Menino de ouro

Apartamento de Camilo. Ele não está em casa.

Yolanda: Eu tô preocupada, Jorge.

Jorge: Mas por que, meu amor?

Yolanda: Não, sei. Instinto materno.

Jorge: Relaxa, Yoyô.

Yolanda: Eu não consigo. Eu tento mas não consigo.

Jorge: O que é que ta te deixando aflita?

Yolanda: Eu acho que ele ta enfrentando dificuldades.

Jorge: Mas como dificuldades? Ele ta ótimo no trabalho.

Yolanda: Eu sei que ele ta ótimo no trabalho.

Jorge: Então.

Yolanda: Mas é que eu fiquei sabendo de umas coisas.

Jorge: Que coisas?

Yolanda: Umas coisas que me preocupam.

Jorge: Yolanda. Não vai me dizer que você se escondeu dentro do armário dele de novo pra ouvir o que não devia, né?

Yolanda: Não. Não. Isso eu já não faço mais.

Jorge: Então o que é que foi?

Yolanda: Eu entrei no Orkut dele.

Jorge: Você entrou no Orkut dele? Como?

Yolanda: Ele deixou aberto. Eu subi na mesa e olhei.

Jorge: Eu já te falei pra respeitar a privacidade do menino.

Yolanda: Eu respeito, Jorge, eu respeito. Mas tem uma hora que o instinto materno fala mais alto.

Jorge: Ai, meu Deus. Você e esse instinto materno. Por ele o nosso garoto não sairia de casa, não teria amigos e morreria virgem!

Yolanda: Pára de falar assim que eu não gosto.

Jorge: Então pára de agir assim que eu não falo.

(pausa)

Yolanda: Você quer saber?

Jorge: O quê?

Yolanda: O que eu vi. No Orkut dele?

Jorge: Vai adiantar eu dizer que não.

Yolanda: Uma foto, Jorge. De dois dentes. Uma foto de dois dentes.

http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom.aspx?uid=18279296017315126919&pid=1212582621356&aid=1$pid=1212582621356

Jorge: Como assim?

Yolanda: Pois é. Foi o que eu pensei! Como assim? Como assim aquela foto? E tava lá. E embaixo escrito: “meus dentes”. O que você me diz a isso?

Jorge: E daí, Yolanda. Qual é o problema?

Yolanda: Mas como qual é o problema, Jorge? Você não acha estranho que o nosso menino tenha uma foto de dois dentes no seu álbum do Orkut?

Jorge: Eu não. Acho normal.

Yolanda: Normal se ele fosse um garoto como outro qualquer. Mas com o histórico dele é no mínimo preocupante.

Jorge: Que histórico Yolanda, que histórico?

Yolanda: Aquelas… coisas que ele escreve.

Jorge: São peças.

Yolanda: Eu sei. E elas são ótimas, até. Mas é que esses temas.

Jorge: O que é que tem os temas?

Yolanda: Como o que é que tem, Jorge? Como o que é que tem? Uma mulher que mata marido a martelada?

Jorge: Ai, que saudades de “Amélia”

Yolanda: Duas insones são trasportadas para um programa de tevê onde ganha prêmio quem matar mais.

Jorge: Hahahaha. Adormecidas…

Yolanda: Uma menina do interior que foge pra cidade em busca da avó e descobre que ela virou um ser cibernético casado com um serial killer lobisomem?!?!??!?!?!

Jorge: O garoto é criativo!

Yolanda: Eu sei, Jorge. Eu sei. Mas existe um limite entre criativo e… criativo e…

Jorge: E o quê, Yolanda. E o quê?

Yolanda: Maluco!

Jorge: Você ta querendo dizer que o nosso menino é maluco?

Yolanda: Não sei, Jorge. Não sei. Mas eu fiquei preocupada. Com essa foto do Orkut. Fiquei preocupada.

Jorge: Ô, minha gatinha. Não fica assim não. O nosso menino é especial. Só isso.

Yolanda: Ele é tão diferente da gente…

Jorge: Mas isso não é ruim. E nem quer dizer que ele seja maluco. Ele é só criativo, especial. E diferente. Agora me diz. Quem é que nesse mundo não adoraria ser criativo, especial e diferente?

Yolanda: É verdade. Você tem razão… Mas e os dentes? E as fotos dos dentes?

Jorge: Cada um com sua esquisitice, ué. Você não vive dizendo que acha que ele te olha engraçado vê a gente se lambendo? Também deve ser esquisito pra ele.

Yolanda: É verdade, meu gatinho. É que eu fico muito preocupada com o nosso menino. Sabe?

Jorge: Eu sei, minha gatinha. Eu sei.

(pausa)

Yolanda: Mas tem uma outra foto que eu não te falei. Que ta no álbum dele.

Jorge: Ai, meu Deus, Yolanda. Vai começar de novo?

Yolanda: Não, não. Mas essa é bacana. É uma coisa boa.

Jorge: Ah, é?

Yolanda: É. Mostra o quanto ele ama a gente.

Jorge: O que é que é?

Yolanda: Deixa eu te mostrar…

http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom.aspx?uid=18279296017315126919&pid=1226939819926&aid=1$pid=1226939819926

Jorge: Que graça. Esse menino é de ouro.

Yolanda: É. Ele é de ouro.
FIM

Do jeito que ele é


Três horas da madrugada, Rodrigo Nogueira, quer dizer, você, está sentado escrevendo sua mais nova peça/perfomance/work inprogress do coletivo/improviso/contemporâneo: BLOW, texto sobre um homem que não é homem na sociedade manipulada pelo diretor/ator, personagem que também não é personagem, de trás para frente.

Rodrigo Nogueira, quer dizer, você, está bebendo uma lata de Coca e está inquieto, pois não consegue se concentrar na sua mais nova peça/perfomance/work in progress do coletivo/improviso/contemporâneo.

Dorotéia, seu abajur mais velho o interrompe.

DOROTÉIA: Assim você não vai conseguir.

Rodrigo Nogueira, quer dizer, você, acha que escutou alguma coisa, mas ignora.

DOROTÉIA: Me ouviu? Assim você não vai conseguir.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ : Tem alguém aí?

DOROTÉIA: Vai me ignorar mais uma vez? Olha para cá, sou eu, seu abajur mais velho.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Não é possível, tô bebendo essa porcaria demais.

LATA DE COCA: Peraí, quem me chamou de porcaria? Eu não tenho nada a ver com isso!

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Gente, o que é que está acontecendo?

DOROTÉIA: Não se faça desentendido. Você criou a gente e agora quer tirar o corpo fora? Depois reclamam que você é arrogante!

Entra Ramona, seu abajur mais novo.

RAMONA: Ele não é arrogante, ele é disperso!

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ (muito confuso): Ah, meu Deus!

RAMONA: Não vai abraçar o seu abajur mais novo?

DOROTÉIA: Como você conseguiu chegar aqui, sua idiota?

RAMONA: Eles me trouxeram!

Saem de baixo do abajur Ramona, a Barata e o Acém, recém casados.

BARATA E ACÉM: Surpresa!!

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Ah, não! Isso já é demais

Entram Viviana, Roberta, Maura e Denise, as facas. Tem também a Kátia. Mas ela, coitada, já tá meio cega.

VIVIANA, ROBERTA, MAURA, DENISE E KÁTIA, A CEGA: Queremos mais histórias! Queremos mais histórias!

VIVIANA: Depois que você escreveu “ Hélio”, nossas amigas colheres estão morrendo de inveja.

ROBERTA: Elas reclamam que ainda não têm nomes.

MAURA: Eu disse que a gente ainda ia aparecer em outras cenas…

DENISE: Mas você esqueceu da gente, ficamos desempregas, não conseguimos mais cortar nada. Estamos mofando na gaveta. Descobrimos que não nascemos para isso.

VIVIANA, ROBERTA, MAURA E DENISE: Queremos ser atrizes!

KÁTIA, A CEGA (canta): Não está sendo fácil viver assim…

TODAS AS FACAS: Você nos abandonou! Buááá!

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Eu tô sonhando. Isso só pode ser um sonho. AAAHHH!!!

Aparece o meio tomate

MEIO TOMATE: Não vem querer negar a gente agora fingindo que é sonho. Você nos criou, agora veja se nos usa de forma mais profunda!

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: De forma mais profunda? O que vocês querem de mim? Qual autor que dá vida à meio tomate, facas neuróticas, abajures, acém, barata? Vocês deviam me agradecer por alguém pensar em vocês, e agora vocês fazem isso? Se revoltam?! É isso que eu estou entendendo?!

DOROTÉIA: Nós só queremos que você nos coloque na sua mais nova peça/perfomance/work inprogress do coletivo/improviso/contemporâneo!

AS FACAS: Nós queremos trabalhar!

ACÉM E BARATA: Queremos que você continue a nossa história! Você fez com que a gente se apaixonasse, fez com que a gente se aceitasse do jeito que a gente é. E agora? Queremos continuar nosso romance e dependemos de você.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Eu não posso!

RAMONA: Não pode por quê?

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Eu prometi para mim mesmo que me dedicaria mais à dramaturgia.

MEIO TOMATE: Mas nós somos a sua dramaturgia!

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Vocês são apenas esquetes. Esquetes que talvez jamais serão montados. No máximo serão leituras dramatizadas.

MEIO TOMATE E LATA DE COCA: Viva o Camilo Pellegrine!!!

MEIO TOMATE: Se não fosse por ele, nem isso nós seríamos.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Por isso. Eu não quero mais saber de esquetes, eu preciso me dedicar a uma obra inteira, uma obra prima, quero montar uma coisa nova, estou cansado de tudo o que já fiz, quero me renovar, preciso de tempo e, me desculpem, vocês não estão incluídos nesse projeto.

DOROTÉIA: Mas você não vê que nós somos o seu próximo projeto?? Você não vê que nós somos a sua solução?? Todos nos amam, querem sempre saber o que você vai escrever sobre nós. Nós seremos o seu próximo sucesso!

TODOS: Nós seremos o seu próximo sucesso!!!

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Não!! Não!! Vão embora, eu prometi para mim mesmo que não darei mais vidas às coisas, eu prometi para mim mesmo que tentarei ser mais realista, que tentarei ser…

Entra Tom Baxter- Homem de 42 anos, extremamente bonito, sem amígdalas. Rodrigo Nogueira, ou você, passa a ser EU.

TOM BAXTER: Como assim, ser mais realista? E eu que sou grande sucesso do site, como fico? Como assim?

EU: Como assim o quê?

TOM BAXTER: Não. Eu não aceito.

EU: Mas eu não te ofereci nada.

TOM BAXTER: Você não pode fazer isso.

EU: Na verdade eu posso fazer o que eu quiser.

TOM BAXTER: Mas eu não quero que você faça.

EU: Eu já esperava isso de você.

TOM BAXTER: E?

EU: E justamente por isso eu vou fazer.

TOM BAXTER: Eu não quero que você me mate.

EU: Eu já te disse. Essa não é uma decisão sua.

TOM BAXTER: O que você quer que eu faça?

EU: Morra.

TOM BAXTER: Tirando isso.

EU: Nada.

(tempo)

TOM BAXTER: Você não pode me matar.

EU: É exatamente o contrário.

TOM BAXTER: Você não tem esse direito.

EU: Direto é que nem narina esquerda.

EU, volta a ser Rodrigo Nogueira ou, você.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Viu?? Tava indo tão bem, e aí eu tinha que falar da narina! Eu tinha que falar da narina?! Eu não posso mais ser assim. Preciso ser um autor normal, careta, normal!!!

Rodrigo Nogueira ou, você, deleta sua mais nova peça/perfomance/work inprogress do coletivo/improviso/contemporâneo.

TOM BAXTER: Não adianta fazer isso, você não vai conseguir escrever algo normal, senão, jamais seria você.

LATA DE COCA: Nós gostamos do jeito que você é!!!!

TODOS: É!

RODRIGO NOGUEIRA, OU VOCÊ: Eu tenho a solução! (silêncio ansioso) Me matar!

TODOS: O quê?

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: É isso, vou me matar. Acabo de desistir de mim. Eu não consigo me controlar, eu sei que sou demasiado excessivo, que tento me surpreender o tempo todo e, muitos não me aceitam. Eu estou cansado de ser Rodrigo Nogueira, estou cansado de mim, estou cansado de ser eu, você, Tom Baxter, o leitor… Estou cansado de ser contemporâneo. O que é ser contemporâneo? Eu faço View Point o tempo todo na minha vida, cansei. Eu não agüento mais. É o meu fim.

TODOS: NÃO!!!!!

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ, pega a faca Kátia, a cega, e a leva em direção ao peito

KÁTIA, A CEGA: Obrigada por você não me discriminar e me escolher para esse momento tão forte, mas não vai adiantar, esqueceu? Eu estou cega, não vou te cortar.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ troca Kátia, a cega, pela faca Maura.

MAURA: Por favor, não!!!!

Ele está quase se matando, ouvimos uma
música de cinema e a legenda escrito:

FIM

Corta, Rodrigo Nogueira está no escritório junto com Renata Mizrahi lendo a cena acima.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Ótimo, Renata, era isso que eu imaginava que você ia escrever.

RENATA MIZRAHI OU, EU: Jura? Acha quem tem a ver?

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Tudo de bom! Só não gostei de uma coisa.

RENATA MIZRAHI OU, EU: De você tentar se matar?

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Não, isso eu achei ótimo. Daquela parte do arrogante, acho que você podia tirar.

RENATA MIZRAHI OU, EU: Mas eu não disse que você é arrogante.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Eu sei, mas eu acho que deu a atender.

RENATA MIZRAHI OU, EU: Mas logo depois eu corrigi com a faca Ramona falando que você não é arrogante, e sim disperso.

Rodrigo Nogueira OU, VOCÊ: É, disperso eu sou mesmo.

RENATA MIZRAHI OU, EU: Então? Não tá claro?

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: É, eu sou disperso, o que eu faço, hein? Tenho a maior dificuldade me concentrar, sou muito ativo.

RENATA MIZRAHI OU, EU: Faz o seguinte: Espera quatro minutos e só depois você lê o final. Será que consegue?

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Acho que sim. Mas se eles desistirem?

RENATA MIZRAHI OU, EU: Eles quem?

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ: Os leitores.

RENATA MIZRAHI OU, EU: Eles vão ficar, relaxa.

RODRIGO NOGUEIRA OU, VOCÊ começa a trabalhar a respiração para esperar quatro minutos.

Após tentar respirar durante quatro minutos sem sucesso, Rodrigo Nogueira recebeu uma forte luz divina que fez apagar o restante que Renata Mizrahi escreveu para terminar essa esquete, e o fez com suas próprias palavras.

“Eu, Rodrigo Nogueira, declaro diante desta, que não abandonarei mais os meus personagens pra escrever um texto careta, normal, e sim, continuarei tentando me inovar a cada semana com esquetes de trás para frente, frases fragmentadas, coisas animadas, personagens de cinema, e principalmente, não deixarei de fazer você, o leitor, o protagonista das minhas histórias”

Vozes dos objetos: Eeeeee!

FIM

Nada do que eu escrever será suficiente até que o sol se ponha

(Renata Mizrahi entra e olha a gaiola. Deixa a luz da sala acesa e sai. Dentro da gaiola estão Pinky e o Cérebro personagens de uma série americana animada de televisão – gentilmente cedidos pela Warner Bros. Dois ratos brancos típicos de laboratório que utilizam os Laboratórios Acme como base para seus planos mirabolantes para dominar o mundo (sob razão nunca revelada). Foco na gaiola. Pinky e Cérebo digitando nos seus laptops, cada um numa velocidade própria. Pinky levanta, começa a correr naquelas rodas gigantes próprias para hamsters. Cérebro observa como o pensador de Rodin)

Pinky: Cérebro, o que faremos amanhã a noite?

Cérebro: A mesma coisa que fazemos todas as noites, Pinky… Tentar conquistar o mundo!

(Pinky tropeça caindo da roda e volta a digitar)

Cérebro: O que você tem?

Pinky: Uma costela quebrada, eu acho.

Cérebro: Perguntei se você encontrou alguma coisa.

Pinky: Ah, ontem encontrei uma semente. Achei que era uma castanha, mas olhei bem para ela…

Cérebro: Já chega, Pinky. Precisamos de concentração. Vamos partir para o método de digitação Brain Storm.

(Pinky e Cérebro digitam loucamente com as diversas partes do corpo. Param exaustos)

Pinky: A! A- Li – Ce! Anananannanam Anarriê. Foi o que eu consegui.

Cérebro: Interessante.

Pinky: Eu gostei do nome Alice.

Cérebro: A palavra Anarriê tem estilo… country.

Pinky: Não deboche da minha criação, por favor.

Cérebro: Mas, você acha que é “Esperando Godot”?

Pinky: Não sei. Eu sou apenas um rato de laboratório.

Cérebro: Eles podiam ter dado uma pista ou coisa parecida.

Pinky: Um livro para colorir.

Cérebro: Mas, isto estragaria todo o propósito da experiência.

Pinky: Dois ratos de laboratório digitando ao infinito acabarão por produzir, cedo ou tarde, “Esperando Godot”.

Cérebro: Correto.

Pinky: Inteiramente por acaso.

Cérebro: E o resultado da experiência será julgado por Renata Mizrahi.

Pinky: Mas, o que é “Esperando Godot”?

Cérebro: Não sei Pinky. Se eu soubesse já teria digitado.

Pinky: Isso é ridículo.

Cérebro: Afinal, o que é que devemos a Renata Mizrahi. Uma mulher que fica do lado de fora da gaiola e diz às pessoas: “aquele é o Pinky, aquele é o Cérebro”.

Pinky: Ela coloca água e ração na gaiola.

Cérebro: É verdade. Não gosto quando ela diz nossos nomes para as pessoas. Sempre acham meu nome hilário. Os últimos amigos dela que ouviram nossos nomes eram de uma facção estranha chamada Drama Diário.

Pinky: Pensei que fossem dramaturgos.

Cérebro: É possível eles eram um tanto exóticos.

Pinky: E como esperam que a gente escreva “Esperando Godot” se nós nem sabemos o que é?

(Barulho de Passos. Renata Mizrahi se aproxima da gaiola e olha para os ratos durante um tempo quase incômodo. Renata sai.)

Cérebro: Ufa! Foi por pouco. Ela quase leu um capítulo não autorizado da minha autobiografia.

Pinky: Posso ler!

Cérebro: Não.

(No fundo da cena vemos a sombra de Renata Mizrahi segurando um cutelo ameaçadora. Ela sussurra os nomes dos ratos e ri docemente. Como Pinky e Cérebro foram gentilmente cedidos pela Warner Bros, de acordo com uma cláusula do contrato em algum momento Renata deve homenagear Felícia também contratada dos estúdios Warner e por isso ela diz)

Renata Mizrahi: Eu vou te apertaaaaaaaaaar, te abraçaaaaaaaaaaaar, te beijaaaaaaaaaar e te mataaaaaaaaaaaaaar de tanto amor.

Cérebro: Pinky, é questão de vida ou morte. Precisamos escrever “Esperando Godot”.

(Os dois ratos digitam desesperadamente enquanto a sombra de Renata Mizrahi se aproxima)

Imagem da tela do laptop de Pinky: Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado de sua irmã e não ter nada para fazer: uma vez ou duas ela dava uma olhadinha no livro que a irmã lia, mas não havia figuras ou diálogos nele e “para que serve um livro”, pensou Alice, “sem figuras nem diálogos?”.

Imagem da tela do laptop de Cérebro:
A country road. A tree. Evening.
Estragon, sitting on a low mound, is trying to take off his boot. He pulls at it with both hands, panting. # He gives up, exhausted, rests, tries again. As before.
Enter Vladimir.
ESTRAGON: (giving up again). Nothing to be done.

(A sombra de Renata Mizrahi está muito próxima e a lâmina fria do cutelo se aproxima da gaiola)

Pinky: Cérebro, o que faremos amanhã a noite?

Cérebro: A mesma coisa que fazemos todas as noites, Pinky… Tentar conquistar o mundo!

Trevas…

FIM

Quem tem medo de Larissa Câmara?

Cena real, vida real e Cruel:

Na saída do Teatro do SESC, da peça Os Estonianos, escrita por mim, encontro Larissa Câmara, que estava na platéia da peça, conversamos:

Eu – Oi, querida!

Larissa, muito, muito adulta responde.

Larissa – Oi.

Eu – (com muito medo da resposta) E aí, gostou da peça?

Larissa – (sem respirar) Näo gosto desse universo cotidiano que você sempre repete em suas
peças e acho que todos os seus personagens femininos são muito infantis.

Pausa.

Aquela frase ecoou em meus ouvidos e espírito por toda a noite e devastou por completo a minha criatividade. Desde que Larissa me criticou, sem dó nem piedade, não consigo escrever mais nenhuma linha sem pensar em suas palavras cruéis.
Fiz um intensivo de 24hs com o meu analista, gastei todas as economias que ganhei escrevendo gibis… gibis???? Talvez seja daí que tenha saído tanta infantilidade… Meu Deus!!!! As fichas estão caindo uma a uma… Depois de repensar toda a minha trajetória como dramaturga, fazer meditação, massagem Ayurvédica e tomar alguns ansiolíticos, resolvi mudar.

Larissa você tem toda a razão. O Jô quer ser eu, mas eu quero ser…você!!!! E para começar vou tentar,com toda a minha força, construir um diálogo com personagens femininas adultas. Vou tentar. Näo seja cruel e deixe um recadinho depois de ler, preciso voltar a dormir.

Personagens femininas adultas, ou adultas femininas:

Malévola – Uma mulher nascida para o mal mesmo quando faz o bem . Ferina, mordaz, picante, mostarda e picles num pão com gergelim. Malévola é uma mistura de Xuxa com Mara Maravilha (ai! Infantil de novo, Julia!!!) Uma mistura de Laura Cardoso com Ida Gomes (melhor!) Malévola trabalha numa galeria de artes e quando não está trabalhando, está fazendo algo que só uma mulher muito adulta e nada infantil faria: ela… ela… cuida de animais enjaulados no circo de Moscou?…. näo! Infantil de novo. Ela… ela joga sinuca no Botecotaco todas as madrugadas… é pouco… ela joga sinuca, é promoter de uma boate GLSYZ, trafica êxtase, faz striper numa loja de roupas e pousa de modelo vivo para um pintor morto… por aí…

Sádina- Uma voyeur nata que não se contenta somente em ver o prazer dos outros, mas precisa paralisar o momento do prazer e, para isso, Sádina tira fotos de pessoas, gatos e tamanduás no auge do orgasmo e as gruda em sua geladeira vermelha, pois, assim, também, não engorda. Sádina é crua como um nabo cru, linda como uma mosca sufocada pelo gás de uma coca-cola diet e, além disso tudo, é muito, muito, mas muito ADULTA.

Pérvela- Uma louca na cama, no chuveiro, na pia e no Pinel também. Pérvela é uma mulher muito, muito sexy, mesmo quando arrota. Quando fuma, traga tão forte que sente a fumaça vazar pelo cú. Tem longos cílios e grandes pelos no suvaco também. É moderna, contemporânea e atual na atualidade do hoje. Sabe o quer, mesmo quando não quer nada. É instigante como uma uva passa passada e bonita como caju solitário. Tudo isso é pouco, pois, na verdade, Pérvela é muito, muito, mas muito ADULTA.

Pausa.

Eu – Depois do perfil dessas personagens, já me melhor, muito melhor… mas estou muito acabada para continuar… como é difícil ser adulta e escrever para adultos… muito difícil. Será que Larissa vai gostar??? Será?? Será que isso tudo está acontecendo porque Jô Bilac entrou no meu cérebro e porque me fez voltar a fumar… ahhhh! Sai daí!!!! Saí!!! Socorroooooooo!!!! Barenco me ajuda! Rodrigo, Renata, Camilo! Quem está dentro de mim??? Jô ou Larissa??? Quem sou eu? Eu quero ser escrever para adultos!!!!!! Buáááááááááá!!! Quero! Quero! Buáááááá!!!!!!! Vou matar essa criança que mora dentro de mim!

FIM… um final bem adulto, sem explicaçöes infantis…

Quero ser Julia Spadaccini

Personagens:

Analista, sempre equilibrada e contundente.

Beth, muito tensa.

(Beth deitada no divã)

Beth: Quero ser Julia Spadaccini.

Analista: Pensei que você tivesse superado isso, Beth.

Beth: Pois é. Não superei. Quero muito ser Julia Spadaccini, doutora.

Analista: Mas por que a insistência nessa tentativa frustrada? Será seu self reclamando atenção materna? Ou seu super ego está em crise e procura uma fuga, no lugar de enfrentar de frente o que não aprova.

Beth: (sem entender) O que? Repete…

Analista: Ser Julia Spadaccini é a projeção inconsciente de uma infância mal sucedida por apelos materiais, uma espécie de animal tacanho reprimido em seu mais puro estado de alienação contemporânea.

Beth: Não é nada disso, sua idiota.

Analista: Negar também é uma forma de afirmar, que por outro lado…

Beth: Cale a boca! Quero ser Julia Spadaccini porque ela tem namorado e eu estou solteira. Passei a vida toda acompanhando suas histórias sobre relacionamentos amorosos. Vi todos! Me reconheci em cada personagem feminino. Meu casamento frustrado em “Ainda bem que foi agora”, minha solidão feminina como em “Um dia Anita”, minha vontade de ser feliz, mas só “A Sônia que é feliz”. E agora, nesse fim de semana, no planetário da Gávea, às 21 horas, eu vi “Os Estonianos” e fiquei chapada! Eu estava ali!!!!!!!!!!!!!!!! Daí comecei a desconfiar…

Analista: Desconfiar?…

Beth: Sim… Desconfiar que a Julia Spadaccini entrou na minha cabeça!

Analista: Mas isso é impossível!

Beth: Nada é impossível para uma dramaturga de sucesso! Ela é formada em psicologia, sabia…? (numa ironia) Eu conheço bem esse tipo: retém informações secretas a respeito do comportamento humano e sabe manipular como ninguém suas emoções.

Analista: Beth,onde você está querendo chegar?

Beth: Julia Spadaccini entrou na minha cabeça e agora eu quero vingança! Eu vou entrar na cabeça dela!

Analista: (tentando manter a calma) Como assim?

Beth: Está vendo isso? ( mostra uma espécie de capacete eletrônico)

Analista: Sim, o que é?

Beth: Meu passaporte para o universo de Julia!

Analista: Mas não é possivel…

Beth: Nada é impossivel para uma mulher com orgulho ferido. Cansei de ser Beth a feia, quero ser Julia Spadaccini!

Analista: E o que pretende fazer quando estiver sendo Julia Spadaccini?

Beth: Pretendo tomar as rédias da felicidade. Vou redecorar todo o apartamento, ela se mudou agora… Vida nova! Vou pintar meu cabelo de louro claro, sempre quis ser loura, mas só sendo Julia o louro ficaria bem. Quero também passear com o namorado dela pra cima e pra baixo. Sim, pois é muito fácil falar de solidão quando se tem um namorado! Vou conhecer Brasília! Vou ser amiga do Eron! Vou dividir segredos com a Ana! Vou fazer com que ela volte a fumar! Vou levar elogios da Bárbara Heliodora! (aos gritos)Eu vou ser Julia Spadaccini!!!

Analista: (tímida) Também posso?

Beth: O que?

Analista: Ser Julia Spadaccini… Também posso?

Beth: (reflete) Ih…

Analista: Deixa, só um pouquinho… Ela é formada em psicologia, temos muito em comum e eu também sempre quis ser amiga do Eron…

Beth: 200 pratas.

Analista: Isso tudo?

Beth: Minha filha, você vai ser a Julia Spadaccini, queria o que? Está até barato. Esse preço camarada é só porque o cara da ceg bateu lá em casa e pá: cortou meu gás. Preciso pagar e estou dura. Do contrário, por 200 pratas você não iria sequer sentir o cheiro da Julia!

Analista: Ai tá caro…

Beth: Caro é ser isso aí que você é. Estou falando de uma dramaturga linda e independente! 200 pratas por meia hora, é pegar ou largar…

Analista: Tá bem… Mas em que horário da vida dela?

Beth: 200 pratas, na promoção, na hora em que ela escreve o texto do dramadiário.

Analista: Ah, não… Eu quero ser a Julia quando ela estiver namorando… Estou me sentindo muito só ultimamente…

Beth: Aí sobe pra 500.

Analista: Que assalto!

Beth: Minha filha, não quer não queira. É assim e pronto.

Analista: (resignada) Que remédio! Está bem. Eu pago. Eu vou ser a Julia Spadaccini amanhã, quando ela estiver escrevendo um texto… (sorri maquiavélica) Eu direi tudo o que realmente penso a respeito de uma certa mulherzinha chamada Larissa Câmara! hahahahhahahahaha (ri satânica) Larissa me pagará caro!!!!!! Hahahahahahaha

(as duas ficam ali rindo satânicamente. Enquanto do outro lado da cidade, Julia Spadaccini nem desconfia de que sua cabeça está disponível no mercado livre ponto com.)

fim.

Quero meu autor de volta!

(Da série Kid Bauhaus, de Jô Bilac!)

Jô: cara de quem não gosta de acordar cedo, charmoso e fumando.
Kid: Cabelos arrepiados, mais nervosa do que tranquila.

(Lanchonete barata da rodoviária Novo Rio, numa mesinha no canto Jô fumando distraidamente. Tudo o que tem não cabe nas malas. Surge, Kid equilibrando um cubo de metal na cabeça. Cansada, vai até ele)

KID (seca) – Eu tô mais dura que coco, não tinha 15 reais nem pra pegar o táxi. Eu vim a pé ao menos pra te pagar esse cafezinho. Antes que você jogue na minha cara que eu te acusei de você ter me acusado de assassina, porque não adianta negar, eu caí na tua isca igual peixe-boi no caso Pam Loretti, eu gosto de você. Não, por favor, não diga nada. Quer dizer, diz sim, diz aqui aqui na minha face que você não me ama mais! Ô, Jô, eu tô aqui na sua frente mais suja que um pano de chão torcido, fazendo sacríficio e você me ignora. Você era o meu autor! Pior do que filho sem mãe, criança sem creche, colégio sem merenda, é personagem sem autor. Abandonada na rua da amargura com um vocabulário meio esquisito. Essas palavras não me pertencem! Só você sabe o que eu diria nesse momento! É assim, você cria uma série pra se aproveitar de mim e na primeira oportunidade eu sou jogada pra escateio. Sem nenhum gandula pra ir me buscar. Sabe que eu vim equilibrando um cubo na cabeça pra chamar sua atenção? Não sabe, né. Você não repara mais em mim. Não diz que me ama. O amor em sua boca parece uma ferida pestilenta com uma mosca varejenta agonizante pousada em cima. Seu amor é como uma bola de pus. Meu pai do céu, parece que eu já disse isso antes. Tá vendo, tá vendo o que você fez? Eu não sou mulher de relicário, não. Eu não guardo nada, eu despejo tudo que eu tô pensando! Eu estou sendo assassinada na sua frente, Jô Bilac! Você não vai fazer nada? Pois saiba que vai faltar pano de chão pra limpar o sangue do teu carpete novo, porque tu ficou rico com a pet-shop que eu sei! Você é incapaz de perceber o outro. Você me expôs no programa de televisão igual se expõe frango de padaria. O bicho homem realmente me assusta cada vez mais, queridos leitores. Eu disse que não queria uma peça. Acho vulgar peça de esquetes. No entanto, eu me sinto uma prostituta passando de mão em mão de autor como se eu fosse uma qualquer. Eu já tenho cinco esquetes, não sou qualquer uma. Arrisco a dizer que eu sou a personagem mais próspera do site. Eu sou ótima. Não vem dizer que acredita no amor como força transformadora, não. Seu coração virou uma pedra de mármore suja e fria. Suja e fria. Suja e fria. E mesmo que eu não queira, não é da minha personalidade ficar repetindo expressão, saiba que você pode ter perdido uma companheira pro resto da vida. Vou protagonizar monólogos femininos. Se meu pai fosse mulher eu teria duas mães. Mas no caso, agora eu tenho dois pais.

FIM