Somente

(Lendo em voz alta) “… Quando eles se encontravam falavam como se estivessem escrevendo uma canção, e todas as noites eram feitas para os dois, cada vez que descobriam seus corpos a lua chorava estrelas para iluminar o crepúsculo…”.
É…Muito bom…Muito bom mesmo… Maravilha! Algo assim…Quando foi meu Deus? Quando? Não pode ser assim tão difícil de lembrar…No meu aniversário? Será? Não… Eu acho que não…Ah! Na viagem para Itália, quando coloquei meus pés em Roma…Foi? Não…Também não, lá não me lembro de…Então já sei, aquela festa, isso! Na festa da Beth, quando a Maitê disse que eu era um…Há! Foi isso foi… A Maitê…Mas, eu acho que lá eu não estava tão…Não foi lá que eu realmente… Não…Meu Deus será tão difícil! Quando foi a última vez que eu…Será que faz tanto tempo assim…Eu lembro que já, mas não lembro como nem com quem… Foi com alguém ou sozinho? Quando foi a última vez que eu… Senti… É senti…É…Sentir…Uma dor…Um amor…Um odor…Não pode ter passado assim tanto tempo, eu gostava tanto…Qualquer coisa me fazia sentir, ter uma sensação era tão fácil…Facílimo! Eu levantava escovava os dentes e lá vinha ela, a sensação…Aquela sensação de frescor…Hálito refrescante…Depois eu abria a janela e ah! Que sentir maravilhoso! Meu “sentir” tinha uma coisa umbigal… Sei lá se isso existe…Umbigal…Peitoral…Estomacal…Dava até medo… Parecia uma bomba-relógio…Eclodia no centro do peito…Um balão…Combustão…Uma loucura! Não é à toa que antigamente achavam que a loucura vinha da região abdominal…É…É isso…Todos os sentimentos estão localizados entre o peito e o baixo ventre, poderia até ser uma grande dor de barriga mal resolvida… Mas era bom… Era…Os sentidos eram cinco… Sentir desmedido, sem sentido…Um sente o perfume, o outro toca a carne morna, o terceiro vê estrelas, então a boca saliva e o ouve-se música…Agora não sei mais…Um analgésico… é isso… Devo ter tomado um analgésico definitivo…Não tem mal estar…Não tem estar…Não tem…Todas aquelas figuras me assaltando diariamente com propagandas felizes, era óbvio que meu o sentir ficaria danificado, tímido…Com tanta felicidade gratuita…Acho que ele percebeu que não teria mais espaço…Mergulhou na depressão…Está tomando Prozac…Passa os dias dormindo…É isso…Meu sentir se tornou prozaquiano… Prozaiquiano…Me abandonou…Agora estou sozinho…Tão sozinho quanto poderia ficar…

O dono das Casas Bahia deve ser muito rico…

Abro os olhos. Estou na cama. Meu teto é branco. A janela está semi-aberta. Eu respiro. Aos poucos vou me dando conta. Vou me dando conta de quem eu sou, onde estou e o que está acontecendo. Fico com medo. Tenho que acordar. Levantar. Preciso reconhecer firma, preciso pagar a conta, preciso pedir emprego, ganhar dinheiro. Minha cama é uma proteção. Os sonhos estavam tão bons. Com que mesmo que eu sonhei? Não me lembro direito. Mas foi bom. Melhor que agora. Por que não quero acordar? Tem gente que dorme na rua e precisa acordar. Eu estou em casa. Por quanto tempo? Tenho que pagar o aluguel. Odeio o sistema aluguel. Moro na propriedade de outro. Preciso trabalhar mais. Quero ter a minha propriedade. Será que sou preguiçoso? Qual é o caminho para se ganhar mais dinheiro? Já ouço os barulhos dos carros lá fora, freadas de ônibus. Muita gente acordou muito mais cedo que eu. O céu está azul. Queria estar na praia. Tem gente na praia agora. Será que são ricos? É possível estar na praia agora e não sentir culpa? As contas. Ah, as contas. Basta estar vivo que elas aparecem. Se me dissessem que ser adulto é tão difícil eu valorizava mais a minha infância. Pior que me disseram, mas eu não acreditei. Queria ser adulto e livre. Livre. Não há maior prisão que ser adulto. Vou andar pelo Leblon e fingir que sou feliz, muito feliz e rico. Olhar o mundo com queixo alto. Sentar num café e ouvir as conversas dos outros. Aqui estou sufocado. Os pensamentos correm e continuo na cama. Eu, eu, e o mundo. Ele não gira em torno de mim. Que medo. Estou paralisado. Tenho fome. Tem café na máquina. É só fazer. Para isso preciso levantar. Não quero. Talvez tomar café na rua. Por outro lado não quero ver ninguém. É tanta gente. A rua é lotada de gente. Quantas almas, quantas vidas. Será que eles sabem que são muitos? É melhor nem saber. Lembro do comercial das Casas Bahia. O dono das Casas Bahia deve ser muito rico. Será que é possível conhecê-lo? Essa cama. Está tão gostosa. Que sono. Dormi tanto e continuo com sono. É o poder do medo. Dizem que passar a vida dormindo é o mesmo que a morte. Mas é tão bom viver sonhando. Será que é isso mesmo? Tem tanta coisa para se conhecer no mundo. Quero me mudar. Vou morar bem longe daqui. Isso não é vida. A cidade me sufoca. Será que as pessoas sabem que estão condenadas? Por que se estressam tanto? Que pressa é essa? Não vejo mais noticiário. O mundo tá acabando e ninguém reparou. Ou finge que não reparou. Ainda existe saída? To péssimo. Péssimo. Pessimista. Eu tô. Também, com tantas contas. Por quê? Tenho que ganhar mais dinheiro. Se eu fosse rico teria esses pensamentos? Hoje tenho a necessidade de ter o que sempre fingi que não queria. Casar, ter filhos e brincar de casinha. Para todos os lados penso numa saída. Vou ler. Nos livros me enterro na imaginação. Que medo. Não quero acordar. Acordado já estou. Não quero levantar. Que medo. Quem me ajuda? Estou tão sozinho. Sozinho e com medo.
Vou no mercado. Não tem nada aqui em casa. Preciso limpar a casa. Vou passar nas Casas Bahia. Não sei pra quê. Pra quê? Pra quê? Ah, cadê minha infância? Crianças não cresçam. A pior infância ainda sim é melhor que a responsabilidade de não ter o nome no Serasa, SPC e outros que inventam para nos aprisionar. Crianças, não tenham cartão de crédito, só se vocês tiverem pais ricos. Ah, ainda existem pais ricos? Eles estão acabando. Estão falindo. Cuidado crianças, não cresçam. Sejam crianças, bebês. Cuidado ao crescerem. Eu continuo deitado. Tenho que ligar para o banco. Tenho que ligar para a operadora de telefone. Preparar meu currículo. Imprimir, reconhecer firma, pagar, pagar, pagar, ligar, pedir, fazer, produzir, me arrumar, tomar banho, levantar. Ainda quero ficar aqui. Tem algo errado comigo. Será? Não é comigo. Não pode ser. Dane-se. Dane-se. Dane-se. Hoje não vou levantar. Vou ficar aqui. Meu pequeno protesto contra a responsabilidade. Dane-se. Vou ficar aqui, sonhando. Quem disse que eu não posso? Eu hoje vou ficar aqui. Sonhando. Depois eu penso. Depois eu sou. Hoje eu fico aqui. É tão bom sonhar. O dono das Casas Bahia deve ser muito rico…

All by myself

http://www.youtube.com/watch?v=0D0zfB1l1x0

Estou falando sozinho?

Um manifesto romântico, apaixonado – por vezes, radical – mas muito sincero.

Prezados atores, diretores, autores e produtores de teatro

Não vamos mais pedir esmola.

Estou com meus vinte e poucos anos e se tivesse que fazer um relato de como se encontra o teatro carioca no ano de 2009, não colocaria a culpa no governo, não colocaria a culpa nos empresários, sequer colocaria a culpa nas emissoras de TV.

A culpa, desconfio e lamento, é do próprio “povo do teatro”.

Era uma vez um povo que acostumou-se a trabalhar de graça, a pedir esmola, a ser submisso. Um povo que foi domesticado a receber sempre com muita gratidão e humildade aquele apoio ou aquele patrocínio, o prato de comida na noite de estréia, um desconto camarada durante a temporada. Infelizmente, esse povo que trabalha (e muito!), acostumou-se a se nivelar por baixo.

Era uma vez um monte de gente jovem, com seus vinte e poucos anos, vinte e poucas primaveras de sonhos, utopias e necessidades de transformar o mundo. Essa é a história de um povo criativo, bastante egocêntrico mas muito criativo, que nasceu inspirado a interpretar nossa existência e mostrar para o restante do “povo comum” que nas entrelinhas da vida existe drama, existe fantasia e que o nosso combustível é o conflito.

Gostaria de contar para vocês a história de um povo apaixonado pelo que faz. Que tem dificuldade em enxergar na própria profissão um trabalho, que sobe no palco pela primeira vez cheio de ideologias e discursos prontos, que sente-se ofendido e/ou surpreso quando é pago pelo que faz.

É a fábula de um povo muito bacana e gentil que não deixa de prestigiar os amigos. De um povo que lota todos os teatros e que mesmo sabendo das dificuldades em se levantar um espetáculo, criou o “convite amigo”. Para que ele próprio, o “povo do teatro”, não reconheça o valor de seu trabalho. Ou para que não enfrente o pior dos pesadelos: uma platéia vazia.

O povo do teatro quer trabalhar a todo custo. Não por compulsão ou doença, mas por uma necessidade política muito fundamental do ser humano: a vontade incontrolável de falar. De compartilhar. Alguns consideram-se mais especiais que os outros e ao invés da generosidade, disseminam vaidade. Outros, por não se sentirem tão importantes assim, por falta de vaidade, desistem no meio do caminho.

Quantos de vocês não conhecem alguém que ficou para trás? Quantos de nós já não pensamos em desistir? Quantos talentos promissores não foram desperdiçados, quantas possibilidades não foram devastadas pela nossa falta de postura e união? Quantas almas criativas não foram enterradas diante da desesperadora e justa necessidade de chegarmos aos 30, 35 anos com um pouquinho de qualidade de vida?

O povo do teatro é um povo muito egoista. Porque ele aceita qualquer coisa, porque ele acostumou-se a produzir com o medo de não fechar as portas, de não perder os contatos, de não “se queimar”. No entanto, infelizmente, os maiores sacrificados são os próprios artistas.

Os atores, a ALMA de qualquer espetáculo, e que exceto o público são a única presença verdadeiramente indispensável para que o teatro aconteça são os últimos a receber. Mas a culpa não é dos produtores. A culpa é dos próprios atores, que topam fazer qualquer peça de graça. Porque eles só querem trabalhar, uma justificativa sincera e legítima. Para cada ator que cobra pelo seu trabalho, existem outros 99 que fazem o mesmo trabalho de graça. Então aquele bendito sobrevivente que não aceita ser pago com um processo, salvos alguns casos, se vê obrigado a aderir e trabalhar de graça também. A estatística é cruel: se ele cobra, os outros noventa e nove atores farão de graça. Nesta constatação não existe julgamento de valores, existe apenas a triste realidade de uma classe que não se empenha para ser valorizada. Estes mesmos 99 atores aceitarão, sem muita dificuldade, serem os últimos do processo a receber.

Vou apresentar a vocês o “povo da música”. Dizem que eles só entram no processo quando existe dinheiro. Assim como o “povo da técnica”, aquele povo responsável por operar o som que embala os atores ou a luz que não os deixará no escuro. O povo da música, quando trabalha de graça, exige no mínimo um instrumento para ser tocado. Os atores não. Eles aceitam ensaiar sem espaço adequado, aceitam ensaiar sem os objetos de cena, os atores aceitam não receber. Os atores aceitam. Aceitarão, no futuro, as indicações de alguns diretores despropositados que não sabem o que estão fazendo. Então alguns atores sentirão-se ofendidos ao ler estes parágrafos e vão alegar como defesa seu amor pela profissão. Mas cadê o amor-próprio?

Já o “povo da dramaturgia”, os autores, pobre coitados, antes mesmo dos atores, são os primeiros a trabalhar. Também aceitam escrever de graça e perdem o seu tempo com peças que jamais serão encenadas. A lógica é óbvia e cruel: se não existe dinheiro para pagar um dramaturgo, dificilmente existirá dinheiro para produzir. E então chegamos aos produtores, que hoje transformaram-se na menina dos olhos de qualquer um que se aventure e ouse a pisar num palco. E nessa busca desesperada, nos deparamos com tudo. Com alguns picaretas que se dizem produtores e outros tantos que são apenas treinados a descolar um contato, a fazer uma amizade, a convencer o empresário que o projeto é bom e merece ser patrocinado, a convencer o governo que existe uma contrapartida social. Se você pensa que um projeto leva 90 dias para ser aprovado na lei, conheça um produtor com um bom contato em Brasília e você verá, como realismo fantástico, o prazo ser reduzido a quase um terço.

Para não dizerem que esqueci dos cenógrafos e figurinistas, talvez a frase que eles mais tem ouvido nos últimos anos é que “tudo deve caber numa mala”. Nosso teatro se resume a uma mala, com toda a ironia e juízo de valores que a palavra carrega. Teatro hoje é um fardo. É uma mala que provavelmente será saqueada no meio do caminho por algum produtor local de má fé que vai roubar no borderô.

Poucos, pouquíssimos dentre os inúmeros cidadãos do povo teatro, terão a sorte de trabalhar com um contrato ou carteira assinada. Esqueça o talento e a sorte. O mundo funciona através dos contatos. A vocação é a única segurança que nos dará a certeza que não vamos desistir antes mesmo de tentarmos algumas centenas de vezes. Mesmo assim, e este não é um manifesto pessimista, quantos artistas anônimos transbordando de talento, mas cheios de falta de sorte, não morrerão sem viver o calor de uma temporada cheia?

Aceitar é um verbo anti-teatral por princípio. É um verbo que acaba com o conflito. E o que percebemos, angustiados com o povo do teatro, é que temos aceitado tudo com medo, com receio de não trabalhar mais. Quando me formei na UFRJ, fiquei revoltado com a postura de alguns dos meus colegas formandos, que aceitavam que nossa verba de míseros mil e quinhentos reais só fosse liberada em cima da hora, sem tempo hábil para produzirmos as peças. Era inconcebivel e incompatível com a minha realidade tirar essa grana do bolso e ser ressarcido depois. Ou eu deixaria de comer para fazer o espetáculo. Briguei, chamei a atenção e agora, no mercado profissional, a postura é exatamente a mesma. Mas em proporções muito maiores e desesperadoras. Quem pode tirar 100 mil da conta e ser pago depois pela empresa patrocinadora?

Quantos de nós ousamos tocar neste assunto, uma questão absolutamente conhecida de todos, mas sempre abafada pelo medo de ficarmos queimados no mercado? Nas metáforas usadas para falarmos do povo do teatro, nosso palco parece ter se transformado numa rua sem saída.

Povo do teatro! Não vamos aceitar trabalhar e sermos pagos apenas seis meses depois! Não vamos trabalhar por um prato de comida nem por um pedaço de pano. Não
vamos nos deixar levar pela promessa de pagar nossas contas de janeiro apenas em abril. Ou então, prezado povo do teatro, vamos aceitar a miséria que transformou-se a nossa profissão e parar de reclamar. Vamos reforçar a postura que nossa profissão não é profissão e que uma empresa que patrocina nosso trabalho nos faz apenas um favor, um ato de caridade. Nunca foi tão emblemático gritarmos “Merda!” antes de cada apresentação.

Todos, exceto o povo do teatro, enxergam que nosso mercado de atuação é obscuro e que formalmente não existe. Primeiro porque qualquer um se acha no direito de ser ator. Qualquer um se considera genial o bastante para escrever ou dirigir um espetáculo. Nesta tragédia não falamos de talento nem de vocação, apenas de respeito com os colegas de profissão. Não existe médico que possa exercer suas funções sem antes estudar muito. Poderia ser diferente conosco, mas nós preferimos que seja assim. A culpa é nossa.

Nós preferimos nos debruçar sobre idéias estapafúrdias e conceitos mirabolantes para criar projetos impecáveis, para disputar editais com propostas de orçamentos altíssimas e que em sua realização resumem-se a uma estética que impera no teatro carioca: palco vazio e um banquinho de madeira. Como é que um espetáculo que recebe 100 mil estréia assim? A resposta, todos nós sabemos, é óbvia. O dinheiro é destinado a pagar os profissionais. E pagar mal. O orçamento fica apertado e assim sobra muito pouco para o projeto em si, que volta a ser um paupérimo banquinho de madeira. Os cariocas levaram Grotowisk muito à sério.

É triste e às vezes desesperador tentar sobreviver numa realidade assim. O povo do teatro é assombrado pelo fantasma da desistência. Nossa postura com o trabalho só cria mais tensão, mais ansiedade e mais frustrações. Projetos muito bacanas morrem antes mesmo de chegarem ao público, seus artistas desistem da profissão e temos que nos render, abrindo todas as concessões, para atrair a atenção da platéia.

Quando digo que não devemos mais trabalhar de graça, é para que justamente quando isso acontecer o respeito com nossa profissão seja ainda maior. “Fulano não trabalha de graça pra ninguém, mas está trabalhando comigo”. Assim, você trabalha de graça pra mim, em troca em trabalharei de graça pra você. Esse tipo de relação valoriza as pessoas, o tempo de cada um. Se não podemos criar um piso salarial de uma hora pra outra, vamos priorizar algum tipo de critério. Quando associam nosso trabalho ao feudalismo, infelizmente, estão cobertos de razão. Nós e só nós vivemos num sistema de trocas de séculos atrás.

Podemos ser pagos de diversas maneiras: com um processo rico em aprendizado, com colegas de profissão interessantes, com autopromoção, com egos inflamados. Mas esqueçamos tudo isso e vamos falar de dinheiro. Artistas, vamos falar de dinheiro! Vamos aprender a cobrar. Não vivemos de escambo nem de mecenato. Vivemos numa sociedade capitalista que agrega valor a tudo e que considera todo trabalho um produto. Hoje o artista é um comerciante e não pode negar isso. Caso contrário, quem é radicalmente contra esse pensamento, não cobre um centavo do público para assistí-lo. E ignore o fato que todas as contas tem um dia de vencimento.

A culpa é nossa.

Por falta de união, por excesso de crítica ao trabalho dos colegas de profissão, por excesso de assistencialismo, por excesso de vaidade e individualismo, nós estamos matando nossas possibilidades de trabalhar. Nos tornamos seres humanos covardes que abrem mão de seu posicionamento político por um prato de comida na pizzaria. Nos tornamos invejosos e recalcados com quem trabalha na TV e é pago, às vezes muito bem pago, pra isso. Nos tornamos uma classe desesperada que perdeu a classe, que perdeu a fineza de se colocar de igual pra igual com um patrocinador.

Quando se é jovem, quando não se é ninguém, é muito bom desfrutar da importância de ser “desimportante”. De não levar os discursos tão à sério e enxergar por trás de um manifesto apaixonado e radical, cheio de inconsequências, de desmedidas, um suspiro de sinceridade. E carinho, muito carinho, com esse tal “povo do teatro”. Afinal, se nem todos são do teatro, todos nós somos o povo.

Assumir todo esse desconforto é uma maneira de dizer que o teatro faliu. Mas também é uma forma de afirmar, sempre de maneira positiva e sem nunca perder a esperança, que o teatro também não morre jamais. Ele só morre quando morrem as pessoas. E felizmente outras pessoas nascem. E não há mal mais aniquilador de que um teatro coletivo e desunido, feito sem vida, um teatro sustentado por mortos-vivos que aceitam e por consequência matam o conflito.

Este é o meu monólogo mais sincero. É a história do único povo do mundo que passa fome para alimentar a alma dos outros.

Felipe Barenco também trabalha de graça.

Sonhos poema número 2


monólogo para Adriana Calcanhoto, marcando o compasso constante no atrito do seu sapato com a plataforma.

Sonhos poema número 2.

sonho de Júlia Marini: Ter filhinhos.

sonho do Salvador Dalí: Um relógio derretendo no deserto.

sonhos do Peninha: regravado magistralmente por Marisa Monte em 88.

sonho oriental: Uma coleção de sonhos íntimos do diretor Akira Kurosawa.

sonho de noiva: empresa sólida no ramo de aluguel e venda de trajes, em Blumenau.

sonho animado: o nome de um dos ursinhos carinhosos.

sonho macabro: provocações de Freddy Krueger.

sonho por Jung: forma própria do inconsciente de se expressar.

sonho perdido: a derrota do Gabeira nas eleições do Rio.

sonho da infância: tardes bucólicas pelas ruas de Madrid.

sonho caro: conhecer as Pirâmides do Egito.

sonho barato: R$ 1,50 na padaria Santo Amaro.

sonho do Drete: ser cantor de axé.

sonho de verão: filme dos anos 90 com as Paquitas e o Sérgio Malandro.

sonho de valsa: concorrente do serenata de amor.

sonho maluco: quadro do Viva Noite programa do Gugu Liberato, no qual fã realiza fantasias com seu ídolo.

sonho confuso: enredo de Alice no país das Maravilhas.

sonho de miss: a paz mundial.

sonho do rato: matar o gato.

sonho do Lynch: encaixotando Helena.

sonho dourado: letra do Toquinho.

sonho de uma noite de verão: teve a montagem do “Nós do Morro”.

sonho de Strindberg: teve a montagem da Unirio.

sonho da cobra: ser pente. entendeu? hahaha serpente! hahaha ser pente. quer que eu repita? hahahhaa

sonho que eu tive hoje a noite: alguma coisa com porta, morango, avestruz…

sonho de consumo: hum………isso não conto, é segredo.

Heroína solitária

se quiser trilha sonora, abra o link abaixo em outra janela:
http://songza.com/z/6b6zv8

ELIZABETH, solitária em sua cápsula espacial, luta desajeitada contra um gravador.

ELIZABETH – Como é que funciona essa porcaria?… Nessas horas é que um homem faz tanta falta…

ELA consegue apertar o botão para gravar.

ELIZABETH – Um, dois, três, testando… Alô… Alô…

ELA aperta outro botão e ouve sua voz em OFF

ELIZABETH (OFF) – Um, dois, três, testando… Alô… Alô…

ELIZABETH – Graças a Deus! Vamos lá.

ELA aperta de novo o botão de gravar.

ELIZABETH – (INFORMATIVA) Aqui quem fala é Elizabeth, são quatro e trinta da manhã, horário de Brasília, do dia nove de junho de 3008, se você estiver ouvindo isso provavelmente já estarei morta. Na verdade sei que orelhas terráqueas não podem mais me escutar, (SONHADORA) sabe lá como reagirão outras formas de vida ao ouvirem os ruídos incompreensíveis desse meu desabafo. Mesmo assim, prossigo. (SECA) Como descrever a solidão devastadora que sinto, anulada, perdida nessa cápsula de sobrevivência? (SAUDOSA) Tudo começou com um acampamento aparentemente inofensivo. Cabanas à beira de um belíssimo lago. Fomos eu e minhas queridas amigas, a Tina, a Âmber, e também o Charles, um carinha que eu estava paquerando. (DESILUDIDA) Qual não foi minha surpresa ao encontrar Âmber no banheiro do acampamento com um machado cravado na testa. Tina tomou uma flechada nas costas e seu corpo foi atirado pela janela cabana adentro a fim de me aterrorizar. Charles estava fincado do lado de fora da porta, seus belos olhos azuis não estavam mais lá. (TENSA) Logo me vi sem ninguém, meu primeiro grande momento de solidão, sendo atacada brutalmente por um assassino mascarado que se recusava a morrer. (AFLITA) Facas voavam em minha direção, espetos, peixeiras, arpões, lâminas mil. (MAIS CALMA) Que triste a ilusão da vitória quando consegui cortar a cabeça do implacável matador com uma serra elétrica. Voltei depressa ao Rio de Janeiro, desamparada, meus melhores amigos tinham ficado pra trás. Me deparei com minha querida cidade infestada por pernilongos mutantes, gigantescos aedes-aegipty, tão temidos no milênio passado ainda pequeninos, agora do tamanho de mamutes graças ao eterno descaso das autoridades. Papai morreu empalado no ferrão de uma dessas odiosas criaturas. Minha irmã sofreu apenas um arranhão, mas depois de cinco minutos faleceu tomada por uma dengue alucinante. Mamãe se afogou no naufrágio da balsa tentando escapar pra Niterói. Decidi fugir pra São Paulo, dizem que também votam mal por lá, mas parecia não ter tanto mosquito. Tinham acabado de lançar no mercado um estranho hidratante prometendo eliminar qualquer ruguinha. Só que as madames já saiam do shopping onde haviam experimentado o tal cosmético transformadas em zumbis. Na condição de morto-vivas, só podiam se alimentar de cachorro-quente ou cérebro humano. Em poucas horas acabou o estoque de salsichas e as macabras caíram sedentas nos miolos da escassa população que não fora contaminada. Roubei um lança-chamas numa loja de artigos de segunda mão e taquei fogo nas paulistas, defendendo minha vida daquelas dentadas o quanto pude. Na última das barricadas, conheci Plínio. (SAUDOSA) Um homem de encher os olhos. Quarenta anos ou mais, um pouco grisalho, braços fortes. Salvou minha vida três vezes. Ele me jogou pra dentro de sua picape vermelha e tocamos pra Brasília enquanto nosso companheiros eram dizimados. (TORCE O NARIZ) Brasília já não era mais aquela ensolarada capital. Uma nuvem negra se instalou pela cidade toda, lá nunca mais foi dia. As ruas rapidamente se povoaram de vampiros. (TRISTE) Um deles me levou Plínio. O outro me fudeu a picape. Rasgou os pneus com suas unhas postiças. Um terceiro me arrancou as roupas enquanto tentava me morder. Lá estava eu correndo nua pela Praça dos Três Poderes sendo caçada por vampiros de terno. (REVELA) Corri pra lá porque sabia que o prato encima do Congresso Nacional não era só uma piração do Niemeyer. (VITORIOSA) Aquela calota monumental era uma nave espacial secreta, Plínio havia me contado! Foi pra lá que eu fui, na ânsia de salvar minha pele! (CONFIANTE) Era fato, o planeta Terra estava com os dias contados. Consegui embarcar, outros seis tripulantes me esperavam ali, escondidos dos sanguessugas, mas nenhum deles sabia pilotar a nave. Plínio havia me dado um manual de instruções sujo de sangue. (ETÉREA) Decolamos dali e minutos depois vimos nossa querida Terra se esfacelar num jato de luz. (SEGREDA) Olhei para o mais jeitosinho da tripulação e fui logo dar em cima. Éramos nós sete os últimos seres humanos e eu não pretendia ficar pra titia. O nome dele era Mauricio. Até que não era de se jogar fora, um sorriso bonito, sabe? (EXAUSTA) Mas ele encontrou um grande ovo gosmento na fuselagem da nave, de lá saíram tentáculos que se colaram em seu rosto. (SINISTRA) Conseguimos desgrudar aquela nojeira da cara dele mas já não era mais o mesmo Maurício de antes. Horas depois uma lagartixa cabeçuda surgiu de seu tórax espatifando suas costelas. (IMERSA EM SUA DOR) Enquanto o monstrinho fugia de nós pude ver o coração de Maurício parando de bater por mim. Pra nosso assombro, o bichinho esquisito cresceu e foi matando os outros tripulantes um a um. Quando fiquei sozinha com o aliem abri a porta da nave. O vácuo fez o serviço, arrancou dali pra fora os corpos de Maurício e dos outros, os ímãs da geladeira e o monstro assassino também, e com isso tudo também minhas esperanças foram ejetadas pro espaço sideral. (APOCALÍPTICA) Agora estamos sós, eu e meus óvulos. A última mulher, cruzando o espaço sem rumo, fugida da Terra extinta. (PAUSA) É isso. (PAUSA) Eu só queria deixar aqui registrado. (PAUSA) Então tá. (PAUSA) Como é que se desliga isso?

ELIZABETH aperta um botão.

ELIZABETH – E agora pra ouvir? Como era mesmo?

ELIZABETH tenta alguns botões sem sucesso.

ELIZABETH – Por que não vai, meu Deus? O que aconteceu? Puta merda, será que não gravou? Nessas horas é que um homem faz falta.

FIM…

Amélia

AMÉLIA- Sim senhora. Tenho plena consciência de que matei meu marido… Sim, senhora. Lembro-me de tudo perfeitamente… bem, quase tudo, como se fosse ontem… Ele estava sentado na poltrona lendo jornal e foi buscar um café na cozinha. O martelo eu achei na caixa de ferramentas. Quando ele foi apanhar a xícara, eu o acertei aqui, ó. (Aponta para sua cabeça num lugar um pouco acima da nuca.) Ele tremeu e soltou um gemido baixo, como se engolisse alguma coisa. Fiquei imaginando se ele estaria com algo na boca. Não, impossível. Ele tinha acabado de entrar na cozinha para pegar o café, não tinha tempo de ter catado nada para mastigar, eu o estava observando na sala e também não havia nenhuma comida ali e meu marido não mascava chicletes. Fiquei imaginando, então, se não teria engolido a própria língua. Logo vi que não, pois ele se virou berrando meu nome… (Informativa, para a platéia.) Amélia… eu me chamo Amélia. (Novo tom.) Foi aí que eu acertei na testa, bem aqui. (Aponta para a própria testa.) Fez um som tão engraçado, como uma vez quando eu e minha irmã estávamos debaixo de uma mangueira, e uma manga caiu bem do lado da minha irmã. A senhora acredita que a manga quase acertou a minha irmã? Por pouco que… (Pausa.) Foi sim um som bem engraçado, como um ploft, pleft, sei lá. Mais não pensei muito nisso não, por que logo vi o sangue. Fazia tempo que eu não via sangue. No meu parto, eu não vi sangue, foi cesariana sabe, não vi nada, não senti nada, até estava muito bem quando acordei, apesar da complicação, estava muito bem, queria muito ver a minha… ver Sofia. (Pausa.) Mas então, o sangue, bem, quando eu era pequena, eu desmaiava quando via sangue, imaginem! Mas eu não desmaiei não. Vi um traço de sangue escorrer rapidamente pelo rosto de meu falecido Arnaldo. Assim (mostra com o dedo sobre o rosto) pelo lado direito. A senhora não sabe como me chamou a atenção o fato da camisa que Arnaldo estava usando, muito branca e muito bem passada, impecável para falar a verdade, se tem uma coisa que eu sei fazer, senhora, é engomar uma camisa de maneira correta, difícil de se achar por aí, uma esposa que engome uma camisa tão bem como eu. Arnaldo se orgulhava muito… Bem, o fato era que a camisa branca de Arnaldo, muito branca devo dizer, ficou completamente vermelha do lado direito. Em poucos segundos, eu não havia nem dado a quinta martelada nele senhora, sua camisa estava pela metade vermelha, um vermelho muito vivo por sinal, um sangue claro, e a outra metade, branca. Logo depois, eu viria a dar-lhe a quinta martelada. Quinta? É isso? Deixe eu me lembrar, senhora, deixa ver, uma, duas, três… Isso mesmo, foi na quinta, ou sexta, que o sangue de meu marido espirrou em meu rosto. Senhora, devo confessar que sou uma mulher muito controlada. Raramente perco a minha paciência, e estava muito calma até o momento. Mas quando senti o sangue de Arnaldo no meu rosto, me senti ofendida e até um pouco frustrada. E aqueles gritos me incomodavam tanto! Por Deus estavam realmente começando a me incomodar. Foi por isso senhora, que a sexta martelada, ou sétima, foi certeira em sua mandíbula (faz o movimento como se acertasse um alvo imaginário pelo lado). O rosto de Arnaldo se contorceu de dor, ou seria apenas efeito dos ossos se partindo? Não sei. Talvez ele nem estivesse sentindo nada, não é mesmo, senhora? Dizem que quando a dor é muito grande… Bem, parar de gritar, ele parou, só gemia um pouquinho, mas agora diferente, como se estivesse se engasgando, meio que tossindo. Eu pensei “como Arnaldo é frágil, ele sempre foi um rapaz sensível”. Ele sempre foi muito sensível. Um rapaz sensível. Minhas amigas cochichavam pelos corredores na hora do recreio. “Nossa, esse namorado da Amélia é mesmo um rapazote sensível! Hi hi hi.” Eu não entendia bem, até que um dia eu comecei a entender. Não concordava, tentava me enganar, mas agora me vejo forçada a aderir a esta idéia de minhas antigas colegas. E não é que elas sempre estiveram certas, senhora? Como esse mundo dá voltas. Nunca iria imaginar que um dia eu reconheceria para mim mesma que aquelas meninas afetadas com as quais eu andava, as vezes, estavam com a razão? Eram afetadas sim senhora! Afetadíssimas, exibidas. Se achavam o máximo, e esbanjavam dinheiro. Eu nunca, senhora, mas andava com elas as vezes sim, o que é que tem? Uma delas, certa vez, até me alertou e foi mais direta. Quando voltávamos para casa, ela me disse “Amélia, toma cuidado com esse teu namorado que ele é meio… estranho (faz um gesto efeminado com a mão). Dei-lhe um soco na cara. Dei sim. Ela falou do meu Arnaldo e eu lhe enfiei a mão na cara. Caiu na lama e ficou chorando, nunca mais falou comigo, mas quem liga, não é mesmo? Eu não ligo, penso que a senhora também não ligue. A senhora parece ser uma mulher de fibra. Eu mesma me considero uma mulher de fibra. Deixei minha ex-amiga na lama chorando, sem o menor remorso. Imagina se ela me visse dando as marteladas em Arnaldo, ia falar no meu ouvido, bem baixinho “Eu não te disse? Eu não te disse? Olha só, o viadinho todo ensopado de sangue! Muito bem Amélia! É assim que se faz! Mostra para ele, Amélia!”. Sabe senhora, eu podia jurar que ouvi a minha amiga murmurando no meu ouvido essa hora. Uma voz esganiçada “ Eu não te disse? Eu não te disse?”. É, porque depois da oitava martelada, eu não lembro de muita coisa. Minha mente voou, voou, para bem longe dali. Vi o rosto dessa minha amiga, sorrindo perversa e toda suja de lama. Vi o rosto de minha mãe, tão triste e sozinha antes de morrer, vi o rosto de minha filha, minha linda Sofia. Linda! Tão parecida comigo mesma. Quando voltei a mim, Arnaldo já não existia mais. Quer dizer, seu corpo estava lá, seus braços e pernas, mas sua cabeça era agora uma enorme mancha que escorria pelo ralo da cozinha…