Meu medo tem medo

Menino dormindo. Um espantalho aparece. Ele acorda e vê.

Menino grita.

Menino- Mãeeeeeeeee! Um monstrooooooo!!

Espantalho – Onde? Onde?

Menino – Manhêeeee!

Espantalho – Pô que agudo você tem. Fala mais baixo senão o mostro vai ouvir.

Menino – Você é o monstro.

Espantalho – Eu? Ta doido? Eu to fugindo do monstro há dias, pô!

Menino – E o que você estava fazendo dentro do meu armário?

Espantalho – Me escondendo. Tava debaixo da cama, mas você faz xixi, me molha todo, aí fui para o armário.

Menino – Mas eu pensei que você fosse um monstro.

Espantalho – Por quê? Eu lá tenho cara de monstro.

Menino – Muita! Muita mesmo! Você é um monstro horrendão, muito horrendão mesmo!

Espantalho – Tá bom já entendi.

Menino – Feio demais!

Espantalho – Você também não é lá muito bonito, vai…

Menino – Como assim? Mamãe disse que sou lindo.

Espantalho – Com esse nariz furado?

Menina –Meu nariz não tem furo…

Espantalho – Tem dois e ainda tem outros dois furos na lateral da sua cabeça.

Menino – Isso é a minha orelha!

Espantalho – O nome desse negócio enrolado de com um furo no meio tem nome? Credo que nojo! Se eu tivesse um troço desse colado na minha cabeça não daria nome de jeito nenhum…

Menino – Será que você poderia sair do meu quarto?

Espantalho – Pô, cara, deixa eu ficar aqui um tempo, o monstrengo está atrás de mim!

Menino – Que monstrengo?

Espantalho – Um pingo de água enoooooooorme!!!!

Menino – Seu inimigo é um pingo de água?

Espantalho – Enooooorme!

Menino – Deixa de ser ridículo! Um pingo de água não pode fazer nada com você!

Espantalho – Como não? Você tem idéia do que um pingo gigante pode fazer com a minha palha? Se ele me pegar eu nunca mais volto a ser o que sou.

Menino – Acho que não é verdade.

Espantalho – Como não?

Menino – Acho que a água faz bem para qualquer um até para um monstro como você! Vai lavar a palha e depois volta ao normal.

Espantalho – Nem acho…

Menino – Tenho certeza!

Espantalho – Mas se não for.

Menino – Te dou a minha palavra.

Espantalho – Não tenho coragem.

Menino – Você tem que espantar o medo. Tem que tentar, senão nunca mais vai sair do meu quarto e eu quero dormir.

Espantalho – Tá, vai… vou…

Menino – Boa sorte e feche a porta do armário quando sair.

Espantalho – Tchau!

Menino – Tchau!

Espantalho sai batendo a porta.

Menino – Manhêeeeeeee!

Mãe aparece.

Mãe – Que foi meu filho.

Menino – Eu descobri uma coisa incrível, mãe!

Mãe – O que?

Menino – Que o meu medo… tem medo!!!!

Mãe sorri.

Mãe – Boa noite, meu bem.

Menino se ajeita e dorme.

FIM.

Eu só queria ir ao show do Roberto Carlos

Personagens: Vivi- mulher normal
Binho- homem apavorado.

VIVI: Tchau, meu amor.

BINHO: Aonde você vai?

VIVI: Como aonde eu vou? Esqueceu? (ela canta) “Quando eu estou aqui e vivo esse momento lindo…”

BINHO: Você tem certeza que vai fazer essa loucura?

VIVI: Loucura? Loucura é ficar em casa numa noite mágica como essa. Não é todo o dia que o Rei dar o ar da graça assim. Tchau. (ela abre a porta, mas a porta está trancada) Ué, cadê a minha chave? Meu amor, me empresta a sua chave que eu tô um pouco atrasada, depois eu procura minha.

BINHO: Não posso.

VIVI: O que você não pode?

BINHO: Emprestar a minha chave.

VIVI: Por quê?

BINHO: Porque eu joguei fora.

VIVI: Oi?

BINHO: Eu joguei fora a minha chave.

(ela demora um pouco para compreender)

VIVI: Oi?

BINHO: E as suas também.

VIVI: O quê??

BINHO: Estou salvando você.

VIVI: Binho, vamos parar com essa palhaçada. Agora não é hora para brincadeiras. Abre a porta, por favor.

BINHO: Não dá para abrir, eu joguei fora as chaves.

VIVI: Você não pode estar falando sério.

BINHO: Não tem cabimento você duvidar de mim. Eu sei o que é melhor para você.

VIVI: Aonde está o lixo? Anda!

BINHO: Eu não joguei no lixo, joguei pela janela.

VIVI; O quê? Você jogou a nossa chave pela janela? Eu não acredito nisso, eu não acredito nisso! O que deu em você, homem?

BINHO: Sensatez. A palavra é sensatez. Não vamos mais sair de casa. Não por enquanto.

VIVI: Não por enquanto? O que tá acontecendo com você?

BINHO: Há muito tempo que eu venho pensando nisso. Agora mais do que nunca, eu tenho certeza do que estou fazendo.

VIVI: Amor, é só um show. Foi você que não quis ir comigo. Não fica com ciúmes…

BINHO: Não é ciúmes. É precaução.

VIVI: Que precaução, que precaução?

BINHO: Como que precaução? Você não sabe aonde vive? Você ta cometendo suicídio e não quer que eu faça nada?

VIVI: Suicídio? Olha aqui, se você não gosta do Roberto Carlos, eu respeito. Agora dizer que é suicídio…

BINHO: Não estou falando do Roberto Carlos. Estou falando do show.

VIVI: ah, meu Deus! Do que é que você está falando?

BINHO: Você não pode ir à um lugar com milhares de pessoas. Já pensou na quantidade de vírus loucos para atacar? Já pensou no número de bactérias que se propagarão com toda aquela gente junta? Não, não, é muito arriscado.

VIVI: o quê?!!!

BINHO: Fora bala perdida. Esses lugares são excelentes para assaltos, balas perdidas, arrastão. Eu não deixo você sair. Aqui você vai ficar segura.

VIVI: O que deu em você?

BINHO: Mulher minha não pisa na rua sem o mínimo de segurança.

VIVI: O mínimo de segurança? O que você tá querendo dizer? Virei sua prisioneira?

BINHO: Pelo o contrário. Eu tô te libertando da morte. Porque a gente vive num antro.

(ela espirra)

BINHO: Viu? Viu? Vai se lavar vai. Gripe suína. Você deve ter pegado gripe suína.

VIVI: Eu só espirrei!

(ele pega um spray para o ar e passa em todo lugar.)
VIVI: Eu não tô com gripe suína.

(eles escutam fogos de artifício)

BINHO: Abaixa! Abaixa! Invasão!

VIVI: Invasão?

BINHO: Essa guerra maldita. Eles estão invadindo nossas cassas. Eles vão nos matar.

VIVI: São fogos. Fogos de artifício. Tá tendo festa junina no play.

BINHO: Quem garante? Quem garante? Temos que ficar aqui. Só aqui estaremos salvos.

(o telefone toca)

BINHO: Não atende.

VIVI: Deve ser a Márcia querendo saber se eu já saí.

BINHO: Não, não. Eles sabem que a gente descobriu?

VIVI: Eles quem? Descobriu o quê?

BINHO: Nãos seja ingênua. Eles devem saber que a gente não vai mais compactuar com a essa palhaçada.

VIVI. Ah, meu Deus. Você ficou completamente louco.

BINHO: Louco? O que eles te disseram?

VIVI: Eles quem?

BINHO: Eles, os homens do sistema?

VIVI; Homens do sistema? Quem são os homens do sistema?

BINHO; Eles conversaram com você não é? Eles te convenceram que eu to louco. Como você foi capaz de me expor?

VIVI: Eu não fiz nada.

BINHO: Eles sabem dos meus planos. Fecha a janela.

VIVI: Que plano?

BINHO: Vai. Fecha. Eles devem estar nos vigiando.

VIVI: Chega. Tá demais. Eu vou embora. Deixa eu sair daqui. Você não tá nada bem.

BINHO: Você vai chamar eles, né?

VIVI: Não!Eu não vou chamar. Eu vou ao show, eu só quero ir ao show do Roberto Carlos. Você não pode me impedir.

BINHO: Olha, não adianta. Nada do que você me disser me fará mudar de idéia.

VIVI: Binho. Você tá me assustando muito.

BINHO: Eu sabia que você ia negar. Faz parte, eu fui avisado.

VIVI: Você foi avisado? Com quem você andou conversando?

BINHO: Meu amor, eu sei, você vai descordar. Mas tudo o que eu fizer vai ser para o nosso bem. (ele joga o spray na cara dela, ela fica sem conseguir enxergar)

VIVI: Ai! O que você ta fazendo? Ai!!!

BINHO: Meu amor, eu descobri um lugar maravilhoso, um lugar especial onde poderemos ser felizes longe desse antro que a gente vive.

VIVI: Ah, não! Você andou entrando em sites de sociedades alternativa de novo?

BINHO: Dessa vez a coisa é boa. Eles são super sérios. E eles me preveniram que você ia resistir.

VIVI: Ah, meu Deus! Binho, isso sim é perigoso.

BINHO: Não há perigo na SUFAM: Sociedade Universal Feliz Alternativa Maestrina

VIVI: O quê?!

BINHO: Eles me mandaram uma foto. Olha. (ele pega uma foto de uma casa no campo) Esse lugar, meu amor, é onde vamos morar. Lá não tem televisão e não vamos mais viver a lavagem cerebral que somos submetidos diariamente. Lá as pessoas vivem em comunidade 24 horas por dia. Plantam juntas, comem juntas, dançam juntas, se amam juntas, e eles dão tudo, acomodação, e infra-estrutura básica.

VIVI: Não!!! (chora)

BINHO: Podemos finalmente viver em paz. Longe de todas as mazelas. Não vamos precisaremos mais trabalhar, nem tocar em dinheiro. É maravilhoso!

VIVI: Não!!! (chora)

BINHO: A única coisa que tive que fazer é assinar um documento que passava esse apartamento para eles…

VIVI: O quê? Você passou esse apartamento para eles?

BINHO: A gente vai viver em comunidade, não vai mais precisar dele.

(Vivi começa a passar mal.)

BINHO: Bem que eles me disseram que isso acontecer.

VIVI: Que mais eles disseram? Eles disseram também que você é um otário? Um idiota? Um trouxa, maldito, imbecil?

BINHO: Eles também me disseram que você ia me xingar de tudo quanto é que é nome. Tá vendo? Eles sabem das coisas.

VIVI: AAAAAHHHH!!!!!!

BINHO: Isso. Grita! Bota pra fora. Acabou o nosso medo de viver nessa cidade doida…

VIVI: AAAAAAHHHHHH!!!!!!!!!

BINHO: Viva a SUFAM! Viva a SUFAM!

VIVI: Eu só queria ir ao show do Roberto Carlos!!!!

BINHO: Viva a SUFAM! Viva a SUFAM!

VIVI: AAAAAHHHH!!!!

(ele pega uma garrafa e quebra na cabeça dela)

BINHO: Bem que eles me falaram que ela ia se descontrolar. Meu amor. Não fica braba comigo. Você vai ver o quanto eu tô certo. Quando você acordar já vai estar lá. Eles nos darão uma roupa amarela que vamos passar o resto da nossa vida. Não precisaremos de outras roupas. Não teremos celular também, esse mal que dá cânc
er. Você vai poder plantar no seu jardim. Seremos felizes com pouco. Não teremos mais medo de sair na rua, não seremos assediados por nada. Nada nos incomodará. Dividiremos nosso quarto com mais 20 pessoas. Vamos viver em comunidade. Não precisamos de mais nada! Você vai acordar e vai me agradecer. É tudo por amor.

(ele dá um beijo na testa dele e pega duas malas. Canta)

BINHO: “Viva, viva, a sociedade, universal, feliz, alternativa, maestrina”. Sem medo de ser mais um, vou me doar e dedicar sem medo. Viva, viva a SUFAM! Viva a SUFAM!”

(de repente um tiro. Ele cai no chão)

VIVI: Ainda bem que seu medo fez a gente ter uma arma em casa. “Viva a SUFAM”?
Viva o Roberto Carlos!

(Sai vitoriosa enquanto ele agoniza no chão)

FIM.

O medo e o tempo

escrito para o evento Maio 68, Brasil 2008, dezembro de 2008, caixa cultural.

Uma moça e um rapaz. Algo no cenário e nas roupas sugere que estamos num tempo que já passou. A cena ocupa metade do espaço. A outra metade está apagada.

(tempo)

Moça: Eu estou com medo.

(tempo)

Rapaz: Eu também estou com medo.

(tempo)

Moça: Então.

Rapaz: Então o quê?

(tempo)

Moça: Então não vamos?

Rapaz: Não faz isso.

Moça: Ontem estreou um filme com aquela atriz que eu adoro. Como é o nome dela?

Rapaz: Não faz isso.

Moça: Ela tá com o cabelo curtinho, você viu?

Rapaz: Não faz isso!

Moça: E engravida do demônio, imagina só. (pausa) Dizem que o filme é assustador.

(tempo)

Moça: Como é que pode, né?

Rapaz: O quê?

Moça: Os diferentes tipos de medo. (pausa) Ter medo de uma coisa que aparece na tela. Ter medo de uma coisa que aparece na rua. O medo é tão diferente. Mas duas coisas aparecem ali, na tua frente. Como é que pode?

Rapaz: Ter medo é normal. Você só não pode deixar de ir hoje por causa dele.

Moça: Não é que eu não queira ir.

Rapaz: Oito falas atrás você disse a frase “então não vamos”.

Moça: Eu pensei alto.

Rapaz: Então nós vamos?

(tempo)

Moça: Vamos. (pausa). Mas e se a minha mãe descobre?

Rapaz: Vão ter milhares de pessoas lá.

Moça: Mês passado você foi ao festival.

Rapaz: E daí?

Moça: Também tinham milhares de pessoas e a sua mãe descobriu.

Rapaz: Mas dessa vez é diferente. Vai ter muita gente. Mais de cem mil, estão dizendo.

(tempo)

Moça: Mia Farrow.

Rapaz: Hein?

Moça: O nome dela é Mia Farrow.

Rapaz: Mia Farrow.

Moça: Ela ficou linda com aquele cabelo. (pausa) Eu acho muito arriscado.

Rapaz: Arriscado é não ir.

Outra metade se acende, a primeira se apaga. Outros dois jovens conversando. Eles são mais jovens que o primeiro casal e têm certa semelhança. Mais ingênuos, talvez. Algo no cenário e nas roupas sugere que estamos no presente.

Moça 2: Eu ainda fico com medo.

Rapaz 2: Eu também fico, ué.

Moça 2: Então.

Rapaz 2: Então o quê?

Moça 2: Então não vamos.

Rapaz 2: Pára com isso.

Moça 2: Ontem estreou um filme novo com aquela atriz. Como é o nome dela?

Rapaz 2: Pára com isso.

Moça 2: Ela tá com um cabelão enorme, você viu?

Rapaz 2: Pára!

Moça 2: Eu não quero sair de casa.

(tempo)

Moça 2: Como é que pode, né?

Rapaz 2: O quê?

Moça 2: Esse medo que eu tenho. Faz tanto tempo.

(tempo)

Rapaz 2: Ter medo é normal. Mas você não pode deixar de fazer as coisas por causa dele.

Moça 2: Eu não estou deixando de fazer as coisas.

Rapaz 2: Sete falas atrás você disse a frase “então não vamos”.

Moça 2: Eu pensei alto.

Rapaz2: Então nós vamos?

Moça 2: Não sei, não sei. Eu ainda não to pronta. (pausa). É muito longe. A gente vai voltar tarde.

Rapaz 2: Mês passado você foi àquela festa comigo.

Moça 2: E daí?

Rapaz 2: Também era longe e nada de mais aconteceu.

Moça 2: Mas dessa vez é diferente. Vai ter muita gente. Mais de cem mil, estão dizendo. E eles estão cada vez mais violentos.

Rapaz2: Ficar em casa não vai fazer com que eles fiquem menos violentos.

(tempo)

Moça2: Mira Sorvino.

Rapaz2: Mira Sorvino.

Moça2: O nome da atriz. Ela ficou linda com aquele cabelo. (tempo) Eu ainda sinto muito a falta dele.

Rapaz 2: Eu também. Eu também ainda sinto muito a falta dele.

Outra metade. Num outro ritmo.

Moça: Muita falta.

Rapaz: Eu sei que você sente. Por isso a gente tem que ir.

Moça: Eles estão cada vez mais violentos.

Rapaz: Mais um motivo. Se a gente não for, se a gente não protestar, se a gente não fizer nada, eles vão ficar mais violentos do que eles já estão ficando.

Moça: Mas se a gente for, pode acontecer alguma coisa com a gente. Sair de casa hoje é um risco. E a minha mãe não merece perder outra pessoa.

(tempo)

Rapaz: Você soube de hoje de manhã?

Moça: Não.

Rapaz: No apartamento debaixo do meu.

Moça: O que é que tem?

Rapaz: Tinha um menino que morava lá, lembra?

Moça: Um moreninho?

Rapaz: É.

Moça: O que é que tem?

Rapaz: Foi pego.

Moça: Mas ele tinha uns quinze anos!

Rapaz: E você acha que eles se importam?

Moça: Não é possível.

Rapaz: Desapareceu.

Moça: Movimento estudantil?

Rapaz: Era.

Moça: Eu não acredito.

Rapaz: Parece que ele estava voltando da escola. Aí pegaram ele.

Moça: Ta ficando cada vez pior.

Rapaz: Pois é. Cada vez pior. Pensa nisso que você falou.

Moça: Eu penso.

Rapaz: Pensa que tem muita gente que a gente não conhece que vai passar pela mesma coisa.

Moça: Eu penso.

Rapaz: Pensa que, nesse momento exato, tem um homem chegando em casa, a dois blocos daqui, pra passar a tarde com a família.

Moça: Eu penso.

Rapaz: E que tem um menino, na Tijuca, que está voltando de um dia de aula na escola.

Moça: Eu penso.

Rapaz: Mas se as coisas continuarem desse jeito, esse menino pode acabar que nem o meu vizinho de baixo. (pausa) E esse homem, igual ao seu pai.

(tempo)

Moça: Eu me arrisco.

Outra metade

Moça2: Eu não me arrisco.

Rapaz2: Não é se arriscar. É viver.

Moça2: E tem diferença?

Rapaz2: Claro.

Moça2: Pra mim não.

Rapaz2: Desde quando?

Moça2: Desde que ele morreu.

Rapaz2: Eu fico triste por você pensar desse jeito.

Moça2: É um show na praia.

Rapaz2: E daí?

Moça2: Eu não vou arriscar minha vida cruzando a cidade pra ver um show.

Rapaz2: Não. Você vai viver a sua vida cruzando a cidade pra se divertir.

Moça2: Sair de casa hoje é um risco. E a minha mãe não merece perder outra pessoa.

Rapaz2: Se você não sair de casa, não vir gente na rua, não olhar pra fora, qual é o sentido?

(tempo)

Moça2: Você soube de hoje de manhã?

Rapaz2: Não.

Moça2: O apartamento aqui em frente.

Rapaz2: O que é que tem?

Moça2: Tinha um menininha que morava lá, lembra?

Rapaz2: Uma lourinha?

Moça2: É.

Rapaz2: O que é que tem?

Moça2: Ela morreu.

Rapaz2: Morreu como?

Moça2: Tomou um tiro.

Rapaz2: Tiro?

Moça2: De um policial.

Rapaz2: Ela devia ter uns cinco anos.

Moça2: E você acha que eles se importam?

Rapaz2: Não é possível.

Moça2: Ela estava voltando da escola. Teve um tiroteio e a bala pegou ela.

Rapaz2: Ta ficando cada vez pior.

Moça2 Pois é. Cada vez pior. Pensa nisso que você falou. Pensa que ta ficando cada vez pior. Tem muita gente que a gente não conhece que vai passar pela mesma coisa. Pensa que, nesse momento exato, tem uma mulher chegando em casa, a três quarteirões daqui, pra ligar por namorado. E que tem um menino, na Tijuca, que está voltando de um curso qualquer. Só que essa mulher não vai chegar em casa. Nem o menino vai voltar do curso. Por que os dois vão mo
rrer com um tiro. Igual à menina do apartamento da frente. Igual ao meu irmão.

(tempo)

Moça2: Desculpa, mas eu não me arrisco.

Rapaz1: Que bom. Que bom que você se arrisca.

As duas metades simultaneamente.

Moça1: Você ta certo. A manifestação é importante. Mesmo com a repressão.

Rapaz2: Você ta certa. Um show não vale a pena. Ainda mais com a violência.

(tempo)

As duas juntas

Moça1: O meu pai morreu por um motivo.

Moça2: O meu irmão morreu sem motivo algum.

(tempo)

Moça1: Vamos?

O primeiro casal invade o espaço do segundo e cruza a cena.

Moça2: Vai sair mãe?

Moça1: Vou.

Moça2: Vai pra onde?

Moça1: Pra passeata. Tentar mudar o seu tempo.

Moça 1 e Rapaz 1 saem

(tempo)
O segundo casal fica em casa. Os dois se olham.

Eu tenho medo do palhaço

Tema: Medo

Personagens:

Mamba e Naja: víboras irmãs.

“A serpente está dentro do Homem, é o intestino. Ela tenta, trai e pune.”
Vitor Hugo

(Naja deitada numa cama de hospital Mamba entra levemente ébria)

Mamba – Com licença, dona Naja.

Naja – Olá, querida! Que maravilhoso encontrá-la! Como você está?

Mamba – Estou ótima! E você, absoluta como sempre!

Naja – Você é muito gentil! É impressão minha ou você está com um aspecto renovado?

Mamba – Estou renovadíssima, querida, só o meu queixo custou uma fortuna! (risos)

Naja – Vamos falar sobre negócios.

Mamba – Claro, querida! Eu trouxe o contrato pra você assinar.

Naja – Que contrato?

Mamba – Querida, parece que a anestesia do parto fez efeito no seu cérebro. Depois que papai morreu metade do Circo Gardia é minha e metade é sua.

Naja – Que cabeça a minha… eu realmente não lembrava do contrato. Pensei que você pagaria a divisão dos lucros.

Mamba – Ah, querida. O melhor deve ficar por último. (leva o contrato para Naja) Assine aqui na linha pontilhada. (pega uma garrafa do bolso e bebe um gole). Um brinde!

Naja – Nossa! As letras do contrato são tão pequenas.

Mamba – Para evitar os olhos grandes dos curiosos. É só assinar aqui nessa linha pontilhada. (simpática) Uma gracinha linha pontilhada.

Naja – Eu só vou assinar depois de ler.

Mamba – Você sempre foi metódica.

Naja – Não implique comigo, por favor. Eu acabei de ter um bebê. Estou tão sensível.

Mamba – Ah, querida, me desculpe. O tempo no mundo dos negócios é outro. (pausa) Você agora é mamãe! Parabéns! Eu ia trazer uma lembrancinha para o meu sobrinho… Uma coisa simples… um elefante, um trailer, um globo da morte…

Naja – Você está bêbada?

Mamba – Não. Eu estava treinando cuspir fogo e bebi um pouco de querosene por acidente.

Naja – Ontem você também estava bêbada. Você sabe que o papai não gostava desse seu hábito tão feio. Uma vez papai confessou: se sua irmã continuar bebendo você será a única herdeira do Circo Gardia.

Mamba – Não me ameace! Desde que papai se foi meu sistema está muito nervoso. Você sabe que eu tenho labirintite.

Naja – Você me mata de vergonha!

Mamba – E você matou o papai. Confundiu veneno para rato com orégano. Que golpe baixo.

Naja – Ninguém pode provar nada! Eu sou inocente. Papai morreu num acidente.

Mamba – Eu sei. Fui a única testemunha. Os freios do carro falharam e o airbag do papai não funcionou. Curioso, não? Você passou horas dentro do carro no dia anterior.

Naja – Mentirosa! Você não socorreu o papai.

Mamba – Não pude. Fiquei presa nas ferragens. (pausa) Ah, minha querida, vamos parar de olhar para trás. Agora você deve olhar apenas para a linha pontilhada do contrato.

Naja – Já disse que ainda não terminei de ler.

Mamba – Além de assassina é burra.

Naja – Oi?

Mamba – Nada! Você falou em vergonha, a herdeira do circo Gardia virou mulher do palhaço.

Naja – Dobre a sua língua antes de falar do meu marido.

Mamba – (debochada) Seu marido… Coitado do meu sobrinho… Não tive coragem de olhar para ele fiquei com receio dele parecer com o pai. Aquela cara branca fantasmagórica, um riso grande vermelho demoníaco e quase triste. Eu tenho medo do palhaço! (pausa) Mãe do Bozo!

Naja – Saia daqui! Eu não vou assinar nada. Rainha do vexame.

Mamba – Se você não assinar você vai ver o que é vexame. Vou contar para o seu marido palhaço que seu nome vive em boca de Matilde. E que sua boca vivia roçando o trapezista, o domador, o equilibrista e até o bilheteiro.

Naja – Chega!

Mamba – Eu ainda não acabei eu tenho uma surpresa para você. Ai, como eu sou fofa!

Naja – Ridícula!

Mamba – Shhh! É falta de educação renegar presente. Eu sei… eu sei que filho dá trabalho. Você vai ficar cheia de rugas de preocupação. (tirando uma seringa da bolsa) Tchanananam! Botox! Eu mesma vou aplicar.

Naja – Não toque em mim! Eu vou gritar!

Mamba – Quieta! Ou terei que usar o chicote do González, meu amante domador de tigres africanos.

Naja – Por favor, não me machuque. (aperta o botão. Ouvimos um barulho de sirene e os barulhos de passos das enfermeiras a caminho do quarto de Naja) Você vai ser desmascarada!

Mamba – (com a seringa nas mãos muito calma) Querida, acho melhor você ficar calma. Você tem muitas rugas no pescoço. Se eu aplicar o botox no lugar errado poderá ser fatal. Agora assine na linha pontilhada.

Naja – (chorando assina o contrato) Eu te odeio.

Mamba – Eu te amo! (num golpe espeta a seringa no pescoço da irmã matando-a) Morra como uma víbora!(triunfante) O Circo Gardia é meu! (gargalhada de vilã)

(enfermeiras entram no quarto enquanto Mamba Gargalha luz cai em resistência)
Trevas
FIM

A brincadeira do compasso

Uma noite sombria e tempestade. Morte liga a máquina de fumaça, enquanto Talita e Carine assistem algum desenho animado na TV.

CARINE – Não tem nada de interessante pra fazer nessa cidade.

TALITA – O papa-léguas é uma figura! (SOLTA UMA GARGALHADA)

CARINE – Eu não vejo graça nenhuma nesse pato.

TALITA – Ele não é um pato. O papa-léguas é um… uma… enfim, pato eu sei que ele não é.

CARINE – Daqui a pouco vai passar aquele filme de terror “Ovelha assassina – parte 5”. Podemos assistir juntas.

TALITA – Ah, não! Filme de terror, não! Eu imploro. (E RI COM O DESENHO)

CARINE – A TV está deixando você alienada.

TV sai do ar.

TALITA – Ah, não acredito! Na melhor parte do desenho!

CARINE – Que tal um jogo?

TALITA – Vamos? Eu topo! Tem Banco-Imobiliário!

CARINE – Eu detesto jogos em que eu termino endividada. Já basta a vida!

TALITA – Tem War!

CARINE – War não, que eu não quero perder território pra ninguém. Nem pra minha irmã.

TALITA – Podemos jogar Detetive e Assassino!

CARINE – Como duas pessoas, Talita? Você pisca, eu morro. Eu pisco, você morre. Que idéia!

TALITA – Então eu não sei. Propõe alguma coisa você.

CARINE – Você é muito bobinha. Quero jogar alguma coisa com adrenalina, suspense e morte. (PEGA UM COMPASSO. OLHAR PSICÓTICO) Entende?

TALITA – Quer desenhar? Eu tenho lá no armário aquela caixa de lápis de cor.

CARINE – Nós vamos brincar do compasso.

TALITA – Ah, não. Compasso, não! Por favor! Eu imploro!

CARINE – O que é que tem, maluca!?

TALITA – Dá azar! Eu não gosto de mexer com essas coisas… Todo mundo tem um caso na infância ou conhece alguém que perdeu uma amiga na brincadeira do compasso. Lembra da Inês, aquela menina pobrezinha da minha sala? Ela tava brincando do compasso, pediu autorização pra sair do jogo, o compasso não autorizou e ela foi vendo todos os amiguinhos dela indo embora…. e ela lá, presa na mesa. Até que ela resolveu sair por conta própria…

CARINE – Que ela não é idiota.

TALITA – …daí a Inês foi atropelada e morreu!

CARINE – Agora você vai acreditar que um compasso mata as pessoas?

TALITA – Claro que eu vou!

Raios e trovões.

CARINE – Então eu vou brincar sozinha.

TALITA – Ah, não!

CARINE – Por quê?

TALITA – Porque o compasso não distingue quem está na brincadeira ou não, entendeu? Ele pega quem estiver perto. Tem o caso de uma amiga minha, a Irinéia, que ela…

CARINE – (CORTANDO) Chega, Talita. Eu não quero saber dessas suas amigas pobres e azaradas, não. Vai lá pra cozinha.

TALITA – Vou mesmo. Fazer um bolo pra distrair a cabeça! (PARA O COMPASSO. FAZENDO MÍMICAS) Eu não estou participando. NÃO ESTOU. NÃO! DE JEITO NENHUM.

CARINE – Vai que o compasso confunde nós duas! (GARGALHADA SÁDICA)

Talita sai e Carine faz um ritual de zombaria.

CARINE – Senhor Espírito do Compasso. Proteja a alma de minha irmã, a Talita…

TALITA – (APARECE PUTA) Carine! Não pode falar meu nome! Tá vendo? Agora o compasso já percebeu que eu tô aqui. (SAINDO) Não acredito que você fez isso! Sacanagem, viu?

Talita sai de capa e guarda-chuva, com um copo nas mãos.

TALITA – Já volto.

CARINE – Onde você vai a essa hora da madrugada?

TALITA – Vou ao mercado 24 horas. Acabou o açúcar e eu não vou ficar aqui com esse compasso assassino.

CARINE – Mas você pediu autorização pra sair?

TALITA – Eu não entrei na brincadeira.

CARINE – Ih, mas o compasso não sabia!

TALITA – Claro que sabia, porque eu falei pra ele.

CARINE – Acho que ele não entendeu direito.

TALITA – Eu não acredito! Não acredito! (TENSA) Pergunta aí pra ele se eu posso sair…

CARINE – Tá. Vamos ver. (JOGA O COMPASSO) Não deixou.

TALITA – Como assim, “não deixou”?

CARINE – Ué, não deixou.

TALITA – Avisa que é pra ir ao mercado.

Carine tenta novamente.

CARINE – Compasso, vosso espírito autoriza que Talita saia de casa? (NEGATIVO) Ele está irredutível. Não deixou mesmo.

TALITA – Você está manipulando o jogo que eu sei.

CARINE – Tá bom, Talita. Pode sair. Faz o que você quiser.

TALITA – Eu vou mesmo.

CARINE – Agora, lembra da Inês. Que morreu atropelada.

TALITA (VENCIDA) – Pergunta aí pra ele se eu posso, pelo menos, sair pra pedir um copo de açúcar na vizinha.

CARINE – Na vizinha o compasso liberou.

Talita saindo.

CARINE (FURA O DEDO) – Talita!

TALITA – O que foi?

CARINE – Furei meu dedo!

TALITA – Tá vendo? Eu falei, eu falei. Mas você é teimosa, é assim desde pequena. Espera uma desgraça acontecer pra aprender.

CARINE – O compasso quebrou no meio. Olha só!

TALITA – Minha Nossa-Senhora! Diz a lenda que são 13 anos de azar.

CARINE – Será?

Luz do apartamento acaba.

TALITA – Ah, meu Deus! Cadê o compasso? Joga ele pela janela, pelo amor de Deus! Tem o caso daquela minha amiga, a Judite, coitada… o compasso sumiu dentro da casa dela, no dia seguinte apareceu na cama da Judite…

CARINE – E aí?

TALITA – Ele furou a perna dela inteira!

CARINE – Não tô achando o compasso… e agora?

TALITA – Estamos perdidas! Segura na minha mão e vamos lá na cozinha pegar uma vela.

CARINE – Tá!

TALITA – Você tá segurando meu peito, Carine!

Luz retorna. As duas ofegantes.

TALITA – Só temos uma saída.

CARINE – Qual?

TALITA – O copo.

CARINE – Você vai quebrar o copo na cabeça do compasso?

TALITA – Diz a lenda que a única forma de neutralizar o compasso é com a brincadeira do copo. Porque os espíritos do compasso são de segundo escalão e os espíritos do copo são de primeiro escalão, entendeu?

CARINE – Mais ou menos.

TALITA – Os espíritos do copo mandam nos espíritos do compasso.

CARINE – Não é melhor nós pararmos por aqui? Eu topo jogar Banco Imobiliário, se você quiser.

TALITA (A POSTOS COM O COPO) – Pega uma vela pra mim na cozinha.

Carine sai e retorna com velas e rosas.

TALITA – Que rosas são essas? Isso não é macumba, não!

CARINE – Eu estou um pouco desconfortável com essa situação.

TALITA – Agora que você fez a merda, aguenta. (DIZ UMA PALAVRAS ESQUISITAS) Aruexuexu Amanjubá. Repete comigo, por favor.

JUNTAS – Aruexuexu amanjubá.

TALITA – Tem alguém aí-aí-aí-aí? Com quem eu falo-falo-falo-falo…?

CARINE – Ai, eu não tô me sentindo bem.

TALITA – (CONECTANDO COM O ALÉM) Bárbara?

CARINE – Quem é Bárbara?

TALITA – É um fantasma que ronda esses lugares. Bárbara, comunique-se conosco. Dê um sinal. Você, que no fundo é um espírito bom, um pouco crítico demais, porém muito inteligente, nos permite sair dessa mesa e ir dormir tranquilas?

Silêncio.

TALITA – Bom, quem cala consente.

CARINE (VINDO UM ESPÍRITO) – Hum-hum-mizinfim.

TALITA – O que é isso?

Carine fala como Sadam Hussem.

TALITA – Carine! Volte! Não se entregue, sou eu! Sua irmã!

Carine volta a si.

TALITA – Um espírito obsediador invadiu teu corpo… acho que era o Sadam Hussem, se eu não me engano. Pareceu tão famil
iar. Ou era a vovó?

CARINE – Pede pro copo liberar a gente logo. Não tô me sentindo bem! (INCORPORA) Hum-hum! Vai tomar no cu!

TALITA – Senhores espíritos, rogo que façam alguma coisa porque minha irmã abriu um canal de conexão furado…

CARINE – Filha da puta! (E LEVA UM TAPA NA CARA. VOLTA A SI) Meu Deus do Céu!

TALITA – Tá vendo o que você fez? Já passou um trio elétrico de espíritos aqui na sala!

CARINE – Ih, o copo quebrou. Olha só!

TALITA – Quebrou?

CARINE – E agora? Vou ao banheiro fazer xixi que eu quase mijei nas calças. (SAI E CONVERSA COM A IRMÃ DO BANHEIRO)

TALITA – Estamos fritas! Contra um copo quebrado, apenas a Big-Loura.

CARINE – (APARECE DA PORTA) Big-Loura?

A Morte surge com uma peruca loura.

TALITA – Diz a lenda urbana que existe a Big-Loura, que é uma mulher que fica presa dentro do banheiro com uma criança no colo… então a gente se tranca dentro do banheiro escuro, abre a tampa da privada e repete 7 vezes “Big-Loura”, que ela aparece.

CARINE – E aí? (DE DENTRO DO BANHEIRO)

TALITA – Tinha um amigo meu, o Aldair, a Big-Loura puxou ele pra dentro da privada… mas a Big é espírito Gold, ou seja, ela manda nos espíritos de primeiro escalão. Ela é a única maneira de nos livrarmos dos espíritos do copo que por sua vez vão nos livrar dos espíritos do compasso que por sua vez….

Barulho de descarga e Carine dá um berro no banheiro.