2 em 1
Ana: Vô, que história é essa do senhor ser prostituto?
Avô: Então você já soube…
Ana: Então é verdade…
Avô: Preconceito?
Ana: Vergonha!
Avô: Sou dono do meu nariz!
Ana: Um homem velho se prestando a esse papel! Cadê a vergonha na cara?
Avô: Saiba você que tenho muitos motivos!
Ana: O senhor perdeu a cabeça? Respeite a memória da Vovó!
Avô: Sua avó morreu faz tempo! Nessa hora não tem nem farelo do osso.
Ana: Interno o senhor no asilo! Digo que está maluco! Confisco seus bens!
Avô: Qual é o problema de eu estar me prostituindo? Não faço nada de mal com ninguém… As clientes gostam. Sou um diferencial no mercado!
Ana: Pára! Estou ficando enjoada com tudo isso…
Avô: Mas saiba você que foi com a grana da minha prostituição que paguei a festa do seu casamento!
Ana: Não repita isso!
Avô: Casou com dinheiro do puto!
Ana: Não quero ouvir!
Avô: Entrou na igreja às custas do meu suor na cama de terceiros!!!!
Ana: Um homem velho!
Avô: Casou graças ao mercado da carne!
Ana: Cala boca!!!! Cala boca!!!
Avô: Seu avô é um garanhão putanheiro!!!!
(Ana sente fortes dores no peito)
Avô: Ana! Ana!
Ana: (ferida por um ataque cardíaco) Olha o que você fez, velho…
Avô: (com a neta no colo) Ana! Respira, Ana! Vou procurar ajuda!
Ana: Velho!!! Você me matou…
Avô: Cadê o telefone…?
Ana: Velho maldito…! Prostituto!
Avô: (ao pé do ouvido da neta) Pode deixar, querida… Eu pago o seu enterro com o dinheiro da minha putaria.
(Ana Morre com esse pavor)
Não matarás
Duas mulheres num Café conversando
BONIFÁCIA- Sabe o Ronaldo?
LÍGIA-O Ronaldo?
BONIFÁCIA-É, o Ronaldo.
LÍGIA-O mestre Ronaldo?
BONIFÁCIA-É ,o mestre Ronaldo.
LÍGIA-O meu mestre Ronaldo?
BONIFÁCIA- Ah, meu Deus! Ele mesmo!
LÍGIA- Adoro o Ronaldo.
BONIFÁCIA- Adora?
LÍGIA- Não. Eu não só adoro, eu amo o Ronaldo. Amo muito. De alma, sabe? Que é mais que amor terreno. É amor de alma.
BONIFÁCIA- Iiih!
LÍGIA- Iiih! O quê?
BONIFÁCIA- Pois você não sabe da missa a metade.
LÍGIA- Não sei mesmo, sou budista, não vou à missa.
BONIFÁCIA- Por causa dele, né?
LÍGIA- Por causa o quê?
BONIFÁCIA- Esse lance de budismo. Você só teve uma aula inaugural com ele, por causa daquele anúncio que você leu no jornal, e agora paga pra ele te transformar numa budista.
LÍGIA- Não entendi. Aonde você tá querendo chegar?
BONIFÁCIA- Eu tenho uma coisa pra te contar.
LÍGIA- Que coisa?
BONIFÁCIA- Do Ronaldo.
LÌGIA- Não quero saber.
BONIFÁCIA- Por quê?
LÍGIA- Porque sou budista, não preciso saber nada além do que seja necessário.
BONIFÁCIA- Ah! Mas isso é bem necessário.
LÍGIA- Necessário, necessário?
BONIFÁCIA- Antes me diga. Quem é o Ronaldo pra você?
LÍGIA- Ah! O Ronaldo, simplesmente, é um cara que me ensina a evitar o mal, fazer o bem e cultivar a própria mente.
BONIFÁCIA- Safado!
LÍGIA- O que é que é isso?
BONIFÁCIA- Vou te dizer.
LÍGIA- Não. Não diga. To vendo é melhor não saber. Não quero e não preciso. Não preciso.
BONIFÁCIA- Pior pra você.
LÍGIA- Que seja.
Silêncio
LÍGIA- Vai, fala! Antes que ele chegue.
BONIFÁCIA- Quem?
LÍGIA- O Ronaldo.
BONIFÁCIA- O Ronaldo vai aparecer por aqui?
LÍGIA- Marquei com ele. Vamos conversar sobre as Quatro Nobres Verdades.
BONIFÁCIA- E quais são?
LÍGIA- As Quatro Nobres Verdades?
BONIFÁCIA- Sim, me fala.
LÌGIA- Sério?
BONIFÁCIA- Seríssimo.
LÍGIA- Bom, a primeira é que a existência implica na dor.
BONIFÁCIA- Hum.
LÍGIA – A segunda é que a origem da dor é o desejo e o afeto
BONIFÁCIA- Ele fala isso, é?
LÍGIA- Ele não, o budismo.
BONIFÁCIA- Sei.
LÍGIA- A terceira diz que o fim da dor, só é possível com o fim do desejo.
BONIFÁCIA- Bem sei…
LÍGIA- E a quarta é que a superação da dor só pode ser alcançada através de oito passos.
BONIFÁCIA- Irônico.
LÍGIA- Não tem nada de irônico.
BONIFÁCIA- Não estou falando do budismo, estou falando do Ronaldo.
LÍGIA- Mas o que é que você tem com ele, mulher?
BONIFÁCIA- Eu? Graça a Deus, nada.
LÍGIA- Graça a Deus!
BONIFÁCIA- Só tenho medo por você.
LÍGIA- Pra quê medo, pra quê medo? Sabia que ele é o cara que me fez sair da vida boêmia e vazia, pra me mostrar que as forças do universo procuram meios para que todos os homens sejam iluminados?
BONIFÁCIA- Pára de se iludir com isso, menina!
LÍGIA- Não estou iludida, minha vida melhorou da água pro vinho!
BONIFÁCIA- Existem quatro nobres verdades: nascer, crescer, envelhecer e morrer. O resto é tudo palhaçada.
LÍGIA- Se eu soubesse que ia debochar assim, não te dizia.
BONIFÁCIA- Tava querendo confirmar.
LÍGIA- O quê?
BONIFÁCIA- A hipocrisia.
LÍGIA- Porra, diz logo o que você tem pra dizer!
BONIFÁCIA- Ex-traficante.
LÍGIA- O quê?
BONIFÁCIA- Ex-traficante. O Ronaldo é um ex-traficante.
LÍGIA_ Mentira.
BONIFÁCIA- Verdade.
LÍGIA (assustada)- Tem como provar?
BONIFÁCIA- E como!
Silêncio
LÍGIA- Dane-se. Ex é ex. Se ele não é mais, não me interessa saber. O que importa é que ele me faz bem, tá? Me ajuda mesmo. Mudou a minha vida. Isso sim é o que importa.
BONIFÁCIA- Esse budismo tem poder.
LÍGIA- Eu medito.
BONIFÁCIA- Você está sendo ingênua.
LÍGIA- E você está me desrespeitando.
BONIFÁCIA- Tá se achando toda espiritualizadinha.
LÍGIA- E você tá parecendo as Bruxas de Salem.
BONIFÁCIA- Tudo bem. Não quer ouvir? Vai embora.
LÍGIA- Vou mesmo.
BONIFÁCIA- Vai mesmo.
LÍGIA- Vou. Vou ligar para o RONALDO, e marcar em outro lugar
BONIFÁCIA- Ótimo, eu tentei.
LÍGIA- Tchau! (ela vai saindo)
BONIFÁCIA- Tráfico de mulheres
LÍGIA_ (volta correndo) O quê?
BONIFÁCIA- Tráfico de mulheres.
LÍGIA- De mulheres?
BONIFÁCIA- Mulheres.
LÍGIA- Tráfico de mulheres?
BONIFÁCIA- Mulheres.
LÍGIA- Como?
BONIFÁCIA- É isso mesmo. O Ronaldo foi traficante de mulheres.
LÍGIA- Não, como soube?
BONIFÁCIA- Uma coincidência.
LÍGIA- Não existem coincidências.
BONIFÁCIA- Pois é.
LÍGIA- Fala logo.
BONIFÁCIA- Conheci a sua ex-mulher.
LÍGIA- Aonde?
BONIFÁCIA- Na igreja que freqüento.
LÍGIA- Continua.
BONIFÁCIA- Ela trabalhava com ele. No Trá- fi-co de mu-lhe-res.
LÍGIA- Continua.
BONIFÁCIA- Depois, ela conheceu Jesus e largou essa vida
LÍGIA- Continua.
BONIFÁCIA- Tá salva.
LÍGIA- Continua.
BONIFÁCIA- Ele não. Ele ficou nessa vida. Só parou quando foi descoberto. Aí resolveu virar budista. Pra disfarçar.
LÍGIA- Mas ele estudou dez anos na Índia!
BONIFÁCIA- Pra abafar o caso.
LÍGIA- Olha aqui. Você não é católica? Você não tem um Deus? E a história da misericórdia? E a misericórdia? O Senhor Deus é misericórdia. Não é?
BONIFÁCIA- Menina, esse cara se aproveitava da frágil situação dessas pobres mulheres, prometendo coisas e coisas, sem que elas soubessem que seriam mantidas em condições próximas da escravatura, sendo incapazes de escapar de seus exploradores.
Silêncio- LÍGIA começa a chorar
BONIFÀCIA_ Não chora, é pra ficar feliz, eu te livrei de um mal.
LÍGIA- (aos prantos) Por que você está me dizendo isso? Eu disse! Eu não precisava saber disso!
BONIFÁCIA- Desculpa, eu só tava querendo te proteger.
LÍGIA- Proteger de que? Do cara que me mostrou que a fonte e o poder estão em nosso interior? E que nós, somos por natureza valiosos e bons, que nossas orações estão cheias de um sentimento de responsabilidade e agradecimento?! (chorando) Não! Não! Não!
BONIFÁCIA- (má) O budismo pode até ser assim, mas esse cara aí, com certeza não.
LÍGIA- (chorando) Não! Não! Não!
BONIFÁCIA- Estou querendo cuidar de você.
LÍGIA- Ele vai chegar a qualquer momento.
BONIFÁCIA- Melhor se livrar dele.
LÍGIA- Por favor, me deixa sozinha, eu gostaria de ficar sozinha.
BONIFÁCIA- Você quer eu vá embora?
LÍGIA- Sim.
BONIFÁCIA- Logo eu, que estou sendo sua amiga, e te fazendo um grande bem?.
LÍGIA- Sim, por favor.
BONIFÁCIA- Mas você vai se livrar desse cara, né?
LÍGIA- Não sei.
BONIFÁCIA- Não sabe?
LÍGIA- Você já fez a sua parte, tá satisfeita?
BONIFÁCIA- Não sei, tô preocupada com você assim, nesse estado.
LÍGIA- Agora já era.
BONIFÁCIA-(entoando um choro) Se eu s
oubesse que você ficaria tão abalada, acho que nem te contaria.
LÍGIA- “Se” não existe. Agora já era.
BONIFÁCIA- Ai, não faz assim. (Pausa) Olha, vamos pensar juntas. Isso já foi parte do passado, ele não deve ser mais assim. Como você mesma disse, o passado passou. Esquece tudo o que eu te falei, tá?
LÍGIA- Já era.
BONIFÁCIA- Ai, amiga, ai amiga!
LÍGIA- Já era.
BONIFÁCIA- Ai amiga, me arrependi.
LÍGIA- Já era, já era, já era.
BONIFÁCIA- Tá bom, eu vou embora. Mas você vai ficar bem, né?
LÍGIA chora.
BONIFÁCIA_ Me diz que vai ficar bem!
LÍGIA- Vou.
BONIFÁCIA- Você entendeu por que eu te contei?
LÍGIA- Tchau.
BONIFÁCIA- Ai, que triste (ela tenta dar dois beijinhos de despedida, mas LÍGIA se esquiva) Me liga? Você vai me ligar depois?
Silêncio
BONIFÁCIA- Então eu te ligo, ok? Beijinho… Abraço…Até. (sai)
LÍGIA fica chorando e chega Ronaldo todo feliz com um livro de budismo na mão.
Ronaldo- Oi, pessoa iluminada, que bom te reencontrar!
LÍGIA-(com lágrimas nos olhos, lenta e dramática) Você morreu pra mim, Ronaldo. Você morreu pra mim. Morreu pra mim. Morreu.
Ela vai indo embora falando: Morreu pra mim
Ronaldo fica sozinho sem nada entender.
FIM
Inês é morta
CONTINUA.
ps. Não percam! Último final de semana de Inês é morta no Teatro Gláucio Gil, dias 28 e 29 de novembro!
Please kill me!
Um Triller de suspense e horror desfila na passarela salpicado de flashes e sangue…
(CONTRA-LUZ VERMELHO ACENDE. OUVIMOS GRITOS DE DUAS MULHERES EM CANTOS OPOSTOS. BLACK OUT. FLASHES. FOCO CENTRAL UMA CAVEIRA COM A CABEÇA DE JESSICA RABBIT APRESENTA MAIS UM PROGRAMA DA SÉRIE PARA “TV HACIENDO MIERDAS COM LARISSA. LA PELÍCULA DE LA VIDA REAL”.)
Jessica Rabbit: Hummmmmmmm. (FAZ UM CARÃO – FLASH) Boa Noite! (PAUSA. TOM) Pisar nos corações menores com botas de salto alto.Dilatar pupilas brilhantes por cifrões! Ser um ídolo, um deus, uma lenda viva. Na passarela tudo é possível! Sejam bem-vindos a mais um programa da rede internacional V.I.P. AREA – Please Don´t Feed the models! (APLAUSOS GRAVADOS. FOTO DA PRIMEIRA CANDIDATA NA TELA)
Jessica Rabbit: Uow! Primeira candidata – Linda Joy: Loira. 1,90 m de pura travessura. Olhos ambiciosos e amendoados. Gosta de animais. Detesta lixo na rua. Ama a primavera. Uma estrela: Gisele! Uma frase: outono é sempre igual as folhas caem no quintal. Magra. Frágil e linda! Senhoras e Senhores aplausos para Linda Joy. (APLAUSOS GRAVADOS. LINDA JOY APARECE DO LADO DIREITO DO PALCO ACENANDO PARA O PÚBLICO. LINDA, COMOVIDA, QUASE BOBA. FLASHES)
Jessica Rabbit: Yeah! (FOTO DA SEGUNDA CANDIDATA NA TELA) Segunda candidata – Belle Be: Ruiva. 1,89m de uma beleza exótica. Olhos claros, quase tristes. Fera radical. Esporte: snow board. Despreza gordura trans. Adora o Tibete. Trilha o cume do Nepal. Nunca foi a Patagônia. Uma estrela: Paris Hilton! Uma frase: O slogan da Barbie – Be anything! Esbelta, altiva e bela. Senhoras e Senhores aplausos para Belle Be. (APLAUSOS GRAVADOS. BELLE BE APARECE DO LADO ESQUERDO DO PALCO ACENANDO PARA O PÚBLICO. LINDA, ALTIVA. ESTRANHA. ATLÉTICA QUASE AGRESSIVA. FLASHES. BLACK OUT. FOCO NA APRESENTADORA)
Jessica Rabbit: Hoje o programa vai falar direto ao estômago. Até onde você é capaz de lutar pela sua sobrevivência? Somente as candidatas poderão responder. Preparem suas máquinas fotográficas para sua melhor foto na categoria: estou chocada! É hora do show! Start!
(MUDANÇA DE CENÁRIO AS CANDIDATAS ESTÃO ACORRENTADAS DENTRO DE UMA ESPÉCIE DE AQUÁRIO SOMBRIO. ELAS SÃO OBSERVADAS. MAS, NÃO CONSEGUEM VER NEM OUVIR A PLATÉIA. CADA UMA USA UM VESTIDO DE ÉPOCA DIFERENTE. UMA ESPÉCIE DE MANGUEIRA DE SORO ESTÁ PRESA NO BRAÇO DELAS. TODO O RESTO É MISTÉRIO…)
(LINDA JOY ESTÁ DEITADA NUMA CAMA DE PRINCESA. ACORDA DE REPENTE. APAVORADA. GRITA. ESPERNEIA. GRITA E PUXA OS PRÓPRIOS CABELOS. ENCONTRA UM ENVELPE COM A INSCRIÇÃO: PARA A LINDA ADORMECIDA.
DENTRO DO ENVELOPE A SEGUINTE CARTA: “LINDA JOY. SE VOCÊ QUER SER A CAPA DA PRÓXIMA VOGUE VOCÊ DEVE MATAR BELLE BE. ESSA MANGUEIRA DE SORO FINCADA NO SEU BRAÇO INJETA GORDURA NO SEU CORPO. A CHAVE PARA PARAR A MÁQUINA ESTÁ NA MAÇÃ ESQUERDA DO ROSTO DE BELLE BE. VOCÊ DEVE PEGAR A CHAVE. SE VOCÊ ENCONTRAR A ARMA CERTA O SEU LEITO SERÁ A SUA SORTE”.
LINDA JOY ESPERNEIA E COMEÇA A REVIRAR O LUGAR. SENTA NA CAMA DE PRINCESA E CHORA)
(BELLE BE ANESTESIADA. DESPERTA AOS POUCOS E TOSSE MUITO. DE DENTRO DA BOCA DE BELLE BE SAI UMA RÉPLICA DO QUADRO O NASCIMENTO DE VÊNUS, UMA PINTURA DE SANDRO BOTTICELLI.
NO VERSO DO QUADRO A SEGUINTE INSCRIÇÃO:
“BELLE BE. SE VOCÊ QUER SER A CAPA DA PRÓXIMA VOGUE VOCÊ DEVE MATAR LINDA JOY. ESSA AGULHA FINCADA NO SEU BRAÇO INJETA UMA SUBSTÂNCIA TÓXICA NO SEU SANGUE. AOS POUCOS ELA VAI PARALISAR OS MÚSCULOS TRANSFORMANDO SEU ROSTO DE BELA NA CARRANCA DA BESTA FERA. A MÁQUINA É MOVIDA PELA INTENSIDADE DOS BATIMENTOS CARDÍACOS DE LINDA JOY. O SOPRO DO NASCIMENTO DE VÊNUS PODE SER UMA RESPOSTA”.
BELLE BE CHUTA COISAS AO SEU REDOR. DE REPENTE ENCONTRA UMA AGULHA E UMA SERINGA E PÁRA).
(LINDA JOY REVIRA A CAMA DE PRINCESA E ENCONTRA UMA FURADEIRA).
(A IMAGEM DE JESSICA RABBIT APARECE NUMA TELA DENTRO DO AQUÁRIO.)
Jessica Rabbit:Linda Joy, você ficará gorda como a Vênus do quadro de Boticceli.
Linda Joy: Nãaaaaoo!
Jessica Rabbit: Belle Be, você ficará com o eterno sorriso enigmático de Monalisa.
Belle Be: Aaaaaaaaah!
Jessica Rabbit: Somente a capa da próxima Vogue irá sobreviver. As armas para lutar estão por perto. Para desistir da competição grite: Please, Kill Me! Lembrem-se: toda obra de arte deve falar da morte. (A IMAGEM FICA FORA DO AR)![]()
CONTINUA…
A diversão é aqui
Restaurante. 04 amigos sentados em volta de uma mesa. Clima de confraternização. Garrafas de bebida. Muita alegria. João está terminando de contar uma piada.
João: Aí quando a enfermeira gostosa apareceu, eu gritei: Morri!!!! Apaga a luz! (gargalhada geral).
Soraia: Você me mata de tanto rir.
Carlos: Senti falta do teu senso de humor, cara!
Denise: Depois de tudo o que você passou ainda fazer piada com a situação. Que surpresa boa você ter vindo!
João: Sabia que ia encontrar vocês aqui. Só falta o Mateus!
Soraia: Deve estar chegando.
Carlos: (repetindo) Morri!!!! Apaga a luz! Essa é demais!!!! (Todos riem de novo)
João: (falando num tom mais baixo, sem dar muita importância) Eu preciso contar uma coisa pra vocês.
Carlos: Gente, atenção que vem outra por aí!
João: Eu vi… (as pessoas ainda reagem como se fosse a continuação da piada anterior).
Soraia: O João viu… (risos)
João: Vi…
Carlos: Isso você já disse.
João: Eu vi… a luz.
Soraia: A luz? Nós também, né Denise? (mais risos)
João: Quando eu estava no CTI, em coma, entre a vida e a morte.
Carlos: Devia ser a luz do abajur ao lado da sua cama! (risos)
Denise: Só falta você me dizer que viu a luz no fim do túnel! (risos)
João: Como você sabe do túnel?
Denise: Eu não sei. Isso é o que todo mundo diz.
João: Um túnel enfumaçado, uma claridade que chega a ferir os olhos.
Carlos: Túnel com efeito especial, essa é boa! (risos)
João: Uma luz forte, parece um farol, Carlos.
Denise: Não me diga que seus parentes estavam do outro lado do túnel pra te receber! (risos)
João: Vovó Belinha. Vovô Alfredo e o Seu Euclides.
Carlos: Tu é um gozador. (risos)
Soraia: Euclides? Quem é Seu Euclides?
João: O síndico do meu prédio que morreu uma semana antes de eu sofrer o acidente.
Denise: Que raios ele estava fazendo lá? Foi te dar as boas vindas ou foi cobrar o condomínio atrasado? (risos)
Carlos: Vai ver que ele é síndico também no além e foi receber o morador novo. Estava fazendo as honras da casa! (risos)
Soraia: Gente, deixa o João falar!
Denise: João, você é o melhor presente de aniversário que eu poderia receber. O importante é que você esta recuperado. Vamos brindar. Você nasceu de novo, cara!
João: Nasci? Denise, minha querida, a gente passa a vida inteira morrendo. Aos pouquinhos. A vida é um ensaio diário pra morte. Mas quando ela chega, ninguém esta preparado. Somos péssimos atores. Eu sou um canastrão.
Carlos: Você? Um comediante! (risos)
João: Eu sou um ignorante. Somos. Todos nós. Não sabemos de nada.
Carlos (sério): João, a ignorância é uma dádiva de Deus. Um brinde à ignorância!
Denise: Dois meses em coma é muito tempo. Normal você ainda estar um pouco confuso.
Soraia: Sabe que chegaram a anunciar a sua morte umas duas vezes?
Denise: Cheguei a rezar pela sua alma.
Soraia: Eu até acendi vela.
Denise: Não é bom acender vela para os mortos, sabia? Confunde. Atrasa a vida, quero dizer a partida. Os mortos ficam vagando em volta da vela e demoram pra entender que tem que fazer a passagem, é o que dizem.
Carlos: Esse problema o João não teve! Passou direitinho, né? Pro outro lado! (risos)
João: Existem vários tipos de morte. Aliás, a gente nasce e morre várias vezes durante a vida. Antes do acidente eu já estava morto e não sabia. Talvez vocês estejam mortos e nem saibam (sorri enigmático). Mas querem uma boa notícia? A gente renasce. O acidente foi a melhor coisa que podia ter me acontecido. Aquele João que vocês conheceram morreu. Prazer, João. (ele estende a mão para cumprimentar os amigos)
Denise: Ta ficando meio fúnebre essa conversa. Vamos mudar de assunto?
Soraia: Ele ta de gozação, gente, vocês não conhecem a figura?
João: Ninguém gosta de falar, no entanto, essa é a única certeza que nós temos. Desculpe te dizer isso justo no seu aniversário, Denise, mas você vai morrer. Todos nós vamos. Você pode ser a próxima.
Denise: (rindo, batendo na madeira da mesa) Isola!
João: Quem sabe? (silêncio, constrangimento) Quer um conselho de quem conhece o assunto? Mexa-se. Faça alguma coisa. Você está apodrecendo.
Soraia: Cruzes! Que mórbido (ri sem graça).
João: Aproveitem enquanto é tempo.
Carlos: A gente tenta! (levantando o copo, fazendo um brinde)
João: (silêncio) Ninguém vai querer saber o que tem do outro lado, não?
Carlos: Trevas… Buuuu! (imitando um fantasma)
João: Deus? Alguém aqui acredita em Deus?
Soraia: O médico já te liberou pra tomar bebida alcoólica, cara? Vê lá se não vai arranjar problema. (risos)
João: A consciência é o problema. Quando você descobre que a morte não é justa, não tem lógica e é inevitável, a vida muda. Você muda.
Denise: João querido, acho que você ta um pouco impressionado.
João: Impressão sua. A vida continua com ou sem você.
Soraia: Normal, o acidente foi traumático.
João: A diversão é aqui.
Carlos: (falando baixo para Denise) Acho que a luz afetou o cérebro do nosso amigo. (risos discretos. João está se levantando da mesa quando a luz do restaurante se apaga).
Soraia: Por falar em luz…
Denise: Não acredito, apagão agora ta virando moda. Gente, cuidado, ninguém sai do lugar porque tem muito copo e garrafa na mesa.
Soraia: Será que vamos ficar muito tempo assim… nas trevas? (risos)
Carlos: Buuuuu! (risos)
Soraia: Denise, acho que você nunca passou um aniversário tão romântico. À luz de velas. (garçom traz um candelabro e acende na mesa)
Denise: Romântico? (risos) Acho que não é bem essa a palavra. (para o garçom) Obrigada.
Carlos: (celular toca) Alô?
Mateus: (falando no celular) Carlos?
Carlos: Mateus! Cara, só falta você aqui. Ta aonde?
Mateus: Em casa.
Carlos: Ué, não vem comemorar o aniversário da Denise?
Mateus: Meio down.
Carlos: Você nem imagina quem apareceu de surpresa, aliás, ta faltando luz por aí também?
Mateus: Não, aqui, não. Vocês já estão sabendo?
Carlos: O quê?
Mateus: O João.
Carlos: O que é que tem ele?
Soraia: Algum problema?
Carlos: Cadê o João?
Denise: Banheiro.
Mateus: Morreu.
Carlos: Impossível (rindo).
Soraia: O que foi, Carlos? Você ta branco.
Mateus: Faleceu não tem uma hora.
Carlos: Ta de sacanagem.
Mateus: Sério.
Carlos: (Tirando o celular do ouvido e falando para todos) Gente, vamos brindar à vida porque o outro lado é chato pra caralho! Valeu, João, por ter vindo avisar!
Fim.

Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo