Dinheiro há

Mulher: Doutor. Eu preciso da sua ajuda. Eu não tenho mais condições de seguir vivendo. Eu não tenho mais condições. Não tenho. Condições. Não tenho mais condições de seguir a dieta que o meu nutricionista me receitou. Ele mandou cortar proteína de manhã, carboidrato de tarde e os pulsos antes de dormir. Mentira. A última parte é mentira. Mas é o único jeito de seguir, né? Pelo menos assim o sofrimento ia ser breve. Uns cinco minutos e a história tava acabada. Só o tempo do sangue escorrer… Não ia ficar agonizando por dias a fio como eu tenho agonizado. Isso não é vida, doutor. É sobreviência.

É claro que eu também não posso voltar a comer como eu gostaria porque, nos dias de hoje, nenhuma mulher com mais de sessenta quilos pode ser feliz. Isso é fato. Todo mundo sabe. Então também não me adianta ficar gorda e deprimida. Já passei por isso. Foi quando eu de fato cortei os pulsos mas não deu muito certo não… Parece que o corte tem que ser na vertical e eu não sabia. Me ensinaram errado. Maldita enfermeira. Enfim.

Eu vim aqui porque eu encontrei uma solução pro meu problema de peso. Eu quero que o senhor implante uma tênia saginata no meu estômago. Uma tênia… É lombriga. Ai… Odeio esse nome. Horroroso. Se o senhor não se importa vamos chamar de tênia que é mais refinado. Relaxa, doutor. Dinheiro há, dinheiro há. Eu pago. Pago pela tênia. Mas saginata, doutor. Tem que ser saginata.

Porque primeiro eu pensei na tênia solium, que é mais forte né? Eu pesquisei. O peso perdido seria muito maior. Só que na pesquisa eu descobri também que a tal da solium pode chegar ao cérebro e trazer uns problemas neurológicos e perda de visão. Daí desisti. Não adianta ficar magra e feliz se eu também vou ficar louca e cega, né?

Depois e pensei também na giárdia. Mas soube que dá muita diarréia. Desagradável. Então cheguei à conclusão de que a melhor opção seria a saginata, mesmo. Discreta, sintomas desagradáveis minimizados, e muita magreza. Relaxa, Doutor. Eu pago. Dinheiro há, dinheiro há. É só descobrir o contato de alguém que tenha tênia que eu pago e o senhor implanta.

Já pensou, Doutor? Eu vou poder comer o que eu quiser e continuar magra? Um sonho! Como assim? Claro que pode, doutor. Eu pago! Dinheiro há, dinheiro há! Quanto é? Como ética, doutor. Não me vem com esse papo. Eu pago! Riscos? Olha o máximo que pode acontecer é que eu vou ficar magra demais. Mas como no vocabulário feminino essas duas palavras juntas não fazem sentido, não tem problema. Magra nunca é demais pra gente. Quanto mais esquelética melhor! Assim eu posso comer cada vez mais.

Primitivo? Procedimento primitivo? Doutor! Acompanha só o meu raciocínio. Já enfiaram um pedaço de ferro na barriga e ficaram socando até amolecer a gordura pra depois chupar tudo com um aspirador. Já quebraram o meu nariz com um martelinho e rasparam o osso com lixa. Já tacaram ácido na minha cara pra a pele descamar e eu ficar com a pele mais jovem. Já me injetaram até toxina botulínica pra matar carrapato de boi na minha testa pra tirar ruga! E o senhor não quer implantar uma lombriguinha no meu estômago? Doutor. Faça-me o favor! Eu pago. Dinheiro há, dinheiro há!

Quanto custa o que não se pode pagar?

Ele: Você vai mesmo?

Ela: Vou.

Ele: Assim? Agora?

Ela: Sim.

Ele: Mesmo?

Ela: Sim.

Ele: Não, por favor.

Ela: Não torna as coisas mais difíceis.

Ele: Se eu te disser…. se eu te disser que te amo, que estou arrependido, que a gente pode tentar de novo, que oito anos não terminam assim com você indo embora de repente.

Ela: Não foi de repente, você sabe.

Ele: Eu sei? Quem disse? Eu só sei que não vou agüentar ficar sozinho aqui, nesse lugar que é teu também. Teu mais que meu. Eu só sei que não sei ficar sozinho.

Ela: Você não tá querendo a minha presença, você só não quer fica sozinho.

Ele: Não é verdade! Não é verdade, meu amor. Eu quero ficar com você, eu quero mais que tudo. Mais que tudo, minha flor.

Ela: Não, não quer. Você quer não quer passar pela mudança, não quer ter que arrumar a casa nem comprar o pão. É só isso que você não quer. Porque se você não quisesse de verdade que isso acontecesse, você não teria deixado isso acontecer. Agora já é tarde, não se faça de vítima, não agora.

Ele: Quando você se distanciou de mim?

Ela: Quando você se distanciou de mim?

Ele: Eu perguntei primeiro.

Ela: E eu perguntei depois, e daí? Não somos crianças.

Ele: Se pelo menos tivéssemos crianças.

Ela: Você que nunca quis.

Ele: Porque você dizia que não era a hora.

Ela: Como se a vida fosse um relógio.

Ele: E não é?

Ela: Você acha?

Ele: Não, não acho. Por isso a gente pode fazer o que quiser. Vamos atrasar o relógio e começar de novo.

Ela: O que adianta atrasar o relógio e começar de novo? A gente vai chegar aqui novamente.

Ele: A gente não vai deixar.

Ela: Não?

Ele: Segura na minha mão e veja como eu estou tremendo.

(Ela segura na mão dele)

Ele: Viu?

(Ela ri)

Ela: Você é um bobo. Está fingindo.

Ele: Você gosta, né?

(Ela ri)

Ele: Viu? Você adora.

Ela: Você é um bobo.

Ele: Eu amo você.

(Silêncio)

Ela: É melhor eu ir.

Ele: E se eu pagar?

Ela: Oi?

Ele: E seu eu pagar pra você ficar comigo?

Ela: Engraçadinho.

Ele: Eu não estou brincando, é sério. Quanto? Quanto você quer pra ficar comigo?

Ela: Bobo.

Ele: Quanto? Diga. Quanto? Eu pago o que você quiser.

Ela: Com que dinheiro?

Ele: Isso é um problema meu.

Ela (ironizando): Cinco milhões.

Ele: Cinco milhões? Tá. Eu pago.

Ela: Louco. Eu tava brincando.

Ele: Mas eu não, eu pago.

Ela: Cinco milhões? Vai roubar?

Ele: Isso é um problema meu.

Ela: Eu tô brincando.

Ele: Eu não.

Ela: Chega, eu vou.

Ele (impedindo-a): Cinco milhões? Por que não dez? Eu pago, eu pago.

Ela: Olha, eu não tô mais achando graça.

Ele: Que bom, porque isso não é uma piada.

Ela: Você está começando a me ofender.

Ele: Dinheiro não ofende, só dignifica.

Ela: O que é que tá acontecendo? Pirou de vez?

Ele: Pirei. Pirei por você, pirei. E vou pirar muito mais se você passar daquela porta. Eu faço o que você quiser.

Ela: Não é dinheiro, entende? Não tem dinheiro que pague o meu sentimento.

Ele: Tem, tudo se compra, tudo se paga. Até o que você está sentindo. Imagina eu e você num barco num final de tarde, numa praia paradisíaca, tomando água de coco. Imagina você numa loja comprando o que quiser sem se preocupar com a conta. Imagina você finalmente podendo fazer a sua exposição de arte. Imagina nossos filhos nos melhores colégios. Imagina você viajando para o lugar que quiser. Imagina, imagina, imagina….

Ela: Chega! Sabe o que eu imagino?

Ele: Nós dois…

Ela: Nós dois separados. Você aqui nesse apartamento de vista pra Lagoa, tomando seu Martini ao som de Billy Holiday, e eu no meu conjugado, pintando meu quadro, ouvindo sei lá o que , sem ouvir a sua voz, sem saber dos seus casos, ligando para um homem qualquer, mandando ele vir até a minha casa , trepando a noite inteira…

(Ele dá um tapa na cara dela. Ela dá um tapa na cara dele. Ele a beija. Ela o afasta. Ele volta e a beija. Ela retribui.)

Ela: Merda!

Ele: Eu te amo, meu amor, eu te amo!

Ela: Ama… ama… ama o caralho, você não sabe o que é isso.

Ele: Eu sei, eu sei, amar é não querer perder, é pensar no outro….

Ela: Você só pensa em você. O seu problema não é me perder. O seu problema é se perder. Você não quer se perder. Essa é a sua diferença. Você não quer se perder.

Ele: Eu amo!

Ela: Você pensa que o amor se compra.

Ele: Não interessa, eu compro. Eu compro seu amor. Quanto custa? Eu compro.

Ela: Sabe o que dá mais raiva?

Ele: Cinco milhões? É esse o seu preço, meu amor? Eu pago.

Ela: Que você acredita piamente que pode comprar…

Ele: Eu recompenso tudo o que você perdeu comigo. Eu te dou tudo de volta, eu juro…

Ela: Que essa merda de dinheiro que você diz que tem, vai trazer de volta o que foi perdido…

Ele: Eu juro, eu juro. Tudo o que você perdeu, eu pago. Tim tim por tim tim.

Ela: Nem uma migalha, você vai conseguir pagar. Nem uma. Não se pode pagar por isso.

Ele: Quanto custa o que não se pode pagar?

Ela: Quanto custa pra você? Faz você o preço.

Ele: Meu preço é a minha vida. Eu te dou toda ela, faça o que quiser.

Ela: Não vale a pena. Sua vida já não me serve. Por favor, me deixa ir.

Ele: Quando você se tornou tão cruel?

Ela: Quando você se tornou tão calculista?

Ele: Que dia mesmo que você se distanciou?

Ela: Que dia mesmo que você parou de olhar pra mim?

Ele: Eu tô olhando pra você agora.

Ela: Mas você não tá me vendo.

Ele: Você é que não tá se mostrando.

Ela: Eu não sei mais como me mostrar pra você.

Ele: Dez milhões.

Ela: Nem a sua vida.

Ele: Nem?

Ela: Tá tarde, eu vou descer e chamar um táxi.

Ele (canta): Flor, florzinha que se vai. Sai de minha janela, pra outra janela lá se vai….

Ela: Tchau.

Ele (canta mais alto): Tentei comprar o meu amor, tentei pagar pra não chorar, mas não adianta, minha dor não vai passar…

Ela: Eu tô indo.

Ele (canta quase gritando): Flor, florzinha que se vai. Sai da minha vida pra não voltar nunca mais…

(Ela vai. Ele pega uma dose de Martini e bebe. Vai até a janela e grita.)

Ele: Quinze milhões! Vinte milhões! A minha vida toda! Tudinho! Nem a minha vida? Nem a minha vida? E se eu me atirar? Você me segura? Se eu me atirar? Você me segura? Eu vou me atirar. Eu vou… (canta) Flor, florzinha, não vá mais. Vem pra minha janela, vem voltar pro seu rapaz…(grita) Você me segura se eu me largar nos seus braços? Se eu me largar nos seus braços, você me segura. Daqui, eu me largo daqui (ele sobe no parapeito da janela) Eu me largo daqui…

(Enquanto ele tá gritando pela janela, ela parece de volta e o abraça por trás, ele continua gritando)

Ele: Você me segura? Você me segura? Hein? Se eu me largar nos seus braços?

Ela: Eu tô te segurando nos braços. Eu tô te segurando nos braços.

Ele (canta): Flor, florzinha. Vem cá com esse rapaz
. Não tem um tostão que pague a minha paz.

Ela: Um real. Um real e eu volto.

Ele(canta): Flor , florzinha. Vem cá com esse rapaz. Esse rapaz te ama e não quer te perder jamais…

Ela: Um real, meu amor. Eu volto por um real.

Ele: Um real meu, amor. Você volta por um real?

Ela: Um real e eu já estou aqui.

Ele: Um real. Eu pago um real.

Ela: Paga, paga depois. Paga daqui a oito anos, paga daqui a vinte anos, paga daqui a trinta anos. Paga depois.

Ele: Um real. Eu pago depois.

(Ele está largado nos braços dela, ela o beija)

FIM.

Quanto custa o que não se pode pagar?

(…)

MENINO DE 7 ANOS CONVERSA COM PAI QUE ESTÁ ABSORVIDO PELO JORNAL QUE LÊ.

Menino – Fala pai!

Pai lendo jornal, responde sem olhar para o filho.

Pai – Oi, filho.

Menino – Tranqüilo?

Pai – Tudo bem e você?

Menino – Não tenho uma mulher melancia, nas tô bem…

Pai – (sem ouvir) Sei…

Menino – Tô bem, apesar da falta de “créu”, se é que você me entende…

Pai ainda sem ouvir.

Pai – E a Mariana, sua namoradinha…

Menino – Já era.

Pai – Por quê? Tão bonitinha…

Menino – Tá caída.

Pai – Sei…

Menino – Precisando dar uma turbinada.

Pai – Mas você já não tem um monte de carrinhos?

Menino – No peito, pai!

Pai – Sei…

Menino – Pai?

Pai – Sim?

Menino – Tô precisando de uns trocados.

Pai – Para o lanche?

Menino – Não, para o funk.

Pai – Depois te dou.

Menino – Uns 20 “real”. É que depois da festa rola o trenzinho e agora as “mina” tão cobrando.

Pai – Vão brincar de trem? Que maravilha, eu adorava!

Menino – É mesmo?

Pai – Eu fazia o trem e um amigo meu fazia a fumaça.

Menino – Você era frutinha, pai?

Pai – Como?

Menino – Nada não, deixa pra lá.

Pai – Como está na escola, filho?

Menino – Tranqüilo, arrumamos uns laranjas lá…

Pai – Que legal! Tem uma laranjeira na escola, filho?

Menino – Meninos laranjas.

Pai – Extraterrestres?

Menino – Não pai! Desvio de balas!

Pai – Como é?

Menino – O João comprou umas balas escondido da mãe e mandou o Marcio guardar na casa dele…

Só agora o pai presta atenção.

Pai – Mas isso não é certo…

Menino – Fica tranqüilo, a casa do Marcinho é um paraíso fiscal, os pais são separados e a mãe trabalha o dia todo.

Pai – Meu Deus!

Menino – Tá falando com ele! Eu trabalho na boca.

Pai – Que boca?

Menino -Na boca da bala… ninguém mexe comigo. Sou da facção do CB.

Pai – CB?

Menino- Chiclete-bola, o mais procurado. Uma vez que a pessoa experimenta, não consegue parar.

Pai – E os professores??? Não fazem nada?

Menino – Quando um professor se aproxima a gente solta umas bolhas de sabão para cima e todo mundo dispersa.

Pai – Meu filho, isso não está certo!

Menino -Valeu!

Pai – Pessoas corretas não fazem essas coisas.

Menino – Quem?

Pai – As pessoas de caráter.

Menino – Caráter é um planeta novo?

Pai – Caráter é um adjetivo. Pessoas de bem.

Menino – Ih! Pai tô te achando meio pirado.

Pai – Meu filho, será que eu não te ensinei nada?

Menino – Claro que ensinou. Se não fosse por você não saberia o que significa sonegação!

Pai – O que é isso?

Menino – Ouvi você falando com o tio Gomes. Muito bem explicado. Foi ótimo porque já estamos nos preparando para a oposição. Eles têm um dossiê que pode acabar com nossa distribuição.

Pai – Como as coisas mudaram, na minha época não era assim…

Menino – Claro, na sua época não existiam os sanguessugas.

Pai fica atônito.

Menino – Hoje é mais fácil, a gente pode superfaturar na balinha e investir nos jogos eletrônicos sem gastar nada a mais.

Pai – E o inspetor da escola?

Menino – Tranqüilo a gente dá uma propina para ele.

Pai – Mas…

Menino – Relaxa pai! Tá tudo sob controle! É nóis na fita!

Miséria Show

(Programa de TV ao vivo após os comerciais)

(…)

Apresentador – Agora nós vamos ver em 3 pontos do país nossas câmeras escondidas que flagraram o caráter do brasileiro, do cidadão comum, diante de momentos limite. O primeiro caso filmado aconteceu no centro de uma grande capital.

(Enquanto ele narra, é exibido o vídeo)

Apresentador – Vejam vocês, o homem encontra uma carteira cheia de dinheiro num banco de praça, abre a carteira, tira metade do dinheiro, em seguida vai até o orelhão – nossa produção deixou um telefone pra contato no caso da pessoa querer devolver o dinheiro – e nos entrega a carteira faltando 100 reais! É um mal caráter! E o segundo vídeo é ainda pior. Uma moça jovem, rica, universitária minha gente!, o futuro do nosso país tropical, encontra uma mala cheia de dinheiro no aeroporto e sorrateiramente tenta embarcar no primeiro vôo para Paris. Não é uma safada?

(Público concorda com o apresentador fazendo SIM com a cabeça. Algumas senhoras, ainda mais inquietas, comentam umas com as outras. Estas, por sua vez, não entendem absolutamente nada e sorriem para a câmera. As mais dramtáticas tentam pegar o microfone a todo custo e dar o seu depoimento revoltado.)

Apresentador – Agora, de chorar, sabe aquele desânimo que bate na alma? Pois é… Vejam o nosso terceiro caso, de um mendigo na cadeira de rodas roubando outro mendigo, cego. Reparem no olhar dele…. Não do cego, reparem no olhar perverso do mendigo da cadeira de rodas, em como ele vê se não tem ninguém em volta e, com o coração frio, rouba 1 real do ceguinho! Mas se fosse eu, eu dava um tiro na cara desse safado. Por isso que Deus não dá asa à cobra, porque se eu fosse Presidente, eu mandava os três pra cadeira elétrica!

(Apresentador fala com a produção) Pode mandar os três entrarem!

(Os três filmados entram no programa bastante envergonhados, sob muitas vaias da platéia)

Apresentador – Nessas horas eu me pergunto se estou diante de humanos ou de monstros. (Aos convidados) Então, quem me responde?

Universitária (arrogante) – Você está diante de brasileiros.

Apresentador (cúmplice da platéia) – Vejam que além de tudo ela ainda é debochada. (Com a moça) Se eu fosse a tua mãe, eu dava um tapa na tua cara! (Para a câmera) Eu vou chamar os comerciais, que eu fico doido com essas coisas. (Para a câmera) Já, já, no próximo bloco “A HONRA DA VERDADE”.

(Comerciais. O apresentador cochicha com os convidados e eles riem muito. O mendigo ainda tem tempo de comer uma empadinha)

Apresentador – Estamos de volta com esse caso estarrecedor, de cidadãos brasileiros que fazem tudo, fazem tudo por dinheiro. Esse mendigo, meu povo… Câmera aqui no mendigo, foi capaz de roubar outro de sua espécie. (Com o mendigo) Você não tem vergonha, não?

Mendigo (mastigando) – Hum…..

Apresentador – Cospe essa empadinha, cospe! Você não veio aqui pra comer, não!

Mendigo – Quem não vê cara, não vê coração.

Apresentador – Ah, você é debochado também. É da mesma família daquela mocinha rica?

Moça – É sim, somos todos brasileiros.

Ladrão da carteira – Não somos, não! Eu sou peruano, ouviu? Peruano!

Apresentador (mais debochado ainda e rindo com a platéia) E ele ainda tem orgulho de ser peruano! (Com o homem) Você é um filho da puta que vem roubar no nosso país. Brasileiro que rouba brasileiro já é o fim da picada, mas eu entendo. Não aceito, mas entendo. Agora, peruano roubando brasileiro. Aí não dá!

Mendigo – Não dá mermo!

Homem da carteira – Tu é pior do que eu, roubou um cego! Bem feito que tá nessa cadeira de rodas!

Apresentador – Por favor, por favor, não admito preconceito aqui dentro. Essa mocinha universitária, nossa produção descobriu que ela é lésbica e nem por isso eu tô colocando essa aberração em pauta! Olha a baixaria!

(Público aplaude o apresentador calorosamente).

Mendigo – Ele nem era cego! (Para o apresentador) Era?

Apresentador – Não, ele é o Ximbinha, da nossa produção.

Mendigo – Tá vendo?

Ladrão da carteira (babando de raiva) – Vai ficar nessa cadeira de rodas pra sempre!

Mendigo – Será? Afinal, eu não sou paralítico! (E levanta da cadeira de rodas)

(Público de boca aberta) – Óooooooooh!

Apresentador – É incrível! O mendigo andou! Palmas pro mendigo! (Câmera) Não sai daí que nós voltamos, já, já!

(Comercias. Os convidados saem do palco às pressas. O apresentador comemora o ibope e joga moedas de chocolate pra platéia. Volta ao ar).

Apresentador – (sério) Muito importante informar ao nosso público, aos nossos espectadores, que tudo que aconteceu aqui foi uma grande pegadinha. Nós temos o compromisso com a ética, com a honra, com a verdade. Nós entendemos as necessidades de cada um dos brasileiros e não estamos aqui para julgar o caráter de cidadão nenhum… Abaixo a moral e a hipocrisia (Olhos marejados) Não vou nem conseguir continuar… Palmas pro Brasil!

(O público chora e aplaude)

Apresentador – Na verdade os convidados que estiveram conosco são os atores da nossa próxima novela, que estréia amanhã, Cante, cante, cante! 21h da noite, não percam. Gostaria de chamá-los ao palco pra darem uma palhinha de um dos próximos grandes sucessos desse verão, eu aposto! Com vocês, Cante, cante, cante!

(O público grita e aplaude).

Sobem os créditos do programa.

FIM.

O autor, com profunda tristeza, enquanto escrevia o texto, se deu conta que enviou seu currículo hoje para a Bandeirantes em busca de um salário e estabilidade financeira. (!)

O que o dindin não compra

DESVENTURAS DE VERÔNICA 3

URSO está cego, usa um belíssimo óculos escuros e uma bengala estranhíssima. Está acompanhado de CATARRENTO. ELES entram na casa noturna “CÊ QUE SABE” São recebidos pela simpaticíssima SÔNIA.

SÔNIA- Sejam muito bem vindos!

CATARRENTO- Opa! Como vai!

URSO- Veja se tem lugar para não-fumantes, Catarrento.

CATARRENTO- A senhora sabe me informar se…

SÔNIA- (REVOLTADINHA) Ninguém pode fumar aqui não senhor. Se gostar desse tipo de coisa tem que ficar lá fora, no canteirinho!

CATARRENTO- (P/ URSO) Eu não me incomodo.

URSO- (INCISIVO) Não faz bem pro seu pulmão! Ainda mais nas tuas condições! Verifica, faz favor, se está tudo bem com as fossas nasais! Não quero nada grudando em mim de surpresa!

CATARRENTO pega um lenço e verifica seu nariz.

CATARRENTO- Tudo nos conformes.

SÔNIA- Está vaga uma mesa muito boa, bem coladinha no palco! A melhor vista do show!

URSO- (COM ÓDIO) Diga a essa moça simpática que queremos uma mesa bem no fundo.

CATARRENTO- A senhora entende. A gente prefere não ficar muito em evidência.

SÔNIA- Claro. Arranjo sim. Vai ser até mais fácil. Estão todos babando pelas moças, lambendo o palco.

URSO- Tire uma nota de cem pra essa gentil senhora.

CATARRENTO tira um grande maço de dinheiro do bolso muito a contragosto. Retira dele uma nota de dois reais e dá a SÔNIA. ELE pisca pra ELA

CATARRENTO- Aqui, mocinha. Vai se divertir, toma um cafezinho.

SONIA amassa o dinheiro domando seu ódio.

SÔNIA- Tem uma mesinha ali nos fundos. Aconchegante, eu diria. Me acompanhem.

SÔNIA os leva até uma mesa no canto e vai para o suposto palco. Acha uma calcinha no chão e a pega com a ponta dos dedos.

SÔNIA- (RECLAMA) Genoveva? Eu já não falei pra recolher as peças íntimas?!

URSO- Sinto o cheiro dela, Catarrento. Ela está aqui.

CATARRENTO- Não sinto nada. Ando meio entupido.

URSO- Hoje ela me paga a cicatriz no rosto. Essa ferida aberta que me impede de enxergar.

CATARRENTO- (IMPLORA) Só não tira os óculos dessa vez, seu Urso. Pelo amor de Deus.

SÔNIA vai ao microfone.

SÔNIA- Desculpa, gente! Essa Genoveva que é uma esculhambada! Agora a nossa principal atração! Uma pérola! Nossa enfermeirinha de plantão! Com vocês… Valkíria!

VERÔNICA, com uma roupa de enfermeira e mascara de cirurgia, entra no palco e começa a dançar como num strip-tease. URSO se aflige, se eriça na cadeira.

URSO- É ela! Me fala, Catarrento! É ela ali?!

CATARRENTO- A piranha falou Valquíria.

URSO- Mas veja se é ela!

CATARRENTO- Não dá pra ver, está de máscara.

URSO- Está usando um nome falso!

CATARRENTO- E as vezes erram o nome da artista.

URSO- É ela sim. Eu sei que é!

CATARRENTO- Pode bem ser o corpo da Verônica. Sabe que eu tô achando!

URSO- Agora!!!

URSO se levanta e engatilha sua bengala, que na verdade é um rifle adaptado. Apesar de cego, ELE atira na direção exata onde está VERÔNICA. VERÔNICA cai baleada. Barulho de gritos, as supostas pessoas deixaram o lugar. SONIA volta ao palco e vê o corpo da amada.

SÔNIA- Verônicaaaaaa!!!

URSO- Acertei, Catarrento?! Acertei?!

CATARRENTO- Impressionante! Que talento! O senhor devia competir nas parolimpíadas.

SÔNIA- Você matou ela, seu monstro?! Atira em mim! Atira aqui no coração!

CATARRENTO- Catarrento! Verifica se a fujona apagou mesmo.

CATARRENTO vai até VERÔNICA, mas ELA se levanta e imobiliza ELE com um mata-leão.

URSO- O que está acontecendo?!

SÔNIA- Isso, menina!!! Você sobreviveu?!

VERÔNICA- Por sorte a bala pegou aqui, na fivelinha do meu sutiã.

URSO desta vez não é mais tão preciso, balança o rifle cheio de incerteza.

URSO- Onde você está?! Onde você está, vadia?!

VERÔNICA- Se atirar, vai acertar no seu capacho Catarrento.

CATARRENTO- (SUFOCANDO) Não, meu amigo! Não!

URSO atira. CATARRENTO leva o tiro, VERÔNICA o solta e ELE cai no chão. CATARRENTO agoniza no chão. VERÔNICA corre em direção a URSO e agarra o rifle/bengala antes que ELE recarregue. Os DOIS ficam cara a cara enquanto lutam pela arma. ELES falam com dificuldade um para o outro por conta da luta pelo rifle.

VERÔNICA- Cretino! Você atirou nele!

URSO- Era teu inimigo. Que te importa?

VERÔNICA- Acho o fim da picada.

URSO- Já estava com o pulmão pretinho. O médico tinha dado três semanas pra ele e isso foi duas semanas atrás.

VERÔNICA- Mesmo assim, ainda faltava uma semana. E com os cuidados adequados, pode ser que até mais de um mês.

URSO- E você ia ter uma vida inteira pela frente! Mas vai morrer, cretina! Vai morrer!

VERÔNICA- Sonha, bem.

VÊRÔNICA desarma URSO, aponta a arma para ELE.

VERÔNICA- Pronto, querido. Desiste. Já está sem teus olhinhos, tem mais duas bolinhas pra baixo que com um tiro só vão embora daqui!

URSO- Atira no peito, vagabunda! Acaba comigo de uma vez!

VERÔNICA- Sai por onde entrou, cafageste. Some. Não chuto cachorro morto, não. Fora daqui! Anda!

URSO- (AMALDIÇOA) Eu nunca mais poderei olhar teus belos olhos, Verônica. Mas você ainda há de me ver. E será tua última imagem tomada dessa terra, a visão que levará cravada na alma, vai ser eu.

VERÔNICA atira perto DELE, URSO sai correndo tateando as paredes e vai embora dali. VERÔNICA se aproxima de SÔNIA.

VERÔNICA- Eu tenho que ir. Descobriram meu disfarce, logo a polícia vai estar aqui.

SÔNIA- Mas você vai assim?! Quando é que eu vou te ver de novo?

VERÔNICA- Provavelmente nunca mais. Adeus.

ELAS se beijam suavemente. VERÔNICA sai ágil sem olhar para trás. SÔNIA enxuga suas lágrimas silenciosas. CATARRENTO, que está agonizando no chão, tira o maço de dinheiro do bolso com muita dificuldade.

CATARRENTO- Ei… Ei… Mocinha.

SÔNIA- Oi? Está falando comigo?

CATARRENTO- Chama… ambulância pra mim…

SÔNIA- Não entendi. Fala um pouco mais alto.

CATARRENTO- Ambulância… Fica com tudo… Por favor…

SÔNIA- (SONSA) Pra mim?! Esse dinheiro todo pra mim?! Nossa muito obrigada!

CATARRENTO- Ambulância…

SÔNIA conta o dinheiro com calma.

SÔNIA- Cem… Duzentos… trezentos…

CATARRENTO- Ambulância…

SÔNIA- Nossa… quanto dinheiro… Não posso perder a conta… oitocentos…

CATARRENTO- Ambulância…. Mocinha…

SÔNIA- Mil trezentos e vinte e cinco! Até que dá pra comprar uma boa motoca!

CATARRENTO- Ambulância….

SÔNIA- (SE FAZ DE LOUCA) Não sei de ambulância nenhuma. Tem uma mesa simpática ali no fundo. Pode ser?

CATARRENTO- Pelo amor de Deus… Mocinha…

SÔNIA- (AINDA BRINCA) Mocinha a enfermeira, você diz? Não querido. Era só fantasia. (JÁ SAUDOSA) Ela levou a fantasia. Meus sonhos e desejos… e partiu.

CATARRENTO morre. SÔNIA ali em sua solidão.

Fim….