Barenco! Queria ir, sabe que sou uma atriz completa! Fazer o teste! Deixa eu te mostrar por telefone! (EXECUTA ENQUANTO DESCREVE) Mascando chiclete eu sei fazer. Tirando casquinha de pipoca do dente é mole pra mim. Comendo paçoca eu sei que faço super bem, Cuspindo caroço de jaca sou especialista, bem jogado fora, assim, tranquilão! Sentido o gosto do recheio do babaloo não é difícil pra mim também não. Ou melhor, é difícil sim, mas me dá prazer. Tomando sopa quente eu fazia melhor quando era jovem, mas não esqueci não. Chupando tic-tac eu faço sempre. Acho que e uma boa vertente do minimalismo. Comendo algo que você nunca provou também faço! Com o pé nas costas! Ora sim! Segurando o arroto, só quando me chamam pra musicais. Alô Barenco? Alô? Estou contigo, Barenco! Alô?

PAPAI – Desliga isso aí, filha! Vem fazer uma massagem nos meus pés!

ABUSADA – Barenco, me escuta, A culpa foi do papai!

TREVAS….