Porco a porco
A= ACÁCIA
S= SÉRGIO
P= PEGGY PORCINA, garçonete com cara de porca.
Um grupo de MÉDICOS SANITARISTAS ( Só entram bem depois…)
Restaurante Suíno’S Rio. Uma mesa, a princípio, vazia. ACÁCIA e SÉRGIO voltam do banheiro. ACÁCIA tentando dar um jeito no cabelo, SÉRGIO fechando o zíper da calça.
A- Precisava essa violência toda, Serginho? Me deixou descabelada.
S- A culpa é desse lugar. O cheiro de carne, o sangue. Me tira do sério!
A- Se pegam a gente, não sei nem onde enfiar minha cara!
S- Foi gostoso, vai? Confessa.
A- Essa mesa está ótima! Dá pra ver a baía toda daqui.
PEGGY PORCINA, a garçonete, se aproxima.
P- Sejam bem vindos ao Suínos Rio.
A- Obrigada. A gente vai de rodízio mesmo.
S- Piggy?
P- Não, Peggy. Peggy Porcina. E você é o… Jorge?
S- Sérgio.
P- Sérgio! Quanto tempo! Mas você está diferente! Remoçou!
S- É minha cara, eu mudei minha cara. (CANTA) Mas por dentro eu não mudo!
PEGGY se anima, ELA e SÉRGIO cantam juntos, cúmplices. ACÁCIA besta.
S e P- (CANTAM) Daquele momento até hoje esperei você! Daquele maldito momento até hoje – só você.
SÉRGIO e PEGGY caem na risada, ACÁCIA fecha a cara.
S- Que tempo bom! Que época bacana aquela!
P- Tempo bom que não volta mais.
S- Poxa, Piggy. Bom te ver.
P- (INFORMATIVA) É Peggy. (FRISA, SORRIDENTE) Peggy.
A- (CALMA) E eu sou Acácia. A esposa do Sérgio Henrique, e nós acabamos de fuder no banheiro.
P- O quê?
S- (REPROVA) Acácia.
A- (IMPÁVIDA) Fuder é uma palavra muito forte para uma churrascaria, benzinho? Eu digo porque qualquer um pode notar. Olha como estou. Toda suada, vermelha. Ele me descabela.
S- Querida, por favor…
A- A porta do meu útero está dormente. Olha, toda arrepiada! Fico assim por uma hora ainda.
S- Calma, anjo.
A- Eu estou calma! Imersa nessa calma que sucede o coito. Estou leve, plena, quase triste.
P- Eu vou trazer o cardápio de vinhos. Com licença.
A- Ninguém falou vinho. Eu quero um canecão de chope.
PEGGY se afasta.
A- (MURMURA) Porca.
S- Amorzinho? Pra quê isso?
A- Isso o quê, Sérgio Henrique?
S- Esse carnaval todo.
A- (REVOLTADINHA) Me deu vontade! Por quê? Não pode?
S- Eu mal conheço a Piggy.
A- É Peggy, Sérgio Henrique! Vai dizer que não meteu o espeto nesse saco de gordura!
S- Amor, olha, estou chocado com essa atitude. Nunca tinha visto você falar tanto palavrão.
A- Perdi a fome.
PEGGY volta com um canecão de chope e uma bandeja com uma paleta de leitão à pururuca.
P- Aqui seu chope, senhora. Paleta de leitão à pururuca, Sérgio?
S- Não, obrigado. Vou primeiro na salada.
P- A senhora?
A- Não gosto.
P- Com a geléia de pimenta fica uma coisa. Desmancha na boca.
A- (FINÉRRIMA) Geléia de pimenta na pururuca dos outros é refresco.
S- Se continuar assim, Acácia. Eu não respondo por mim.
P- Vou trazer o pernil. Mais macio que banana em conserva.
PEGGY se afasta.
A- Simpatiquinha. Vontade de voar na cara dela!
SOA UM ALARME. VOZ NOS AUTOFALANTES. ACÁCIA e SÉRGIO estáticos.
VOZ- Atenção! Se você esteve no estrangeiro e está sofrendo de tosse, acompanhada ou não de dor no corpo, calafrios, cansaço, coriza, olhos vermelhos, alucinações, entupimento das fossas nasais, febres acima de 38 graus repentina, convulsões, dores de cabeça lancinantes, torpor e morte, favor se identificar a um dos agentes sanitários aqui presentes.
SÉRGIO espirra. ACÁCIA olha assustada.
A- O que foi isso?
S- Meu Deus… Não conta nada, Acácia.
A- (ASSUSTADA) Gripou, meu anjo?
S- Por favor! Tenha pena de mim!
SÉRGIO espirra de novo. ACÁCIA protege o rosto com o guardanapo.
A- Te amo, querido, mas não quero pegar isso.
S- Vou morrer!!! Vou morrerrrr!!! Influenza!!!
A- Não faz assim, amor. Disfarça.
PEGGY se aproxima.
P- Chamou?
A- Não é nada.
P- Ele está chorando?
A- Não se mete, vadia. Vai tomar conta da tua vida!
P- Vadia é sua mãe, sua grossa! Recalcada!
S- Por que eu? Por que eu?
P- O que está acontecendo, Sérgio? Fala comigo!
A- Vamos embora! Nesse chiqueiro eu não fico nem mais um minuto!
P- Ninguém vai sair sem pagar o chope e os dois rodízios!
A- A gente não triscou o dedo nas tuas carnes gordurentas!
P- Fale por você! O Sérgio já mergulhou fundo nessas banhas!
ACÁCIA mete a mão na cara de PEGGY.
P- Cretina!
A- Safada! Eu acabo com você!!!
P- Sérgio! Controla a sua mulher!
A- Você dormiu com a porca, canalha?
S- Atchim!!!
PEGGY surpresa com o espirro de SÉRGIO.
P- Temos um alerta!!!! Alerta!!! Alerta!!!
PEGGY fazendo escândalo. Som de sirenes. Os AGENTES SANITARISTAS, em seus escafandros de proteção, surgem ali, algemam SÉRGIO e o embalam em um saco plástico.
S- Não! Me deixa! Eu quero respirar!
P- Levem daqui esse lixo!
AGENTES SANITARISTAS levam SÉRGIO dali.
A- Eu vou te buscar, querido. Me espera que estou logo atrás de você.
ACÁCIA com lágrimas nos olhos, toma seu chope de um só gole. PEGGY olha nos olhos de ACÁCIA, desafiadora.
P- Quer outro?
A- Eu não entendo… Quero meu marido de volta… Por quê? Por quê?
P- Sabe o que é, moça? Posso até ser uma porca, mas não levo desaforo para casa.
FIM
Conversa suína
Porco 1 – Você viu o que estão falando por aí?
Porco 2 – O quê?
Porco 1 – Fiquei sabendo que estão colocando a culpa na gente por uma gripe qualquer.
Porco 2 – Sempre isso…
Porco 1 – O ser humano tem uma coisa com a gente, né? Um ódio no coração.
Porco 2 – Pode crer…
Porco 1 – Por exemplo, a expressão “ronca como um porco”. Como assim? Eu nunca ronquei na vida.
Porco 2 – Eu também não. Durmo como um anjo…
Porco 1 – “Come como um porco”. O que é que tem comer como a gente? Nós comemos tranquilamente, como uma tartaruguinha. E o jacaré que é capaz de comer um homem inteiro, disso ninguém fala. Os jacarés, sim, é que têm uma grave disfunção alimentar, mas nós? Nós nem sequer comemos algo que esteja vivo…
Porco 2– É verdade.
Porco 1 – “Sujo como um porco”. Nós podemos não ser exemplo de limpeza, mas olha os elefantes, são muito mais sujos, já sentiu o cheiro de uma tromba? Coisa nojenta…
Porco 2- Deus me livre… não preciso nem sentir a tromba, só de chegar perto daquele corpinho já fico arrepiado, suvaqueira danada.
Porco 1- “Não jogue pérolas as porcos!”, essa é a pior! O que acham que vamos fazer com as pérolas? Lambuzá-las de lama? Eu venderia!
Porco 2 – Faria um colar para a Maribel, minha namorada!
Porco 1 – Então… o que acontece? Acho de uma injustiça…
Porco 2 – Como é o nome da gripe?
Porco 1 – Gripe suína.
(pausa)
Porco 2 – Acho chique. Gostei.
Porco 1 – Burro!
Burro – O quê?
Porco 1 – Não falei com você. Você não pode gostar, isso denigre nossa imagem!
Porco 2 – O que denigre é você roncando a noite inteira!
Porco 1 – Como assim?
Porco 2 – Olha, não disse antes para não te magoar, mas agora você me chamou de anta. Anta é demais!
Anta – Sou mesmo!
Porco 2 – Falei no mal sentido.
Anta – Ah…
Porco 1 – Eu não disse anta. Chamei de burro!
Burro – O quê?
Porco 2 – Ninguém falou com você. Você ronca assustadoramente. Por que você acha que a
Maribel resolveu namorar comigo?
Porco 1 – Realmente não sei. Você come que nem um jacaré gordo!
Porco 2 – Olha quem fala! Cala essa boca!
Porco 1 – Vem calar!
Os dois porcos começam a brigar, jogando lama um no outro.
Anta (para burro) – Você já viu um animal tão nojento como os porcos?
Burro – Nunca vi… são uns bárbaros.
Anta – Além de tudo preconceituosos.
Burro – Vamos sair daqui logo antes que a gente pegue uma gripe desses dois. (Saem)
Jacaré gordo – Alguém me chamou?
Despedida
“Meu amor, eu sei que o meu ato vai ser por puro egoísmo. Sei que você vai sentir minha falta e depois ficará com raiva de estar sozinha. Eu sei. Mas não pude deixar de seguir meu coração e fazer aquilo que eu acho que é o melhor pra gente. Tenho pensando muito no meu papel nesse mundo. Acho que não contribuo em nada. Usufruo da natureza loucamente sem dar nada em troca para ela. Abuso da bondade dos homens pensando unicamente no meu bem estar. Se faço algo de bom, não é nada mais para meu puro prazer. Sou um tremendo egoísta e me pergunto, por que você ainda está comigo? O que em mim faz você me mar, se eu não consigo enxergar virtudes nem qualidades na minha pessoa? Por isso vou te poupar. Poupar você de me aturar. Sim, uso a palavra aturar pra você entender o quanto me rejeito. Não pense que isso tudo signifique não te amo. Eu te amo muito, meu amor, meu anjinho, minha doçura. Mas meu amor não consegue ser inteiro e real enquanto eu não for inteiro e real comigo mesmo. Não chore. Não vale a pena. Eu não valho à pena. Eu não valho uma lágrima sua. Sou eu mesmo que estou dizendo. Sua vida linda, seu sorriso, sua energia, não são dignas de mim. Não são dignas da minha angustia e tristeza. Quando você estiver lendo essa carta já estarei longe, no céu, olhando as nuvens em direção ao meu destino. Acho que será a única coisa digna nesse mundo que farei. Claro que estou fazendo por mim, para me sentir alguém melhor, mas fazendo por mim, ajudo os outros. Se é que conseguirei ajudar. Não importa mais. O ato já está feito. A passagem de ida sem volta já está comigo. Não posso olhar pra trás. Não olharei. Se um dia ouvir falar de mim, espero que seja bem. Ou então nem ouça falar de mim. Porque agora não mais me pertenço. Sou deles. Abandono meu corpo para servir aos outros. Pela primeira vez consigo dizer “para os outros” para quem sabe um dia, me orgulhar de mim. Um beijo, meu anjo. Quem sabe um dia esteja transformado e aí sim, poderemos ser felizes. Mas não conte com isso. Talvez morra antes de isso acontecer. Essa gripe pode me atingir muito ates que eu perceba qualquer transformação aqui dentro. Não me procure. Não te deixarão entrar no México. Ninguém quer que você fique doente. Fique aqui e cuide de você. Farei de tudo para que esse vírus não chegue aqui. Mas sou apenas um. Se cuida. Sei se irritará com essa frase que mostra o quanto estou frio e egoísta, por isso a repito. Se cuida.
Um beijo- Antônio”
Um pouco de nada
leo: atchim!
arthur: saúde.
leo: obrigado, pai.
arthur: tá gripado, filho?
leo: foi só um espirro, pai.
arthur: toma cuidado, menino.
leo: já disse que foi só um espirro.
arthur: come toda a lavagem pra ficar forte.
leo: oinc, oinc.
anoitece. léo é sacrificado. o leitão é servido na mesa de uma família.
arthur: atchim!
leonardo: tá gripado, filho?
arthur: foi só um espirro pai…
e o menino enfira uma garfada na boca.
FIM
Diário de uma bulímica
(Para ser lido com sotaque de Paulicéia Desvairada. Numa performance particular bem poser dançando electro segurando um drinque colorido, uma alegria muito interna e contida. Antes de começar, favor erguer as sobrancelhas como se dissesse para alguém: Bette Davis te despreza!)
Pry: (filmando os próprios passos com uma máquina digital) Num supermercado 24h de uma cidade mega badalada. Eu saio de legging, saltão, blusa com decote tipo canoa e chapéu com risca de giz, chego super causando. Passo pela porta automática e jogo o cabelo. Eu tenho cabelão e cabelão é para jogar! Meu, eu sou ponta firme! Respiro fundo e vou mega decidida para a prateleira. (percebe a presença de Deh, se esconde atrás de umas prateleiras e por pura diversão filma a garota em segredo. Esbarra sem querer num vidro de ketchup)
Deh: Pry!
Pry: Deh!
(as duas se aproximam. Beijos imaginários no ar muito passareludos)
Deh: E aí, veio comprar comida?
Pry: Na real, não! Vim dar uma caminhada. Me sinto super segura fazendo cooper no mercado.
Deh: Jura?
Pry: Super juro! Dia desses testei um pivô novo!
Deh: Arrasa! (sem querer derruba uma lata que estava escondendo)
Pry: (num susto mega afetado) Ah, que é isso? Meu, eu não acredito! Você ia comprar isso?
Deh: Ai, Pry! Como você pode pensar isso de mim?
Pry: Meu, a lata caiu da sua mão! Pô! Deh, você ia comprar uma lata de feijoada? Putz, cara!
Deh: Lógico que não. Eu só estava olhando. (volta a pegar a lata)
Pry: Meu, larga isso! Você pode pegar gripe suína!
Deh: Calma, Pry! Que sem noção.
Pry: Sem noção?! Meu, quando a gripe aviária baixou, eu não passava perto da sessão de nugget! Quando rolou a vaca louca, eu parei de assistir propaganda de hambúrguer e fechava os olhos para não ver o M do Macdonald´s com medo de seqüelar.
(Deh encosta em Pry tentando acalmá-la)
Pry: (apavorada usando a blusa como máscara) Meu, tire as mãos de mim! Sua doente, suína, nojenta. Meu, você tá super podre! (Tem um ataque super fotográfico, dá um pivô e foge. Pausa…)
Deh: E Aí? Posso ver como ficou?
Pry: Meu a gente arrasou muito!
Deh: Luxo e riqueza!
Pry: Super! Já estou vendo a gente andando no tapete vermelho do festival do minuto.
Deh: Nosso primeiro filme!
Pry: (num letreiro de néon vermelho imaginário) Diário de uma bulímica!
Deh: Nossa! Super forte, pesado.
Pry: Meu, com esse título a gente vai chegar causando!
Deh: Ai, rica. Você me enche de orgulho!
Pry: (num ato de amor próprio festivo beija o próprio ombro) Nós somos super batutonas!
Fim
Para Tales Frey, um partner performático super batuta que sempre chega causando. (love!)
Bodas de porco
Ela (apaixonada) – Que coisa mais linda, meu amor.
Comemoram 25 anos de casados e ele, pela primeira vez nestes mesmos 25 anos, resolve preparar um jantar romântico surpresa.
Ele (abrindo a garrafa de vinho e servindo) – Um vinte e cinco anos.
Ela suspira.
Ele – De entrada, torradas norueguesas com pasta de espinafre americano e creme cheese com gotas de chocolate suíço meio-amargo.
Ela suspira.
Ele – O creme cheese fui eu que fiz.
Ela suspira.
Ele – Para o jantar, carne de porco com molho…
Espanto da mulher.
Ele – O que foi, amor?
Ela – Carne de quê?
Ele – Carne de porco.
Ela – Você acha mesmo que eu sou otária, né?
Ele – Como assim, amor?
Ela – Quer dizer, você não acha. Tem certeza.
Agora a cara de espanto é dele.
Ela – Eu entendi tudo. Eu te amo pra cá, eu te amo pra lá… flores. Jantar romântico depois de vinte e cinco, vinte e cinco anos juntos… Você tá querendo me matar com essa carne de porco?
Ele – (ri) Meu amor, que absurdo!
Ela – (histérica) Não me chama de meu amor! Fala! Quem é a outra?
Ele só consegue rir.
Ela – Que planinho mais perverso! Matar a tua própria mulher com uma gripe. A estratégia perfeita, porque ninguém iria desconfiar.
Ele – Você tá falando sério, mesmo? Isso não tem o menor cabimento.
Ela – Bem que você tentou me convencer aquele dia que essa gripe só dava em porco e eu quase acreditei, como eu fui ingênua!, mas a Rute, minha amiga lá do INSS pegou e morreu, coitada.
Ele – Você tá doida.
Ela – Você nunca comprou um Toddynho pra mim. De repente, do nada, o serial killer tá comprando vinhozinho. Fazendo creme cheese! Há!
Ele está atônito.
Ela – Tudo faz sentido agora.
Ele – ?
Ela – Assassino!
Ele – ??
Ela – Homicida!
Ele – Amor, olha pra mim. Por favor. Você tá fazendo um papelão, só isso que eu tenho pra lhe dizer.
De fato, ela para e reflete sobre a situação. Volta a si aos poucos e percebe que está diante de uma mesa linda e farta, a carne de porco cheirando bem, o marido cheiroso e apaixonado.
Ela – Desculpa, meu amor. Eu tô muito envergonhada…
Ela chora, ele consola.
Ela – Como eu fui capaz de suspeitar de você.
Os dois brindam e ela espirra.
FIM
Uma conversa franca, parte II
Jô Bilac, jovem autor austero.
Kid Bauhaus, jovem escritora preguiçosa.
os dois fumam free box vermelho.
Jô: Acordei sem idéia pra escrever aqui no site e pensei em te entrevistar. Topa?
Kid: Detesto isso.
Jô: Entrevistas?
Kid: Ser sua segunda opção. Aquilo que te vem na cabeça quando está sem idéia.
Jô: Mas isso é nobre, é sinal de que você ocupa boa parte do que penso…
Kid: Que mentirosinho…
Jô: Você me entrevistou ano passado, agora é a minha vez de saber um pouco mais sobre você. Facilita, vai…
Kid: Tá bom. Manda.
Jô: O que você acha da Gripe Suína?
Kid: O que tem?
Jô: Nada. Só queria saber da sua opinião sobre isso.
Kid: Truque! Esse é o tema da semana e você está me usando novamente pra solucionar sua falta de criatividade. Confesse!
Jô: É por aí…
Kid: Vil!Torpe!Sacaninha…
Jô: Mas, diz. O que acha da gripe suína?
Kid: Cafona.
Jô: Desenvolve…
Kid: É cafona morrer gripada nessa altura do campeonato. É tipo morrer por dengue. Morrer por cólera. Cafooona… Tanta forma interessante pra morrer e o cidadão morre gripado. Eu não aceito isso.
Jô: E você pensa muito nisso?
Kid: Na morte?
Jô: Sim.
Kid: Não.
(tempo)
Kid: De vez enquando. Por que? Você não está pensando em me matar, não é? Se estiver passando isso por sua cabeça, é bom pensar em algo bem poderoso. Nada de me matar sem mais nem menos, atingida por um fuscão preto,ou devorada por um tubarão, ou engasgada com um osso de galinha, ou essas coisas estranhas que você gosta de me colocar…
Jô:Fica tranquila, não estou pensando em te matar. Estou pensando em…
Kid: Não me interessa o que você está pensando, meu querido. A entrevistada aqui sou eu. Temos pouco tempo, se quiser falar sobre você escreva um diário sentimental , faça um blogg com sua visão de mundo, se defina no orkut, enfim, só não me use como ferramenta barata de suas questões mal resolvidas.
Jô: Ok. Está mal humorada?
Kid: Não, é segunda feira. Estou coerente.
Jô:Hum… Você tem quantos anos?
Kid: Ok. Vamos estabelecer certas coisas, pra gente fluir sem estresse, regrinhas básicas: Nunca se pergunta a idade de uma mulher quando ela aparenta ter mais de 19. Nunca se pergunta a orientação sexual de uma mulher solteira, e nem coisinhas como “Você transaria com fulano?” ou “Você teria um filho de beltrano”. Ah, e nunca pergunte a uma mulher quanto ela cobraria pra posar nua ou fazer um filme pornô. Essas coisas devem estar subentendidas… Saca?
Jô: Sim. Você não vai me dizer a sua idade.
Kid: Jô Bilac, você pode ser melhor que isso, please. Deixe suas perguntas cretinas de lado e pergunte algo realmente interessante. Pergunte sobre o livro que estou escrevendo.
Jô: Você está escrevendo…?
Kid: Ao menos foi assim que você me descreveu lá em cima… Você é o jovem autor austero e eu a escritora safada/preguiçosa/morta de fome.com.br. Muito bem, que beleza! Mais cedo ou mais tarde, vamos ver quem está falando a verdade…
Jô: Fala do livro…
Kid: Já quer roubar a idéia?
Jô: Não. Quero te ouvir.
Kid: Então… O livro é sobre uma heroína contemporânea anos 2000.
Jô: Tipo você.
Kid: Tipo eu, só que mais magra. Então, o nome dela é Gérbera e mora em Moscou. Ela tem uma grife que trabalha com casacos de pele e está sendo ameaçada por ativistas ecológicos. Gérbera é rica e linda, mas foi separada de seu grande amor na infância… Aí rola uma passagem de tempo e ela reencontra Andrew (o seu amor da infância), agora militante do movimento verde. Aí o drama: ele não aceita Gérbera com sua grife. Ela deve fazer uma escolha…
Jô: E o que ela escolhe?
Kid: A grife é claro. Gérbera é muito materialista apesar de tudo.
Jô: E Andrew?
Kid: Morre atropelado. Mas ainda não cheguei lá. Estou escrevendo. Pode ser que ele só fique paralítico. A idéia é causar uma culpa em Gérbera por sua escolha infame. Gérbera se casa com um jovem autor austero muito cruel, que torna sua vida um suplício.
Jô: Um jovem autor austero…
Kid: Não me interrompa. Então, ele _ o jovem autor austero_ trama um incêndio que acaba com a grife. Depois a gente descobre que tudo não passou de uma vingança escrota, ele era o filho da empregada de Gérbara e foi humilhado por ela no passado.
Jô: Hum… E você está gostando de escrever?
Kid: Eu sempre escrevi.Temos muito mais em comum do que a marca do cigarro, meu caro. Mas, meu livro está em processo e não estou preocupada em lançá-lo… darei tempo ao tempo.
Jô: E os amores?
Kid: Não falo da minha vida pessoal, desculpe. Próxima pergunta.
Jô: Como paga o seu aluguel?
Kid: Idem. Próxima pergunta.
Jô: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come?
Kid: É tudo uma questão de bom papo, o bicho nem é tão feio como parece. Convida pra sair, mas deixe claro que o que rolar rolou e que ninguém é obrigado a nada.
Jô: hahaushausuasa Estamos falando da mesma coisa?
kid: Eu sim, não sei de você…rsrsrsrs
Jô: Ok. Diz aí: quem não dança segura a criança?
Kid: Todo mundo acaba dançando mais cedo ou mais tarde. Não tem essa.
Jô: Seu maior defeito?
Kid: Me agarrar em fiapos de emoções baratas.
Jô: Sua maior qualidade?
Kid: A frivolidade, a memória fraca.
Jô: Anos 90?
Kid: Sofá vermelho, Tarantino, Roxette, barrados no baile, ferrari amarela, Silvia Pfeiffer…
Jô: Jeans ou veludo?
Kid: Seda pura!
Jô: Ser feliz é…
Kid: Acordar a hora que tiver vontade.
Jô: Uma frase de efeito…
Kid: O que é do homem o bicho não come.
Jô: O que levaria pra uma ilha deserta…?
Kid: Nutela.
Jô: Você é sensacional.
Kid: Eu sei.
Jô: Prometo te levar pra Havana.
Kid: Pode ser Paris?
Jô: Pode…
Kid: O que vem agora?
Jô: Fim.

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