Estranha Obsessão – capítulo 14
Para escutar a trilha sonora:
CENA 1 – APART LEO. SALA. INT. DIA.
Livia se segura na estante como se o chão lhe faltasse, como se a venda que lhe cobria os olhos, fosse arrancada, bruscamente. Sim, já estivera naquele apartamento, um ano antes. Quando fora visitar Marina e lhe anunciar, perversa, a reconquista de Marcelo. Como não reconheceu o lugar? É verdade que a falta de um mínimo senso estético, não marcava em nada o ambiente. Além disso, a madrugada, o álcool, o rímel preto, a separação na véspera, a proximidade de um corpo jovem, e a simples vontade de não enxergar, confundiram a percepção de Lívia. Olhou em volta. Quanta tristeza. Que ironia. Sentia-se tão superior à rival. Mais bonita, mais inteligente, mais interessante, mais magra, bem mais. Por que estava, mais uma vez, em desvantagem? Será que sua sina era correr eternamente? Tentar alcançar o desejo? Se comparar até o final dos dias? Subtrair, pesar, parecer. Anos, quilos, sucesso. Já estava na idade em que as mulheres esticam a pele, encurtam roupas, pintam cabelo. Com quem competia? Quem deveria vencer? Onde era a linha de chegada? O que queria provar? Estava cansada. Definitivamente, Marina, nunca teve gosto para decoração.
LEO – Você tá bem? Quer um copo d’água, alguma coisa?
LIVIA – Leo. Leo de Leonardo. Nome bonito.
LEO – Como você adivinhou que meu nome é Leonardo?
LIVIA – Tão óbvio. Estava na minha cara o tempo todo.
LEO – Não acho óbvio. Podia ser “Leo” de Leandro, de Leopoldo…
LIVIA – Você tem jeito de Leonardo.
LEO – Minha mãe que escolheu esse nome.
LIVIA – Você disse que seus pais estão namorando?
LEO – Às escondidas. Acredita?
LIVIA – Acredito.
LEO – Meu pai se envolveu com uma mulher aí. Isso já tem mais de um ano. Foi logo depois que ele foi me visitar, em Londres. De lá ele foi pra Lisboa, foi em Lisboa tudo aconteceu, ele deu uma pirada. Quando voltou ao Brasil já foi direto morar com a outra. Mas nesse tempo todo ele nunca deixou de procurar minha mãe. Eles começaram a se encontrar, às escondidas. Toda semana. Minha mãe é amante do meu pai. Não é engraçado? Acho estranho. Pra falar a verdade eu não entendo ele.
LIVIA – Nem eu…
LEO – Como?
LIVIA – Nada, falei sozinha. Adoro Lisboa.
LEO – Por que ele não resolve logo com qual das duas ele quer ficar?
LIVIA – Escolher é uma das coisas mais difíceis da vida.
LEO – Eu acho um privilégio. Poder escolher.
LIVIA – Tem gente não tem esse talento. Passa a vida inteira sem fazer uma escolha. Deixa que os outros decidam. Você sabe quem foi Pôncio Pilatos?
LEO – Não foi aquele que lavou as mãos? Eu estudei em colégio católico.
LIVIA – Esse mesmo.
LEO – Você tá dizendo que meu pai?
LIVIA – É uma situação cômoda, não acha?
LEO – Só sei que minha mãe tá sofrendo muito.
LIVIA – E a outra?
LEO – O que é que tem?
LIVIA – Também deve sofrer.
LEO – Quero mais é que ela se dane! Ela sabia que meu pai era casado e mesmo assim.
LIVIA – Acho que eu vou aceitar o copo d’água.
LEO VAI PEGAR ÁGUA PARA LÍVIA.
LEO – Não pensou nas conseqüências. Não pensou que estava terminando com um casamento de 18 anos. Foi egoísta.
LIVIA – (LIVIA BEBE ÁGUA) Esse discurso moralista não combina com você, Leo. Tão jovem. Tão esperto… Obrigada.
LEO – Pra mim ela sabe dos dois e tá se fazendo de morta. Não é possível que ela não desconfie de nada, a não ser que ela seja idiota.
LIVIA – Felizes dos idiotas que não sofrem.
LEO – Minha mãe não tem nada de idiota, e está sofrendo. Quer dizer, estava.
LIVIA – Não está mais?
LEO – Eu dei uma forcinha pra ela.
LIVIA – O que foi que você fez?
LEO – Promete que fica entre a gente?
LIVIA – Segredo nosso.
LEO – Eu mandei uma carta. Anônima.
LIVIA – Que idéia estúpida.
LEO – Estúpida? Pois eu tirei de um livro que você escreveu. Fiz igualzinho. Escrevi uma carta anônima pra tal mulher. Na carta, contei tudo o que estava acontecendo entre meu pai e minha mãe, pra ver se ela se tocava.
LIVIA – Pra ver se ela mesma terminava com seu pai e deixava o caminho livre pra sua mãe…
LEO – Parece que deu certo.
LIVIA – Parece que sim.
LEO – Pelo menos minha mãe dormiu fora, essa noite.
LIVIA – “A vingança de uma mulher”. Meu segundo livro. Já está na terceira edição.
LEO – Adoro como você escreve.
LIVIA – Só bobagens. Você não devia levar a sério.
LEO – Você tá pálida. Fica ainda mais bonita. Pálida.
LIVIA – Leo, eu podia ser sua mãe.
LEO – Ainda bem que você não é.
LIVIA – Ainda bem.
LEO – Mãe bonita dá um trabalho.
LIVIA – Eu preciso ir.
LEO – Você tá estranha. Aconteceu alguma coisa?
LIVIA – Sempre. A vida não para de acontecer. A vida não tira férias… Não dá sossego. Tá sempre arquitetando uma forma de surpreender a gente.
LEO – Então eu vou te surpreender: Eu estou apaixonado por você.
LIVIA – Não fala assim.
LEO – Você é que manda: Eu estou… louco por você. Melhorou?
LIVIA – Você é bem melhor do que eu imaginava.
E Livia saiu atormentada deixando Leo com aquele sorriso besta que toma conta do rosto da gente, quando a paixão acontece. A primeira paixão da vida do rapaz, a que a gente nunca esquece, carrega pra sempre, o primeiro amor.
CENA 2. APART DE ARTHUR. INT. NOITE.
LIVIA TOCA A CAMPAINHA . ARTHUR ACORDA SOBRESSALTADO.
LIVIA – Não fale nada. Apenas me abrace e me deixe ficar aqui um pouco.
ARTHUR – Por onde você andou? Te procurei feito um louco.
LIVIA – Eu estava onde não devia estar, Arthur. Eu sinto que vou fazer uma coisa da qual eu vou me arrepender. Mas mesmo sabendo que eu não devo fazer, eu sinto que vou acabar fazendo. Entende?
ARTHUR – Acho que nós dois precisamos de um copo. Uísque ou vodka?
FIM DO CAPÍTULO.
Estranha Obsessão – capítulo 13
Para escutar a trilha sonora:
Foram para o apartamento do rapaz. Ele abriu a porta com cautela, certificou-se de que não havia ninguém. Convidou-a para entrar.
LIVIA – Pra onde você tá me levando, garoto?
LEO – Cuidado para não tropeçar no degrau.
LIVIA – Você acha que eu estou bêbada?
LEO – Eu acho que você está linda.
LIVIA – Eu acho que preciso de mais um pouco de vinho.
E o barulho da bebida enchendo a taça soou afrodisíaco, precipitando o que já estava fadado a acontecer. Leo não se conteve, tampouco ela. Beijaram-se desesperadamente. Ele demorou em sua boca, na boca de Livia. Foi descendo pelo pescoço, ao mesmo tempo em que desabotoava a blusa de muitos botões. Sabia o que queria. Os seios. Os seios de Livia. Aboletou-se ali. Sugou, lambeu, mordeu, babou até fartar-se. Brincou com os dois. Ela gemeu. Sem tirar os seios da boca e o resto das roupas, engataram-se. Desesperadamente. Ele em pé, ela encostada à parede. O rapaz magro teve forças para levar Livia, com as pernas entrelaçadas na cintura, para o seu quarto. Deitaram-se. Depois foram virando e trocando e virando e trocando. Aceleraram. Acabaram mais exaustos num outro cômodo, numa cama de casal. Ela acordou num apartamento estranho. Onde nada combinava com tudo. Pouca coisa no lugar certo. Lembrava-se vagamente do que tinha acontecido.
LIVIA – Você mora aqui?
Leo com uma voz sonolenta.
LEO – Meus pais. Quer dizer, minha mãe.
LIVIA – Você me trouxe pra casa da sua mãe, garoto?
LEO – Leo.
LIVIA – Desculpa. Leo.
LEO – Ela não está em casa. Avisou que ia passar a noite fora. Com meu pai. Eles estão namorando.
LIVIA – Hum.
Ela virou-se e olhou pela primeira vez, com franqueza, o rosto do rapaz. Cabelos desalinhados. Rosto anguloso. Branco ou pálido? Mais jovem do que imaginava. De onde o conhecia? Seu rosto lhe parecia vagamente familiar. Será que já o tinha visto antes daquela noite? Virou-se de novo, pousando a cabeça no travesseiro. O rapaz abraçou-a pela cintura, por trás. Era terno. Era magro. A ternura desconcertou-a. Não, não queria carinho. De preferência que o garoto não falasse muita coisa e que fizessem sexo outra vez, outras vezes. Queria que o sexo a exaurisse a tal ponto que a impedisse de pensar na sua sala. Sentia tanta saudade da sala da sua casa. Chorou baixinho. O rapaz não reparou, apenas sussurrou em seu ouvido.
LEO – Linda.
LIVIA – Hã?
LEO – Te acho linda.
LEO – Eu não acredito que estou aqui com você.
Ele foi sincero. Ela irônica.
LIVIA – Nem eu.
LEO – Sorte a minha.
LIVIA – Sorte?
Ela pensou: Garoto bobo.
LIVIA – Destino.
E eles se beijaram. Desesperadamente. Começaram tudo de novo. Aceleraram. Leo já apaixonado por aquela mulher estrela de rock decadente, os olhos borrados de preto, estranha. Alguma coisa nela agradava seus gens. Exaustos, os dois desmaiaram um ao lado do outro, como um casal. Quando Leo abriu os olhos, viu Livia se arrumando para ir embora.
LEO – Você vai sair assim, sem se despedir?
LIVIA – Você estava dormindo.
LEO – Espera que eu vou te levar.
LIVIA – Não precisa.
LEO – Eu quero.
LIVIA – Eu quero ficar sozinha, Leo. Preciso.
LEO – Tudo bem. Já sabe pra onde vai?
LIVIA – Eu me ajeito. Talvez um hotel, casa de um amigo.
LEO – Te vejo mais tarde?
LIVIA – Leo… Eu não sei como eu vou estar mais tarde. Talvez não valha à pena. E depois, nós dois, não tem…
LEO – Não adianta. Agora que te achei, Ana Li, não te largo mais.
LIVIA – Te disse, não disse? Me separei. Ontem. É um momento complicado.
LEO – É o momento certo. Ontem você estava casada. Hoje já não está mais. Você tá livre. Pra mim. Promete que me liga?
LIVIA – Pra você é tudo tão simples.
LEO – Ok. Eu prometo que te ligo.
LIVIA – Agora eu posso ir?
LEO – Antes quero te mostrar uma coisa. Vem cá.
Leo tomou Livia pelas mãos e levou-a até uma estante. Num canto à direita, atrás de uma coleção enciclopédica já em desuso, o rapaz, orgulhosíssimo, foi tirando um a um, todos os livros dela. Todos. Não faltou nenhum.
LEO – Minha mãe nem desconfia que eu conheço esse esconderijo.
Livia quase desfaleceu ao reconhecer, não os livros, mas o que viu na frente deles. Ou melhor, o que viu na frente da enciclopédia caduca, estrategicamente posicionada como uma fortaleza a proteger a família dos livros proibidos: As fotos. Os retratos. Deles. Marina. Marina e Marcelo. Marcelo, Marina e Leo. Aniversários, Natais, viagens. Sorrisos. Dias de sol e outros nem tanto. Toda uma vida. O destino, mais uma vez, fora traiçoeiro.
FIM.
Estranha Obsessão – capítulo 12
Para ouvir a trilha sonora:
CENA 1 – CASA DE LÍVIA. SALA. INTERIOR. DIA.
LIVIA – Inútil! Fraco! Covarde! Você é um joguete nas mãos dela, será que você não percebe?
MARCELO – Se eu te disser que eu sinto muito, você acredita em mim?
LIVIA – Você é um poço de mentiras…
MARCELO – Não fala assim. Eu te amo tanto.
Ela olhou para a sala e uma tristeza profunda tomou conta de seu rosto. Desejou e amou aquele homem mais que tudo na vida. Pegou o que lhe restava de lucidez, a bolsa com os documentos, um casaco caso esfriasse. Debaixo do casaco achou a lembrança de dias melhores.
LIVIA – O que é que o meu livro está fazendo aqui?
MARCELO – Estava relendo. Presente. Lembra? Você me deu de presente. Quando nos reencontramos. Em Lisboa. Tem uma dedicatória tão bonita. (ELA ARRANCA A PÁGINA COM A DEDICATÓRIA, AMASSA E JOGA NA CARA DELE). Livia! Não!
LIVIA – Pode deixar que escrevo algo novo, mas é pra sua lápide! Do seu epitáfio, cuido eu. Inspiração não vai faltar!
E saiu batendo a porta naquela tarde de total descompasso. Saiu andando desembestada, apertando as mãos úmidas, crispadas, denunciando o estado de total descontrole, absoluto desamparo. Nas mãos, uma bolinha de papel sem assinatura. A traição amassada entre os dedos. Caminhou cega de ódio e mágoa. Os primeiros passos foram ordinários. Depois do décimo descobriu-se mais infeliz. As pernas pesaram como se tivessem brotado varizes, com muitos afluentes. Os afluentes criaram raízes que dificultaram as passadas. 40 anos em cada perna. Isso também pesou. Parou em frente a um bar com mesas espalhadas pela calçada. Doía sentar sozinha e pedir uma bebida só. Pensou num chope. Não combinava. Bebeu vinho da cor de sua dor e das unhas descascadas. Seu sonho era ser disciplinada. Fazer as unhas toda semana. Já tinha perdido a conta das taças que bebeu, quando ouviu:
JOVEM – Ana Li?
Livia aparou a lágrima que teimava em borrar os olhos pintados com rímel preto, e só depois se virou.
JOVEM – Desculpe incomodar, mas. Você não é a Ana Li?
LIVIA – Quem?
JOVEM – Li todos os seus livros. Todos. Sou seu fã.
“Ana Li” era como Livia assinava seus livros. “Ana” era o primeiro nome de sua mãe, e “Li”, a primeira sílaba do seu próprio nome. Só os leitores a chamavam assim.
LIVIA – Nós nos conhecemos?
JOVEM – Não. Quer dizer. Você não me conhece. Eu sim. Te conheço muito. Como te disse, li tudo o que você escreveu.
LIVIA – Aquelas porcarias?
JOVEM – Os seus livros? Eles são geniais. Eu sempre quis te conhecer, pessoalmente. Mandei vários emails pra editora querendo entrar em contato. Você recebeu?
LIVIA – Acho que sim. Quem sabe. Não. Não tenho certeza. Desculpa.
Tentou esboçar alguma coisa parecida com um sorriso, mas estava nervosa demais e seu rosto tremeu. As bochechas tremeram. Temeu ter pego o tique nervoso de Marcelo. Achou-se péssima. Rímel borrado e sem controle sobre suas bochechas.
JOVEM – E agora você está aqui na minha frente. Nem acredito.
LIVIA – Me faz um favor?
JOVEM – Claro!
LIVIA – Tá vendo aquela máquina que você coloca uma moeda pra tocar música?
JOVEM – Tô.
LIVIA – Escolhe uma bem triste pra mim?
O JOVEM VAI ATÉ A MÁQUINA E ESCOLHE UMA MÚSICA.
JOVEM – Que tal? Gostou?
LIVIA – É a minha cara. Senta.
Quando Livia percebeu, ela e o jovem estavam dividindo o vinho cor de esmalte e a música triste. Fizeram um brinde. Entre outras palavras julgou ouvir “sucesso”. Brindaram ao sucesso dela e a não sei mais o quê. O sucesso a princípio, não lhe interessou. O sucesso não lhe interessava naquele momento. A princípio, Lívia estava ocupada demais com o fracasso do seu sorriso.
JOVEM – Posso te dizer uma coisa? Você é muito mais bonita pessoalmente, do que nas fotos das orelhas dos livros.
LIVIA – Detesto fotos de orelha.
O JOVEM RI. LIVIA TAMBÉM.
LIVIA – Na idade em que eu estou a beleza depende dos dias. Depende do humor da pele, da boa vontade dos olhos, da disposição dos músculos. Eu acabei de me separar, sabia?
JOVEM – Quando?
LIVIA – Hoje. Agora há pouco. Desconfio que na divisão de bens minha beleza coube ao meu ex marido.
JOVEM – Sinto muito.
Ele ficou na dúvida se avisava a ela ou não. Decidiu não falar nada, achou Ana Li bonita daquele jeito. Borrada de rímel. Parecia uma estrela de rock decadente. Ele percebeu que ela havia chorado. Ele percebeu que se não falasse nada ela voltaria a chorar a qualquer momento. Pressionado, falou o que lhe veio à cabeça.
JOVEM – Minha mãe também lê tudo o que você escreve.
Mãe? Ele estava de gozação com sua cara ou queria que ela se atirasse de um precipício? Até a bem poucos segundos ela achava que o garoto estava flertando com ela. E agora ele vem com esse papo de mãe? Mãe é a puta que te pariu!
LIVIA – Não sei se tomo isso como elogio ou outra coisa.
Ela disse.
JOVEM – Claro que é um elogio! Foi minha mãe que me ensinou a gostar de você. De tudo o que você escreve. Ela tem todos os seus livros. Escondidos, acredita? Ela pensa que eu não sei que eles estão ali, mas eu descobri o esconderijo e li todos eles em segredo. Acho que minha mãe gosta tanto de você que não quer te repartir com mais ninguém.
LIVIA – Mande lembranças a ela. (T) Garçom, a conta, por favor.
JOVEM – Já vai?
LIVIA – Tá tarde.
JOVEM – Eu vou te levar pra casa.
LIVIA – Casa? Que casa? Eu não tenho mais casa, garoto.
JOVEM – E você vai pra onde?
LIVIA – Qualquer lugar.
JOVEM – Vou com você.
LIVIA – Pra onde?
JOVEM – Pra qualquer lugar.
LIVIA – Garçom, uma garrafa de vinho. Pra viagem. Qual o seu nome mesmo, garoto?
JOVEM – Leo.
FIM.
Estranha Obsessão – capítulo 11
Sentou-se. Só o branco à frente e a dúvida no fundo da alma. As unhas roídas até o sabugo, algumas até sangrarem. Foi difícil começar. As mãos trêmulas. Escolheu a primeira letra sem convicção, as seguintes sentiram-se mais à vontade na folha de papel. À medida que as frases ocupavam seu lugar no que tinha a dizer, foi ficando mais leve. Sabia que aquela carta mudaria toda a história deles. Era essa a intenção. Só não sabia o quanto mudaria também a sua. História.
O ABAJUR LIGADO. MEIA LUZ. VEMOS A SILHOUETA DE UMA PESSOA ESCREVENDO. NÃO SABEMOS SE É HOMEM OU MULHER. SOBE MÚSICA.
Para ouvir a trilha sonora:
Marina tinha ido ao apartamento de Arthur procurar por Lívia, que saíra desembestada depois de ter recebido a tal carta anônima. Arthur e Marina mantinham uma relação torta, por princípio. Um prazer invertido os unia, como se estivessem, de certa forma, vingando a traição sofrida. Caminhos tortuosos dificilmente se endireitam. Arthur sabia que dividia Marina com Marcelo, o atual marido de sua ex-esposa. O ex-esposo de sua amante secreta. Era como se a ligação, por tabela, o aproximasse da mulher que ainda amava. Lívia. Mas, ao saber do seu sumiço, um súbito sentimento de culpa o pegou de surpresa. Afinal, ele fora cúmplice na dupla traição. Sentia-se na obrigação de fazer alguma coisa por Lívia. E fez. Pegou a garrafa de vodka, já quase no fim e, num só gole, bebeu o que restava. Chaves, documentos. Passou a madrugada percorrendo todos os lugares que julgava prováveis de encontrá-la. Na manhã seguinte, ainda sem saber de seu paradeiro, resolveu acertar as contas da maneira mais improvável que lhe ocorreu.
CENA 1 – APT. LIVIA E MARCELO. SALA. INT. DIA.
CAMPAINHA TOCA. MARCELO VAI ATENDER.
MARCELO – Pois não.
ARTHUR NÃO FALA NADA. SIMPLESMENTE DÁ UM MURRO NA CARA DE MARCELO, QUE CAI NO CHÃO DESACORDADO. MARINA VEM DE DENTRO DE ROUPÃO.
MARINA – São os meus remédios? Essa dor de cabeça está me matando (T) Arthur?!! O que você fez? Meu Deus! Ele está sangrando!
ARHUR – Eu devia ter desconfiado que você estava aqui. Foi boa a noite dos pombinhos?
MARINA – Você está louco ou bêbado?!
ARTHUR – Talvez os dois. Talvez não tão bêbado quanto deveria. Ainda estou sóbrio o bastante para não bater em mulher. Mas você bem que merecia.
MARINA – Troglodita! Eu vim ajudar a procurá-la! Só isso!
MARCELO, NO CHÃO, AINDA TONTO, ESCUTA A CONVERSA DOS DOIS.
ARTHUR – Quanta generosidade.
MARINA – Já disse que eu tenho tanto interesse em achá-la quanto você.
ARTHUR – Conheço seus motivos nobres.
MARINA – O que foi que te deu? Mudou de ontem pra hoje.
ARTHUR – Eu não sei onde eu estava com a cabeça quando me envolvi nessa história de vocês. Nessa lama!
MARINA – Arrependido, meu bem?
ARTHUR – Cínica.
MARCELO – Quem é esse sujeito?
ARTHUR – Arthur Paranhos. Esse nome te diz alguma coisa?
MARINA – Seu nariz está sangrando. Vou pegar gelo.
MARCELO – Arthur o quê?
ARTHUR – Você sabe muito bem quem eu sou.
MARCELO – Arthur o… Não. O ex de? (T)
ARTHUR – Prazer.
MARCELO – Se você fizer alguma coisa eu chamo a polícia.
ARTHUR PEGA MARCELO PELO COLARINHO EM TOM AMEAÇADOR.
ARTHUR – Cretino! Não é por sua causa que eu estou aqui. Cadê ela? Você devia estar procurando por ela!
MARCELO – Então, você sabe? Sabe o que aconteceu?
ARTHUR – Sei muito mais do que você imagina.
MARCELO – Vocês se conhecem?
MARINA – Foi uma tremenda coincidência, Marcelo… Eu estava. Foi num dia que eu fui ao cinema…
ARTHUR – Ela não te contou?
MARINA – Arthur, por favor!
ARTHUR – Qual o problema? Acho que já está mais do que na hora do bonitão saber. Que nós temos coisas em comum.
MARCELO – Do que ele está falando?
MARINA – Não dê ouvidos! É um bêbado, um pobre coitado!
ARTHUR – Você tem uma queda por pobres coitados, não é, Marina? (PARA MARCELO) Me corrija se eu estiver enganado. Seu dia é quinta, certo? Pois o meu é segunda. Você é chique. Quarto de hotel. Vista para o mar. Comigo ela era menos exigente. Era no meu muquifo mesmo. Toda segunda feira. E ela nunca reclamou. Não é, meu bem?
MARINA – Você me paga!
MARCELO – Quer dizer que! Vocês dois?
ARTHUR – Nós três. Eu não disse que tínhamos muita coisa em comum?
MARCELO – Como você teve coragem? Sua. Sua. Você é diabólica!
MARINA – O que você ganha com isso, Athur? Eu confiei em você!
ARTHUR – Bêbados não são confiáveis. E você fez a pergunta errada. O certo é: O que eu perco com isso? Eu te respondo: A minha dignidade. Um homem sem dignidade não vale nada. Me tornei um canalha, Marina. Eu sabia de tudo e não contei a ela. Sinto vergonha de mim mesmo.
MARINA – Muito fácil sentir remorso, agora. Depois de tudo o que aconteceu entre a gente.
ARTHUR – Não aconteceu nada entre a gente. Nada que valha a pena!
MARINA – Você é que me dá pena! Isso sim! Além de bêbado é covarde pra assumir! Por que você não admite que gostava? Se não de mim, pelo menos da situação toda? Você enganava o homem que lhe roubou a mulher. E isso lhe dava prazer!
MARCELO – Vocês se merecem!
MARINA – E você, Marcelo? Tão superior, não? Canalha como nós dois. Ou mais! Eu acho mais. Você enganou a mulher que você dizia amar, a paixão da sua vida! Enganou, mentiu, traiu! Mais de uma vez! Muitas vezes! Quem é você pra falar de mim?
MARCELO – Eu amo a Lívia!
MARINA – Imagina se você a odiasse.
ARTHUR – Chega! Eu não quero ouvir mais essas baboseiras! Eu só quero saber onde ela está? Pra onde ela foi? E essa tal carta? Qual dos dois imbecis teve a idéia de escrever essa maldita carta anônima?
FIM DO CAPÍTULO.
ATÉ QUINTA!
Estranha Obsessão – capítulo 10
Para ouvir a trilha sonora:
Leo era um rapaz tímido e observador. Leitor voraz de histórias de mistério e detetives. Sabia encontrar pistas nas situações mais banais e no rosto das pessoas. Principalmente no rosto das pessoas mais próximas, como sua mãe. Desde que chegara, Leo percebeu que Marina tinha mudado. Estava mais bela, radiante. Nunca em toda sua vida, tinha visto a mãe tão feliz. Intrigado, tentou descobrir o motivo de tamanha felicidade. Pensou até em segui-la, já que Marina passava longos períodos fora de casa. Mas o acaso poupou o rapaz de maiores esforços. Numa noite, Leo tirou o telefone do gancho e, sem querer, interceptou uma conversa de Marina. Levou um choque, ao reconhecer a voz, do outro lado, marcando um encontro secreto.
CENA 01. CASA DE MARINA. SALA. INT. DIA.
LEO – Está de saída?
MARINA – Vou encontrar com umas amigas.
LEO – Sabia que é feio mentir?
MARINA – Quem está mentindo?
LEO – Você. Vocês. Vocês mentiram.
MARINA – Do que você está falando, Leo?
LEO – Vocês estão juntos. Por que não me contaram?
MARINA – Contar o quê, menino?
LEO – Eu não sou menino. Sei muito bem o que está acontecendo. Eu ouvi a conversa de vocês. No telefone. Ouvi vocês marcando num tal de Hotel Lancaster.
MARINA – Era só o que me faltava. Meu filho me espionando.
LEO – Por que vocês estão fazendo segredo?
MARINA – Segredo nenhum. Nós. Nós só preferimos poupá-lo.
LEO – Poupar? De quê?
MARINA – Seu pai se envolveu com outra mulher.
LEO – Novidade! Isso eu já sei. Já sabia.
MARINA – O que você não sabe é que ele se arrependeu. Está arrependidíssimo. Me procurou e.
LEO – Vocês voltaram!
MARINA – Não é bem assim.
LEO – Já sei. Vocês estão namorando, é isso? É melhor mesmo. Namorar é melhor do que casar.
MARINA - Isso é tão constrangedor.
LEO – Constrangedor, mãe? Eu acho ótimo.
MARINA – Leo, escuta. Eu aceitei essa situação porque. O que eu podia fazer?
LEO – Você tá certa. Tinha que aceitar o papai de volta. Essas coisas acontecem.
MARINA – Leo! Eu aceitei ser amante do seu pai!
LEO – Amante? (T)
LEO – Mas você é a esposa, mãe!
MARINA – Ex. Ex, Leo! Seu pai não quer se separar da outra.
LEO – Amante do meu pai? Do marido? Quer dizer, do seu ex marido. Mas.
MARINA – Eu o amo. Muito. Não quero perdê-lo.
LEO – Você está chorando, mãe?
MARINA – Promete que você não vai fazer nada! Nem falar nada com ele. Seu pai não pode saber que você sabe. Promete?
LEO – Nossa, que confusão. Como você pode aceitar…
MARINA – Por favor, não me julgue. Tudo menos isso. O dia que você amar alguém, você também será capaz de muitas coisas. O amor absolve tudo.
LEO – Pra mim o amor é o culpado de tudo. Ou pelo menos de muitas coisas.
E Marina derramou lágrimas que comoveram o filho. Sabia chorar como ninguém. Contou os fatos à sua maneira. Omitiu os motivos. Fez-se de vítima. Não disse, por exemplo, que era “a outra” por opção. Que, na verdade, impunha esta condição chantageando Marcelo. Que se sentia feliz só de imaginar o sofrimento de Lívia descobrindo tudo. Leo, por sua vez, estava confuso. Embora tocado com a confissão materna, seu faro investigativo lhe dizia que alguma coisa não encaixava naquela história. Felicidade e sofrimento juntos. Uma mistura que nunca deu muito certo. De qualquer forma já odiava aquela mulher que nem conhecia. O pivô da separação dos pais. A causadora da dissolução de sua família.
Fim do capítulo.
Até quinta!
Estranha Obsessão – capítulo 09
Para ouvir a trilha sonora:
Livia acreditava que sua vida, enfim, fazia jus ao que um dia prometera ser. Tinha uma casa bonita, decorada ao seu estilo, os livros continuavam vendendo bem, ela e Marcelo tinham dias alegres e noites animadas, até com Arthur mantinha uma relação amistosa. E, o mais importante, não tinha notícias dela. Marina tinha tomado um chá de sumiço e isso lhe dava uma rara sensação de felicidade e segurança. Mas… na vida nada é permanente. As sensações são como nuvens. O mundo, instável e inconstante, muda de uma hora para outra. A tranqüilidade pode virar angústia, a segurança, desconfiança. Basta apenas o vento soprar. E os ventos sopraram na direção de Lívia. Uma semana antes de receber a carta anônima, uma eletricidade no ar, já prenunciava mudanças. A chegada de Leo só fez acentuar o clima estranho.
CENA 01 – CASA DE LIVIA. SALA. INT. DIA
LIVIA – Já está indo?
MARCELO – O vôo chega às 9:00h, meu amor.
LIVIA – Você parece eufórico. Está feliz?
MARCELO – Claro! Um ano! Um ano que eu não vejo meu filho.
LIVIA – Só? Quer dizer, tudo isso? Parece que foi ontem. Mas ao mesmo tempo está tão distante. Tanta coisa aconteceu que não parece caber em um ano.
MARCELO – Lembro que eu fui visitar o Leo nessa mesma época… (T) Você vai gostar dele.
LIVIA – Já gosto. Se não fosse por ele, você não teria ido à Londres, depois Lisboa, e nós não teríamos nos encontrado.
MARCELO – É verdade.
LIVIA – No fundo, o Leo é o nosso cupido.
MARCELO – Não tinha pensado nisso. A camisa fica melhor pra dentro ou fora da calça?
LIVIA – Fora. Que elegância. Quer ficar bonito pra quem? Ele ou… ela?
MARCELO – Do que você está falando?
LIVIA – Não seja cínico!
MARCELO – Livia, não começa! Nem sei se ela vai estar lá.
LIVIA – Claro que vai! Eu não sou idiota!
MARCELO – Ok. É bem provável. Afinal ela é mãe e deve estar tão ansiosa quanto eu pra ver o filho.
LIVIA – E você quer que eu fique como? Sabendo que você vai encontrar com aquela mulher?!
MARCELO – Eu quero que você se controle. Eu estou aqui com você, não estou? Eu te amo. Põe isso na tua cabeça.
LIVIA – Você não seria capaz de…
MARCELO – De quê?
LIVIA – Nada. Promete que volta logo?
MARCELO – Não me peça isso. Eu quero ficar um pouco com o Leo, conversar com ele. Talvez a gente saia. Não sei.
LIVIA – Escute o que eu vou te dizer: Não brinque comigo. Pro seu bem.
MARCELO – Não me espere para o almoço.
E Marcelo deu um beijo em sua testa e foi para o aeroporto deixando-a aflita, insegura. Ela acendeu um cigarro. Longas baforadas. Andou pela sala, desnorteada. Se Livia soubesse que o que ela temia já era passado. Que o que ela achava que poderia acontecer, já tinha se consumado. Até as paredes do Hotel Lancaster estavam carecas de saber. Que toda quinta feira. No quarto preto e vermelho com vista ensolarada. Os lençóis eram testemunhas. Dos encontros dos dois. Pobre Livia. Mais uma vez traída, outra vez enganada. A última a saber.
CENA 02 – AEROPORTO – INT. DIA
MARINA – Nem acredito que você está aqui, filho!
LEO – Eu quis vir antes. Não queria estar longe quando vocês resolveram… Enfim.
MARCELO – Que saudade!
LEO – Também, pai. Tive que esperar as férias pra vir. O curso é muito puxado.
MARCELO – Você fez certo. Foi pra estudar, então tem que se dedicar mesmo.
LEO – Estava um frio por lá. Nevando.
MARINA – Eu prefiro frio a esse calor.
MARCELO – O inverno é muito rigoroso em Londres.
LEO – Vocês estão bem?
MARINA – Ótimos. Eu e seu pai estamos ótimos.
LEO – Você está mais bonita, mãe.
MARINA – Acha?
MARCELO – Eu já disse a ela. Nunca a vi tão bonita.
LEO – Eu pensei que ia chegar aqui e encontrar um clima pesado. Mas vocês estão numa boa. Melhor até do que antes. Nem parecem que se separaram.
MARINA – Às vezes um casal separado está mais unido do que quando estava casado.
LEO – Pelo jeito vocês estão bem unidos.
MACELO – Também não é assim, filho.
MARINA – Sabia que seu pai está morando com uma outra mulher?
MARCELO – Não começa, Marina. Quero que você conheça ela, Leo. Tenho certeza de que vocês vão se dar bem.
MARINA – Não ouse! Era só o que me faltava! Quero o meu filho longe daquela vagabunda!
LEO – Mãe.
MARCELO – Você não tem o direito de falar assim!
LEO – Foi só eu elogiar.
MARINA – O que você quer? Que eu entregue de bandeja a minha família a ela? “Olá, querida! Você me roubou o marido e agora vai o meu filho, de brinde! Pode ficar com a minha família toda”. Nem por cima do meu cadáver! Escuta bem o que eu estou lhe dizendo, Leonardo. Se eu souber que você anda de tititi com “aquela”! Esqueça que você tem mãe! Eu nunca te perdoaria! Nunca! E eu não estou brincando.
LEO – Tudo bem, já entendi.
Marina saiu andando, batento o pé, como uma menina mimada que impõe as regras da brincadeira. Marcelo e Leo se entreolharam. Pai e filho já tinham visto, muitas vezes, aquela cena.
LEO – E eu que cheguei a pensar que ela tinha mudado.
Marcelo – As coisas não são tão simples como parecem. Essa história vem de longe. Um dia você vai entender.
LEO – Pena. Queria conhecer… Como é mesmo o nome dela?
MARCELO – Livia.
FIM DO CAPÍTULO.
ATÉ QUINTA!
Estranha Obsessão – capítulo 08
Para ouvir a trilha sonora:
CENA 01 – QUARTO DE MOTEL. INT. NOITE.
Marcelo olhou o relógio, enquanto se vestia apressado. Fechou o zíper da calça, passou a mão nos cabelos, olhou para Marina e disse.
MARCELO – Eu tenho que ir.
MARINA – Ficou sério de repente. O que foi?
MARCELO – Acho que nós nos precipitamos.
MARINA – Arrependido? Deixa de ser bobo. Você quis. Eu também.
MARCELO – Ela não vai suportar se souber.
MARINA – Que foi traída outra vez?
MARCELO – Não coloque as coisas dessa maneira. Essa situação é muito delicada.
MARINA – Você está se preocupando à toa. Quem disse que ela vai saber?
MARCELO – Promete que não conta nada?
MARINA – Claro, meu amor. Deixa eu te ajudar com o nó da gravata.
MARCELO – Que alívio. Você mudou tanto, Marina. Fico feliz de ver que você está bem, além de linda…
MARINA – Sou outra pessoa.
MARCELO – Você é uma mulher incrível.
Marina beija Marcelo, ainda enrolada no lençol testemunha do reencontro. Se os lençóis falassem… Não seriam palavras. Apenas gemidos quando fossem dobrados.
MARCELO – Está tarde. Vou indo.
MARINA – Quando nos vemos?
MARCELO – Hã?
MARINA – Nosso próximo encontro.
MARCELO – Desculpe. Acho que você não entendeu. A gente para por aqui, Marina.
MARINA – Acho que você é que não entendeu. A gente continua daqui, Marcelo. Ou você quer que eu conte tudo pra ela? Tudo o que aconteceu hoje. Nos mínimos detalhes.
MARCELO – Mas o que é isso! Você está me chantageando?
MARINA – Imagina. Eu te amo.
MARCELO – Isso não é amor!
MARINA – Mesmo dia e horário, semana que vem.
MARCELO – Pode tirar o cavalinho da chuva, eu não venho!
MARINA – Ah, o mesmo quarto também, de preferência. Gostei da vista.
MARCELO – Eu não vou entrar no seu jogo!
MARINA – Então você prefere que eu conte tudo a Lívia?
MARINA – Você não faria isso!
MARINA – Experimenta! Você não sabe do que eu sou capaz.
MARCELO – O que você ganha com isso?
MARINA – O seu amor.
MARCELO – Será que você não entende? Não adianta forçar. Acabou! O que aconteceu hoje foi… foi um acidente!
MARINA – Acidente?!! Hoje eu tive a prova de que você ainda me ama.
MARCELO – Ninguém pode forçar o amor de ninguém…
MARINA – Você ainda vai me agradecer. Te garanto que não vai ser sacrifício nenhum você me encontrar mais uma vez. Outras vezes… Até semana que vem!
Marcelo saiu bufando, batendo a porta. As bochechas contraídas deixavam metade da arcada dentária à mostra. Era o sinal de que estava tenso. Nervoso. A ponto de explodir. Tinha caído na armadilha dela. Como foi ingênuo! Devia ter desconfiado. Aquele encontro forjado em plena Av. Rio Branco. Como não percebeu? Marina olhou pela janela do Motel Lancaster, na Glória. A vista indevassável da Baía da Guanabara contrastava com o quarto decorado no preto e vermelho. Lembrou de Arthur. Ele ia gostar. Do preto. Sua cor preferida. Desde aquele dia em que Marina o seguiu até o apartamento dele, tinham se tornado amigos íntimos.
CENA – 02. CONJUGADO ARTHUR. INT. NOITE.
ARTHUR – Fique à vontade. Não repara na bagunça.
MARINA – Imagina.
Analisaram-se meticulosamente. Como se quisessem enxergar os não presentes nos olhos um do outro. Marina ainda não sabia como se comportar naquele cubículo. Desviou das garrafas vazias espalhadas pelo chão. Das pontas de cigarro em cinzeiros improvisados, dos livros, mais livros, algumas peças de roupas em cima do sofá. Arthur abriu espaço no caos da sua vida, para Marina sentar.
MARINA – Obrigada.
ARTHUR – Confesso que estou curioso sobre o motivo da visita.
MARINA – Pra falar a verdade. Também não sei bem o que eu vim fazer aqui.
ARTHUR – Por que você não começa dizendo “como” você chegou até aqui? Acho que pode ajudar.
MARINA – Eu… eu estava seguindo.Ela.
ARTHUR – Livia? Não brinca?
MARINA – Vi quando você saiu do bar, meio tonto, ela te encontrou na calçada e o levou…
ARTHUR – Essa parte eu conheço, pode pular.
MARINA – O fato é que nós estamos na mesma situação.
ARTHUR – Quem? Eu e você?
MARINA – Nós dois fomos traídos e abandonados.
ARTHUR – Acontece nas melhores famílias.
MARINA – Quem sabe a gente não pode se ajudar?
ARTHUR – Quem disse que eu estou precisando de ajuda?
MARINA – A reconquistá-los. Eu, o Marcelo. Você, Livia.
ARTHUR – Escuta. Eu não sei você. Mas eu estou ótimo. Viajei, conheci outras pessoas, estou com uns projetos, uns contatos. Umas idéias. Estou cheio de idéias. De planos… Você fuma?
MARINA – Não, obrigada.
ARTHUR – Quem vive de passado é museu!
MARINA – OK. Eu já entendi. (T) É que eu pensei. Deixa pra lá. Desculpe incomodá-lo.
ARTHUR – Tudo bem.
Marina levantou-se. Pendurou a bolsa no ombro decidida a ir embora. Por um momento achou um erro ter procurado Arthur. Ficou desapontada. Não queria sair assim de mãos abanando.
MARINA – Posso te fazer só uma pergunta?
ARTHUR – Claro!
MARINA – O que ela tem que eu não tenho?
ARTHUR – Você fala cada coisa. Sei lá! Acabei de te conhecer.
MARINA – E você gostaria?
ARTHUR – De quê?
MARINA – Me conhecer? Melhor.
ARTHUR – O que você quer dizer com isso?
MARINA – Isso mesmo que você está pensando…
MARINA – Olha, você está brincando com fogo…
MARINA – Não tenho medo de me queimar. Nem nada a perder.
ARTHUR – Pensa bem no que você vai fazer.
MARINA – Você me acha bonita?
ARTHUR – Muito.
MARINA – Mais do que ela?
ARTHUR – Diferentes.
MARINA – Mais. Vou te provar que eu sou muito melhor do que Livia.
Marina puxou Arthur pela camisa e lhe deu um beijou. Arthur girou-a sobre o próprio eixo imprensando-a contra a parede. Os dois se amassaram ali mesmo. Com fúria. Com dor. O orgulho ferido. Tudo confundido. Os sentimentos, a saliva, o ar… Juntaram tudo. Fizeram um brinde. A eles aos não presentes.
FIM DO CAPÍTULO.
ATÉ QUINTA!
Estranha Obsessão – capítulo 07
Para ouvir a trilha sonora:
Desde que Livia o abandonara em Lisboa, eles nunca mais tinham se visto. Ficou vagando um tempo pela Europa, gastando a bolada que ganhou no Cassino. Teve um caso com uma dançarina espanhola, afogou as mágoas com uma guia turística italiana, e quando chegou ao Marrocos conheceu, biblicamente, uma mochileira belga. Passou a beber como se ele não fosse ele sem a bebida. Afundou-se no álcool procurando Livia submersa. Surpreendeu-se com a falta que sentia dela. Quando o dinheiro acabou, voltou ao Brasil para continuar bebendo. Aqui a pinga era mais em conta. Estava num estado deplorável. Sem banho há dias, barba enorme, cabelos grandes, debruçado sobre um caça níqueis no fundo de um boteco fedorento. Livia passou na calçada, de óculos escuros, com pressa. Pediu licença para os bêbados que atravancaram o caminho. Impaciente, pensou: Que gente! Enchendo a cara a essa hora! Lá de dentro, uma voz cambaleante rompeu os limites do bar. Preto! Preto 27! Meu número de sorte! Livia estancou e deu meia volta.
CENA 1 – CALÇADA DE RUA – EXT. DIA
LIVIA – Arthur? Arthur?! É você?
ARTHUR – Hã?
LIVIA – Meu Deus! Arthur!
ARTHUR – Livia…
E mais ele não conseguiu falar. Desabou ali mesmo. Livia chamou um taxi. Com a ajuda do motorista colocou-o dentro do carro. Sem saber direito para onde ir, tocou para casa. Do outro lado da rua, munida com um poderoso binóculo, Marina assistia toda a cena. Desde que fora ela própria abandonada, só uma coisa a fizera reagir: Vingança. Era isso que a movia. Era por isso que estava ali, obcecada, de tocaia. O resto, trabalho, casa, amigos, família. Tudo tinha ficado em segundo plano. A ideia de vingar-se de Livia era a parte prazerosa do dia. A razão de sua vida. Fez sinal e disse a frase emblemática: Siga aquele táxi!
CENA 2 – CASA DE LÍVIA – SALA. INT. DIA
Cuidou de Arthur como a um filho travesso. Deu banho, fez café. Conseguiu roupas limpas. Cortou o cabelo e a barba. Fez dele um outro homem. Totalmente diferente do indigente que saíra carregado do bar.
LIVIA – Promete que você vai tomar jeito, Arthur.
ARTHUR – Vou tentar. (T) Bonita sua casa.
LIVIA – Obrigada. (T)
ARTHUR – Gosto de como você arruma as coisas.
LIVIA – Arthur. Desculpa.
ARTHUR – Você está se desculpando por ter uma casa bonita?
LIVIA – Você sabe do que eu estou falando. Não queria que a gente tivesse terminado daquele jeito, mas…
ARTHUR – A gente, não. Você. Você que terminou. Você que foi embora. E não tem melhor ou pior jeito de se terminar. É sempre ruim. O fim. Pelo menos pra uma das partes. A parte que fica. No caso, eu.
LIVIA – Eu gosto de você. Muito. Mas minha história com o Marcelo…
ARTHUR – Shiuuu! Eu sei. Já entendi.
LIVIA – Você vai encontrar uma pessoa bacana, eu tenho certeza.
ARTHUR – Não fala bobagem! Como você pode ter certeza?
LIVIA – Intuição.
ARTHUR – Palpite. Só. Nada mais que um palpite. Ninguém pode garantir que as coisas vão acabar bem, Livia. Às vezes a merda dura. Persiste. Pode-se viver na merda durante anos.
LIVIA – Não fala assim!
ARTHUR – Pode ser que daqui a um tempo eu esteja melhor. Até bem melhor do que eu estava com você. Pode ser que eu encontre uma pessoa e a ame muito mais do que eu “te amava”. Mas quem garante? Quem garante que o que estar por vir vai ser melhor do que hoje? Vivemos no risco. É um jogo.
LIVIA – Pra você a vida se resume a isso, não é? Um jogo.
ARTHUR – Essa é a graça. Nós somos as peças de um tabuleiro. Vencedores e perdedores. Às vezes a gente tá de um lado, outras vezes de outro. Não há garantia de que um dia você vai ganhar.
LIVIA – Se eu pudesse fazer alguma coisa…
ARTHUR – Sabe o que é pior do que te perder?
LIVIA – O quê?
ARTHUR – Ver que você está com pena de mim. Por favor, não. Tudo menos isso. Eu estou bem. Do meu jeito.
LIVIA – Como você quiser. Só me promete uma coisa? Se a barra pesar, me procura. Você sabe que pode contar comigo.
ARTHUR – Você também. A vida dá voltas, Livia. Talvez um dia seja você que precise de mim.
LIVIA –É, quem sabe. Agora vai, vai que o Marcelo deve estar chegando.
ARTHUR – Só me responde uma coisa: Você está feliz?
LIVIA – Que pergunta!
ARTHUR – Ele te faz feliz?
LIVIA – Estou em paz. Isso é felicidade, não é?
Arthur abraçou-a, quando na verdade queria beijá-la. Mas o encontro, no fundo, tinha lhe feito bem. Saiu da casa de Livia melhor do que entrou. A poucos metros dali, Marina permanecia em vigília. Custou a reconhecê-lo. Aquele homem barbeado. Resolveu segui-lo. Até a espelunca onde Arthur estava morando.
CENA 3 – APART. CONJUGADO DE ARTHUR. INT. NOITE.
Se lhe perguntassem o que estava fazendo, ela não saberia responder. Mas alguma coisa lhe dizia para tocar a campainha. Arthur estranhou alguém a sua procura àquela hora. Não costumava receber visitas. Hora nenhuma. Teve receio de que fosse algum cobrador. Abriu a porta, desconfiado, mantendo a correntinha de segurança.
MARINA – Olá.
ARTHUR – Pois, não.
MARINA – Desculpe vir assim, sem avisar. Você não me conhece. Mas, acredite, temos muito em comum.
ARTHUR – Eu e você?
MARINA – Sou a esposa.
ARTHUR – Quem?
MARINA – Quer dizer. Ex. Esposa.
ARTHUR – Se você veio tentar receber a grana do seu marido. Ou do seu ex-marido…
MARINA – Não vim receber nada. Sou a ex do Marcelo.
ARTHUR – Que Marcelo? Não estou devendo a nenhum.
MARINA – Marcelo. Livia e Marcelo. (Pausa) Preciso muito falar com você. Posso entrar?
Fim do capítulo.
Até quinta!
Estranha Obsessão – capítulo 06
Para ouvir a trilha sonora:
Do outro lado da rua, munida com um poderoso binóculo, Marina fazia plantão há mais de uma hora quando finalmente avistou sua presa. Ajustou o vestido colante. Puxou os peitos para cima realçando o decote. Empinou o corpo, a ponto de bala, esculpido pela malhação intensiva. Foi à luta. A ideia era banal, nada criativa, mas eficiente. Já tinha gasto neurônios demais repaginando a vida. Não sobraram lampejos de inspiração para forjar um encontro “casualmente original”. Esbarraria com Marcelo da maneira mais óbvia. Iria na direção oposta a que ele estivesse caminhando, faria cara de espanto, que coincidência! E pronto. A sorte estaria lançada. O sinal vermelho fecha. Ela aperta o passo. O mar de gente àquela hora, quase a impede de chegar à outra margem da Av. Rio Branco. Por um momento pensou ter perdido Marcelo na multidão. Mas eis que o avista entrando numa banca de jornal. Uma revista com uma mulher bonita em trajes sumários lhe chama a atenção. Homem é tudo igual. Ele folheia as fotos da beldade seminua, mas não se anima em levá-la para casa. Deixou a gostosa de lado, para logo em seguida pegar uma publicação sobre economia. Nem todos os homens, ok. Estava tirando o dinheiro da carteira, quando o queixo do jornaleiro caiu e o rapaz que comprava pastilhas de hortelã entortou o pescoço. Atrás de Marcelo, uma voz familiar.
CENA 01. BANCA DE JORNAL. EXT. ANOITECENDO.
MARINA – Oi. Acende?
O jornaleiro gagueja.
Jornaleiro – Cla, cla-ro.
Ela, com o cigarro equilibrado nos lábios, espera. O jornaleiro tenso. O isqueiro demora a faiscar. O rapaz das pastilhas de hortelã pigarreia. A presença eletrizante esquenta o lugar. Até que finalmente o isqueiro pega no tranco, incendiando a banca. Mulher bonita sempre deixa homem nervoso.
MARINA – Obrigada.
Marcelo se vira para o jornaleiro depois de recontar o dinheiro que tirou da carteira.
MARCELO – Tá certo. Confere? (T) Marina?
MARINA – Marcelo!
MARCELO – Nossa. Você. Você está diferente. Quase não a reconheci.
MARINA – Eu? A mesma.
MARCELO – O cabelo talvez…
Marcelo fala do cabelo olhando da cintura para baixo, o corpo da mulher. Ele, o jornaleiro e o homem das pastilhas de hortelã.
MARINA – Em um ano a gente muda. Uma coisinha aqui outra ali. Normal.
MARCELO – Você está ótima.
MARINA – É impressão minha ou você está um pouco cansado?
MARCELO – Muito trabalho.
MARINA – Coincidência te encontrar aqui.
MARCELO – Por que o espanto? Meu escritório continua no mesmo lugar.
MARINA – É verdade, tinha até esquecido, é aqui perto, não é?
MARCELO – Do lado. Fumando agora?
A lei anti-fumo não vale para as mulheres fatais. Entre um trago e outro, dentro da banca de jornal, Marina transformou o pequeno ambiente em cenário de filme noir.
MARINA – Socialmente. Sabe que hoje falei com o Leo?
MARCELO – Liguei pra ele na semana passada.
MARINA – Ele te disse que tá pensando em vir passar as férias?
MARCELO – Comentou. Mas não deu certeza.
MARINA – Sinto tanta saudade do meu filho.
MARCELO – Eu também.
Marina estala a língua com aquela intenção de “ai meu deus”. Apaga o cigarro com a ponta do sapato altíssimo.
MARINA – Com licença, Marcelo.
Marcelo – À vontade.
Ela abre a bolsa. Atende o celular simulando uma chamada vibracall. Outra ideia nem um pouco original, mas igualmente eficaz. E fala, amorosa, com ninguém do outro lado da linha. Marcelo finge não estar nem aí para a “conversa”, mas seria capaz de repetir cada palavra proferida por Marina.
MARINA – Oi, meu bem. Tudo. Já acabou? Não? Vai demorar? Ah, que pena. Então vou comer alguma coisa, aqui mesmo. Estou morrendo de fome. Amanhã a gente se encontra. Não, não se preocupe, eu pego um taxi. Também. Muita. Muita saudade, meu bem. Beijos!
Marina desliga. Frívola. Displicente. E, fazendo uso de outro truque super batido, ela resolve retocar o batom. Lentamente, de um canto a outro da boca. Sexy. Marcelo, hipnotizado, não tira os olhos dos lábios besuntados de vermelho cintilante. Mais uma prova de que os clichês funcionam.
MARINA – Onde nós estávamos?
MARCELO – Nós?
MARINA – Do que estávamos falando mesmo?
MARCELO – Da boca?
MARINA – Boca?
MARCELO – Vermelha.
MARINA – Hã?
MARCELO – Quer dizer… da fome negra.
MARINA – Fome?
MARCELO – Quer jantar?
Marcelo não sabe até hoje como aquelas duas palavras encontraram a sua voz. Até hoje ele jura que não foi ele. Acha desculpas no sobrenatural, na má interpretação dos vocábulos…
MARINA – Nós dois?
Marina deixa escapar um sorriso. Nem tão largo que entregasse de bandeja suas intenções, nem tão disfarçado que não deixasse Marcelo confiante. Como mulher experiente ela sabia que o homem tem que sentir encorajado para seguir em frente. Para acreditar na ilusão da conquista. Marina fez sua parte. Abriu caminho para a confiança de Marcelo. Deixando os louros para ele.
MARCELO – Conheço um lugarzinho aqui perto.
MARINA – O que estamos esperando?
Fim do capitulo.
Até quinta!
Estranha Obsessão – capítulo 05
Se quiser ouvir a trilha sonora:
Um ano antes…
Livia só percebeu que tinha exagerado no perfume quando entrou no elevador. A senhorinha ao lado foi espirrando do térreo ao 4º andar, onde desceu aliviada. Sozinha, olhou-se no espelho. Bela! Talvez ainda mais do que no dia em que foi encontrar Marcelo, na “Parreirinha da Alfama”. Parou no 8º andar como quem vai para o céu. Era assim que se sentia, nas nuvens. Esperou dezoito anos por aquele encontro. Finalmente retomaria sua vida do ponto em que ela tinha sido interrompida. Passou mentalmente o que iria fazer. Tinha ensaiado falas e expressões para que tudo saísse a gosto. Apertou a campainha. Uma. Duas vezes. Na terceira a maçaneta girou. Livia desconcertou-se com o que viu do outro lado da porta. Esqueceu-se dos ensaios. Fugiu do roteiro. O jeito foi improvisar.
LIVIA – Atrapalho a faxina?
Marina ficou sem reação. Não esperava. Respirou fundo. Tirou o lenço da cabeça. Secou a gota de suor que brotou da testa, instantaneamente tensionada. A touca de cabelo e os grampos à mostra. Desamarrou o avental. O contraste com a outra, toda produzida para a ocasião, deixou-a incrivelmente vulnerável. Mas não perdeu a pose. Tentou agir de forma natural. Com uma incrível presença de espírito e rapidez de raciocínio, perguntou irônica.
MARINA – Tem certeza que não errou de endereço? Não me lembro de ter marcado nada com você na última vez que nos vimos.
LIVIA – Posso entrar?
MARINA – Não costumo receber fantasmas na minha casa.
LIVIA – Surpresa, aposto!
MARINA – Fantasmas não surpreendem. Assustam. Aparecem de repente, sem avisar.
LIVIA – Se eu avisasse ia perder essa cena tão deliciosa. Você de vassoura em punho.
MARINA – Como você pode ver sou uma esposa dedicada. Estou fazendo um jantarzinho pro meu marido que chegou de viagem…
LIVIA – Lisboa.
MARINA – Como?
LIVIA – Não vai me convidar para entrar? É assim que você trata uma amiga de tantos anos?
MARINA – A casa está uma bagunça. Hoje nem fui ao escritório. Decidi eu mesma arrumar a casa. Mandei a empregada embora.
LIVIA – Acho que tem alguma coisa queimando.
MARINA – Meu Deus, esqueci o forno ligado!
Mesmo sem convite oficial, Livia avançou em território inimigo. Triunfante. Enquanto Marina ia até a cozinha, ela caminhou pela sala observando minuciosamente todos os detalhes. Os móveis, cortinas, a mesa com cadeiras, tapete. Torceu o nariz. Achou tudo meio assim. Exagerado. Tentou fotografar o ambiente na memória. Para não repetir os mesmos erros. Queria que a casa deles fosse completamente diferente. Endereço novo. Tudo novo. Uma nova vida.
MARINA – Está procurando alguma coisa ou seria alguém? Se você queria encontrar com ele está perdendo o seu tempo. Vai chegar tarde hoje.
LIVIA – Seis horas.
MARINA – Como?
LIVIA – Às seis horas ele sai do escritório. Tem uma reunião externa. Deve chegar lá pelas 20hs. O que você está preparando para o jantar? Ele adora um bom pernil assado.
MARINA – Você andou espionando a minha vida?!! Por que você não diz logo o que veio fazer aqui?
LIVIA – Pra quê a pressa? Quero aproveitar. Afinal, esperei tanto por esse momento.
MARINA – Não tenho tempo pra esse joguinho de meias palavras. Como você pode ver, eu tenho muito que fazer.
LIVIA – Tem conversado com seu marido?
MARINA – Isso não é da sua conta!
LIVIA – Não notou nada de diferente desde que ele voltou?
MARINA – Notei sim. Notei que ele está muito mais atencioso. Quer jantar hoje. Só nós dois. Sozinhos.
LIVIA – Culpa. Está se sentindo culpado.
MARINA – Talvez. Ele estava viajando no nosso aniversário de casamento. 18 anos! Quer recompensar. Acho que vamos ter uma comemoraçãozinha especial, hoje à noite… Se é que você me entende.
LIVIA – Se eu fosse você não cantava vitória antes da hora.
MARINA – Como você é ridícula! A minha vitória foi há muito tempo. No dia em que casei com Marcelo. Nunca vou esquecer a cena. Eu saindo pra igreja. Enquanto você ficava no chão soluçando, desesperada.
LIVIA – A vida dá voltas.
MARINA – Tenho pena de você. Você ainda o ama.
LIVIA – Lisboa.
MARINA – O que tem Lisboa?!
LIVIA – Lua de mel em Lisboa. É sobre isso que ele quer conversar com você. O jantar.
MARINA – Lisboa! Foi inesquecível mesmo. Passamos a nossa lua de mel lá.
LIVIA – A minha!
MARINA – Do que você está falando?
LIVIA – A minha lua de mel em Lisboa foi inesquecível!
MARINA – Não estou entendendo aonde você quer chegar. Por que você não vai direto ao assunto?
LIVIA – O destino é surpreendente, não é? . Encontrar com o Marcelo justo em Lisboa. Quem poderia imaginar…
MARINA – Você, o quê?
LIVIA – Ele não te contou? Sete dias sem por os pés para fora do hotel. Uma loucura. Tiramos o atraso…
MARINA – Você está querendo me envenenar contra o meu marido!
LIVIA – Deve ser por isso que ele quer jantar com você hoje. Só os dois. Sozinhos.
MARINA – Mentira!
LIVIA – Você devia me agradecer. Afinal, estou te poupando do susto. Assim, você já vai preparada quando ele disser que o casamento de vocês acabou.
MARINA – Não acredito em nada do que você está dizendo!
LIVIA – Nunca fui tão sincera em toda a minha vida. Sincera e feliz. Estamos muito felizes.
MARINA – Inveja! Você sente inveja de mim!
LIVIA – Estamos apaixonados, Marina. Apaixonados. Não conseguimos ficar longe um do outro. Resolvemos, inclusive, morar juntos. O mais rápido possível. Por falar nisso, você tem os classificados de hoje? Estamos procurando apartamento.
MARINA – Cretina!
LIVIA – Eu sei o que você está sentindo. Dói, não é? E vai doer muito mais. Amanhã. Depois de amanhã. Depois de um mês ainda vai doer, eu espero. Estou torcendo para que você sofra tanto quanto eu. Ou mais. Mais, seria perfeito!
MARINA – Louca! O Marcelo é meu marido!
LIVIA – Era. Agora ele é meu! O Marcelo é meu! Só meu!
MARINA – Saia já da minha casa! Fora! Fora daqui!
LIVIA – Você pode me expulsar da sua casa. Mas não pode me tirar dos seus pensamentos, do seu coração, do seu peito… Eu ainda vou lhe fazer companhia por muito tempo, Marina. Nas noites insones, nos fins de semana, nas datas importantes! Sempre que você pensar nele, eu vou estar. Pra te lembrar da nossa amizade!
MARINA – Fora daqui! Fora daqui! Eu te odeio! O Marcelo é meu! Meu!
E Livia saiu triunfante deixando Marina borralheira preparando o jantar. Que foi temperado com lágrimas. Muitas lágrimas. Marina chorou tanto que salgou a comida. Chorou de raiva. De ódio. Sentia-se a última das mulheres. Nunca fazia faxina. Foi dar uma de dona de casa bem no dia em que Livia reapareceu na sua vida. Muita falta de sorte! Ela esperou Marcelo voltar do trabalho. Esperou uma. Duas. Quatro horas. A madrugada inteira. Ele não voltou. Ele não voltaria mais para aquela casa. Já estava debaixo dos lençóis com Livia. Marina continuou chorando. Dias seguidos. Não comia. Não bebia. Não falava. Apática. Desidratou. O cabelo caiu. A pele murchou. Foi ao fundo do poço. Virou um bagaço. Dor de amor acaba. Derruba. Quase mata. Mas Marina era forte. Depois de três meses teve forças para se levantar e ir ao banheiro. Sem querer, se olhou no espelho e chorou mais uma vez. A última. Estava tão fraca que só caiu uma lágrima. Ficou aterrorizada com sua imagem desfigurada. E ali, diante do espelho, prometeu a si mesma que daria a volta por cima.
FIM DO 5º CAPÍTULO.
Até quinta!
Estranha Obsessão – capítulo 04
4º CAPÍTULO.
Para ouvir a trilha sonora:
Um ano depois…
Marina abriu a bolsa. Pegou um frasco de comprimidos. Despejou alguns na palma da mão levando-os à boca. Engoliu tudo a seco, sem água, arranhando a garganta. Andava de um lado para o outro, ansiosa. À medida que andava, ia acentuando a ruga no meio da testa. Ruga de expressão que aos poucos foi se transformando em ruga de duração. Foram anos encrespando e refazendo o mesmo vinco. Deu trabalho. Mas enfim, estava marcada para sempre. Uma tatuagem no meio da testa. Carregava-a no meio da testa. Há anos. Nem sabia como tinha ido parar ali: Ela. Livia.
CENA 1 – APARTAMENTO DE ARTHUR. SALA. INT. DIA.
MARINA – Eu preciso encontrá-la!
ARTHUR – Quer dizer que a merda estourou?
MARINA – Sem gracinhas, Arthur! Por favor. Você sabe de alguma coisa? Ela te procurou?
ARTHUR – Fica calma.
MARINA – E quem disse que eu estou nervosa?
ARTHUR – Você está uma pilha.
MARINA – Eu estou é possessa!
ARTHUR – Mais cedo ou mais tarde ela ia acabar descobrindo.
MARINA – O Marcelo contou que ela saiu enlouquecida. Batendo a porta.
ARTHUR – Tá satisfeita?
MARINA – O Marcelo também, vou te dizer! Deixar ela sair assim. Não podia. No estado em que ela estava pode até ter acontecido alguma coisa. Se você soubesse o ódio que eu estou sentindo. Minha cabeça parece que vai explodir.
ARTHUR – São esses remédios que você toma.
MARINA – Olha quem fala.
ARTHUR – Vem cá, vem.
Arthur se aproxima, os olhos transbordando malícia. Ele a enlaça pela cintura querendo beijá-la. Marina, arredia, tenta esquivar-se.
MARINA – Ai, me larga. Você bebeu!
ARTHUR – Só uma dose.
MARINA – Não suporto esse cheiro de cachaça. Isso faz um mal.
ARTHUR – Vodka. E até parece que você se importa.
MARINA – Eu me preocupo com você.
ARTHUR – Você só se preocupa com ela.
MARINA – Você jura que ela não esteve aqui? Jura?
ARTHUR – E por que você acha que ela ia me procurar?
MARINA – Vocês não se dão bem? Não são tão civilizados?
ARTHUR – No fundo somos todos bárbaros.
MARINA – Não é possível! Uma pessoa não pode sumir assim. Imagina um lugar. Um lugar pra onde ela possa ter ido.
ARTHUR – Marina, olha pra mim. Eles não estão separados? Pronto! Você venceu, parabéns! Agora esquece.
MARINA – Foi você?
ARTHUR – Eu o quê?
MARINA – Foi você! Que escreveu a carta!
ARTHUR – Que carta? Você não está falando coisa com coisa.
MARINA – Mandaram uma carta anônima pra ela. Contando tudo.
ARTHUR – Tudo? Você quer dizer, sobre a gente?
MARINA – Tudo sobre eu e o Marcelo!
ARTHUR – E sobre a gente? Você acha que ela sabe?
MARINA – Será que você não entende, Arthur? Eu que tinha que contar! Era meu direito! Ninguém podia me tirar esse direito! Esse gostinho. De esfregar na cara dela como ela fez comigo naquele dia. Um ano, meu Deus! Parece que foi ontem. Ela teve a petulância de ir até meu apartamento me falar aquelas coisas. Sobre Lisboa! A felicidade dos dois! Eu daria meu dedo mindinho pra ter esse mesmo prazer. E estava prestes a conseguir. Tudo dando certo. Tinha reconquistado o Marcelo…
ARTHUR – Você ainda o ama?
MARINA – Ciúmes agora?
ARTHUR – Quero saber. Curiosidade.
MARINA – Eu o amo tanto quanto você a ama. Só que com uma diferença.
ARTHUR – Posso saber qual?
MARINA – Eu vou à luta. Não fico me martirizando, enchendo a cara, esperando que ela volte.
ARTHUR – É verdade. Você corre atrás.
MARINA – Claro, do que eu quero.
ARTHUR – Você corre atrás dele. Como uma cachorrinha.
MARINA – Você não sabe o que está falando! O Marcelo voltou pra mim porque quis.
ARTHUR – Você procurou. Seduziu. Não sossegou enquanto não conseguiu o que queria.
MARINA – Eu sempre consigo o que eu quero.
ARTHUR – Só te digo uma coisa: Cuidado com o que você deseja.
MARINA – Tá me rogando praga, agora? Era só o que me faltava.
ARTHUR – Será que você não percebe? Essa história já foi longe demais! Demais!
Marina foi sincera quando disse que conseguia tudo o que queria. Só não disse que tudo o que queria se resumia a apenas uma palavra: Marcelo. Não o ex-marido, com o qual fora casada por uma vida. Queria o Marcelo que tinha voltado de Lisboa. Nos braços de Livia. Desejava o homem da outra. Não poupou esforços. Repaginou o visual e o guarda roupa. Clareou os dentes. Malhou os glúteos. Depilação cavada. Foi à luta. Naquela tarde, um encontro casual deliberadamente planejado, deu início ao que seria mais um capítulo na história das duas. Marcelo estava saindo do escritório na Avenida Rio Branco, quando parou na banca de jornal, em frente ao seu prédio. Folheava uma revista de economia quando uma voz familiar disse: Oi.
Não percam o próximo capítulo…
Até quinta!
Estranha Obsessão – capítulo 03
CAPÍTULO 3
A meteorologia tinha previsto temporal para o final da tarde. Fazia um calor insuportável. Daqueles de sair fumaça do asfalto. Nenhuma brisa. Livia se abanava dentro do taxi parado no engarrafamento, embora a temperatura no interior do veículo atingisse um grau siberiano. O taxista se vangloriava do clima europeu: “Tenho o melhor ar condicionado de todo o Rio de Janeiro, Dona”. Tinham chegado de viagem. Ela e Marcelo. Ele pediu três dias para resolver as coisas. Foi para Botafogo. Queria preparar o terreno. Dar a notícia com calma. Para não haver escândalo. Livia concordou, claro meu amor. Mas em seu íntimo já tinha decidido: antes do terceiro faria uma visita surpresa na Rua das Palmeiras. Pegaria Marina desprevenida. Indefesa. Por isso estava ansiosa. Queria chegar logo. Antes que desabasse o temporal. Antes de Marcelo voltar do trabalho. Resolveria de uma vez por todas o assunto entre elas. Mas um acidente na São Clemente parou o trânsito. E assim parada, olhando o sol escaldante do lado de fora, lembrou-se da última vez em que se viram. O tempo também estava de ovo virado. Há dezoito anos chovia torrencialmente. Um dilúvio no Rio. Marina de branco. Marcelo na Igreja. Lívia desnorteada.
CENA 1 – 18 ANOS ANTES. CASA DE MARINA. QUARTO. INT. NOITE.
LÍVIA ABRE A PORTA DO QUARTO ONDE MARINA ESTÁ SE ARRUMANDO.
MARINA – Você?
LIVIA – Surpresa!
MARINA – O quê você veio fazer aqui?
LIVIA – Eu sabia!
MARINA – Como conseguiu entrar?
LIVIA – Sabia que seu vestido de noiva ia ser pavoroso! Nunca vi um vestido mais cafona!
MARINA – Não seja ridícula! Cadê todo mundo?
LIVIA – Já foram pra Igreja.
MARINA- E meu avô? Eu tenho que ir.
LIVIA – Vovô Joel está na sala. Me confundiu com a “dama de honra”! Tem certeza de que ele é que vai te levar até o altar?
MARINA – Adoraria ficar de papo com você, mas eu estou atrasada! Se você não sabe eu vou me casar.
LIVIA – Você não vai a lugar nenhum!
MARINA – Você não vai me impedir!
Livia espumava rancor. O ódio inchou a glote, estreitando o ar, sufocando o perdão. Nenhuma possibilidade de armistício entre as duas. A guerra estava declarada. Armas em punho. Unhas em riste. Livia partiu para cima do vestido de noiva de Marina. Se embolaram no chão feito duas gatas. Primeiro round da batalha. Muitos arranhões. Tecido branco rasgado. Ferido um coração.
MARINA – Sua louca! Olha o que você fez? Meu vestido!
LIVIA – Bem feito!
MARINA – Socorro! Alguém me ajude!
LIVIA – Pode gritar o quanto quiser. Pelo o que eu sei, Vovô Joel é praticamente surdo.
MARINA – Louca! O que você quer, fala!
LIVIA – Você sabe: Ele! Eu quero ele! O Marcelo é meu!
MARINA – Era! Você ainda não se conformou. Meu Deus! Você tem que aceitar! Não tenho culpa se ele preferiu a mim…
LIVIA – Ele não preferiu, você que se ofereceu!
MARINA – Quem ama se oferece!
LIVIA – Cínica! Foi naquela noite! Você me traiu naquela noite que eu caí de cama com rubéola. Antes de ir para o hospital eu pedi: Marina, me faz um favor. Liga para o Marcelo e diz que eu não vou poder ir ao encontro. E o que você fez? Em vez de você ligar, você é que foi! Se encontrar com ele! No meu lugar!
MARINA – Eu fui à luta. Só isso!
LIVIA – Você me enganou. Você era minha confidente. Minha melhor amiga. Mas na verdade o que você queria o tempo todo era roubar ele de mim!
MARINA – Eu não roubei ninguém. Sabe por quê? Porque ele nunca foi seu. Nunca!
LIVIA – Judas! Traidora!
MARINA – Depois daquela noite ele que passou a me procurar. Marcelo saia com você pra ir ao cinema, pra tomar sorvete… Depois te deixava em casa, com a desculpa de que tinha que acordar cedo, e ia correndo ao meu encontro! Feito um cachorrinho abanando o rabo.
LIVIA – Você o enfeitiçou!
MARINA – O Marcelo flertava comigo e você nem percebia. Me dizia gracinhas. Dizia o quanto eu era bonita, gostosa…
LIVIA – Mentira!
As palavras de Marina eram como lanças estocando a carne fragilizada da outra. Livia não aguentou a humilhação e partiu pra cima da rival. As duas no chão de novo. Segundo round. Rasgos. Gritos. Ofensas. Feridas mais profundas. Livia por cima de Marina. Marina presa entre suas pernas. Livia, enlouquecida , rasga o que sobrou do vestido branco.
MARINA – Você pode rasgar tudo se quiser, pouco me importa! Aposto que ele casa comigo de qualquer jeito! Até nua se for o caso! Aliás, acho até que ele vai preferir. Nua!
LIVIA – Piranha! Todo mundo sabe por que ele está se casando com você!
MARINA – Amor! Ele me ama.
LIVIA – Grávida! Sua… grávida! Todo mundo sabe que você engravidou pra forçar o casamento.
Marina, num ato desesperado, morde o braço de Livia conseguindo desvencilhar-se da outra. Livia ao tentar segurá-la pela calda do vestido acaba ficando com um pedaço de tecido nas mãos. Já na porta, em frangalhos, Marina se vira e diz sorrindo:
MARINA – Admita, Livia. Você perdeu. Perdeu! Nós estamos felizes. Vamos ter um filho. Ele me ama! O Marcelo é meu! Só meu!
Livia, estirada no chão, chora copiosamente vendo Marina afastar-se vitoriosa.
18 anos depois .
E aquelas frases ficaram reverberando durante dezoito anos no fundo da alma de Livia. O trânsito andou. O taxi virou na Rua das Palmeiras. Parou na altura de um prédio de azulejos. Ela pagou o que devia e ainda deixou o troco de gorjeta. Estava generosa naquela tarde. Saltou do carro quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Olhou para o céu. Olhou para a janela do 8º andar. A luz estava acesa. Podia ver o vulto de Marina atrás da cortina. Era chegada a hora. Abriu a bolsa e pegou um pedaço de pano branco amarelado pelo tempo. Apertou-o de encontro ao peito e entrou no prédio.
FIM DO 3º CAPÍTULO.
ATÉ QUINTA!
Estranha Obsessão – capítulo 02
Para ouvir a trilha sonora:
O sangue congelou nas veias. Aquela breve sensação de morte. De montanha russa despencando no vazio. Queria fugir dali, correr, tomar um chá de sumiço. Mas suas pernas não lhe obedeceram. Foram fieis ao coração que lhes ordenava: Em frente! Enfrente! Jamais as pernas de Livia seriam acusadas de covardia. Pelo contrário, mesmo fraquejando se aproximaram daquele homem sentado, de costas, num café no Rossio. Era ele. Só podia ser. Conhecia de longe os ombros largos, braços fortes. Sonhou durante anos estar envolta em seus abraços.
CENA 1 – UM ANO ANTES. CAFÉ PEROLA. LISBOA. EXT. DIA.
MARCELO – Livia?
LIVIA – Marcelo…
MARCELO – Não é possível.
LIVIA – Quanto tempo.
MARCELO – Muito.
LIVIA – Pois é. Que…
MARCELO – Que coincidência.
LIVIA – Destino…
MARCELO – Como?
LIVIA – Nada… Você não mudou nada.
MARCELO – Passeando?
LIVIA – A trabalho. Lançando um livro novo.
MARCELO – Você está ótima.
LIVIA – 18 anos.
MARCELO – Tudo isso?
LIVIA – Não nos vemos desde o casamento.
E um silêncio ensurdecedor ergueu um muro de 18 anos entre eles. Livia não sabia por que tocou naquele assunto. Por que voltou àquele dia fatídico? Quando sua vida perdeu o rumo. Quando foi apunhalada pela melhor amiga. Marcelo percebeu o terreno perigoso pelo qual caminhavam, ficou nervoso, sorriu. Sorriu de nervoso como costumava sorrir naquelas situações embaraçosas. Foi quando teve a brilhante ideia de mudar de assunto.
MARCELO – Vim visitar meu filho.
LIVIA – Ah. Deve estar um homem.
MARCELO – Enorme. Mais alto do que eu.
LIVIA – Ele está estudando em Lisboa?
MARCELO – Na verdade, em Londres. Vim a Lisboa só passar uns dias. A última vez que estivemos aqui foi na lua de mel… (T) Desculpa.
E o silêncio instalou-se de novo como uma bomba. O esforço de se entrincheirarem atrás de comentários triviais e ligeiros foi inútil. O abismo e o perigo os espreitavam a cada ponto final e inicio de frase com letra maiúscula. Segundas, terceiras, muitas intenções estavam em jogo. Palavras não ditas, gestos abortados, sentimentos represados durante anos. Muito amor, muita dor, muito tempo separavam os dois. O passado e um nome que não ousavam dizer. Marina.
LIVIA – É melhor eu ir embora.
MARCELO – Já? Não. Espera.
LIVIA – Vocês devem ter muito que comemorar. 18 anos. Não é sempre que se tem uma segunda lua de mel.
MARCELO – Não é o que você está pensando.
LIVIA – Dê lembranças a ela.
MARCELO – Daria. Se ela estivesse aqui. Voltou ontem para o Brasil. Compromissos no escritório.
O rosto de Lívia iluminou-se. O destino se fez presente de novo. Com o campo inimigo aberto, exposto, sem dentes, tinha uma nova chance. Não iria desperdiça-la. A sorte não costuma fazer visitas frequentes. Usaria todas as armas disponíveis.
LIVIA – Eu estou pensando uma coisa, mas não sei…
MARCELO – Fala.
LIVIA – Não me interprete mal, Marcelo.
MARCELO – Fala.
LIVIA – Por que a gente não toma um drink, mais tarde? Pra bater um papo…
As palavras foram saindo de sua boca deliberadamente entreaberta, úmidas de desejo. De malícia. De planos. Marcelo, afoito, mordeu a isca, quis encurtar o tempo, acelerar o relógio.
MARCELO – Melhor. Por que a gente não toma um drink agora, e depois outro mais tarde?
LIVIA – Agora?
Fez charme. Voz de virgem inocente. Sabia que era preciso. Um truque que funcionava sempre. Fazia parte do jogo. Da conquista. Errara no passado por não saber jogar. Não cometeria o mesmo erro de novo.
LIVIA – Não posso.
MARCELO – Casada?
LIVIA – Eu? Fui. Algumas vezes.
MARCELO – Sozinha? No momento?
LIVIA – Namorando, quase casando de novo.
MARCELO – E quem é o felizardo?
LIVIA – O meu primeiro ex-marido.
MARCELO – Casar duas vezes com a mesma pessoa?
LIVIA – Qual o problema? Difícil é se separar duas vezes da mesma pessoa. Casar é fácil.
MARCELO – Fácil casar. Fácil se separar. Difícil é encontrar a pessoa certa. É difícil encontrar e reconhecer a pessoa certa no meio de tanta gente.
LIVIA – Engraçado você tocar nesse ponto.
MARCELO – Às vezes eu me pergunto como eu fui tão cego.
LIVIA ABRE SUA BOLSA E PEGA UM LIVRO SEU. ESCREVE ALGUMA COISA, ENTREGA-O A MARCELO. MARCELO ABRE O LIVRO E LÊ:
“ALGUMAS PESSOAS SÃO PARA SEMPRE. CERTAS OU ERRADAS SÓ VOCÊ VAI PODER DESCOBRIR”. ME ENCONTRE ÀS 21:00H, NA “PARREIRINHA DE ALFAMA”.
Marcelo fechou o livro onde se lia, na capa, o título: “Como reconhecer o amor da sua vida”. Os dois se olharam conscientes do que aquela noite poderia significar. Se afastaram sem dizer nada. Nem precisavam.
CENA 2 – LISBOA. QUARTO DE HOTEL. INT. NOITE.
Fingiu uma normalidade que lhe emprestava um ar artificial. Esforçou-se para passar o batom sem ultrapassar o contorno dos lábios. Ação dificílima já que as mãos de Livia tremiam denunciando o estado de ansiedade e excitação. Arthur até notou algo de diferente na mulher, mas foi indiferente à diferença. Naquela noite só pensava na praia. Já escutava o som das roletas.
LIVIA – É um jantar chatérrimo. Com o pessoal da editora. Você ia odiar. Estou bem? O que você acha?
ARTHUR – Está linda demais para um jantar chatérrimo.
LIVIA – E depois, você não queria ir ao Estoril? Aproveita, seu bobo. Vai poder jogar sem eu ficar te controlando. Já estou até vendo o prejuízo que vai ser essa noite.
ARTHUR – Você me incentivando a ir ao Cassino? Que bicho te mordeu? Animada…
LIVIA – São os ares de Lisboa. Adoro essa cidade.
ARTHUR – Linda!
LIVIA – Lisboa?
ARTHUR – Linda você!
LIVIA – Pelo jeito não sou só eu que estou animada.
ARTHUR – Tô sentindo que vou ganhar uma grana preta. Uma bolada daquelas de quebrar a banca.
LIVIA – Só me promete uma coisa. Pega leve na bebida, Arthur.
ARTHUR – Tô com uma intuição que a noite vai ser especial…
LIVIA – Eu também. Uma intuição.
CENA 3 – LISBOA. CASA DE FADO “A PARREIRINHA”. INT. NOITE.
Marcelo chegou meia hora antes do que o combinado. Uma pequena e simpática casa de fados, em Alfama. A música, meio triste meio alegre, combinava com um amor como o deles, fadado à tragédia. Livia foi pontual. Estava especialmente bela. Como se tivesse voltado no tempo. Como se o frescor lhe cobrisse de novo o rosto. E o corpo. Poucas palavras durante a noite inteira. Mas os olhos não se desgrudaram. Tampouco as pernas debaixo da mesa.
MARCELO – A vida é engraçada. Nunca imaginei que pudesse encontrar você aqui. Tão longe.
LIVIA – Às vezes a gente acha que está indo pra longe, mas na verdade está se aproximando.
MARCELO – Vamos embora.
LIVIA – Pra onde?
MARCELO – Pra qualquer lugar onde eu possa tirar a sua roupa.
E eles se beijaram sofregamente. 10 minutos contados no relógio. Sem descolar os lábios. Sem pausa nem para respirar. Uma marca considerável. Um feito apnéico. Mas para Livia e Marcelo era pouco, apenas uma migalha. Ínfima. Tamanha a fome que tinham um do outro. Foram para um motel barato, o mais perto que encontraram. E dali só sairiam uma semana depois, com uma pausa apenas. No dia seguinte Livia foi pegar suas coisas no hotel, onde encontrou Arthur ainda sobre o efeito do álcool e do preto 27.
CENA 4 – QUARTO DE HOTEL. INT. DIA
ARTHUR – Eu disse! Não disse que estava com uma intuição?
LIVIA – Você devia tomar um café. Um banho.
ARTHUR – Eu sabia que a noite era minha! Tô rico, meu benzinho!
LIVIA – A gente precisa conversar.
ARTHUR – Vem cá, vem…
LIVIA – Tira as mãos de mim.
ARTHUR – O que você quer? Eu te dou! Eu compro!
LIVIA – Você não percebe que…
ARTHUR – Vamos comemorar! Cadê a garrafa de champanhe?
LIVIA – Arthur…
ARTHUR – Sempre tive sorte no jogo, desde criancinha… O segredo é acreditar. Ter fé, entende? Eu acreditei! Preto 27!
LIVIA – Eu tenho uma coisa pra te dizer.
ARTHUR – Eu sou um homem de sorte!
LIVIA – Me escuta.
ARTHUR – Só se você parar de andar de um lado pro outro. Você tá me deixando tonto.
LIVIA – Eu estou indo embora.
ARTHUR – Embora pra onde?
LIVIA – Você está tão bêbado que nem reparou que eu estou fazendo as malas…
ARTHUR – Vai viajar?
LIVIA – Acabou, Arthur. Acabou.
ARTHUR – O que você está dizendo?
LIVIA – Sinto muito. Eu reencontrei uma pessoa.
ARTHUR – Aqui? Em Lisboa?
LIVIA – Isso é o que eu chamo de sorte.
E Livia voltou para os braços de Marcelo. Se trancaram no quarto por 7 dias famintos. Lua de mel em Lisboa. Esqueceram da vida. Esqueceram de tudo. Viveram o amor mais intenso que a cidade já conheceu. No oitavo dia tiraram uma foto da sacada do quarto, com vista para o Tejo. Depois decidiram que era hora de voltar e enfrentar o mundo que desabava lá fora. Livia só fez um pedido:
CENA 5 – QUARTO DE MOTEL BARATO. INT. DIA
LIVIA – Marcelo, quero te pedir uma coisa.
MARCELO – O que você quiser, meu amor.
LIVIA – Quando chegarmos ao Brasil, eu quero contar.
MARCELO – O quê?
LIVIA – Não se faça de bobo.
MARCELO – Do que você está falando?
LIVIA – Quero contar sobre a gente.
MARCELO – Pra quem?
LIVIA – Ora, pra quem? Marina.
MARCELO – Livia, escuta.
LIVIA – Não tem conversa. É a minha condição. Se não for desse jeito está tudo acabado entre nós.
MARCELO – Mas que bobagem. Nós estamos juntos é o que importa.
LIVIA - Quero que ela ouça da minha boca.
E um sorriso sombrio tomou conta do rosto de Livia. Os olhos faiscaram com sede de vingança. Queria porque queria estar frente a frente com a outra e dizer na cara dela:
LIVIA – Marina. O Marcelo é meu. Só meu!
FIM DO 2º CAPÍTULO.
Até quinta!
ESTRANHA OBSESSÃO – capítulo 01
CENA 01 – CASA DE LIVIA. SALA. INT. NOITE.
Suas mãos tremiam segurando o pedaço de papel. Andava de um lado para o outro sem saber para onde ir. O ódio transbordava pelos poros. As pupilas dilatadas. Nenhum futuro lhe ocorria naquele instante. Só o passado encharcado de cólera. Só o nome dela tatuado na memória. Amassou a carta. Jogou-a na cara de Marcelo.
LIVIA – Pulha! Cafajeste! Não adianta negar!
MARCELO – A gente precisa conversar, Livia.
LIVIA – Ela me paga! Ela me paga! Há quanto tempo vocês estão juntos?
MARCELO – Eu não queria, eu juro… aconteceu.
LIVIA – Cínico! Canalha! Quanto tempo? Responde!
As palavras desonrosas que Lívia dirigia a Marcelo, já não o ofendiam mais, e isso a irritava profundamente. Ele sorriu. O riso dele ofendeu-a profundamente.
LIVIA – Você vai se arrepender de jogar esse sorriso na minha cara! Vai se arrepender!
MARCELO – Eu não estou rindo de você, Livia. Você sabe! Quando eu fico nervoso eu não consigo controlar.
Isso sempre acontecia com ele. Tinha um riso frouxo, de nervoso, que o embaraçava e o deixava ainda mais nervoso.
LIVIA – Como você é patético. Vocês se merecem! Você e ela!
MARCELO – Livia, me perdoa. Eu te amo. Sempre te amei. O resto? O resto foi um grande equívoco…
LIVIA – Você é um equívoco, Marcelo. Você!
Ela amava aquela sala que decorou com tanto capricho. Sentia por não ter passado mais tempo com o sofá, a estante, o tapete, as almofadas coloridas, os objetos sem utilidade que ela tanto gostava. Foram felizes ali. Foram inimigos ali. Foram um casal.
LIVIA – Quero tudo!
MARCELO – Tudo o quê?
LIVIA – Tudo o que está aqui.
MARCELO – Do que você está falando?
LIVIA – Não vou deixar nada pra ela. Nada! Está me ouvindo? Nunca teve gosto pra decoração, aquela vaca!
MARCELO – Livia. Escuta.
Ele tentou falar alguma coisa para acalmá-la, para se explicar. Mexeu a cabeça, colocou as mãos no bolso. Mas não conseguiu dizer nada. Uma pobreza de pensamentos. Gaguejou.
MARCELO – Eu… Eu…
Nunca foi bom com as palavras. Sabia usá-las de forma correta para fechar negócios, para saber a cotação do dólar, uma indicação de endereço, no máximo a previsão do tempo. Sempre que precisava delas, das palavras, para expressar sentimentos, elas fugiam e lhe pregavam peças, como naquele dia. Marcelo tinha tantas coisas pra falar. Tantas… Não saiu nada, só o riso nervoso. Só o nervosismo da contração das bochechas.
LIVIA – Você é um joguete nas mãos dela, será que você não percebe?
MARCELO – Se eu te disser que eu sinto muito, você acredita em mim?
LIVIA – Você é um poço de mentiras…
MARCELO – Não fala assim. Eu te amo tanto.
Ela olhou para a sala e uma tristeza profunda tomou conta de seu rosto. Desejou e amou aquele homem mais que tudo na vida. Pegou o que lhe restava de lucidez, a bolsa com os documentos, um casaco caso esfriasse. Debaixo do casaco achou a lembrança de dias melhores.
LIVIA – O que o meu livro está fazendo aqui?
MARCELO – Estava relendo. Presente. Lembra? Você me deu de presente. Quando nos reencontramos. Em Lisboa. Tem uma dedicatória tão bonita. (ELA ARRANCA A PÁGINA COM A DEDICATÓRIA, AMASSA E JOGA NA CARA DELE). Livia! Não!
LIVIA – Pode deixar que escrevo algo novo, mas é pra sua lápide! Do seu epitáfio, cuido eu. Inspiração não vai faltar!
E saiu batendo a porta naquela tarde de total descompasso. Saiu andando desembestada, apertando as mãos úmidas, crispadas, denunciando o estado de total descontrole, absoluto desamparo.
MARCELO – Livia! Livia!
Bateu a porta com tanta força que os vidros estremeceram e o porta retrato perto da porta tombou. Ele ajeitou o porta retrato em que ela sorria abraçada a ele. Lisboa. Ele sorriu olhando para o sorriso deles em Lisboa. Tão longe. Tão perto. Procurou uma palavra para lembrar dos dias felizes. Não achou. O telefone toca. O sangue de Marcelo bate mais forte. Ele pensa. É ela. Arrependeu-se, quer voltar. Mulher muda de humor como quem troca de roupa. Ele atende o telefone certo de que a felicidade lhe pertence de novo. Promete para si mesmo que agora vai ser diferente. Quer mudar de vida, agora, pra sempre.
MARCELO – Alô? Alô?
Do outro lado do aparelho uma respiração ofegante.
MARCELO – Alô? Alô?
MARINA – Sou eu, meu amor. Tudo bem?
MARCELO – Ah, é você. Oi.
MARINA – Desculpe ligar pra aí, não consegui falar com você. Precisava ouvir sua voz. A gente vai se ver hoje?
MARCELO – Hoje? Não, hoje não.
MARINA – Nem mais tarde?
MARCELO – Já disse, hoje não.
MARINA – Quando?
MARCELO – Não sei quando.
MARINA – O que você tem? Tão estranho.
MARCELO – Nada.
MARINA – Você está me escondendo. Fala.
MARCELO – Parabéns, Marina. Ela sabe de tudo.
MARINA – O quê?
MARCELO – Não precisa fingir.
MARINA – Não sei do que você está falando.
MARCELO – Livia. Descobriu.
MARINA – Descobriu? Como?
MARCELO – Foi embora. Vai me dizer que está surpresa?
MARINA – Claro! Não esperava, juro! Mas espera. Ela não pode ir embora assim.
MARCELO – Carta anônima… Você podia ter sido mais original.
MARCELO – Eu não tenho nada com isso, Marcelo, pelo contrário!
MARCELO – Confessa que você está feliz
MARINA – Nem um pouco. Dou minha palavra. Se era pra contar queria que fosse do meu jeito. Do mesmo jeito que ela fez comigo. Ou pior! Bem pior! Sonhei tanto com este momento.
MARCELO – Se não foi você, quem foi?
MARINA – Qual foi a reação dela? Marcelo! Eu preciso saber.
MARCELO – Vocês vão acabar me enlouquecendo…
MARINA – Marcelo, não muda de assunto. Ela chorou? Muito ou pouco? Com certeza me xingou. Aposto que xingou. De tudo quanto é nome. Sempre foi desbocada. Ela acendeu um cigarro? (MARINA ACENDE UM CIGARRO).
MARCELO – Tenho medo que ela faça alguma besteira.
MARINA – Queria ser uma mosca pra estar aí, você devia ter me ligado, eu ia correndo. Eu queria estar aí, pra ver a cara dela quando soube. Queria ver a cara dela! Mas me conta. Ela sofreu? Muito ou pouco? Deve ter chorado. Ela chora com uma facilidade. Nunca vi. Deve ter ficado histérica. Sempre foi. E a roupa? Que roupa ela estava usando? Ela estava bonita? Ela fica bem de vermelho. Marcelo, fala alguma coisa! Quero saber dos detalhes.
MARCELO – O detalhe sou eu. Sou eu!
MARINA – Não vem dar uma de santo, de vítima, de “não tenho nada a ver com isso”. Você está bem grandinho pra fazer esse papel. (T) Você não me respondeu. Ela estava de vermelho?
MARCELO – Quando isso tudo começou? Hein? Toda essa história, essa obsessão entre vocês duas?
MARINA –Mania sua de não responder as perguntas que te faço. Era só o que me faltava ela estar usando tons quentes, é a tendência da moda! Vai ter sorte assim lá… Sofrer na moda… Sem perder a pose. Ordinária!
MARCELO – Pra onde será que ela foi?
MARINA – Arthur! Liga pro Arthur. Ela pode ter ido procurá-lo.
MARCELO – Do Arthur, você sabe melhor do que eu.
MARINA – O que você está querendo insinuar? Não sou desse tipo.
MARCELO – Se não foi você… Nem eu… Quem mandou a carta?
MARINA – Eu que vou saber?
MARCELO – Você contou pra mais alguém, Livia? Sobre nós? Contou? Fala!
MARINA – Claro que não!
Ele continuou por mais duas ou três frases sem importância e desligou atordoado. Olhou para o relógio novamente. Olhou para o porta retrato novamente. E foi ali que encontrou o que procurava. De repente, do nada, achou a tal palavra que lhe fugia. Em Lisboa, atrás do sorriso de Livia: Saudade. Já sentia saudades dela. Saudades do dia em que se reencontraram. Em Lisboa.
Para ouvir a trilha sonora clique abaixo:
FIM DO 1º CAPÍTULO.
CONTINUA…

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