Eva
E = EVA
S = SERPENTE
EVA se surpreende ao dar de cara com a macieira e a SERPENTE por perto.
E- (ASSUSTADA) Você?!
S- Oi, bonita! Como vai!
E- Eu… Eu…
S- Perdeu a língua?
E- Com licença. Vou embora.
S- Espera! Pra quê a pressa? Não vai dizer que tem algum compromisso marcado.
E- As cotovias estão esperando por mim.
S- Não vai embora desse jeito. Fica um pouco. Vai fazer o quê com as dementes das cotovias?
E- A gente marcou um piquenique.
S- (DESCONFIA) É mesmo? Aonde?
E- Lá no… lá atrás… do… lá no rio de sorvete de chocolate.
S- Não tem piquenique nenhum! Mentirosa.
E- (TENSA) Tem sim! Tem sim! Elas estão me esperando! A gente vai tomar muito sorvete!
S- Você mente mal, Eva. Seus olhos ficam turvos. As rugas quase imperceptíveis da sua testa desabam numa careta hedionda.
E- (SONSA) Quem está mentindo? Eu?
S- Imagina se teu pai sabe disso, com que cara Ele não vai ficar?
E- Vão estou mentindo coisa nenhuma! Você é má! A gazela me contou!
S- Contou o quê, ô sua lerda? Não sabe nem mentir.
E- Contou que você tem dentes afiados de onde escorre veneno.
S- Vocês, fêmeas de mamíferos, são todas umas coitadas.
E- Coitada é tu! Criatura rastejante!
S- As répteis sim, as fêmeas de inseto também, são mulheres de fibra! Já você vai estar sempre à sombra do teu eterno maridinho. Por mais que se esforce, sempre vai ser a costelinha tímida que não servia pra nada e acabou virando gente.
E- Cala essa boca, cobra caninana! Eu jamais ficarei à sombra do Adão, ouviu bem? Jamais!
S- Então por que não fica e conversa um pouco comigo?
E- (SUBITAMENTE RETRAÍDA) Eu não posso… Foi como te falei… Tenho piquenique.
S- Piquenique o cacete.
E- A corsa me disse pra não falar com você.
S- Não foi veadinho nenhum que falou mal de mim não. Foi aquele loiro seboso. Teu namorado. Ele manda você fazer as coisas e a idiota obedece.
E- (CONFESSA) Foi ele que falou sim. E Papi também.
S- Mesmo assim você veio. Porque tem uma coisa que você quer.
E- (MENTE MAL) Tem coisa nenhuma.
S- Tem sim. A maçã. Você está doida pra dar uma mordida nela.
E- Quem? Eu? Eu não.
S- (PROVOCA) Mas Papi proibiu. Papi deixa a filhinha fazer tudo! Faz rio de sorvete de flocos pra filhinha! Faz rio de estrogonofe. Mas rio de maçã Papi não faz. Não pode comer maça. É proibido.
E- Só queria saber que gosto tem.
S- Nada de mais, viu? Doce, mas sem graça. Não é como um bolo de chocolate cremoso, uma torta de nozes… É simplesmente… maçã.
E- Mas por que Papi proíbe?
S- Porque se você comer a maçã, essa folha colada no teu sexo vai cair. Você vai perceber que não é só Papi que pode gerar uma vida. Você também pode.
E- (ANIMADA) Está brincando!
S- Adão vai entrar dentro de você e vocês dois, suados e sem fôlego, vão se deleitar muito mais do que tomando banho de sorvete.
E- Melhor que banho de sorvete? Será?
S- Papi vai ficar uma fera e expulsará vocês dois do Paradise. Lá embaixo vocês vão morrer, pegar doenças, entrar em guerras, e Papi não vai consertar quando sua cabeça for arrancada por acidente.
E- Que horror!!!
S- E você vai engordar que nem uma vaca se comer do jeito que você come aqui em cima! Isso se você tiver comida. Você vai ter que trabalhar pra se alimentar.
E- (HORRORIZADA) Trabalhar?
S- Fora que nos primeiros dez mil anos vocês vão ser consideradas inferiores que os homens. Vai ser uma longa batalha conquistar a igualdade.
E- (DESANIMADA) Dez mil anos…
S- Você já vai ter parido muitos filhos, testemunhado o decair das tuas carnes, conhecido a solidão da morte.
E- E o que acontece? O que acontece quando a gente morre?
S- Não sei? Você volta por colo do Papi? Ou cai na escuridão de vez? Você vai ter que provar por si mesma. E aí, garota mimada?… O que vai ser?
(PAUSA)
E- O Paraíso está um tédio. Passa essa maça pra cá.
FIM
Anjos e demônios
Homem chegando ao céu, encontra um anjo.
H – Com licença.
A – Pois não?
H- (rindo) Você é um anjo?
A- Sou.
Homem ri copiosamente.
A- Qual é a graça?
H- Desculpa, é que eu ouvi falar tanto em vocês, mas não imaginava que era verdade…
A -O que?
H -Isso de asinhas brancas… e … bem o cabelo é um pouco diferente…
A- O que tem meu cabelo?
A- Ah, sei lá… tá faltando uns cachinhos dourados, pelo menos é assim que a gente acha que são os anjos…
Anjo começa a chorar.
H- Que foi? Ta chorando por quê?
A – Eu tentei de tudo para ter cachinhos dourados. Fiz reflexos, luzes e até comprei o baby Liss, mas nasci assim sem uma ondinha, nada, uma lisura sem fim…
H- Engraçado.
A- O que?
H- Lá em baixo é diferente.
A- Diferente como?
H-Lá embaixo todo mundo que tem cachinhos quer alisar. Escova de chocolate, japonesa, água sanitária…
A- Que engraçado…
H- É…
A – O que mais falam dos anjos… como é mesmo o seu nome?
H- José.
A- José… e o que falam?
H- Ah… que vocês… que vocês…
A- O que?
H- Se eu falar você vai chorar.
A- Que usamos auréolas? Isso é coisa antiga, na nova coleção podemos usar até chapéu panamá.
H – Não é isso.
A- Que tocamos arpas? Isso era verdade, mas Deus começou a ouvir techno celestial e pediu para gente investir na coisa de DJ.
H – É mesmo? E o que vocês tocam?
A- Fizemos uma série chamada “orações para dançar”: Ave Maria remix, Afro-aleluia, essas coisas.
H- Tem rave?
A- Claro. Todo domingo no inferninho.
H- Mas vocês podem ir para o inferno?
A- Escondidos… o diabo aluga uma Vanjo para gente.
H – Como?
A- Vanjo, van para anjos.
H- E Deus nunca descobriu?
A- Ah, Ele sabe mas não finge que não… mas então, é isso que falam dos anjos?
H – Não, não é isso.
A – O que é então?
H- O pessoal da Terra acha que vocês são meio… frutinhas.
A- Frutinhas? Não entendi.
H -Que não… não…
A- Ah! Que não temos sexo?
H – Isso.
A- É verdade, não temos.
H – Mas e aí? Qual é a graça de ir para a rave no inferninho e não poder pegar ninguém?
A – (dá uma piscadela) Asas.
H- Asas?
A – Os humanos subestimam o valor das asas.
H- Não é verdade, nosso sonho é voar.
A – Mas o melhor de ter asas não é voar.
H- É o que?
A – Não dá para explicar. Só os anjos conseguem sentir.
H- Vocês são muito estranhos…
A-É mais fácil, rápido e bonito.
H – O que? Dar uma asada em alguém? Credo!
A – Pode se acostumar, pois se você chegou até aqui é porque vai virar anjo.
H- Eu? Mas eu sou péssimo, jamais seria um anjo.
A – Imagina, você foi ótimo!
H- Fui péssimo, cafajeste, irresponsável, boca suja, mentiroso. Não tenho a menor condição de ser anjo. No máximo ajudante do capeta.
A – Você acha que ser anjo é um prêmio?
H- Pô! Não é?
A – Claro que não! Como eu disse, a diversão rola solta no inferninho, aqui no céu a coisa anda tão parada que Deus resolveu que o castigo é o paraíso.
H- Mas o paraíso deve ser legal, vai… cheio de redes para dormir, sem hora para nada, ventinho no cabelo…
A – Tédio. Tédio puro. Depois de 24hs, você não agüenta mais as redes e começa a fazer aeróbica guiada.
H- Como assim?
A – Tem um grupo de anjos que fica fazendo animação no paraíso para ninguém ter gangrena de tanta falta do que fazer.
H – E a comilança?
A – Frutas, no máximo uma bananinha com mel, quando as abelhas resolvem ajudar…
H- E a praia?
A – Laguinho.
H – Mas só de não precisar trabalhar já está bom…
A – Não precisa trabalhar? Você tem noção do que é passar o dia pegando fruta no pé, água do lago para banho e acolhendo os que acabaram de morrer. Você está tranqüilo, mas tem suicida que chega aqui arrependido e você tem que acalmar, é um desastre…
H- Suicida entra aqui no paraíso.
A – To dizendo que as coisas mudaram.
H- Mas então eu quero ir para o inferno.
A – Não dá mais.
H- Pelo amor de Deus, me ajuda!
A – Escolhe, quer que eu ajude ou Deus?
H – Eu faço qualquer coisa para ir para o inferno!
A – Qualquer coisa?
H – Qualquer!
A –Mesmo?
H- To dizendo!
A – Então você tem que assinar aqui.
H- Eu assino.
Anjo tira documento do bolso.
A – Assina aqui e aqui. Com letra legível, hein. Isso.
Homem assina.
A – Pronto, agora você pode seguir por ali que vai direto para o inferno.
H- Ai, obrigada, queridão! Você foi realmente um anjo!!!!
A – Imagina…
Homem sai feliz da vida. Entra outro anjo, agora de cachinhos douradinhos, arpa e tudo.
Anjo 2 – Você viu um cara chamado José por aqui? Tenho que levar ele para o paraíso e estou atrasado…
Mostrando a direção.
A – Ele foi por ali.
Anjo 2 – Ah, obrigada!
Assim que o anjo 2 sai, Anjo 1 mostra o rabinho de capeta para a platéia.
A – Ai, ai, difícil fazer o trabalho todo sozinho…
A dá uma gargalhada e sai.
Por toda a eternidade
(Marcos e Patrícia estão deitados no chão. Ele acorda primeiro que ela. Ele olha ao redor. Vê que está em um ambiente diferente do que está acostumado e gosta do que vê).
MARCOS: Pati, Pati, meu amor, acorda.
(Patrícia vai acordando devagar)
PATRÍCIA: mhummumm
MARCOS: Acorda, meu amor. Sou eu.
PATRÍCIA: Mhummumm
MARCOS: Amor da minha vida, acorda.
(finalmente ela acorda)
PATRÍCIA: Marcos?
MARCOS: Sou eu, meu amor.
PATRÍCIA (assustada): Ah, não meu amor, eu não sei se é uma boa idéia. Não, meu amor, vamos mudar de idéia. Não sei se…(ela repara num outro lugar) Que lugar é esse?
MARCOS: Meu amor, eu acho que a gente conseguiu.
PATRÍCIA: Conseguiu o quê?
MARCOS: A gente conseguiu, meu amor. Eu não disse? A gente ia conseguir. Que bom, que bom.
PATRÍCIA: Marcos, o que a gente conseguiu?
MARCOS: Você não lembra, meu amor? A gente conseguiu! Eu nem acredito. Olha para esse lugar. É lindo, é mágico. Eu sabia, eu sabia, meu amor. Agora estamos aqui. Juntinhos. Eu e você por toda a eternidade.
(Após marcos falar essas palavras, Patrícia se levanta assustada)
PATRÍCIA: Por toda a eternidade?
MARCOS: Olha que lugar lindo, meu amor. Respira esse ar puro, olha as cores. Eu sabia, eu sabia. Vem cá, vamos comemorar, me beija.
PATRÍCIA (se afasta): Marcos… Isso é um sonho, não é possível, isso só pode ser um sonho. Não é possível. Não! Marcos, não pode ser. Não.
MARCOS: Por que você tá assim, meu amor?
PATRÍCIA: Eu tô confusa.
MARCOS: Confusa por quê?
PATRÍCIA: Marcos, eu disse pra você que eu não queria. Eu não queria. Por que você fez isso comigo? Por quê?
MARCOS: Pelo seu bem, meu amor. Pelo nosso bem. Tá vendo? Agora podemos viver uma vida nova. Cheia de alegrias, cheia de maravilhas.
PATRÍCIA: Não, Marcos, não. Uma vida nova? O que você chama de vida nova? Você acabou completamente com a minha vida! Aaahhh!!!
MARCOS: Não esqueça que você queria. Você queria. Só desistiu no final. Ficou com medo. Mas era tarde demais. No final não vale. Já não dava mais tempo. Mas pensa que deu certo. Deu certo. Deu certo.
PATRÍCIA: Será mesmo que deu certo?
MARCOS: Olha em volta, meu amor. Só pode ter dado certo. Olha em volta.
PATRÍCIA: Será? O a gente que fez não foi coisa que Ele aprove assim, Marcos.
MARCOS: Como não aprova? Olha onde Ele nos colocou. Pássaros cantando, flores, céu azul, cheiro de orvalho. Ele viu que o que a gente fez foi por uma causa nobre. Tudo quando é por amor é perdoado. Agora estamos aqui, livres, felizes no paraíso, por toda a eternidade.
PATRÍCIA: Estamos? Livres, felizes no paraíso?
MARCOS: Você não está vendo?
PATRÍCIA: Sim, estou vendo. Mas… tudo é tão estranho.
MARCOS: não pensa assim. Pensa que o amor vence todas as barreiras, que o amor supera todas as causas.
PATRÍCIA: Sim, entendo. Estou conseguindo ver. O amor! Por amor!
MARCOS: Isso. Por amor.
PATRÍCIA: E quando é por amor, até o suici…
MARCOS: Não fala essa palavra. Em respeito ao lugar, eu acho melhor a gente não arriscar.
PATRÍCIA: Mas nós já estamos aqui…
MARCOS: Graças a mim. Graças a minha brilhante idéia. Graças aquele vene…
PATRÍCIA: Não fala essa palavra. Em respeito ao lugar. Eu também acho melhor a gente não arriscar.
MARCOS: Isso, meu amor. Isso. Vamos aproveitar, vamos aproveitar o nosso amor.
PATRÍCIA: Por toda a eternidade.
MARCOS: Por toda a eternidade. Como a gente sempre quis.
PATRÍCIA: Olha, Marcos. Flores! Flores por todos os lados.
MARCOS: Olha a grama verde!
PATRÍCIA: Olha quantos passarinhos!
MARCOS: Cantam que é uma beleza.
(nesse momento eles começam a cantar como se estivessem num musical)
PATRÍCIA e MARCOS: cantam
“Passarinhos. Passarinhos.
Eles cantam só pra mim.
Quantas flores. Muitas cores.
O paraíso é mesmo assim.
É tanto verde.
E o céu todo azul.
Alegria.
Do norte até o sul.
Estamos juntos. Sempre juntos.
Agora eu posso ser feliz…”
PATRÍCIA: Puxa, meu amor. Desculpa, eu duvidei de você. Tô até envergonhada.
MARCOS: O nosso amor era grande demais para aquele mundinho, aquele lugar fétido sem esperanças. Aqui estaremos muito melhor.
PATRÍCIA: Será que aqui, já que tudo pode acontecer, conseguirei finalmente ter filhos com você?
MARCOS: Claro, claro. Por que não? Nossos filhos serão anjos correndo por esse jardim.
PATRÍCIA: Meu amor, isso é um sonho. Meu amor, que alegria! Obrigada. Eu amo você!
MARCOS: Eu amo você também!
(eles correm e se abraçam pela primeira vez. Ao se encostarem, gritam de dor, como se tivessem levado um choque. Se abraçam de novo e acontece o mesmo. Repetem esse gesto várias vezes.)
PATRÍCIA: Meu amor, que estranho. O que está acontecendo?
MARCOS: Não sei meu amor. Vamos tentar nos encostar bem devargazinho…
PATRÍCIA: Confesso que estou com medo.
MARCOS: Não tenha medo. Nosso amor supera tudo.
PATRÍCIA: Foram essas palavras que você disse na hora do suicí…
MARCOS: Não!! Nós já combinamos. Vai. Devagar…Ponta do dedo com ponta do dedo.
(eles vão devagar tentando encostar as pontas do dedo, ao encostarem se afastam como se tivessem levado um choque.)
MARCOS: Não é possível. Alguma coisa está dando errada!
PATRÍCIA: Eu disse, eu disse. Ele jamais concordaria com uma coisas dessas. Você não leu a bíblia, a torá, o alcorão?
MARCOS: Não. Fizemos isso por um desejo único de sermos felizes por toda a eternidade. Que mal há nisso?
PATRÍCIA: Mas Marcos, na hora eu desisti e você me obrigou …
MARCOS: Você não podia ter desistido. Não vê que na verdade eu te salvei…
PATRÍCIA: Salvou? Salvou mesmo? De que adianta estarmos nesse lugar lindo, com pássaros cantado e flores coloridas, se não podemos nem nos tocar? (tempo) Aaah! Eu quero volta, eu quero voltar. AAhhh!!!!! (ela fica completamente histérica)
MARCOS: Cala a boca! Cala a boca! Sua voz parece o inferno!
(silêncio)
Os dois! AAAAHHHH!!!!
(Volta a música bem distorcida)
FIM.
Motel Paraíso
Personagens:
Rock – a virilidade com alma de salto alto
Bruna – esmalte vermelho desejo com força
Dr. Marcondes – uma resolução de caráter…
(A Ação se passa num quarto do Motel Paraíso. Luzes piscam, ouvimos em alto e bom som a música “Don´t stop the music” , ou similar, (http://www.youtube.com/watch?v=xsRWpK4pf90&feature=fvst ) Rock e Bruna, putos de aluguel, começam seu show para o contratante. Bruna está agarrada na cintura de Rock. Eles executam uma coreografia que deve ser sexualmente provocante, mas beira o patético. Bruna numa sensualidade vulgar e Rock com uma virilidade exibicionista).
Dr. Marcondes: (falando alto até interromper a música) Pára… Pára. Pára!
(Rock e Bruna se olham sem entender. A música pára. Rock e Bruna levemente constrangidos)
Bruna: Quer que troque a música?
Rock: A gente pode fazer outra coreô…
(Dr. Marcondes sentado olhando para baixo com a cabeça entre as mãos em silêncio.)
Bruna: (quase maternal) Já sei. Ele quer relaxar… (piscando confiante) Rock, vamos fazer aquela!
(Com a emoção dos bailarinos de festa de formatura, começam uma coreografia romântica ao som da música Say You’ll Be There (http://www.youtube.com/watch?v=9ro0FW9Qt-4))
Rock: (num sorriso singelo) Uhul! Spice Girls Adoro!
(Dr. Marcondes faz sinais discretos com a mão pedindo para eles pararem. Rock e Bruna param de dançar. A música pára. Dr. Marcondes começa a chorar)
Bruna: (tirando um chicote da liga. Dominatrix para Dr. Marcondes) Hum, o gatinho quer ser dominado? Se continuar chorando vai apanhar? Quer levar muitas palmadas nesse bumbum? Vem aqui! A sua dona vai te bater!
(Dr. Marcondes faz sinal de pausa. Vai até o banheiro lavar o rosto)
Rock: (num suspiro) Ai, meu pai!
Bruna: Isso nunca me aconteceu antes.
Rock: (afetado) Sei. Tem certeza que é aqui?
Bruna: Claro.
Rock: Claro, nada Bruna. Você é meio burra para anotar recado.
Bruna: (tirando uma folha do bloco de recados dos seios) Motel Paraíso, bloco Jardim do Éden, quarto 7. É aqui mesmo.
Rock: Sei não, heim, Bruna. Cliente que chora dá um azar.
Bruna: Ih, Rock. A situação já está difícil vai querer bancar o implicante?
Rock: (semi magoado) Ih, tá bom. Não falo mais nada. (pausa malvada) Não sei… Acho que ele chorou porque sacou que você parou de malhar. Sua bunda tá uma gelatina.
Bruna: (gargalha) Ele chorou porque você deu pinta. Você é mais mulher do que eu. Ele contratou um casal, não um show lésbico mexicano.
Rock: (go-go boy ferido) Ih, eu sou super bofe!
Bruna: (rindo) Bofe de unha postiça.
Rock: Ih, parei com você. Pintei francesinha. Tô super discreto. A unha postiça eu posso arrancar, meu amor. Mas, a sua bunda, só Jesus!
Bruna: Eu piso no seu recalque, bicha ploc!
Rock: (estourando uma bola de chiclete) É Bubbaloo, meu amor! Eu sou fino! (pausa) Você combinou o preço antes?
Bruna: Meu querido, eu não saio de casa sem saber quanto eu vou ganhar.
Rock: Acho bom mesmo. (pausa) Tô quase achando que ele chorou para ganhar desconto.
Bruna: Fala baixo que ele está voltando.
Dr. Marcondes: Oi. Boa Noite.
Bruna: (piranha light) Boa noite!
(Rock faz um aceno de cabeça e cruza os braços, muito viril escondendo as unhas postiças)
Dr. Marcondes: Meu nome é Marcondes.
Bruna: Eu sou a Bruna. Ele é o Rock. E aí? Tudo legal?!
Dr. Marcondes: Vocês estão vendo aquela caixa? (aponta para uma caixa de ventilador no canto do quarto).
Bruna: (meio tensa, mas querendo ser fofa) Aham… Olha só eu posso até tentar entrar na caixa, mas eu não sou muito alongada. Eu tenho uma amiga que é contorcionista do forró…
Dr. Marcondes: (interrompendo) A caixa está ocupada.
Bruna: Ah, tá Legal.
Rock: (Semi tenso para Bruna) Sinistrinho, esse cara.
Dr. Marcondes: Eu quero os dois de quatro no chão agora!
(Rock e Bruna ficam de quatro. Dr. Marcondes pega uma pá)
Rock: (medroso) Na boa, eu faço de tudo… Mas, não quero que me bate nem que puxe o meu cabelo.
Bruna: Ai, Rock.
Dr. Marcondes: (num suspiro. Acende um charuto) A sociedade está cheia de desentendimentos. Por exemplo, eu acho que nós não estamos nos entendendo. Isso é fruto de quê? Da falta de comunicabilidade da sociedade contemporânea.
Bruna: (burra) É verdade. Super concordo.
Dr. Marcondes: Não me interrompa.
Bruna: Desculpa.
Dr. Marcondes: Eu estava na sacada da minha cobertura com a minha mulher. Nós nos desentendemos por um motivo bobo, um motivo banal, eu diria. O seguro de vida milionário dela… Banal, não é mesmo? Ela se desequilibrou e caiu da sacada. Um acidente. Eu diria mais: Um joguete do destino. Agora tudo o que sobrou dela está naquela caixa de ventilador portátil. Nunca pensei que ela pudesse acabar assim. (reflexivo) É da vida não se leva nada.
Rock: (num sussurro de pavor) Eu não queria estar aqui. Eu ganho muito mais fazendo cover da Britney Spears em festa infantil.
Bruna: Quietinho, neném.
Dr. Marcondes: Eu vou explicar como funciona. Vocês vão arrancar o carpete encardido desse quarto e começar a cavar uma cova linda para minha esposa. Quando o meu charuto acabar eu quero a cova pronta, ou eu acabarei com vocês. Entenderam?
(Rock e Bruna apavorados acenam a cabeça num sim trêmulo. Dr. Marcondes joga a pá para Rock.)
Rock: (num gemido) Ai, minha unha postiça.
(Rock e Bruna num abraço repentino com choro sincero)
Dr. Marcondes: (numa baforada de charuto cruel seguida de uma gargalhada) Comecem a cavar!
Fim…
“Final Bônus Track”
(Rick e Bruna cavando cantarolam chorando juntos)
Rock e Bruna: I´m a slave for you! (http://www.youtube.com/watch?v=kuZKbXNGDs4)
FUMAÇA DE CHARUTO… TREVAS…
O paraíso perdido
“Eu não me acostumo sem seus beijos, e não sei viver sem seus abraços, aprendi que pouco tempo é muito se estou longe dos seus braços… E por isso eu te procuro tanto e te telefono a toda hora, pra dizer mais uma vez te amo como estou dizendo agora… Faço qualquer coisa nessa vida para ficar um pouco do seu lado…”
R – Eu errei, mas quero voltar atrás.
L – O que eu mais admirava em você era o seu caráter e você me traiu. Eu nunca poderia imaginar que isso fosse acontecer.
R – Eu não soube como contar. Fui covarde… Me perdoe.
L – Você foi egoísta.
R – Eu não consegui mais te ver como homem. Você se transformou em um pai, um irmão, um melhor amigo para quem eu poderia contar tudo.
L – Você não me respeitou como amigo, isso é o que dói mais.
R – Acho que eu me apaixonei pela sua companhia… meu coração ficou confuso.
L – Vocês ficaram quanto tempo juntos?
R – Um mês.
L – E nunca pensou em me contar?
R – Não. Você pode não acreditar, mas era pra te proteger.
L – Eu quero te pedir uma coisa.
R – Pode falar…
L – Por respeito e consideração ao amor que eu ainda sinto por você, e que eu não faço idéia de como vou arrancar de dentro de mim, não me procure, não me ligue e não queira saber como eu estou.
R – Nós não podemos nem ser amigos?
L – Eu jamais vou conseguir te esquecer se nós convivermos como amigos.
R – Eu não quero que você pense que o que nós vivemos foi mentira.
L – Várias vezes, quando eu pressenti que algo estranho acontecia, eu me apegava às pequenas coisas para te defender da minha desconfiança: o respeito que você tem pelos seus pais, a sua responsabilidade com o trabalho, as suas orações antes de dormir…
R – Me perdoa, por favor… eu não sei como ficar longe de você…
L – Não dá mais… uma mentira dessas me fez perceber que eu nunca soube com quem estava. Isso é assustador.
R – Você sabe que me conhece.
L – Eu vou embora porque eu preciso cuidar de mim. Eu errei pagando as suas contas, eu errei te esperando até tarde, eu errei fazendo comida para você ter o que almoçar… eu contribuí para que você me enxergasse apenas como um irmão.
R – Eu te amo, eu te amo tanto, acredita em mim… por favor!
L – Quando eu lhe pedi em namoro, você respondeu que era para termos paciência, porque dessa vez você queria acertar…
R – Eu quero acertar com você.
L – Se você puder me devolver aquele escapulário que eu lhe dei de presente…
R – Por quê?
L – Porque era meu. E outra vez errei presenteando você…
R – Desculpa, por favor.
L – Eu vou apagar seu telefone, todos os emails que nós trocamos, as fotos… pode ser que daqui a um tempo eu consiga falar contigo, mas agora não dá.
R – Eu respeito…
L – E pode ser que daqui a vinte anos eu olhe pra trás e perceba que você foi o grande amor da minha vida… mas eu preciso abrir mão dessa história que nunca existiu.
R – Existiu, sim.
L – Existiu e você fez questão de destruir. Devolve o meu espaculário, por favor.
Tira o cordão do pescoço e entrega.
R – Desculpa… estou morrendo de vergonha.
L – Não precisa se desculpar… Apesar de toda a dor, eu vou embora em paz, porque eu me entreguei a você de verdade. E eu não quero transformar nada disso numa frustração.
R – Eu vou ficar com os melhores momentos e os melhores dias.
L – Tá bem.
R – Estarei de longe acompanhando tudo o que você faz e torcendo…
L – Não esqueça que um dia eu te convidei para acompanhar tudo de perto, para fazer parte e compartilhar.
R – Fica um pouco mais.
L – Eu preciso ir, não deveria nem ter vindo aqui… Fica com Deus… E esqueça que eu existi, porque eu preferia nunca ter conhecido você.
Vai embora e os dois choram.
“…Todo mundo diz que não existe ninguém mais apaixonado. Meu amor, você é minha vida. Sua vida também sei que sou… Cada vez mais juntos, quem procura por você sabe onde estou… Olha, eu te amo tanto e você sabe… sou capaz de tudo se preciso, só pra ver brilhar a todo instante no seu rosto esse sorriso…” Eu te amo tanto – Roberto Carlos
Paraíso zona sul
Personagens: Vicentinho, meio careca.
Bruna, meio sensual.
Voz rouca, meio vingativa.
(telefone toca)
Vicentinho: (gentil, coçando a cabeça com um lápis) Doceria “Paraíso na boca”, em que posso servi-lo?
Voz rouca: Alô, Vicentinho?
Vicentinho: Sim é ele. Quem fala?
Voz rouca: Alguém que não gosta de ver os outros fazendo papel de palhaço.
(tempo)
(o lápis cai no chão)
Vicentinho: (trêmulo, já suando nas têmporas) Algum doce especial? Uma encomenda?
Voz rouca: (risada sardônica) Tá sentado, meu camarada? Porque segura que é badejo…………..
Vicentinho: O senhor poderia ser mais específico… Não estou ouvindo bem?
Voz Rouca: É sobre Bruna, a sua mulher.
Vicentinho: (dissimulado) Fala mais alto, por favor, senhor.
Voz Rouca: Bruna, a sua mulher, faz barba, cabelo e bigode!
(silencio)
Voz rouca: Você está aí?
(silencio)
Voz rouca: Vicentinho?
(silencio)
Voz rouca: Vicentinho…
Vicentinho: Duas xícaras de leite e meia dúzia de ovos. Separa a clara da gema, mas não joga a gema fora, se aproveita mais tarde.
Voz rouca: Tem alguém aí com você? Chegou alguém na loja? Você ouviu o que eu falei?
Vicentinho: Como se faz um bolo de nozes. Duas xícaras de leite e meia dúzia de ovos. Separa a clara da gema, mas não joga a gema fora, se aproveita mais tarde.
Voz rouca: Não faz o louco! Você me ouviu muito bem… Bruna, a sua mulher, faz vida na zona!
Vicentinho: (sem expressão alguma) Sim, um bolo de nozes é mais fácil do que você imagina. O segredo está na farinha, às vezes o barato sai caro, é melhor pagar um pouco mais e ter uma farinha mais digna.
Voz rouca: (intrigado) Isso é um código? O que tem a farinha… Repete.
Vicentinho: A farinha deve ser aquela bem branquinha, pra dar liga com a gema mais tarde. Ao contrário da manteiga, que no caso pode ser qualquer uma.
Voz rouca: Seu abestalhado! Por um acaso está debochando da minha cara? (nova gargalhada, mais amarga) Sei até o preço que a sua mulher cobra! Sei até o preço!
Vicentinho: As nozes realmente são caras, mas se preferir pode substituir por amendoim, é mixuruca, mas engana. Empapuce as nozes, ou o amendoim, na farinha e bata tudo por vinte minutos. Unte a forma com claybon , despeje tudo e leve ao forno brando.
Voz rouca: Bruna, a sua mulher, se lambuza com batom cereja e vai desfilar no calçadão!Bebe água de coco com americano! Com americano! Será que você não consegue entender? Você é o escárnio geral, a piada mal contada, o berro da tartaruga! Eu tenho pena de você Vicentinho, morro de pena! Mas não deveria, pois tem gente que nasceu com vocação pra trair, outros com resignação pra ser traído! Se você prefere fingir que nada aconteceu, lavo as minhas mãos. Mas se tiver um pingo de vergonha na cara: escorraça essa pilantra da sua casa à base de sopapo!!! Bruna, a sua mulher, não vale um alfajor! (desliga)
(silencio profundo.)
(O fone cai lento das mãos de Vicentinho ainda com as últimas palavras ecoando em sua cabeça)
Vicentinho: (parado contemplando nada)
(entra Bruna pelos fundos, sem que ele veja)
Bruna: (sorridente, tapando os olhos do marido por trás dele, ao pé do ouvido) Um queijo ou um beijo?
(Vicentinho apático)
(Bruna retira as mãos dos olhos do marido e lasca um beijinho de estalo)
Bruna: (com a inocência de quem trai) Eu tenho um segredo pra te contar… Faz algum tempo que venho escondendo isso de você… Mas acho que chegou a hora de você ficar sabendo…
(tira um envelope grande de sua bolsa)
Bruna: Sabe o que está em minhas mãos agora? (emocionada) Aqui… (indica o envelope) Você não consegue imaginar…? (uma lágrima de alegria escorre em seu rosto) Vicentinho… O nosso maior sonho… (sorri) Vicentinho… Nesse envelope… Vicentinho… Aquilo que a gente mais esperava. (ajeita os cabelos por trás das orelhas, suspira fundo e revela) O resultado do exame: Eu estou grávida… Você vai ser pai.
(Vicentinho tonto. Sem ar.)
Bruna: Você esperou tanto por esse dia, meu doce. Tanto! Seremos enfim uma família completa. Esse é o dia mais feliz da minha vida.
(Vicentinho sai do balcão cambaleando)
Bruna: (numa maravilha cega, protegendo a barriga com doçura) Nosso filho… Ele está aqui, Vicentinho… O fruto do nosso amor. Um rebento. O seu sucessor.
(Vicentinho abrindo uma garrafa de água ardente escondida numa prateleira e virando no gargalo)
Bruna: Já fazia um tempo que eu desconfiava, mas queria ter certeza. Tinha que ser especial. Tentamos tantas vezes, eu não queria gerar uma expectativa pra te frustrar depois… Me parte o coração. Mas eu rezei tanto, Vicentinho! Tanto! Muito mais do que você pode imaginar… Fiz promessa pra meia dúzia de santo! E quando eu vi o resultado do exame, hoje pela manhã, nem pude acreditar! Quase fui atropelada lá no centro da cidade, de tão pasma! Eu vim correndo pra cá… Confesso que não só apenas por conta disso, Não vou mentir, serei mãe e mãe não mente. Pois bem: No segundo seguinte em que tive a confirmação, meu primeiro desejo de grávida me veio implacável: como uma ordem divina, uma ânsia incontrolável… Uma vontade de comer um doce! Como se a minha própria existência dependesse disso. Mas eu não sei qual doce, ainda… Corri pra cá pra escolher! Meu primeiro desejo de grávida vai ser saciado aqui!
(Vicentinho virando a garrafa toda)
Bruna: (se colocando no centro da loja de doces, entre as máquinas de balas, chicletes, algodão doces, um paraíso açucarado) Eu quero comer um… (pensa, muito sapeca) Um… (olha todos os doces da loja, muito coloridos e atraentes) Um… (saliva enquanto seus olhos correm por cada prateleira abarrotada de guloseimas) Um… (acaricia os lábios numa expectativa libidinosa) Um… (perde o ar maravilhada avistando o doce cobiçado, quase num sussurro) Alfajor… Eu quero comer um alfajor!… (num murmúrio vampiresco, com o coração na boca)Você não pode me negar, Vicentinho, não pode… Desejo de mulher grávida não se contraria… Eu quero aquele alfajor… Eu quero todos eles… Todos em minha boca agora… Eu quero Vicentinho… Você quer que seu filho nasça com cara de alfajor? Não quer. Então vai me fazer a vontade… Pega pra mim… (mais sussurrada, mas vampiresca, com os braços estendidos, com as pontas dos dedos nervosas) Eu quero comer todos… Todos… Todos na minha boca… Agora… A cobertura de açúcar quebradiça… O recheio cremoso, com um toque de limão… Camada por camada… Derretendo… Escorrendo entre os meus dentes… Quero lamber o laminado protetor… Nenhum grãozinho poderá ser desperdiçado… Eu os quero! Um por um… Deixa. (mais vampiresca, compulsiva) Estraçalhar sem pena! Enfiar três na boca ao mesmo tempo! Esfregar nos meus lábios até inchar! Eu quero engolir tudo sem morder! Deixa, Vicentinho… Deixa! (possuída) À mulher grávida não se contraria!
Vicentinho: (frio) Não.
Bruna: (caindo das nuvens) Como assim?…
Vicentinho: (numa raiva surda) Qualquer um, ouviu? Você pode escolher por qualquer um… Menos por esse. Esse: você- não- come. Ouviu? Não encosta um dedo. Nunca mais! Você não come esse doce nunca mais.
(Bruna catatônica)
Vicentinho: (frio como um tubarão) Escuta, pois é a última vez que lhe digo: o dia em que eu souber que você encostou, viu, sentiu o cheiro desse doce… Eu espanco você até matar… (tempo) Entendeu?
(Bruna chocada)
Vicentinho: Entendeu?
Bruna: (num sopro) Sim.
Vicentinho: (mudando o tom absolutamente) Agora vamos com
emorar! Hoje aqui: é feriado! (animalesco) Eu vou ser pai! (gritando pela porta da loja) Eu vou ser pai!!! Hoje é o dia mais feliz da minha vida!!!!!!!! Eu quero tomar banho de mar.
(Luz caindo em silêncio profundo)
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