Noiva para sempre

Adaptação do conto de A Vida Como Ela é de Nelson Rodrigues

TARDE DA NOITE NO APARTAMENTO DE DR. MACIEL E DONA ROSINHA

DR. MACIEL: Vem cá, Rosinha, vem cá.

MULHER VAI BOCEJANDO

DR. MACIEL: Senta aí. Vamos bater um papinho.

ELE COLOCA UM CIGARRO NA PITEIRA, RISCA O FÓSFORO, TRAGA E FALA EM VOZ BAIXA NO OUVIDO DE ROSINHA, QUE ESTÁ BOCEJANDO.

DR. MACIEL: Como é esse negócio?

DONA ROSINHA: Que negócio?

DR. MACIEL: Desse rapaz. Maurício freqüenta nossa casa a quantos meses, mais ou menos?

DONA ROSINHA: Seis.

DR. MACIEL: Pois é. Seis meses. E, até agora, nem eu, nem você sabemos a quem ele prefere, se Dorinha, se Elena. Como é isso? Não está direito!

DONA ROSINHA: Paciência.

DR. MACIEL: Alto lá! Paciência, uma ova! Você se esqueceu que está em jogo a felicidade de nossas filhas? Maurício trata a s duas da mesma maneira. E se ambas gostarem dele? Já imaginaste o angu-de-caroço, o bode?

DONA ROSINHA: É mesmo! Não é que você tem razão!

DR. MACIEL (muito nervoso): Eu já estou vendo as minhas filhas se devorando por causa do mesmo homem! Deus me livre! Amanhã eu vou falar com esse cara!

NO DIA SEGUINTE

DR. MACIEL: Você está todos os dias, em minha casa. Isso nos dá muito prazer, claro. Ao mesmo tempo precisamos considerar a situação de minhas filhas. São novas. São bonitas.

MAURÍCIO: Perfeitamente.

DR. MACIEL: Por outro lado, você não é nenhum Boris Karloff, nenhum Frankenstein. Pode impressionar, qualquer mulher, inclusive as minhas filhas. E é natural que eu, como pai, queira saber o seguinte: qual das duas você prefere? Dorinha ou Elena?

MAURÍCIO: Não sei.

DR. MACIEL: Como?

MAURÍCIO ERGUE-SE. ANDA UM POUCO. VOLTA A SENTAR. PASSA O LENÇO NO SUOR DA TESTA. REPETE.

MAURÍCIO: Ainda não sei. Porque são duas meninas tão formidáveis que, francamente, não sei como escolher e…

DR. MACIEL: Sinto muito, mas dou-lhe 24 horas para você se decidir. Ou uma ou outra. Do contrário, você deve se afastar da minha casa.

MAURÍCIO SAI DALI TONTO. NO DIA SEGUINTE COM SEU AMIGO ALÍPIO.

MAURÍCIO: Estou apaixonado. Apaixonadíssimo. Mas não sei por quem.

ALÍPIO: Sossega!

MAURÍCIO (dramático): Sob minha palavra de honra! Tanto pode ser Elena, como Dorinha!

ALÍPIO: Ou as duas.

MAURÍCIO: Como?

ALÍPIO (acendendo um cigarro): Sim, senhor! As duas, por que não? Ou tu pensas que não pode amar duas, três, quatro, até cinco mulheres, ao mesmo tempo?

MAURÍCIO (amargurado): aqui entre nós, se fosse coisa que eu pudesse, te juro que me casava com as duas.

ALÍPIO: Tira par ou ímpar.

TEMPO. MAURÍCIO PENSA E DE SÍBITO FALA.

MAURÍCIO: Elena!

ALÍPIO: Elena?

MAURÍCIO: Elena.

ALÍPIO: Estás cetro disso, rapaz, a coisa é séria.

MAURÍCIO: Elena.

ALÍPIO: Se é o que dizes…Mas queres que eu banque o profeta?

MAURÍCIO: Mete lá.

ALÍPIO: De qualquer maneira, ficarás com as duas. Uma será a tua esposa. E a outra dará em cima de ti, mais cedo ou mais tarde. Toma nota.

NO DIA SEGUINTE ABRAÇADO COM ELENA. ELES SE BEIJAM

Elena: Só quero uma coisa de ti.

MAURÍCIO: Fala.

ELENA (suspirando): Se tiveres que me trair, algum dia, escolha qualquer mulher. Menos Dorinha.

ELA VOLTA A BEIJÁ-LO.

MÚSICA. PASSA DORINHA E VÊ O CASAL. APENAS MAURÍCIO PERCEBE DORINHA. OS DOIS SE OLHAM. DORINHA TEM UM OLHAR DE SONHO. MAURÍCIO VOLTA A ATENÇÃO À ELENA. DORINHA OLHA MAIS UMA VEZ PARA O CASAL E SAI.

DIA DO CASAMENTO. ELENA ESTÁ EXPERIMENTANDO O VESTIDO DE NOIVA JUNTO DE ROSINHA, DORINHA E DR. MACIEL. DORINHA SEMPRE CALADA.

ELENA: Não é lindo?

DONA ROSINHA: Lindo.

DR. MACIEL: Um petisco!

ELENA: Queria ser uma noiva eterna, mamãe. Uma noiva eterna!

ELENA E DONA ROSINHA CONTINUAM FALANDO DO VESTIDO. DR MACIEL PUXA DORINHA NUM CANTO.

DR. MACIEL: Mas que ar é esse, minha filha?

DORINHA: Não me pergunte nada meu pai, eu não quero nem devo falar.

DR. MACIEL: Então muda essa cara.

DORINHA: Quem sabe se eu também não tenho meu vestido de noiva?

DR. MACIEL: Não dá idéia.

DORINHA: Eu não vou a esse casamento e não me pergunte por quê.

NA LUA DE MEL.

ENTRAM NO NOVO LAR, MAURICIO CARREGANDO ELENA NO COLO. SE BEIJAM ARDENTEMENTE. FOCO NELES. ELE A CARREGA PARA UM LADO DO PALCO, ONDE ABRE OUTRO FOCO. ELES ENCONTRAM DORINHA VESTIDA DE NOIVA, COM UM PUNHAL NA MÃO. DORINHA OLHA PARA ELES E FALA PARA ELENA DE UM JEITO MACABRO.

DORINHA: Nem meu nem teu! Ouviu? Nem meu nem teu!

DORINHA CORTA OS PULSOS.

ELENA GRITA.

DORINHA (antes de morrer, macabra): Escuta. Quero ser enterrada de branco! Vou ser noiva para sempre! Pra sempre! Noiva pra sempre!

DORINHA MORRE COM OS BRAÇOS EM CRUZ.

ELENA GRITA ENLOUQUECIDA.

FIM.

Feia demais

(Herivelto em pé no centro do palco vestido de noivo. Mulheres do lado esquerdo e direito do palco chorando copiosamente. Som de marcha nupcial. Jacira, a noiva, entra solene como um rito, da platéia. Um coro trágico e fofoqueiro de mulheres corre e se posiciona ao redor de Herivelto. Clima de Bodas de Sangue de Garcia Lorca!)

Mulher 1: Você está namorando aquela pequena?
Herivelto: Estou.

(Coro trágico pasmo num quadro de terror e espanto)

Coro: Não é possível, não pode ser!

Herivelto: Por quê?

Coro: (feroz) Porque é um bucho horroroso! Arranja uma pequena melhor, mais interessante, bonitinha!

Herivelto: Vou me casar!

Coro: Amarra-se o burro à vontade do dono. Pois que se case e seja feliz!

Herivelto: O que decide na vida é o peito! Vou me casar no peito!

Coro: A face da pequena é o eufemismo da desgraça. Feia como a necessidade! Um Pavor!

Herivelto: Vou me casar no peito! No peito!

Coro: (resignado) Desgosto é o sabor do arroz que jogaremos na noiva. Com unhas e dentes nos agarraremos ao melancólico consolo: Ela não é bonita, mas tem bom coração.

(Coro volta para as laterais do palco. A noiva finalmente chega ao altar. Herivelto com a sofreguidão dos apaixonados retira o véu da noiva. Reação de horror dos convidados.)

Jacira: Com você, meu filho, eu topo tudo!

(Herivelto e Jacira beijam-se com fervor.)

Coro: Nããããããããooooo!

(Herivelto e Jacira não escutam o coro e continuam o beijo fervoroso. Reação dos convidados jogando arroz nos noivos. Convidados saem. Noivos continuam na mesma posição)

Narrador: Ninguém compreendia como um rapaz bem apanhado como o Herivelto, a tivesse escolhido entre todas.

Coro de mulheres: (mostram apenas as cabeças vindas da coxia) Essa menina tem dinheiro?

(Narrador reage negativamente. Reação de horror do coro das mulheres que volta para a coxia)

(Jacira enrosca uma das pernas em Herivelto. Os dois se movem como se estivessem fazendo sexo. Soltam-se com o deleite dos apaixonados num suspiro delirante)

Narrador: Só no sétimo ou oitavo dia de lua-de-mel é que Herivelto começou a desconfiar da verdade. Jacira estava diante do espelho espremendo espinhas. E fazia isso com um deleite uma volúpia extraordinária. Em silêncio ou, assoviando, o rapaz contemplava a mulher. Sem querer, sem sentir, estava fazendo um julgamento físico de Jacira.

Jacira: Ih, meu filho! Estou com uma pele infame!

Narrador: A partir de então, quando estava em casa, ele não fazia outra coisa senão espiar, espreitar a fealdade da esposa.

Herivelto: Eu estava cego, completamente cego!

Narrador: Agora olhava Jacira e se saturava de sua falta de graça e de feminilidade. Por outro lado, começava a experimentar uma irritação doentia e contínua. Um dia, em que Jacira estava particularmente desinteressante fez uma pergunta perversa.

Herivelto: Será que uma mulher feia não desconfia da própria fealdade?

Jacira: (rindo) Que nada! Pergunta a um bucho se ele é um bucho, pergunta?

Narrador: Durante dois ou três segundos, quase Herivelto a interpela.

Herivelto: E tu?

Narrador: Conteve-se, porém. Mas sua ilusão extinguira até o último vestígio. Sabia, agora, que sua mulher, a mulher com quem se casara para sempre, era…

(narrador e Herivelto devem falar juntos)
Narrador: Feia, excepcionalmente feia, feia de uma maneira constrangedora, intolerável.

Herivelto: Feia, excepcionalmente feia, feia de uma maneira constrangedora, intolerável.

(Somente narrador)
Narrador: Começou a ter resistências com Jacira, uma espécie de alergia, de incompatibilidade física tremenda. Precisava desabafar.

Herivelto: Eu estava bêbado, completamente bêbado quando casei!

Narrador: Fora de si, apertando a cabeça entre as mãos, gemia.

(foco acende em Jacira numa pose grotesca)

Herivelto: (desesperado olhando para Jacira) Feia demais! Demais!

(foco acende em Jacira numa nova pose grotesca)

Herivelto: (desesperado olhando para Jacira) Feia demais! Demais!

(foco acende em Jacira numa outra pose grotesca)

Herivelto: (desesperado olhando para Jacira) Feia demais! Demais!

Narrador: Certos deveres ou hábitos de marido já o enfureciam. Por exemplo: Ao sair para o trabalho e ao voltar acostumara-se a beijar a mulher na boca. E se, agora, simulava um engano, uma distração e roçava os lábios na face de Jacira, recebia a reclamação amorosa:

Jacira: Na boca, meu filho, na boca!

Herivelto: (comentando com o narrador) Esse beijo na boca se transformou, com o tempo, numa fobia.

(Herivelto e o Narrador dão um passo para frente. A luz da platéia acende)

Herivelto: (olha as mulheres da platéia e comenta com o narrador) Isso é que é corpo! Que rabinho! Olha que espetáculo!

(Herivelto despede-se do narrador e senta numa das duas cadeiras no fundo do palco. Jacira vai ao encontro de Herivelto com ares de strip-tease, numa fome de leoa. Jacira senta no colo de Herivelto)

Jacira: Tu gostas da tua gatinha, gostas?

(Herivelto retirando Jacira do seu colo e colocando-a na cadeira ao lado)

Herivelto: (rosnando) Sossega. Há hora para tudo.

(Mudança de luz. Herivelto e Jacira agem como se estivessem num cinema)

Jacira: (falando alto) Eu não acho a Lana Turner nada essas coisas. Vulgar. (tempo) A Barbara Stanwick é tão em graça!

Herivelto: (caindo das nuvens, furioso) Barbara Stanwick sem graça?! Você bebeu? (Levanta-se. À parte) Tive vontade de fuzilar minha esposa com a pergunta: Se ela é sem graça o que você é? Mas, a situação matrimonial tornara-se insolúvel. Agora sou dominado por uma obsessão.

(Várias mulheres insinuantes do lado oposto do palco acenam para Herivelto)

Herivelto: Tenho que arranjar uma cara!

(Herivelto joga um beijo para as mulheres insinuantes. Deita-se no chão. As mulheres fazem fila. Uma mulher de cada vez passa por cima dele sacudindo a saia no rosto de Herivelto. A última levanta Herivelto. Herivelto abraça a última mulher e dá um libidinoso tapa nas suas nádegas)

Narrador: Arranjou uma cara, com efeito, que trabalhava numa casa de modas. Era uma fulana alta, que na opinião de muitos…

Coro de mulheres: (mostram apenas as cabeças vindas da coxia) Lembrava um cavalo de corrida. (voltam para a coxia)

Narrador: O fato é que Herivelto se apaixonou!

(Jacira num foco isolado e distante de Herivelto e a amante)

Amante: Bem feinha tua mulher, hein?

Herivelto: (esbraveja) Um bucho horroroso!

(Herivelto e a amante beijam-se com ardor. A amante desarruma Herivelto deixando o colarinho da camisa dele desbeiçado e repleto de marcas de batom vermelho carmim. Os dois despedem-se. Herivelto caminha bêbado na direção de sua casa até encontrar Jacira)

Jacira: (Avançando para o marido com o dedo em riste. Esganiçando) Que é isso? Que negócio é esse?

Herivelto: (bambo em cima das pernas. Com a sinceridade dos ébrios) Tenho uma amante… Tenho uma amante…

Jacira: (atônita) Uma amante! (tempo. Subitamente feroz, revira Herivelto e o segura pela gola do paletó, sacode e grita) Eu também vou te trair, ouvistes? (Larga Herivelto e muda o tom) Vou fazer o que você me fez. Por essa luz que me alumia!

Narrador: Não teve pressa. Durante 48 horas, debateu-se em dúvidas medonhas. Trair era ou devia ser facílimo; restava, porém, a pergunta.

Jacira: Com quem?

Narrador: Passou em revista todos os amigos e conhecidos. Acabou se fixando num amigo do marido, um tal de Mascarenhas.

>(Jacira pega o telefone. Mascarenhas atende. Jacira geme. Os dois largam os telefones e se deslocam para o centro do palco. Som de campainha. Jacira entra no apartamento de Mascarenhas insinuante. Mascarenhas atônito, sem compreender, com uma expressão de descontentamento quase cruel nos lábios)

Jacira: Então?

Mascarenhas: (Balbucia) Desculpe, mas não é possível… Sinto muito… Desculpe…

Narrador: Pela primeira vez, Jacira sente parcialmente a verdade. Foge dali como uma criminosa. Em casa, no quarto, coloca-se diante do espelho grande. Revia-se, de corpo inteiro. Compreende tudo. Compreende porque fora quase escorraçada.

(Jacira olhando para si mesma. Herivelto ébrio cambalenate olha para ela e gargalha)

Herivelto: (debochadíssimo) Bucho! Bucho!

Narrador: Jacira teve ódio, um ódio inumano, indiscriminado, contra si mesma, contra o marido, contra o mundo.

(Luz de flash back. Coro feminino nas laterais do palco. Jacira, a noiva finalmente chega ao altar. Herivelto com a sofreguidão dos apaixonados retira o véu da noiva. Reação de horror dos convidados.)

Jacira: Com você, meu filho, eu topo tudo!

(Herivelto e Jacira beijam-se com fervor.)

Coro: Nããããããããooooo!

(Fim do flash back. A cena se desfaz)

Jacira: Ódio, um ódio inumano, indiscriminado, contra mim mesma, contra meu marido, contra o mundo.

(Narrador e Jacira juntos)
Narrador: Esperou que Herivelto mergulhasse no sono de embriagado. Serena, derramou álcool em cima dele e riscou o fósforo. Por entre as chamas, ele se revirava, se contorcia, como se tivesse cócegas. Fugiu, uivando, perseguido pelas labaredas. Vizinhos atiraram baldes d´água em cima dele. (pausa) Porém, ali mesmo, Herivelto morreu nu e negro.

Jacira: Esperei que Herivelto mergulhasse no sono de embriagado. Serena, derramei álcool em cima dele e risquei o fósforo. Por entre as chamas, ele se revirava, se contorcia, como se tivesse cócegas. Fugiu, uivando, perseguido pelas labaredas. Vizinhos atiraram baldes d´água em cima dele. (pausa) Porém, ali mesmo, Herivelto morreu nu e negro.

(Luz geral vermelha. Trevas…)

FIM

O mesmo sol

JOSÉ, RENATA, ANA E ALFREDO SENTADOS NUM BANCO DE PRAÇA HÁ MAIS DE 3 HORAS. BARULHO DA CHUVA COMEÇA. TODOS CONTINUAM PARALISADOS.

José – Chuva de verão.

Renata – É. Chuva de verão.

Alfredo – (Para a platéia à parte) Chuva de verão. Sim! É isso! Uma chuva de verão! Uma chuva quente que levasse a falta, que lavasse a falta de sentido e trouxesse uma brisa de espuma cheia de novidades, de coisas que ninguém sabe, de descobertas. E nessa brisa um sopro me contaria o sentido de tudo. Uma coisa só para que tudo faça sentido. (Volta) Chuva de verão!

Renata – Você é médica?

Ana – Enfermeira.

Renata – Está cuidando de alguém.

Ana – De vários.

Alfredo – Você é enfermeira!

Ana – (irônica) Viva!

Alfredo – Poderia me medicar?

Ana – Está doente?

Alfredo – Estou?

Ana – O que está sentindo.

Alfredo – Nada.

Ana – Como nada?

Alfredo – É, nada. Não estou sentindo nada.

Ana – Para isso não tem remédio.

Alfredo- Era o que eu temia.

Ana – É com você camarada.

Alfredo – Por que eu tenho que depender de mim?

Ana – Não é melhor assim?

Alfredo – Pode ser.

Ana – Os meus pacientes dependem de outros.

Renata – É triste?

Ana – Era.

Renata – Era?

José – Sei como é.

Ana – Sabe? E como é?

José – Depois da dos primeiros contatos com a dor…

ALFREDO PÁRA.

Ana – Continua.

José – Não sei o que estou falando.

Ana – Depois dos primeiros contatos com a dor de outra pessoa. Depois que você se identifica com a dor do outro e vai cinqüenta vezes ao banheiro para chorar escondido, depois de enfrentar todos os estágios da morte e morrer um pouco em cada um deles. Depois… depois passa. Passa e tudo fica leve, raso, sem peso. Hoje sou capaz de rir da morte de alguém, sou capaz de vestir um morto e conversar com ele.

Renata – Coisa horrível.

Ana – Você faz o quê?

Renata – Dou aulas de inglês.

Ana – Tão horrível quanto dar aulas de inglês.

José – Mas não tão horrível quanto ser advogado.

Ana – É. Nada é pior do que ser advogado.

José – Você trabalha com mortos – vivos e eu com vivos – mortos.

Renata – Outra frase de pára-choque de caminhão.

José – Renata.

Renata – Fala.

José – Eu não vou te dar um beijo. Não adianta me rejeitar que minha auto estima é elevada. Não me apaixono por rejeição.

Ana – Vocês se conhecem?

José – Depende.

Ana – De quê?

José – Do que você chama de conhecer.

Ana – Vocês se conhecem daqui?

Alfredo – Estamos nos conhecendo.

Ana – E o que eu perdi?

José – A Renata quer encontrar o grande amor da vida dela, porque ela não sabe o que fazer da vida dela. O Alfredo não tem vida para encontrar um amor da vida. Eu sou a encarnação do Harrison Ford no filme “Uma Segunda Chance”.

Renata – Você lembrou o nome do filme.

José – Eu não lembrei, eu sabia.

Renata – E não falou por quê?
José – Eu não preciso falar tudo. Não te conhecia.

Renata – E agora me conhece?
José – Um pouco mais do que nada.

Ana – E eu sou o quê?

Alfredo – A enfermeira solitária que vem todos os dias sentar no mesmo banco para fumar um cigarro da mesma marca e esperar que alguém lhe faça companhia. Mas que prefere ficar sozinha e ter a esperança do encontro do que o encontro em si.

SILÊNCIO.

Ana – Não confere.

Alfredo – Me desculpe. Estava falando de mim.

Ana – Não. Está indo muito bem, só não concordo com a marca do cigarro. Eu mudo. Todos os dias eu compro uma marca nova.

Alfredo – Para quê?

Ana – Não sabe?

Alfredo – Sei.

José – Para quê?

Ana – É, para quê?

ANA NÃO RESPONDE E FICA OLHANDO PARA FRENTE. APONTA PARA UMA ÁRVORE.

Ana – Engraçado… todos os dias aquele passarinho constrói um ninho diferente. Mas não tem filhote. Não tem. A fêmea morreu tem tempo e ele continua fazendo. Repetindo. Até certo ponto. Depois pára e recomeça.

José – Isso é mentira.

Renata – Que isso?

Ana – É mentira.

José – Por que você está mentindo?

Ana – Porque eu quero que vocês entendam que eu venho aqui todos os dias e que a preferência é minha nesse lugar.

Renata – É um banco público!

Ana – Tudo é público até se tornar particular.

José – Vai comprar um banco no meio da praça?

Ana – Acho muito mais bonito ser dona de um banco por afetividade do que por dinheiro.

José – De que afeto você está falando? Você vem aqui sozinha. E sai sozinha. Vai abraçar o banco? A única oportunidade de afeto é agora. Com a gente sentado aqui. E você esperou tanto por isso que agora está com medo. Quer expulsar o único momento de afeto da sua vida. Quer edificar a sua solidão comprando o banco da praça?

Ana – E por que vocês sentiriam afeto por mim?

Renata – Eu não sinto nada por você.

José – Você não sente nada por ninguém. Está tão fechada no seu ideal de amor eterno que vai passar o resto da vida lambendo o espelho de casa.

Renata – E você, grande entidade do amor? Você? Ama alguém? Ama alguém? Diz!

José – Amo.

Renata – Diz! Fala! Fala! Quem você ama? Fala agora! Fala!

José – Amo a minha namorada!

Renata – Não acredito que você tenha uma namorada.

José – Michele! Pronto! Amo! Amo a Michele!

Renata – Ama a Michele?

José – Amo a Michele.

Renata – Você ama muito a Michele?

José – Amo muito a Michele.

Renata – Ama muito mesmo?

José – Amo! Amo! Amo! Amo! Amo! A Michele é o amor da minha vida!

Renata – Você não acredita em amor da vida.

José – Não acredito mas às vezes acontece.

Renata – Essa é uma resposta incoerente.

José – E quem é que é coerente aqui?

Renata – O Alfredo. Nunca decepcionou a gente. Desde o ínício ele se mostrou depressivo e continua absolutamente coerente na sua construção de pessoa que caminha sem sentido pela vida.

Alfredo – Você não me conhece.

Renata – Não preciso te conhecer para ter certeza de que você é compulsivo por sofrimento agudo. Se sofrimento fosse vendido na farmácia, tenho certeza de que você seria o primeiro da fila.

Alfredo – Você é má.

Renata – Não sou.

Alfredo – Você é péssima. Péssima. Uma pessoa muito ruim mesmo.

Renata – Não sou.

Alfredo – É. Você é cruel. A pior das bruxas. Você quer ser a cinderela, mas é a bruxa do João e Maria. A pior bruxa de todas, aquela que vai comendo o outro pelas beiradas. Você faz o outro acreditar que era o único errado e você a cinderela abandonada. Você faz isso. Faz isso porque quer ficar sozinha.
Por que não consegue amar ninguém. Quer o amor da vida porque ele não existe. E assim fica mais fácil dizer: “Não amei ninguém porque não apareceu a pessoa certa.” Você engorda o Joãozinho para depois comer o dedo dele.

JOSÉ DÁ UMA GARGALHADA.

José – Alfredo! Você é demais cara! Barbaridade! Eu jamais pensaria nisso! O João… o dedo! Cara virei seu fã! Você é o máximo!

SILÊNCIO.

Ana – Você ama a Mic
hele?

José – Não! Não amo! Pronto! Não amo! Nunca amei a Michele. Vocês têm razão. Não amo. Pronto! Satisfeitos. Não amo! Pronto! Nunca amei ninguém! Nunca! Sou péssimo! Sou pior do que a bruxa do oeste! Pronto!

SILÊNCIO. BARULHO DE PASSARINHO. TODOS OLHAM PARA A ÁRVORE.

Renata – Ele está recomeçando outro ninho.

Alfredo – Não era mentira.

Ana – Não.

Renata – Olha Ana, eu dou a minha parte do banco para você, tá?

Alfredo – Eu também.

José – Meu Deus! Olha isso! Como nós somos clichês. Somos clichês ambulantes. Se algum desses escritores de livros de banca de jornal passar por aqui terão uma estória pronta. Nós somos tão clichês que perto da gente os personagens clichês ganham cores! Eu vou embora daqui. Vou voltar para o trabalho. Vou voltar para a minha vida. Por mais medíocre que seja não é pior do que esse bando de bobagens.

Ana – Não quero o banco. Posso doar para vocês. A partir de hoje vou me sentar do outro lado da praça.

José – Do que vocês estão falando?

Renata – De ir embora. Você não vai embora?

José – Claro que vou.

Alfredo – Eu vou embora.

José – Para onde? Para outro banco? Vai fazer igual ao nosso amigo passarinho?

Alfredo – Não.

José – Vai se deprimir em casa e gozar ao som da música mais triste que já inventaram e ter pena de você até a última gota e depois ensaiar as várias maneiras de morrer sem ter coragem para nenhuma. Não consegue o que mais quer. Não consegue, porque na verdade você tem vida, e mesmo sem querer ela continua e você tem tanta vida que não sabe o que fazer com ela. E mesmo que você não queira, ela está aí e você adora tudo o que vem com ela. Você ama viver! Ama! Quanto mais você ama, mais medo tem! Não tem nenhuma vontade de morrer e esta falta de vontade de morrer te dá tanto medo que você tem vontade de se matar para acabar logo com isso! Porque no fundo tem muita vida. Muita!

Alfredo – Você não sabe nada de mim! Nada! Nada! Nada! Nada! Nada! Nada!

PAUSA.

José – Eu estava falando de mim.

Alfredo – Desculpe.

José – Tudo bem.

Alfredo- Você tem razão.

José – Eu não tenho razão. Não quero ter razão. Eu trabalho todos os dias com isso. Com a razão me perseguindo e tudo o que eu quero é oposto ao que é considerado razão. Não quero os números, não quero os códigos, não quero o direito, não quero os itens, não quero os pontos. Não quero nada que me dê razão… não quero…

Renata – Você tem razão.

PAUSA.

Ana – Um dia eu estava sentada aqui fumando o meu cigarro de uma marca qualquer e… sempre tinha uma senhora que passava por aqui, todos os dias ela me cumprimentava. Até que nesse dia ela não passou. Não passou e eu fiquei intrigada. Chorei muito a morte dela. Muito. Fui perguntando nas portarias se alguém a conhecia. Até que um porteiro disse: “A dona Célia. Uma que passa todos os dias. Uma senhora que manca. E eu respondi que sim. Ele disse: Ela viajou! Ganhou dinheiro num concurso de poesias e foi conhecer a Europa que era o seu sonho. Ela não tinha morrido. Tinha viajado para realizar sonho e eu tão mais acostumada com a morte das pessoas chorei a morte dela…

PAUSA

Renata – Eu tenho biscoito de morango na bolsa. Alguém quer?

Ana – Adoro biscoito de morango e nunca mais comi.

RENATA TIRA O BISCOITO DA BOLSA. E DISTRIBUI.

José – Biscoito de morango.
Alfredo – A última vez que comi devia ter uns 10 anos.
Ana – Parece que estou comendo pela primeira vez.

TODOS FECHAM OS OLHOS POR UM TEMPO MAIOR DO QUE O NORMAL.

José – Por que sempre escolhemos o de chocolate e nunca o de morango, ou baunilha?
Ana – Alguém fez com que acreditássemos que o chocolate era o melhor.
José – E a gente acreditou…
Renata – Chocolate pode ser mais gostoso, mas morango é muito mais doce.
Alfredo – Mais sincero no gosto.

José – Muito mais.

ABREM NOVAMENTE OS OLHOS. PAUSA. TODOS OLHAM PARA O CÉU NUM TEMPO MAIOR DO QUE O NORMAL.

Alfredo – O tempo está mudando de novo.

Renata – O sol…

Ana – Abrindo.

José – Mais do que isso…

TODOS OLHANDO PARA O CÉU. ENTRA TRILHA. LUZ CAI.

FIM

Enjoativa

Personagens:

Juninha

Silvio

Meireles

Na repartição, o assunto era um só_ entre Meireles e Sílvio.

Silvio: Gamei!

Meireles: (debruçando-se sobre a máquina de escrever) Eu quero detalhes.

Silvio: Um rabinho premiado! A pequena é sensacional: bons modos, idéias claras, pura como um filhote de colibri! Jeitosa de corpo, rosto bonito. Uma graça. Conheci na festa do Cardoso, trocamos telefones, marcamos cinema e o escambal.

Meireles: A pequena te virou a cabeça, foi?

Sílvio: Meireles, Seu camarada foi fisgado!!!

Meireles: E quem é a santidade?

Silvio: Juninha… no diminutivo mesmo, como filha caçula no mimo de mãe. (saboreia) JUNINHA!

(tempo)

Meireles: (fica em silencio. Volta a datilografar formulários.)

Silvio: Ora bolas! Não dizes nada?

Meireles: Queres a verdade?

Silvio: Que papo é esse?

Meireles: Queres ou não queres a verdade?

Silvio: Que pirraça, Meireles! Conhece a minha garota?

Meireles: De outros carnavais!

Silvio: Não me diga que a pequena é casada…

Meireles: De maneira alguma.

Silvio: (assombrado com as próprias palavras) Então?

Meireles: Coisa pior, ao meu ver.

Silvio: Ela esconde alguma vergonha no passado? Seja sincero comigo Meireles, diga! Eu aguento, ainda estamos no inicio e mesmo que não estivéssemos: casamento até na porta da igreja se desmancha! Fala Meireles! Juninha é uma perdida de marca maior? É ou não é? Desembucha!

Meireles: Juninha? Mais casta que recém nascido.

Silvio: Pitomba! Então qual é o mistério?

Meireles: Juninha sem dúvida é uma moça direita e com uma reputação inviolável. Contudo tem um defeito que considero abominável…

Silvio: Qual?

Meireles: Gruda como carrapicho. Não larga mais o sujeito.

(alívio de Sívio)

Silvio: Tenha a santa paciência, Meireles!

Meireles: Escuta! Vai por mim…

Silvio: Que mal pode ter uma garota que te trata na palma das mãos? (risada frouxa)

Meireles: (em tom grave) Abre o olho Silvio. Abre o olho. Juninha é mais enjoativa que uma bala de coco.

Embora advertido, Sílvio deixou-se iludir pela aparência da moça, realmente simpática. Assumiram o namoro e em pouco tempo já andavam juntos pra cima e pra baixo, como dois agarradinhos de cera.

Contudo, em seu íntimo, Silvio não conseguia conter um certo desconforto, que nem ele mesmo, sabia a origem.

Na lanchonete, chupando um sorvete.

Juninha: Que tens, meu doce? Está tão quieto.

Sílvio: (muxoxo) Nada…

Juninha: Pode falar. Tem uma nuvenzinha nessa cabeça.

Silvio: É que… (procurando as palavras) É que… Não sei… Você não acha que passamos muito tempo juntos um do outro?

Juninha: (doce) Como assim?

Silvio: Como eu posso dizer… Não sei… Você não acha que a gente deveria se ver um pouquinho menos, só um tiquinho.

Juninha: Um tiquinho assim? (indica entre os dedos)

Silvio: Isso, um tiquinho assim…

Juninha: (alarmada) Você está enjoando de mim…? Foi alguma coisa que eu disse? Olha, se falei, não foi por mal, é que äs vezes eu falo demais e…

Silvio: Não. Nào é nada disso. Você é… Perfeita. Mas é que… Não sei… Tem alguma coisa… Nem eu sei explicar o que.

Juninha: (colocando a cabeça do rapaz em seu colo) Sossega, meu doce. Eu cuido de você. Ouviu? Você não deve se preocupar com nada. Nada! Eu estarei sempre ao seu lado, quando quiser. E esse negócio de se ver menos, é bobagem. Quem ama consome, e isso é tudo.

Aquelas palavras de Juninha ecoaram de forma fantasmagórica no ouvido do rapaz. Aquela avalanche amorosa, desmedida e absoluta, pouco a pouco o sufocava. Não demorou muito para que Sílvio, logo se queixasse da pequena.

Silvio: Estou cheio!

Meireles: Cheio de que?

Silvio: Da Juninha. É um chute, compreendeu? Um autêntico chute! Não aguento. É amor demais.

Meireles: Não te disse?! Batata!

Sílvio: (numa amargura medonha) O Pior, o patético é que é uma flor de pessoa. O anjo dos anjos! Não diz um ai. Mas é chata, coitada. Muito chata. Chatinha de galochas, sabe? Chatíssima ao extremo.

Meireles: Silvio, Silvio, quem avisa amigo é.

Silvio: Faz tudo o que eu quero, nunca me diz não. É capaz de se atirar debaixo de um bonde por minha causa. Suas juras de amor são faraônicas e pesam uma tonelada em minhas costas.

Meireles: (num deboche) É amor!!!!

Sílvio: Pára, Meireles. Estou falando sério…

Meireles: Ok. E por que você não termina com isso?

Sílvio: Não consigo. Não sei como fazer.

Meireles: Simples assim, chega pra ela e dispara: Juninha está tudo acabado entre nós. Gosto de ti, mas és mais chata que uma velha hipocondríaca! (rindo)

Silvio: Você é impossível, Meireles!

Meireles: ( recompõe-se) não compreendo a dificuldade de jogar essa pequena pra escanteio. Você quer realmente acabar o namoro?

Sílvio: Eu quero. Mas não tenho pretexto. Não encontro um motivo. Preciso de um motivo, entende? Sempre que eu penso em acabar com tudo, colocar um ponto final nessa história, ela vem com seu sorriso ingênuo e sua doçura infantil, e eu perco a coragem. O que eu faço, Meireles? O que eu faço? Dá um palpite.

Meireles coça a cabeça, incerto:

Meireles: Sei lá, rapaz! Talvez o golpe seja inventar um troço, pregar uma mentira bem cabeluda.

Silvio: Como assim?

Meireles: É preciso invertar uma mentira. Uma que torne impossível o romance. Juninha é uma menina séria, direita e outros bichos. Você diz, por exemplo, que é casado. Uma garota como Juninha não topa homem casado, evidentemente. Pronto! O namoro acaba!

Silvio: (vislumbrando o sucesso da mentira) Isso… Genial, Meireles! Genial!Você é uma bola! Vou aplicar essa chave!

Quando saiu, para se encontrar com a garota, não lhe ocorreu pensar no choque, na desilusão brutal de Juninha. Queria ver-se livre de um namoro, que passado das primeiras semanas de encantamento, o enchia de tédio, de um aborrecimento, de um desinteresse mortal.

Mas quando a viu , mais terna do que nunca, mais abandonada, indefesa, teve um breve escrúpulo. Acabou, porém, dominando a própria consciência. Suspira:

Silvio: Sabe que esse vai ser o nosso último encontro?

Juninha: (assombrada) Por quê?

Silvio; (vermelho da mentira cruel) Pelo seguinte: eu sou casado. Casado. (gaguejando) Seria uma indignidade da minha parte continuar iludindo você… Você, naturalmente, não há de querer namorar um homem casado… Nào é mesmo?

(Juninha cai num choro tristíssimo. Em soluços profundos. De uma fragilidade e inocência de cortar o coração.)

Silvio: (chocado) Calma.. Calma… Eu não queria que fosse assim, mas…

Juninha: (aos prantos) Eu quero você… ( trêmula, como um criança desprotegida) Eu quero você e não o casamento. Meu problema é amor… Amor… Percebes? Se você puder casar comigo, muito bem. Se não puder, paciência. Mas eu preciso de você. Pre
ciso do seu carinho… ( num choro miúdo, frágil) Não me deixa, por favor… Não faz isso comigo… Não me deixa…

Sílvio: E os outros…? A sua família… O que irão pensar disso?!

Juninha: (num heroísmo de apaixonada) Não me interessam os outros. Interessa você, só você e mais ninguém. (olha nos olhos do rapaz) Quero de ti apenas o seguinte: que tu digas, agora, nesse momento, que gosta de mim. Não precisa ser muito. Um pouquinho que seja. Fala… Gostas um tiquinho de mim? Gostas? Fala… fala. Por favor…

Silvio: (intimidado, consternado, concede) Um tiquinho, gosto.

Juninha: Um tiquinho assim? (indica nos dedos)

Silvio: (concorda) Um tiquinho assim.

Juninha: (tomada) Obrigada, meu anjo! Obrigada! (chora de felicidade) Pra mim, esse tiquinho é muito, é tudo. Ouviste? Meu amor é uma imensidão, suficiente pra nós dois. Só Não me deixa, por favor… Não me deixa, ou acabo por morrer engasgada com tanto sentimento.

O cobre com seus beijos molhados por lágrimas.

Uma semana depois Sílvio cai doente de morte. No leito de morte confessa ao amigo Meireles.

Sílvio: Meireles…

Meireles: Você está mal meu amigo. Fique em silêncio. Repouse.

Silvio: : Foi ela meu amigo, ela me deixou doente.

Meireles: Como assim?

Silvio:: Pensei numa forma de me livrar de Juninha… E apenas uma não saiu da minha cabeça… A morte! Estou morrendo e isso é bom, meu amigo. É a liberdade. Estarei livre dela.

Meireles: Você está delirando meu amigo. Descanse! Você precisa se tratar…

Sílvio: Não! Eu decidi! Não tomei remédio algum… Eu vou morrer. E estou feliz por isso.

Meireles: Não diga isso…

Silvio tem uma convulsão. Meireles se preocupa e chama Juninha, que estava no quarto ao lado.

Juninha entra no quarto e abraça Sílvio com muito afeto.

Sílvio: (febril, possuído pela certeza da morte) Estou morrendo! (gargalha louco) Estou morrendo!

Juninha: (sussurra no ouvido dele) Sim meu amor. Mas não precisa ter medo, ouviu? (mostra um frasco pra ele) Está vendo isso? É um veneno. Morrerei contigo. Ficaremos juntos para sempre. Apodrecendo nós dois, juntos, num mesmo caixão. (sorri doce enquanto bebe o veneno)

Silvio morre com esse pavor.

fim

Escorpião de banheiro

Livremente adaptado por Felipe Barenco

Coro dos vizinhos

Viviam como gão e gato
Ela arremeçando prato
Ele atirando sapato
Toda a vizinhança ouvira…

Belchior – Te arrebeto! Te parto a cara!
Elvira (fúria) – Palhação! Cretino!

Coro dos vizinhos

Toda a vizinhança ouvira
Eram brigas tremendas
Entre Belchior e Elvira
Pancadaria recíproca e cotidiana
Eram facadas no almoço
E beijos na cama

Vizinho – Vocês não combinam. Por que não se separam?

Belchior e Elvira (juntos) – Não! É o golpe! É o golpe!

Coro dos vizinhos

Existia entre os dois um vínculo qualquer
“Isso é falta de vergonha! De brio!
No duro que é!”
A parentada rosnava,
Os vizinhos metiam a colher

Vizinho (fofocando) – Agora termina. Parece que ele conheceu Marina.

Marina – Você é casado?
Belchior (hesita na resposta, mas toma coragem) – Olha, meu anjo. Quero ser leal contigo. Não sou casado, mas vivo com uma pessoa assim, assim, separada do marido. Compreendeu?

Coro dos vizinhos

Marina, inspiração de Dorival
Pequena, linda, educada
Doce de sentimentos

Marina (doce) – Compreendi.
Belchior – Aliás, quero te dizer o seguinte. Essa pessoa é uma jararaca, uma lacraia, um escorpião de banheiro. Não gosta de mim, nem eu dela. Antes de te conhecer, eu já estava resolvido a chutá-la. E, agora que te conheço, mais do que nunca, naturalmente.

Coro dos vizinhos

Belchior, que não era melhor nem pior
Deixa uma afronta, uma mensagem pra Elvira
Elvira, inspiração de ninguém
Violenta, desbocada e neurastênica

Elvira (para os vizinhos. Mostra um bilhete) – Olha o que aquele cachorro escreveu.

Coro dos vizinhos (gargalhadas. Leem e releem)

VAI PRO DIABO QUE TE CARREGUE!

Elvira – Mas ele há de voltar! (repete com certeza fanática) Há de voltar!

Belchior (no telefone) – Estou livre! Livre!
Marina (chorando) – Deus te abençoe!
Belchior (desliga o telefone e comenta com os vizinhos) – A consciência não existe! A única consciência que eu reconheço é o medo da polícia. (uiva) Foi o medo da polícia que me impediu de matar Elvira.

Coro dos vizinhos

Aprovados pelas sogras
Quinze dias e o pedido oficial
Pra Elvira restaram as sobras
Pra Marina a marcha nupcial
Vizinho (animado) – Eles foram feitos um para o outro!

Vizinho (apático) – Eles foram feitos um para o outro.

Vizinho (entediado) – Eles foram feitos um para o outro…

Marina – Estou te achando meio assim, triste.
Belchior – Eu?
Marina – Você. Anda meio esquisito. Que é que há?
Belchior (protesta. Rubro) – Esquisito por quê? Pelo contrário. Nunca me senti tão bem. (pigarreia e exagera) Eu sou o sujeito mais feliz do mundo. Tenho você, quer dizer, tenho tudo!

Vizinho – A Elvira anda jurando que você volta.
Belchior – Eu sou o sujeito mais feliz do mundo!
Vizinho – Ela jura!
Elvira – Mas ele há de voltar! (repete com certeza fanática) Há de voltar!

Coro dos vizinhos

Batata!

Marina – Meu bem!
Elvira (no telefone) – Olha! Eu te espero. A chave está debaixo do tapetinho. Vem, agora!
Belchior (vista turva, pernas bambas).
Marina – Meu bem!
Elvira – Vem, agora!

Coro dos vizinhos

Não pensava mais na noiva
Desce do táxi na antiga residência
Batata! Elvira tava certa!
Só existe amor por conveniência

Belchior e Elvira se encontram. Não há uma única palavra entre os dois durante um longo tempo.

Elvira (ri. Perde a cabeça) – Meu!

Coro dos vizinhos

E foi a cabeça que ela perdeu
Belchior estrangulou a mulher
Mesmo sem saber que matava
Mesmo sem saber que amava

Belchior (pousando o rosto sobre o cadáver) – Não te enterrarei nunca! Ficará comigo aqui!

FIM

O pediatra

MENEZES COM OS AMIGOS.

MENEZES- Topou! Topou!

UM AMIGO- Batata?

MENEZES- Batatíssima!

OUTRO AMIGO- Vale? Justifica?

MENEZES- Se vale? Ó rapaz! Ieda! É a melhor mulher do Rio de Janeiro. Casada, e te digo mais, séria pra chuchu.

UM AMIGO- Séria e trai o marido?!

MENEZES- Rapaz! Gosta de mim, entende? De mais a mais, escuta, o marido é uma fera! O marido é uma besta!

OUTRO AMIGO- Você dá sorte com mulher. Como Menezes eu nunca vi! Você tem uma estrela miserável!

NO DIA SEGUINTE…

MENEZES- Ieda! Mulher de um pediatra! Mas olha! Um colosso!

UM AMIGO- Mas topa ou não topa?

OUTRO AMIGO- Fala, Menezes!

MENEZES- Estou dando em cima, salivando. Está indo.

NO DIA SEGUINTE….

OUTRO AMIGO- E a cara?

MENEZES- Está quase. Ontem, falamos no telefone quatro horas!

UM AMIGO- Isso não é mais cantada, é… E o vento levou!

MENEZES- Essa vale! Vale sim senhor! Perfeitamente, vale! E, além do mais, nunca fez isso!É de uma fidelidade mórbida! Compreendeu? Doentia!

OUTRO AMIGO- Menezes…

MENEZES- Sempre tive tara por mulher séria! Só acho graça em mulher séria.

QUARENTA E CINCO DIAS DEPOIS…

MENEZES- Custou, viu? Mas agora vai! Quarenta e cinco dias! Nunca uma mulher me resistiu tanto.
OUTRO AMIGO- Está faltando um detalhe! O apartamento!

MENEZES PEGA O AMIGO PELO BRAÇO.

MENEZES- Tu emprestas o teu?

UM AMIGO- Você é besta, rapaz? Minha mãe mora lá! Sossega o periquito!

MENEZES- Escuta, escuta! Deixa eu falar. A moça é séria. Séria pra burro. Nunca vi tanta virtude na minha vida. E eu não posso levar pra uma baiúca. Tem que ser, olha, apartamento residencial e familiar. É um favor de mãe pra filho caçula.

UM AMIGO- E minha mãe? Mora lá, rapaz!

MENEZES- Só essa vez! Faz o seguinte! Manda sua mãe dar uma volta. Eu passo lá duas horas no máximo!

UM AMIGO- (BUFA) Vai lá! Mas escuta. Pela primeira e última vez!

ELES APERTAM AS MÃOS

MENEZES- És uma mãe!

MENEZES NO CELULAR COM IEDA.

MENEZES- Arranjei um apartamento genial.

IEDA- Mas é como, hein?

MENEZES- Um edifício residencial, na rua voluntários. Inclusive mora lá a mãe de um amigo. Do apartamento, ouve-se a algazarra das crianças.

IEDA- Tenho medo! Tenho medo!

MENEZES- Amanhã, às quatro da tarde!

MENEZES DESLIGA O CELULAR.

OUTRO AMIGO- E o pediatra?!

MENEZES- (TRISTE) Pois é… Pediatra… Enquanto o desgraçado trata de criancinhas, é passado pra trás!

NO DIA SEGUINTE.

MENEZES- Como é? Combinaste tudo com a velha?

UM AMIGO- Combinei. Mamãe vai passar a tarde em Realengo.

MENEZES- Preciso me alimentar bem!

MENEZES SE AFASTA E DISCA O CELULAR PARA IEDA.

MENEZES- Meu amor, escuta. Vou pra lá.

IEDA- Já?

MENEZES- Tenho que chegar primeiro. E olha, vou deixar a porta apenas encostada. Você chega e empurra. Não precisa bater. Basta empurrar.

IEDA- Estou nervosíssima!

MENEZES- Um beijo bem molhado nessa boquinha.

IEDA- Pra ti também.

MENEZES AFLITO NO APARTAMENTO. IEDA CHEGA. ELES SE BEIJAM, SÔFREGOS.

MENEZES- Esperei um tanto…

IEDA- Demorei porque meu marido se atrasou.

MENEZES- Teu marido?

IEDA- Ele veio me trazer e se atrasou. Meu filho, vamos que eu não posso ficar mais de meia hora. Meu marido está lá embaixo esperando.

MENEZES PUXA IEDA PARA SI.

MENEZES- Escuta aqui. Teu marido? Que negócio é esse? Está lá embaixo? Diz pra mim! Teu marido sabe?

IEDA- Desabotoa aqui nas costas. Meu marido sabe sim. Desabotoa. Sabe, claro.

MENEZES- Não é possível!!! Não pode ser!!! Ou é piada tua?!

IEDA- Vai na janela e vê.

IEDA O LEVA ATÈ A JANELA.

IEDA- É ele ali. O mais cheinho.

IEDA DÀ TCHAU PARA O MARIDO PELA JANELA. MENEZES RECUA PARA DENTRO DO APARTAMENTO APAVORADO.

MENEZES- Quer dizer que… Olha aqui. Acho melhor a gente desistir. Melhor, entende? Não convém. Assim não quero.

IEDA ESTENDE A MÃO.

IEDA- Dois mil cruzeiros. É quanto cobra o meu marido. Meu marido é quem trata dos preços. Dois mil cruzeiros.

MENEZES DESATA A CHORAR.

FIM