Nada que eu disser será suficiente até que o sol se ponha

Com a colaboração de Elisa Pinheiro

Trecho final da peça que estreou em junho de 2006 e deu origem à cia Teatro de Nós (http://www.teatrodenos.com.br/). Na foto, Renata Mizrahi e Elisa Pinheiro.
(…) Voz: Silêncio. A janela volta a abrir. Ela e A Outra se olham assustadas.

A Outra: O quê você fez?

Ela: Você viu. A Outra: O Que isso quer dizer?

Ela: Não sei.

Voz: A Outra abraça Ela com muita força.

Ela: Acho que a gente vai acabar conseguindo sair daqui.

A Outra: O que você irá fazer depois.

Ela: Não sei. Comer. Dormir. Voltar para o teatro. Pensar. E você?

A Outra: Eu não tenho nada para fazer.

Ela: Tem sim. Você não trabalha?

A Outra: Só quando quero.

Ela: E não quer?

A Outra: Quero. Não. Quero. Droga, estou ficando com fome.

Ela: Não pense nisso, senão a fome aumenta.

A Outra: Me desculpa.

Ela: VOCÊ está me pedindo desculpas pelo o quê?

A Outra: Eu realmente não sei se quero sair daqui.

Ela: Eu sei que você não quer.

A Outra: Você quer muito.

Ela: Sim. Não. Sim. O que você vai ficar fazendo aqui?

A Outra: O mesmo que lá fora, nada.

Ela: Vai ficar com fome. E se não aparecer comida? (Pausa.) Eu posso te ajudar.

A Outra: Por favor, eu odeio piedade.

Ela: Eu não tenho a menor pena de você, eu até te admiro.

A Outra: Quer deixar de ser boazinha?

Ela: Você me acha uma moça boa?

A Outra: Muito.

Ela: Boa mesmo?

A Outra: Uma delícia.

Ela: Não é disso que eu estou falando.

A Outra: Ah, não?

Ela: Engraçadinha. (Pausa.) Você acha que as pessoas devem ser boas?

A Outra: Boas como?

Ela: Bondosas.

A Outra (Sem muita certeza.) Só se quiserem.

Ela: Às vezes eu acho as pessoas muito boas muito chatas.

A Outra: Não existem pessoas muito boas.

Ela: Claro que existem! Mas são chatas.

A Outra: Chatas são as que querem parecer muito boas.

Ela: E fazem caridade.

A Outra: Odeio essa palavra.

Ela: Caridade?

A Outra: É.

Ela: Eu também. A caridade implica sempre uma relação de cima para baixo. Os melhores são

bons para os piores. E voltam para casa como quem está mudando o mundo.

A Outra: É exatamente o que eu penso.

Ela: Prefiro solidariedade.

A Outra: Eu também.

Ela: A gente está se entendendo.

A Outra: Isso não é bom?

Ela: É.

A Outra: Mas não é só bom. É ruim também.

Ela: Como isso pode ser ruim?

A Outra: Não sei, mas tudo é bom por um lado e ruim por o outro. Tudo.

Ela: Mas têm coisas que são mais boas que ruins e vice-versa.

A Outra: Depende do ponto de vista.

Ela: Como assim? Você quer dizer que o fato de duas pessoas se tornarem amigas e se gostarem

pode ser ruim de alguma forma?

A Outra: Certamente. Mas isso não é importante.

Ela: Talvez.

A Outra: Então o resto não importa.

Ela: Você é estranha.

A Outra: Você também.

Ela: (Ri) É verdade, eu também sou estranha.

A Outra: Está vendo como tudo é relativo? Há alguns momentos atrás você seria capaz de me

atirar uma pedra por causa desse comentário. Agora você concorda comigo e até sorri.

Ela: . Eu não ia te atirar uma pedra! Mas vamos voltar à questão das pessoas boas.

A Outra: Mais ou menos boas.

Ela: É. Você não acha elas chatas?

A Outra: Chatérrimas.

Ela: Mas têm as ruins que são chatas também.

A Outra: Têm…

Ela: Na verdade, acho que as pessoas podem ser arrogantes, engraçadas, generosas, ciumentas,

um monte de coisas. Mas não boas ou ruins.

A Outra: Nada é bom ou ruim.

Ela: É sim, mas tem muitas variantes.

A Outra: A cultura, por exemplo.

Ela: A cultura é a maior delas.

A Outra: Por exemplo: quem inventou que verde combina com laranja?

Ela: Que iogurte desnatado com aveia é melhor do que pão com manteiga?

A Outra: Que não dá mais para viver sem celular?

Ela: Que é feio falar mal dos outros?

A Outra: Que dizer palavras em inglês no meio da frase é “cool”?

Ela: Que a gordinha é feia e a magra é bonita?

A Outra: Eu não acho.

Ela: Eu também não.

A Outra: Que dinheiro não traz felicidade? (Pausa.) A hipocrisia é uma merda.

Ela: Mas tem seu lado bom.

A Outra: Não tem não!

Ela (Irônica): Ué, não?

A Outra: É, deve ter… Sei lá. Acho que é como o bonito e o feio. Existe um consenso, um

inconsciente coletivo que decide o que é feio e o que é bonito. Existe aquela modelo internacional que todo mundo concorda que seja linda de morrer.

Ela: Mas têm aqueles que não acham tanto assim.

A Outra: Exatamente.

Ela: Assim como tem aquele traficante horroroso que todo mundo toma como exemplo de elemento ruim para a sociedade.

A Outra: E existe a namorada dele do outro lado achando tudo o que ele faz uma maravilha.

Ela: Louco, né?

A Outra: Louco.

Ela: Eu, por exemplo. Não sei se insisto em ser atriz ou se faço um concurso público.

A Outra: Credo!

Ela: Credo o quê?

A Outra: Você vai deixar a arte para se tornar uma escrava do sistema?

Ela: Que ridículo.

A Outra: Absolutamente ridículo.

Ela: Você às vezes é ridícula.

A Outra: E você? “Ai, não sei se quero mais ser atriz…”

Ela: Você não se importa?

A Outra: Eu não.

Ela: Arrogante.

A Outra: Arrogante? Acho que você não sabe o que é isso.

El
a: Arrogante. Adjetivo masculino e feminino. Que tem ou denota arrogância. Arrogância. Substantivo feminino. Altivez, insolência, orgulho, presunção.

A Outra (Rindo): Quantos anos você tem?

Ela: Não importa. Mas eu queria voltar aos meus dez anos.

A Outra: Já sei, para não se sentir tão culpada por tudo e por todos. E não ser tão insegura.
Ela: Exatamente!

A Outra: Eu não, Deus me livre! Não vendo minha liberdade por nada.

Ela (Rindo): Liberdade? Coitadinha. Que liberdade?

A Outra: Eu sou livre sim.

Ela: Ah, é? De quê?

A Outra: Não é de quê, é pra quê.

Ela: Que seja.

A Outra: Pra viajar, por exemplo.

Ela: Com que dinheiro?

A Outra: Eu arranjo.

Ela: Sei.

A Outra: Pra namorar.

Ela: Com quem?

A Outra: Com quem eu quiser.

Ela: Poderosa, heim?

A Outra: Pra trabalhar.

Ela: Em quê?

A Outra:No que der.

Ela: Essa é a sua liberdade? Pois eu queria voltar aos meus dez anos. Minhas obrigações eram tirar nota boa e ser obediente. Fora isso, meu dia era preenchido por brincadeiras, desenhos animados e casa de avô. Quer coisa melhor?

A Outra: Você está quase me convencendo. Confesso que tem vezes que invejo o meu cachorro.
Ela: Não queria que você chegasse a esse ponto.

A Outra: Tudo bem, não precisa se preocupar. É só um desejinho de viver dormindo, comendo e fazendo cocô na rua. Sem me preocupar, porque minha ração vai estar sempre no potinho sem que eu precise fazer nada para isso.

Ela: Não ache que você viva diferente disso. Você está pior que eu.

A Outra: Estou igual a você.

Ela: Não, nós somos muito diferentes.

A Outra: Não é isso o vem me dizendo.

Ela: Mudei de idéia.

A Outra: Eu também. (Pausa.) Não falei que sou igual a você, falei que estou igual.

Ela: Isso muda o quê?

A Outra: São coisas diametralmente opostas.

Ela: Para mim dá no mesmo.

A Outra: Ser é um estado permanente; estar é efêmero. Isso muda tudo.

Ela: Se a gente falasse inglês ou francês não teria diferença nenhuma. Não tem essas frescuras de ser e estar. É to be, être e pronto.

A Outra: Me convenceu.

Voz: Foi então que a janela aumentou de tamanho

Ela: Opa! Isso é um bom sinal! Estamos chegando lá!

A Outra (Alto): Eu não sei aonde eu quero chegar!

Ela (Alto): Pare de pensar só em você.

A Outra: Eu não consigo!

Ela: Consegue! Consegue! Consegue! (Pausa) Eu quero ir embora.

A Outra: Eu quero ficar.

Ela: Por quê?

A Outra: Não importa.

Ela: Eu não quero te deixar aqui.

A Outra: Por quê?

Ela: Não importa.

A Outra: Quem é você?

Ela: Eu não sei. Mas não me preocupo mais com isso.

A Outra: Que bom.

Voz: A Janela aumentou ainda mais de tamanho.

A Outra: O que será que tem lá fora?

Ela: Você não lembra?

A Outra: Não.

Ela: Por quê não tenta descobrir?

A Outra: (Ri) Obrigada. Não dá para enxergar nada.

Ela: É preciso sair daqui.

A Outra: Você não tem medo?

Ela: Sim. Não.

A Outra: E as respostas?

Ela: O quê?

A Outra: Você as encontrou?

Ela: Não. Sim. Sim.

A Outra: Que bom.

Ela: Obrigada.

Voz: A Janela aumentou mais, no tamanho suficiente para uma pessoa passar.

Ela: Vamos?

A Outra: Eu?

Ela: Claro.

A Outra: Me deixa em paz.

Ela: Vamos?

A Outra: Eu?

Ela: Claro.

A Outra: Talvez.

Ela: Vamos.

A Outra: Eu?

Ela: Claro.

A Outra: Vamos.

Voz: A janela aumentou até ficar do tamanho de uma porta. Foi aí que eu parei e olhei de verdade pra mim. Então eu fui.

Ela: Quem é você?

A Outra: O quê isso importa.

Ela: Não importa.

FIM

Bruxarias urbanas

Trecho do espetáculo “Bruxarias Urbanas” , texto que escrevi em 2006, onde uma cidade é sitiada por conta de uma epidemia de autocombustão.

Na cena, Valentina Clark entrevista Oráculo, uma vidente picareta que jura ter conhecido Helena Elvira, a primeira mulher a entrar em autocombustão na cidade e que pode solucionar o misterioso caso da epidemia.

(Encruzilhada de Oráculo. Câmera, ação!)

Valentina: ( sempre apática) Aqui é Valentina Clark diretamente do “Aconteceu comigo”. Estou aqui com Oráculo, vidente profissional, que diz ser a testemunha da autocombustão de Helena Elvira. A senhora presenciou de fato essa primeira manifestação?

Oráculo: (sorrindo débil) Eu estou muito abalada com tudo que está acontecendo em toda cidade, mas esteja onde estiver, Helena está olhando pra nós agora com seu coração imenso!

Valentina: Então, a senhora era muito amiga dela?

Oráculo: Eu conhecia a alma desta mulher! Quando ela botou os pés em minha encruzilhada eu logo vi: um espírito evoluído.

Valentina: Então a senhora desmente os rumores de que Helena teria sido possuída por satã?

Oráculo: Pura bobagem! Helena era um ser iluminado demais para ser compreendido neste sistema.

Valentina: Que sistema?

Oráculo: Nesse sistema.

Valentina: Então, seria o estresse a real justificativa para o ocorrido?

Oráculo: Valentina, se estresse fizesse uma pessoa pegar fogo, o que teria de fogueira humana por aí…

Valentina: Então sabe o que teria acontecido realmente?

Oráculo: Claro!

(pausa)

Valentina: Então, o que teria acontecido realmente?

Oráculo: O que teria acontecido realmente está escrito aqui no meu livro, (mostra o livro) “Oráculo por Oráculo”, que está sendo lançando na próxima quinta. Aqui você encontra a verdadeira Helena, sem máscaras, sem mentiras! O livro é bárbaro!E não é só isso: Na compra de um exemplar você leva inteiramente grátis a “chama da revelação”: Uma bonequinha feita de papel, que ao colocá-la no fogo, por dentro se revela um sábio dizer chinês. Um singela lembrança em memória desse ser único chamado Helena Elvira, que afinal de contas foi a pioneira na autocombustão.

Valentina: Então a senhora não nos revelará nada do que realmente aconteceu com Helena Elvira?

Oráculo: Não. (sorri) Compra o livro.

Valentina: Helena teria pegado santo.

Oráculo: Não é “pegar santo”, Valentina, é “manifestar uma força espiritual superior”! E hoje em dia ta tudo muito moderno. Tem até jogo de búzios via Internet, sabia? Helena está mais que conectada com seu tempo.

Valentina: (na mesma naturalidade) E a senhora não acha toda essa gente estúpida por acreditar num absurdo como este?

Oráculo: (pausa reflexiva) Não.

Valentina: (natural) Por que?

Oráculo: O povo tem a necessidade de acreditar em alguma coisa. E como diria o poeta: a fé toca o gado.

Valentina: E a senhora não se acha oportunista por estar se aproveitando dessa situação cobrando por um dom que lhe foi dado?

Oráculo: (violenta) Valentina, eu não moro numa cabana no meio do mato catando runas e falando em línguas… O mundo ta aí! A sociedade ta aí! Ta tudo aí!

Valentina: Fontes seguras afirmam que Helena Elvira nem nunca botou os pés em sua encruzilhada e que tudo não passa de cambalacho da senhora. A senhora confirma?

Oráculo: Não me ofenda! Eu sou uma profissional! (vai saindo)

Valentina: (persegue com o microfone em punho) A senhora quer ou não quer dar o golpe?

Oráculo: Me deixa em paz!

Valentina: Como teria realmente morrido Helena Elvira???

Oráculo: (grita) Ta no livro!!!

Valentina: Tudo isso, na verdade, não passa de mais um embuste do capitalismo selvagem?

Oráculo: (volta-se furiosa) (Profética) Desgraça para ti! Para seus filhos e os filhos de seus filhos! A vida vai de ré e nunca para frente, como uma ferida no céu da boca que não sara nunca! Tu vai definhar, diminuir, doença sem cura! Filha da mula que pariu o medo, tormenta escura sem eira e nem beira. Tudo o que roda pára. Tudo o que anda pára. Tudo o que cresce pára. Ciclo de dor e sofrimento que como a lua minguante varia e se inicia e finda, finda e se inicia e vice- versa! Pagarás! Pagarás!!!! (gargalha , queimando viva, vitima da epidemia.)

Valentina: (natural) Então meus amigos, momento de muita emoção aqui na encruzilhada da Oráculo. Acompanhamos ao vivo, a sua autocombustão. Porém caímos num profundo abismo,. O que teria realmente levado Helena Elvira para a morte? Seria Helena Elvira a chave de todo esse mal? Eis a pergunta que não quer calar. Aqui é Valentina Clark direto para o “Aconteceu comigo” (A câmera é desligada. Breve pausa. ) Meu dente ta sujo?

(e por aí, vai…)

Sim ou não?

Quadro do programa “Miséria Show”
O apresentador Kleiton Aguiar recebe uma jovem de 30 anos no quadro clássico em que a pessoa fica presa dentro de uma bolha e tem que responder, aleatoriamente, “Sim” ou “Não”.
KLEITON – (PLATÉIA) Vou pedir que a platéia receba com muito entusiasmo a jovem Irinéia, de 30 anos, no nosso quadro A bolha dos desesperados!
Irinéia entra um pouco sem graça.
KLEITON – Irinéia, conta para o público que está nos assistindo: está muito nervosa?
IRINÉIA – Muito, muito nervosa Kleiton.
KLEITON – Qual a sua profissão?
IRINÉIA – Eu trabalho no setor de embalagens de nuggets, lá na minha cidade.
KLEITON – Empacotando o franguinho, não é? (IMITA SILVIO SANTOS. PÉSSIMO) Você é uma pessoa decidida?
IRINÉIA – Como assim?
KLEITON – (PLATÉIA) Ela não é!
IRINÉIA – Não sou o quê, gente?
KLEITON – Você sabe o que quer?
IRINÉIA – Depende, ué!
KLEITON – Irinéia, não vá estragar a audiência do programa. Vai lá pra bolha, peste!
Irinéia entra dentro da bolha e põe um fone de ouvido.
KLEITON – Tá me ouvindo, Irinéia?
IRINÉIA – Tô.
KLEITON – Vou explicar como funciona o quadro….
IRINÉIA (CORTA) – Kleiton, tem como deixar uma parte da bolha aberta?, é que eu tô com falta de ar.
KLEITON – Quem sabe faz o quê?
PLATÉIA – AO-VI-VO!
KLEITON – Irinéia, agora seu áudio será desligado e sempre que vir a sirene acender, você responda SIM ou Não. Ok?
IRINÉIA – Sim!
Kleiton – Jovem esperta.
IRINÉIA – Não!
KLEITON – Ainda não começou o jogo, besta. (PRODUÇÃO) Podem cortar o áudio. (IRINÉIA) Você troca esta blusa que está usando por um carro zero?
IRINÉIA – Sim!
KLEITON – E troca este carro zero por uma viagem para Búzios?
IRINÉIA – Sim!
KLEITON – E a viagem para Búzios, troca por um saco de merda na cabeça?
IRINÉIA – Siiiiiiim!
Abrem o áudio.
KLEITON – Irinéia, minha querida, tá me ouvindo?
IRINÉIA – Nãaaaaao!
KLEITON – Você tem que aprender a não aceitar tudo que te oferecem, pois você tinha um carro zero e trocou por um saco de bosta na cabeça!
IRINÉIA – Nãaaao!
Fecham o áudio.
KLEITON – Você troca um saco de bosta na cabeça por dez meses de supermercado grátis?
IRINÉIA – Não!!!!
KLEITON – Troca o saco de merda pelo fim da fome na África?
IRINÉIA – Não, não.
Abrem o áudio.
KLEITON – Irinéia, minha querida, tá me ouvindo?
IRINÉIA – Nãaaaaao!
KLEITON – Também não é pra dizer “Não” pra tudo, pois você preferiu um saco de merda a acabar com a fome na África.
Fecham o áudio.
KLEITON – Você troca o saco de merda por um ano em Paris?
IRINÉIA – Siiim!
Platéia comemora.
KLEITON – Você troca Paris por Pariscida do Norte? (RINDO)
IRINÉIA – Siiiim!
KLEITON – E você troca Aparecida do Norte pela sua mãe?
IRINÉIA – Sim!
KLEITON (SEGURANDO O RISO) – Irinéia é puta ou não é?
IRINÉIA – Siiiiiim!
Platéia gargalhada.
KLEITON – Irinéia, você quer tomar no cu?
IRINÉIA – Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!
KLEITON – E você troca o seu cabaço por UM MILHÃO DE REAIS?
Irinéia pensativa.
KLEITON – (CÂMERA) Pausa para os comerciais. Não saia daí!
CONTINUA.

E para quem ainda não viu essa encruzilhada real (indicação de Leandro Muniz!), divirtam-se!

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Adormecida redux

aperte o play…

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prelúdio…

Encontrei o meu maior amor em sonho

e nunca mais o vi………………..

Das pessoas todas da TERRA de todos os TEMPOS…

A conjunção mais perfeita, encaixe único…

TRÊS existiram apenas. Um deles, com esperança, ainda hoje. (22 set 2009, 13:14)

O primeiro foi ourives na Pérsia antes do Deus Menino nascer ali perto.

Se esse homem que esperou romance durante toda a vida inutilmente…

Enganado, misturando sua carne com homens e mulheres de diversos credos.

Uns mais pecadores e outros menos.

Se ele me visse descendo a rua do mercado, e eu a ele…

O sol da Babilônia castigando o corpo ávido…

Ele se apaixona por mim e eu junto num segundo tão inteiro,

capaz de destroçar um coração mais desatento.

O cheiro do sovaco sujo chega antes, do outro lado da cidade.

Por isso se banhou em perfumes, me esperando.

Seu sabor, preso numa teia de aromas. span>

Mesmo assim, no meu instinto, a certeza de que é ele.

Quando o vento muda, sinto em mim o calor impresso de sua pele.

Perfeitos um para o outro, e afastados por milênios…

Arrastados muitos anos na distância.

Deus permitiu que nos encontremos

Em sonho, e apenas uma vez.

E assim foi… >>>


primeiro ato…

DESEJO EM SEU ESTÚDIO ONÍRICO QUE TEM O FORMATO DE SEU PRÓPRIO CORPO. ELA SAI DE TRÁS DE UMA PESTANA QUE PARECE MAIS UMA CORTINA ROJA.

Bem vindos ao gostosinho programa” Desejo de Viver”… onde viver nunca é demais!

Sorte também nunca é demais, dona Desejo!

Alguém te perguntou, bafo de ovo?

(AVACALHADA) Bafo? Eu?

Vamos a primeira prova…

(INCONFORMADA) Eu tô com bafo?

Cala a boca. Ela tá falando.

Hoje, minha gente, a melhor caracteriza?
?ão e dublagem de Bethania ganhará… o quê Joyziene?

Esse lindo conjunto de pano de pratos.

Que belo! E foram bordados a mão? Né verdade?

Com certeza, Dona Desejo! Vieram direto da Bahia. E as bordadeiras morreram todas num confronto de terras. Esse estilo de ponto cruz só tem naquela região e agora, nem lá mais.

Taí! Isso que é um premio bom! Ponto extinto cruz, só em “Desejo de Viver”

Além da vida. É claro. Só quem vence vai viver, e quem viver, verá.

A vida desses dois não vale nada. O que morrer é um favor que faço.

Mas,,, mas,,, mas,,, mas,,, mas,,,

Enguiçou a vitrolinha?

Mas,,, eu quero viver!

Então viva! Pra viver, basta estar aí! Respirando igual sanfona! Poderias afirmar que aproveitas a vida?

Er… sim.

Manda pra caracterização, Joyziene!!! E o outro cadê? (VÊ) Nossa. De que forno à lenha saiu essa lasanha, minha gente? Qual seu nome, rapagão?

…………………..?

Produção!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Mandaram um surdo, porra?! Já me bastava a ceguinha domingo passado!!! (essa piada infame é em homenagem à Renata. !Feliz cumpleaños, Rê!)

Não é surdo, dona Desejo. Ele é persa!

Ah! Mas vocês também não explicam!!!

DESEJO COLOCA UM VÉU E SE APROXIMA DO PERSA, SOLÍCITA.

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DESEJO ARRACA O VÉU DO ROSTO NUM MOVIMENTO ESDRÚXULO.

Joyziene! Bota figurino no turco!!!

Sim senhora, dona Desejo.

Sem mais delongas!!! Preparados?! Lip sync for your life!!!

EU E RAPAZ PERSA SOMOS OBRIGADOS POR UMA JOYZIENE ARMADA A DUBLAR BETHÂNIA…
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ENTÃO ACORDEI.

Continua numa encruzilhada futura…

Ouro de tolo ou As time goes by

Maria – (festiva) Boa noite! Bem vindos a mais uma edição da festa do Oscar! (para uma platéia imaginária) Olá! Quem merece ganhar o grande prêmio Maria ou Joana? Ah, que maravilha! Obrigada pela sua opinião. (pausa. Emocionada tenta entrevistar alguém que na verdade é ela mesma) Aí vem ela. Maria, por favor uma declaração!

(diva) Olá! Boa noite! Obrigada pelo carinho! Ah, sobre o meu casamento desfeito…
(entra ao fundo a música “as time goes by” fundindo com a imagem da cena final de do filme Casablanca com Maria no papel de Ilsa. http://www.youtube.com/watch?v=cfxJCdBFuLk)

Maria: Não, Richard. O que aconteceu com você? Ontem à noite você disse…

Richard: Ontem à noite falamos muitas coisas. Pensei muito desde então. A solução é uma só. Você vai pegar aquele avião. Que é o que deve ser.

Maria: Você só está me dizendo isso para que eu vá embora.

Richard: Estou dizendo porque é verdade. Lá no fundo nós dois sabemos que você deve ficar com Victor. Se o avão partir e não estiver com ele irá se arrepender. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas logo. E pelo resto da sua vida.

Maria: Mas, e nós?

Richard: Nós sempre teremos Paris.

(Luz sai em fade com a música “as time goes by” . Luz abre Maria está numa sala fina com uniforme de faxineira. Segurando um espanador como microfone. Pisa no tapete que James está limpando)

James – Ô minha filha, dá licença!

Maria – Ai desculpa!

James – Desculpa! Presta atenção! Se você não é capaz de fazer o seu trabalho não venha atrapalhar. Sai de cima do tapete! Inferno! Eu estou cercado de incompetentes! Vou ter que carregar você e o tapete agora? Você quer me dar uma hérnia de disco?

Maria – Não!

James – Ah, não quer? Não parece…

Maria – Eu… é… desculpa! Desculpa!

James – Você já disse isso. Você está ficando repetitiva hein, minha filha!

Maria – (grita sofrida) Chega! Eu estou cansada! Eu também sou gente! (diva) Você acha que é fácil ouvir todos os dias: Vamos lá querida! Brilhe! Brilhe!

James – Brilhe! Brilhe! Eu tenho que dar brilho nos móveis, lustrar taças de cristal e caçar perdizes para o jantar. Brilhe! Brilhe! Eu tenho que separar o par de brincos de diamante que combine com a bolsa e o sapato, eu tenho que saber diferenciar cristal de diamante, reconhecer rubi, esmeralda, ônix. Ônix! Pode existir nome mais horroroso do que ônix? (James puxa o tapete e Maria cai)

Maria – Cóccix?

James – Eu estou falando de pedras, sua ignorante. Você não é capaz de diferenciar ônix de talher de peixe! (sai)

Maria – (diva) Eu não preciso disso! Eu tenho talento! (pausa. Reflexiva e quase triste) Isso não atrapalha nada. É você que se embola nas suas encruzilhadas…
(pega um livro de bolso e interpreta para si mesma o seu melhor papel)

“[Apóia-se na mesa.] Estou tão cansada! Se eu pudesse descansar … descansar… [Levanta a cabeça.] Eu sou uma gaivota … Não, não é isso. Eu sou uma atriz. Eu sei que sou! [Ouve risos] Ah, ele também está aí. Mas é claro… Não tem importância… É… Ele não acreditava em teatro, ria de todos os meus sonhos, e, aos poucos, eu também fui deixando de acreditar, e perdi a coragem… Você não imagina o que é saber que se está representando vergonhosamente mal. Eu sou uma gaivota. Não, não é isso… [Ela esfrega a testa.] O que é que eu estava dizendo? Ah, sei; estava falando do teatro. Agora já está tudo bem diferente… Agora eu já sou uma atriz de verdade; eu trabalho com alegria, com êxtase, em cena eu fico como que embriagada, e tenho a impressão de que fico linda. E agora, nesses dias aqui, eu tenho andado sem parar, e pensado e pensado, e eu tenho a impressão que cada dia estou ficando um pouco mais forte. Agora eu sei, agora eu compreendo que o essencial em nossa profissão – tanto faz que seja no palco ou na literatura – o essencial não é a glória, nem a fama, nem nada daquilo com que eu sonhava, e sim saber agüentar com paciência… saber carregar a cruz e ter fé. Eu tenho fé, e já não sofro tanto; e quando penso em minha vocação, não tenho medo da vida.” (A Gaivota, de Anton Tchekhov)

FIM

em breve:

A vida é decidida nos pequenos detalhes

Cena 1 – Elaine chega em casa carregando sacolas de supermercado. O telefone está tocando. Ela larga as sacolas na entrada da sala e sai correndo para atender.
Elaine – Alô? Alô? (Silêncio. Desligam. Ela retorna para pegar as sacolas. O telefone toca novamente, ela volta).
Elaine – Alô.
Voz feminina – Elaine?
Elaine – Quem fala? (pausa/ silêncio) Alô?
Voz – Uma amiga.
Elaine – Amiga? Da onde?
Voz – Elaine eu não vou tomar muito o seu tempo. Só estou ligando porque eu acho que você vai gostar de saber.
Elaine – Saber o que? Quem está falando?
Voz – Elaine, se você for à Rua São Clemente, nº 298, Botafogo, você vai descobrir.
Elaine – Descobrir? Do que você está falando?
Voz – Você sabe onde está seu marido, Elaine?
Elaine – Meu marido? Por que a pergunta?
Voz – Sabe?
Elaine – Meu marido está no trabalho, numa reunião de trabalho.

Voz – Hotel Panda, suíte 69.

Elaine – O que? (Telefone desliga) Alô? Alô! Quem está falando?

Cena 2 – Restaurante. Elaine está sentada numa mesa com um homem. Ela, de frente para a platéia, ele, por sua vez, está de costas, de frente para ela. Os dois bebem champanhe.

Elaine – Naquela hora meu coração disparou, minha boca ficou seca, minhas mãos congelaram. Se eu soubesse o quanto a minha vida mudaria depois daquele dia. Eu não conseguia acreditar que ele pudesse… Ele nunca meu deu motivos pra eu desconfiar. Mas a mulher tinha sido bem clara: Hotel Panda, suíte 69. Fiquei parada sem querer estar no meu lugar. Sem querer decidir. Não queria ir, não conseguia ficar. Uma coisa era certa: “saber” significava “perder”. Eu tinha muita coisa a perder.

Homem – Ou a ganhar.

Elaine – Se eu não tivesse atendido aquele telefonema.

Homem – A vida é decidida nos pequenos detalhes.

Elaine – Peguei a bolsa. As chaves do carro. Quando eu já estava dentro do carro, pronta pra engatar a primeira, recuei. Ponto morto. Não sei por que uma sensação de morte. Parecia uma premonição. Na dúvida, acendi um cigarro. Ia decidir, no tempo em que durasse o cigarro, se eu iria ou não. Primeira tragada. Segunda tragada. Nem abri as janelas. Fiquei dentro do carro, de janelas fechadas, sendo esmagada pela fumaça. Terceira tragada. Meu tempo estava se esgotando. Às vezes é melhor não saber. Não decidir. Deixar as coisas acontecerem. Mas isso a gente só sabe depois que já tomou a decisão.

Homem – No fundo, no fundo, você sabia, mesmo inconscientemente, o que ia acontecer quando você entrou naquele quarto.

Cena 3 – Hotel Panda. Suíte 69. Elaine reticente bate na porta que se abre. Um homem aparece, bem vestido, sorriso discreto.

Elaine – Caio? Você?

Homem – Surpresa. (Elaine dá uma rápida olhada para dentro do quarto para ver se há mais alguém. Só o abajur ligado. Em cima de uma mesa um balde de gelo com champanhe. Duas taças. Uma música suave toca. Elaine fala qualquer coisa).

Elaine – Que brincadeira, eu levei um susto com o telefonema…

Caio – Shihhh. Não fala nada. (Caio a interrompe com um beijo apaixonado. Os dois vão para a cama).

Cena 4 – Continuação da cena 2. Elaine e Caio no restaurante, fazendo um brinde.

Caio – Parabéns pelo nosso aniversário.

Elaine – Um ano.

Caio – Valeu à pena?

Elaine – Que pergunta.

Caio – Valeu?

Elaine – Você quer ouvir a verdade? (sarcástica)

Caio – Você promete não ser cruel?

Elaine – Como eu vou saber?

Caio – Saber o que?

Elaine – O que teria acontecido se eu não tivesse ido até o Hotel naquela noite. Entrado no quarto. Como estaria a minha vida hoje?

Caio – Posso te dizer uma coisa? Você iria, de uma forma ou de outra. Eu só facilitei as coisas pra você.

Elaine – Você decidiu por mim.

Caio – Você fez a escolha certa.

Elaine – Eu? Será?

Cena 5 – Casa de Elaine e Sergio. Ele toma um último gole de café. Pega o paletó e sai andando apressado, falando e se despedindo de Elaine.

Sergio – Tenho que ir, meu amor. Tô atrasado.

Elaine – Nosso cineminha ta de pé?

Sergio – Hum, esqueci de te dizer. Vou chegar mais tarde hoje. Tenho uma reunião importante, vão decidir sobre a transferência.

Elaine – Vai dar tudo certo.

Sergio – Eu sei que vai. Você já pode ir fazendo as malas e treinando o seu inglês.

Elaine – Take it easy, my Darling!

Sergio – (sorrindo) Amanhã a gente vai ao cinema. Prometo meu anjo. (dando um beijo na testa de Elaine) Você vai sair?

Elaine – Tenho que ir ao banco, supermercado, nada demais. Não tem nada na geladeira.

Sergio – Compra um vinho pra gente comemorar.

Elaine – Pra comemorar prefiro champanhe.

Sergio – A senhora esta muito “saidinha”.

Cena 6 – Hotel Panda – Suíte 69. Elaine e Caio estão sentados, na cama, sem roupa, Caio faz um brinde.

Elaine – Estamos comemorando alguma coisa que eu não sei?

Caio – Estamos, meu amor. Hoje é um dia especial. Estamos comemorando… (Batem na porta, Caio se levanta e vai até o banheiro).

Caio – Atende, por favor, meu amor?

Elaine – Você pediu alguma coisa?

Caio – (do banheiro) Mais champanhe. (Elaine se enrola no lençol e vai atender)

Sergio – Elaine?

Elaine – Sergio?

Fim