Amém

Trecho de “Amém”

Cena de transição entre os atos. O público vê Maria sendo presa e decorando na cadeia todo o livro dos Salmos, indo da consciência ao desespero.

MARIA –  São Judas Tadeu, glorioso Apóstolo! O nome de Judas Iscariotes, o traidor de Jesus, foi causa de que fosseis esquecido por muitos, mas agora a Igreja vos honra e invoca por todo o mundo como patrono dos casos desesperados e dos negócios sem remédio. Rogai por mim que estou tão desolada. Eu vos imploro, fazei uso do privilégio que tendes de trazer socorro imediato, onde o socorro desapareceu quase por completo. São Judas Tadeu, alcançai-me a graça que vos peço: reencontrar aquelas mulheres e com vossa permissão e ajuda vingar-me de todas elas. Amém!

Cena 10

É um retorno ao prólogo.

VERA Você podia ter fugido também.

MARIA Vocês foram muito covardes. Eu pedi muito a São Judas Tadeu pra que esse dia chegasse, que eu pudesse reencontrar vocês.

VERA Por favor, Maria. Ainda existe o perdão.

Clara e Lola entram na igreja. Clara vem arrastando uma máquina de lavar e Lola está vestida de noiva, completamente aos pedaços.

LOLA Vera? Que coincidência!

CLARA Maria!?

LOLA Inacreditável.

VERA Pois é. Inacreditável.

CLARA Nos encontramos lá fora na procissão. A Lola não está ótima? O casamento fez bem pra ela! Mostra a aliança.

LOLA Para, vai… É muito difícil manter o casamento feliz, sabem como é a inveja.

CLARA Olhem como eu tô arrepiada! Eu sonhei com esse encontro. Eu tava num campo enorme, presa num monte de correntes e vocês vinham me salvar! Só que eu não era exatamente eu. Eu era uma princesa africana.

LOLA Não tá feliz em nos ver, Maria.

MARIA Muito.

VERA Melhor deixarem ela quieta.

MARIA Finalmente o grande dia chegou. A Santa Ceia!

LOLA Como assim?

MARIA Tô cheia de novidades pra contar pra vocês. Se tem uma coisa que a cadeia dá pra uma pessoa, é história pra contar.

LOLA Você foi presa?

MARIA Foi uma temporada no paraíso. Vocês não vão acreditar como eu me diverti lá dentro.

CLARA Você tinha a aura verde tão bonita e agora eu só enxergo uma mancha escura.

MARIA Não seja ridícula.

LOLA E quanto tempo você ficou na cadeia?

MARIA O tempo de ler o Livro dos Salmos.

LOLA Então não foi tanto assim.

MARIA Ler e decorá-lo.

LOLA Você decorou o Livro dos Salmos?! (PENA) Maria… pra quê?

VERA Quer um copo de água com açúcar? Você precisa se acalmar!

MARIA Eu tô calma, obrigada. (MOSTRA A ARMA DENTRO DA BÍBLIA) Afinal, se eu não estiver calma, posso acabar fazendo alguma besteira.

VERA Ah, Jesus!

CLARA Eu não falei nada pra vocês, mas eu tava sentindo a energia ruim vindo justo da Bíblia, agora tá explicado!

MARIA Não se assustem, eu já tô indo embora.

VERA Vai com Deus. (CHOQUE) Ai!

MARIA Eu só quero deixar uma última palavra do Senhor pra guiar o caminho de vocês. Ou melhor, um salmo de despedida.

LOLA Abaixa essa arma, Maria.

MARIA Na cadeia eu quase perdi a fé, pensei que eu ia me matar.

CLARA Não abre mão da sua vida. A alma de quem se suicida passa por muito sofrimento; demora mais a encarnar.

VERA Guarda isso, a procissão lá fora tá cheia de gente, alguém pode entrar.

(…)

Cidade vampira

NA DELEGACIA, O JORNALISTA E O DELEGADO. 

Jornalista – Eu posso falar com a Suzane? 

Delegado – A garota é um estouro! Bonita, bem nascida… e loura. Descendência alemã. Branquinha, raça pura, com pedigree e tudo. Matou os pais a pauladas, enquanto dormiam. Com a ajuda do namorado. Uma legítima nazi-patricinha. Aceita um café? 

Jornalista – Com açúcar.

DURANTE A CENA, O DELEGADO E O JORNALISTA TOMAM CAFÉ. 

Jornalista – Eu tenho um amigo alemão… quando está deprimido, vai até o porão de sua casa, abre um baú, olha para um lado, olha para o outro, se certifica que não tem ninguém olhando, retira uma foto do Führer, dá um beijo, guarda a foto, fecha o baú e volta revigorado! 

Delegado – Rapaz, a sorte finalmente sorriu pra mim! Sorriso de comercial de pasta de dente! Ganhei na loteria! Sozinho! E o prêmio ainda estava acumulado! Mais uma rua e o caso ia pra outra circunscrição. Outra delegacia, entende? Mas ela é minha. Só minha. A menina é a estrela da minha companhia. Está sob a minha proteção. Eu sou um representante do estado. E o estado tem por obrigação proteger os seus cidadãos. Quem quiser (tirar uma casquinha) um pedaço tem que passar por mim. 

Jornalista – Posso falar com ela? 

Delegado – Você chegou atrasado. Já vendi todos os ingressos. Lotação esgotada. Você entende, não é? Eu tenho família. Eu não posso perder essa oportunidade. Não é todo dia que acontece uma coisa dessas. Quando eu era delegado na periferia, teve um caso muito pior do que esse.  Uma negrinha descobriu que o marido estava enrabichado por uma sirigaita da favela e não conversou. Fez os filhos, um menino de dois anos e um bebê de seis meses, comerem chumbinho.  

Jornalista – “Chumbinho: Mata e seca o rato!” É o melhor slogan que existe. Só perde para “Jesus Te Ama”. 

Delegado – Não satisfeita, a infeliz pegou o facão do marido e picou as crianças. Depois deu tudo pro cachorro comer. Ainda matou o cachorro envenenado. O fato é que a ocorrência não teve a menor repercussão. Ninguém ficou sabendo. E eu mandei o meu escrivão ligar para todos os jornais! Esse negócio de assassinato, crime, isso depende muito de quem faz, quando, como, onde… Não é pra qualquer pé-rapado não! Mas essa garota é diferente. Ela é uma verdadeira pop-star! O que essa garota já recebeu de cartas (de jovens como ela, manifestando apoio, solidariedade…) não tá no gibi! Ela já tem até fã-clube com página na Internet e comunidade no orkut! 

Jornalista – Pelo sim, pelo não, se eu fosse os pais desses adolescentes, trancaria a porta do quarto durante a noite. 

Delegado – A cidade tá pegando fogo! Só se fala nisso! É o assunto do momento! No rádio, nos jornais, na televisão… A imprensa tá se estapeando lá fora. Todo mundo quer uma exclusiva, uma foto… Eu já dei até entrevista coletiva. Todos os advogados querem pegar essa causa. É um filé-mignon! Tá todo mundo querendo olhar pelo buraco da fechadura. Tá todo mundo querendo meter o dedo. Um colega seu, jornalista, um figurão desses famosos… Me procurou. Ele quer escrever uma biografia não autorizada. Ele quer contar a vida dela depois da prisão. Vai vender mais que peru na véspera do Natal. Viramos sócios. É ou não é um bom negócio? Essa garota é uma mina de ouro! Eu tenho que aproveitar antes que ela vá embora. Sabe como é: réu primário com endereço fixo… Nesse país todo cidadão tem o direito de matar pelo menos uma pessoa. 

(Trecho da peça Cidade Vampira de Fausto Fawcett e Henrique Tavares)

Uosso

Meu nome é Uosso. Não vou dizer tudo o que faço. Mas me interesso mais em dizer tudo o que penso. Porque as coisas que a gente faz são muito insignificantes. Ou quase. Se bem que ter saído do ventre da minha mãe foi um ato e tanto. Daria tudo pra ver a minha cara naquela hora. A cara de mamãe também devia ser interessante. Dizem que eu não nasci. Escorreguei. O médico colocava as luvas e mamãe gritava: Doutor, meu filho está nascendo! E ele só me aparou. Acho que tive pressa em nascer. Não que tenha sido um grande negócio esse o de nascer. Melhor seria não ter nascido. Penso muito nisso. Agora já era. Mas também não quero morrer. Acho injusta demais essa vida. Nascer é uma imposição. Você nasce e é obrigado a respirar. Depois é obrigado a morrer. Depois não sei. E não tem outro modo. Não há jeito. Depois de chorar, vem o existir. Quando você começa a gostar disso aqui, vem a sibilação [ação ou resultado de sibilar. sibilar: Diz-se de cada uma das consoantes fricativas cuja corrente expiratória passa por uma abertura estreita de algum ponto da boca, gerando um ruído que lembra a fricção]. Existir é sibilante. Quando vejo que há muito sofrimento nessa vida, penso no existir. É bem pior. Daí me calo. Fico quieto. Pra quê chorar? Pior de tudo é ver a morte de perto. Saber que você vai apodrecer, que as moscas vão te amar e todas aquelas coisas que a gente tem dentro vão se dirimir. Uma vez fui limpar um peixe. Decidi comprar ele inteiro pra fazer assado. Fui tirar a barrigada do peixe. Fiz questão de estudar a anatomia dele. Órgão por órgão. Fiz tudo com muito cuidado. Temperei. Deixei ele na geladeira pra marinar de um dia pro outro. No dia seguinte assei. Depois dele assado, delicioso, perdeu a graça, o encanto. De repente eu olhei praquele peixe e só vi comida. Fiquei bem triste. Fiz bico. Almocei o peixe. Comi o peixe acreditando que eu estava comendo um herói, porque senão o que eu estaria comendo? Um monte de vitaminas? Pra quê? Pensar que o peixe era um herói me dava sentido em comê-lo, já que eu não poderia comer o Batman. Se bem que o Batman já era. O Superman do mesmo jeito. Depois me olhei. Olhei meu próprio corpo. Não consegui ver no meu corpo uma comida. [Eu queria é ter nascido com um chifre de unicórnio. Isso sim] Penso também em dançar rumbas com minha tia. Ela sempre ouve rumbas. E faz a festa sozinha. Às vezes eu incremento nossa noite, porque se a gente não faz isso, a gente só vai pensar que não quer morrer. Ou então que não devia ter nascido. Será que eu devo morrer o quanto antes? Será? Acho essa vida muito injusta. E deus sabe disso tudo ou sinceramente não está nem aí. Não dá pra saber. Temo que meu tempo pra pensar essas coisas nunca existiu. Isso tudo continua sendo bem sibilante. Seria melhor eu usar mais geléia de uva nas palavras. Ninguém quer ler essas coisas. As coisas que penso são muito injustas. Mas há uma colina aqui à direita. Eu sempre penso em subir lá pra existir. Ou só ver. E pensar.

[Vê mesmo o que queres de mim, deus, porque não se pode pensar, sangrar o tempo todo desse jeito. Assim fica demais.]

Bestí: Uosso, o que você está pensando agora?
Uosso: Agora?
Bestí: É.
Uosso: Eu estou pensando como devia ser bom fazer versinhos.
Bestí: Tenta. Não custa tentar.
Uosso: É verdade, Bestí. Não custa tentar. Mas a gente não está aqui pra pensar teatro?
Bestí: Ninguém vai reparar, bobo. Faz teu versinho.
Uosso: Mas vão me botar pra fora daqui.
Bestí: Não vão, não. O pessoal daqui é legal, faz feijoadas maravilhosas, recebe bem. Um versinho só. Faz.
Uosso: Mas aquela editora me disse pra não escrever poesia, porque poesia não vende.
Bestí: Isso é injusto.
Uosso: Pra caralho.
Bestí: Quem é ela???
Uosso: Deixa ela. Ela tá se dedicando à terapia da palavra porque ela tem a língua presa.
Bestí: Ah. Coitada.
Uosso: Ela mandou eu escrever prosa.
Bestí: E você só escreve teatro, né? Você não desiste desse negócio de teatro, né?
Uosso: Ainda não. Até que agora eu ando escrevendo outras coisas.
Bestí: Você é muito teimoso, Uosso.
Uosso: Tá. Então lá vai um versinho pensando nos epílogos de Shakespeare.
Bestí: Eba!

uma treta.
pelas minhas barbas
pela vara de meu varão
pela biltra de má condição
pelo septuagenário décimo quinto anão
dê-me tua mão
porque essas palavras não tem propósito
a não ser
um senão.

E Deus criou…

 

Nina conversando com a mãe na cozinha de casa. Mãe de Nina está cortando cebolas.

Nina: Mãe.

Mãe: O que, filha.

Nina: Deus é que escolhe como vai ser cada um?

Mãe: Sim, filha.

Nina: Então ele fica tipo sentado e desenhando cada um.

Mãe: Pode ser…

Nina: E ele pega o lápis colorido e escolhe as cores, né?

Mãe: É… também.

Nina: Acho injusto.

Mãe: Como assim, filha?

Nina: Porque vai que ele acorda um dia de mau humor. Aí sai o cabelo da Janete. Mas aí, no dia seguinte, ele acorda feliz, aí sai o cabelo da Marcela.

Mãe: Do que você tá falando, Nina?

Nina: Ah, mãe! Deus acordou num dia de sol, no meio da primavera, depois de criar o arco-íris e resolveu desenhar a Marcela, isso é certo. Já a Janete ele desenhou no dia de São Nunca!

Mãe: Minha filha não fala assim da sua coleguinha.

Nina: Mãe, a Janete é bonita?

Mãe: Todo mundo é bonito em algum lugar.

Nina: Mãe, a Janete não é bonita em lugar nenhum.

Mãe: Alguém deve achar.

Nina: Mãe, a Janete não tem nem a pele da verruga bonita.

Mãe: A Janete tem verruga?

Nina: Tô dizendo que Deus tava resfriado no dia que desenhou ela…

Mãe: Minha filha, você não pode julgar os outros.

Nina: Por que não?

Mãe: Porque pode ser julgada também.

Nina: Mãe, eu tenho noção do que eu sou.

Mãe: Tá, e como você é?

Nina: Sei que no dia que Deus me desenhou tava com preguiça.

Mãe: Que isso Nina! Você é linda!

Nina: Mãe, não tô dizendo que sou feia, mas linda sei que não sou. Podia ser que Deus tivesse vontade de me desenhar linda, mas faltou o lápis azul e os olhos ficaram castanhos mesmo. Faltou o lápis branco e ele me coloriu com pintinhas, faltou a borracha e ele consertou meu nariz sem apagar o ossinho do meio.

Mãe: Ai, Nina.. só você…

Nina: Não entendo vocês adultos.

Mãe: Por quê?

Nina: As coisas são todas muito simples e vocês não querem que elas sejam.

Mãe: O que é tão simples.

Nina: Que tem gente rascunhada e gente pintada em aquarela.

Mãe: Tá bom Nina. Vai estudar.

Nina: Quando Deus te desenhou ele estava muito contente porque o sol estava brilhando e os passarinhos cantando. Foi num dia de outono, as folhas estavam caindo, os anjos dormindo e ele estava cheio de amor.

Mãe, sorri para Nina, emocionada.

Mãe: Obrigada.

Nina pensa um segundo.

Nina: Já o papai…

Fim

Poxa Vanessa

Vanessa… Vanessa, querida… Largue essa arma, criatura. Isso que estão falando aí de mim e Sérgio! Por favor, né, Vanessa? Vamos ter um pouco de bom senso aqui, vá! Não que o Sérgio não seja um homem… o homem certo… um bom partido. Não é isso. O que estou colocando para você é minha total sinceridade, entendeu? O Sérgio é sim um cara atraente. Não é por isso que eu vou, como a fulana disse, enterrar minhas garras nele. Primeiro que não tenho garra, não sou bicho. Se fosse bicho estava aí me estapeando com você! Não estamos! Podemos usar de civilidade. De harmonia, por que não? Sempre fomos tão harmoniosas em nossa história inteira, por que estragar uma amizade tão bonita num momento de euforia? Por quê?

POW

poxa Vanessa……………..
……………..…………………
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Essa é a vida

Dois homens sentados em um banco. Um deles, Ivan, é bem elegante e outro, Sandro, é bem simples. Eles estão esperando algo. Eles escutam uma voz de uma mulher que vem de fora:

Voz: Herbert, eu já disse. Eu não tenho culpa que você é brocha. Que o Otávio é muito mais gostoso. O pau dele é muito maior que o seu… Herbert você quer me ouvir? Herbert

(aparece uma mulher, a mesma mulher da voz vestida de policial. Ao vê-los ela se constrange e se ajeita, tentando disfarçar.)

Policial: Com licença. (ela passa para o outro lado)

(eles se olham e riem na cumplicidade do que acabaram de ouvir)

Sandro: Dá pra imaginar? Uma mulher dessas, toda séria…

Ivan: Imagina como ela não deve ser fora daqui. Precisa extravasar.

(os dois riem)

Ivan: Também ta esperando te chamarem.?

Sandro: Tô.

Ivan: Demora.

Sandro: Ô.

(toca o celular de Ivan)

Ivan: Com licença. (atende) Alô? Oi, minha filhinha linda do papai. (tempo) Eu sei. Eu sei, o papai prometeu. Espera então que o papai vai chegar só mais tarde, ta? Te amo. Beijinho, tchau. (desliga)

Sandro: Sua filha?

Ivan: É.

Sandro:É a única?

Ivan: Não. Essa é a caçula. Eu tenho mais um. Quase um adolescente.

Sandro: Também tenho. Só que os meus já são grande. Ana e João. (mostra a foto deles) Já têm pra mais de 16 anos.

Ivan: São bonitos. Parecem felizes.

Sandro: É. E tavam mesmo. Nesse dia aqui eu levei eles pra conhecer o Palácio da Guanabara. Expliquei a história da cidade toda. Eles nunca tinham parado pra pensar quanta história a cidade tem pra contar.

Ivan: É bom quando um pai faz isso com os filhos.

Sandro: Você acha?

Ivan: Eu acho. Se eu tivesse mais tempo, eu passaria o dia com meus filhos ensinando a eles as coisas da vida.

Sandro: Pois é. Foi exatamente isso que eu fiz. O meu comercio tava indo bem, então eu aproveitei pra me dedicar à Ana e ao João. Coisa que os meus pais não fizeram comigo.

Ivan: É. Concordo com você. As vezes eu fico preocupado em trabalhar tanto e não ver os meus filhos crescerem.

Sandro: É isso o que eu faço. Aí eu pergunto, será que vale a pena trabalhar tanto, ganhar tanto dinheiro pra não ver os filhos? Aí você dá o dinheiro pros filhos, mas não dá a sua presença.

Ivan: Você sabe que você tem razão. Eu ando sentindo muito isso. Toda vez que a minha filha ou meu filho ligam eu to numa reunião. Isso me dá uma dó.

Sandro: Sabe que eu acho que o senhor devia fazer?

Ivan: O quê?

Sandro: Posso falar? Não vou to invadindo sua privacidade?

Ivan: Não, sério. Pode falar.

Sandro: Eu acho que o senhor devia pegar seus filhos, sua esposa e fazer uma viagem. Ir pra um lugar bonito, agradável. Passar uns bons dias na companhia deles. Eu tenho certeza que eles vão adorar.

Ivan: É uma ótima idéia. Há um tempo que eu tô pensando em fazer isso.

Sandro: Não pensa não. Faz. Faz que você vai ver como é bom. Teve uma vez que a Aninha tava tristinha, ela era pequena nessa época, e eu não entendia por quê. Tentei falar com ela várias vezes, mas ela não me dava bola. Aí eu resolvi fazer uma viagem com a família, uma viagem curta. Fomos pra Serra. Um lugar lindo. A Aninha ficou tão feliz. Quando ela viu a cachoeira, eu me lembro como se fosse hoje, os olhinhos delas brilharam tanto com aquela beleza. Eu peguei ela no colo e caímos na água. (ele faz os gestos) a gente cantava uma canção: “ Lá vai o barco, lá vai o barco…” fingíamos que estávamos dentro de um barco e de repente: “ O barco ta afundando, o barco ta afundando” A Ana ria. Sabe que depois daquele dia, ela nunca mais ficou triste daquele jeito?

Ivan: Essa história me fez lembrar o dia que eu levei o meu filho mais velho pra andar de cavalo. Era o sonho dele. Ele tava todo animado. Colocou uma roupinha de cowboy, tava muito feliz. E na hora que a gente chegou na pracinha, soubemos que os cavalos estavam em outro lugar, distante dali. Eu vi os olhinhos do Dudu se encherem de lágrimas. Aí eu não me contive, fiquei de quatro e falei (ele também faz os gestos): “ Dudu, sobe aqui. O papai agora é o mais veloz cavalo do mundo!”. E o Dudu subiu, eu andava e trotava e relinchava e ele ria, e eu sabia que ali ele me amava muito mais, que ali eu era o pai, cavalo, amigo, amor do meu filho. A gente passou a tarde toda, eu de cavalo e meu filho de cowboy na pracinha. Ele e eu nunca vamos esquecer desse dia.

Sandro: O João meu filho também adorava quando eu brincava de cavalinho com ele. E principalmente quando eu imitava um macaco (ele imita) eu andava por tos lados da casa, jogava tudo no chão, ele soltava aquela gargalhada e falava : “ O papai virou um gorila maluco, um gorila maluco!” Eu pegava ele no colo e jogava o corpinho dele de um lado pro outro, a minha mulher chegava e dava um esporro na gente por causa da bagunça, e a gente ficava quietinhos naquela cumplicidade, rindo por dentro, parceiros um do outro.

Ivan: Minha filha adora quando a gente sai no final de semana para andar de bicicleta, no pôr do sol, a gente pára em frente à Lagoa, o céu todo alaranjado, e tomamos em silencio um água de coco. E nessa hora somos as pessoas mais felizes do mundo. (suspiro)

Sandro: A vida é tão boa com a gente, quando nos dá filhos.

Ivan: É. Tudo faz sentido.

Sandro: Essa é a vida.

Ivan: É a vida. (tempo) Obrigado. O senhor me fez lembrar porque eu gosto de estar vivo. As vezes eu acho que esqueço. Pelo visto é um excelente pai.

(Sandro fica triste)

Ivan: Que foi?

Sandro: Deixa pra lá. É a vida.

Ivan: Não. Não deixa pra lá não. Por que o senhor ficou assim de repente?

Sandro: Os meus filhos sempre reclamaram da escola, nunca estudaram, nunca se interessaram por nada, e eu resolvi bancar a educação deles sozinho, sem escola, coloquei eles para estudar todos os dias, a gente fazia passeios juntos,como esse da foto no Palácio da Guanabara, fazíamos pesquisas, estudávamos matemática, português, biologia, líamos livros, e eles estavam muito felizes e cada vez mais interessados no conhecimento. Mas um vizinho meu achou estranho o fato deles não irem para o colégio, de não vestirem uniformes e passarem o dia na minha companhia. Ele achava aquilo anormal e me denunciou. Disse que eu privei meus filhos de uma educação tradicional escolar. Olha, você pode perguntar para os meus filhos qualquer coisa sobre história, geografia, matemática, biologia, português, o que quiser. Eles vão responder. E vão responder felizes e orgulhosos. Então por que um pai não pode educar seus filhos? Meus filhos odeiam os colégio , odeiam. E olha que eu tentei colocá-los em várias escolas de diferentes pedagogias. Mas não dava certo. Eles não conseguiam estudar, se sentiam oprimidos nas salas de aulas, usando aqueles uniformes, as vezes sendo um mero número na chamada. (tempo) Agora eu tô aqui. Por causa do meu vizinho, vou ser julgado por alguém que nunca vai entender a minha atitude. Não querem saber se meus filhos são ou não felizes. Alguém vai me julgar e pode ser que eu me separe deles, que eu vá preso, me separe das pessoas que eu mais amo na vida, daquilo, como você mesmo disse, que me faz gostar de viver. Pro senhor eu sou um excelente pai, para eles eu vou ser julgado justamente por isso. É a vida.

(Grande silêncio. Ivan fica sem saber o que dizer)

Ivan: O senhor se chama Sandro da Conceição Neves?

Sandro: Esse é meu nome sim, como você sabe?

(Ivan ainda não sabe o que dizer. Tenta dizer algo mas nesse momento entra a mulher policial)

Policial: Promotor Ivan?

(Ivan levanta)

Ivan: Sim?

Policial: O caso Sandro da Conceição Neves já está pronto para ser julgado. Pode entra nessa sala. Seu Sandro, o senhor pode continuar aí. Daqui a pouco sai a sua sentença.

(Ivan levanta devagar e constrangido. Eles se olham.Ivan não sabe o que dizer e quase não sai o som)

Ivan: Desculpa.

(Ivan, perturbado sai com a mulher. Tempo)

Sandro : Essa é a vida.

FIM.