Coelhinho da Páscoa existe?

Lucas tem 6 anos e desde sua primeira Páscoa sua família lhe prepara uma surpresa. O pai veste a fantasia de coelhinho, pega a cesta de ovos e toca a campainha. A mãe, que já estava acordada ajudando o marido a vestir-se, finge surpresa e acorda o filho com um sorriso no rosto:

- Luquinhas! Luquinhas! O coelhinho chegou!

Luquinhas corre até a sala, abre a porta, dá um berro de medo e alegria ao ver o coelhinho, pega o cesto de ovos e se tranca no quarto para abrir os ovos. Todo ano era assim. Era.

Interior – manhã – sala da casa de Lucas

Lucas está apreensivo olhando na janela esperando o coelhinho chegar e nada. A mãe já não sabe mais o que dizer enquanto liga para o celular do marido – que está fora de área. Cai uma tempestade torrencial no Rio de Janeiro.

- Cadê o coelhinho mãe?

- É… é… o temporal Lucas. O coelhinho se atrasou, mas já está chegando!

- Ele não tem carro?

- (MÃE FINGINDO SEGURANÇA) Tem, meu filho, claro.

- Então por que ele demora tanto?


Corta para

Interior – manhã – carro do pai de Lucas

O pai de Lucas está dentro do carro, estacionado no meio da enchente, vestido de coelhinho e tentando ligar o celular. As orelhas, enormes, não cabem direito dentro do carro.

Interior – manhã – sala da casa de Lucas

- (LIGANDO PARA O MARIDO. ACALMA LUCAS) O coelhinho já está vindo!

- Mas ele já entregou os ovos do Matheus!

- Então ele já deve estar chegando! (CELULAR CHAMANDO! O PAI, FINALMENTE, ATENDE) Cadê você, Mauro?!!!

Interior – manhã – carro do pai de Lucas

- Meu amor, tenho que falar rápido que a bateria tá fraca!

Interior – manhã – sala da casa de Lucas

- (COM O MARIDO) Aonde você está?

- É o coelhinho, mãe?

- Seu pai encontrou o coelhinho, Lucas!

Interior – manhã – carro do pai de Lucas

- Amor, eu fui colocar gasolina no carro e fiquei preso no posto! Encheu tudo aqui!

Interior – manhã – sala da casa de Lucas

(LUCAS CUTUCANDO A MÃE) Mãe, mãe, mãe!

- Calma filho, deixe eu falar com seu pai.

- (INCONTROLÁVEL) Mãe, mãe, mãe!

- Espera, Lucas! (GRITA COM O MARIDO) Ele falei pra você não sair de casa! (LIGA A TV E O NOTICÍARIO FAZ A COBERTURA DAS CHUVAS)

- (CHORANDO) Mãe, mãe, mãe!

- Lucas, chega!

Exterior – manhã – posto de gasolina

A repórter de TV avista um homem fantasiado de coelho dentro do carro e nada até ele para não perder a matéria incrível. Mauro, por sua vez, está tirando a água de dentro do carro com a própria cesta de ovos.

Interior – manhã – sala da casa de Lucas

A mãe de Lucas desliga a TV correndo. Lucas está com os olhos marejados de tanto chorar. Em pé em cima do sofá, olhando pela janela esperando o coelhinho chegar.

Corta para

Interior – manhã – casa de amiguinhos de Lucas


Vemos as horas passando com um clipe de cenas de crianças felizes abrindo seus ovos de Páscoa – trata-se da imaginação de Lucas.


Interior – tarde – sala da casa de Lucas

- Mãe, cadê o coelhinho?

A mãe de Lucas estava numa enrascada e depois de muito pensar, decidiu: era o momento de contar para Lucas que o coelhinho da Páscoa não existe.

- Lucas, meu filho, você vai precisar ser forte.

E antes de fazer a revelação bombástica, mãe e filho ouvem um estrondo vindo do quarto de Lucas. O menino, aflito, sai correndo em direção ao quarto.

Interior – tarde – quarto de Lucas

Lucas entra no quarto e vê a cestinha de ovos em cima de sua cama. Pegadas de coelho, feitas com farinha, marcam o carpete. Lucas dá um berro de alegria e vê a janela de seu quarto aberta. A mãe, atônita, fecha a janela do quarto para não chover dentro de casa e, antes disso, ainda dá uma espiada no quintal procurando o coelho.

FIM
Texto dedicado a Patricia Streit, que além de dar uma idéia de final para o autor, ainda me faz acreditar em coelhinhos da Páscoa. E coloquei no ar meu blog “Melancia em pó”, confiram!

Apaixonadas por Cristo

Trevas. Uma forte luz revela Jesus Cristo morto. Ele desperta. Senta-se. Levanta-se. Mãos e pés feridos pelo martírio da cruz. Costas marcadas pelo açoite. Ao lado, adormecida, Maria Madalena. Jesus acaricia seus cabelos. Madalena desperta, levanta-se e abraça Jesus calorosamente. Os dois se beijam.

Pilatos: Ecce homo! Eis o homem!

O Produtor do espetáculo interrompe o ensaio.

Desculpem interromper o ensaio. Mas eu queria dar uma palavrinha com você, Arnaldo.

Arnaldo, que interpretava Jesus, conversa, num canto, com o Produtor.

O quê? Quer dizer que depois de 20 anos fazendo A Paixão de Cristo vocês vão me trocar por um ‘atorzinho’ da televisão?

Exigência do nosso patrocinador.

Mas quando a gente não tinha um tostão… quem costurou os figurinos? Quem ajudou a construir esse cenário? Quem trabalhou como um burro de carga para que tudo isso desse certo?

Todos nós sabemos o quanto você foi… é importante nessa história.

Ingratos!!!

Mas é que… o tempo passou. Nosso espetáculo ganhou novas e grandes proporções. Você tem que encarar a realidade. E tem outra coisa. Você não tem mais a idade do personagem.

Jesus morreu aos 33 anos.

Você já passou dos cinqüenta.

O público nunca reclamou.

Ninguém tem coragem de contrariar Jesus… Você tem que entender…

Quem é o cara?

Fábio Assunção.

A atriz que interpreta Madalena vibra: U-hu!!!

Tá falando sério?

E a Ana Mara vai fazer a Maria.

Ana Mara?

A Maroca do Big Brother Brasil.

Ex-BBB? Cê tá de sacanagem! A Madonna e o Jesus Luz recusaram o convite?

Nós temos um papel ótimo pra você!

(tirando a barba postiça) Contra-regra?

Judas.

Judas?

Prometo que dessa vez ele só se suicida no final da peça.

Depois da ressurreição de Jesus! Seria um gran finale!

Aí você tá querendo demais… Judas vai se suicidar um pouquinho antes da crucificação, ok?

Tudo bem… Não vai ser difícil trair Jesus. Se você soubesse o ódio que eu tô sentindo! Ah! E tem mais… Eu quero um aumento de cachê!

Quanto?

Trinta moedas de ouro.

Encenação da Paixão de Cristo. Fábio Assunção, no papel de Jesus, é crucificado. A platéia delira. Milhares de mulheres suspiram, gritam e tiram fotos da cena.

Lindo!!! Tesão!!! Bonito e gostosão!!!

Produtor – Acho que não foi uma boa idéia convidar um galã para interpretar Jesus.

Judas (Arnaldo), com a corda no pescoço, murmura sua fala predileta. Lágrimas escorrem no seu rosto.

Pordoai-os Senhor. Eles não sabem o que fazem.

FIM

Pequeno ensaio para um amor mal começado

de Rodrigo de Roure

MARTIN dorme. Uma luz fina o ilumina. Ouve-se, ao fundo, bem baixinho, qualquer música do Chet Baker.

[mas você que está lendo vai ouvir “desculpe, baby” com os mutantes]

Toca o telefone.

[o de MARTIN. Você que está lendo não atenda o seu telefone, caso ele toque]

Em outro canto do palco, OTÁVIA é iluminada também.

MARTIN – Oi…

OTÁVIA – Sabia que era eu?

MARTIN – Não…

OFF DE OTÁVIA – Mas parecia que sabia.

MARTIN – …No fundo eu sabia. Você vai descer?…

OTÁVIA – Você não vai subir?

MARTIN – Eu tô dormindo…

OFF DE OTÁVIA – Eu tô pilhada.

OTÁVIA – Vou descer. Fiz três ovos pra você.

OFF DE OTÁVIA – Você não vai adivinhar os recheios?

MARTIN – Desde quando você faz ovos de chocolate?

OTÁVIA – Tradição de família.

MARTIN – Tudo bem, não tô implorando pra você me ensinar.

[você que está lendo ouve: “eu vou correndo buscar a glória...”]

OTÁVIA – Nem que você mandasse. Só posso dizer que meus ovos são de chocolate puro. Não são como aqueles ovos que fazem por aí, malditos, cheios de parafina…

MARTIN – Parafina?

OTÁVIA – É! Você não sabia que usam parafina nos ovos caseiros? Pois usam. Pra eles ganharem consistência. Pois saiba que os meus ovos ganham consistência com o próprio chocolate. Também, eles derretem rápido. Na verdade eu levo uma surra pra fazer esses ovos. (PAUSA) Na verdade eu acordei às seis da manhã pra fazer esses ovos. Na verdade eu tô cansada. Você não quer subir?

MARTIN – Cansada dos ovos?

OFF DE OTÁVIA – De tudo. Queria tudo diferente hoje.

MARTIN – Espero que não esteja cansada de mim…

OFF DE OTÁVIA – Um pouco cansada de você.

MARTIN – Você não vai descer?

OTÁVIA – Você tá ouvindo música?

MARTIN – Tô.

[você que está lendo ouve “desculpe, baby, não vou ser mais joão ninguém”]

OTÁVIA – Sobe.

MARTIN – Que horas são?

OTÁVIA – Quase uma da tarde.

MARTIN – Tem almoço aí?

OTÁVIA – Almoço de páscoa? Não. Só fiz os ovos.

OFF DE OTÁVIA – Posso te chamar de rabbit?

MARTIN – E no frigir dos ovos…

OTÁVIA – Que?

MARTIN – Otávia…

OTÁVIA – Que?

MARTIN – Otávia, você é um mulherão…

OFF DE OTÁVIA – Meu rabbit…ah…

OTÁVIA – Você vai subir?

MARTIN – Até seu nome é… grandiloquente…

OTÁVIA – Ih, cara…

MARTIN – …Nome pomposo, retumbante, elevado, gigante pela própria natureza, impávido colosso… e você mora um andar acima de mim… veja só… até nisso você está por cima… e sabe fazer ovos de páscoa… é, Otávia, você é realmente um mulherão…

OFF DE OTÁVIA –Repete. Vou descer.

style="text-align:justify;">MARTIN – …Eu na verdade quase não dormi. Eu cheguei tarde ontem. Ontem foi sábado de Aleluia, sabe como é. E… fiquei na aleluia… tocamos até tarde…

[você que está lendo ouve: “desculpe, baby, eu vou viver mais pra mim”]

OTÁVIA – Você toca bateria…

MARTIN – Contra-baixo.

OTÁVIA – Você não vai subir?

MARTIN – Tá bom. Eu quero provar dos seus ovos…

OTÁVIA – Vou descer!

MARTIN – Estranho “provar dos seus ovos”… perdão…

OFF DE OTÁVIA – Rabbit de merda.

OTÁVIA – Você tem ovos de galinha aí?

MARTIN – Tenho. Acho que uns três só.

OTÁVIA – Posso fazer um omelete e de sobremesa comemos os ovos de chocolate…

OFF DE OTÁVIA – Podemos ficar até tarde. Vibrando.

MARTIN – Uma curiosidade. Existem outros ovos pra comer que não sejam os das galinhas?

OFF DE OTÁVIA – Lontra.

OTÁVIA – Das patas.

MARTIN – Não gosto das patas. Também nunca comi seus ovos. E aí, você vai descer?

OTÁVIA – Vou. Mas… sobe um poquinho. Eu preciso tomar um banho.

MARTIN – Eu também. Me espera?

[você que está lendo ouve: “glória, glória...” bis.]

OTÁVIA – Mas que horas você vem? Quanto tempo você demora no banho?

MARTIN – Um vôo.

OFF DE OTÁVIA – Porco.

OTÁVIA – Eu vou demorar. Me espera que eu desço.

MARTIN – Ok.

OTÁVIA – Té já.

MARTIN – Té.

OTÁVIA – Martin.

MARTIN – Que.

OTÁVIA – Queria tanto que você provasse os recheios…

MARTIN – Tudo bem…

OTÁVIA – Té já.

MARTIN – Té.

OTÁVIA – Martin.

MARTIN – Que.

OTÁVIA – Feliz domingo de Páscoa.

MARTIN – Eu vou subir. Me espera. Um beijão.

AMBOS DESLIGAM. MARTIN TENTA LEVANTAR, MAS VOLTA A DORMIR. OTÁVIA COME O CHOCOLATE EM UMA PANELA. B.O.

[você que está lendo repete a música] e out.

Dia sagrado

Ana Lúcia e Oswaldo num restaurante da cidade.

Oswaldo: Ana Lúcia.

Ana Lúcia: (olhando o cardápio) Jesus! O bacalhau está pela hora da morte! Como é que eles querem que sejamos bons cristãos com esse preço?

Oswaldo: Eu queria te dizer uma coisa.

Ana Lúcia: Não comprou o meu ovo?

Oswaldo: Que ovo?

Ana Lúcia: Como que ovo?

Oswaldo: Quem faz as compras de casa é você, a gente combinou. Eu troco as lâmpadas, abro as latas de pepinos e palmitos, e você vai ao supermercado, não é isso?

Ana Lúcia: Não acredito que você esqueceu que hoje é sexta da paixão.

Oswaldo: Que paixão?

Ana Lúcia: Você acha que é feriado por que, Oswaldo?

Oswaldo: Não é zumbi?

Ana Lúcia: O único zumbi aqui é você!

Oswaldo: Olha o garçom.

Ana Lúcia: O que tem?

Oswaldo: Você tem mania de me humilhar na frente dos garçons parece até fetiche.

Silêncio.

Oswaldo: Eu quero terminar.

Ana Lúcia começa a chorar.

Ana Lúcia: Tinha tantos ovos nas Lojas Americanas. E no Prezunic, então, uma montanha colorida, um corredor mágico de chocolates.

Oswaldo: Você me ouviu?

Ana Lúcia: Eu fiquei olhando aqueles ovos pendurados e, de repente, me deu uma angústia. Fiquei pensando: Se o Oswaldo me ama, vai me dar um Diamante Negro, se não me ama vai me dar uma caixa de variedades Laka. Se me odeia, vai me dar um ovo do chocolate “Bis”. Eu acho ovo do “Bis”, acho de uma pobreza…

Oswaldo: Ana Lúcia você não está me ouvindo. Eu quero terminar a nossa relação.

Ana Lúcia: Coelho bota ovo mesmo? Você já viu coelho botar um ovo? O que será que significam os ovos de chocolate? Será que é uma metáfora? Os coelhos bons botam ovos de chocolate. E os de chocolate branco?

Oswald: Você sempre faz isso.

Ana Lúcia: Hoje é um dia sagrado Oswaldo! Sexta feira da paixão, Jesus foi enterrado.

Oswald: Eu não quero mais!

Ana Lúcia: Ninguém termina um casamento numa sexta feira da paixão!!!

Oswaldo: Eu estou há mais de três meses tentando terminar e não consigo, ou é Natal, Ano Novo, Carnaval e na semana que vem é dia de são Jorge!

Ana Lúcia: Salve! Meu santo guerreiro!

Oswaldo: O que eu faço pra você entender que não quero mais!

Ana Lúcia: Termina num dia que não seja sagrado.

Oswaldo: Já tentei, mas cada dia tem um santo diferente.

Ana Lúcia: Pra você ver como Deus quer que o casamento seja eterno.

Silêncio. Oswaldo, cansado, chama o garçom.

Oswaldo: Uma picanha fatiada, por favor.

Ana Lúcia: Vai comer carne vermelha?

Fim.

A lebre

MÃE
FILHA
LEBRE
entra, filha. fecha a porta.
escuro aqui.
anda logo.
a gaiola pesa demais.

pode botar no chão.
puf
squeeeq…

tadinha…
melhor não olhar muito…

agora é tarde.
squeeeeeeeq…
depois fica com pena.

mudei de idéia.
passa a faca que está ali.

nós não vamos fazer isso.
como assim?
squeeeeeeeq!!!
a bichinha! a bichinha não merece!
sai da minha frente, filha.
hellomoto….tuntuntuntuntuntuntistuntun
tuntuntuntuntistumtuntuntuntuntistuntu
ntuntuntuntun………………………………………..
é o meu?
alô! oi amor, não estou podendo falar agora.

desliga isso!
não Mauro Sérgio! minha mãe!
desliga ou não respondo por mim!
amor, é sério! um lance aí da minha família! depois te explico.
sai da frente.
posso te ligar em dois minutos?… mãe, larga essa faca!
alguém tem de sujar as mãos, filha. é assim desde o princípio dos tempos.
SLASHHHH

SQUEEEEEEeeeeeeeeeeq…
nãooooo!!!
ai! vai gritar lá fora!

o que você feeeez?!?! pobrezinha!!!

sai daqui, vai! saco!
slashslashslash…
para! para! eu falei que não quero mais!
dá pra falar baixo, ô abobada?
slashslash…
respingou sangue na minha blusa todaaaaaaaaa…
vejamos…
tem tripa no seu cabelo!

maravilha!!!
o que?
não é que eu me enganei quanto ao rapaz?
está vendo alguma coisa?!
rico, filha! rico!
rico! e o que mais?!
ele te ama!
eu o amo também, mãezinha! tanto!
e o melhor!
fala! fala! não me esconda nada!!!

te dará cinco filhos!

obrigada! obrigada!
não chora, amorzinho!
me dá um abraço!
sua blusa, querida! sujou!
quem se importa com uma blusa!
sendo assim,
eu aprovo o casamento.

claro, claro, vou ligar já pro Mauro Sérgio.
precisava me garantir, você entende.
eu sei. tudo bem.
uma senhora sem netos… não desejo pra minha pior inimiga.
a vida é pra dar certo! bola pra frente.
tem um lencinho de papel?
FIM

Aquele que precisa fazer bico até na Páscoa

Entra um homem vestido de coelho no palco. Ele olha fixamente para a platéia muito sério e mal-humorado.

BILLI: Meu nome é Billi. Eu sou o típico trabalhador informal brasileiro. Já fui ex-taxista, ex-bombeiro, ex- eletricista, ex-modelo, ex-ator, ex-vereador, ex-enfermeiro, ex-tágiário, ex-trupício, ex-terminado e agora sou um coelho.

Aos poucos, sua face e seu corpo vão se transformando e virando no clássico animador de festas infantis. Um tom meio retardado em sua voz e na expressão de seu rosto

BILLI JOBY: Todos comigo!

(Billi canta e faz uma tosca coreografia- vozes de crianças cantando em off)

Música: “Coelhinho da Páscoa o que trazes pra mim? Um ovo, dois ovos, três ovos assim.”

Billi Joby: Quem quer ganhar ovinho da páscoa?

Vozes em Off de crianças: Eu!!!

BILLI JOBY: Muito bem! Muito bem, bem, bem! Muito bem o quê, criançada?

Vozes em Off de crianças: Bem, bem!

BILLI JOBY: Eu não ouvi. Muito bem o quê, criançada?

Vozes em Off de crianças: Bem, bem.

BILLI JOBY: Ih! Vocês tão fracas hoje. Quem tomou café da manhã aqui. (pausa) Muito bem. Tem que tomar café da manhã pra ficar o quê, criançada?

Vozes em Off de crianças: Forteeee

BILLI JOBY: E quem gosta de chocolate?

Vozes em Off de crianças: Eeeeuuu!

BK: Quem quer comer chocolate na páscoa?

Vozes em Off de crianças: Eeeuuuuuu!!!

BILLI JOBY: E quem quer fazer carinho no coelhinho?

(ninguém responde)

BILLI JOBY: Eu vou perguntar de novo, hein? Quem quer fazer carinho no coelhinho?

(vazio)

BILLI JOBY: Então vamos dançar! (entra música infantil do coelhinho ele dança toscamente)
Música: “Coelhinho, coelhinho, vem, vem, vem. Coelhinho, coelhinho, vem, vem, vem! O coelhinho é fofinho, ele veio pra arrasar. A páscoa chega rapidinho e o coelhinho vai dançar! Dança, dança, dança, coelhinho! Dança, dança, mexe o rabinho. Dança, dança, olha que gracinha. Mexe, mexe, mexe as orelhinhas.”

Vozes em Off de crianças: Eeee! De novo!!

BILLI JOBY: De novo não, o coelhinho tá cansado.

Vozes em Off de crianças: De novo! De novo!

BILLI JOBY: De novo não garotada, agora é hora de todo mundo fazer carinho no coelhinho! Eeee!

(silêncio. Nada acontece)

BILLI JOBY: Vamos lá, criançada, agora é hora de fazer carinho no coelhinho! Eeeee!!!

Voz em off de um menino: De novo sim! Eu sou o aniversariante, eu é que mando.

Vozes em off de crianças: Eeeeee!!!!

(A música entra de novo, ele se vê obrigado a dançar toscamente mais uma vez )

Música: “Coelhinho, coelhinho, vem, vem, vem. Coelhinho, coelhinho, vem, vem, vem! O coelhinho é fofinho, ele veio pra arrasar, a Páscoa chega rapidinho e o coelhinho vai dançar! Dança, dança, dança, coelhinho! Dança, dança, mexe o rabinho. Dança, dança, olha que gracinha. Mexe, mexe, mexe as orelhinhas.”

Vozes em off de crianças: Eeee! De novo!

BILLI JOBY: Quem quer ganhar um coelhinho de chocolate??

Vozes em off de crianças: Eeeuuu!

Vozes em off de crianças: Pra ganhar, tem que todo mundo imitar o coelhinho

(Ele começa a pular e faze caretas toscamente)

(Silêncio)

BILLI JOBY: Vamos lá gente, vamos imitar o coelhinho.

Voz em off do menino aniversariante: Vamos dar porrada no coelhinho!!

Vozes em off das crianças: Eeeee!

BILLI JOBY: (macabro) Não cheguem perto do coelhinho, se não, sabe o que vai acontecer?

Voz de um menino: O coelhinho é bicha!

(Vozes em off das crianças rindo)

BILLI JOBY: (macabro) Cuidado! O coelhinho vai matar vocês!

Vozes em off das crianças: Eeeeee!

Billi Joby: Vocês querem ser trucidados pelo coelhinho, querem?

Vozes em off das crianças: Eeeeee!

BILLI JOBY: Quem quer ser trucidado pelo coelhinho?

Vozes em off das crianças: Eeeuuu!!!

BILLI JOBY: Ah! Então é isso que vocês querem, né? Crianças!

Vozes em off das crianças: Ééééé!!

BILLI JOBY: Quem quer que o coelhinho tire um sanguinho do nariz?

Vozes em off das crianças: Eeeuuuuu!!

BILLI JOBY: Então, façam uma fila na frente do coelhinho! Calma, calma, sem correr! Sem correr! O coelhinho vai tirar sanguinho de todo mundo, não precisa brigar!

(Billi Joby está pronto para dar um soco em uma criança, quando escuta a voz de Selma, sua namorada.)

Selma: Espere, Billi Joby. Não faça isso.

BILLI JOBY: Selma? Quem te deixou entrar aqui?

Selma: Eu disse que era da comitiva dos doces.

Vozes de crianças: Queremos soco, queremos soco!

Selma : Não ouse encostar seus dedos nessas crianças.

BILLI JOBY: Mas são elas que estão pedindo, você está vendo. É o que elas precisam.

Vozes de crianças: Anda coelhinho! Bate!

Selma: Eu tenho uma coisa muito importante pra te dizer, Billi Joby.

Billi Joby: Selma, eu já disse que a nossa relação não vai pra frente. Não adianta insistir numa coisa sem futuro, não fomos feitos mesmo um para o outro.

Vozes de crianças em off: Vai logo coelhinho!!

Selma: Não, Billi Joby, seu futuro está traçado e será comigo.

BILLI JOBY: Crianças, aquela mulher está atrapalhando a nossa brincadeira. Corram atrás dela!

Vozes em off das crianças: Eeeeee!

Selma: Eu tô grávida!

BILLI JOBY: Esqueçam isso, crianças. Vamos voltar para os socos!

Vozes em off das crianças: Eeeeee!

BILLI JOBY: Isso é chantagem emocional (ele soca uma criança- barulho de soco)

Voz em off de uma menina: Ai!! (pausa) Gostei (ri)

Vozes em off das crianças: Agora eu! Agora eu! Agora eu!

Selma: Não toque nelas, você vai ser pai!

BILLI JOBY: Todo mundo quer ganhar soquinho??

Vozes em off das crianças: Siiiimm!!!

Selma: Por favor, é verdade você vai ser pai!

BILLI JOBY: Eu não sirvo pra ser pai, eu odeio crianças. (ele dá mais um soco)

Voz em off de um menino: Foi fraco, tio!

Voz em off de outro menino: Tio não, ele é um coelhinho.

Vozes em off das crianças: Agora eu! Agora eu!

BILLI JOBY: Viu, Selma. Eu não sirvo pra ser pai.

Selma: Você vai ter que assumir, Billy.

BILLI JOBY: Eu mal consigo me sustentar com esse bico de coelho, muito menos sustentar um bebê.

Selma: Três.

BILLI JOBY: O quê?

Voz de uma criança: Coelho tem bico?

Selma: Três bebês, Billi. Estou grávida de trigêmios!

BILLI JOBY: (dá mais um soco) Eu não acredito, Selma. Esse plano não vai funcionar.

Selma: Não estou fazendo plano nenhum, Billi. Olha o resultado do exame. (Selma mostra o papel para ele)

BILLI JOBY: Engraçadinha. Quem disse que eu sou o pai?

Selma: Cala a boca Billi. Você sabe muito bem que eu era virgem e só transei com você…

Voz de uma criança: Ih! Ela transou!

Voz de outra criança: O que é isso?

Voz de outra criança: É quando o papai coloca o peru dentro da mamãe.

Vozes de crianças rindo.

Selma: Tá gostando da aula de educação sexual precoce?

BILLI JOBY: A culpa é sua. Você não tinha nada que vir até aqui pra me falar baboseiras.

Selma: Foi você que me quis, mesmo sabendo era virgem.

Voz de uma menina: Eu também sou Virgem.

Voz de outra menina: Eu sou Aquário.

BILLI JOBY: Eu não poso ser pai agora, Selma, muito menos de trigêmeos . Ele pega uma arama de dentro de uma das orelhas.

Voz de criança:
Ih! O coelhinho quer brincar de polícia e ladrão!

Selma: Pára com esse fingimento, Billi. Deixa de ser covarde.

Billi: Eu não to fingi…. (ele aponta a arma para a cabeça dele) Mas eu acho melhor você tirar, senão, eu não sei…

Selma: (chorando) Larga essa arma! Se você está insinuando algo, Billi, pode tirar o seu cavalinho da chuva. Não esqueça que eu sou filha de mãe solteira e assim como a minha mãe, vou ter esses filhos com 16 anos.

Billi: Não, Selma, não!

(Billi atira contra sua própria cabeça)

Voz de uma criança: Ih! O palhacinho caiu.

Voz de outra criança: Não é palhacinho, é coelhinho.

Selma: Billi, Billi pára com isso. Billi, o que vcoe fez. Billi! Não me deixa assim, sozinha. Billi!

Voz de um menino: Ih! O coelhinho morreu!

Vozes das crianças: Eeeee!

(barulhos das crianças)

Selma: Crianças! Crianças, parem com isso! Billi! Billi! Não morre agora, Billi!

(Selma está no chão chorando enquanto Billi, está no chão caído e com sangue saindo de sua cabeça. Barulhos das crianças enlouquecidas)

Selma: Não, Billi! Não me deixa aqui sozinha assim, Billi!

Voz de uma criança: Vamos pegar o revolver e matar ela também!

Vozes em off das crianças: Eeeeee!

Selma: Nãoooo!

(Selma vai embora correndo das crianças, deixa Billi sozinho caído no palco.)

FIM.

Trecho adaptado da peça Betti Davis e a Máquina de Coca-Cola de Jo Bilac e Renata Mizrahi