A mulher do Homem Invisível

(Casa do Homem Invisível. Sua mulher chega do trabalho.)

Amor, cheguei!

Olá querida!

Onde você está?

Estou aqui.

Onde?

Aqui.

Onde?

Aqui.

Detesto quando você faz esse tipo de brincadeira. Você sabe que eu nunca consigo te achar.

Tá quente… Agora tá frio… Tá congelando!

Se você usasse perfume de vez em quando eu teria mais chance.

Tá esquentando… Tá quente!

Amanhã eu vou comprar uma tinta spray. Você me paga!

Tá esfriando…

Desisto! Isso é ridículo!

Se eu fosse uma cobra te picava. Eu tô aqui no sofá! Tô deitadão te esperando, meu amor, vem cá!

(Ela se joga no sofá. O Casal tem uma relação sexual explícita invisível.)

Eu estava morta de saudade! (fumando um cigarro) Nossa! Que delícia! Eu te amo!

Amor, eu tenho uma surpresa pra você!

Você comprou o meu presente?

Na verdade, eu comprei um presente pra nós dois!

O que é?

Uma roupa de borracha!

Roupa de borracha?

Você não entende? Durante todos esses anos você nunca me viu. Agora isso não será mais problema. Essa roupa veste todo o corpo. Vem com cabelo, unhas, dentes… O bigode é opcional. É uma roupa fabricada no Japão especialmente para homens invisíveis. Os japoneses pensam em tudo!

Quer dizer que eu vou poder te ver do jeito que você é?

Não é maravilhoso?

Então veste logo essa roupa! Quer me matar de curiosidade?

É rapidinho. Volto já já. Feche os olhos… Calma… Já estou quase pronto… Atenção… Quando eu disser já, você pode olhar… um, dois, três e… já!

(Entra o Homem Invisível. A Mulher fica decepcionada.)

Feliz Natal!!! (…) E então? Que tal?

Legal.

O chato não é ser bonito. O chato é ser gostoso. E aí gatinha? Tá preparada pra fazer um amorzinho bem gostoso? Só que agora é olho no olho!

Não me toque!

Mas o que é isso?

Onde você comprou essa roupa aceitam devolução?

Devolução? Você não gostou do meu visual?

Eu achei essa roupa pequena em você…

Pequena? Mas meu tamanho é esse. Eu não posso trocar.

Então joga fora! Com essa roupa você não pode ficar! Tira!

Você não gostou.

É que eu imaginava uma coisa diferente… eu te imaginava você mais alto, forte, os olhos…

O que tem meus olhos?

Eu os imaginava azuis.

(Ela olha dentro da sunga dele)

Definitivamente essa roupa é muito pequena. Tira!

Eu não vou tirar coisa nenhuma! É assim que eu sou e é assim que você tem que me aceitar!

Se você não jogar essa roupa no lixo, eu me separo de você!

Você tem que ver o lado positivo! Nós poderemos jantar fora sem que ninguém pense que você é louca por falar sozinha. Nós poderemos ir ao cinema sem que ninguém sente no meu colo pensando que a poltrona do seu lado tá desocupada. Nós finalmente seremos vistos juntos!

Esse é o problema! Eu não quero que me vejam com você. Você não é o homem que eu amo ou amava, sei lá. Na verdade, o homem que eu amava era uma fantasia, um sonho. Não adianta jogar a roupa fora. A magia se perdeu. O sonho acabou.

Você nunca me amou de verdade.

Adeus.

(A mulher pega uma mala e vai embora)

Adeus.

OFF: Desde aquela fatídica noite, o Homem Invisível se encontra desaparecido. Fontes afirmam que, desesperado, o pobre coitado pôs fim a sua própria vida. Por motivos óbvios, a polícia enfrenta enormes dificuldades para achar o corpo.

FIM

Manual prático para a compreensão do mundo (em cinco passos)

Natal lembra um monte de coisas. E rever o mundo é uma delas. Minha cena dessa semana é pra ser encenada por você que está lendo agora. Eu sei que é difícil (nunca disseram que ser ator é fácil). Mas se você fizer pelo menos uma das ações propostas na cena já tá valendo. Vamos tomar coragem e sentir… quer dizer, “compreender” o mundo? (pode começar amanhã, segunda-feira)

1 – Após acordar, escove os dentes usando a sua mão esquerda (no caso de destros), a sua mão direita (no caso de canhotos) ou um de seus pés (no caso de ambidestros).

2 – Ao sair de casa, pare perto de um banco de sua casa. Cantarole uma antiga canção de ninar para o segurança.

3 – Depois de pagar por suas compras, agradeça ao caixa do supermercado com um beijo de esquimó*.

4 – Faça uma marca de pé no teto de sua sala e chame uma visita. Observe sua reação.

5 – Assista a um filme de trás para frente e, em seguida, narre-o para alguém.

*Glossário
Beijo de esquimó: demonstração afetuosa em que dois seres dotados de órgão olfativo externo encostam repetidamente seus respectivos nasais através de sucessivos movimentos de cabeça da direita para a esquerda.

Ho, ho, ho!

João – O que você ganhou de Papai Noel?

Manuel – Papai Noel não existe, idiota.

João – Idiota é quem fala.

Manuel – Você fala, então é idiota.

João – Não, idiota. Idiota é quem fala idiota.

Manuel – O que?

João – O que o que? (…) Quem disse?

Manuel – Quem disse o que, cabeça de bagre.

João – Que Papai Noel não existe.

Manuel – Meu pai.

João – E tudo o que o seu pai diz é verdade?

Manuel – Claro que é, mico fedido.

João – E o que o meu pai diz também é verdade?

Manuel – Os pais sempre sabem a verdade.

João – Tem certeza?

Manuel – Claro que sim, mamute.

João – E você não fica triste?

Manuel – Do que?

João – De papai Noel não existir?

Manuel – Não. Eu sou uma criança bastante adulta para acreditar em coisas que não existem.

João – Então, o seu pai e o meu pai sempre dizem a verdade?

Manuel – Sempre, catarro podre.

João – E você não fica triste.

Manuel – Já disse que não, ovo nojento.

João – Não fica triste de saber que sua mãe é uma galinha?

Manuel – Quem te disse isso?

João – Meu pai. E os pais nunca mentem.

Longa pausa. Manuel coça a cabeça e em seguida responde.

Manuel – Talvez a rena do nariz vermelho exista…

João sorri satisfeito.

Fim

Especial de Natal

(Kid tomando cerveja com Tina, na varanda de seu apartamento)

Kid: O que tem de especial nesse natal? Continuo sem um puto no bolso, dura que nem coco. Matando cachorro a grito.

Tina: Ih, Kid. Tá chata!

Kid: Chata, uma pinóia. O sistema capitalista faz a gente querer mais do que podemos ter e se não temos, um vazio aterrador se instaura em nossa alma e tudo perde o sentido e beleza, percebe?

Tina: Tá deprê.

Kid: Eu não tô deprê.

Tina: Kid Deprê.

Kid: Pára com isso…

Tina: Deprê total.

Kid: Talvez eu esteja meio deprê. Numa bad trip de leve. Coisa do final de ano. Ficamos mais reflexivos. Fazendo um balancete. E no meu balancete saí devendo.

Tina: Foi um ano bom. Não posso reclamar.

Kid: É… Mas eu queria estar agora numa ilha da Grécia e não aqui com você bebendo cerveja, entende? Nada contra você, amiga.

Tina: Sim. Entendo, claro. Eu queria estar em Paris, ao lado de um francês charmoso recitando poesia pra mim… Ia ser lindo. Mas o lugar mais sofisticado que já fui, foi Cachoeira de Macabú. E ainda assim, foi com o Edson. Lembra do Edson? Erro total. Deleta!

Kid: O Edson era amigo do Mauro?

Tina: Exatamente.

Kid: Eu namorei o Mauro.

Tina: Eu sei disso. No natal passado você me telefonou da delegacia porque o Mauro havia sido preso por porte de drogas dentro na fantasia de Papai Noel.

Kid: Menina… É verdade. Que horror… Hahhahahahahahaha Um calor do inferno, o Mauro de Papai Noel, e eu tentando convencer os tiras da minha inocência… Nunca mais vi o Mauro…

Tina: Ele era bonitão.

Kid: Era. (grita) Ai! Que saco! Estamos feito duas velhas saudosistas, que relembram coisas traumáticas ainda por cima!

Tina: É mesmo…

Kid: Vamos mudar esse natal.

Tina: Como?

Kid: Eu tenho uma idéia.

(uma hora depois, na Lagoa Rodrigo de Freitas)

Tina: Ai Kid, você acha mesmo que é uma boa idéia roubarmos uma bola de natal da árvore da Lagoa…? Ai amiga, tô com medo…

Kid: Aventura, amiga! Onde está seu espírito natalino?

Tina: Amiga, você passou seu outro natal na cadeia, quer repetir a dose nesse?

Kid: Tina Basset! Me escuta: Uma bola dessa vale uma fortuna. A gente vende no mercado ilegal e descola uma grana. Daí, passamos o ano novo em Trancoso, bebendo drinque dentro do abacaxi.

Tina: Adoro drinque dentro do abacaxi! Acho digno. Quando vem com guarda-chuvinha , então, acho um luxo!

Kid: Pois é, carinha gorda! Se a gente não se arriscar, vamos passar mais um ano espremidas em Copacabana, pegando chuva e comendo areia. Você quer comer areia?

Tina: Eu não quero comer areia!

Kid: Quer brindar com sidra cereser?

Tina: Isola! Fico toda arrepiada!

Kid: Quer ver gente pegando santo na virada do ano?

Tina: Tá amarrado.

Kid: Quer ficar duas horas e meia, dentro de um ônibus lotado pra voltar pra casa, começando o ano já na batalha?

Tina: Ok, Kid, já concordei contigo, chega. Vamos pegar essa bola de uma vez!

Kid: O lance é prático. Eu pego um pedalinho e você pega outro. Estamos passeando normalmente pela Lagoa, normal. Daí você cai na água e simula um afogamento. Chama bastante atenção. Nessa hora, enquanto todos estiverem ocupados em te salvar, eu estarei roubando uma bola da árvore.

Tina: Ih… Não sei não. Por que eu é que tenho que cair na água?

Kid: Porque você é atriz! Saberá simular brilhantemente, sem que ninguém desconfie de nada…

Tina: É verdade, sou muito boa atriz.

Kid: Você é salva e quem sabe até paquerada pelo seu salvador. A gente despacha a bola na internet e compra a nossa passagem pra Trancoso!

Tina: Viva a Bahia!

( Assim como o plano, Kid e Tina pegam um pedalinho cada uma e vão passear pela lagoa iluminada. Kid dá o sinal. Tina cai na água.)

Tina: Socorro! Socorro!

(ninguém vai salvar Tina)

Tina: Kid! Socorro! Tô me afogando de verdade!

Kid: (do pedalinho) Sua burra! Porque você não me disse que não sabia nadar?!

Tina: (se debatendo dentro d’água) Uma boa atriz nunca empoe barreiras a um personagem! Socorro!

Kid: Espera só mais um minuto! O vigilante da árvore vai te salvar!

Tina: Kid! Eu vou morrer afogada até lá!

Kid: É bom, fica mais real!

Tina: Socorro!

(ninguém aparece, Kid pula na água e salva a amiga. As duas saem ensopadas da Lagoa)

Tina: (Deitada na calçada, colocando água pra fora) Amiga, você salvou a minha vida…

Kid: (tirando resíduos de vegetação do cabelo) Sei não, Tina. Essa água tá tão suja , que é capaz da gente pegar uma ziquizira pra fechar o ano com chave de ouro!

(tempo)

Tina: (tossindo) Trancoso nem é tão legal assim…

Kid: (triste) Verdade. E Bahia é bom no carnaval…

Tina: E Copacabana é internacionalmente conhecida. Não tem sentido a gente sair daqui, quando o mundo inteiro ta afim de vir pra cá…

Kid: Verdade… E o melhor eu já tenho: uma amiga querida que eu posso contar sempre, pra gargalhar junto, pra chorar junto, pra rachar o taxi junto, pra ressacar junto, pra ser feliz junto! Te amo amiga!

(as duas desatam num choro)

Tina: (canta emocionada) “Amigo é coisa pra se guardar, do lado esquerdo do peito…”

Kid:(corta) Ok, amiga! Já deu. Feliz natal, carinha gorda!

(se abraçam)

(nesse momento pára um carro, bem na frente delas. Vidro fumê. O motorista desce o teto do carro, é um conversível vermelho.)

Motorista: (com sotaque americano) Oi… Vocês sabem pra onde fica Ipanema? Eu e meu amigo estamos perdidos… Enfim.

Tina: (sussurra pra Kid) Nossa, ele se parece tanto com o Kevin Bacon e o amigo dele com o Kiefer Sutherland .

Kid: (entre os dentes, transtornada) É porque é o Kevin Bacon e o Kiefer Sutherland, sua tapada.

Kevin: Então? Vocês sabem?

Kid: Claro. A gente pode levar vocês até lá, se quiserem…

Kiefer: Seria um prazer…

(as duas entram no conversível e partem rumo a Ipanema, rumo à felicidade frívola)

Fim

Feliz natal!

E feliz aniversário aos amigos amados Vinicius Arneiro, Lucianna Meier, Felipe Abib e Tatynne Lauria. E um beijo enorme na pequenina Marieta, seja bem vinda ! Um novo ano cheio de energias positivas e proteção!
Bjô

Um Natal nonsense

Para ler, cantar e rebolar

Carlos Eduardo Figueira (ANDRÊAS GATTO) odeia Natal. Odeia festa. Odeia música. Odeia mais ainda festas natalinas com música. Não suporta festas natalinas com música e parentes na SUA casa usando gorrinhos de papai noel.

Este será o natal de Carlos Eduardo Figueira, pego de surpresa ao chegar em casa e ver toda a parentada bêbada e na farra.

Carlos entra e a gritaria vira um silêncio fúnebre. Estão todos paralisados: a tia solteirona sentada no piano bebendo vinho (CARINE KLIMECK), a vizinha solista da igreja num agudo estridente (SYLBETE SORIANO), as crianças, uma sobrinha lírica e outra funkeira, correndo pela casa sujando o tapete (BRUNELLA PROVVIDENTE E DOMINIQUE ARANTES), o cunhando limpando a mão suja de peru na almofada (FELIPE HERZOG), a esposa fritando rabanada na cozinha (PAULA ALEXANDER), a sogra embrulhando um cd da Simone pra dar de presente de amigo oculto (KELZY ECARD), um bandido perigoso rondando a casa (ITALO SASSO), o papagaio berrando “Noel! Noel” (ANDRÈ SIQUEIRA), o sogro misturando cerveja e licor (LAURO GÓES). Todos se olham. Tensão.

Carlos (enfurecido, mas tentando se controlar)

Porra galera, eu falei que não gosto de festa… Quantas vezes eu já disse isso pra vocês. Eu pensei que..

Todos (diante do gancho. cantam, rebolam e dançam)

…Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma

A vizinha num solo

Brincadeira de papel!

A sobrinha funkeira

Já faz-faz-faz-faz
Faz tempo que eu pedi
Faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel
no-no-no-no-não vem

Carlos

Porra galera! Porra… Eu gosto de vocês, com certeza

Todos

Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem!

Carlos

Porra galera!

Todos congelados e silêncio mortal.

Carlos

Porra galera, assim não dá, respeita um pouquinho a noite…

Todos abraçados cantando de frente pra Carlos

…noite feliz! Noite feliz!
Òoooooooooo senhor

Um solo da sogra bem desafinado

Deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeus do amor

Todos abraçados. O sogro

Pobrezinho nasceu
em Xerém

E caem na gargalhada

Feeeeeeeeez na Lapa
Jesus nosso bem!
Doooooorme em paz
Òoooooooo jesuuuuuus us

A sobrinha lírica

Dorme em paz
Óoooooooooo Jesus

Carlos

Porra galera! Porra… Custa se reunir na casa de outro? Custa respeitar um pouquinho a minha decisão? Sei lá, entendeu? Hoje a noite…

Todos em pares num forrozinho

Hoje a noite é bela
Juntos eu e ela
Vamos à capela
Felizes a rezar
Ao soar o sino
o sino pequenino

A Tia solteirona faz um solo instrumental do refrão enquanto a família pega taças de cristal e colherinhas pra fazerem de instrumento. Todos cantam e batem

Bate o sino pequenino
sino de Belém
Já nasceu o Deus menino
para o nosso bem

Sons de tiro. A família chega na janela e vê o ladrão cantando a música como no filme Dançando na Chuva, sapateando

Paz na terra pede o sino
Alegre a cantar
Abençoe Deus menino
Este nosso lar

Carlos

Porra galera, porra galera… por favor! Respeitem! Eu não quero dar sermão em ninguém, não quero parecer grosso nem arrogante; imagino que vocês estejam felizes, mas eu não gosto, não gosto de Natal. Esse ano eu não tô afim. No natal passado eu já deixei…

A bisavó entra pela cozinha, com fumaça e cantando no microfone, às lagrimas

Deixei meu sapatinho
Na janela do quintal
Papai Noel deixou…

(interrompe para chorar)

Papai Noel deixou
Meu presente de Natal

Todos batem palmas

Como é que Papai Noel
Não se esquece de ninguém

A esposa vem da cozinha segurando o prato de rabanada numa interpretação contida, porém forte

Seja rico ou seja pobre
O velhinho sempre vem
Seja rico ou seja pobre
O velhinho sempre vem

Carlos

Porra galera, PORRA! Chega! Puta que pariu! Quero que cada um vá tomar no olho do seu cú! Caralho, que foda! Porra! Porra, puta que pariu! Gente escrota! Só gritando pra vocês me ouvirem? Que merda! É Natal, eu sei, é natal… (e arranca o microfone da bisavó, e canta num solo)

Natal, Natal das crianças
Natal da noite de luz
Natal da estrela-guia
Natal do Menino Jesus

Os amigos funcionários da empresa aparecem saindo da chaminé (PÚBLICO)

Blim, blão, blim, blão,blim, blão…

Simone canta na televisão no especial do Roberto Carlos

Bate o sino da matriz
Papai, mamãe rezando
Para o mundo ser feliz

Todos de mãos dadas!

Blim, blão, blim, blão,blim, blão…

Carlos à capela

O Papai Noel chegou
Também trazendo presentes
Para a vovó e o vovô.

FIM E BOAS FESTAS!

O Natal de Alumia

Alumia é uma travestizinha muito tristonha e comedida.
Zanzara é uma versão baiana da Shakira, também travesti, obviamente.
É natal. Apesar do verão, a rua da Glória está gélida esta noite, chove fininho.

A- Noite parada…

Z- Vem um carro lá atrás.

A- Não é carro. É combi.

Z- E combi não é carro, ô retardada?

(PAUSA – sons do carro estacionando)

A- Não me chama de retardada que eu não gosto.

Z- Parou.

A- Você escutou o que eu disse?

Z- A combi parou, Alumia.

(Um CARTEIRO se aproxima muito irritado com a chuva fina.)

C- Zanzara é uma de vocês?

Z- (DESAFIA) Quem é que quer saber?

C- Encomenda pra Zanzara. Mandaram entregar aqui.

Z- (SUBITAMENTE SIMPÁTICA) Surpresa do coronel? Deixa ver!

C- Larga! Solta o pacote ou te encho de porrada!

A- Deixa de ser tosco! Zanzara é ela mesma!

Z- Me dá!!! Me dá!!!

C- Não é assim que funciona, metendo a mão assim. Tem que assinar aqui primeiro.

(CARTEIRO entrega a prancheta para ZANZARA assinar)

Z- Dá logo isso aqui!!!

(ZANZARA abre o pacote, é um saco enorme de castanhas de caju)

A- Ué? Não é perfume?

Z- Castanha de caju! A melhor da Bahia!

C- Vocês são travestis?

Z- Chispa! Chispa! Já fez o seu serviço. Tem gorjeta não.

A- A não ser que tope uma chupeta.

C (ESPERANÇOSO)- Sério?!

Z- Ela está brincando com você! Some daqui!

(CARTEIRO se afasta cabisbaixo. ZANZARA abre o pacote e dá uma castanha de caju para ALUMIA)

Z- Toma. Feliz natal.

(ALUMIA come uma castanha. Se delicia)

A- Nossa! Fantástica!

Z- Coronel manda pra mim.

A- Dá mais uma.

Z- Tira a mão!!!

A- Que foi? Vai regular essa porcaria?

Z- Essa porcaria aqui eu vou distribuir pros cliente.

A- Como assim?!

Z- Funciona! Natal retrasado fiz pela primeira vez. Agora eles lembram de mim. Natal passado voltaram todos! Foi por causa da castanha.

A- Enfia essa m&*¨$&(¨no teu r&$%#))abo.

Z- Um Vectra!!! Um Vectra ao longe!!! Só pode ser ele!!! O Paulinho Cristiano!!!!

A- Que chuvinha fina de m&$¨*(%&.

(ZANZARA se afasta saltitante, algumas castanhas caem pelo caminho.)

Z- Paulinhoooo! Paulinhoooo!

(ZANZARA já foi. ALUMIA olha o chão aflita)

A- Caiu tudo no chão…

(ALUMIA não resiste e cata as castanhas e enfia na boca.)

A- Droga. Molharam tudo.

(ALUMIA vislumbra uma castanha seca, que caiu num lugar estratégico e não se molhou)

A- Uma sequinha! Que bom!!!

ALUMIA saboreia sua castanha sequinha… luzes coloridas enchem o palco, música natalina ensurdecedora. ALUMIA feliz…..

FIMMMMMMM