Fé
Como não tinha religião e sempre era recriminada por sua falta de fé e espiritualidade, Rosa resolveu acreditar num par de sapatos velhos que estava esquecido no fundo do armário. Limpou os sapatos cuidadosamente e colocou-os no ponto mais alto da estante da sala. Como num passe de mágica, e devido à localização estratégica, os sapatos castigados pelo tempo pareceram imponentes e soberanos. Como uma divindade. Foi assim que Rosa elegeu um par de sapatos usados como um Deus.
Ao acordar, ainda em jejum, orava para os sapatos fervorosamente. Pedia saúde e proteção. No começo, sentia-se ridícula, mas, com o tempo, se afeiçoou de tal modo pelo par de sapatos que se sentia cada vez mais leve, segura e motivada para enfrentar mais um dia de luta pela sobrevivência. Os sapatos usados eram a sua melhor companhia, o seu apoio.
O curioso é que, desde que se entregou de corpo e alma ao seu novo e inusitado credo, Rosa se tornou uma mulher mais disposta, positiva e amável. Os colegas de trabalho foram os primeiros a perceberem a mudança. Pequenos milagres começaram a acontecer na vida de Rosa. Foi promovida no emprego e, para espanto de muitos, arranjou um namorado. Um rapaz digno, de boa estampa. Secretamente Rosa atribuía tais milagres ao par de sapatos velhos no alto da estante de sua sala.
Rosa não teve dúvidas quando Marlene, sua melhor amiga, apareceu com um diagnóstico sombrio: câncer no seio.
- Você vai ficar curada!
Levou Marlene para o seu apartamento e diante do par de sapatos usados fez um pedido de cura. Mesmo perplexa diante da estranha adoração, Marlene resolveu não questionar. Afinal, tratava-se de um câncer maligno e qualquer ajuda era bem vinda. Meses depois, Marlene, aos prantos, exibia novos exames que constatavam a ausência de tumores no seu seio esquerdo.
- Milagre! Milagre!
A notícia do par de sapatos milagroso se espalhou rapidamente. Pessoas do mundo inteiro seguiram em romaria para o pequeno apartamento quarto e sala de Rosa no Catete. No inicio eram dezenas, depois milhares! Rosa recusava toda oferta de dinheiro e qualquer insinuação para fundar uma igreja ou construir um templo. Até que um dia… Um dia Rosa foi atropelada por um caminhão de mudanças e nunca mais, ninguém, acreditou no par de sapatos velhos.
Fim.
Branco
Vestiu branco. Dos pés à cabeça. Afinal, sexta-feira. Bateu o portão. Saiu de casa todo perfumado, cabelo com goma, cheiro de alfazema que deixava um rastro pra mais de dois metros. Olhou pro céu e pediu a São Pedro não mandar chuva. Ia atrapalhar o fim de semana que prometia ser animado. Andava a passos largos, orgulhoso de sua estampa. De repente, parou. Deu um pulo! Que susto! Não gostou do que viu. Se arrepiou todinho. Gato preto assim de frente era coisa pra tomar cuidado! Se apegou às guias que levava no pescoço como quem se segura a um bote salva-vidas, beijou uma a uma pedindo proteção. Saravá! Bangalô três vezes! Duvidou da própria sorte. Desconjuro! Chegou a pensar em voltar pra casa. Passar a salvo o fim de semana animado. Pensou. Ponderou. Respirou fundo, secou a testa preocupada, com um lenço igualmente branco. Recompôs-se a custo e resolveu seguir andando, embora ressabiado. Ia pelas calçadas esburacadas, cuidando pra não sujar o terno em nenhuma poça que pudesse manchar sua reputação e o linho impecavelmente limpo e bem passado. Não passou por debaixo de nenhuma escada que encontrou pelo caminho. Pediu licença inúmeras vezes, nas várias encruzilhadas, e benzeu-se na porta da Igreja Nossa Senhora da Penha. Tudo pra espantar o mau agouro do danado do gato preto. Parou num boteco pra fazer um ‘esquenta”, antes de ir pra roda de samba em Madureira.
Pediu a aguardente da casa. Antes de meter pra dentro a branquinha, deu o primeiro gole pro Santo, derramando a bebida no chão. Depois bateu em outros copos desejando saúde e saudando São Jorge, seu xará por nome. Sua mãe o batizara assim cumprindo promessa por graça alcançada!
- Salve Jorge! Jorge saudava.
- Salve! Todos respondiam.
Ficou no bar por mais ou menos uma hora. Jorge era homem de muitos amigos, querido em toda a vizinhança. Negro bonito, vaidoso e… Supertiscioso. Tinha suas mandingas, amuletos, fazia simpatias, rezava, batia tambor, acendia velas nos dias santos pra agradecer e fazer pedidos, freqüentava a Igreja e o candomblé, tinha suas manias e cacoetes, era sobretudo um homem de fé. Ultimamente andava cabreiro e atento. Bastante atento. No último jogo a cigana disse que Jorge, mulherengo nato, solteiro convicto, que tinha várias mulheres ao mesmo tempo, enfim, ia sossegar o facho. Estava prestes a encontrar o amor da sua vida, pelo menos foi o que a cigana disse.
Jorge – É mesmo, cigana? Tem certeza? Não é possível…
Cigana – Meu filho, teu jogo tá muito claro. As cartas tão dizendo que tu tá prestes a encontrar a mulher que vai virar tua cabeça. Vai ser paixão de ficar arriado, caído de quatro e mais num posso dizer que essas coisas a gente tem descobrir sozinho. Só te lembra de uma coisa: esteja atento.
Jorge curioso, perguntava: – Mas quem é essa dita cuja? É conhecida, desconhecida, vem de longe?
Cigana – Vem da onde tem que vir. Vai atravessar teu caminho.
Jorge – Mas cigana, como eu vou saber que ela é ela, na hora que eu encontrar?
Cigana - Filho, essas coisas a gente sabe e pronto. Essa mulher vai entrar na tua vida e depois dela teu destino já num é mais teu. Num adianta corrê, num adianta fugir…
E mais a cigana não disse. E Jorge que já era cheio das manias, ficou cabreiro e desconfiado de toda e qualquer mulher que se aproximasse: bonita, feia, magra, gorda, velha, moça, branca, negra… Olhava a todas com a mesma pergunta: Será que é ela?
Bebeu o último gole. Despediu-se dos amigos com tapinhas nas costas, sem muitos apertos, sem muitos abraços, pra não sujar o terno branco. Seguiu seu caminho, feliz da vida por estar indo pra roda de samba em Madureira.
Atravessou a rua. Madalena, uma mulata de parar o trânsito, vinha de um lado, Jorge ia do outro. Ao passar pela morena entortou o pescoço de tal modo que não viu uma bicicleta que vinha em sua direção. A colisão com a bicicleta jogou Jorge para o alto e depois ao chão. Batendo a cabeça. O sangue manchou todo o terno branco de vermelho.
Madalena voltou para acudi-lo. Ela ajoelhou-se no asfalto colocando o acidentado em seu colo, de modo que quando Jorge abriu os olhos, por poucos segundos, a primeira coisa que viu foi a boca carnuda de Madalena sorrindo pra ele. Foi amor à primeira vista. Era ela. Tinha certeza. Madalena abraçou-o como se finalmente o tivesse encontrado.
Jorge lembrou-se do gato preto e da cigana. Devia ter sido mais atento. Ter voltado pra casa. Estaria à salvo àquela hora. Mas aí… Aí não conheceria Madalena, seu grande amor. Uma lágrima escorreu ao mesmo tempo do rosto dos dois. Jorge fechou os olhos e pensou: não adianta correr, não adianta fugir. Segurou firme nas mãos da amada e entregou-lhe seu destino.
Um pouco místico
Janete vai numa vidente.
Janete – Eu vim aqui porque…
Vidente – Tá solteira?
Janete – Também.
Vidente – Desempregada?
Janete – Também.
Vidente – Acima do peso.
Janete – É.
Vidente – Halitose?
Janete – Um pouco.
Vidente – Sim.
Janete – Sim o que?
Vidente – Tô vendo que as coisas estão difíceis pra você.
Janete – Tá vendo?
Vidente – Claro como o vinho.
Janete – O vinho é claro?
Vidente – Vinho rose.
Janete – Eu queria saber…
Vidente – Se vai casar?
Janete – Isso.
Vidente – Se vai ter sucesso profissional.
Janete – Isso.
Vidente – Se vai emagrecer com a dieta da picanha?
Janete – Como a senhora sabe que eu faço a dieta da picanha?
Vidente – Eu faço também.
Janete – Ah…
Vidente – Estou vendo que…
Janete – Vou ser feliz?
Vidente – Vamos por partes.
Janete – Vou arrumar um marido.
Vidente – Vai arrumar um marido sim.
Janete – Quando?
Vidente – No casamento da sua irmã, você vai arrumar o terno do seu cunhado.
Janete – Minha irmã vai casar.
Vidente – Vai.
Janete – Mas a minha irmã tem 7 anos de idade.
Vidente – O tempo passa rápido, num piscar de Lótus.
Janete – Não seria de olhos?
Videntes – O que os olhos vêem o coração não sente.
Janete – E o que a senhora vê pra mim?
Vidente – Vamos por partes.
Janete – Vou arranjar um emprego.
Vidente – Vai sim.
Janete – Vou???
Vidente – Vai arranjar um emprego pra sua irmã com o vizinho.
Janete – O vizinho gato?
Vidente – Não o vizinho velho, gordo, e careca que vai se mudar pro apartamento do vizinho gato.
Janete – Então… nada vai acontecer.
Vidente – Vai.
Janete – Vai?
Vidente – Nada.
Janete triste.
Vidente – Cem reais.
Janete assina o cheque.
Vidente – Coloca o telefone atrás…
Joana sai desvairada pelas ruas, chega em casa e mata a irmã mais nova.
FIM
Místico é bom
(Ela está sentada no café do cinema escrevendo algo em seu caderninho. Ela chegou mais cedo e aproveitou para passar uma ligeira maquiagem . Ele a olha e se encanta. Ele se aproxima, compra uma água e senta na mesa ao lado. Ele a olha. Ela o olha. Ela não sabe o que fazer. Se continua escrever, se dá um sorriso, se olha pra ele. Ele não sabe o que fazer. Se vai até ela, se continua olhando, se desiste.)
Ela: Oi.
Ele: Oi
Ela: Eu não costumo fazer isso.
Ele: O quê?
Ela: Falar “oi” assim pra qualquer um.
Ele: Ainda bem que eu não sou qualquer.
(Ela ri)
Ele: Assim é melhor.
Ela: O quê?
Ele: Você sorrindo.
(Ela sem graça)
Ele: Prazer, André.
Ela: Luana
Ele: Luana. Bonito. Tá esperando alguém?
Ela: Tô.
Ele: Ah, desculpe.
Ela: Uma amiga.
Ele: Que bom.
Ela: E você? Tá sozinho?
Ele: Em que sentido?
Ela: Agora.
Ele: Não.
Ela: Ah, tá…
Ele: Tô com você.
Ela: Oi?
Ele: Não estamos aqui, juntos?
Ela (ri): É verdade. Eu quis dizer se você tá esperando alguém.
Ele: Não.
Ela: Que bom.
(Ele ri)
Ela: Você também fica melhor assim.
Ele: Que bom.
(silêncio)
Ele: Que filme você vai ver?
Ela: Não é um filme. É um documentário.
Ele: O Espelho de Pedra?
Ela: Esse. Você também?
Ele: Puxa, pior que não…
ela: Ah, tá…
Ele: Esse eu já vi. É muito bom…
Ela: Legal.
Ele: Na verdade, eu não vim pra ver nada.
Ela: Não?
Ele: Na verdade, eu te vi escrevendo e achei que esse poderia ser o melhor filme daqui: você escrevendo.
Ela (ri): Nossa, to honrada. O melhor filme daqui… (sorri)
Ele: Pois é…
Ela: Obrigada…
Ele: Pareço que eu sou louco,?
Ela: Não, imagina. Eu até gosto.
Ele: Que bom.
Ela: É meio místico.
Ele: Místico?
Ela: É… místico…
Ele: E isso é bom?
Ela: Muito bom. Nesses dias, é bom.
Ele: Que bom… quer tomar…
Ela: Um vinho?
Ele: … Sim!
Ela: Quero.
Ele: Mas e a sua amiga?
Ela: Ela não vem.
Ele: Não vem?
Ela: Eu tava brincando. Eu não tô esperando ninguém.
Ele: Ah, é?
Ela: É…
Ele: Que bom…
Ela: É…
Ele: Então vamos?
Ela: Aonde?
Ele: Qualquer lugar.
Ela: Qualquer lugar é ótimo.
Valéria: Luana? Luana? Luana!!!
Ela (acordando de um transe): Oi! Val, desculpa, chegou há muito tempo?
Valéria: Cheguei há alguns minutos. Que mundo que você tá?
(Ela olha para o homem a olhando. Não diz nada.)
Ela: Deixa pra lá. Já comprei os ingressos. Vamos?
(Ela guarda seu caderninho. As duas entram na sala de cinema. O homem continua a observando sem também falar nada.)
FIM.
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo