Português no gelo

NAVEGANTE

INQUISIDOR (ou INQUISIDORA)

NAVEGANTE está todo molhado, com andrajos em farrapos que relembram a época do descobrimento do Brasil, ELE tem os braços amarrados. Não vemos o INQUISIDOR em princípio. NAVEGANTE é português. Se der pra fazer sotaque, tudo bem, mas se não der não tem problema.

I- O senhor tem a pachorra de dizer que não sabe porque está aqui?

N- Não sei não, senhor.

I- Nenhuma idéia? Nada?

N- Quem é que está a falar?

I- Por que não chuta?

N- Estou com muito frio.

I- Faz bem pros neurônios, chutar de vez em quando.

N- Chutar o quê, santo Deus? Quer me botar maluco? Chutar onde? Do que é que estás a falar? Onde estão os outros?

I- Morreram todos.

N- Não.

I- Só sobrou o senhor.

N- O que é que aconteceu com a caravela?

I- Perdão?

N- A caravela! Onde ela está? O maldita, sob minha responsabilidade!

I- Sinto muito.

N- Não pode ser.

I- Não foi encontrada caravela nenhuma.

NAVEGANTE chora copiosamente.

N- Estou perdido! Hão de matar-me!!!

I- Calma. Não é para tanto.

N- Sabe quanto caiambá custa uma embarcação daquelas?

I- Não faço idéia.

N- O Imperador deve estar a querer minha cabeça!

I- Duvido muito.

N- Por que isso foi acontecer?! Logo comigo?! Onde eu errei, meu Deus?

I- Você não tem idéia, Manuel? Jura que não sabe o que fez de errado?

N- Pelo amor de Deus! Não!!! Por que estão me mantendo aqui?

I- Faz um esforço. Vamos lá.

N- Alguém me tira daqui! É frio demais! Estou a morrer!

I- (RI SARCÁSTICO) Duvido, e muito. Se não morreu até agora.

N- Alguém pode, pela graça do Senhor, me explicar o que está acontecendo?

Voz do INQUISIDOR parece mais sinistra, mais opressora.

I- Acho que não entendeu, seu Manuel. Quem vai falar aqui é o senhor. O senhor vai fazer a gentileza de nos dizer o que fez de errado. O senhor sabe que precisa pagar, não sabe?

N- Pagar? Não fiz nada! Juro por tudo! Não fui eu! Sou inocente!

I- Minha paciência está se extinguindo a passos largos.

N- A culpa não foi minha. Era gelo pra todo lado. A caravela bateu numa geleira. Eu caí na água fria e não lembro mais de coisa alguma.

I- Encontramos o senhor anteontem, preso num enorme cubo de gelo. Como um pernilongo no âmbar. O senhor permaneceu ali, intacto, congelado os anos todos. O gelo que afundou seu barquinho abraçou o senhor e o manteve vivo até então.

N- Então foi assim que eu não morri. Não foi dessa vez que me levaram desse lodo.

I- Dificilmente. O senhor está mais vivo neste lodo do que pensa. Pedaços do senhor estão espalhados por todo o país. E em mim também. Eu tenho um pouco do senhor, como tantos outros.

N- Chega! Estás a me enlouquecer!!! Chama minha mulher! Eu quero minha mulher! Meus filhos!

I- Todos já morreram. E não estamos em Portugal, seu Manuel.

N- Morreram?! Onde?! Onde estou?!

I- Estamos no Brasil.

N- Brasil?…

I- Lembra de uma pequena safadeza que fizeste nas terras de cá? Uma estripulia sem conseqüências. Uma jogadinha de água pra fora da bacia?

N- Estás a falar português mesmo? Não entendo! O que quer de mim?

I- Apenas que confesse.

N- Confessar o quê, Jesus? Nunca fiz mal a ninguém.

I- Nem a uma moça chamada Paixanambé?

N- Paixanambé, o senhor diz a índia?

I- Conhece outra?

N- (REVOLTADO) Era o que faltava! Manter-me cativo aqui, a me crivar de perguntas, por conta de uma índia!

I- O senhor não a obrigou a abrir as pernas apontando uma faca pra garganta dela?

N- São animais, o senhor não compreende! Não tem alma como a gente branca de Portugal!

INQUISIDOR aparece, veste uma roupa futurista. Se preferir com toques indígenas, uma pena ou outra, um colar.

I- O filho dessa violência que o senhor praticou contra Paixanambé nasceu mestiço. Esse mestiço teve dez filhos e cada um deles teve mais quinze rebentos.

N- Canalha! Até que enfim resolveu mostrar a cara!

I- Minha cara bem podia ser a sua. Somos parentes.

N- O senhor perdeu a razão de vez!

I- As minhas unhas, por exemplo. As minhas unhas são idênticas geneticamente às da minha tátara – tátara – tátara- tátara- tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – tátara – avó, Paixanambé.

N- Suas unhas?

I- Elas crescem rápido, são duras. Perfeitas para escalar árvores e descascar mandioca.

N- Unhas de um animal, só pode ser.

I- Mas eu tenho pedaços do senhor também, seu Manuel, caro ancestral. Esse defeitinho aqui na sobrancelha e uma sede de sexo insaciável. Eu vi no nosso genoma. Igualzinho ao senhor.

N- Se o senhor é meu parente, me liberta dessas cordas! Dá cá um abraço!

I- Trinta e dois por cento do nosso Brasil de meu Deus é descendente do senhor e da índia Paixanambé! Trinta e dois por cento, filhos de um estupro! E é esse trinta e dois por cento que decidiu que o senhor deve voltar pro gelo! Será re-congelado! Passará outros mil anos à deriva, esperando o próximo aquecimento global!

N- Piedade! Tem piedade de mim!

I- Mesmo sendo tão único, um pedacinho descascado do tempo, melhor botar de volta no mar.

N- Se eu não tivesse amado aquela índia, nenhum de vocês teria nascido!

I- É verdade. Mas a gente vai te mandar pro gelo assim mesmo. Adeus, Manuel. Até nunca mais.

N- Nããããããããããããããããããããoooo!!!!!

FIM……………………….

Simplicidade portuguesa

HOMEM português sentado esperando por sua amada que é uma MULHER brasileira. Ele olha o relógio, ela está atrasada. Ela chega e senta a sua frente.

M- Oi amor, desculpe o atraso, tudo bem?

H- Depende.

M- Que foi?

H – Foi o que?

M -Está passando mal?

H- Não.

M – Está com algum problema?

H – Não.

M – Sua mãe está bem?

H – Está.

M – Te roubaram?

H- Quando?

M- Agora?

H- Agora não.

M – Me diga o que foi?

H- Não foi.

M -Como assim não foi.

H- Esta sendo.

M- O que está sendo?

H- Não.

M -Não o que?

H -Não é o que, mas como.

M – E como é?

H- Não é.

M -Não?

H- Já disse que está sendo.

M- Mas o que está acontecendo?

H -Não está acontecendo, esta sendo.

M -Me conte.

H- Não.

M- Não vai me contar?

H-Não é um conto para ser contado.

M-É o que, então?

H-Então o que?

M- Você não vai me dizer?

H – Não.

M -Mas eu to ficando doida com essa conversa.

H- Não é.

M -O que?

H -Uma conversa ainda.

M -Homem de Deus!

H-Não sou.

M-O que?

H-Religioso, sabes que não sou…

M- Vou perguntar pela última vez.

H- Impossível.

M- O que?

H- Perguntas se fazem por toda vida, se acaso não morras agora, continuaras a perguntar.

M -Estou falando com você!

H – Pois sou todo ouvidos.

M- Por que você está chateado?

H -Quem disse?

M- O que?

H- Que estou a me chatear.

M -Eu perguntei se você estava bem e você me respondeu que depende.

H- Sim.

M- Sim o que?

H- É verdade que disse isso quando chegastes.

M- Mas depende do que?

H- Não é do que.

M-Não?

H- De quem. Depende de quem.

M – Mas me diga, português!!!! Fala!

H- Vocês brasileiros tem mania de fazer isso.

M-Isso o que?

H – O que está fazendo.

M -E o que estou fazendo?

H – Agora?

M -É.

H- Agora estás a me olhaire com cara de maluca.

M -Maluco é você!!!!

H- Olha aí.

M -Olha o que?

H- Não sei. Tu olhas para onde quiseires…

M – Eu vou te matar se você não me falar agoraaaa!

H-Vocês brasileiros.

M – O que tem?

H – Não tem.

M- O que nós brasileiros fazemos? Fala, agora!

H- Tem mania de tomar as coisas pelo avesso…

M – Mas você me disse que não estava bem

H – Disse que dependia.

M – E dependia do que?

H – De me daires um beijo de chegada.

M -Não acredito.

H – Em que?

M – Não é em que, é em quem!

H- Quem?

M – Em você!!!!

Brasileira sai.

H- Não entendi….as brasileiras são muito nervosas. Ora, opá! Só por causa de um beijinho…

Se a vida fosse um filme oriental

Um mulher se arrumando. Ela passa o batom, veste a meia calça, coloca um flor no cabelo, ajeita o vestido se olha no espelho. Parece triste.

Um homem se arrumando. Coloca um casaco, tira o casaco, resolve ficar com o casaco. Está nervoso, diz uma palavras no espelho, improvisa um ensaio. Parece feliz.

Os dois saem de casa e se encontram em frente ao banco de uma praça em Lisboa, Portugal. Estão em pé. Ao se olharem, se abraçam. Se separam. Eles dizem ao mesmo tempo.

Ele: Quer casar comigo?

Ela: Eu quero voltar para o Brasil.

(Silêncio. Eles se olham.)

Ele: O que você disse?

Ela: Eu quero voltar para o Brasil.

Ele: Oi?

Ela: Eu quero voltar para o Brasil, Marcos. Eu quero voltar.

(A felicidade dele se transforma num desespero controlado)

Ele: Por quê?

Ela: Por quê? Não sei. Não sei, mas eu não posso mais. Esse lugar não é meu.

Ele: Não?

Ela: Eu tentei, Marcos. Eu tentei. Eu tô aqui. Se eu tô aqui é porque eu tentei, mas… Eu não consigo mais… É tão difícil. Desculpa.

Ele: Mas… Tava tudo indo tão bem…

Ela: Tava tudo indo bem pra você, Marcos. Que vive aqui, que conhece tudo, que sabe aonde ir. Mas e para mim? Eu não consigo me adaptar…

Ele: Calma, com o tempo…

Ela: Tempo? Que tempo? O seu tempo? Esse tempo de que você tá falando não é meu, Marcos. É o seu tempo. Meu tempo é outro e tá passando muito rápido.

Ele: Você não me ama mais?

Ela: Não é essa a questão.

Ele: Então…

Ela: Não é questão de amar você.

Ele: É o que, então? A gente tava indo tão bem.

Ela: Eu não, eu tô perdida…

(silencio)

Ele: A gente tá junto.

Ela: Eu acho que eu não sou capaz desse amor.

Ele: Não?

Ela: É que eu não posso ficar com você e me deixar. Deixar minha vida…

Ele: Você parecia tão feliz.

Ela: E estava. Mas no fundo eu tava com um medo tão grande. Quando eu aceitei vir para cá, para ficar com você, eu não medi as conseqüências. E agora…

Ele: E agora?

Ela: Não sei, Marcos. Eu sei que eu não tô inteira. Eu deixei minha carreira, minha vida, eu deixei tudo para estar aqui com você.

Ele: A gente tá construindo algo novo.

Ela: Mas pra construir algo novo é preciso destruir o que já se tinha?

Ele: Você não destruiu nada…

Ela: É fácil pra você falar isso. Você não teve que fazer nada. Foi tudo muito cômodo para você. Quem veio foi eu. Quem deixou todas as coisas de lado foi eu. Eu tenho o direito de questionar.

Ele: A minha vida também mudou, Ana.

Ela: O quanto? O quanto sua vida mudou? Nem um terço do quanto a minha vida mudou.

Ele: Eu sempre achei que era isso o que você queria.

Ela: Eu também achei. Me desculpe, eu sei, de repente eu chegar aqui e te falar tudo isso… Logo hoje.

Ele: Olha pra mim, Ana. Olha só esse final de tarde, essa praça que tantas vezes nos encontramos. Você também construiu isso, esse momento. Você também tá aqui…

Ela: Será que você é realmente capaz de me entender? Será que você consegue olhar pra mim de verdade?

Ele: Eu tô olhando pra você de verdade.

Ela: Então me entenda. Me entenda, por favor, me entenda. Não é você, não é esse lugar, ele é lindo. Eu queria mesmo vir pra cá. Sou eu, Marcos. Sou eu. Eu descobri que não é aqui que tenho que viver.

Ele: Eu amo você, Ana.

Ela: Não, você não me ama.

Ele: Como não te amo?

Ela: Você não pode me amar, Marcos.

Ele: Eu posso e eu te amo.

Ela: Você não pode me amar porque eu não estou sendo verdadeira com você.

Ele: Não?

Ela: Eu só vim aqui para te agradar, com medo de te perder. E é justo? É justo comigo? É justo com você?

Ele: E quem é você de verdade?

Ela: Eu não sei. Só sei que não pertenço a esse lugar. Desculpe, eu tentei.

Ele: O que você vai fazer?

Ela: Voltar.

Ele: Você quer dizer fugir?

Ela: Interprete como quiser. É isso que eu preciso fazer.

Ele E a gente?

Ela: A gente tem que respeitar esse momento.

Ele: Eu volto com você. Eu vou com você para o Brasil.

Ela: Não é isso, Marcos.

Ele: Deixa Ana. Deixa eu ir com você. Não vamos nos separar.

Ela: Não, Marcos. Você vai sentir o mesmo que eu. Depois de um tempo vai querer voltar.

Ele: Como você sabe?

Ela: Eu simplesmente sei.

(silêncio)

Ela: O que você ia me dizer?

Ele: Eu?

Ela: Naquela hora que chegamos. Você ia me dize alguma coisa.

Ele: Ia.

Ela: O quê?

Ele: Quer que eu repita?

Ela: Sim.

Ele: Quer casar comigo?

(silêncio)

Ela: Era isso?

Ele: Sim.

(silêncio)

Ela: Desculpa.

(silêncio)

Ele: Será que outros casais já passaram por isso?

Ela: Talvez.

Ele: Será que o amor é mesmo assim, tão limitado?

Ela: Limitado?

Ele: Limitado. Limitado a uma geografia, a uma cultura. No início, os homens só iam até onde suas pernas suportavam. Agora a gente pode voar, ir para outros continentes, mas continuamos apegados ao nosso lugar, às nossas conquistas. Será que é porque o homem não devia ter conquistado meios que vão além de suas próprias pernas, nem inventado os transportes, uma vez que eles nos fazem ultrapassar limites? E então nós somos levados a nos questionar se devíamos mesmo ultrapassá-los. Como o amor.

Ela: Não sei. Talvez. Não sei. Será?

Ele: Será?

Ela: Pra mim é algo maior que do que isso.

(silêncio.)

Ele: É isso mesmo o que você quer?

(silêncio)

Ela: Eu queria que agora surgisse algum sinal, algum código da vida, alguma coisa que me fizesse ver além…

Ele: Como uma poesia.

Ela: É. como uma poesia. Como se pudéssemos estar num filme e nessa parte do filme , diferente da cruel realidade, nessa parte tudo se clareasse. Como a beleza de um filme oriental, isso, o silêncio de um filme oriental. Se a vida fosse um filme oriental…

(Nesse momento um homem com um violão senta no banco e começa a cantar uma canção)

Canção:

Rara beleza que se perde ao vento
E se esconde ao longe, perto do seu olhar.
Rios que correm desembocam na praia,
Encontrando seus pés me esperando chegar

Flores colorem o pranto tão fino
Esboçando a canção que o amor me mandou.
Segurei tuas mãos que diziam adeus
Sua alma surgiu e nunca mais me deixou

Sorrisos são frase feitas que pertencem a você.
O mistério liberta o destino a dois
Vagando sem hora até o amanhecer
E quem sabe agora não exista o depois.

(Após ouvirem a canção ele se abraçam.)

FIM

Eu vou

Homem e mulher jantando. Eles estão em silêncio. Ouvimos o barulho dos talheres. Homem pega o copo de água à sua frente. Lentamente. Mulher para de comer e o observa. Ele bebe lentamente. E de uma só vez. A mulher continua observando. A ação deve ser bem demorada. Os dois voltam a comer juntinhos, como se fosse marcado. Passa-se um tempo. Homem com dificuldades de cortar uma batata. Ela está dura. A batata salta de seu prato para o chão e sai rolando. Homem e mulher param de comer para acompanhar o trajeto da batata. A batata pára. Eles ficam um tempo olhando. E voltam a comer (e a fazer barulho com seus talheres). Passa-se mais um tempo. O homem pega um pedacinho de carne com o garfo. Levanta a carne à altura dos olhos. Olha fixamente para o pedaço de carne. E solta uma gargalhada. A mulher imediatamente pára de comer e o observa. Ela está visivelmente contrariada. Os dois ficam um tempo em silêncio, se olhando. E voltam a comer. Mais um tempo. De súbito, o homem pára de comer e abre a boca. Fica com a boca aberta olhando para a mulher que continua comendo. Ele faz um pequeno esforço, como se quisesse tirar algo da garganta. Deve ser um esforço muito dúbio e pequeno. Ele vai aumentando (pouco) gradativamente esse esforço. Até que fala:

Homem: Azeite.

A mulher toma um susto e deixa os talheres caírem.

Homem: Passa o azeite.

Longa pausa. Ela se levanta, cata os talheres no chão lentamente e os coloca em cima da mesa. Lentamente pega o azeite que está do lado de seu prato, caminha até a outra cabeceira (onde o homem está sentado) e deixa o azeite ao lado do prato do homem. Ela volta caminhando lentamente para seu lugar e se senta. Ela olha fixamente para o homem.

Homem: Portugal. (pausa) Esse azeite é de Portugal. (pausa) Os portugueses produzem alguns dos melhores azeites do mundo. Os portugueses.

(silêncio)

Homem: Os portugueses. Os portugueses. Os portugueses são, na sua origem, compostos por Celtas e Iberos, Celtiberos e, majoritariamente, pelos Lusitanos. Os Galaicos ou “gallaeci” são de origem celta e germânica. Os Cónios e outras tribos menos significativas constituem o resto da origem. Outras influências importantes foram também os Romanos (a Língua portuguesa deriva do Latim), os Visigodos e os Suevos, todos os quais povoaram o que é hoje território português. Influências menores foram os Gregos e os Fenícios-Cartagineses (com pequenas feitorias comerciais costeiras semi-permanentes), os Vândalos (Silingos e Asdingos), os Alanos (ambos expulsos ou parcialmente integrados pelos Vrisigodos) e os Berberes do norte de África.

(silêncio)

Homem: Os portugueses.

(silêncio)
Homem: Os portugueses falam português. Portugal, portugueses, português. Com mais de 210 milhões de falantes nativos, o português é a quinta língua mais falada no mundo e a terceira mais falada no mundo ocidental. É o idioma oficial de Portugal e do Brasil, e idioma oficial, em conjunto com outros idiomas, de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, sendo falada na antiga Índia Portuguesa (Goa, Damão, Diu e Dadrá e Nagar-Aveli), além de ter também estatuto oficial na União Europeia, na União de Nações Sul-Americanas e na União Africana.

(silêncio)

Homem: A maioria dos Portugueses (cerca de 84,5% da população total – segundo os resultados oficiais dos censos 2001), inscrevem-se numa tradição católica.A prática dominical do Catolicismo segundo um estudo da própria Igreja Católica (também de 2001) é realizada por 1.933.677 católicos praticantes (18,7% da população total) e o número de comungantes é de 1.065.036 (10,3% da população total).

(silêncio)

Homem: Portugal é um país fortemente vinícola, sendo célebres os vinhos do Douro, do Alentejo e do Dão, os vinhos verdes do Minho, e os licorosos do Porto e da Madeira. Entre os queijos sobressaem os da Serra da Estrela e de Azeitão. (se dá conta) Ah! Azeitão, azeite!

(silêncio)

Homem: Eu já mencionei que o território português é dividido em dezoito distritos e duas regiões autônomas?

Mulher: Eu quero me separar de você.

(silêncio)

Homem: As regiões autônomas são ilhas! As ilhas de Açores e Madeira.

Mulher: Agora. Eu quero me separar de você agora.

Homem: Elas se subdividem em 308 conselhos!

Mulher: Nem mais um minuto!

Homem: E 4257 freguesias!

Mulher: Agora!

Homem: As primeiras universidades portuguesas datam de 1290.

Mulher: Eu te odeio.

Homem: Na literatura portuguesa é eminente a poesia!

Mulher: Com todas as minhas forças.

Homem: Portugal foi um dos primeiros países do mundo a ter uma rede de autoestradas.

Mulher: As minhas e as dos outros.

Homem: E a televisão surgiu em 1950.

Mulher: Ódio.

Homem: O Açoriano Oriental está entre os dez jornais mais antigos do mundo!

Mulher: Nem mais um minuto.

Homem: Lisboa tem uma posição geográfica que a torna num ponto de escala para muitas companhias aéreas estrangeiras nos aeroportos em todo o país.

Mulher: Eu preciso!

Homem: E o governo está atualmente estudando o projeto para a construção de um novo Aeroporto Internacional em Alcochete!

Mulher: Cala a boca!

Homem: Algarve.

(silêncio)

Mulher já está de pé saindo. Ela encara o marido e sai.

Homem: Espera! (tempo) Você não pode me deixar. Você não tem pra onde ir.

(silêncio)

Mulher: Eu vou.

Homem: Não.

Mulher: Eu vou.

Homem: Por favor.

Mulher: Eu vou!

Homem: Pra onde?

Mulher: Pra Portugal.

FIM

Faça você mesma o seu pastel de Belém e concorra a um cd de cantigas

“Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”
Fernando Pessoa

Personagens:
Lana Maria
Uma voz viril no telefone
Técnicos do estúdio
Cantora do Madredeus

Técnico 1: Lana Maria, 1 minuto para entrar no ar.

Lana Maria: (com o celular na mão) Um instante. (celular toca. Lana atende).

Uma voz viril no telefone (com um sotaque português sedutor):
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”
Minha querida, eu que li tanto esses versos de Fernando Pessoa para ti. Agora leio o bilhete de adeus. Meu coração não pode esperar mais. Adeus!

(Lana Maria desmaia. Técnicos correm até ela. Luz apaga. Acende novamente com o programa de culinária de Lana Maria começando)

Lana Maria: (tentando ser feliz, mas falando como quem morre) Bom dia! Acorda menina vem cá! (galo canta seguido de uma vinheta de fado) Hoje continuando o programa delícias de Portugal… (contém uma lágrima) Eu tenho uma surpresa muito especial para o dia dos namorados: Pastel de Belém! Para você pegar o seu amor pelo estômago. (chora e pede desculpa). Vamos aos ingredientes: (fala como as mulheres que anunciam vôos no aeroporto) Massa: 300 gramas de farinha de trigo, 250 gramas de margarina, sal, água. Recheio: 500 gramas de nata, 9 unidades de gema de ovo, 10 colheres de sopa de açúcar. (pausa) Ai, amiga dona de casa como o açúcar faz falta na vida da gente. (perdida em desvarios do amor) Ah, o açúcar! (pausa) Anotaram tudo! Ótimo! (escuta o ponto eletrônico perguntando se ela está bem. Respondendo à la estrela brilhante atacada) Tá tudo ótimo! Minha pele é ótima, minha cabeça é ótima! Eu estou lúcida. Sou lúcida e não estou aqui à toa. A Câmera, esse olho mágico divino me escolheu. Eu fui agraciada com o poder da criação. (toma um esporro no ponto eletrônico e se recompõe) Minha amiga, hoje esse “poder” da criação chegará até você através das suas mãos. Eu vou dar a você o poder de criar o seu próprio Pastel de Belém. (animadíssima) É isso mesmo está lançada hoje a promoção: faça você mesma o seu Pastel de Belém e concorra a um Cd com cantigas! O nosso repórter Eparisto irá provar várias receitas. A melhor receita leva o Cd. Acorda menina! É hora de botar a mão na massa. (vinheta animada) Vamos ao modo de preparo: Misture a farinha o sal e a água. Trabalhe… Trabalhe bem a massa até dar a liga. (escuta um esporro no ponto eletrônico. Responde grossa) O que é que é? Tem que dar a liga! Onde já se viu não dar a liga na massa? Você não entende nada de massa meu filho. Falar desaforo nesse microfoninho para mim é fácil. Quero ver dar a liga na massa. Não era para eu fazer isso agora? E você mandou eu anunciar a promoção por quê? Já sei você é estagiário, né? Só pode ser. Pelo tom inseguro da sua voz adolescente eu percebo que você só pode ser estagiário. Só digo uma coisa para você, bebê: Se depender de mim você não será efetivado nunca. Pode dizer adeus para o seu sonho de trainee. (pausa. Fica amável novamente) agora vamos apresentar o grupo musical que está participando da promoção: faça você mesma o seu Pastel de Belém e concorra a um Cd com cantigas! Um grupo musical português de maior projeção mundial. Um luxo! Com vocês: Madredeus.

(a cantora do Madredeus entra. Lana e a cantora se cumprimentam muito simpáticas. Lana se posiciona e começa. A cantora deverá dublar a música Alfama com muita elegância e Glamour. Lana ao ouvir a letra se emociona muito. Em determinados momentos os movimentos das duas podem ser espelhados. (Para quem quiser ouvir a música: http://www.mandamusica.net/madredeus-alfama))

Cantora: Agora,
que lembro,
As horas ao longo do tempo;

Desejo,
voltar,
voltar a ti,
desejo te encontrar;

Esquecida,
em cada dia que passa,
nunca mais revi a graça
dos teus olhos
que amei.

Má sorte, foi amor que não retive,
e se calhar distraí-me…
- Qualquer coisa que encontrei.

Lana Maria: (Aplaude muito. Pára emotiva e frágil) Muito obrigada, querida. Sua música falou direto ao meu coração. Obrigada!

(cantora agradece como diva e sai)

Lana Maria: Minhas queridas telespectadoras, donas de casa, minhas amigas. Eu vou mudar o programa hoje. Estou emocionada demais para passar a receita do pastel de Belém. Hoje eu preciso recompor a massa, a liga do meu coração. Você que tem um coração que ama, vai me entender. Hoje no dia dos namorados eu perdi um grande amor… E por isso terminarei o programa de hoje com um belíssimo poema. Eu dedico esse poema à cozinha maravilhosa da Ofélia, minha musa inspiradora, ao Ronivon, meu cantor querido e amor meu amor perdido. Senhoras e senhores com vocês: Tabacaria.

Técnico 1: Não vai dar é muito grande!

Outros técnicos: Shhhh!

(os técnicos tentam tirar Lana do palco enquanto ela recita. Ela se livra deles e volta para tentar terminar o poema. Dessa forma ela só consegue dizer as partes entre aspas)

Lana Maria: “Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,”
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

“Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,”
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

“Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!”…

TREVAS… FIM…

Fogo sagrado

Mulher e Homem num jantar a luz de velas.

M- (toda fofa) Comprei um negócio para você…

H- Eu também!

M- Jura! Que lindo! Você lembrou?

H- Lembrei do que? Ai, meu Deus! Esqueci de pagar a conta de luz, perdão!

M- Não, tô falando da gente!

H- Hoje é seu aniversário?

M- (falando mais alto) Claro que não, Adeílton!

H- Quer falar meu nome baixo, as pessoas estão olhando!

M- Não acredito que você esqueceu de novo!

H- Aniversário da sua mãe?

M – Pô Deton! Você disse que comprou um presente para mim, mas não sabe o por quê, assim não tem graça..

H- Pô, mas a graça está em comprar alguma coisa sem dia marcado?

M- Então me dá logo.

H – Primeiro me dá o seu, porque o meu é realmente especial.

M- (feliz) Nossa…

Mulher tira pacote da bolsa.

M- Aqui ó!

Adeílton abre. É um isqueiro.

H- (sem muito entusiasmo) Ah! Bacana.

M- Se vai fumar, pelo menos que seja com charme, né Deton?.

H- Obrigada… lindona!

M- E o meu! Dá! Dá! Dá!

Adeílton tira um pacotinho do bolso, todo contente.

H- Aqui ó!

Mulher abre e é uma caixinha de fósforos.

M- Que isso Adeílton? Uma caixinha de fósforos…

H- E é Fiat Lux!

M- Mas eu não fumo, Adeílton? É o que? Por que vc não pagou a conta de luz agora vou ter que acender velas, é isso? É uma brincadeira, Adeílton???

H- Não, meu amor… você não entendeu?

(pausa, ela faz cara, irônica, de que está entendendo, depois muda)

M- Aaaaah…. Não! Não entendi!

H- É para manter aceso o fogo do nosso amor!

M- Como é?

H- Você não disse que era para eu ser mais espontâneo com você?

M- Adeílton, eu disse espontâneo e não CAFONA!

H- Ô benzinho, tô usando uma mandrágora para falar da gente!

M- METÁFORA, Adeílton, mandrágora é uma planta.

H- Jura?

M- É…

H- Planta?

M- É uma planta que tem a raiz na forma de um ser humano e que GRITA! quando é arrancada da terra.

H – Querida, é uma maneira de dizer que quero ficar muitos e muitos anos com você!

M- (irônica) Ah! Que lindo, sendo assim (pausa) eu odiei!!!

H – Minha flor! Não faça isso, comprei com muito carinho, era á última caixinha de palitos longos Fiat Lux!

Mulher abre a caixinha.

M- Adeílton! Estão usados!

H- Ah! Amor, desculpa, é que vindo para cá, fiquei com medo de você não gostar e por nervosismo acendi alguns cigarros.

M- Adeílton, você fumou (olhando o número de palitos na caixinha) 234 cigarros?

H- Não querida… é que…

M- O que?

H- É que o Marcão passou lá no trabalho… e o Zequinha… aí fui tomar um chope, para relaxar os nervos, antes de te encontrar e já viu, né?

M- Você usou nossos fósforos do amor para acender o cigarros dos seus amigos?

H- Mas o que vale é a planta!

M- Que planta?

H- A planta que grita com o ser humano.

M – Eu não acredito que no dia do nosso aniversário de 1 ano e 23 dias e 3 minutos de namoro, você tenha me dado um presente usado.

H- Peraí? Mas isso não é uma data especial… é?

M- Todos os dias são datas especiais, Adeílton.

Mulher começa a chorar.

H- Então! Mas é justamente isso que eu queria dizer, meu amor!

M- O que?

H- Que todo o dia é dia de acender velas para o nosso lindo amor!

M- Como é?

H- Cada fósforo queimado significa uma Pentagora do nosso amor!

Mulher se levanta, dá um grito com o marido e depois sai.

H – Marinalva!!! Volta aqui, Marinalva!

Homem pega um cigarro, tira o isqueiro e acende.

BLACK OUT

Saudade

Um homem sobe ao palco, pega o microfone, tira do bolso uma carta amassada mas não consegue ler.

Boa noite, senhoras e senhores
Estou um pouco nervoso, pois é a primeira vez que falo em público. Quer dizer, é a primeira vez que falo em público publicamente, entenderam? Eu conheci uma garota a 3 anos atrás que me fez perder a cabeça. Não sei se devo dizer o nome dela, pois acredito que a Manoela mor… o nome dela é Manoela. Nós nos conhecemos por acaso. Eu estava sentado num dos bancos do calcadão de Copacabana quando reparei uma menina linda, bem vestida e com ar de intelectual conversando com a estátua do Carlos Drummond de Andrade. Minha primeira reação, antes de achar aquilo esquisito, foi uma incontrolável crise de riso… mas ela fazia aquilo de forma tão sincera, e tão intensa, que eu senti pena porque ela era jovem e tinha ficado maluca. O mais estranho é que as pessoas à volta dela pareciam não dar muita atenção pra aquilo, como se fosse absolutamente normal. Será que o doido era eu que ainda não conversava com estátuas? Depois de algum tempo espiando, ela tirou um livro de dentro da bolsa, sentou no colo da estátua e começou a recitar alguns poemas dele… do Drummond. Então as pessoas se aproximaram e ela foi aplaudida. Resumindo, a Manoela era portuguesa, artista plástica e performer. Ela explicou que fazia essa performance em vários países. Que ela começou em Portugal, recitando Camões nas praças, depois foi para a França onde lia dentro dos banheiros públicos Jean Genet… enfim. Eu achei aquilo tão fantástico, a maneira como ela se relacionava com o mundo aparentemente tão sozinha e ao mesmo tempo cercada de tanta gente, tomada por um objetivo artístico tão profundo, que ela me fez sentir sozinho. E eu me apaixonei completamente por ela. Nós sentamos pra tomar um café, contei que era escritor mas nunca tinha publicado um livro. Perdoem o meu radicalismo, mas escritor pra mim não é só quem escreve, é quem publica. Eu sempre fui muito tímido e recusei ser o orador da minha turma no 3° ano porque não tive coragem de falar em público. Eu nunca gostei de ser o centro das atenções, embora hoje eu entenda que os tímidos são as pessoas mais egocêntricas que existem. Voltando a Manoela… ela era portuguesa e tinha um bigodinho… brincadeira. A Manoela tinha olhos tão penetrantes, que ao final do dia eu já havia contado toda a minha pra ela. E eu me senti um pouco naquele filme “Antes do amanhecer”, porque a Manoela estava com a passagem comprada para o dia seguinte e nós tinhamos pouco mais de 24 horas para nos curtimos. Como escritor vocês podem imaginar que eu mal tinha o dinheiro no bolso pra pagar o café dela, então era fora de cogitação comprar uma passagem para Portugal e ser feliz para o resto da vida. Nós bebemos, nós rimos, nós transamos, nós comemos, nos rimos, nos transamos de novo, nós dormirmos e transamos de novo…. ela recitava Camões, gemia, falava trechos do Saramago, gemia e gozávamos. Conhecê-la não foi apenas um caso de amor, foi uma experiência modificadora. Dizem que na performance, quanto mais explosiva é a aparição, mais explosivo é o desaparecimento. E estes estilhaços são estilhaços de memória, tornam-se eventos marcantes e por vezes inesquecíveis na mente de quem as presenciou. Depois da Manoela, eu me senti preenchido, como se tivesse quebrado uma casca e a partir de então me considero capaz de fazer qualquer coisa. Só depois da Manoela eu teria coragem de subir num palco. Antes de mais nada, eu quero dizer publicamente que eu me amo. Eu me conheci e foi amor à primeira vista. Eu morro de tesão em mim mesmo. Sabe, é muito bom subir no palco e declarar amor a si próprio. Pouquíssimas pessoas já fizeram isso e vão fazer. Enchem a boca pra dizer que amam o seu parceiro mas… enfim… tem um monte de gente assim na platéia. Eu gostaria de agradecer a Manoela por esse bem, por essa descoberta que ela me causou… e dizer que mesmo sem nunca ter conhecido Portugal, talvez por falarmos a mesma língua, é um país que eu morro de saudades. Eu trouxe um trecho de Clarisse Lispector para ler pra vocês, esta seria a minha primeira performance. Mas eu acho que já foi suficiente…
FIM

Lingua Lambe (versão 2)

Cj/33anos

June_RJ

( conversa por msn)

Cj/33 diz:
Oi June, blza?

June_RJ diz:
blza. Quem é vc?

Cj/33 diz:
Seu.

June_RJ diz:
Meu o que?

Cj/33 diz:
Só seu.

June_RJ diz:
Meu carma, meu lixo, meu entulho?rsrs

Cj/33 diz:
Seu gajo, seu macho, seu tudo…

June_ RJ diz:
Cafoooooonaaaaaa

Cj/33 diz:
Romântico.

June_RJ diz:
Tá bom. Tc de onde?

Cj/33 diz:
Portugal e vc?

June_RJ diz:
Longe…

Cj/33 diz:
Onde?

June_ RJ diz:
Rio de Janeiro.

Cj/33 diz:
Carioca… Garota de Ipanema?

June_RJ diz:
Garota de Del Castilho.

Cj/33 diz:
Onde?

June_RJ diz:
Longe…
Quantos anos você tem?

Cj/33 diz:
33. e vc?

June_RJ diz:
29. já tclamos antes?

Cj/33 diz:
num lembro. Como vc me achou?

June_RJ diz:
Fui achada…

Cj/33 diz:
Como vc é?

June_RJ diz:
branca, 1.67m, 54k, cabelo curto louro, olhar distante, contemplativo, levemente sexual. Alérgica a camarão e torcedora do botafogo. E vc?

Cj/33 diz:
Sarado, 1.82m, moreno claro, olhos castanhos, ardidos, vermelhos, querentes. Boca grande, coração quente…

June_RJ diz:
Pena que Portugal é longe…

Cj/33 diz:
Tá sozinha aí? Liga a cam.

June_RJ diz:
Não posso. Estou trabalhando. Escritório. E vc?

Cj/33 diz:
Sozinho… sem cueca…cheio de vontade…

June_RJ diz:
Vontade de que, menino?

Cj/33 diz:
Adivinha…

June_RJ diz:
Comer feijoada…?

Cj/33 diz:
Acertou na mosca!

June_RJ diz:
Haushauhsuasuasuahuah

Cj/33 diz:
Ou Se vc sugerir algo melhor…eu como…

June_RJ diz:
Hum… algo de chupar ou de morder…?

Cj/33 diz:
Algo que Dê p passar a língua…

June_RJ diz:
Vc curte uma linguada? Hahahhaa

Cj/33 diz:
Curto mais linguar, na verdade! Hehhehe

June_RJ diz:
Onde?

Cj/33 diz:
Vc está fugindo do assunto…

June_RJ diz:
Nem. Estou indo direto a ele.

Cj/33 diz:
Atá.

June_RJ diz:
Onde a lingua lambe?

Cj/33 diz:
A minha ou a sua?

June_RJ diz:
A sua lingua, no caso.

Cj/33 diz:
Hum… depende.

June_RJ diz:
Da lingua??????????

Cj/33 diz:
Depende o que se está lambendo… E o que se pode lamber…

June_RJ diz:
Deixa a língua seguir o fluxo que ela estiver afim…

Cj/33 diz:
Sempre. Nunca forço minha língua a nada que ela não queira fazer.

June_RJ diz:
Estamos falando a mesma lingua?

Cj/33 diz:
A mesma. Em tom diferente. Mas a língua é a mesma.

June_RJ diz:
E Como é o tom da língua de um portugês?

June_RJ PEDE ATENÇÂO

Cj/33 diz:
Calma.. To pensando… :P

June_RJ diz:
como ela faz?

cj/33 diz:
Quem?

June_RJ diz:
A língua.

Cj/33 diz:
Vocês brasileiras são bem diretas…

June_RJ diz:
Vocês portugueses é que são devagar…Diz logo…. Como a língua lambe?

Cj/33 diz:
Quer saber…?

June_Rj diz:
Agora…

Cj/33 diz:
Devagarinho… mas sem ser lenta. Com força… mas sem machucar… Sinuosa, sem perder a retidão. Entrando e saindo, sem muita insistência… em pontadas, em carícias, às vezes larga, às vezes estreita.

June_RJ diz:
E o qual é o trajeto da língua…?

Cj/33 diz:
A Língua lambe da nuca até a covinha da cauda. Desliza molhada, num rastro lambido, queixoso de mordidinhas levianas_ a língua lambe despretensiosamente as dobradiças secretas de suas coxas, do joelho ao calcanhar. A língua segue lambendo entre os dedos, trêmulos de desejo, enciumados de lambidas, exigindo os dentes, carentes, ensopados de saliva. A língua lambe a gengiva, coçando o céu da boca, a língua é louca. A língua lambe o redondilho de seus seios, escorrendo ao mamilo, se escondendo em seu umbigo. A língua lambe seu sexo. Invadindo sem receio. Língua sem freio. Língua invertebrada. Língua já cansada. Língua que não pára. Língua que só quer lamber.Língua que se afoga em seus pelos, língua convulsa, lingua que impulsa sua mucosa nelvrálgica.

June_RJ diz:
Estou imaginando vc lambendo…

Cj/33 diz:
Descreve.

June_RJ diz:
Sua boca inchada cavando meu sexo. Minhas mãos emboladas em seus cabelos, te sufocando entre minhas pernas. Minhas pernas. Agressivas, em espasmos, cravadas em suas costas largas. Meus pés roçando sua bunda carnuda, nua, contorcida em desejo. O desejo me deixa tonta e sem saber ao certo: se quero que vc continue ou pare…

Cj/33 diz:
Deixa eu continuar…

June_RJ diz:
Eu deixo.

Cj/33 diz:
e como vc quer que eu continue…?

June_RJ diz:
entre minhas coxas. Seus braços sustentando minhas pernas, numa alavanca despudorada, pronta pra me partir em duas. Metade a ser devorada agora, metade a se aproveitar mais tarde.

Cj/33 diz:
Posso morder…?

June_RJ diz:
Vc se impõe. Não tenho escolha. Estou tomada. Uma vontade insuportável de ceder, de colocar tudo dentro de mim. Como se eu sozinha, fosse capaz de abrigar o mundo em meu sexo. Enfiar vc por inteiro em meu avesso. Eu deixo. Pois já não é questão de deixar.

Cj/33
Posso tirar pedaço? Estraçalhar… Romper? Quero te comer com meus dentes, fazer digestão de vc. Quero te lambuzar, te regar com meu leite, e fazer de vc uma massa, um todo, uma coisa só. Consumida crua, ainda sangrando. Meu leite escorre em sua garganta.

June_RJ diz:
Vc me engole como…?

Cj/33 diz:
Mastigando pra não engasgar.

June_ RJ diz:
Minhas unhas sangram sua nuca.

Cj/33 diz:
Meus dentes dilaceram suas coxas.

June_Rj diz:
Estou com vc por completo dentro de mim…

Cj/33 diz:
Estou a vir..

June_Rj diz:

No divino impudor da mocidade,

Nesse êxtase pagão que vence a sorte,

Num frémito vibrante de ansiedade,

Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…

A nuvem que arrastou o vento norte…

- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:

Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…

São os dedos do sol quando te abraço,

Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos

Vão-te envolvendo em círculos dantescos

Felinamente, em voluptuosas danças…

cai a conexão.
fim.

texto incidental: “Volúpia” de Florbela Espanca, poetisa portuguesa.