Eu, eu
Analista: Mas você não pediu o divórcio na semana retrasada?
Mulher: De mim. Eu quero me separar de mim.
Analista: Interessante. Desenvolva.
Mulher: Eu não agüento mais. Eu não me agüento mais. Eu não posso mais viver comigo mesma. Se eu passar mais um dia debaixo do mesmo teto que eu, eu não respondo por mim.
Analista: Entendo.
Mulher: Nos últimos seis meses eu troquei de emprego, larguei meu marido, mudei de casa…
Analista: Todas boas conquistas.
Mulher: Até permanente no cabelo eu fiz.
Analista: Essa não foi tão boa.
Mulher: Mas agora eu percebo que isso tudo não foi o suficiente.
Analista: Interessante. Desenvolva.
Mulher: Porque independentemente do trabalho que eu estou fazendo, do lugar em que moro ou de quem dorme do meu lado, eu estou sempre lá!
Analista: E como é isso pra você?
Mulher: Insuportável. Eu preciso me separar de mim.
Analista: Entendo. O que te levou a tomar essa decisão?
Mulher: Milton Nascimento.
Analista: Interessante. Desenvolva.
Mulher: Semana passada eu acordei com o “Melô do Tchaco” na cabeça.
Analista: Entendo.
Mulher: Foi um choque. Eu sabia estrofes do tipo “Cadê o feijão? Tá na casa da dona maria…”
Analsita: Interessante.
Mulher: Então eu comentei com uma amiga. E ela me deu um antídoto pra tirar músicas da cabeça.
Analista: Desenvolva.
Mulher: “Maria, Maria”.
Analista: E como é isso pra você?
Mulher: Maria, Maria? Pior que Bangu.
Analista: Entendo.
Mulher: Ele me disse que se você tem uma música na cabeça e pensa em “Maria, Maria”, logo, logo a música sai.
Analista: Olha!
Mulher: Então eu pensei em “Maria, Maria”.
Analista: Interessante.
Mulher: E estou pensando até agora.
Analista: E como é isso pra você?
Mulher: Muito pior que Bangu.
Analista: Desenvolva.
Mulher: Há cento e sessenta e nove horas seguidas eu só penso em “Maria, Maria”. Há cento e sessenta e nove horas seguidas “Maria, Maria” me acompanha. E como Milton Nascimento, esse gênio do cancioneiro popular nacional, resolveu se apropriar do epizeuxe, a mais idiota das figuras de linguagens da gramática portuguesa, toda vez que eu penso na música vêm duas “Marias”, seguidinhas uma da outra, o que torna tudo duas vezes mais insuportável. Muito, mas muito pior do que Bangu!
Analista: Interessante.
Mulher: “Maria, Maria” me obrigou a passar por uma convivência forçada comigo mesma que eu nunca tinha experimentado antes. E depois da centésima vez que eu ouvi o refrão…
Analista: Qual é mesmo o refrão?
Mulher: Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!! Lá Lá Lá Lerererê Lerererê Lá Lá Lá Lerererê Lerererê Hei! Hei! Hei! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei! Lá Lá Lá Lerererê Lerererê! Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Analista: Entendo.
Mulher: Bom, depois da centésima vez que eu ouvi o refrão, eu tomei a decisão. Eu preciso me separar de mim. Me ajuda.
Analista: Eu estou aqui pra isso.
Mulher: O que eu faço?
Analista: Bom. Eu só vejo uma saída.
Mulher: Qual?
(pausa)
Analista: Seu tempo acabou. Conversamos na semana que vem.
Mulher: Pelo amor de deus. Me ajuda. Você tem que me ajudar. Não me deixa mais uma semana comigo. Eu não agüento. Eu vou acabar cometendo uma loucura comigo mesma e eu não vou ser capaz de me perdoar.
Analista: Desculpe. Mas você precisa ir embora.
Mulher: Mas…
Analista: Até a semana que vem, Maria.
Programa da noite
Na mesma sala do apartamento, dois aparelhos de televisão. Um do lado do outro. Eles assistem ao mesmo tempo: Ronaldo assiste ao jogo de futebol enquanto na outra TV Tânia assiste novela.
Ronaldo (pra TV futebol): Vai, vai!
Tânia (pra TV da novela): Beija, beija.
Ronaldo (pra TV futebol): Caralho, caralho!
Tânia (pra TV da novela): Ah, não, ah, não!
Ronaldo (pra TV futebol): Puta merda, puta merda.
Tânia (pra TV da novela): Bem na hora, bem na hora!
Ronaldo (pra TV futebol): Não fode, não fode!
Tânia (pra TV da novela): Voltou, voltou!
Ronaldo (pra TV futebol): Fudeu, fudeu!
Tânia (pra TV da novela): A lá, a lá, a lá!
Ronaldo (pra TV futebol): Passa, passa, passa!
Tânia (pra TV da novela): Beija, beija, beija.
Ronaldo (pra TV futebol): Vai ser gol, vai ser gol!
Tânia (pra TV da novela): Ah, não, ah, não!
Ronaldo (pra TV futebol): Eu sabia, eu sabia!
Tânia (pra TV da novela): Eu sabia, eu sabia!
Ronaldo (pra TV futebol): Mas como tu é ruim, mas como tu é ruim.
Tânia (pra TV da novela): É sempre assim, é sempre assim.
Ronaldo (pra TV futebol): Vambora, vambora!
Tânia (pra TV da novela): Vai Tereza, vai Tereza!
Ronaldo (pra TV futebol): Vai timão, vai timão!
Tânia (pra TV da novela): Não atrapalha, Carlos, não atrapalha, Carlos!
Ronaldo (pra TV futebol): Filho da puta, filho da puta!
Tânia (pra TV da novela): Assim não dá, assim não dá.
Ronaldo (pra TV futebol): Olha a defesa, olha a defesa.
Tânia (pra TV da novela): Vai matar, vai matar.
Ronaldo (pra TV futebol): Cuidado, cuidado!
Tânia (pra TV da novela): Reage, reage.
Ronaldo (pra TV futebol): Raça, raça!
Tânia (pra TV da novela): Tereza, Tereza!
Ronaldo (pra TV futebol): Vai Cabeça, vai Cabeça!
Tânia (pra TV da novela): Coitada, coitada.
Ronaldo (pra TV futebol): Reage, reage!
Tânia (pra TV da novela): Eu vou chorar, eu vou chorar.
Ronaldo (pra TV futebol): Viado, viado!
Tânia (pra TV da novela): Burra, burra.
Ronaldo (pra TV futebol): Isso, isso.
Tânia (pra TV da novela): Olha, olha, olha.
Ronaldo (pra TV futebol): Olha, olha, olha.
Tânia (pra TV da novela): Ela não morreu, ela não morreu!
Ronaldo (pra TV futebol): Como assim, como assim?
Tânia (pra TV da novela): Agora vai, agora vai.
Ronaldo (pra TV futebol): Eu vou chorar, eu vou chorar.
Tânia (pra TV da novela): Vai, vai, vai.
Ronaldo (pra TV futebol): Gol, gol, gol.
Tânia (pra TV da novela): Sai daí, sai daí, sai daí.
Ronaldo (pra TV futebol): Viado, viado.
Tânia (pra TV da novela): Burra, burra.
Ronaldo (pra TV futebol): Impedido, impedido?
Tânia (pra TV da novela): Como assim, como assim?
Ronaldo (pra TV futebol): Filho da puta, filho da puta!
Tânia (pra TV da novela): Ele tá te esperando, ele tá te esperando.
Ronaldo (pra TV futebol): Cabeça, Cabeça, tu é um viado, viado.
Tânia (pra TV da novela): Eu sabia, eu sabia.
Ronaldo (pra TV futebol): Assim não dá, assim não dá.
Tânia (pra TV da novela): Ué, ué?
Ronaldo (pra TV futebol): Droga, droga.
Tânia (pra TV da novela): Puxa, puxa…
Silêncio. Som das duas TVs no comercial.
Os dois pegam o controle remoto e desligam as TVs ao mesmo tempo.
Silêncio. Frustração. Tédio.
Eles se olham, olham para a televisão, se olham, olham para os seus corpos. Um pequeno tesão vai surgindo. Querem se aproximar. Na preguiça da noite, bem devagar, vão arrastando suas poltronas, uma para mais perto da outra até ficarem lado a lado.
Ronaldo: Taninha, Taninha…
Tânia: Ronaldo, Ronaldo…
Ele coloca a mão na coxa dela, ela coloca a mão no peito dele.
De súbito, se agarram enlouquecidamente.
Música.
FIM.
A endoscopia de Zeugma
Personagens:
Anáfora: Filha de Zeugma e cansada da vida.
Zeugma: 89 anos bem desfrutados. Hipocondríaca por hobby.
A cena se passa na sala de espera de uma clínica gástrica. Zeugma aguarda mais uma endoscopia de rotina.
Zeugma: (reclamando semi bufante, mas sem perder a alegria de viver) Você viu o jeito que ele olhou para mim? Deu uma piscadinha sórdida. Eu quase ouvi o barulho dos cílios se encontrando: Silepse, silepse. Passou a carteirinha do meu plano naquela maquininha e olhou, olhou… Tenho certeza que calculou a mensalidade do meu plano de saúde.
Anáfora: (folheando uma revista de fofocas) Calma, mamãe!
Zeugma: Estou calma! Apenas reprovo essa qualidade de comportamento. Estou numa situação fragilizada. E esse rapaz olha para a minha carteirinha com cara de pobre de mim. Não suporto idiomatismo.
Anáfora: Vamos checar os pequenos detalhes, os procedimentos: Jejum, ok. Já tomou o luftal?
Zeugma: Não tomei e não vou tomar. Sou uma senhora de respeito é muita intimidade dividir o odor dos meus flatos com estranhos.
Anáfora: Então eu fui enganada no amanhecer do dia. Porque tenho certeza absoluta que vi com meus próprios olhos a senhora descer para baixo do prédio, entrar para dentro da farmácia e…
Zeugma: Fale baixo. Ninguém precisa saber que você sofre de pleonasmo vicioso.
Anáfora: Não mude de assunto. Ouvi com meus ouvidos: Anáfora, vou a farmácia comprar luftal.
Zeugma: Eu disse. Eu estava até disposta, acho luftal um nome simpático, mas o genérico se chama flatex. Flatex não consegui comprar. O risinho de ironia do farmacêutico me humilhou.
Anáfora: Que fato verídico. Que bobagem.
Zeugma: Bobagem para você que é jovem e não liga para nada. Imagine eu conversando com Antonomásia sobre medicamentos e dizendo: agora não vivo sem flatex. Ah, Antonomásia que Deus a tenha! Era uma boa amiga, apesar da loucura por eufemismos nos diagnósticos. Por isso dou valor ao doutor Hipérbato que nunca me escondeu nada.
Voz da recepção: Senhora Zeugma!
Anáfora: Sua vez de encarar de frente, mamãe.
Zeugma: Pegue a boneca de porcelana na sua bolsa, por favor.
Anáfora: O quê? Repita de novo.
Zeugma: Coloquei a boneca de porcelana na sua bolsa antes de ir para a farmácia.
Anáfora: (retirando a boneca de porcelana da bolsa e entregando para Zeugma) Que surpresa inesperada.
Zeugma: Uma doente terminal sempre tem afeição por um objeto inanimado.
Anáfora: Mamãe você faz endoscopia há anos… Nunca teve uma hemorragia de sangue.
Zeugma: Se demorar muito vá me buscar. Eles vão me sedar… Tenho medo de abuso sexual. Muita gente me confunde com a Martha Rocha, a eterna Miss Brasil!
Anáfora: Mamãe, tire esse pensamento para fora da sua cabeça.
Zeugma: (resignada indo para a sala de exames. Pára e volta a cabeça para a filha) Anáfora, minha filha. Prometa para mim que não esconderá o diagnóstico. Mesmo se for o pior, mesmo se for… epizeuxe.
Anáfora: Agora já prometo.
(Zeugma entra sofrida na sala de exame. Anáfora volta a olhar revistas de fofocas).
FIM
O nascimento de Epizeuxe
Onomatopéia – Que linda ela é! Faz “buááá buááá” como água de cachoeira.
Tia Metáfora – Tirou as palavras da minha boca!
Hipérbato – Muito feliz, será essa bela figurinha.
Onomatopéia – Que nome daremos a essa coisinha que faz “puf puf” no seu colinho?
Tia Metáfora- Tão linda como um grilinho perdido na madrugada!
Onomatopéia – Cri cri cri…
Hipérbato – Posso eu, dar o nome de nossa figura?
Tia Metáfora – Um nome que abra todas as portas!
Onomatopéia – Toc toc!
Tia Metáfora – Feliz como uma cabra bicuda…
Onomatopéia – Méééééé!
Hipérbato levanta a figura.
Hipérbato – Epizeuxe!
Tia Metáfora e Onomatopéia se olham espantadas.
Tia Metáfora – Feio como capim cagado.
Onomatopéia – Tisc tisc…
Hipérbato – Será ela muito forte. Nome esse, que darei, deverá fazer com que ela cresça duas vezes mais.
Metáfora – Epizeuxe é mais triste que resto de cereja em bolo cortado.
Entra Hipérbole, irmã de Hipérbato.
Hipérbole – Esse dia está mil vezes mais feliz que ontem!
Hipérbato – Escolhendo o nome estamos.
Onomatopéia – Hipérbato quer lhe dar o nome de Epizeuxe… Só de dizer o nome, minha língua faz “clac clac”.
Hipérbole – Isso é uma explosão de criatividade, meu irmão!
Tia Metáfora – Ela vai se sentir um peixe fora d água!
Onomatopéia – Glub glub….
A figurinha chora.
Hipérbato – Chora, ela, no mesmo tom o tempo todo.
Tia Metáfora – Engoliu uma vitrola!
Onomatopéia – Grrrrrr… grrrrrrr…
Entra Antítese, a enfermeira.
Antítese – Criança bonita para diabo, não é mesmo?
Tia Metáfora – Como juba de leão depois do banho de sol.
Antítese – Bonita que dói!
Hipérbole – Uma chuva de beleza, mas o nome…
Antítese- Fale antes de se calar.
Hipérbato – Epiuzeuxe, o nome dela.
Onomatopéia – Arght!
Tia Metáfora – Ela será mais discriminada que gelatina em aniversário de criança.
Hipérbato – Puro, de vocês, engano… será ela, a figura mais refinada do país do Português!
Tia Metáfora – Com esse nome não vai conseguir trabalhar, vai fica mais parado que girassol depois da chuva.
Hipérbato – Definido está. Epizeuxe!!
Hipérbole – Uma tempestade de mau gosto!
Onomatopéia – Chuá… chuá….
Antítese – Uma morta-viva…
Tia Metáfora – Sem graça como peito de peru…
E assim nasceu Epizeuxe, uma figura compulsiva, pouco vista, e desconhecida por todos no país do Português. Redescoberta e valorizada anos depois pelo escritor Rodrigo Nogueira.
A mulher que equilibrava um cubo de metal na cabeça
(Lanchonete barata da rodoviária Novo Rio, numa mesinha no canto Júlio, chupando distraidamente o restinho de refrigerante na sua garrafa. Tudo o que têm coube em sua mochila jeans manchada. Surge, Kid, vai até ele.)
Kid: (seca) Antes que você diga alguma coisa, eu queria deixar bem claro que está tudo acabado entre nós. Que não há mais nada a ser feito e que nossa história não passou de um rabisco descuidado que demorou a ser apagado. Não, por favor, não diga nada. Isso só faria piorar as coisas. Suas palavras pra mim, agora seriam a conclusão do fracasso da nossa incapacidade de aceitação do que é feito da vida. Tem certas coisas que devemos simplesmente fingir que nunca aconteceram, é melhor assim. No futuro, quando eu lembrar de você, será como buscar em mim uma sombra trêmula que no primeiro feixe de luz, se desfez, assim como tudo o que havia entre nós. Ontem cedo, quando eu voltava da sua casa, o sinal fechou. Do ônibus, vi uma mulher equilibrando um cubo de metal, distraindo os motoristas com sua performance quase que hipnótica. Eu Pensei em nós dois. Eu sou essa mulher e você é o meu cubo de metal que até agora eu exibia, numa tentativa inútil de equilíbrio. Foi tão triste, que tive vontade de chorar, daí eu achei lindo. Lindo demais. Eu, chorando. Muito poético. Foi quando eu percebi que em mim havia algo de belo e nobre, que por mais que eu quisesse tentar, jamais seria abafado: A minha capacidade de amar. Isso é mais que suficiente para aceitar um novo amanhecer, repleto de possibilidades. Percebi que você, assim como os outros, não me ama de fato, fica impressionado _ encantado… _ com a minha intensidade em amar e com isso vaidoso, aceita o meu amor. O amor está em mim, e por isso não se esgota. Acredito na força do amor, sendo assim me vejo forte e concreta. Acredito na vontade de mudar as coisas. Na intensidade de uma paixão. Na tristeza de uma desilusão. Contudo, não acredito no que possa derivar do nosso encontro. Amor de aceitação é amor bolorento, paralítico, é desamor. Amor que resseca, racha a boca de frio, amor desprovido de amor. Amor de aceitação não tem gosto, não tem dente pra morder, nem língua pra chupar. Amor de aceitação é amor envenenado, cancerígeno. Eu te liberto do meu desamor. Júlio: você não foi um erro. Mas Por favor, não me procure mais. Júlio: esqueça de mim, uma vez por todas. Júlio… Adeus. (sai)
(Tempo)
(Kid volta. Senta-se na mesa com Júlio)
(Os dois se encaram)
(Júlio sem nenhuma reação. Como se a alma tivesse escapado pelo ouvido)
Kid: (pegando uma carteira de cigarro na bolsa) Você tá legal, cara?
(sem resposta)
Kid: ? (oferece o maço)
(sem resposta)
Kid: (natural) Quer um copo dágua com açúcar? Não sei… Uma dose… Eu posso pedir pra você.
(sem resposta)
Kid: Não? Nada? Ok. (acende seu cigarro) Posso fazer sua garrafinha de cinzeiro?
(sem resposta)
Kid: (tirando da bolsa uma revistinha de palavras cruzadas. Rabisca algumas coisas nela. )
(tempo)
Kid: (retida numa palavra) Epizeuxe… O que é (numa careta) Epizeuxe?
(sem resposta)
Kid: (repara no rapaz) Olha, não fica assim: não ia dar certo. Vai por mim, não é o fim do mundo. Não esquenta a cabeça com isso. Eu sei que fui um pouco fria e direta, mas espero que você compreenda as circunstâncias… (traga violenta) Você vai pra serra, né? Tá levando casaco? Ta uma friagem de congelar diabo. Eu gosto da serra… Acho a serra tranqüila, longe dessa selvageria toda, essa matança de leão diária… Às vezes eu fico Exausta… Dá vontade de largar tudo e ir pra um lugar longe, sabe? Mas paciência! Eu não tenho tempo nem pra trocar essa porcaria de sapato! (ri sem entusiasmo) Comprei semana passada, uma fortuna!, mas me aperta até a alma, ta dando calo lá! Mania, né. Meu número é 37, mas têm uns 36 que dão certinhos, depende da fôrma. Mas é um inferno, se eu pudesse ficava o dia todo de molho, só na maré mansa, mas daí to lascada, ainda mais se…
Júlio: (corta, num fiapo de voz) Por que você tá fazendo isso comigo?
(silêncio)
Kid: (tragada reflexiva, pra organizar o pensamento) Olha Júlio… Eu já estou bem descolada nesse enredo, levei muitos chutes na bunda, mas também já dei tantos… Nunca é gostoso, muito menos quando é a nossa bunda que está em jogo… Mas que remédio? Coloca gelo em cima e parte pra outra. É espinhoso e nem quero diminuir o que você está sentindo. Mas se existe alguém que quer ser feliz e que percebeu que o lance desandou, não tem como evitar.
Júlio: (quase infantil) Mas por que assim? Desse jeito? Agora… Estava tudo certo pra viagem, tudo tranqüilo, organizado, tudo bem…
Kid: Aí é que tá. Você pensava que estava tudo bem. Mas você não teve a sensibilidade de perceber o que de fato estava acontecendo. Poxa, Júlio. Faz um esforço.
Júlio: Mas eu não queria que isso acontecesse, juro.
Kid: Sabe qual é o problema, é que vocês homens nunca verbalizam o que sentem, não dá pra adivinhar o que o outro está pensando, certo?
Júlio: Certo, mas eu também não podia adivinhar a proporção disso…
Kid: (discando novamente o telefone) Pára Júlio. É claro que você sabia. Você só não queria admitir pra você mesmo…
Júlio: Não é verdade…
Kid: É verdade sim. Sua tristeza tem mais haver com vaidade, orgulho ferido do que outra coisa.
Júlio: Você me acha um poço de frieza.
Kid: Eu só acho que você perdeu algumas oportunidades pra demonstrar o contrário.
Júlio: E você é a dona da verdade, capaz de adivinhar pelo brilho do olhar do outro o que realmente está sentindo! Incrível! Olha, eu realmente estou muito surpreso! Você é fantástica! O que vê nos meus olhos agora, héin?
Kid: Ironia gratuita como forma de defesa. Natural, estamos avançando na escala dos rejeitados!
Júlio: Você se acha muito esperta, né… Mas eu olho pra você e vejo uma mulher que não sabe nada a respeito de amor e que tem um discurso muito do chinfrim à respeito de tudo! Porque se…
Kid: Se meu pai fosse mulher eu teria duas mães! Agora fecha o bico, porque pra mim isso também não está sendo nada fácil!
(tempo)
Kid: (disca violenta o telefone. Atendem. ) Boa tarde, aqui é Kid Bauhaus do “Falamos por você”, com quem eu falo? (__ ) Oi Camila… O seu pedido foi concluído com sucesso e aguardamos o depósito do restante do pagamento. (__) Sim… (__) Não. (__) Evidentemente… Ok. Pra confirmar: Agencia 033, número da conta 145 3367 830. Repetindo: Agencia 033, número da conta 145 3367 830. Assim que o depósito for efetuado, a devolução dos bens será concluída imediatamente.(__) Imagina, “Falamos por você” é que agradece a preferência e lhe deseja uma boa tarde. (desliga)
Júlio: (com um brilho no olhar) Era a Camila?
Kid: (seca) Sim.
Júlio: Ela perguntou por mim?
Kid: (contundente) Não.
Júlio: ( murcho) Por que ela não quer falar comigo? Por que ela não veio aqui me ver…
Kid: (cruel) Porque ela NÃO QUER! Por isso contratou os serviços do “Falamos por você”. Ela não quer te ver nem pintado de ouro!
Júlio: Vocês retêm os bens dela?
Kid: Não é da sua conta.
Júlio: (puxa violento o braço de Kid) Escuta aqui moça, não tira farinha com aminha cara! Respeito é bom e eu gosto.
Kid: Vai fazer o que? Me agredir?Estou sendo agredida! Estou sendo agredida! (
(ele solta o braço dela)
Kid: Pro s
eu governo, os bens são dela sim, mas foram dados por você. Assim que ela nos pagar, estaremos enviando para o seu endereço. Se ela não pagar, ficamos com tudo, aí você processa a Camila, manda prender e etc.
Júlio: (tomando-se de uma agitação violenta) Estou me lixando pra essa porcaria!
Kid: Tá nervosinho, tira as calças pela cabeça, mas não vem com grosseria pro meu lado.
Júlio: Escuta aqui…
Kid: Escuta aqui você, meu camarada. Eu estou fazendo o meu serviço e não tenho nada haver com o que você pensa ou deixa de pensar. NÃO ESTOU INTERESSADA!
(silêncio)
(silêncio)
(silêncio)
Júlio: Desculpa…
Kid: (ignora) Sabe se por aqui tem ônibus pra Pavuna?
Júlio: Não.
Kid: Nào tem ou você não sabe?
Júlio: Não sei…
(tempo)
Júlio: Quanto ela pagou…?
Kid: Não discuto isso com terceiros.
Júlio: 350 pratas. Com sinal de 100. Eu já vi o anuncio de vocês nos jornais.
Kid: (seca) Pois é. Verbalizar o que se está sentindo pode custar caro.
Júlio: Mas esse preço é porque se trata de um rompimento. Declarações de amor são mais baratas. Não são?
Kid: Se sabe por que tá perguntando?
Júlio: Quase ninguém mais faz declarações de amor hoje em dia, ou se faz fala na lata, não precisa de ninguém pra falar por elas _ neguinho não está disposto a torrar grana com declaração de amor_ então vocês baixam o preço, faz promoção…
Kid: É mais simples: fazendo esse papel me arrisco em levar um soco na fuça. Daí cobro mais caro.
Júlio: Não é só isso… Não é fácil romper. Seja lá qual for a natureza desse rompimento. É preciso ser profissional pra fazer sem sofrer. (muda o tom) Você sabe o que exatamente ela está devolvendo…?
Kid: (ainda arredia, tira a contragosto um a lista de sua bolsa) Um disco do Paul Simon, quatro ursos de pelúcia, uma camiseta azul marinho com estampa de veleiro, dois shorts de algodão, um casaco verde musgo com zíper, (Júlio vai se encolhendo, e ä medida em que a lista avança , minguando ainda mais. Tudo muito triste.) uma camisa de manga comprida preta, um colar prateado com pingente de golfinho, um chinelo de dedos de borracha, cinco livros da coleção “Grandes Filósofos”, a biografia do John Lennon, o mapa de Londres, dois óculos : sendo um escuro e outro de grau, com a lente esquerda quebrada, um tênis branco encardido, uma máscara de carnaval, uma lata de achocolatado, uma miniatura do Chaplin, duas calças jeans puídas na barra, uma jaqueta jeans faltando dois botões, o carregador do seu celular, dezenove fotografias suas_ variando entre férias, datas festivas e uma da infância_ uma caneca de cerâmica da cor bordô, uma Polaroid quebrada , uma calça de moletom cinza, um batom ameixa, seis anjinhos de porcelana, uma escova de dentes com cerdas macias e um isqueiro pequeno vermelho .
Júlio: (perdido) O que é que eu vou fazer agora…?
Kid: Vai pra serra. Vai passar… Se não passar, aqui está o meu cartão, pedidos de “Volta pra mim” sempre rola um desconto… Não me olhe assim, ganho por comissão. (faz que vai sair, ele a interpela)
Júlio: Espera.
(ela volta-se)
Júlio: (tira do bolso umas notas de dinheiro) Eu compro.
Kid: O que?
Júlio: Uma declaração de amor. Eu compro.
Kid: Não é assim, você tem que ligar pra agência, marcar hora, deixar seus dados…
Júlio: Não! Eu quero agora… Eu preciso agora. Eu pago. Por favor.
Kid: (suspira) É pra Camila? Porque se for, eu acho…
Júlio: Pra mim. Eu quero comprar uma declaração de amor pra mim mesmo.
Kid: Acho que não vai dar…
Júlio: Não pode comprar uma declaração de amor pra si mesmo? (tempo) Por favor… Faz isso por mim…
Kid: ( pensa. Por fim se decide. Respira fundo. Pega o dinheiro. Olha nos olhos do rapaz)
Não quero amar desesperadamente, contudo, desesperadamente já te amo. O amor caiu como uma rocha gigantesca em minha cabeça. Esmagadoramente : Já te amo. Te amo por imaginar no que você possa me dizer, te amo por reconhecer seu cheiro mesmo sem nunca ter te cheirado, te amo por saborear seu gosto em minha boca mesmo sem nunca em ti ter provado, te amo por questionar o que deve estar se passando por sua cabeça agora, se gosta de café, se já foi a Buenos Aires, se tem alergia a camarão, se prefere frio ou calor… Te amo por imaginar a série de coisas que possa me ensinar, te amo pela lindeza do que sinto por você, pois só você foi capaz de despertar em mim essa força tamanha que desconheço, que me orgulha e que me entristece………..muito. Me entristece por perceber que te amar em sonho é por enquanto tudo o que posso fazer.
Amo à queima roupa. Amo assim, loucamente, ansiosamente, já com saudade de amar. Amo você por toda a sinceridade que existe em nosso amor, amo você por te querer tanto, por aguardar silenciosamente o seu sorriso pra mim. Amo você, amo você, amo você….
(ele vai até ela e de supetão lasca um beijo )
(ela o empurra e o esbofeteia. Os dois se encaram)
(desejo incontrolável, ela o agarra e vem um beijo cinematográfico.)
(Ficam por ali se beijando deliciosamente……… Em poucos instantes já não é mais possível vê-los no meio da multidão)
Leilão beneficente
A premonição de Acácia
http://songza.com/z/ow1cl5
ACÁCIA e JÚLIO almoçando.
ACÁCIA (levando um susto de repente.) – Hoje eu acordei…. havia sonhado com um pé de azeitona. Sabe pé de azeitona? Nunca vi um de verdade, verdade, não. Mas sonhei com ele sim. Quer dizer, eu nem sei se botanicamente o meu sonho estava assim, como dizer, biologicamente correto, compreende? Nunca vi pé de azeitona, azeitona. Mas sei lá. Era um arbustinho com azeitona pendurada. Olhei, olhei… fiquei pensando, pensando. Agora que eu entendi! Azeite. E agora eu tô aqui e tô te pedindo azeite…
JÚLIO (tímido) – Desculpa, querida? Tem uma coisa no seu olho.
ACÁCIA (enfatiza.)- Me passa o azeite? Azeite? (Pausa.) Viu? Entendeu?
JÚLIO – Querida, uma remelinha.
ACÁCIA – Não é possível que você não tenha notado. Azeitona, Azeitona, azeite… percebe?
JÚLIO – Amor…
ACÁCIA – Gente! Gente!
JÚLIO – Será que é tersol?
ACÁCIA – Ai, ai. Eu ando tendo isso! É incrível!
JÚLIO – É. Tá feia a coisa, um cotonete?
ACÁCIA – Da premonição, digo. Será que é esse momento de “agora – já” que significa alguma coisa? Meu deus, meu Deus! O que será que minha alma está querendo me dizer? O que me aguarda nesse instante tão cravado?
JÚLIO (segurando-a.) Amorzinho! Tem uma remela enorme aí no teu olho esquerdo.
ACÁCIA (limpando um dos olhos.)- Jura? Jura? Jura? Uma remela?!!
JÚLIO – Não, no outro, outro. Saiu já, agora tá tudo bem. Pronto, pronto. Ficou bem limpinho.
ACÁCIA – Foi? Foi? Foi? Tá bem limpo?
JÚLIO – Ficou jóia.
ACÁCIA – Mas tá mesmo?
JÚLIO – Ótimo.
(pausa.)
ACÁCIA (subitamente.)- Saquei! Saquei! Entendi finalmente! Então era isso.
JÚLIO – O quê?
ACÁCIA – O pé de azeitona. Azeitona, azeitona, azeite. Te pedi o azeite. Pra me avisar dessa remela.
JÚLIO – Que pé de azeitona…?
(pausa.)
ACÁCIA – Eu tô cada vez melhor. Eu sinto que a premonição é o meu forte. Está decidido.
(pausa.)
JÚLIO – Está decidido o quê?
ACÁCIA – Júlio, Júlio! Em que mundo você está? Nem presta atenção no que eu digo!
JÚLIO – Decidido o quê?!
ACÁCIA – Vou desenvolver a minha mediunidade!!!

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