trecho da peça NEURÓTICOS S.A

Marília da um tiro na cabeça de Ju, sua paciente carente que liga pra ela de cinco em cinco minutos.

(Contundente, mas contida)

Eu odeio, odeio, odeio neuróticos! Não aturo. Não suporto. Não tolero. Boa Noite. Sou Marília Guimarães, terapeuta. E eu não consigo ficar um minuto na mesma sala com um neurótico. A não ser que seja um dos meus pacientes. Quando é meu paciente eu até fico mais de um minuto na mesma sala que um neurótico, mas isso não significa que eu tenho que suportar essa gente. Eu tenho uma visão muito clara da profissão do terapeuta: nós não somos amigos dos nossos pacientes! Nós não temos que participar dos problemas do paciente. Nós somos médicos. Você já viu algum médico sofrer a dor alheia? Já imaginou que loucura a vida de um obstetra se ele tivesse que dividir o incômodo de cada parto normal que ele fizesse? Com terapeuta é a mesma coisa. Eu não tenho que compartilhar a ladainha dos neuróticos. Eu tenho que acabar com elas. Não é porque eu recebo 150 reais a hora que eu sou obrigada a ouvir calada que fulaninha não consegue trepar desde que o pai se matou na frente dela. Faça-me o favor.

Graças a Deus eu descobri a linha Lacaniana. O tempo lógico de Lacan é o achado na vida de qualquer terapeuta são. Depois que eu encontrei Lacan na minha vida, o meu aproveitamento como analista só melhorou. Os meus pacientes passaram a ser mais sucintos e as nossas sessões raramente passam de sete minutos. Porque sete minutos é o tempo máximo que uma pessoa normal pode tolerar ao lado de um neurótico sem cometer mutilação, tratamento cruel, tortura e homicídio.

Eu odeio neurótico! Outro dia entrou lá no consultório aos prantos uma neurótica da pior espécie: a obsessiva. A criatura tinha compulsão por comprar. E ela estava reclamando que o marido tinha cortado os cartões de crédito depois que ela pagou cento e vinte e três reais e cinqüenta centavos num rebobinador de DVD. Eu dei na cara dela. Não agüentei. Nunca mais voltou. Curada.

O problema é quando os neuróticos demoram pra desenvolver o assunto. Outro dia chegou lá uma paciente (Abre os braços e enche a bochecha fazendo-se de gorda). Muito bem. Ela se dizia feliz. (Faz rapidamente o mesmo movimento)… e feliz . (como se dissesse Gorda e feliz). E eu imaginando, como alguém poderia ser feliz e ter um peso de três dígitos ao mesmo tempo. Mas tudo bem. Neurótico é neurótico. Eles criam… Muito bem.O mais intrigante era o motivo pra felicidade da (faz de novo) tal paciente: Suco de Nôni. (Para a platéia) Você já ouviu falar em suco de Noni?

(Em tom didático, irônico. Vendedora de programa vespertino)

Noni é uma planta que cresce nas ricas terras vulcânicas das ilhas da Polinésia Francesa da qual se extrai um poderoso sumo. E ao contrário de produtos similares como Herba Life e Slim Fast, o suco de Noni não serve só para emagrecer. Ele ajuda o organismo a funcionar melhor como um todo. Auxilia na digestão, melhora o processo respiratório, cura câncer de medula, frieiras, e transforma cabelo pichaim em liso em pouquíssimas semanas! (voltando ao tom normal). O pior dessa história toda não é o fato de um punhado de neuróticos acreditarem que uma garrafa de um suco fétido vai fazer a vida deles melhor. O pior é que esse punhado de neuróticos acredita que a tal garrafa de suco fétido pode fazer a vida dos outros melhor. E eles passam a vender suco de Noni como quem vende a última Coca-Cola do deserto! O último Lexotan do show do Frejat. Ou último guaraná em pó do show da Maria Rita! Que dá no mesmo. O caso é que o neurótico que já é chato vira ainda mais neurótico e mais chato e não descansa até empurrar uma garrafa de Noni goela abaixo de quem quer que seja. Eles formaram uma seita capitalista. Uma mistura de AmWay com Igreja Universal!

Neuróticos, neuróticos. Odeio neuróticos. (doce) Ai, como eu tenho saudade do tempo em que eu só lidava com psicóticos. Os meus esquizofrênicozinhos, os meus paranóicos. Até os melancólicos, tadinhos. O fim era trágico, mas suicído não tem cura mesmo… Pelo menos era bom enquanto durava. (Se enfurecendo) Mas eu tinha que inventar de clinicar! E tinha que me envolver com essa raça, com essa gentinha, com esses neuróticos!

Olha a minha repulsa a neuróticos é tão grande, mas tão grande que eu prefiria participar de uma suruba com a Sandy e a Condoleezza Rice do que ter que aturar um neurótico! Eu preferia ouvir um dueto da Gal Costa com a Leila Pinheiro durante um show inteirinho do que ter que ficar mais de 40 minutos na companhia de um neurótico!

(Neste momento ela muda de tom. Meio blasé, jogando fora. )

Outro dia uma amiga minha veio me dizendo que eu era muito radical. Que eu tinha que olhar mais para os lados. Ela estava aventando a possibilidade de que eu também teria uns traços de neurose obsessiva.(rapidamente) Vê se pode! Eu! Neurótica! Uma bobagem… Imagina que ele… Só porque eu tenho uma maniazinha com xampu. Bobagem. Não chega a ser uma neurose concreta. É mais uma… um cuidado… uma preocupação com o meu cabelo. Mas não é nada, nada, nada! É só porque eu tenho uns quinze vidros de xampu no box. (Contundente) Mas tem explicação. É lógico, racional, não é neurótico. Segue só a minha linha de raciocínio:

(Aqui ela começa a assumir sua neurose para o público. O texto vai numa convicção crescente.)

O meu cabelo é ondulado. Mas ele também tem pontas secas. E raízes oleosas. E é tingido. E eu tenho caspa! Agora me explica. Como é que eu posso em sã consciência sair do supermercado com um único vidro de xampu? Digamos que eu escolha o xampu para cabelos ondulados. O que é que vai acontecer? Tá, os meus cachos vão ficar tinindo. Mas em compensação a minha raiz vai virar uma fábrica de óleo Lisa, minhas pontas vão ficar duras a ponto de cegar o primeiro que vier me abraçar, o meu vermelho bordeaux vai virar um laranja bagaço e quando eu balançar a cabeça vai parecer Natal em Nova York. Caspa pra tudo quanto é lado!

(Está histérica)

Eles fazem de propósito. Eu tenho certeza! Ninguém escapa dessa jogada perversa de marketing dos fabricantes de xampu. Nem a Malu Mader que tem o cabelo mais sem graça do mundo consegue fugir. Eu duvido que ela se decida entre o cabelos lisos, cabelos negros ou doador de brilho! Aposto que ela tem os três no banheiro, aposto! (Orugulhosa) E eu como tenho uma estrutura capilar mais complexa que a da Malu Mader tenho 15 xampus. Normal. Lógico. Racional. Neuróticos são os fabricantes de xampu que querem te extorquir até o último centavo. Neuróticos. Neuróticos pelo dinheiro. Neuróticos. Ai, ai. Minha pálpebra direita está latejando de novo. Ta vendo? Isso sempre acontece quando um neurótico me irrita. Ai meu Deus. Tá muito forte. Uma taquicardia ocular! Será que um micro vaso pode estourar na minha retina? Será que a minha visão pode ficar momentaneamente turva? Será que eu vou ficar cega? Cega por causa dos neuróticos. Ta vendo? Ta vendo o que os neuróticos estão fazendo comigo? Eles estão me deixando cega! Os neuróticos estão acabando comigo! Eu odeio neurótico! Eu odeio, odeio, odeio neurótico!

(Barulho de Tiro. Marília cai morta.)

Nas profundezas de um apartamento

NUM APARTAMENTO EM COPACABANA.
ELANE, MULHER NA FAIXA DOS 50 ANOS, VICIADA EM TV, COMPLETAMENTE ATÔNITA ESTÁ VENDO TV. ELA TEM UM LIVRO NO COLO.

VOZ DA TV:
ELE: Você é minha bem amada.
ELA: Você é meu bem querer.
ELE: Você é minha bem amada.
ELA: Você é meu bem querer.
ELE: Minha querida…
ELA: Te amo!
ELE: E eu quero te ter.

DONA GENNY, SUA MÃE, SENHORA NA FAIXA DOS 80 ANOS, INCRIVELMENTE VIVA, ENTRA INTERROMPENDO.

DONA GENNY: Bom, ta aqui o resultado… Você sabe muito bem a causa, né? ZERO NO CONCURSO! ZERO! Concurso Público! Público! Mas é lógico… Fica aí, feito uma matrona, dentro de casa o dia inteiro vendo essa porcaria de televisão! Só podia dar nisso… Vou te contar… Deus do céu, o que é que eu fiz pra merecer isso, hein? Eu te pergunto! O que é que eu fiz?! Me diga. Depois você fica reclamando que não tem amigos. Que vergonha… Por que, eu pergunto por que, você não liga pra alguém?

SILÊNCIO

DOMA GENNY: Toma o telefone! Você vai ligar agora. Ta entendendo? AGORA. Vai sair de casa. Tomar um ar! Vamos, liga! (PAUSA) Liga! (PAUSA) Liga, liga, liga! Não vai ligar? Não? Então eu ligo.

ELANE: Não…

MÃE: Vou ligar agora!

DONA GENNY LIGA PARA UM EX -COLEGA DA ÉPOCA DE ESCOLA DE ELANE

DONA GENNY: Alô? É o Filipinho? Filipinho, aqui é Genny mãe da Elane, aquela cheinha que estudou com você, ta lembrado, meu filho? (PAUSA). Sim, a Elane espinhenta, sim, ela mesma. Tudo bom com você, meu filhinho? (PAUSA) Olha, primeiramente eu queria dizer que eu resolvi ligar pra você depois de tantos anos… o quê? Uns 40 anos, né? Então, eu resolvi ligar pra dizer, essa é uma opinião minha, viu? Você sempre foi o coleguinha mais bonitinho que minha filha já teve. (PAUSA) É isso mesmo! Deixa de ser modesto, eu sempre te achei uma gracinha, viu? E a minha filha Elaninha também. Você ainda é um pintinho? (PAUSA) Eu perguntei se o seu cabelo continua loirinho? (PAUSA) Ah! Eu sei, com tempo a gente vai perdendo a cor mesmo. Eu por exemplo vivo pintando (RI) Então, eu to ligando pra dizer, bem, você sabe como era a minha filha, a Elane, né? (PAUSA) Continua assim, acredita? Não evoluiu, não evoluiu. Então, eu pensei assim, quem sabe assim, como quem não quer nada, quem sabe você não vem aqui fazer uma visita pra minha filha? Ai, eu acho que ela vai ficar tão feliz. Imagina, você deve tá bonitão. Porque eu sei que você sempre foi bem bonitão, gostosão, não é?

ELANE ABRE O SEU LIVRO E TENTA LER. DONA GENNY, SUA MÃE, CONTINUA FALANDO.

MÃE: Tá estudando? Não. Claro que não. Estudar que é bom pra passar no concurso você não estuda. Nem pra ajudar a sua mãe que faz tudo por você. Fico até magoada. (PAUSA) Eu não sei o que aconteceu com você. Eu sempre fui tão animada, até canto ó. (ELA CANTA) Tentei passar isso pra você, tentei mesmo. Mas vou te contar. Deus me perdoe, mas você não parece nem a minha filha, mas não parece mesmo! E eu, que sempre te dei as melhores coisas, te coloquei na melhor escola, te arrumei toda, impecável. As pessoas sempre comentavam: “Elane sempre foi uma bonequinha”. Uma bonequinha graças a quem? (PAUSA) A mim é claro. E você se torna isso! Uma bela de uma matrona. Incapaz de passar num concursozinho público. Custava passar no maldito concurso?! Custava? Eu te inscrevi com tanta esperança…Filha! Filha, mamãe quer ter um pouco de orgulho de você! (PAUSA) Você tá me ouvindo? (PAUSA) O que você ta lendo?

ELANE (BAIXO): Alice no País das Maravilhas.

DONA GENNY: Oi?

ELANE: Alice no PaÍs das Maravilhas.

DONA GENNY: Não ouvi.

ELANE: Alice no País das Maravilhas.

DONA GENNY: Mais alto, mulher!

ELANE: Alice no País das Maravilhas!

DONA GENNY: O quê?

ELANE: Alice no País das Maravilhas!

DONA GENNY: Fala mulher!

ELANE GRITA: Alice no País das Maravilhas! (GRITA MAIS) Alice no País das Maravilhas!!!

DONA GENNY (GRITANDO): Não grita comigo! Não grita comigo!

DONA GENNY DÁ UM TAPA NA CARA DE ELANE. DONA GENNY FECHA A PORTA E VAI PARA A SALA .

ELANE ABRE SUE ARMÁRIO E PEGA UMA MALA, TOMA UM REMÉDIO TARJA PRETA E COMEÇA A FALAR SOZINHA. FINGE UMA ENTREVISTA COM ELA MESMA

ELANE: Estamos aqui com a senhorita Elane Abravanel, mais uma das filhas de Silvio Santos! Não. Silvio Santos não. Estamos aqui com Helena, moradora do Leblon e que vai nos falar da sua experiência em ser médica, depois de ter sido anos uma corretora de imóveis. Não, também é melhor não… Estamos aqui com a mulher que revolucionou o mundo. Aplausos.

ELA SE APLAUDE

ELANE: Ela vai nos contar como foi a sua experiência da felicidade!!!
Bom, a felicidade pra mim foi sempre algo banal. Desde pequena eu sou feliz. Assim que vi o mundo eu sempre fui feliz. Como uma jaca que cai da árvore após estar madura. É assim que sempre me sinto. Como a beleza simples da natureza, em especial as jacas…

UMA MÚSICA COMEÇA A TOCAR, É DONA GENNY, SUA MÃE, DUBLANDO CAUBY PEICHOTO.

DONA GENNY (DUBLANDO): Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa…

ELANE CONTINUA A SUA AUTO-ENTREVISTA

ELANE: Continuando a grande entrevista. Elane o que você pretende fazer agora?
Bom, eu pretendo sair de casa, sabe? Construir uma vida melhor para a minha família.
E quem é a sua família? Minha mãe, minha mãe, minha mãe , minha mãe rs rs rs que interessante, né? Minha mãe minha mãe minha mãe mãe mãe mãe mãe rs rs rs
Muito interessante. Aplausos!

ELA SE APLAUDE

Obrigada eu gosto muito disso! Mas, continuando a entrevista, o que você vai fazer agora? Por que está com essa mala?
Como estava dizendo, eu tenho uma missão. Encontrar a minha melhor amiga.
E qual o nome dela?
Alice rs rs rs Ela tá perdida e eu tenho que encontrá-la rs rs
Muito interessante. Você é maravilhosa.
Então eu devo ir, é o momento. Tchau meus telespectadores, eu amo vocês também!

ELANE PEGA SUA MALA E SAI PARA ENCONTRAR ALICE NUM LUGAR QUALQUER. DONA GENNY, MUITO DISTRAÍDA EM SUA DUBLAGEM, NÃO PERCEBE A FILHA.
ELANE FICA UM TEMPO NO HALL DO APARTAMENTO E VOLTA.

FIM.

Ai, que loucura!

Queridos leitores,
Faço dos meus escritos as palavras de Narcisa.
Como diria Caetano: é que Narciso acha feio o que não é espelho.

Por favor, divirtam-se!

http://br.youtube.com/watch?v=12tR86hAeYo

Loucura PS: Por que toda pessoa que fala prástico também fala splite?

Você deseja o que quer?

Roberta e Marcelo estäo sentados esperando por uma entrevista de emprego.

O silêncio entre os dois começa a ficar mais agitado que um silêncio normal. Daqueles silêncios cheios de pensamentos sobre a outra pessoa. Um pigarro, um espirro, uma tosse seca e sem vontade e mais um pouco do silêncio, cheio de estar em silêncio, louco para perguntar alguma coisa para o…

Marcela – Você…

Roberto – Fala! Pode falar! Eu também já näo estava mais aguentando.

Marcela – Ai, que bom… estava no limite. Quando fico tanto tempo em silêncio, a minha cabeça fala tanto que sou capaz de…

Roberto – Do que?

Marcela – O quê?

Roberto – Você disse que fala tanto que é capaz de…

Marcela – Eu näo, a minha cabeça…

Roberto – A sua cabeça, por acaso, näo é você?

Marcela – Sônia.

Roberto- Roberto, prazer.

Marcela – A minha cabeça.

Roberto – O que tem?

Marcela – Se chama Sônia, eu me chamo Marcela…

Roberto – Você deu um nome para a sua cabeça?

Marcela – Dei.

Roberto – E qual é o nome do seu pé?

Marcela ri nervosa.

Marcela – Só minha cabeça fala…

Roberto – O meu pé näo fala, mas exala, por isso, seu nome é Fede-rico.

Marcela ri fazendo careta de nojo.

Marcela – E a Sônia vai bem?

Marcela – Mal.

Roberto – Por quê?

Marcela – Cala boca!

Roberto – Eu?

Marcela – Näo… é que às vezes a Sônia cisma que tenho que ser uma pessoa discreta, diz que sou muito fácil.

Roberto – Fácil?

Marcela – É… uma pessoa fácil de ser vista, uma pessoa… quer parar!!!! Pára!

Roberto – Desculpe, eu näo quis…

Marcela – Näo é você… é a Sônia, está dizendo que você tem a perna mais fina que ela já viu… sempre assim, quando me interesso por alguém a Sônia coloca defeito, tem ciúmes de mim, possessiva… Uma vez me fez ficou martelando na minha cabeça que um cara super bacana que conheci era na verdade gay…

Roberto – E era?

Marcela – Näo pude descobrir, Sônia me enlouqueceu tanto com essa história que acabei a relaçäo antes de fazer… tá bom, Sônia! Chega!

Roberto – O que agora?

Marcela – Está reclamando do seu jeito de cortar o cabelo. Sônia detesta homens que cortam o cabelo no estilo asa delta…

Roberto – Nossa, mas a Sônia é um tanto exigente, você näo acha?

Marcela – Às vezes…

Roberto – Você já perguntou para ela, se sendo täo exigente, ela näo preferia ser a cabeça de alguma mulher mais bonita, mais magra e com bom hálito?

Marcela fica paralisada, Sônia some por alguns minutos e Marcelo entra na sala de entrevista com o seu fede-rico feliz.

FIM

“Insanidade é repetir sempre a mesma coisa e esperar por um resultado diferente”

(Albert Einstein)

Escandaloso desejo de amar

Luz forte
Ouve-se um estrondo
Um grito de mulher
Cai um revólver no chão
Uma lágrima escorre
Raquel permanece imóvel
Arthur fitando o cadáver

Louco!” _ Balbucia Raquel.
Ontem você não dizia isso…” _ Arthur, seco.
Uma ova!” _ Raquel avança nele.
Como você pôde fazer isso, Arthur? Como??”
Ulisses não tinha culpa de nada…Tadinho…”
Rindo, Arthur é cruel:
Agora voce sente pena dele, sua cadela?”

Luz no rosto de Raquel:
O que você disse, Arthur?”
Uma coisa que seu Ulisses sabia e que eu até agora ignorava.”
Canalha! Você não tem direito de falar do…”
Ulisses? Ulisses morreu sabendo que você era uma cadela, Raquel.”
Raquel pega o revólver caído no chão e aponta.
Ah…! Vai atirar?” _ Arthur no auge de seu cinismo.

Longe de tudo, surge
Olívia,
Uma velha
Cafetina que esconde
Um segedo.
Raquel, espera!” _pede Olívia.
Ainda tem uma coisa que você não sabe.”

Larga essa arma!” _ insiste a cafetina.
OLívia?” _ Raquel surpreendida.
Uma reunião de vagabundas!” _ri Arthur.
Cala a boca, Arthur! A Raquel precisa saber da verdade!
Ubatuba.” _ continua Olívia.
Raquel precisa saber de Ubatuba.”
Alguém pode me dizer o que está acontecendo?” _indaga Raquel.

Luana Fidélis, esse era o nome dela.”
Oi? Nome de quem, Olívia?”
Ulisses tinha um caso com Luana Fidélis.”_revela a cafetina.
Como assim?” _ Raquel chocada.
Ubatuba, Luana morava lá. E seu marido a matou.”
Raquel fica tonta com as palavras de Olívia.
Arthur, acode a jovem.

Luana foi assassinada porque
Ousou querer de
Ulisses, aquilo que não poderia ter:
Casamento!
Ulisses dizia que iria se separar de você,
Raquel, mas enganava
A coitadinha.

Largou Luana.
Objetiva, a moça ameaçou num
Urro, que iria até você
Contar tudo que havia entre eles.
Ulisses possesso,
Rasgou
As vísceras de Luana e jogou no mar.

Louco por vingança,
O irmão de Luana jura matar
Ulisses.
Compra documentos falsos,
Um revólver, mas se apaixona por
Raquel, mulher de seu inimigo mortal.”
Arthur!_ Raquel olha assombrada para o rapaz.

Luana era sua irmã…”_ Raquel juntando
Os pedaços do quebra- cabeças.
Única, minha única irmã!” _ Arthur emocionado.
Como o Ulisses foi capaz de tal monstruosidade?”
Ulisses merecia morrer, entende agora?”
Raquel olha com ternura e beija
Arthur com muito fervor.

Luz caindo.
Olívia emocionada.
Ulisses no chão, morto.
Canto Gregoriano ao fundo.
Uma última imagem:
Raquel rindo e chorando, ao lado de
Arthur.

L
O
U
C
U
R
A

fim.

O grande espetáculo

Abrem-se as cortinas do palco.

Um casal entra em cena. A mulher, um pouco desconfiada mas muito risonha, senta numa das duas cadeiras dispostas no palco e para acalmar-se, chupa balas. O homem, com um aspecto um pouco mais sério e formal, repreende as risadas da esposa com alguns beliscões e sussurros que soam a mais profunda grosseria.

Tocam os três sinais. Ambos, sentados em suas cadeiras, encaram o público. Agem como se esperassem algo acontecer. A mulher, tentando segurar o riso, explode numa grande gargalhada. É um riso de desespero e ansiedade. O marido, finalmente, não resisti e ri também.

Ambos riem muito.

Caem das cadeiras.

Rolam de tanto rir.

Por fim, recuperados da súbita crise de riso avassaladora, levantam, pegam suas coisas e vão embora.

As cortinas se fecham.

FIM.