Como
Eu: Como é que eu faço?
Eu: Não faz.
Eu: Mas é sacanagem.
Eu: As pessoas vão entender.
Eu: Eu não quero que elas entendam.
Eu: Então não faz.
Eu: Mas não foi isso que eu quis dizer.
Eu: Foi exatamente o que eu quis.
Eu: Eu sei.
Eu: Eu também.
(pausa)
Eu: Já sei.
Eu: Fala.
Eu: Eu vou pegar uma cena já escrita.
Eu: É sacanagem.
Eu: E não fazer não é?
Eu: Eu estou no Maranhão!
Eu: Eu também.
Eu: Nos Lençóis!
Eu: Eu sei. Eu também estou aqui.
Eu: Então é difícil, né?
Eu: E eu não sei?
Eu: Mas mesmo assim eu tenho que escrever alguma coisa. Senão é sacanagem.
Eu: Não tem problema. Deixa de ser apegado. Uma semana a menos não vai fazer diferença. Aposto que tem gente que nem vai notar.
Eu: Tudo bem.
Eu: Tudo?
Eu: Você me convenceu.
Eu: Que bom.
Eu: Não vou escrever nada.
Eu: Ótimo.
Eu: Mas vou cantar.
(pausa)
Eu: Cantar?
Eu: É.
Eu: Você vai cantar uma música no Maranhão.
Eu: É.
Eu: Pras pessoas do site?
Eu: Isso. Qual o problema.
Eu: Nenhum. Tirando o fato de que ninguém vai ouvir uma nota. Aliás, sorte a deles.
Eu: Não importa. Tudo bem com você?
(pausa)
Eu: Ok. Tudo bem.
Neste momento, EU saio de pequena Lan House na avenida Joaqui Soeiro de Carvalho e sigo pelas ruas de Barreirinhas cantando “Amor, I love you”
FIM
Vem andar e voa
Ester: Amor?
Paulo: Oi, meu docinho.
Ester: Quero me mudar.
Paulo: Não entendi, meu docinho.
Ester: Quero me mudar, meu amor. É simples.
Paulo: Simples, meu anjinho lindo? Nós acabamos de casar.
Ester: Então. Quero construir nossas vidas em outro lugar.
Paulo: Meu amaciante, a gente acabou de comprar esse apartamento. Você não pode estar falando sério, né?
Ester: Estou. Estou falando muito sério. Eu não quero morar aqui. Eu odeio conjugado, ainda mais em Botafogo. Vi uma peça que dizia que conjugado aprisiona a alma. É verdade, eu não vou suportar ficar aqui, meu amor, eu já tô vendo isso.
Paulo: Minha queijadinha, é assim mesmo. Quando a gente tiver uma situação financeira melhor, a gente se muda. Mas agora que tá tudo ajeitadinho, não dá. Além do mais, meu trabalho fica a uma quadra daqui e sua escola fica logo ali em Copacabana.
Ester: Vamos largar tudo isso, meu amor. A gente não precisa desses empregos que nos anestesiam e nos iludem, nos fazendo achar que realmente fazem diferença nas nossas vidas. Eu quero poder andar descalça com pé na terra, tomar banho de rio e aprender a plantar.
Paulo: Minha mariola das montanhas, você nunca teve tendência hippie. O que está acontecendo?
Ester: Há um vilarejo ali…
Paulo: Eu não posso largar tudo agora…
Ester: Onde areja um vento bom…
Paulo: Foi muito difícil passar no concurso pra Furnas.
Ester: Na varanda, quem descansa vê o horizonte deitar no chão pra acalmar o coração.
Paulo: Eu achei que poderíamos ser felizes aqui. Tudo bem que é meio barulhento. Isso é um pouco injusto pra gente…
Ester: Lá o mundo tem razão.
Paulo: Eu sei que a nossa janela dá de cara para um muro pichado…
Ester: Terra de heróis, lares de mãe…
Paulo: Mas foi o que a gente se prôpos.
Ester: Paraíso se mudou pra lá…
Paulo: A gente ainda é jovem, minha colher de doce de leite. Ainda vamos mudar pra melhor.
Ester: Por cima das casas, cal. Frutas em qualquer quintal.
Paulo: Mas agora não é o momento. Todo casal recém-casado começa pequeno, depois vai se ajeitando. Eu sei que nesse conjugadinho a gente começou bem pequeno mesmo…
Ester: Peitos fartos, filhos fortes, sonho semeando o mundo real.
Paulo: Mas ir pra outro lugar agora, minha flor do campo, é muita loucura. Nem sei se onde você tá falando tem lugar pra gente.
Ester: Toda gente cabe lá. Palestina, Shangri-Lá.
Paulo: Não queira me convecer do contrário, minha maçã do amor.
Ester: Vem andar e voa. Vem andar e voa. Vem andar e voa.
Paulo: Tá obcecada, meu sol da manhã? Como eu vou arranjar um emprego nesse lugar?
Ester: Lá o tempo espera.
Paulo: Não tá numa época boa de se mudar.
Ester: Lá é primavera.
Paulo: E se as condições não forem propícias?
Ester: Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar.
Paulo: Tá, mas como vamos comer?
Ester: Em todas as mesas, pão.
Paulo: Meu cachinho dourado, o que mais você quer?
Ester: Flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos.
Paulo: Pureza da minha alma, o que te fez querer mudar assim?
Ester: Essa canção.
Paulo: E o que tem essa canção?
Ester: Tem um verdadeiro amor, para quando você for.
(Ester coloca no aparelho de som a música “Vilarejo” de Marisa Monte para Paulo ouvir. http://www.youtube.com/watch?v=-g83_ZRGM48
Paulo escuta atentamente até o final)
Paulo: Eu vou.
FIM
Dedicado aos meus amigos Daniel e Mariana, que me fizeram conhecer o vilarejo de Boa Esperança. Com isso, eu comecei a acreditar que é possível andar como se estivesse voando.
Infinito particular
Monte: (Levemente ébrio com uma mala na mão cantarolando) Se ela me deixou a dor, é minha só, não é de mais ninguém. Aos outros eu devolvo a dó. Eu tenho a minha dor. Se ela preferiu ficar sozinha, ou já tem um outro bem. Se ela me deixou, a dor é minha, a dor é de quem tem… (senta sobre a mala e chora baixinho)
Marisa: (Liga várias vezes. Ocupado sempre. Deixa recado. Confusa) Eu só não te convido pra dançar. Porque eu quero encontrar com você em particular. Há tempos tento encontrar um bom momento. Alguma ocasião propícia. Pra que eu possa pegar sua mão, olhar nos olhos teus. Seria bom, quatro paredes, eu, você e Deus. Laiá laiá, laiálaiá. (Senta arrependida. Tenta chorar baixinho e não consegue)
Monte: (Ainda sentado sobre a mala. Pega o celular. Liga várias vezes. Ocupado sempre. Deixa recado.) Tanto tempo longe de você quero ao menos lhe falar. A distância não vai impedir meu amor de lhe encontrar. Cartas já não adiantam mais! Quero ouvir a sua voz!Vou telefonar dizendo que eu estou quase morrendo de saudades de você. (Desliga arrependido)
Marisa acendendo velas dentro de casa. Clima de jantar romântico. Campainha toca. Marisa abre a porta. Entra Monte. Os dois se abraçam. Marisa aponta para o sofá. Monte senta. Pausa.
Marisa: Quer beber alguma coisa? (canta de repente) Não adianta vir com guaraná para mim é chocolate o que eu quero beber!
Monte: Oi?
Marisa: Nada… (silêncio) (cantarola) Eu sei… que você sabe… Que eu sei que você sabe que é difícil de dizer…
Monte: Marisa! O que é que você quer me dizer? Não sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem?
Marisa: Monte a mensagem principal da música é: Já sei namorar.
Monte: Foi ela! Ela quem minou nosso relacionamento. Ela é o pivô da separação.
Marisa: (num desespero) Ela! Ela quem? Quem é ela? Que ela? Quem é ela?
Monte: Marisa Monte! No início eu achei bacana. Achava espontâneo. Mas, não precisa cantar músicas da Marisa Monte o tempo todo. É insuportável! Você lembra como você comunicou a morte da minha mãe? Você segurou minha mão e falou: apagaram tudo, Pintaram tudo de cinza. Demorei tanto para entender que quase perdi o enterro. Isso é sério, entende? Compromete a sanidade da pessoa. Minha ex-namorada era viciada em Queen. Tudo bem que Freddie Mercury tinha lá o seu bigodinho. Mas, Queen homem também escuta. Agora Marisa Monte não é o tipo de música unissex. Eu era humilhado no escritório! O que me salvou foi aquele CD com encarte de sacanagem.
Marisa: Você dobre a língua antes de falar do “Barulhinho Bom”. (cantarola) Ainda lembro o que passou… mostrei o Cd para você. Você adorou o encarte com desenhos de sacanagem do Carlos Zéfiro. Você não sabia quem era Carlos Zéfiro. Isso foi o princípio do fim!
Monte: Princípio do fim é Magamalabares, acqua marã o parquinho oxaiê. Rum pilé rum é vendaval é ilusão. Arrepio, arrepio, arrepio de pancada, pancada, pancada de arrepio, unheie, ieieieaaaaaa, tundundadatundarundee.
Editor/Chefe/Servidor do site: Já chega Larissa Câmara! Você realmente quer que eu continue lendo isso?
Larissa Câmara: Querido, por favor.
Editor/Chefe/Servidor do site: Você acha inovador usar trechos de música para compor um texto?
Larissa Câmara: Eu…
Editor/Chefe/Servidor do site: Eu fiz uma pergunta e uma pergunta exige uma resposta.
Larissa Câmara: Não… é…
Editor/Chefe/Servidor do site: Ah, não! Incompetente, você não vai responder minha pergunta, grossa! Esse texto está uma porcaria!
Larissa Câmara: (tentando conter a afetação dos que possuem peixes como signo solar) Não precisa me ofender! Eu tinha uma idéia ótima para o final, um ponto de virada…
Editor/Chefe/Servidor do site: Já sei: o casal se beija com furor ao som de Bem Que Se Quis? (gargalha debochando)
Larissa Câmara: (enxugando as lágrimas) Ai, de mim que sou romântica!
Editor/Chefe/Servidor do site: (sem olhar para a Larissa) Isso é Daniela Mercury! (percebendo que ela chora) Ai, como você é pobre, magoada!
Larissa Câmara: (tentando explicar seu momento emocional) Essa semana está sendo muito difícil para mim! A esposa do meu ex-namorado está grávida. Não que eu queira ter filhos. Mas, ela tirou uma foto de biquini no orkut. Ela não tem microvarizes na coxa! Nada humilha mais uma mulher do que a bunda lisa de outra. (muda tom) Vi no jornal que os chineses criam grilos lutadores Um grilo lutador vale cinco mil reais. Meu trabalho vale menos que um grilo chinês. (sofrimento sincero) E tem mais… estou muito abalada desde que… desde que a Dercy Gonçalves morreu!
Editor/Chefe/Servidor do site: Foi um baque! Ninguém esperava!
Larissa Câmara: (em segredo) Eu tenho uma teoria da conspiração. Dercy Gonçalves estava hospitalizada respirando com a ajuda de aparelhos. Alguém desligou o respirador. Nada tira isso da minha cabeça. Tem um serial killer de comediantes solto por aí.
Editor/Chefe/Servidor do site: Interessante. Desenvolva…
FIM
Amor I love You
ps. o autor conseguiu perder todo o seu texto salvo no pen-drive e jura estar tentando recuperar o arquivo. :(
Choque
(primeira parte das desventuras de Verônica)
URSO, o torturador
CATARRENTO, o assistente
VERÔNICA está com seu uniforme de enfermeira amarrada a uma cadeira e vendada. URSO prepara alguns fios desencapados. CATARRENTO o ajuda no que for necessário.
URSO- Você já tomou um choque no olho?
VERÔNICA- Pelo amor de Deus.
URSO- Não ouvi.
VERÔNICA- Juro que não sei de nada.
URSO- Será que eu vou ter que te bater? A pergunta é… quer que eu repita a pergunta?
CATARRENTO- Ele perguntou do olho, se já levou um choque no/
URSO- Catarrento?! Quer fazer você?! Quer dar os choques você?!
CATARRENTO- Me desculpa, seu Urso.
URSO- Catarrento?!
CATARRENTO- O que foi? Estou quieto aqui!
URSO- Seu nariz está escorrendo.
CATARRENTO- Perdão. Perdão. (LIMPA)
URSO- Está vendo, Verônica, que nojento que ele é?
VERÔNICA- Não.
URSO- E choque no olho, já tomou?!
VERÔNICA- Nunca.
CATARRENTO- E nas orelhas?!
URSO- Não atropela, Catarrento, assim você estraga a surpresa.
CATARRENTO- Perdão. Perdão.
URSO- Quer fazer você? Toma aqui os fios. Eu não me importo.
CATARRENTO- Não quero.
URSO- É bom mesmo. Se não for do meu jeito, ninguém toma choque aqui, nem no olho, nem na orelha. Pego minhas coisas e caio fora do barco na maior.
CATARRENTO- O senhor não abandonaria o barco, senhor Urso.
URSO- Na maior! E ainda dou tchauzinho!
VERÔNICA- Por favor… Por favor…
CATARRENTO- O que ela está falando?
URSO- Por favor o quê, Verônica?
VERÔNICA- Eu não escondi arma nenhuma. Nunca fui espiã de nenhum lugar. Você acredita mesmo que eu fiz treinamento ninja? Por favor! Olha o meu estado! Não sei quem inventou isso.
URSO- Algum inimigo teu. Você tem inimigos, Verônica?
CATARRENTO- Agora tem.
URSO- Catarrento, você está sujando o uniforme da moça. Toma um lenço.
CATARRENTO- Perdão. Perdão.
VERÔNICA- Vocês pegaram a pessoa errada. Não fui eu. Juro por tudo.
URSO- Não adianta jurar, menina. A gente descobriu muita coisa sobre você.
CATARRENTO- Até mesmo a sua música preferida.
CATARRENTO coloca uma música da Marisa Monte num som portátil.
URSO- Olha que voz de veludo, que carisma.
CATARRENTO- Eu gosto dela também.
URSO- Não é gostosinha a voz? A melodia?
VERÔNICA- Marisa… Monte?
CATARRENTO- (CANTA) Segue o seco sem sacar que o destino é seco, sem sacar que o espinho é seco sem sacar que seco é o ser só…
VERÔNICA- É a minha preferida… Como vocês..?
URSO dá um choque nas orelhas de VERÔNICA que se debate, a luz falha, a música pára.
URSO- O que foi? Por que a música parou?
CATARRENTO- Foi o choque elétrico. Fez o som pular.
VERÔNICA- Por favor. Tenham piedade…
URSO- Bota a música aí de novo, pangaré!
CATARRENTO- Um segundo só. Pronto.
CATARRENTO coloca a música.
URSO- A Marisa parou de novo. Bota ela pra cantar, Catarrento.
CATARRENTO- Foi mal, chefia. Apertei o play, espera aí…
Quando a música recomeça, VERÔNICA, que estava com a perna livre, dá um chute em CATARRENTO. URSO vai socá-la, mas VERÔNICA se desvia, fica em pé ainda amarrada à cadeira e dá com a cadeira em URSO. ELA consegue se livrar das cordas mas não tira a venda, dá uma surra em CATARRENTO e em URSO finalizando ao enfiar os fios elétricos nos olhos de URSO. Só quando os DOIS estão caídos no chão, ela tira a venda. Respira aliviada, olha a capa do CD.
VERÔNICA- Olha só. Esse da Marisa eu não tenho.
VERÔNICA coloca o CD na caixa e foge dali levando o CD consigo.
CONTINUA…
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