Miguel Falabella

“Miguel Falabella! Isso é nome de estrela!” A saudação ouvida nos idos 1980, quando ainda era um jovem em início de carreira, soou como uma predição na vida desse carioca nascido e criado na zona norte do Rio de Janeiro, fiel amante da literatura, do teatro e do riso. Falabella é hoje um nome de peso na cena cultural brasileira, além de um artista reconhecido pelo público nos quatro cantos do país. Sagaz observador do comportamento humano e dono de um humor ácido incomparável, esse louro alto de afiados olhos azuis tem o dom de fazer o povo rir de suas pequenas desgraças cotidianas. É ator, escritor, roteirista, diretor, produtor e premiado dramaturgo - já levou para casa dois Molière, um dos mais importantes prêmios teatrais. Quase 30 anos após sua estréia profissional, já assinou sua terceira novela Negócio da China (além de Salsa e Merengue e A Lua me disse, em parceria com Maria Carmem Barbosa), atuando em sitcons inesquecíveis como Sai de baixo e fazendo as vezes de ator e diretor em musicias como Os ProdutoresA Gaiola das Loucas. No teatro, é responsavel por um dos maiores sucessos de público e crítica com A Partilha, que lhe rendeu também uma adaptação cinematográfica. Atualmente, Miguel escreve o seriado A vida alheia e dirige Claúdia Jimenez na peça Mais respeito que sou tua mãe, com estréia prevista para agosto.

Ainda em Petrópolis, a primeira vez que assisti uma peça foi  ”A partilha”, de Miguel Falabella. Eu, confesso, que fui ao teatro para conhecer de perto o Caco Antibes, saí de lá apaixonado pela história de 4 irmãs maravilhosas, engraçadas, emocionantes e emocionadas. Cheguei em casa motivado a escrever, a rabiscar umas falas… e alí, com toda a despretensão de um garoto de 12 anos que ainda ia decidir o que ser quando crescer, eu comecei a escrever a minha primeira peça. Mais de 10 anos depois, já no Rio de Janeiro e me formando em direção teatral com um texto próprio, escrevi “Amém”, um texto com 6 mulheres em cena e que falava das relações entre elas, pela perspectiva da religiosidade. A relação que criei com o Miguel desde então, desde meus 12 anos apaixonados, sempre foi de muito carinho e admiração. Foi por causa dele e do Sai de baixo que comecei a fazer teatro… foi por causa do Miguel que conheci a obra de Mauro Rasi. Foi através de seus trabalhos que entendi o quanto existe um tempero popular, dificílimo de acertar no tom, que faz de seus textos tão amados pelo público.

Hoje compartilho com vocês a minha alegria, e vocês podem imaginar o tamanho, que é receber o Falabella, meu muso inspirador, no Drama Diário. Pedi ao Miguel que ele publicasse A Partilha pois além de toda a importância real que o texto tem na minha história , o título da peça representa aquilo que considero mais emblemático e generoso da arte teatral: o partilhar. “A Partilha” representou muito mais que a primeira experiência de um jovem espectador numa sala fechada, foi ela que me fez entender que ser escritor é ser um espectador privilegiado diante da própria vida.

 

A PARTILHA – MIGUEL FALABELLA

 Prólogo (trecho)

 Ainda no escuro, ouve-se a voz do locutor, que anuncia

LOCUTOR (OFF) – “Do obituário local: comunicamos o falecimento da senhora Maria Laura Romero Mendes, aos setenta e cinco anos, na Beneficência Portuguesa, de insuficiência respiratória, cardiopatia patogênica, esclerose múltipla e outras complicações. Viúva do advogado Herculano Mendes, Dona Maria Laura deixa quatro filhas e bens”.

Sobe música e cortinas abrem para revelar uma capela mortuária. Selma está ali, velando a mãe. É uma mulher bonita, embora tenha um rosto sofrido. Veste-se com sobriedade, os cabelos presos, o luto fechado. Um tempo. Selma consulta o relógio de pulso, apreensiva. Olha a mãe com tristeza. Entra Regina. Regina mostra, já na entrada, que é o oposto da reprimida Selma. Veste-se com espalhafato, tentando manter a dignidade que a situação exige. Elas se beijam e Regina começa a olhar a capela, rearrumando as coroas, dando um toque pessoal ao ambiente. Depois, para ao lado do caixão.

REGINA – Ela está com uma cara tão tranquila.

SELMA – É… mas penou, coitada. Eu é que sei.

REGINA – Você tratou de tudo?

SELMA – Claro.

REGINA – Você mesma escolheu o caixão?

SELMA – Alguém tinha que escolher. Você some, a Laurinha vive enfiada no jornal. Se eu não tomasse uma providencia, mamãe ia acabar num saco!

REGINA – Não estou te criticando. Não precisa ficar nervosa.

SELMA – Vocês deviam era me agradecer, isso sim…

REGINA – Esquece. (Pausa. Ela olha a mãe) Você notou que ela morreu sorrindo? Deve ter sido uma revelação no momento final. Eu tenho pra mim que o papai em pessoa veio buscá-la.

SELMA – Não começa com as suas filosofias orientais, que você sabe muito bem que eu não acredito em nada disso. Papai já morreu há doze anos. Se tivesse que vir buscar a mamãe, pra que esperar tanto tempo?

REGINA – (bate com a mãe espalmada na testa de Selma) Acorda, filha da luz! Bom, o importante é que ela está numa muito melhor do que nós. Pelos meus cálculos, ela deve estar saindo da câmara de recordações e se deslumbrando com a planície astral.

SELMA – Você fala como se fosse uma alma penada, fazendo turismo aqui na Terra. Ai, chega, Regina. Chega que essas coisas não me convencem. (Pausa)

REGINA – Quer um café?

SELMA – Não. Parei de fumar. Se eu tomar um café, não resisto. (Selma começa a andar de um lado para outro, impaciente) Você avisou a alguém?

REGINA – Algumas pessoas. Poucas. Seus filhos não vem?

SELMA – O Mario tá em São Paulo, a Simone, você sabe como é, não quis vir, eu também não insisti.

REGINA – Pois devia ter insistido. Mais cedo ou mais tarde, ela vai ter que se acostumar com a ideia da morte. É doloroso, mas é necessário para o crescimento.

SELMA – Psicologia de bolso, né Regina? E seus filhos, onde estão?

REGINA – Num festival de surfe em Saquarema.

SELMA – Um programa bem mais interessante do que enterrar a avó! (Pausa. Elas se estranham) Teve notícias da Maria Lúcia?

REGINA – Não. Ela estava com dificuldades para arranjar lugar, os voos estão todos lotados. Mas ela deve estar chegando por aí.

SELMA – Eu não acredito que tanta gente viaje assim de Paris para o Rio de Janeiro nessa época do ano. Isso pra mim é desculpa pra não vir. Maria Lúcia nunca ligou muito para a mamãe!

REGINA – Isso não é verdade, Selma! Maria Lúcia mora em Paris e Paris não é a Tijuca, não! Fica meio contramão dar um pulinho ali, no São João Batista, você não acha?

SELMA – (Irritada) Qual o problema que vocês tem com a Tijuca, pode me dizer? Vocês vivem implicando com a Tijuca. Outro dia mesmo, a Laurinha teve a cara-de-pau de me ligar pra me entrevistar. Disse que estava traçando um perfil da classe média tijucana.

REGINA – (Rindo) E o que foi que você fez?

SELMA – Mandei ela tomar no cu! (Fica chocada com as próprias palavras) Ai, meu Deus, que horror! (Espia a mãe) Espanta essa mosca aí, Regina!

REGINA – Quem te viu e quem te vê, hein? O Luiz Fernando já deixa você falar palavrão?

SELMA – Eu tô mudando, minha filha. Agora, escreveu não leu, o pau comeu!

Regina ri. Laura aparece no fundo. É a mais nova das irmãs, jornalista, decidida, aparentemente uma pessoa sem afetividade. Elas se beijam etc.

LAURA – Não chegou ninguém ainda?

REGINA – Não. Aliás, eu estou achando isso muito esquisito. Alguma coisa deve ter dado errado. Não é possível que não apareça ninguém no velório da mamãe. Eu nunca fui a um enterro em que não tivesse uma tia que a gente não vê há muito tempo, uma velha empregada e um ex-marido. É quase uma lei cósmica. Alguém sempre aparece para prestar uma última homenagem.

SELMA – Eu avisei quem podia. Liguei pra São Paulo, mandei o comunicado para os jornais e telefonei pra Maria Amélia, mas o pessoal da tia Mirtes não vai poder vir.

REGINA – Logo a tia Mirtes, que é tão alegre! Bom, pelo visto só nos resta esperar.

Elas andam pela capela, meio sem ter o que fazer. Volta a música. Regina tenta rearranjar as flores, no que é prontamente criticada por Selma. Laura se aproxima do caixão.

LAURA – Quem foi que colocou esse vestido nela?

SELMA – Fui eu.

LAURA – Não entendi. Mamãe não suportava esse vestido. Eu lembro de quando ela comprou e quis devolver. Não aceitaram de volta.

SELMA – Eu nunca soube disso.

LAURA – Claro que sabia, Selma. Eu ainda não entendi o porquê.

REGINA – Bom, se a Laurinha faz tanta questão, a gente pode trocar.

SELMA – Aqui, Regina? Você ficou louca?

REGINA – Eu só fiz um comentário.

LAURA – Eu acho que eu sei por que você colocou esse vestido nela. Uma vingancinha particular.

SELMA – (Levantando a voz) Olha aqui, Laurinha. Se você veio no velório da mamãe pra me provocar, eu acho bom nem ficar pro enterro, porque eu perco a cabeça, viu?

REGINA – Gente, fala baixo! Selma, pelo amor de Deus, tá todo mundo olhando ali, na outra capela. E você também, Laurinha, não começa!

LAURA – Desculpa, Selma. Eu não quis te provocar. (Tempo) Cadê Maria Lúcia, gente?

E, como se atendesse ao chamado da irmã, Maria Lúcia adentra a capela. É a irmã mais velha. Mora em Paris com o segundo marido. Uma típica burguesa, bem tratada, com um casaco de peles sintéticas e um grande chapéu desabado sobre o rosto. Laura a vê

LAURA – Olha lá! Falando no diabo, ele aparece.

REGINA – E o diabo veio chique, de chapéu e tudo! (Maria Lúcia procura a capela)

SELMA – Maria Lúcia sempre querendo se exibir. Olha lá, completamente cega. Por que é que não põe os óculos de uma vez por todas?

REGINA – (Chamando) Maria Lúcia! Maria Lúcia! Estamos aqui!

Maria Lúcia dá um grito de alegria e acena euforicamente ao ver as irmãs. Beijam-se, etc. Selma é a última a ser beijada e fica visivelmente ressentida.

SELMA – Veio chique, hein? Quem vê, não diz que veio enterrar a mãe.

MARIA LÚCIA – Se é pra ser agredida, eu faço a volta daqui.

SELMA – E precisava vir de chapéu?

MARIA LÚCIA – Não dá pra acreditar, Selma! Você não me vê há dois anos e vai me infernizar por causa da porra de um chapéu? Quer me dar licença? (Ela se aproxima do caixão e fica pensativa)

REGINA – Deixa ela em paz, Selma. Você está insuportável.

LAURA – (Olhando pela janela) O trânsito é que está insuportável. E pra piorar, parece que vai cair um temporal horrível. Deve ser por isso que não chega ninguém.

SELMA – Eu tô cansada, tá? Eu fiz o que podia. Minha consciência está tranquila. Fiquei ali, ao lado dela o tempo todinho, mesmo sabendo que ela ia preferir qualquer outra filha. Você tem razão, Laurinha, o vestido deve ter sido uma vingancinha particular. Inconsciente, mas foi.

E, para coroar a lamúria de Selma, ouvem-se dois trovões e a chuva desaba.

REGINA – Pronto, começou a chover.

MARIA LÚCIA – Vamos ter que acompanhar o enterro embaixo d´água. Ah, minha mãe, que dia, meu Deus, que dia…

*Biografia retirada da coleção Autores, da Editora Globo.
** Agradecimento especial a Thaisinha Pontes pelo envio da foto!

Fausto Fawcett

O jornalista, escritor e músico Fausto Borel Cardoso nasceu no Rio de Janeiro em 1957. Criado em Copacabana, adotou o sobrenome Fawcett em homenagem à atriz Farrah Fawcett, da série de TV “As Panteras”. Influenciado por Rolling Stones, Sex Pistols e Jovem Guarda, Fausto faz parte da geração do rock nacional dos anos 80. Poeta moderno do caos urbano, Fausto revolucionou o panorama pop criando um som que mistura rap, funk e letras cheias de imagens e humor tipicamente cariocas. Entre os seus maiores sucessos estão as canções, “Katia Flavia”, “Rio 40 Graus” e “Balada do Amor Inabalável”. Além das constantes parcerias com artistas como Deborah Colker, Hamilton Vaz Pereira, Dado Villa-Lobos, Herbert Vianna, Fernanda Abreu, Pedro Luís e Skank, Fausto Fawcett lançou, nos últimos anos, os livros “Santa Clara Poltergeist”, “Copacabana Lua Cheia” e “Básico Instinto”. No cinema, participou da trilha de filmes como “Lua de Fel” de Roman Polanski, “Bufo e Spalanzanni” e “Diabo A Quatro”. No teatro, escreveu a peça “Cidade Vampira” em parceria com Henrique Tavares.

Poeta moderno do caos urbano, Fausto Fawcett é um inventor de palavras e criador de personagens originais. Sua visão realista do Rio de Janeiro, do Brasil e do Mundo é um diagnóstico lúcido e delirante do nosso tempo.

HENRIQUE TAVARES

 

Cidade Vampira de Fausto Fawcett

Trecho da peça

A sombra de Mad Max paira sobre o planeta! Principalmente em países como o Brasil, um abismo que nunca chega. A sombra de Mad Max paira sobre os países de terceiro, quarto, quinto mundo. Revelando o que somos: Uma equação de gozo e destruição. Não adianta disfarçar! Todo Jetson guarda dentro de si um Flinstone! A sombra de Mad Max paira sobre o planeta! Lan House, Las Vegas Rave, Play Station, Cyber Café… Eu vi noivos na internet com endereços de suas amadas impossíveis. Uns três mil se suicidaram crucificando-se com lap-tops pregados nas mãos, nos pés e na testa. Game boy, game over! O mundo é uma arena, mistura de cassino, puteiro, disneylândia, máfia, supermercado e Coliseu. Bullshit! Jovem é o caralho! Essa porra de categoria social de consumo já acabou. A juventude já completou cinqüenta anos e toda essa palhaçada blá-blá-blá de responsabilidade revolucionária, de um amanhã devidamente construído, de uma bela herança social que deve começar com os assim rotulados jovens, todo esse papo brabo de embromação etária acabou. A juventude acabou. A juventude estragou até as drogas. Tem que aturar pais e mães respondendo, reagindo a perguntas cretinas de psicólogos cretinos sobre a falta de diálogo, falta de comunicação e o caralho a quatro. Bullshit! Agora tá cheio de pais e mães responsáveis comprando pedaços, quilos, centímetros de diálogo na papelaria. É Meg Ryan! Juventude e infância são apenas entreposto orgânico mental do adulto e idoso. Entreposto comercial também. Você acha, oh idiota normalóide, oh zumbi cumpridor dos deveres, oh normopata, você acha que estas descargas químicas de contato social são novidade? Acha que tudo muda? Acredita na ‘carochinha’ da evolução, do progresso, da humanidade rumo ao ápice? Sinto dizer que isso tá em colapso de crise eterna e os jovens que eram ponta de lança de uma punheta sonhadora de um futuro revolucionário, esse engodo hoje é o que sempre foi. A normalidade ou normopatia é uma espécie de Escala Richter onde todas as patologias mentais, todas as demências e impulsos anti-sociais, todas os delírios de descontrole forense, são caracterizados por baixos índices de radiação mental, cerebral. Todos temos 0,5 pontos de Charles Mansom, Gengis Khan, Suzane Richthofen… Pra cada cinco minutos de civilização, dez minutos de barbárie. E pra você que tá nervoso com o fato dos sociopatas, dos psicopatas estarem sendo considerados os novos heróis, coloque a consciência, sua dentadura mental no tubo de ensaio embebida em Coca-Cola. As fucinheiras religiosas, políticas, vontades de um mundo melhor, funcionaram até pouco tempo. Mas agora que todas as farsas foram descobertas, e cada cidade, o mundo, virou coliseu gigante, uma arena de consumo e consumação de pessoas. Agora que a educação é voltada para eficiências empresarias de forma explícita, agora que civilização e barbárie mais do que nunca se confundem. Aquele indivíduo educado para ser um indivíduo humanisticamente emancipado deu lugar ao pesadelo do indivíduo fundamentalizado. Cada pessoa é um fragmento de vida à deriva. Meros hormonautas à serviço, como todos nós, da sociedade de consumação. A mais nítida, agressiva, transparente e reveladora extensão do que somos. Vampira-extensão do que somos, a megacidade é: animal racional viciado em códigos e ordenações morais. Criando focinheiras, cenourinhas, chicotes, estímulos e brinquedinhos pro animal. Para cada cinco minutos de comunhão pacífica, cinco horas de apocalipse, ódio gratuito, desejos de aniquilação, alienação, autodestruição. Explode no zoohumano comércio movediço por trás de tudo. Em que idade estamos? Da indústria lascada? Da pedra digital? Do gelo clonado? É tudo extensão do tacape e da caverna! Ah! Que saudade de Roma! Aquilo sim é que era saber se divertir. Eles sabiam que velha guarda não tem nada a ver com Escola de Samba. Velha guarda que é Velha guarda é feita de Vampiro e Highlander. O resto é agro-negócio. Batatinha pseudo cristã cozida na culpa e na covardia. Saudades de dizer: Excita Calígula! Com a língua ele excitou! Saudades de Roma!!! São Paulo, Tóquio, Nova York, Cairo, Istambul, Lagos, Moscou, Londres, Bombaim… Animalidade concentrada, disfarçada, espalhada, dissolvida nas megacidades. Elas são as últimas e definitivas entidades. Seu perímetro urbano são altar do sacrifício humano. Servem de incubadora e seiva para Suzanes, novas Medéias e outras musas. Suba num telhado, num morro, numa torre qualquer. Olhe as luzes da cidade. São tvs ligadas? Faróis acesos? Reflexos variados? Luzes da cidade? Não! São os dentes da vampira entidade!

Newton Moreno

Nascido em Recife, formou-se Bacharel em Artes Cênicas pela Unicamp (com o espetáculo Primeiras Estórias, adaptado e dirigido por João das Neves em 1995) e Mestre em Artes Cênicas pela USP com orientação da Profa. Dra. Sílvia Fernandes Telesi. Fez parte da equipe de docentes da Escola Livre de Teatro de Santo André e da SP Escola de Teatro. Em 2001, encenou seu primeiro texto Deus Sabia de Tudo… É autor de Dentro (que participou da Mostra de Dramaturgia Contemporânea do SESI em 2002) e A Cicatriz é a Flor, estes dois textos juntos compõe a primeira etapa do Projeto Body Art ; e Agreste montado pela Cia. Razões Inversas em São Paulo. Por este texto ganhou o Prêmio Shell e o Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Artes) de Melhor Autor em 2004. Recebeu Bolsa Vitae de Artes em 2003 para realizar livre adaptação teatral do livro Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freyre. Este espetáculo ganhou os Prêmios Qualidade Brasil 2005 de Melhor Espetáculo, Direção e Ator na categoria Comédia e teve indicações ao Prêmio Shell de Teatro de 2005 para direção, iluminação e música. As Centenárias recebeu Prêmio Shell de Teatro no Rio de Janeiro em 2008 e o Prêmio Contigo! de Melhor Autor no mesmo ano. Memória da Cana, espetáculo dirigido por Newton, recebeu em 2009 o prêmio APCA e o Prêmio Shell de Melhor Direção e Cenário.

Desenrolo o tapete vermelho para Newton Moreno por muitos motivos, mas me inspiro especialmente em sua sensibilidade, voz-palavra e brasilidade.

RODRIGO DE ROURE

 

Terra do meio de Newton Moreno

Dorothy faz anos

Uma mulher velha acende uma a uma as velas de um bolo de aniversário. Assim, ela se ilumina aos poucos para a platéia.
Em cena apenas ela, um bolo decorado de velinhas e alguns balões de aniversário.
Canto e alegria fora de cena como se preparassem uma festa.
(Começar com os sons da noite da mata e, aos poucos, fogos e dança como que se aproximando dela.)

DOROTHY
Eu me permiti a elegância de não dispor todas as velas que correspondem à minha verdadeira idade.
Meu nome? É um nome proibido, um nome condenado, uma palavra tornada maldita, re-batizada com sonoridade de praga, um nome que você não vai querer que seja pronunciado perto de você.
Mas eu quero convidar vocês para esta festa de aniversário.
(Começa um ensaio de ‘parabéns’ fora de cena ou algazarra de festa).
Hoje eu completo… muitos anos de vida, vinte destes anos, no Brasil. Nasci numa cidade bem diferente desta onde moro hoje, num lugar onde provavelmente eu morreria de velhice e tédio. Aqui eu vou conhecer uma morte de sabor bem diferente.
Habito uma terra movediça, algo entre Pará e Amazônia, chamamos de Terra do Meio. Um pedaço machucado do mundo onde a fronteira entre vivos e mortos não é Deus quem decide.
(Referindo-se aos sons festivos que vêm de fora da cena).
Eles estão chegando para a festa.
Eu não sei se eles celebram mais um ano de vida minha ou menos um ano de morte.
Eles estão cantando parabéns para mim. Eu estou jurada de morte há 5 anos e nunca sei quando será a última vez que vou ouvir alguém cantar o parabéns.
Talvez hoje diante de vocês, talvez nunca mais. Quem sabe? Quem verdadeiramente o sabe?

Em um dos meus aniversários, antes de minha sentença de morte ser anunciada publicamente, eu ensinei alguns índios a cantar parabéns e eles dançaram para mim.
Foi antes dos meus olhos ficarem adultos e eu olhar as coisas com uma urgência, olhar o mundo com uma fome atávica. Como quem negocia as lembranças da casa e dos amigos, dias antes de uma longa viagem. Eu visito os lugares das minhas saudades futuras.
Fico perambulando pela casa como andam os condenados à morte nas penitenciárias. Andam solitários, sem receber visitas. Quem quer tocar a morte tão de perto? Eles vivem em prisão legal, prisão administrada pelo governo, sob a chancela da preservação da segurança nacional. Mas só que se o governo permite que eu viva desta forma, eu também vivo em cárcere com a conivência do governo. Minha jaula é verde, mas ainda assim cela. O que nos difere talvez seja que eu posso olhar para o céu e o fardo é sempre mais leve quando se olha para o alto. Eu caminho assim, olhando para o alto e, acreditem-me, nunca um pôr-de-sol será igual ao outro. (Ela se perde olhando o céu).

Há dois tipos de pessoas na selva: os que sabem que vão morrer e os que sabem que vão ser mortos. Um calendário de mortes anunciadas está pregado na mata brasileira e escrito nas árvores. A cada dia, amanhece um nome novo arranhado nas árvores. Os nomes são sempre de pessoas inquietas que ficam zunindo em nossas consciências como moscas-varejeiras. Pessoas que não agüentam ver a miséria das famílias indígenas ao lado das fazendas. Tem gente que não agüenta isso, sabia? E ouvem como resposta, uma promessa da parte devastada. Da parte devastada virá bala silenciosa e certeira. Nunca ninguém ouve quando as balas procuram estas pessoas nas madrugadas do norte. São balas mais ágeis que zarabatanas. Cresce, na selva, o número de pessoas que sabem que vão ser mortas. Elas vivem assim na espera, a qualquer momento, a bala…

(Estoura um balão, reproduzindo um som de tiro).

Quem não se perguntou quanto vale a sua vida?
É o que muitos se perguntam quando preenchem apólices de seguro.
Aqui o mercado é outro. Aqui há uma tabela bem definida para matadores. Padres custam R$ 20 mil; sindicalistas, R$ 10 mil; pistoleiros para “queima de arquivo”, R$ 8 mil e; líderes de assentamentos R$ 5 mil. Um juiz inflaciona o mercado inteiro. Agora, nós, freiras, valemos quase R$ 50 mil. Afinal é deixar Jesus viúvo, é matar suas noivas. O preço tem que ser bem alto para tamanha indisposição com o santíssimo.
Lembro a primeira vez que mandaram uma foto minha estampada num cartaz.
R$ 50 mil pela minha vida.
Eu penso que naquela hora morri. Parecia que eu olhava para mim mesma num caixão. Guardei a foto e vejo-a amarelando como que anunciando meu iminente desaparecimento, olhando para mim como um relógio ao contrário. Um espelho incômodo onde eu evaporo aos poucos.

(Abrir algum presente. Foto de quem já se foi).

Alguns amigos chegam logo à festa.
Outros não virão, com medo de ficar muito próximos e levar um tiro em função da mira de um péssimo atirador de aluguel. Estar perto de mim é estar em quarentena. Maria quarentena, dizem alguns bêbados quando me vêem passar. Todos vivem como no ofício de um segurança, são pagos para desconfiar. De tudo, de todos, de qualquer movimento que saia da mata.
Temos aqui 75 velinhas. Estas velas estão acesas para os amigos restantes.
Não é minha idade não. É que hoje 75 pessoas estão ameaçadas de morte aqui no Pará. Os que fazem aniversário de vida e de não-morte como eu.

Quando eu converso com outra pessoa como eu é como se anjos se falassem. Como se ensaiássemos o encontro que se dará noutra instância, mas é da força do olhar deles que eu tiro a fortaleza de continuar aqui. Ver o sorriso destes amigos fantasmas é um banquete para mim, é onde recomeça o rio, o princípio. Quando eu aprendo a ser madrugada, nascente e não desistir. Eu organizo estes encontros para me manter de pé, para prover meu melhor alimento.
Lembro de uma líder sindical que vinha sempre me visitar. Ela ficou grávida assim que soube que sua cabeça estava à venda. Ela carregava vida e morte todo dia. Rezava para que a bala só a encontrasse após o parto e assim foi. Eles deram quinze dias para que ela conhecesse e se despedisse da filha. E ela o fez. Eu acompanhei todas as palavras encantadas de esperança daquela mãe para sua filha.
Quinze dias depois do nascimento, ela foi executada.
Há algum requinte de piedade e ética neste oficio de matador?

Eu conheci quem vai me matar. Eles se apresentaram.
Eles me encurralaram uma vez e disseram: ‘Não temos pressa. Hoje é só um papo.’
Deixaram uma bala. (Mostra). Esta aqui. Eu a guardo ao lado do meu crucifixo. Assim eu rezo e lembro que se estou aqui é por vontade divina e se eu me for, é por vontade dos homens. Mas naquele dia, meu futuro executor me olhou e sorriu. Veio me visitar como numa cerimônia de noivado macabra, quase pedir minha mão em casamento, ganhar uma intimidade mórbida. Sentou-se à minha frente, pediu um copo de água, apresentando sua arma como quem insinua sexo. Eu deixei que ele dissesse e fizesse o que queria, mas eu não deixei que ele visse medo nos meus olhos. O medo estava lá, um pavor que levantava paredes grossas que me prendiam no mesmo lugar. Mas eu o escondi. Acordei cada músculo para domá-lo. Ali fiquei sentada, mas não deixei escapar o aroma do suor frio que grudava a roupa ao corpo. Eles são como espécies caninas, farejam nosso terror. Mas neste ofício de religiosa, há que se aprender como despistar bestas. Eles desistem da presa quando percebem sua força. Pelo menos, eu quero pensar assim. Pensar que foi esta minha atitude que os afugentou para dentro da mata.

Desde que vi meus executores, aprendi a olhar para dentro da mata como quem vê um morto pelo vidro do caixão. Uma última mirada. Olhar para dentro da mata sem saber se não se esconde à espreita, o meu carrasco. Um susto. Um quase-tiro. E um pássaro sai voando em busca de alimento. E meu olhar se perde no horizonte e no horizonte eu encontro a resposta porque ainda estou aqui.

Até o dia em que serei posta em leitos nupciais fúnebres no eito perdido, no grosso da mata. Uma ossada largada pelo estado como minas plantadas delicadamente para explodir em silêncio. Dormiremos clandestinas abraçadas pela terra que adotamos. Sim, é no berço da mata que eles nos plantam como sementes divinas, sementes que crescem para o lado de lá. Dormimos clandestinas abraçadas pela terra que adotamos. Há algum requinte de piedade e ética neste oficio de matador?

Eu sonho quando meu sangue semeará estas terras. Espero que impeça que cresçam pastos, que danifique o solo e o torne áspero à vida de gado. Prometo que lá debaixo vou boicotar qualquer semente que seja para pasto. Vou conversar com as ossadas da floresta arrancada sem piedade. Vou organizar, na condição de adubo, um motim para renascer a vocação verde desta terra.
Vocês vão escutar um som abafado da minha voz de dentro do caixão. Palavras sujas de terra que tentarão submergir e no caminho vão se vestir de barro, ficarão com uma beleza estranha, adornadas pesadamente com seus vestidos de barro. Teimosas, minhas palavras vencerão as frestas do caixão, lutarão com raízes e vermes e se lançarão aos seus ouvidos. Elas vencerão a morte. Minhas palavras mais fortes que a morte, ainda que pareçam frágeis como a verdade nesta terra do meio.
Farei até com que alguns corpos não sejam aceitos pela terra. Ela os devolverá. Na outra manhã, vocês encontrarão corpos emergidos, banhando-se de sol, a tomar ar porque a terra os regurgitará. Melhor queimá-los. Desistam de enterrá-los. A terra não os deixará.

Por enquanto, eu durmo assim. Suspensa.
É o que me resta: esperar. Acordo banhada de suor e medo, não de sangue. Passo a mão pela camisola molhada, pensando, ‘chegou o dia’, foi um tiro que me alcançou. Acordo assustada. Tocando o corpo, procurando confirmar-me. Nós que já estamos mortos não dormimos nas noites do norte. Os pássaros sobrevoam nossas casas e testemunham quantas janelas acesas e um movimento de angústia. Passos e ranger de camas. Choro preso para não alertar seu algoz da localização da vítima. Fiquei íntima dos fantasmas do cárcere. Fiquei íntima de tudo que acontece na madrugada. Outra fauna acorda no escuro e orquestra a música da mata. Corujas, minhas maestrinas noturnas, escrevem comigo o roteiro da minha última noite viva. Acontecerá assim:
Numa noite insuspeita, noite só de grilos e lua gorda, uma bala fará seu percurso estabelecido em contrato de matadores até mim. Ela trisca o que restou do seringal e da floresta e (ela estoura um dos balões da festa) me encontra como um presente, daqueles presentes surpresa que se entrega em festas assim. Um presente ácido, cortante, final.

(Abre uma caixa de presente com um Jack-in-the-box).

Eu saio de casa e vou aguar meu jardim. Fico adubando minha cova. Fico namorando ela. Mergulho a mão na terra, forçando alguma intimidade, pedindo guarida. Meio ribeirinha, querendo negociar um leito morno. Já que tudo nasce já ensaiando a despedida. Fico ensaiando dizer ADEUS.
ADEUS, esta palavra com asas.

Aí eu percebo que começo a cavar a terra e lá dentro encontrar meu coração. Como uma raiz roxa e suculenta. Então em algum lugar, entre o sono e a morte, eu me submeto a devaneios. Eu preciso deles. Eu preciso escapar. Eu aceito. Abro as janelas embaixo da terra, destranco as portas suspensas na noite, eu rezo para que os devaneios venham me buscar e me levar para algum lugar seguro. Ao menos por uns minutos, um lugar seguro.

Então eles vêm. (Música de Esteves).

Fantasmas vêm até mim atraídos pelas minhas canções de ninar. Quando eu fico bêbada de insônia e enfeitiçada pelos primeiros raios do sol, eu vejo os fantasmas dos que morreram baterem à minha porta. Eles descem das árvores onde seus espíritos habitam, são hóspedes dos deuses que habitam nas árvores. Eles dançam uma ciranda ao meu redor como se chorassem bálsamos para me ungir e me proteger. Eles dançam e levantam poeira, mas não deixam pegadas. Eles cantam alto e não acordam ninguém. Eles se vestem da fumaça que o orvalho solta em bafos. No meio deles, uma onça baila. Ela mostra o lugar onde a bala a alcançou e tirou-lhe a vida. Depois sorri e pede para que eu resista.
Soltam das nuvens uns meninos nus e correm, pisando o vento, até mim.
Os curumins pousam no meu colo e me perguntam onde eu escondi o meu sono. Porque meus olhos não pesam como os deles. E eu invento Mito novo que eu conto nas minhas noites de insônia.
E com minhas fábulas duras eu tento ninar nosso sono.
Coisas assim:
“Um dia uma bala se despediu do cano do revólver, mas a bala não queria partir.
O cano revelou que era hora do tiro, que ela precisava arrancar a vida de alguém ou pelo menos tentar. Afinal, era para isso que homens faziam balas.
A bala pensou que tinha sido feita para viver encaixada ao revólver.
O cano animava-a. Se tocasse o corpo de algum humano, conviveria com carne e sangue.
Sentiria a poderosa sensação de paralisar aquela máquina. Sentiria a poderosa sensação da vida.
Talvez chegasse mesmo a tocar um coração. Um coração. Poucas conseguem isto.
A bala sabia que, se não conseguisse, terminaria seus dias presa num tronco seco de árvore ou no mangue fedido ou num muro pichado.
Ela tinha medo de sentir-se só. De dizer adeus ao cano do revólver.
Ela queria ficar. Agarrava-se às paredes metálicas de seu amigo cano. Pediu para ficar.
O revólver prometeu-lhe pensar, mas sabia que era inútil.
Uma mão humana decidiria por eles a hora da partida. (Pausa).
Uma mão humana decidiria por eles a hora da partida.”
Até eles dormirem e o sol vir, corrigir meu olhar.

Mas a noite entra em meus aposentos e vem me fazer companhia. A noite não quer me deixar. Aí eu ponho a noite para dentro e fecho as portas.

(Um som ou fogo de artifício a faz retornar à consciência).

Outro susto e eu volto para o cárcere.
Fogos de artifício e algazarras, como estes que estamos ouvindo, devem anunciar na floresta quando eu me for. Quando vocês ouvirem os próximos fogos de artifício, pensem, talvez ela tenha ido embora. Alguém vai celebrar minha morte, alguém ficará feliz com meu fim. É duro pensar: quando eu morrer, alguém ficará feliz. Talvez façam festas, dança e bebedeira.
Mas pensem também que meu modo de caminhar neste planeta não mudou.
Difícil desistir desta aventura. Eles vão ter que me tirar da brincadeira à força.

(Sons de festas aumentam como se pessoas estivessem se aproximando da cena).

Eles estão quase aqui, explodindo fogos de alegria ao vir me ver. Seriam meus amigos ou meus assassinos que já antecipam a celebração de sua caçada? Hoje faz exatos cinco anos que decretaram minha morte. Meu novo aniversário. Hoje é o dia prometido de minha execução. Será que hoje se cumpre a profecia da selva?
Eu deveria não-ser-mais há cinco anos. Mas aqui estou. Com vocês.
Por via das dúvidas, é melhor cortar logo o bolo.
Cantem para mim. Cantem.

Pede que o público cante parabéns para ela. Canta junto.
Ao final apaga as velas.
No B.O., explode um balão.
Um tempo em B.O., sons de fogos de artifício.

Nélida Piñon

Um dos maiores nomes da literatura brasileira. Jornalista, romancista, contista, professora e carioca de Vila Isabel, Rio de Janeiro. Foi a primeira mulher, nos mais de 100 anos de existência da ABL, a integrar a diretoria e ocupar a presidência da Casa de Machado de Assis, no ano de seu centenário. Sua produção literária está publicada em mais de 20 países como: Alemanha, Itália, França, Espanha, Rússia, Estados Unidos, Portugal, México, e traduzida em dez idiomas. Entre seus principais romances estão: “Aprendiz de Homero”, “Vozes do Deserto”, “República dos Sonhos”, “Guia Mapa de Gabriel Arcanjo”, “A Casa da Paixão”, “Tebas do Meu Coração”, “A Força do Destino” e “A Doce Canção de Caetana”.

Entre os prêmios recebidos ao longo da sua carreira destacam-se: Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras 2005, Prêmio Jabuti 2005, Prêmio Internacional Juan Rulfo de Literatura Latino-Americana e do Caribe (1995 – pela 1ª vez para uma mulher e para um autor de língua portuguesa), o Bienal Nestlé (1991), Golfinho de Ouro (1990), o Prêmio José Geraldo Vieira da União Brasileira de Escritores de São Paulo (1987), APCA e o Prêmio Ficção Pen Clube, (ambos em 1985), entre outros. Recebeu medalhas e diplomas de várias instituições nacionais e internacionais, como o Lazo de Dama de Isabel la Católica, outorgado pelo Rei Juan Carlos da Espanha em 1992 e o Grau de Comendador da Ordem de Rio Branco, entregue pelo Presidente  Fernando Henrique Cardoso em 2002.

Ah, minha musa… Que musa! Através de seus livros e textos a língua portuguesa alcança aquela beleza que emociona. Ela tem cuidado de ourives com as palavras, apreço pelas frases bem feitas, bom gosto na criação de imagens poderosas, e faz tudo isso com a naturalidade de quem toma um cafezinho que acabou de sair.

Minha musa é de uma elegância e gentileza raras. Além do dom da escrita, tem o da fala… E como ela fala! Quantas histórias. Dá vontade de ficar quietinha ao seu lado, só escutando… Minha musa é um encanto. E generosa, me deu a honra de fazer a primeira adaptação teatral de um romance seu: A Força do Destino. Que destino o meu: levar ao palco as palavras de Nélida Piñon.

CARLA FAOUR

 

A força do destino de Nélida Piñon

Trecho do romance

A fuga foi minuciosamente planejada. Álvaro pedia que Leonora não esquecesse os detalhes apontados no rol de roupa. O importante é teu pai não descobrir, a nobreza é sempre esperta e convincente. Ambos sabiam que o velho nobre opunha-se àquela união. Leonora tinha a seu favor, além do amor de Álvaro, a lealdade da criada Curra, acompanhando-a na fuga. Jamais dispensaria seus serviços, já pelas manhãs trazendo-lhe a bacia de água quente, as abluções arrastavam-se por longos minutos.

O sangue dos dois esquentava-se tanto ao passar das horas que poderiam até preparar o chá com o seu vapor, que marcaram o encontro para meia-noite. Mais cedo não teriam contado com o socorro da lua. E se deixarmos para amanhã, terça feira, disse Leonora.

Amanhã, enfrentaremos os mesmos problemas, sem contar com os males do amor, Álvaro queria cancelar-lhe as dúvidas. E se não for assim, jamais nos uniremos. E se nos amássemos nos jardins mesmo, Álvaro, como a doce plebe? Por favor, Leonora, não enche sim. Como vou fazê-la minha mulher se não abandonamos ao menos as propriedades do teu pai? Não pense jamais que vou trepar sob o poder da tua casa invencível. (…)

O que será de minha honra, Álvaro? Que honra Leonora? Casando-se comigo, você recupera automaticamente a honra perdida com a fuga. É uma questão de horas. Leonora abraçava-o aflita, não será fácil, você precisa compreender, a virgindade de uma mulher é um castelo com ponte levadiça, só se ergue com a autoridade do rei. E daí, mais difícil será se ficarmos aqui, os lamentos só fazem crescer as águas do rio, elas transbordam, e quem há de beneficiar-se com tais exageros? Mas, Álvaro, dar o primeiro passo para deixar de ser donzela é sempre doloroso, é como enfiar a adaga no peito autoritário e bondoso do pai.

O Pai logo perdoa, minha amada, é tradição receber os netos de volta a casa. Duvido muito, Álvaro, nossa casa é orgulhosa, apesar de estar agora distante dos degraus do trono. Até as telhas foram feitas sob encomenda, estão registradas no catálogo de leilão da Sotheby´s. A gente não joga pela janela uma tradição tão antiga, que permite uma longa narrativa. Não se esqueça, eu serei a primeira numa dinastia a cometer este ato impensado. Por favor, Leonora, depois você conta a história familiar, que bem estou necessitado de conhecer em detalhes, uma genealogia como esta a gente arranca da árvore e alimenta-se dela como maçãs saborosas. Mas agora não temos tempo. Não vê como estamos fazendo barulho andando para lá e para cá, as cruzes de terra batida podem bem indicar as vezes que passeamos pela mesma área. Nem sei como teu pai, com fama de caçador de lobos, ainda não apareceu.

Não sabes, então? Porque está escrito que o pai não virá para impedir a nossa fuga. Não creio, Leonora, é bem capaz dele aparecer só para dar continuidade à nossa história. E que história, se o nosso enredo justamente prescreve a fuga, silenciosa e moderada, com os ingredientes de um futuro feliz. Que graça haveria do pai nos surpreender? Presta atenção, Leonora, se o velho não aparece, como levaremos a nossa história adiante? De que material a Nélida vai dispor para registrar em seus anais as nossas vidas? Admita, por favor, que não somos tão interessantes assim. O que a vida nos desfalcou não deu para nos aperfeiçoar. Afinal não somos os primeiros a contrariar as determinações paternas, e enquanto não vem a emancipação feminina, não seremos os últimos a fugir. E não será a Nélida, macaca velha… (O que é macaca velha / boba, expressão que vai se usar daqui a duzentos anos, é só esperar para ver, não sabe você que a língua é um fenômeno da moda, correspondente a uma saia, um gorro, um leque, o modelo de carruagem?), que há de preocupar-se conosco, a menos, é claro, que cedamos, diariamente material de engenho, que constrói açúcar e bolos arquitetônicos.

Irei para onde você ordenar, Álvaro. Cá entre nós, Leonora, por que está você a pentear-se agora, numa hora tão precária, piscando os olhos, testando essas pestanas postiças como posando para um retrato. Vamos, confesse, sua ingrata. Foi esta frase, para mim, seu futuro amante, ou para a Nélida, que nem conhece e apenas há pouco soube estar entre nós, usufruindo de nossa companhia? Por que suspeitas de mim, amado, futuro, amante? Não tens corpo bastante para provocar os devaneios de uma donzela, como eu, de origem nobre, é verdade, mas ainda assim mulher? Qual é, Leonora, que ritmo frásico quer você alcançar com esta voz de contralto? Pensas que não sei que estás a fazer olhar de quem quer ser lida, e suspira pela posteridade? Ah, querido eu que te julguei tão instruído, capaz de depositar em nosso leito, além do ardor, alguns canudos universitários. Saiba que, segundo os cânones de Salamanca, a tonalidade melodramática é a que melhor se ajusta aos sentimentos líricos. Está bem, mulher, vou fingir que te exibes para mim, e não para Nélida

Perdoem-me, leitores, se o meu nome ganha relevância na discussão ora presente. Posso assegurar-lhes que não havia autorizado Álvaro a denunciar uma presença, que fatalmente provocaria atritos e suspeitas. Não cheguei também a proibir-lhe meu nome. Pensei apenas que, perdido Álvaro por tanto amor, chegasse a esquecer-me. Vejo agora o quanto me equivoquei. No entanto, se não estava seguro do amor de Leonora, a ponto de não pensar que não seria ela mais a mesma a partir desta revelação, por que não guardou este segredo, ou suavizou minha presença com feroz descrição do meu rosto, dos meus gestos, tudo enfim que me extraísse a nobreza?

Pouco conheço a este oficial espanhol, fomos casualmente apresentados. Não suspeitava então que o garboso soldado viesse a nutrir-me com história de fácil locomoção, que pudesse transportar para o presente. Não fui branda com ele, quando nos conhecemos. Forneci-lhes alguns sorrisos, mas adverti-lhe que seria uma sombra implacável, não admitiria barreiras entre nós. Onde botasse ele o corpo, mesmo na intimidade de um catre, eu iria atrás, de nada lhe servindo disfarces. E esta caça permanente estendia-se também à sua amada. Pois já me confidenciara ele seus planos secretos. Pensava em fugir com Leonora, ao vencimento do terceiro dia.

Álvaro hesitou em ceder-me seus bens. Ao mesmo tempo, temia perder-me. Era um jogo perigoso. A verdade é que tinha o espanhol pretensões literárias, apenas não sabia dispor das palavras, sincronizá-las para que formassem um conjunto que jamais vazasse água. E, só em nome dessa vocação, pareceu-lhe natural participar de uma história que devia ainda realizar-se. (…)

Era um jogo perigoso. Bastava acenar com a cabeça e passaria eu a surpreender sua sevilhana a fazer amor a qualquer hora do dia. A distribuir fulgurações pela carne, na certeza de transcender a de Álvaro e, consequentemente, a minha também. A partir daquele momento, nenhum gesto da mulher, a deformá-la ou iluminar, mereceria meu descuido, destinava-se apenas a Álvaro. Tocando o ombro do homem eu lhe recordaria minha presença, ali estava a exigir minha parte.

Ah, Álvaro, acaso sabes o que há de significar uma partilha? Já sofreste de ciúmes, puseste os dedos em chamas nas narinas para livrá-la da aflição? Nada parecia consolá-lo. Chegava-lhe a modesta glória mediante os acertos feitos com uma estranha a cobrar-lhe a amada. Uma cronista que dispensava sua licença para integrar-se ao corpo de Leonora, podendo até amá-la sempre que ele a beijasse. Percebi-lhe o sofrimento. Mas não podia socorrê-lo. Propor-lhe o abandono do projeto. Cabia-lhe eleger entre a solidão com Leonora e a minha história registrando aquele amor.

Unicamente por minhas mãos ingressariam ambos na língua portuguesa, que é, como expliquei a Álvaro, um barco forte e lírico ao mesmo tempo. Um barco que até hoje singra generoso o Atlântico, ora consolando Portugal, ora perturbando o Brasil, e porque esta língua tem vocação marítima, entende bem os impropérios do vento, mais que qualquer outra se deixa levar pelos sentimentos. (…)

Jorge Furtado

Diretor e roteirista dos longas HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES (2002), O HOMEM QUE COPIAVA (2003), MEU TIO MATOU UM CARA (2005) e SANEAMENTO BÁSICO (2007), além de vários curtas-metragens premiados no Brasil e no exterior, como O DIA EM QUE DORIVAL ENCAROU A GUARDA (1986), BARBOSA (1988), ILHA DAS FLORES (1989), ESTA NÃO É A SUA VIDA (1991), ANGELO ANDA SUMIDO (1997) e O SANDUÍCHE (2000). Roteirista e diretor do episódio ESTRADA do longa-metragem FELICIDADE É… (1995). Para a TV Globo, dirigiu a série CENA ABERTA (2003), a minissérie LUNA CALIENTE (1998) e escreveu dezenas de roteiros: AGOSTO (1993), MEMORIAL DE MARIA MOURA (1994), A INVENÇÃO DO BRASIL (2000), etc., além da série COMÉDIAS DA VIDA PRIVADA, da qual também dirigiu o episódio ANCHIETANOS (1997).

O que me inspira é esse jeito simples e cheio de humor de se falar das idiossincrasias do homem. Para mim, o Jorge trabalha quase como um detetive, analisando questões do cotidiano sobre as quais não refletimos. E isso de transformar a nossa vida comum em poesia me dá mais vontade de escrever. JULIA SPADACCINI

RETROSPECTIVA – DE JORGE FURTADO

- O que você achou?

- Legal. Meio comprido.

- Também achei. E o começo é arrastado.

- Muito… Não acontecia nada! Quase dormi.

- Teve a imprensa móvel na China em 1045 e o que mais?

- Que eu lembre, só. Muito chato. Mas depois engrenou.

- É verdade. A partir da renascença melhorou bastante. E o final é um pouco
confuso.

- Estou morrendo de fome. Você já jantou?

- Não. A gente podia comer alguma coisa.

- Tem uma pizzaria muito boa aqui perto.

- Vamos lá?

- Vamos.

- Qual você mais gostou?

- O dezenove. Que beleza! Os impressionistas, a fotografia, o cinema…

- Cinema é vinte.

- Mas começou no dezenove.

- Dostoiévski, Tolstói, Flaubert, Dickens. A trilha também é ótima.

- Nossa! Chopin, Brahms, Beethoven…

- Beethoven é dezoito.

- Mas morreu no dezenove. O dezoito, aliás, também foi interessante.

- É verdade. A revolução francesa. Voltaire. Bach. É esta a pizzaria.

- Será que tem mesa?

- Parece que sim.

- Boa noite.

- Boa noite.

- Mesa para dois?

- Isso. Não fumantes.

- Por aqui, por favor.

- Obrigado.

- Querem pedir a bebida?

- Para mim, um chopp.

- Dois.

- Dois chopps. O cardápio.

- Obrigado.

- E o dezessete? Gostei muito do Rembrandt.

- Moliére. Newton. Ruim foi a morte do Shakespeare.

- E do Cervantes. E no mesmo dia! Achei isso um exagero. Eu gosto de
margherita.

- Podia ser meia margherita, meia calabreza.

- Pode ser.

- O dezesseis tem todos aqueles italianos: Da Vinci, Michelangelo,
Botticelli…

- Maquiavel. Mas o quinze é fraco.

- Fora os descobrimentos e Guttemberg…

- É pouco. O quatorze é melhor.

- O quatorze é bom. Giotto, Dante, Bocaccio.

- Já escolheram?

- Já. Uma grande, meia margherita, meia calabreza.

- Perfeito. Couvert?

- Eu não quero.

- Não precisa, obrigado.

- Com licença.

- O doze acho que foi o pior de todos. O treze ainda teve São Francisco e
São Tomás de Aquino. Mas o doze… Lembra de alguma coisa do doze?

- Bom… tem o Gótico. O Gótico é muito impressionante. Você não achou?

- É verdade.

- A gente nem falou do vinte.

- O vinte tem coisa demais, acaba confundindo tudo. O que você mais lembra
do vinte?

- Uma coisa só?

- É.

- Aquele clip do Michael Jackson

- Black or White?

- Isso. Você não achou impressionante aquilo?

- Achei.

- Mais que o Gótico?

- Bom… Parelho.

- Dois chopps?

- Isso!

- Ao próximo.

- Ao próximo.

FIM

Cristianne Fridman

Formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Mestrado em Português-Literaturas. Participou da Oficina de Roteiristas da TV Globo, 1996. Foi co-autora da novela Dona Anja, SBT. Colaborei no programa Gente Inocente, TV Globo, apresentado pelo Marcio Garcia. Depois escreveu Malhação, duas temporadas, com Andrea Maltarolli e Ricardo Hoffestetter. Colaborou na novela Coração de Estudante, TV Globo, em 2002, Emanuel Jacobina. Escreveu Carga Pesada. E na Record colaborou com a novela Essas Mulheres do Marcílio Moraes, 2005;  foi co-autora da novela Bicho do Mato, com Bosco Brasil, em 2006 e autora de Chamas da Vida, em 2008/09.

Comecei a trabalhar com Cristianne Fridman quando ela assinou sua primeira novela como cabeça, cinco anos atrás. Foi o tempo que precisou para ela se tornar a autora mais expressiva da Record. Eu, particularmente, admiro muito como a Cris desconstrói os clichês da teledramaturgia, como ela anseia em sua escrita pela aspereza do “real” sem abrir mão do extraordinário.“Chamas da Vida” foi um grande sucesso e tratava de diversos temas polêmicos: pedofilia, drogas sintéticas, aborto, rachas… Um dos personagens mais interessantes era o bombeiro Guilherme. Muito mulherengo e sem nunca se precaver, Guilherme acabava contraindo o vírus da AIDS. Guilherme penou um bocado antes de encarar de frente sua nova condição. Sem coragem de contar para sua noiva, se certifica de que ela não foi contaminada e se afasta dela abruptamente. É impedido de continuar servindo como bombeiro quando o comandante fica sabendo do HIV. O clímax da dor de Guilherme se dá na revelação a Brito, seu pai. O apoio de Brito será fundamental para Guilherme perceber que a vida continua.

CAMILO PELEGRINI

Chamas da vida de Cristianne Fridman

CAP 112

CENA 30. BOTECO. EXT. NOITE.

GUILHERME já alterado. Seu ROCHA tenso.
GUILHERME — O amor e a estupidez andam juntos!
ROCHA — Chamei o seu pai, Guilherme. Você está bebendo muito.
GUILHERME — Tem que se proteger, seu Rocha!
BRITO entra no bar, todo afobado.
BRITO — Guilherme, meu Deus… (T) Vamos embora pra casa, filho!
GUILHERME — Pai! Diz aí, o senhor também usa preservativo com a mamãe, não usa?
BRITO — Guilherme, por favor. .(P/ROCHA) Desculpa de novo, seu Rocha.
ROCHA — Vão com Deus.
BRITO —Vem filho, você já bebeu demais!
GUILHERME — Minha vida acabou, pai! Acabou!
BRITO — Não acabou não! Vem, vamos embora!
BRITO vai levando GUILHERME, que sai tropeçando.
CORTA EM CONTINUIDADE PARA
CENA 31. RUA. EXT. NOITE.
GUILHERME alterado e BRITO tentando conduzir ELE. GUILHERME um pouco agressivo, revoltado.
BRITO — Deixa eu te ajudar, filho, você pode cair.
GUILHERME ri, exagerada e debochadamente.
GUILHERME — (ALTO) Eu já caí!!! Eu já me estabaquei!!! Me arrebentei!!!
BRITO — Ô, meu filho… deixa eu te ajudar.
E BRITO tenta pegar no braço de GUILHERME, para ampará-lo, conduzi-lo. GUILHERME puxa o braço, não aceita o auxílio do pai.
GUILHERME — Ninguém pode me ajudar!!! Ninguém!!!
BRITO — Eu posso te ajudar, sim.
GUILHERME — (MAIS AGRESSIVO, REVOLTADO) Não pode!!! Não pode!!! Ouviu bem? Ninguém, nem o senhor, pode me ajudar!!!
BRITO — Pára com isso!! Eu sou seu pai!!! Você é sangue do meu sangue e sempre vou poder te ajudar!
GUILHERME — (IRRITADÍSSIMO) Sangue do seu sangue, é? Pois olha bem, pai!!!
E GUILHERME dá com a cabeça em um poste ou parede, causando um leve corte, do qual escorre sangue.
BRITO — Meu filho não faz isso!! Guilherme, o que deu em você?!
GUILHERME passa a mão no ferimento e mostra para BRITO a mão suja de sangue.
GUILHERME — Meu sangue ó!!! Podre!!! Podre!!!
BRITO — O que é isso, filho, pára…
GUILHERME — Isso aqui, pai, é o meu sangue podre!!! Eu estou contaminado!!! (GRITA) Eu tenho AIDS!!!! AIDS!!!! AIDS!!!
REAÇÃO de BRITO,
FIM
CAP 113

CENA 01. RUA. EXT. NOITE.

CONT. CAP. ANTERIOR. BRITO e GUILHERME. BRITO impactado.

BRITO — Aids?… Filho…
GUILHERME — Eu vou morrer!!! Eu vou morrer!!! Morrer, entendeu?
E cai aos prantos. BRITO paralisado. Pausinha na imobilidade DELE diante do FILHO até que BRITO rompe em um grito abafado, uma dor e sofrimento tão grande que implode o som da sua dor. O corpo de BRITO se retesa, as mãos se fecham, cerradas, o rosto tem a expressão como se fora uma mãe na hora do parto fazendo força pra expulsar do ventre o seu filho, dar-lhe a vida, a dor e esforço de parir.
BRITO — Nãoooo…
GUILHERME olha o PAI, o espelho da sua própria dor. E GUILHERME, como uma criança que cai e rala o joelhos, amedrontada com o machucado, suplica o socorro do pai.
GUILHERME — Pai… dói muito…eu não quero morrer…
BRITO — Meu filho…meu filhinho…
E BRITO abraça tão forte GUILHERME, o coloca com seu rosto recostado sobre o seu peito, aconchegando-o como um menino de cinco anos de idade, balançando o filho, protegendo-o no calor do seu colo.
BRITO — Papai está aqui…eu não vou deixar você morrer…. (FIRME/REVOLTADO/AMEDRONTADO) Deus não vai fazer isso… Não vai levar meu filho não!!! Não vou deixar, ouviu Deus? Ouviu? Não vai levar o meu filho não!!! Não vai!!!
BRITO, aconchegando o filho no colo, e GUILHERME chorando. Na dor imensurável de PAI e FILHO

CORTA PARA

Adriana Falcão

Adriana Falcão nasceu no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, voltado para o público infantil, “Mania de Explicação”, teve duas indicações para o Prêmio Jabuti/2001 e recebeu o Prêmio Ofélia Fontes — “O Melhor para a Criança”/2001, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2002, publicou “Luna Clara & Apolo Onze”, seu primeiro romance juvenil. Seu romance “A Máquina” foi levado aos palcos por João Falcão. Na televisão, Adriana colaborou em vários episódios de “A Comédia da Vida Privada”, “Brasil Legal” e “A grande família”, todos da Rede Globo. Adaptou, com Guel Arraes, “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, para a TV, posteriormente levado ao cinema.

Outros livros da escritora:“Pequeno dicionário de palavras ao vento” (2003); “A tampa do céu” (2005)-ilustrações de Ivan Zigg e, em conjunto com outros escritores,”Histórias dos tempos de escola: Memória e aprendizado” (2002); “Contos de estimação” (2003); “A comédia dos anjos” (2004); “PS Beijei” (2004); “Contos de escola” (2005); “O Zodíaco – Doze signos, doze histórias” (2005); “Tarja preta” (2005); “Sonho de uma noite de verão” (2007) e “Sete histórias para contar” (2008).

Uma das primeiras coisas que li de Adriana, foi o livro “Mania de Explicação”, que ganhei de presente de aniversário de uma amiga, por ela achar que tinha tudo a ver comigo. E não é que tinha mesmo? Conforme eu lia, imaginava que eu poderia ter escrito aquelas palavras, pensava muito parecido. A identificação foi imediata. Desde então, passei a acompanhar o trabalho de Adriana . Para mim, se identificar com as palavras do autor é se identificar com o próprio autor e sua maneira de enxergar o mundo, sua loucura, seus anseios, medos, paixões. Me identifico também com a mulher, o ser mulher, que Adriana retrata tão bem em suas obras. Acredito que muito das coisas que escrevo tem influencias de seu trabalho. Por isso, a primeira pessoa que pensei para me representar foi ela. E mais uma vez o texto que ela me mandou tem tudo a ver comigo: ‘Insônia’. Um fluxo de pensamentos que vão e vêm da mulher frenética que é, e pode ser, qualquer mulher que, nesse mundo cruel de responsabilidades e cuidados com a aparência, é obrigada a ser adulta.

Me lembrou “Um Dia Anita“, que escrevi com a Julia Spadaccini: Várias vozes num mesmo ser que não para de pensar, não consegue, não consegue e onde fui agora? Ah, sim! Tenho um grande prazer e orgulho de apresentar minha “musa inspiradora”: Adriana Falcão.

RENATA MIZRAHI

INSÔNIA de Adriana Falcão

Encenado por Marieta Severo para um quadro do Fantástico

Considerando-se que oito horas de sono é o ideal para uma pessoa, quase oito horas de sono deve ser quase o ideal. É lógico. Então se eu conseguir dormir até à meia-noite e acordar amanhã às sete e vinte, está ótimo. Ou quase ótimo. Eu vou acordar feliz, bem disposta, extremamente capaz, praticamente recuperada. Se eu dormir até à meia-noite. Ainda tenho cinco minutos. Cinco minutos é tempo de sobra pra um pessoa pegar no sono, quer ver? Vou pegar no sono em cinco minutos. Boa noite. Estou quase dormindo. Quase. Dormi. Não dormi? Acho que não. Mas vou dormir agora. Senão os pensamentos começam a entrar na minha cabeça e aí, minha filha, nunca mais. Um pensamento puxa outro, que puxa outro, que puxa outro, parece até que pensamento tem corda. O negócio é não deixar entrar o primeiro, tá vendo? Foi só começar a pensar em não pensar e quando eu vi já estava pensando em pensamento com corda. E de corda pra acorda é um pulo. E é melhor eu não pensar em acordar senão eu não consigo dormir. E eu preciso estar inteira amanhã. Ou vai ser uma tragédia. Calma, também não é assim. Eu ainda tenho cinco minutos pra pegar no sono. Se bem que agora já não faltam mais cinco, quantos minutos se passaram até agora? Esquece e dorme. Boa noite. Dormi. Não dormi? Se eu tivesse dormido não estaria pensando se dormi ou não dormi. Estaria dormindo. Isso prova que eu não dormi ainda. Amanhã vou acordar um lixo. E eu tenho um dia dificílimo pela frente, com uma lista enorme de coisas pra resolver: vinte minutos de meditação ao acordar, ginástica às oito, reunião às dez em ponto, consertar o carburador do carro, desmarcar o dentista, comprar tinta pra impressora, ligar pro Geraldo, esquece o Geraldo e dorme. Você já trancou a porta, já fechou o gás, já tomou seu banho, já foi na cozinha, já bebeu seu leitinho quente, já pensou em quantas calorias tem um copo de leite, quente, você já se preocupou demais por hoje. Você precisa dormir. Isso. Eu preciso dormir. Então, boa noite. Tem certeza que eu tranquei a porta? Tranquei sim. Tenho certeza. Fechou o gás? Claro. Não lembra? Logo depois do banho. Fechei o gás, fui na cozinha, bebi meu leitinho quente, quantas calorias tem um copo de leite? Eu não devia ter botado açúcar pra depois não ficar culpada. Depois eu fico culpada. Agora eu vou dormir. Já me preocupei demais por hoje e amanhã, não, eu não vou pensar no que tenho que fazer amanhã. Tenho um dia dificílimo pela frente, com uma lista de coisas pra resolver, e se eu não dormir até meia e noite e meia, uma hora, vou terminar pulando a meditação. É uma opção. Faço ginástica às oito e de lá vou direto pra reunião às dez em ponto no centro da cidade, vou de carro ou vou de táxi? Amanhã você resolve isso. Certo. Eu resolvo isso amanhã. Boa noite. Mas eu já tenho coisa demais pra resolver amanhã, assim não vai dar tempo. Será que não é melhor ir pro centro da cidade de táxi pra poder ir resolvendo outras coisas no caminho? Está resolvido. Amanhã eu resolvo o resto. Boa noite. Se eu conseguir dormir até uma e meia e acordar às nove, já está bom. Pulo a meditação, falto a ginástica, pego um táxi pro centro da cidade e aí só falta resolver o resto da vida. Mas eu tenho o dia inteiro pra resolver tudo. Ligar pro Geraldo, terminar o relatório, passar no supermercado, chamar o homem da televisão, esquece o homem da televisão e dorme. Já deve ser bem mais de uma. Olho o relógio ou não olho? Se eu olhar e for muito tarde, vou ficar nervosa. Mas se eu não olhar vou ficar imaginando que é mais tarde do que é na verdade e fico mais nervosa ainda. Esquece o relógio e dorme. Boa noite. Eu não vou pensar em amanhã, não vou pensar em hoje, não vou pensar nas horas, não vou pensar em nada. Nadinha. Um nada absoluto. Pensar em nada é pensar em alguma coisa? Olha aí eu pensando de novo. É por isso que eu não durmo. Durmo sim. Quer ver? Vou contar carneirinhos. Um carneiro, dois carneiros, três carneiros, quarto carneiros, pronto, agora o quinto carneiro enganchou e não quer entrar no meu pensamento. Vem, carneiro. Por favor. Tá fazendo o quê aí fora? Arranjou uma namorada, foi? Então já são mais dois carneiros, ele e a namorada, fora os filhotinhos que eles podem ter, olha só que maravilha, vão ser não sei quantos carneirinhos pra contar. Eu vou dormir na hora. Venham, carneiros. Um de cada vez. Podem entrar. Esses carneiros estão de implicância comigo. Eu estou começando a me irritar. Daqui a pouco eu cometo um carneiricídio. Assim que eles entrarem. O problema é que eles não entram. Esquece os carneiros e dorme. Será que se eu pensar em capim, os carneiros entram pra comer o capim? Capim. Capim. Capim. Capim. Carneiro come capim? Esquece o capim e dorme. Já devem ser quase duas e você aí acordada. Amanhã vai estar um lixo. Eu não vou estar um lixo amanhã pela simples razão de que vou dormir agora, quer ver? Boa noite, dormi, não dormi?, ainda não. Mas vou dormir imediatamente. É só não pensar em amanhã porque amanhã eu tenho um dia dificílimo pela frente com uma lista de coisas pra resolver: chamar o homem da televisão, comprar queijo ralado, dar uma passadinha no laboratório pra buscar os exames, descobrir se carneiro come capim, eu não acredito que já é de madrugada e eu estou aqui pensando em capim, esquece os pensamentos e dorme, vou dormir, você não pode pensar em amanhã, eu não vou pensar em amanhã, não vou mesmo, de jeito nenhum, amanhã eu tenho um dia difícílimo com uma lista de coisas pra resolver: descobrir se carneiro come capim…