trecho de AMÉLIA
Não. Não sinto falta dele. Nós já não tínhamos mais uma vida muito… agitada, por assim dizer. Como casal, entende? O que é normalíssimo para mim, sem problema nenhum a esse respeito. Mas de uns três anos pra cá já desconfiava sim que o puto andava pulando a cerca, se é que a senhora sabe o que eu quero dizer… Isso eu não admitia! Não admitia! Eu querendo tanto meus filhos que nunca chegavam e ele comendo fora de casa? Olha, eu vou ser muito honesta com a senhora, honestíssima. Não ligo a mínima pra essas coisas de chifre não, tô cagando. Eu não gostava dele mesmo há muito tempo. Desde que botasse a grana dentro de casa, ele podia ter todas as… mulheres que quisesse. Mas eu esperava ter filhos e nunca! Enquanto a vaca da minha prima dava a luz como uma maldita coelha que é o que ela é. Até que um dia, numa tarde de domingo, a campainha tocou e fui atender. Quando abri era um menino. Negro, de mais ou menos doze anos. Era um desses que limpa o para brisa dos carros no sinal, não senhora, não tinha o visto antes, é que ele trazia consigo uma garrafa de detergente e um pequeno rodo, sabe? Agora, o corpo dele, senhora, inacreditável. Apesar de muito jovem e pequeno, seus músculos eram tão proeminentes e tinha um olhar de homem que nem sei! Estava vestido com uns farrapos, tipo um menino de rua, sei lá o que era aquele garoto. Mas dentro de mim subiu uma vergonha imensa, senhora, e só vou contar o motivo dessa minha vergonha que me fez enrubescer na hora por que é para a senhora e a senhora já ouviu tanto ao meu respeito e até mesmo o que fiz de mais terrível apesar de eu não ver tanto desta forma… enfim. Fiquei vermelha por que imaginei aquele pretinho completamente pelado. Ai que vergonha, senhora! Nem devia ter te contado, com que cara eu agora… (com nova força) Mas o que mais me chamou a atenção mesmo foi um pedaço de sua camisa rasgada que mostrava seu abdome duríssimo e tão escuro, nem sei se consegue imaginar, senhora, mas eu…! E não conseguia tirar os olhos daqueles braços. A mão, apesar de áspera, parecia com a de um bebê, mas os braços… Ah, os braços, eram osso e bolas de músculo rijas que pareciam que iam explodir! Não podia nem pensar no corpo de homem que estava por baixo daqueles farrapos! Como eu posso estar falando essas coisas! A senhora deve pensar que… mas não, por favor, não! Só que agora me dá uma vontade de falar tudo, tudo! Ele… o menino… procurava por Arnaldo. (Visivelmente incomodada) Arnaldo? O que você quer com o meu marido? Nada, ele disse, e que precisava falar com ele. Então não é “nada”, garoto, é alguma coisa. O que você quer? Nada. Ele tá aí, dona? Respondeu o cretino. Olha aqui garoto… Então Arnaldo apareceu. Arnaldo sempre aparece assim, como mágica, nas horas mais inconvenientes. Parece que devia uma grana para o pivete, e foi buscar a carteira. Fui então cuidar dos meus afazeres domésticos, sugestão do próprio Arnaldo, mas não pude evitar uma olhadela pela janela da cozinha no minuto exato que meu falecido marido se livrava do marginalzinho e na despedida… (Imitando Arnaldo, uma voz anasalada.) “E nunca mais apareça por aqui, entendeu!”… olhando para a porta para se certificar de que eu não estava por perto, passava sorrateiramente a mão nas nádegas do rapaz.
Por que eu mataria você?
“Por que eu mataria você?”
Mulher parada olhando homem deitado. Ele está agonizando com uma faca no meio do peito.
Existe uma teoria simples sobre o ser humano. Muito simples. O ser humano é dividido em duas categorias: os que gostam de chocolate com menta e os que detestam. (pausa) Os que gostam de chocolate com menta, normalmente, não comem carne vermelha e gostam de canela. Os que não gostam de chocolate com menta, adoram chocolate branco e detestam anis. (pausa) Os que gostam de chocolate com menta são pessoas sistemáticas e controladoras. Os que não gostam são pessoas ociosas e indisciplinadas. Entende Felipe? É fácil. Muito fácil. Ninguém precisa fazer muito esforço para se relacionar… é só aceitar e saber com que categoria você está lidando. (pausa) Ponto final. (pausa) Felipe… Fe-li-pe… um nome tão comum… O que será que a sua mãe pensou quando resolveu te dar um nome comum? Deve ter pensado: vou dar um nome comum para o meu filho, pois ele tem o rosto mais ordinário que um bebê poderia ter… (gargalha e volta a ficar séria) Mas até aí tudo bem… Já estive com outros nomes medianos. Já namorei um Marcelo… imagina isso… quem namora Marcelos namora qualquer um… (gargalha novamente e pára). Felipe… você estava indo bem… muito bem. Fe-li-pe… você ronca no meio da madrugada, sabia? Nunca te contei. Guardava isso como um trunfo! Você dizia para mim antes de dormir: me acorda se eu roncar alto… (ri) Achava muito engraçado essa sua demonstração de delicadeza… (agressiva) Quer dizer que até você parecer um porco com asas, eu não poderia te acordar? (ele geme, ela para e pergunta para ele) Tá desconfortável, Felipe? Quer que eu mude de posição? (ela tira a faca do peito e fina na perna dele que dá um grito) Ai! Doeu? Se doer muito você me diz tá? (para a platéia) Adoro quando os dentistas falam isso: se doer você fala… (pausa) Como? (pausa) Como é que eu posso falar com uma broca enfiada na minha boca e um canudinho suga-saliva afundado na bochecha? (pausa) Entende Felipe?
Mas eu não me preocupava tanto assim com o seu ronronar… não. Isso eu poderia aceitar. Poderia. Eu aceitei sua coleção de miniaturas de carros de 2 portas, de portas-copo da Copa, sua coleção de palitos japoneses usados… aceitei… tudo bem… Você bochechava a água depois da refeição, bochechava na boca… tentava disfarçar, mas eu via… aquilo me corroia aos poucos, ia minando a nossa relação… Imagine isso? Bochechar água na boca depois de comer… bochechar… Felipe, bochechar é ainda pior que palitar os dentes num restaurante e grudar no guardanapo… (levada pela lembrança) Meu pai palitava… grudava no guardanapo como se estivesse fazendo uma instalação. Depois levava sua “obra-prima” para jogar no lixo de casa… ele tinha um apego por aquele guardanapo, quase amor… Um dia roubei o guardanapo do bolso dele. Ele ficou três dias sem dormir… (pausa/volta) Mas bochechar e engolir depois de jantar é de um desequilíbrio mental inigualável, Felipe. Você conseguiu vencer meu pai com mérito! (pausa) Fe-li-pe… (pausa) Mas isso me irritava na hora… era só na hora, depois passava e eu esquecia… não era tão grave… Fe-li-pe… (sorrindo) quando você estava para gozar pedia para que eu te coçasse as costas em forma de “v”… em forma de “v”… veja isso, que perversão é essa, agora Felipe? Coça em “v” que eu gozo! (pausa) Eu coçava sim. (pausa) Coçava em forma de Z… Z maiúsculo, e ria por dentro… te enganava tanto… coçava em Z; em C; em D, mas nunca cocei em V… nunca! (pausa) A gente ia para um restaurante chique e você olhava o cardápio e dizia (imitando) “vamos escolher a conta pelo lado direito, né mozinha?” (Longa pausa olhando para a platéia) Na nossa primeira saída você dividiu os centavos da conta… 46,23 para mim e 46,23 pra você. Dizia estar antenado com a modernidade. (pausa) conectado a modernidade é uma maneira doce de dizer para minhas amigos que você era pão duro. (pausa) 46,23… centavos (pausa) Eu sonho com esses números, Felipe, tenho um pesadelos que me atormentam. (pausa) Ah… mas isso tudo não foi o suficiente para te matar. Não. (pausa) Felipe, você tem perna fina e testa alta. Parece que esticaram você na infância entende? Não se pode ter testa alta e perna fina ao mesmo tempo. Deveria ser proibido. Quem entra na fila da perna fina está isento da testa alta. Perna fina é uma coisa triste. Antes de você, toda a vez que via um homem de perna fina me dava um nó na garganta. (pausa) Eu tentava te avisar sobre a testa. Te dei bonés, chapéu panamá e até uma viseira… Minha mãe dizia: você tem certeza de que vai casar com um homem esticado, minha filha? E eu respondia que esse não era o maior problema. Testa alta a gente corta franjinha e vai levando. Perna fina bota 10 meias 3/4 e continua. Quando você ia de calção para a praia, levantava para dar um mergulho sabia que as pessoas olhavam para a gente e pensavam: O que ela está fazendo com esse girino. Tão bonitinha, tão normal. (pausa) Você usava pochete, Felipe. (pausa) Pochete em 2008 é uma clara expressão de melancolia. Ninguém usa pochete sem ter seqüelas da infância. Pochete é uma coisa diretamente relacionada com falta de amamentação. Tenho certeza. Ninguém que mamou usa pochete, nem mesmo usou nos anos 80. Pochete é falta de carinho. Certo. (pausa) Bobagem também… tudo isso me afetou, mas é bobagem, Felipe. Poderia ter te matado pela pochete, seria justo, eu seria certamente absolvida no banco dos réus. Nâo seria a primeira mulher a matar por uma pochete… Mas não foi por isso… não te mataria por nada disso. Nada. (pausa) O que eu não pude aceitar, Felipe. O que relamente foi a gota d´água! A pior de todas as perversões… foi… (longa pausa) foi você me amar! (pausa) Como é que você me ama? Para isso não tem explicação, Felipe! Fui fiel a você, muito, e o que você me dá em troca? Amor? Como assim Esperei anos por uma rejeição legítima! Todos os homens que passaram pela minha vida fizeram jus a minha expectativa. E você? Você me traiu! Não foi homem suficiente. Quem quer amor? O que se faz com amor? Vou para onde com isso? Sou amada e ponto final? O amor é uma batata quente! Pedra no sapato! Entendeu? (pausa) Você não me escutou quando eu disse que sou o tipo de pessoa que gosta de chocolate branco (pausa) e não suporta ser amada.
(crava completamente a faca em seu peito)
Black out
Perdoa-me por não te traires
Ricardo e Flávia.
Flávia – Amor. Hoje fazem um ano e meio que estamos juntos.
Ricardo- Flávia…
Flávia- Um ano e meio, meu amor. Temos que comemorar.
Ricardo- Eu tenho uma coisa muito séria para falar com você.
Flávia- Podemos ir jantar fora. O que você acha?
Ricardo- Eu ando pensando…
Flávia- Sim. Porque é muito importante a gente comemorar.
Ricardo- Tá me ouvindo?
Flávia- Tem que ser um lugar bem legal, pra gente nunca esquecer.
Ricardo- Flávia?
Flávia- Depois a gente pode passar na sexy shop. Hm… Gostou, né?
Ricardo- Flávia. Olha pra mim.
Flávia- Eu tô olhando, meu amor.
Ricardo- Esquece.
Flávia- Esquece o quê?
Ricardo- Nosso relacionamento, Flávia. Não tá bom.
Flávia- Não tá bom? Como, meu amor? Eu te amo…
Ricardo- Flávia é mentira. Você não me ama.
Flávia- Como não te amo? Eu to aqui…
Ricardo- Com quantas pessoas, além de mim, você dormiu nesses um ano e meio de namoro?
Flávia (sem graça) – Que é isso? Você vai discutir esse assunto logo hoje?
Ricardo- Com quantas, Flávia? Não foge.
Flávia- Você sabe…
Ricardo- Responde Flávia.
Flávia (rápido e baixo)- Ninguém.
Ricardo- O quê?
Flávia- Ninguém, Rico. Ninguém.
(Silêncio. Aos poucos vemos Ricardo se decepcionando)
Ricardo- Por que, Flávia. Por quê?
Flávia- Porque eu não consegui, Rico. Pronto. Falei. Eu não consegui dormir com mais ninguém, a não ser você, nesses nossos um ano e meio de namoro. Ninguém.
Ricardo- Poxa, Flavia. Ninguém? Nem umzinho?
Flávia- Nem umzinho. Eu só dormi com você.
Ricardo- Eu sabia. Eu sabia que você não ia conseguir. Eu avisei, eu disse. Mas você quis, você insistiu. Tá vendo? E agora?
Flávia- Ô meu amor, não fica assim, a gente pode tentar de novo.
Ricardo- Eu fiquei com mais ou menos umas 20 mulheres além de você, Flávia. Eu consegui.
Flávia- Eu fico muito feliz por você, meu amor. Eu sabia que você ia conseguir.
Ricardo- Mas o que adianta? O que adianta? Você não me traiu, Flávia. E isso é imperdoável.
Flávia- Desculpa, desculpa, eu te amo…
Ricardo- Se me amasse de verdade não teria feito isso. A gente tinha combinado.
Flávia- Não foi por mal, meu amor, não foi por mal. Eu tentei, eu juro. Sabe o Roberto, o seu melhor amigo? Ele deu em cima de mim muitas vezes. Eu até cheguei a ligar pra ele, mas na hora, eu desisti.
Ricardo- Poxa Flávia. O Roberto é um cara super legal, vocês têm tudo a ver. Por que não me traiu com ele?
Flávia- Eu tentei, meu amor. Eu até coloquei aquela calcinha que você adora. Só que na hora… desculpa, eu só pensava em você.
Ricardo- Esse é o problema, Flávia. Você é muito fraca. Não tem personalidade.
Flávia- Eu posso mudar, eu juro. Não me deixa. Eu tava até pensando em entrar pra análise e resolver esse meu lado fiel. (cai aos pés dele)
Ricardo- Agora já é tarde, Flavia. A gente ficou um ano e meio juntos. Era tempo mais que suficiente para conseguir. Nossa relação tá muito frágil.
Flávia- Vamos fortalecê-la juntos.
Ricardo- Como você quer ter um relacionamento instável e duradouro se você não consegue nem me trair? Eu não posso segurar esse pepino. Eu não posso ser o único homem da sua vida. Você tem que ser forte. Se não, não há relacionamento que agüente.
Flávia – Olha, eu tô ligando pro Roberto. Olha, eu vou comemorar nosso um ano e meio com ele.
Ricardo- Agora já é tarde, Flavia. Eu to precisando de um tempo sozinho.
Flávia- Por quê?
Ricardo – Eu cansei de ter você só comigo, sem mais ninguém. Ninguém te liga. Nenhum homem. Só eu. Eu tenho que ser tudo o que você deseja e quer? Tenho que satisfazer todos os seus desejos sexuais? Eu to me sentindo um pouco sufocado.
Flávia- Amor, um relacionamento…
Ricardo- Um relacionamento, Flávia, precisa ter respiro, ter ar entre os dois. A gente combinou isso antes de começar. Lembra? A gente prometeu que teríamos outras pessoas pra gente nunca depender um do outro. Olha só pra você. Querendo comemorar um ano e meio de namoro num restaurante. Isso é muita dependência. Um ano e meio a gente comemora dentro da gente. Isso é mais que suficiente.
Flávia- Não, Rico. Não fala assim. Eu prometo que vou melhorar. Hoje mesmo eu posso sair com três caras diferentes. Rico me perdoa.
Ricardo- Tarde demais, Flávia. Vamos deixar o tempo passar. Eu preciso ficar sozinho. Me desculpe…
Flávia- Mas eu te amo.
Ricardo- Isso é amor?
(silêncio. Flavia chora)
Flávia- Não Rico. Não. Não vai!
Ricardo – Tchau, meu amor. Quem sabe daqui algum tempo a gente possa voltar. Até lá se cuida.
(Rico dá um beijo na testa dela e sai. Flavia num drama rodriguiano diz aos prantos)
Flávia- Perdoa-me. Perdoa-me por não te traíres.
(escutamos a porta batendo. Flávia chora)
FIM.
Da arte de pisar no coração
Naquele dia voltou da escola e se trancou no quarto. Não quis comer, não tomou o refresco, não olhou para a sobremesa. Tirou a mochila como se despisse da culpa de ser… olhou a face rosada no espelho e com dor concluía o que lhe era dito desde bebê. Lamentou a denúncia do espelho: era bonita. Sentou na cama sofrida. Apertou o soluço na almofada para que ninguém da casa percebesse. Permaneceu na cama escorrida. Teve medo de se olhar de novo no espelho. Teve medo de ser bonita até chorando. Tinha vergonha de si. Bela no seu uniforme de jardineira estirada na cama entendia a própria sina. Segurava o bilhetinho do coleguinha da escola todo amassado com letrinha de caligrafia irregular cheia de vida. Lembrou que recusou o beijinho no parquinho. Mania mais chata a do João de querer segurar na mãozinha dela no balanço. Não deu beijinho, não dividiu o lanche no recreio e por pouco não mostrou a língua para ele na saída. Criminosa com suas botas ortopédicas, ela triste sabia: tinha pisado num coração.
Lua de mel
Alô, alô, alô! (TESTANDO O MICROFONE) Tem alguém aí? Prezados ouvintes, acabei de descobrir que fui traída e eu decidi que não vou suspender o meu casamento, então se você estiver ouvindo a rádio agora e até hoje não encontrou a sua alma gêmea, essa é hora. Bom, se você também faz muita questão dos convidados, eu não posso garantir porque a essa altura todos eles já foram embora. Pelo menos a metade dos convidados do meu ex-futuro marido, o Ricardo. Agora eu entendi porque ele não queria convidar ninguém: “Não, meu amor, eu abro mão dos meus convidados, chama só os seus”. E a idiota aqui achando que ele tava sendo fofo. (ENCONTRA UM CD DE AMY WINEHOUSE. COLOCA E OUVE UM POUQUINHO) Meu nome é Luisa e eu tô aqui, vestida de noiva, sentada nessa rádio procurando um homem fiel. É a única exigência de uma mulher completamente sozinha. Mais ou menos sozinha, porque na verdade eu acabei de amordaçar toda a equipe que estava trabalhando pra entrar com esse programa pirata. Antes que mandem viaturas pra cá e me acusem de monstro, eu peço encarecidamente que saiam um pouquinho desse mundo da novela das oito e tentem perceber que eu não sou mal-caráter, não sou uma escrota, não sou nenhuma vilã. Inclusive, sempre fui representante de turma, capitã de bandeira, representante de CA e oradora na minha formatura. Eu sou uma pessoa do bem. Sou incapaz de escovar os dentes com a torneira aberta.
O que eu não quero, do fundo do meu coração, é morrer nessa grana, porque a festa foi cara pra caralho. Temos 2.500 risoles, 1.700 coxinhas de frango, uma quantidade de empadinha que dá pra alimentar a África inteira. Eu sou brasileira, não ganho um salário bom, tô a 5 anos juntando dinheiro pra pagar essa festa e não é justo que um idiota qualquer, além de me fazer de corna, ainda me faça morrer nessa grana toda. Vocês estão entendendo que não dá pra ser ressarcida? Que a comida vai estragar? (REFLETE UM POUCO SOBRE A SUA CONDIÇÃO) Gente, sério, tem muita cerveja lá dentro. Eu não tô aqui, em rádio nacional, não é pra incentivar o alcoolismo, não. Eu não posso beber aquilo tudo sozinha. Até gostaria, porque não tem ocasião melhor pra tomar um porre do que nesses diazinhos desgraçados. Sabe esses dias que você tem certeza que serão fodas de bom e terminam em desgraça? Quebra o pé no dia do aniversário, sua vó morre no dia da viagem pra Europa, seu marido te trai no dia do seu casamento… a vida é assim. Porra, gente, ele me ligou hoje na hora do almoço só pra dizer que me amava. Aí na hora eu achei esquisito… sabe quando bate uma coisa? Devia ser o meu chifre batendo na porta, tudo bem, mas eu senti alguma coisa esquisita. Não tá legal. Gente, o enxoval pronto. Meu Deus do Céu! (DISTRAI-SE COM A MESA DE SOM)
Eu só transei uma vez na vida e nunca mais. Depois da primeira trepa o Ricardo, meu ex, falou assim: “não, a gente já viu que foi bom, agora vamos deixar pra lua de mel”. Como se transar gastasse, né? Mas tudo bem, eu achei romântico. Na hora eu achei. Daí eu falei “Vamos casar logo então? Pra gente transar muito, todo dia, toda hora?” “Calma, meu amor… não é assim. Temos que nos programar, eu quero ter filhos contigo”. Porra, gente, ele falou que queria ter filhos! Eu pensei “o cara é muito fofo”. Todas as minhas amigas estranhando “mas vocês não transam porquê?”. Não transamos porque preferimos deixar pra lua de mel. Enfim, eu tava querendo convencer os outros de uma coisa que nem eu acreditava. Então, se você estressado no meio do trânsito tá ouvindo a rádio nesse momento, eu não quero flores, não quero ouvir declarações de amor, não quero nem chocolate. Também não precisa me dar cartão. Ó, não precisa nem se apresentar. Vai direto pra igreja e fica lá no altar. A única coisa que eu quero é uma tórrida noite de sexo brutal. Eu preciso dar o cu de qualquer maneira. Antes eu tinha nojo, tinha preconceito, tinha medo. Agora não, eu tô decidida. Eu tô disposta a realizar todas as minhas fantasias. (COLOCA UM INFORME SOBRE O TRÂNSITO) Pra quem vai em direção ao centro, o trânsito é bom, com o trecho um pouquinho mais lento no túnel Santa Bárbara. Pra quem sai de Botafogo… Quem sai de Botafogo não precisa ir, não. Tô preferindo Ipanema, Leblon, Laranjeiras… Urca é ótimo. Pra quem se interessou, o endereço da igreja é o seguinte: Rua Valparaíso, 171. (ABRE UMA LATA DE CERVEJA)
Bom, preciso me descrever, né? Eu sou morena, de cabelos longos. Mas eu topo pintar, topo cortar o cabelo. Por mim fico até careca, que o cabelo cresce depois. Tenho 1,67, que é uma altura boa. E se você for muito baixinho e tive indo pra igreja, melhor voltar que eu prefiro homens altos. Mas… também não vou ser radical, que se você for uma baixinho de pau grande eu posso conversar. Só anão que não tem conversa, aí já é bizarro. Vai procurar a branca de neve que eu já vivi demais na fantasia. (CADA VEZ MAIS À VONTADE) Eu vou colocar uma música aqui pra vocês que eu gosto bastante, enquanto eu vou liberar um dos reféns na outra cabine pra poder atender o telefone. (COLOCA A MÚSICA E FAZ A TRADUÇÃO SIMULTÂNEA) Eu vou passar o número aqui da rádio, vocês liguem… não vou nem suspender a promoção pra ganhar um cd novo do Fábio Junior. Se for pra isso, pode ligar também. Quem estiver indo pra igreja, liga pra cá. Pra eu ter uma noção de quantos são. A minha mãe tá ouvindo a rádio, esse recado é só pra ela. Mãe, alô, tá me ouvindo. Qualquer semelhança com o Ricardo, pode dispensar que eu não quero lembrar dele. (TOCA O TELEFONE) Olha, meu povo, muito obrigado, já tem alguém ligando. Esse eu vou lá atender. Deixo uma música do Fábio pra vocês e já volto. (ATENDE E RETORNA) Olha só, ouvintes queridos, deixa a tia explicar uma coisa. Eu não sou puta e isso aqui também não é disk-sexo. Não adianta ligar pra cá achando que eu vou falar sacanagem no telefone porque já me dá branqueira homem que goza segurando um gancho de telefone. Eu quero olho no olho, mão naquilo, aquilo na mão. Vamos fazer o seguinte, eu vou passar o número direto do meu celular e vou liberar a refém, que ela não tem nada a ver com a infidelidade do Ricardo. Deixar aquela musiquinha do Fábio e já volto. (VAI E VOLTA) Pronto. Ah, obviamente que o candidato a noivo pode levar seus convidados direto. Como eu falei, tem muita cerveja e comida. Mas, se levar esse povinho que gosta de roda de violão cantando Pais e filhos… puta que pariu. Já perde ponto. Eduardo e Mônica, não… Faroeste Caboclo não precisa nem ir. Tô sendo sincera pra ninguém dizer depois que eu tô privilegiando fulaninho, preferindo um ou outro… não tem essa de QI. Ó, meu celular é o seguinte… peraí, deixa eu explicar pra você que sintonizou a rádio agora.
Tô vestida de noiva, com a festa pronta, a igreja enfeitada e tô procurando um noivo pra trepar. Claro que tem que casar porque eu quero fazer tudo bonitinho, mas a gente pode separar amanhã se for o caso. Não tem essa de apego, de ilusão, cobrança. Então, meu celular é 6485.0131 . Ok? (TOCA O CELULAR) Gente, que rápido. Gostei desse! (VAI ATENDER E DESLIGA) Olha só, meus queridos, ligar a cobrar, não. Não, porque não pega bem, é feio, já mostra que tá duro e é escroto. Também não liga de orelhão não, porque é branqueira demais. Tem que ter pelo menos crédito no celular pra ser candidato. Cada um que aparece! (TOCA O CELULAR DE NOVO) Alô? (CAI NA GARGALHADA E DESLIGA DE NOVO) Português não, gente. Se for estrangeiro, só quero holandês ou norueguês… nem espanhol serve. Vou ao banheiro e já volto. (SAI E VOLTA UM TEMPO DEPOIS) Eu descobri que tava sendo traída porque peguei o celular do Ricardo e as mensagens estavam todas lá. (TOCA O CELULAR) Alô? Noruega ou Escócia… (DESLIGA) Era o português disfarçando a voz. Como eu tava fa
lando, tinha um monte de mensagem da amante no celular. O cara me acha tão idiota que teve preguiça de apagar os torpedos. Fiquei puta da vida. Ó.. (COLOCA UM JUNGLE RIDÍCULO) “Mata, mata baratinha. No banheiro ou na cozinha. Matex-ultra-max, o terror das baratas!”. Esse mata-barata é ótimo mesmo. (CELULAR) Alô… Menor de idade não pode. Não. Porque não pode, ué. Tá, quantos anos você tem? Mas faz 18 semana que vem mesmo? Tá. (desliga) Óbvio que o candidato tem que ser católico, hein. Não é preconceito com nenhuma religião, mas a igreja é católica e já está paga. Porra gente, o Ricardo não me beijava a meses… e eu achando que era por causa da operação dele. O Ricardo operou o estômago e falou que a testosterona dele foi lá embaixo, que não dava tesão nenhum, mas que ia passar. Aí realmente passou. Ele passou o rodo na cidade inteira. Porra, Ricardo, eu te pedi muito pouco. Eu só queria que você me beijasse, não ficasse com ninguém sem me avisar. Coisa mais perversa. Como é que o ser humano faz isso? Eu fazendo comidinha porque ele ia chegar cansado. Realmente, transar cansa. Fora de casa, então! (BISBILHOTANDO OS CDS) Sabe que eu sempre morria de curiosidade pra mexer nessas mesas de som? Esse botão aqui… (APERTA E FALA COM VOZ DE ALIEN) Eu quero um noivo. Eu quero dar o cu. (RI DE SI MESMA) Puta que pariu, isso é muito bom. (APERTA OUTRO BOTÃO. VOZ AGUDA) Eu sou uma ninfetinha. (GARGALHADAS. TEM UMA CRISE DE RISO E DEIXA ALGUMA MÚSICA ROLANDO. RECUPERA-SE E VOLTA AO MICROFONE) Ninguém mais vai ligar não? Bom, agora eu preciso ir porque não posso chegar tão atrasada e tô curiosa pra ver o meu noivo. Gostaria de agradecer à polícia e ao governo do Estado porque não terem mandado me prender até agora. Felizmente nossos governantes ainda conseguem reconhecer uma cidadã de bem. (TOCA O CELULAR) Alô? Quem? Márcia? Não… poxa, mas é que… não, eu não gosto de menina. Até já tentei uma vez, mas eu não gosto mesmo. Sei… mas como ia fazer…? (ANIMANDO-SE) Por esse lado… sei… ah, deixa de ser boba. Que me ama, o quê! Nem me conhece… (RI) Tá… e como você é? (VAI FICANDO CADA VEZ MAIS APAIXONADA) Hum… você deve falar isso pra todas… (SIRENE DE POLÍCIA)
Tete a tete
( 1 entrevista 2)
1: É rapidinho, ok. Um bate bola, um ping pong, um tete a tete. Pode ser?
2: Sempre.
1: Uma verdade?
2: Ainda que a traição agrade, o traidor é sempre odiado.
1: Uma mentira?
2: Cometem-se muito mais traições por fraqueza do que em consequência de um forte desejo de trair.
1: Um conselho?
2: Mantenham-se alertas, pois a traição pode ocorrer em momentos de desconcerto.
1: Uma curiosidade?
2: Dois homens traídos pela mesma mulher tornam-se meio parentes.
1: Um lema?
2: Das grandes traições iniciam-se as grandes renovações.
1:Um paradoxo?
2: César. Que declarou… que amava as traições, mas odiava os traidores.
1: Uma regra?
2: O marido não deve ser o último a saber. O Marido não deve saber nunca…
1: O inevitável?
2: Quando o homem casa, ou trai sua natureza ou trai sua mulher.
1: Um absurdo?
2: Apenas pensar em trair já é uma traição consumada.
1: Um filme?
2: Traídos pelo desejo.
1: Uma mulher marcante?
2: Dalila.
1: Um homem inesquecível?
2: Brutus.
1: Um espetáculo teatral?
2: “Cachorro!” em cartaz na praça Rooselvt, espaço Parlapatões, sexta feira, meia noite.
1: ok. Obrigado. Estive aqui com o senhor Judas Iscariotes. Voltamos semana que vem com mais.
fim.
texto construido com as frases dos célebres:
Miguel de Cervantes
François de La Rochefoucauld
Saddam Hussein
Albert Camus
Vassili Vassilievitch Rozanov
Plutarco
Guime Davidson
Cesare Cantú
Nelson Rodrigues
Kid Bauhaus
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo