Especial Internet com “Teatro para alguém”
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FICHA TÉCNICA
Roteiro final e direção: Felipe Barenco
Elenco: Igor Angelkorte, Jefferson Schroeder, Juliana Bender, Julyane Bodini,
Luiz Antonio Fortes e Paula Alexander
Supervisão de direção: Felipe Herzog
Direção de fotografia e operação de câmera: Nelson Kao
Produção: Felipe Barenco, Felipe Herzog e Lucas Pretti
Apoio: Studio Escola de Atores
Agradecimentos: Maria Grifth, Natasha Corbelino e Sonaira D’Avila
Roteiro a partir dos textos
“180 segundos”, de Larissa Câmara
“Sem conexão”, de Renata Mizrahi
“Morte virtual”, de Julia Spadaccini
“Lingua Lambe”, de Jô Bilac
“Primeiro encontro”, de Carla Faour
“Lua de mel”, de Felipe Barenco
Drama Diário e “Teatro para alguém”
Queridos leitores,
Neste final de semana (sábado e domingo, 21h) serão transmitidos ao vivo pelo site Teatro para Alguém de São Paulo, as cenas publicadas aqui com o tema INTERNET. Confiram o site
http://www.teatroparaalguem.com.br/
Esta parceria é resultado de uma matéria realizada pela Folha de São Paulo que falava sobre projetos que linkavam teatro e internet: o carioca Drama Diário e o paulista Teatro para Alguém.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u603083.shtml
É com muita alegria que concretizamos esta parceria e convidamos a todos para conferirem ao vivo como será esta experiência. As cenas serão gravadas no Studio Escola de Atores, em Laranjeiras.
A exibição acontecerá em tempo real pelo site do Teatro para Alguém e para uma platéia em São Paulo que acompanhará a gravação através de um telão.
No elenco IGOR ANGELKORTE, JEFFERSON SCHROEDER, JULIANA BENDER, JULYANE BODINI, LUIZ ANTONIO FORTES E PAULA ALEXANDER.
Direção das cenas FELIPE BARENCO e supervisão de direção FELIPE HERZOG. Produção FELIPE BARENCO E FELIPE HERZOG.
Agradecimentos especiais MARIA GRIFTH, NATASHA CORBELINO E SONAIRA D´AVILA
Sem conexão
Carol está trabalhando no computador. Toca o telefone.
Carol: Alô? (pausa) Sim, é ela. (pausa) Oi!! Tudo bem? (pausa) Jura? Quer maravilha! (pausa) Claro, claro, claro. Eu mando agora. O que você precisa? (pausa) Tá. Peraí que eu vou anotar. (Ela anota no seu computador) Uma sinopse completa, classificação etária, preço do ingresso, foto de divulgação. Tá ótimo. Até que horas eu posso te mandar tudo isso? (rápida) Agora? (pausa) Não imagina. Eu tenho uma internet super mega rápida. Em um minutinho eu te mandando. Deixa eu te fazer uma pergunta. Quanto vai ser a verba? (pausa) Ótimo. Super topado. Te envio agora. Obrigada… beijo… Tchau!
(desliga o telefone e vibra. Liga imediatamente)
Carol: Alô, é a Bel? (pausa) Você não acredita o que acabou de acontecer! Passamos no Festival internacional da França!!! Uuuu!!! Foi de última hora,. Uma peça que tava na nossa frente desmarcou, e eles ligaram pra gente. Bel, elas ofereceram 15 mil euros!(pausa) Uuuuu, isso mesmo, parabéns. Eu tenho que mandar todos os dados agora por email. (Pausa) É, voce sabe cmo essa gente é. Quer tudo pra ontem. (pausa) Relaxa! Minha internet é super mega rápida! Tá. Tá Depois a gente se fala melhor. Avisa pro grupo. Beijoooo. (desliga)
(ela prepara o email)
Carol (fala escrevendo): Festival Internacional da França, arroba gmail, ponto com. Enviar. (espera um tempo) Enviar. (espera um tempo ) Enviar! (espera o tempo) Ah, meu Deus! Não, não, não! Puta que Pariu! (ela liga)
Voz: Boa tarde. Serviço de suporte Inter Fast, a internet do momento. Digite o número que deseja. Sobre conta, digite 1, novos produtos, digite 2, suporte técnico, digite 3. (ela digita o número 3. Pausa) Alô, aqui é Carol… número do cliente? Eu não sei, onde fica? Ah. (ela procura numa pilha de papéis a conta) Peraí… um momento… achei! 567894098. (pausa) então. A conexão da minha internet caiu e eu tô precisando mandar um email urgente… (pausa) Copacabana. (pausa) Rua Francisco Sá- 123/401. (pausa) Logo agora? Vocês fazem manutenção em plena quarta feira, três da tarde? (pausa) Só depois das oito? E o meu trabalho que eu to perdendo, vai ser descontado na hora de pagar a conta? (pausa) Olha aqui, não interessa. Eu tenho que mandar esse email. É urgente. (pausa) Ciber café? Eu pago mais duzentos reais por mês pra ter a merda dos seus serviços super mega rápidos, e você me diz para eu ir num Ciber Café?? (pausa) Alô! Alô!. (desliga)
(toca o telefone)
Carol: Alô? (pausa) Oi. Não, ainda não mandei. Eu já tô mandando. É que caiu a minha conexão…(pausa) Não, fica tranqüilo que a qualquer momento vai chegar aí no seu email (ri). Beijinhos. Tchau! (desliga)
Carol: Droga! Droga! Cadê o meu pen drive, cadê?
(Procura. desiste e resolve ligar)
Carol: Alô, Bel. Me salva. To sem internet. (pausa) É, perdeu a porra da conexão! (pausa) Eu sei. E a gente precisa mandar isso agora. Você tem o arquivo com você? (pausa) Putz! (pausa) Esqueceu onde eu moro? Não existe Ciber café por aqui! Ninguém merece. Vou ter que te ditar. (pausa) Anota aí. Nome do espetáculo: Ao Desencontro. Elenco…
(Ela dita todas as informações para Bel mandar de sua internet. Uma hora depois, Bel consegue mandar. Quase que elas perdem o Festival.)
FIM.
180 segundos!
(PLANO FECHADO NOS PERSONAGENS TECLANDO)
@Domain – Oie!
(@BLASEBOY – NÃO RESPONDE)
@Domain – Hey!
(@BLASEBOY – CONTINUA SEM RESPONDER)
(@DOMAIN – FAZ BARULHO PARA CHAMAR A ATENÇÃO)
(@BLASEBOY – ATÉ ENTÃO AUSENTE FINALMENTE APARECE ON LINE)
@Domain – Hey! Aonde você estava? Não tem explicação. Combinamos que dentro de 180 segundos você ficaria on line. Ou será que eu estou louca? É só descuidar que você esquece da vida. Deleta tudo da sua cabeça!
@Blaseboy – Oi! Eu estava distraído.
@Domain – Cínico. Volte a falar com as suas putinhas! Não sou mulher de se contentar com metade.
@Blaseboy – Do que você está falando?
@Domain – Além de cínico você é no mínimo idiota. Detesto repetir o que eu já disse.
(@BLASEBOY – MANDA UMA ROSA EMOTICON)
@Domain – (PAUSA) Aaaaaaaaaaaaaah! Eu não acredito!
@Blaseboy – Que foi? Você é alérgica a flores?
@Domain – O que foi que eu fiz pra deus?
@Blaseboy – O que foi pelo amor de deus?
@Domain – Como você foi capaz de fazer uma coisa dessas?
@Blaseboy – Você está me assustando!
@Domain – Eu estou chocada! Seu bandido mau caráter!
@Blaseboy – Que isso?
@Domain – Não diga nada. Nada. Seu tratante de marca maior. Criminoso. Esse emoticon é uma réplica fiel da tatuagem secreta que tenho no cóccix inspirada no filme“A rosa púrpura do Cairo”.
@Blaseboy – Você enlouqueceu! O que o Woody Allen tem a ver com a história é só um emoticon… eu estava tentando ser gentil.
@Domain – Você dobre e passe anti-vírus na sua língua antes de falar de Woody Allen.
@Blaseboy – Na boa. Se Você continuar com esses ataques eu vou bloquear você de novo.
@Domain – Vocâ invade a minha privacidade. Tira uma foto da minha tatuagem secreta. Banaliza o meu cóccix num emoticon barato. Você foi longe demais Blaseboy.
@Blaseboy – Hum… Você tem razão Domain. Parece que o caminho se bifurca. Quando as coisas chegam ao fundo não se arrancam mais.
@Domain – Eu vou te excluir do meu MSN!
@Blaseboy – Eu vou deletar o seu perfil!
@Domain – Eu vou sujar seu nome na comu!
@Blaseboy – Eu vou cuspir no seu facebook.
@Domain – Você é unfollow no meu twitter.
@Blaseboy – Nunca mais dançaremos via buddypoke!
(O PLANO ABRE PERCEBEMOS QUE OS DOIS OCUPAM A MESMA MESA. UM DE FRENTE PARA O OUTRO COM SEUS LAP TOPS. EXCITADÍSSIMOS.LEVANTAM-SE E NUM FUROR FELINO ENTRE ABRAÇOS REAIS E BEIJOS ARDENTES CONTINUAM AS AMEAÇAS VIRTUAIS ATÉ O PLANO FECHAR)
@Domain – Eu vou te excluir do meu MSN!
@Blaseboy – Eu vou deletar o seu perfil!
@Domain – Eu vou sujar seu nome na comu!
@Blaseboy – Eu vou cuspir no seu facebook.
@Domain – Você é unfollow no meu twitter.
@Blaseboy – Nunca mais dançaremos via buddypoke!
@Domain – Aaah. Me adiciona! Eu quero sentir o novo Orkut!
@Blaseboy – Huahuahuahuahuahua!
@Domain – Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!
(PLANO FECHA. LUZ APAGA. ENTRE BEIJOS E RISOS DO CASAL)
FIM
@1º Encontro
Ela: (ri, sem graça). Estranho.
Ele: É, mas eu acho que é assim mesmo. (pausa)
Ela: Posso te dizer uma coisa? A primeira vez que a gente teclou na sala de bate papo eu senti um friozinho na barriga.
Ele: Eu também. Fiquei nervoso. (pausa) Achei que os seus olhos fossem mais claros. (pausa)
Ela: Desculpa, as fotos que eu uso são antigas.
Ele: Cor de olho não muda com o tempo. (pausa)
Ela: Sabe o que é mais estranho? É que quando a gente ta teclando tem tanto assunto, é tão divertido. E agora…
Ele: O que é que tem?
Ela: (rindo, sem graça) Agora parece que a gente não sabe conversar.
Ele: O silêncio te incomoda? (pausa)
Ela: Na verdade eu acho que é uma questão de “time”.
Ele: Como assim?
Ela: “Time”, o “tempo” da coisa: escrever, apertar o enter, esperar a sua resposta, ler, escrever de volta… Lá as coisas fluem. Naturalmente.
Ele: Sabe que eu notei uma diferença?
Ela: Fala.
Ele: Você “on line’” é mais… como posso dizer? Você.
Ela: Hã?
Ele: Verdade! Você é mais parecida com o que eu acho que você é.
Ela: É por causa das fotos que eu te mandei. Já disse: são antigas você ficou com a minha imagem de uns dez anos atrás.
Ele: Não tem nada a ver com foto. Mais extrovertida. Pra mim você era uma pessoa que ria o tempo todo.
Ela: É porque eu gosto de teclar “rsrsrsrsr” e !!!!
Ele: É, “on line” você ri de tudo! E é tão carinhosa. (pausa)
Ela: Pensei que você gostasse de esportes.
Ele: Gosto. Muito. (pausa)
Ela: A sua foto que ta no meu descanso de tela é uma que você ta pedalando.
Ele: Eu estava sarado nessa época. Só que com a falta de tempo, o trabalho. A gente vai deixando. Tô meio fora de forma, mas eu não menti pra você, eu adoro esportes.
Ela: Não to dizendo que você mentiu. Só acho que você é diferente do que você disse que era.
Ele: Você ta querendo dizer que não rolou química entre a gente?
Ela: Você acha isso?
Ele: Eu perguntei primeiro. (grande pausa) Quando a gente ta teclando você é sempre tão espontânea, de uma sinceridade desconcertante, agora você ta cheia de dedos pra falar.
Ela: Acho que rola uma puta química. O que eu te disse há uma semana, repito: eu estou apaixonada por você. Você foi a coisa mais incrível que aconteceu na minha vida. Só que…
Ele: Fala. (pausa) Fala.
Ela: Covardia competir com você mesmo. (pausa)
Ele: Como assim?
Ela: Você é muito melhor do que você. Você virtual é melhor do que você real. Lá é melhor do que aqui.
Ele: Você real é mais grossa do que você virtual.
Ela: Você acabou de dizer que gosta quando eu sou sincera.
Ele: Sabe qual o problema? A gente foi pra cama muito rápido.
Ela: Você quer dizer… hoje? Porque quando a gente se conheceu na sala de bate papo nós fomos direto pra…
Ele: Não to falando desse jeito.
Ela: Foi tão maravilhoso. Lembra? Tudo se encaixou. (pausa)
Ele: A gente precisa se conhecer melhor.
Ela: Eu te conheço melhor do que você imagina. Três meses.
Ele: Conhecer de verdade.
Ela: Não leva a mal o que vou te dizer, ok? Não me interessa. Não tenho interesse em você. Já aquele cara que eu conheci na sala de bate papo… Ele consegue me deixar louca sem encostar um dedo em mim.
Ele: A gente precisa de intimidade, intimidade física. Só isso.
Ela: Na boa? Não rola. Desse jeito não rola. (pausa) Mas se… se… se você quiser me encontrar hoje à noite, eu vou adorar.
Ele: Você quer sair hoje à noite?
Ela: Eu falei sair? Aliás, se você quisesse, agora, eu ia adorar. Adoraria fazer qualquer coisa com você: bater papo, escutar música, transar… (pausa)
Ele: Aqui perto tem uma lan house.
Ela: É? (pausa) O que é que a gente ta esperando?
Ela: Eu te amo.
Ele: Eu também.
Ela: Vamos?
Ele: Correndo. Tô morrendo de saudade de você.
FIM
Morte virtual
José conversando com a sua mãe.
José – Mãe.
Mãe – O que?
José – Como é a morte?
Mãe fica em silêncio por um instante.
Mãe – A morte é quando você vai encontrar um anjinho lá no céu.
José – Ai, mãe, eu sei que a morte é o final de tudo, não é isso que eu tô perguntando.
Mãe – Hein?
José – Eu sei que, biologicamente, a morte pode ocorrer para o todo o organismo ou apenas para parte dele. Sei que é possível para células individuais, ou mesmo órgãos, morrerem e ainda assim o organismo continuar a viver. Que muitas células individuais vivem por apenas pouco tempo e a maior parte das células de um organismo são continuamente substituídas por novas células.
Mãe – Como é que você sabe disso?
José – Ué? É só entrar no Google!
Mãe – Nem eu sabia sobre a morte com tantos detalhes…
José – Mas eu tô perguntando como é a morte.
Mãe gaguejando.
Mãe – Ah, é uma coisa tranquila. Um coisa que acontece, que todo mundo vai passar…
José – Tranquila?
Mãe – É…
José – Difteria, Coqueluche, Tétano, Bronquite, Pneumonia, Cólera, Tuberculose, Hanseníase, Blenorragia, Sífilis, Sífilis Congênita, Meningite, Disenterias Bacterianas, As Bactérias e a Saúde Humana, Febre Reumática, Febre Tifóide. Tumores, Leucemia, Câncer de Cérebro e Medula Espinhal, Câncer de Mama, Câncer de Próstata, Melanomas. São coisas tranqüilas, mãe?
Mãe – Nossa, como você sabe isso?
José – Google.
Mãe – Você está proibido de entrar na internet.
José – Censura é o uso pelo estado ou grupo de poder, no sentido de controlar e impedir a liberdade de expressão. O propósito da censura está na manutenção do status quo, evitando alterações de pensamento num determinado grupo e a consequente vontade de mudança.
Mãe – Vá para o quarto! Agooooooora! Não ligue TV, Games e fique longe da internet. Fique lá lendo ou estudando até eu chamar!
José – Acabei de entender como é a morte.
José sai triste.

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